{"id":10388,"date":"2026-06-01T18:33:46","date_gmt":"2026-06-01T21:33:46","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-06-01T18:33:46","modified_gmt":"2026-06-01T21:33:46","slug":"capitulo-8","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-8\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 8"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Na maior parte do tempo, eu me considerava um homem confiante. N\u00e3o do tipo que se imp\u00f5e em voz alta ou precisa se provar constantemente, mas algu\u00e9m que sabia se portar. Eu costumava lidar bem com qualquer ambiente, especialmente os formais.<br \/>\n\u2003\u2003Era por isso que eu n\u00e3o conseguia entender o que estava acontecendo comigo naquele momento.<br \/>\n\u2003\u2003Sozinho no corredor em frente ao quarto de %Anya%, encarei meu reflexo pela d\u00e9cima vez. A ilumina\u00e7\u00e3o amarelada n\u00e3o ajudava; parecia ressaltar cada detalhe que eu ainda n\u00e3o tinha decidido se aprovava ou n\u00e3o. Meus dedos, levemente tr\u00eamulos, passaram pelo cabelo j\u00e1 endurecido pelo gel quase seco, tentando domar fios que insistiam em sair do lugar.<br \/>\n\u2003\u2003Inclinei a cabe\u00e7a de um lado, depois do outro, avaliando como se estivesse prestes a entrar numa entrevista de emprego. Talvez um terno tivesse sido mais apropriado. Um terno sempre dava a sensa\u00e7\u00e3o de controle.<br \/>\n\u2003\u2003Mesmo com %Anya% repetindo que seria apenas um jantar em fam\u00edlia \u2013 informal, tranquilo, quase relaxado \u2013, aquela era, segundo minha namorada <em>falsa<\/em>, a \u00fanica noite da viagem que realmente importava. A \u00fanica em que eu precisava <em>parecer<\/em> alguma coisa al\u00e9m de um convidado conveniente.<br \/>\n\u2003\u2003Arregacei as mangas da camisa at\u00e9 os cotovelos e fui me encostar na parede em frente \u00e0 porta do quarto de %Anya%. Olhei o rel\u00f3gio no pulso de novo \u2013 a terceira vez \u2013 e soltei um suspiro curto, j\u00e1 sem paci\u00eancia. Eu estava ali havia pelo menos vinte minutos e a \u00fanica resposta que recebia era a mesma: \u2013 Estou quase pronta!<br \/>\n\u2003\u2003Quase pronta h\u00e1 vinte minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Eu sabia que, racionalmente, nada daquilo deveria me afetar tanto. N\u00e3o eram meus sogros. N\u00e3o era um relacionamento de verdade. Ainda assim, a ideia de me atrasar para aquele jantar me incomodava de um jeito que eu n\u00e3o conseguia ignorar.<br \/>\n\u2003\u2003Levantei a m\u00e3o para bater na porta de novo, j\u00e1 sem muita paci\u00eancia comigo mesmo por estar ali, hesitando. Mas, antes que meus dedos encostassem na madeira, a porta se abriu de repente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Desculpa, eu demorei, eu sei. \u2013 %Anya% surgiu no v\u00e3o, levemente ofegante, os bra\u00e7os erguidos enquanto tentava domar o pr\u00f3prio cabelo. \u2013 Meu cabelo resolve ter vontade pr\u00f3pria justamente quando eu mais preciso que se comporte.<br \/>\n\u2003\u2003Afastei-me da parede quase por reflexo, como se precisasse de espa\u00e7o para processar o que estava vendo. Por um segundo \u2013 breve, mas suficiente \u2013 eu duvidei da minha pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o, pois ela estava\u2026 absurda.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% vestia roupas tradicionais indianas e havia algo de hipn\u00f3tico na forma como tudo nela se movia. As joias eram discretas, mas imposs\u00edveis de ignorar: brilhavam nos pontos certos, chamando aten\u00e7\u00e3o sem jamais parecerem demais. Havia uma pe\u00e7a no centro da testa, delicada, quase et\u00e9rea, e o pequeno piercing no nariz s\u00f3 refor\u00e7ava aquela sensa\u00e7\u00e3o estranha de que ela n\u00e3o pertencia completamente \u00e0quele lugar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, meus pais insistem nisso. \u2013 Ela comentou, com um sorriso meio resignado, apontando de leve para a pr\u00f3pria roupa. Claramente interpretando meu sil\u00eancio como curiosidade cultural.