{"id":10391,"date":"2026-06-09T12:36:11","date_gmt":"2026-06-09T15:36:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-09T12:38:44","modified_gmt":"2026-06-09T15:38:44","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/entrelacosepaetes\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O som era de<\/span> um batid\u00e3o grave de um funk que sa\u00eda de um r\u00e1dio de pilha em algum lugar do \u00f4nibus coletivo. %Gui%, um jovem de dezoito anos com ombros curvados e olhos que evitavam o confronto, segurava firme a al\u00e7a da mochila. O \u00f4nibus sacolejava pelo asfalto quente da cidade, que pulsava com uma energia ca\u00f3tica e vibrante.<br>\u2003\u2003\u2014 Olha l\u00e1 o &#8220;mudo&#8221;, t\u00e1 viajando de novo! \u2014 gritou um adolescente no fundo do \u00f4nibus, provocando risadas em um grupo de rapazes com bon\u00e9s de aba reta.<br>\u2003\u2003\u2014 Ei, %Gui%! T\u00e1 procurando o que no ch\u00e3o, perdeu uma nota de um real? \u2014 outro zombou, chutando levemente o calcanhar do jovem.<br>\u2003\u2003%Gui% sentiu o rosto arder. Ele apertou os l\u00e1bios, desejando ser invis\u00edvel. A timidez era sua armadura e, ao mesmo tempo, sua pris\u00e3o. Pela janela, ele via a cidade passar: homens jovens em motos, equilibrando capacetes no bra\u00e7o enquanto costuravam o tr\u00e2nsito; crian\u00e7as correndo descal\u00e7as atr\u00e1s de uma bola de capot\u00e3o em terrenos baldios; mercadores gritando ofertas de frutas e eletr\u00f4nicos paraguaios nas esquinas. Era um mundo de cores neon, asfalto remendado e o cheiro de \u00f3leo diesel.<br>\u2003\u2003Ao descer no ponto pr\u00f3ximo \u00e0 sua casa, %Gui% caminhou apressado. A cidade pequena tinha esse ar de &#8220;todo mundo sabe de tudo&#8221;, e ele sentia cada olhar como um julgamento. Ao entrar no port\u00e3o de ferro que rangia, o sil\u00eancio da resid\u00eancia o acolheu como um abra\u00e7o triste.<br>\u2003\u2003\u2014 %Gui%? \u00c9 voc\u00ea, filho? \u2014 A voz de Mara veio da cozinha.<br>\u2003\u2003Mara era uma mulher de fibra, mas cujos olhos carregavam uma sombra recente. A morte do marido, ocorrida h\u00e1 poucos meses, deixara um vazio que nenhuma rotina conseguia preencher. %Gui% apenas murmurou um &#8220;oi&#8221; e foi para o quarto, jogando a mochila na cama. Ele olhou ao redor, sentindo que, de alguma forma, n\u00e3o pertencia \u00e0quele barulho todo l\u00e1 fora.<br>\u2003\u2003Enquanto isso, a poucas quadras dali, o clima na casa de Tom\u00e1s, tio de %Gui%, estava longe de ser pac\u00edfico. Tom\u00e1s estava sentado \u00e0 mesa da cozinha, tentando ler o jornal, enquanto sua esposa, Merli, andava de um lado para o outro, gesticulando freneticamente.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o aguento mais, Tom\u00e1s! A Chalia est\u00e1 imposs\u00edvel! Outra briga, por causa de uma bobagem, uma roupa que ela queria usar! \u2014 Merli exclamou, batendo com a m\u00e3o no balc\u00e3o. \u2014 Ela me respondeu com uma petul\u00e2ncia que eu nunca vi!<br>\u2003\u2003\u2014 Merli, calma&#8230; \u00e9 a idade. Os jovens de hoje s\u00e3o diferentes \u2014 tentou ponderar Tom\u00e1s, sem muita convic\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Diferentes? Eles s\u00e3o afrontosos! Ela acha que o mundo gira em torno do umbigo dela. E voc\u00ea n\u00e3o diz nada! Fica a\u00ed, escondido atr\u00e1s desse papel!<br>\u2003\u2003No quarto ao lado, o som da porta batendo indicava que Chalia n\u00e3o tinha a menor inten\u00e7\u00e3o de pedir desculpas. Tom\u00e1s suspirou, sentindo o peso da fam\u00edlia e das expectativas. Destinos, embora separados por s\u00e9culos e realidades, come\u00e7avam a se entrela\u00e7ar por fios invis\u00edveis de autoridade, rebeldia e a eterna busca por um lugar ao sol.