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1\u2026 \u2013 Comecei, mas a frase morreu no meio do caminho. Decidi ser sincero. N\u00e3o porque eu queria, mas sei l\u00e1, eu precisava. \u2013 Voc\u00ea \u00e9, sem exagero, uma das mulheres mais bonitas que eu j\u00e1 vi. E olha que eu j\u00e1 vi algumas. \u2013 \u2013 fiz uma pausa breve, como se ponderasse a pr\u00f3pria afirma\u00e7\u00e3o. \u2013 Mas acho justo dizer que voc\u00ea acabou de estabelecer um padr\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, algo nela vacilou (quase impercept\u00edvel), o olhar se quebrou do meu r\u00e1pido demais, denunciando que ela tinha ficado t\u00edmida com minha observa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea deveria tomar cuidado com esse tipo de afirma\u00e7\u00e3o. \u2013 Disse, por fim, for\u00e7ando uma risadinha. Quando passou por mim, o bra\u00e7o dela encontrou o meu, se encaixando com naturalidade demais para algu\u00e9m que, segundos antes, parecia querer dist\u00e2ncia. E seguimos lado a lado at\u00e9 o elevador. \u2013 A maioria das pessoas que me diz esse tipo de coisa quer alguma coisa em troca.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o pedi nada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Exato. \u2013 Ela finalmente me olhou. \u2013 \u00c9 por isso que est\u00e1 me deixando nervosa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Fica tranquila. Quando eu quiser algo, voc\u00ea vai saber. \u2013 Ela revirou os olhos, me fazendo rir. \u2013 Vamos l\u00e1, \u00faltimas considera\u00e7\u00f5es?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nenhuma. S\u00f3 que minha m\u00e3e faz quest\u00e3o de que toda a fam\u00edlia se vista de forma tradicional no jantar, ent\u00e3o hoje voc\u00ea vai assistir a um espet\u00e1culo digno de Bollywood.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai dan\u00e7ar? \u2013 Provoquei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 se voc\u00ea pedir.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o sei explicar como uma frase t\u00e3o leve conseguiu mudar o ar entre n\u00f3s.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o, %Ananya% %Bhasin%, \u2013 Respondi, a voz saindo mais grave do que eu pretendia \u2013, hoje voc\u00ea vai dan\u00e7ar para mim.<br \/>\n\u2003\u2003Ela inclinou a cabe\u00e7a, tentando conter o sorriso, e esse pequeno gesto foi o suficiente para acelerar minha respira\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Descemos em sil\u00eancio, lado a lado, at\u00e9 o hall principal. Conforme nos aproxim\u00e1vamos do sal\u00e3o de jantar, meu est\u00f4mago se apertava. %Anya% parou a poucos passos da entrada, ajeitando discretamente uma pulseira. Aproveitei a pausa para observ\u00e1-la de novo, como se isso fosse me preparar para o que viria.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 para garantir, lembra dos nomes? \u2013 Cochichou, virando o rosto na minha dire\u00e7\u00e3o. Assenti, tranquilo pois eu sempre tive boa mem\u00f3ria. \u2013 Muito bem, voc\u00ea quase parece um genro de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o fala assim ou eu come\u00e7o a acreditar. \u2013 Tentei manter o tom leve, mas minhas palavras sa\u00edram mais sinceras do que eu gostaria.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% nos guiou at\u00e9 uma sacada grandiosa, que parecia sa\u00edda de uma cena de filme dos anos 50. Mesas de madeira escura e cadeiras com estofados elegantes estavam dispostas de maneira impec\u00e1vel, criando um ambiente de sofistica\u00e7\u00e3o sutil. A brisa que vinha do mar e as ondas quebrando ao fundo se misturavam ao som das conversas animadas.<br \/>\n\u2003\u2003Eu dei uma olhada atenta no sal\u00e3o, engolindo em seco. N\u00e3o era tanta gente assim, talvez trinta ou quarenta pessoas, mas eram indiv\u00edduos com olhares afiados, prontos para avaliar e julgar o novo namorado de %Ananya%. Eu n\u00e3o fazia ideia do que eles poderiam estar pensando sobre n\u00f3s, mas a sensa\u00e7\u00e3o de ser observado era inescap\u00e1vel. E, entre essas figuras de autoridade, um par de olhos bem familiares me puxou para a realidade de uma forma nada agrad\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Merda. \u2013 O sussurro escapou antes que eu conseguisse segurar.<br \/>\n\u2003\u2003Davi Martinez estava ali. De p\u00e9. O olhar preso em mim. Havia surpresa e tamb\u00e9m como se ele estivesse reorganizando, em tempo real, tudo o que achava que sabia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9. Merda. \u2013 %Anya% repetiu ao meu lado, num tom tamb\u00e9m receoso.<br \/>\n\u2003\u2003Antes que eu tivesse tempo de reagir, o bra\u00e7o dela deslizou pelo meu e nossos dedos se entrela\u00e7aram com naturalidade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Relaxa. \u2013 Sussurrou, sem sequer virar o rosto, os l\u00e1bios quase im\u00f3veis (uma habilidade impressionante). \u2013 Somos s\u00f3 dois amigos andando de m\u00e3os dadas por raz\u00f5es completamente question\u00e1veis.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu chefe est\u00e1 aqui, %Anya%. Puta merda. \u2013 Resmunguei de novo.<br \/>\n\u2003\u2003As pessoas ao redor come\u00e7aram a notar. Olhares r\u00e1pidos, sorrisos educados, aquela curiosidade mal escondida. Eu reagi no autom\u00e1tico, acenando aqui e ali, desempenhando o papel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu avisei que ele estaria. \u2013 Ela respondeu entredentes, sorrindo para algu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sei, mas\u2026 \u2013 Passei a m\u00e3o pelo rosto, tentando me recompor. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o entende. Para ele, eu sou o cara dos relat\u00f3rios. N\u00e3o o cara que anda de m\u00e3os dadas com a sobrinha favorita dele numa ilha particular.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o hoje voc\u00ea vai ser os dois. \u2013 Ela arqueou uma sobrancelha. \u2013 Expans\u00e3o de portf\u00f3lio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sei, mas\u2026 porra, %Anya%. \u2013 Soltei, frustrado, ainda tentando assimilar tudo. Meu avaliador, meu potencial carrasco, o homem que decidia meu b\u00f4nus e, basicamente, meu futuro\u2026 ali, assistindo \u00e0 encena\u00e7\u00e3o mais delicada da minha vida. \u2013 Acho que at\u00e9 hoje ele nunca acreditou que eu estava namorando voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea s\u00f3 precisa ser meu namorado lindo, charmoso e absurdamente competente por alguns dias. Depois pode voltar pros seus relat\u00f3rios. \u2013 Ela finalmente virou o rosto na minha dire\u00e7\u00e3o. \u2013 Vai conseguir sustentar a hist\u00f3ria?<br \/>\n\u2003\u2003Soltei o ar devagar, negando com a cabe\u00e7a enquanto me for\u00e7ava a relaxar. Inclinei um pouco o corpo na dire\u00e7\u00e3o dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se voc\u00ea dan\u00e7ar para mim hoje, eu sustento qualquer coisa. At\u00e9 fingir que n\u00e3o estou morrendo de medo do seu tio.<br \/>\n\u2003\u2003Ela riu, empurrando meu ombro e, por algum motivo, isso bastou. O som leve do riso dela me arrancou outro em resposta.