<\/p>\r\n<p align=\"center\">***<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A noite avan\u00e7ou sobre a cidade paulista, abafando o som das motos e do funk, dando lugar ao coaxar dos sapos e ao zunido dos ventiladores. Mas, como sempre, o tempo n\u00e3o para.<br>\u2003\u2003O dia come\u00e7ou a amanhecer com um c\u00e9u tingido de rosa e laranja. Na casa de %Gui%, o cheiro de caf\u00e9 fresco come\u00e7ou a invadir os c\u00f4modos. Mara j\u00e1 estava de p\u00e9, as m\u00e3os habilidosas sovando a massa do p\u00e3o que logo estaria no forno. Era o seu ritual de sobreviv\u00eancia.<br>\u2003\u2003%Gui% despertou antes do despertador. Ele se sentou na beira da cama e olhou para a c\u00f4moda. L\u00e1, em uma moldura de madeira simples, estava o retrato do pai. Um homem de sorriso contido e m\u00e3os grossas do trabalho pesado. %Gui% sentiu um n\u00f3 na garganta. A falta do pai era uma presen\u00e7a f\u00edsica, um peso no peito que parecia aumentar a cada manh\u00e3.<br>\u2003\u2003Ele se levantou e caminhou at\u00e9 a cozinha, onde a luz do sol come\u00e7ava a entrar pela janela de vidro martelado.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, filho. O caf\u00e9 est\u00e1 quase pronto \u2014 disse Mara, sem parar o movimento das m\u00e3os, mas lhe lan\u00e7ando um olhar doce.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, m\u00e3e \u2014 respondeu %Gui%, sentando-se \u00e0 mesa.<br>\u2003\u2003Ele observou o vapor subindo da x\u00edcara que Mara colocou \u00e0 sua frente. Ali, naquele pequeno gesto cotidiano, havia uma continuidade silenciosa.<\/p>\r\n<p align=\"center\">*****<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O sol de s\u00e1bado mal havia come\u00e7ado a escalar o horizonte quando %Gui% despertou. Havia uma eletricidade suave sob sua pele, um entusiasmo injustificado que o fazia sentir que aquele dia carregava uma promessa. Ele desceu as escadas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha, onde o aroma reconfortante de caf\u00e9 coado e p\u00e3o na chapa j\u00e1 dominava o ambiente.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, meu filho! \u2014 Mara saudou, com um sorriso que parecia iluminar a cozinha tanto quanto a luz matinal. \u2014 Acordou animado hoje, foi?<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, m\u00e3e. N\u00e3o sei, parece que o s\u00e1bado tem uma energia diferente, n\u00e9? \u2014 %Gui% respondeu, puxando a cadeira e servindo-se de uma generosa fatia de p\u00e3o.<br>\u2003\u2003A conversa foi interrompida pelo som da porta da frente. Era Tom\u00e1s, o irm\u00e3o mais velho de Mara, que trazia consigo o frescor da rua e a agita\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 tinha come\u00e7ado o dia h\u00e1 horas.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, fam\u00edlia! \u2014 Tom\u00e1s sentou-se \u00e0 mesa, aceitando a x\u00edcara de caf\u00e9 que Mara lhe estendeu. \u2014 Merli mandou beijos. Ela e a Chalia est\u00e3o l\u00e1 em casa organizando as coisas.<br>\u2003\u2003Enquanto eles conversavam sobre a rotina da fam\u00edlia, o sil\u00eancio da manh\u00e3 era sutilmente quebrado por um som que vinha de longe, mas ganhava for\u00e7a conforme o vento soprava: um funk vibrante. As batidas eram pesadas, r\u00edtmicas, e as letras, embora fortes e cruas, traziam a melodia da periferia que pulsava ali perto. Era o contraste perfeito para a calma daquela mesa de caf\u00e9.<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O tempo parecia correr de forma el\u00e1stica. A manh\u00e3 avan\u00e7ou e, num piscar de olhos, o sol j\u00e1 come\u00e7ava a ensaiar sua descida, pintando o c\u00e9u com tons de laranja e violeta. As ruas estavam vivas. Crian\u00e7as brincavam, vizinhos trocavam fofocas nos port\u00f5es e as pra\u00e7as exibiam orgulhosas seus matagais verdes, flores coloridas e \u00e1rvores frondosas que resistiam ao asfalto.