<br \/>\n\u2003\u2003Quando nos aproximamos da mesa principal, foi a m\u00e3e dela quem nos notou primeiro. O pai estava ao lado. Adit %Bhasin%. Impec\u00e1vel, quase como um retrato de outra \u00e9poca que decidiu caminhar entre n\u00f3s. As roupas tradicionais ca\u00edam com precis\u00e3o, a barba perfeitamente aparada. Na m\u00e3o direita, uma bengala que ele n\u00e3o parecia realmente precisar. Segurava-a mais como s\u00edmbolo do que como apoio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Demorei? \u2013 %Anya% cortou o sil\u00eancio antes que ele se tornasse inc\u00f4modo, soltando meu bra\u00e7o e se inclinando levemente na dire\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, j\u00e1 com um sorriso carregado de provoca\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como sempre. \u2013 Logo em seguida, voltou-se para mim e estendeu o bra\u00e7o, natural demais para que eu n\u00e3o hesitasse por um segundo. \u2013 Venha, querido. Voc\u00ea deve estar com fome. %Anya% tem uma rela\u00e7\u00e3o\u2026 complicada com hor\u00e1rios. E com qualquer coisa que envolva compromisso.<br \/>\n\u2003\u2003Ali estava. A origem.<br \/>\n\u2003\u2003O mesmo tom, a mesma provoca\u00e7\u00e3o elegante. Aparentemente, %Anya% tinha aprendido com a melhor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Posso pedir para servirem o jantar? Estamos famintos. \u2013 Adit se antecipou, apoiando a m\u00e3o no est\u00f4mago com uma teatralidade discreta, quase calculada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Esperaram por mim? Que considera\u00e7\u00e3o. \u2013 comentou %Anya%, aproximando-se do pai e estendendo a m\u00e3o para ele num gesto quase infantil.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sua m\u00e3e insistiu. Voc\u00ea sabe que n\u00e3o atraso refei\u00e7\u00f5es por ningu\u00e9m. \u2013 Ele afirmou, tocando a m\u00e3o de %Anya% com um beijo paternal.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Nem pela sua filha favorita? \u2013 Ela provocou, inclinando a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Especialmente n\u00e3o por ela.<br \/>\n\u2003\u2003Anjali ignorou a troca e fez um sinal discreto. Em poucos segundos, gar\u00e7ons cruzavam o sal\u00e3o com bandejas fumegantes e ta\u00e7as tilintando. O aroma das especiarias chegou como uma onda quente, envolvente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pap\u00e1, n\u00e3o se deve apressar uma dama, voc\u00ea sabe.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Uma dama, talvez. Voc\u00ea, n\u00e3o. \u2013 A resposta veio afiada, arrancando dela uma risada genu\u00edna.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Parem voc\u00eas dois. O que o %Anthony% vai pensar vendo voc\u00eas agirem como crian\u00e7as? \u2013 Resmungou Anjali, embora o canto dos l\u00e1bios denunciasse o humor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o se preocupe comigo. %Anya% sempre fala sobre voc\u00eas e, principalmente, da rela\u00e7\u00e3o harmoniosa entre voc\u00eas, senhor %Bhasin%. \u2013 Improvisei, com um sorriso diplom\u00e1tico.<br \/>\n\u2003\u2003Era uma mentira descarada. %Anya% nunca havia mencionado a rela\u00e7\u00e3o com os pais, mas eu e Nina convers\u00e1vamos sobre isso. Sabia que ela era mais pr\u00f3xima do pai e usei isso ao meu favor. Apostei que um elogio sutil \u00e0 fam\u00edlia cairia bem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que bom que voc\u00ea sabe sobre n\u00f3s. N\u00e3o podemos dizer o mesmo. \u2013 O homem respondeu sem sorrir, com a voz cortante. Engoli em seco.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Adit. \u2013 Anjali o repreendeu com um olhar firme.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Papa est\u00e1 indignado por n\u00e3o saber sobre n\u00f3s antes. Como se eu contasse todos os meus relacionamentos para ele. \u2013 %Anya% interferiu, tentando suavizar o momento. Assenti com um meio sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o todos, mas os s\u00e9rios sim. \u2013 Ele rebateu, ainda sisudo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pai, quando se tornou s\u00e9rio, eu contei. \u2013 Afirmou, tranquila, mas firme.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Adit, que diferen\u00e7a faz? \u2013 Anjali interveio outra vez, tentando cortar a tens\u00e3o, enquanto acariciava o ombro do marido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O senhor est\u00e1 certo. Sinto muito por n\u00e3o ter ido at\u00e9 voc\u00ea antes. Nossas \u00faltimas semanas foram uma loucura, especialmente no trabalho. \u2013 Me justifiquei, adotando o tom mais sincero que consegui reunir. %Anya% assentiu, me apoiando com o olhar. E, honestamente, n\u00e3o era totalmente mentira.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Rapaz, \u00e9 s\u00f3 que&#8230; \u2013 Adit interrompeu a fala de repente. Seu rosto endureceu ao olhar al\u00e9m de mim, para algo \u2013 ou algu\u00e9m \u2013 atr\u00e1s das minhas costas. \u2013 Oh.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Oh, n\u00e3o. \u2013 Anjali murmurou, abaixando a cabe\u00e7a com uma express\u00e3o tensa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Adit, meu velho amigo. \u2013 A voz inconfund\u00edvel de Davi Martinez me fez congelar.<br \/>\n\u2003\u2003Minha pele arrepiou. %Anya% e eu trocamos um olhar r\u00e1pido. Ela tamb\u00e9m ficou tensa, o que me confirmou que n\u00e3o era paranoia: Martinez n\u00e3o era bem-visto naquela casa. E agora, ele estava ali. Perto demais.<br \/>\n\u2003\u2003E agora?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Martinez, voc\u00ea veio. \u2013 O tom de Adit era comedido, quase neutro, mas, por educa\u00e7\u00e3o, ele se levantou para cumpriment\u00e1-lo com um r\u00e1pido aperto de m\u00e3o. Eu, por outro lado, desejei intensamente ser capaz de evaporar da mesa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o perderia esse evento por nada. \u2013 Martinez declarou com entusiasmo falso, pousando uma m\u00e3o pesada sobre o ombro de %Anya%. Ela sorriu, mas o gesto era for\u00e7ado, r\u00edgido. \u2013 %Anthony%. \u2013 Ele se voltou para mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sr. Martinez. \u2013 Murmurei, mantendo o cumprimento breve e mec\u00e2nico, voltando minha aten\u00e7\u00e3o ao prato como se pudesse desaparecer dentro dele.<br \/>\n\u2003\u2003Senti a m\u00e3o de %Anya% pousar discretamente sobre minha coxa por baixo da mesa, apertando-a com leveza. Um gesto sutil, mas necess\u00e1rio. Respirei fundo, tentando relaxar os ombros e devolvi um sorriso lateral para ela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que felicidade ver todos voc\u00eas reunidos. \u2013 Martinez se virou para os anfitri\u00f5es, embora tenha ignorado solenemente Anjali. Algo que n\u00e3o passou despercebido por mim, nem por ela. \u2013 Imagine s\u00f3, Adit, quando descobri que meu funcion\u00e1rio estava namorando sua preciosa %Ananya%.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foi uma surpresa, realmente. \u2013 Adit respondeu, lan\u00e7ando-me um olhar de relance que n\u00e3o consegui decifrar completamente. \u2013 %Anya% comentou que %Anthony% trabalha com voc\u00ea. Espero que passar um final de semana com seu chefe n\u00e3o seja um problema, %Anthony%. \u2013 Tentou brincar, mas o tom era d\u00fabio.<br \/>\n\u2003\u2003Era, sim, um grande problema. Mas apenas neguei com a cabe\u00e7a, mantendo o sorriso amarelo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, voc\u00ea poderia se juntar a mim por alguns minutos? Temos alguns assuntos a tratar. \u2013 A entona\u00e7\u00e3o era educada, mas os olhos de Martinez estavam frios e calculistas.<br \/>\n\u2003\u2003Antes que eu pudesse responder, Anjali interveio: \u2013 Sem assuntos de trabalho hoje, Martinez.