<br>\u2003\u2003%Gui%, em um momento de descanso no sof\u00e1, pegou o celular. Ao abrir o Instagram, o primeiro post no topo do feed era de Henrique Tury. O ex-youtuber de trolagens, que agora exibia uma express\u00e3o mais serena e um visual s\u00f3brio, havia postado um novo v\u00eddeo.<br>\u2003\u2003\u2014 &#8220;A Palavra que Edifica: O que a B\u00edblia diz sobre o recome\u00e7o&#8221; \u2014 leu %Gui% em voz baixa.<br>\u2003\u2003Desde que fora batizado, Tury transformara seu canal. Onde antes havia pegadinhas infantis, agora havia mensagens de f\u00e9. %Gui% assistiu a alguns minutos, sentindo-se inspirado pela mudan\u00e7a genu\u00edna do rapaz. Ele curtiu o v\u00eddeo e, logo depois, sentiu vontade de conversar. Foi at\u00e9 o quarto de sua tia, Raquel.<br>\u2003\u2003Raquel era o porto seguro daquela casa. Uma freira devota, que exalava uma paz quase sobrenatural.<br>\u2003\u2003\u2014 Tia Raquel? \u2014 %Gui% chamou, encostando-se no batente da porta.<br>\u2003\u2003\u2014 Entre, meu querido. Estava justamente orando por n\u00f3s \u2014 disse ela, fechando o pequeno livro de ora\u00e7\u00f5es.<br>\u2003\u2003Os dois conversaram por um longo tempo sobre f\u00e9, sobre as mudan\u00e7as no mundo e sobre como a espiritualidade se manifestava de formas diferentes em cada pessoa. Raquel ouvia com paci\u00eancia, sempre oferecendo palavras que pareciam b\u00e1lsamo para as inquieta\u00e7\u00f5es de %Gui%.<br>\u2003\u2003Mais tarde, Mara chamou o filho.<br>\u2003\u2003\u2014 %Gui%, me acompanha at\u00e9 a lot\u00e9rica? Preciso quitar essas contas antes que o dia acabe.<br>\u2003\u2003%Gui% e Mara caminharam juntos. O ambiente da lot\u00e9rica era peculiar; havia aquele cheiro caracter\u00edstico de papel impresso, de tinta fresca e o burburinho de pessoas apostando na sorte. Enquanto Mara conferia os canhotos no balc\u00e3o, %Gui% observava o movimento. Na volta, enquanto caminhavam pela cal\u00e7ada estreita, um jovem passou por eles em dire\u00e7\u00e3o a uma oficina pr\u00f3xima. Era Tiago Gustavo. Moreno, com cerca de 16 anos, Tiago tinha uma beleza magn\u00e9tica e um jeito de andar que transbordava confian\u00e7a. Ele trabalhava ali perto e j\u00e1 era uma figura conhecida, mas, naquele momento, sob a luz dourada do fim de tarde, algo em %Gui% estremeceu. Um frio no est\u00f4mago, uma atra\u00e7\u00e3o s\u00fabita e intensa que o fez perder o fio da conversa com a m\u00e3e por alguns segundos. Tiago deu um aceno discreto, e %Gui% sentiu seu cora\u00e7\u00e3o acelerar.<br>\u2003\u2003Nesse exato momento, a imagem come\u00e7a a desfocar. Um v\u00e9u di\u00e1fano e acinzentado cobre a tela, e o som do funk moderno \u00e9 substitu\u00eddo pelo som de cortinas entrela\u00e7ado. A cortina do tempo come\u00e7ava a mudar&#8230;<\/p>\r\n<p align=\"center\">*******<\/p>\r\n\u2003\u2003%Delvanete% Rocha segurava um pequeno ter\u00e7o. A jovem estava rezando o ter\u00e7o em homenagem da m\u00e3e, que morreu cedo. Lizabete. Uma mulher cujo cora\u00e7\u00e3o estava devotado em servir e buscar o Criador. Delva era uma jovem cujo cora\u00e7\u00e3o estava em Deus. Seu livrinho de ora\u00e7\u00f5es catolicas estava sempre com ela. Ela era uma mulher de muita f\u00e9. Algumas trilhas ao lado, estava %Berseva%, a mulher de quarenta anos cuidava de sua filha mais velha, Simone. Sem que notassem, um v\u00e9u preenche o local, fazendo %Delvanete%, %Berseva% e %Gui% dormirem&#8230;","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*** ***** *******<\/p>\n","protected":false},"author":80,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2696],"class_list":["post-10391","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-entrelacosepaetes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/80"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10391"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}