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Claro, minha querida. Apenas farei algumas considera\u00e7\u00f5es ao meu funcion\u00e1rio. \u2013 Ele insistiu, ainda sorrindo, mas havia algo claramente for\u00e7ado em seu semblante.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Titio, estamos na ilha Sundar. Aqui, ele n\u00e3o \u00e9 seu funcion\u00e1rio. \u2013 %Anya% rebateu, com um sorriso t\u00e3o plastificado quanto o dele, controlando o tom de voz com habilidade.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Aqui ele \u00e9 meu genro. Ent\u00e3o, se nos der licen\u00e7a. \u2013 Anjali completou com naturalidade, cortando o assunto com uma precis\u00e3o cir\u00fargica.<br \/>\n\u2003\u2003Arqueei as sobrancelhas, surpreso com a firmeza elegante de sua postura, enquanto Adit apenas balan\u00e7ava a cabe\u00e7a em sil\u00eancio. Anjali voltou a comer, mastigando com calma, como se n\u00e3o tivesse acabado de esmagar o orgulho de Davi Martinez com tr\u00eas frases bem colocadas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Certo. Pe\u00e7o licen\u00e7a e um bom jantar para todos n\u00f3s. \u2013 Ele respondeu, mantendo a pose.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Anjali. \u2013 Adit murmurou em tom reprovador assim que o homem se afastou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Perd\u00e3o, querido. Eu simplesmente n\u00e3o consigo! \u2013 Ela suspirou com os olhos arregalados, indignada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele \u00e9 terrivelmente inconveniente, papa. \u2013 %Anya% disse, com uma careta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele sequer a cumprimentou, senhora. \u2013 Acrescentei, incapaz de esconder a indigna\u00e7\u00e3o diante do descaso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Viu? \u2013 Anjali apontou para mim como se eu fosse a prova viva num tribunal. \u2013 N\u00e3o \u00e9 coisa da minha cabe\u00e7a. Esse homem me odeia.<br \/>\n\u2003\u2003Adit apenas suspirou, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a com um cansa\u00e7o silencioso, enquanto %Anya% tentava conter o riso ao meu lado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o se ache t\u00e3o especial, m\u00e3e. Ele odeia todas as mulheres do mundo. \u2013 Ela fez uma pausa, ent\u00e3o apontou o polegar na minha dire\u00e7\u00e3o. \u2013 E alguns homens tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo me arrancou uma risada, mais pela forma como ela disse do que pela constata\u00e7\u00e3o em si. Martinez claramente conseguia o raro feito de unir as mulheres %Bhasin% contra ele.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu sei disso. \u2013 Continuou Adit, ainda contrariado. \u2013, mas precisamos ser superiores. Davi \u00e9 um est\u00fapido, sim, mas \u00e9 um gigante no mundo dos neg\u00f3cios.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele \u00e9 sujo! \u2013 %Anya% rebateu, sem hesitar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Justamente por isso temos que tomar cuidado, <em>beta<\/em>. \u2013 Adit interveio com calma firme. \u2013 \u00c9 melhor ter homens como Davi como aliados do que como inimigos.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o havia como discordar. Eu mesmo s\u00f3 estava ali por pensar exatamente assim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea? \u2013 Anjali voltou-se para mim, ainda com um resqu\u00edcio de irrita\u00e7\u00e3o. \u2013 Como consegue trabalhar com esse sanguessuga?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o consigo. \u2013 Respondi, sincero, sem esperar o riso que veio em seguida de Anjali e %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s a sa\u00edda de Martinez, o clima \u00e0 mesa mudou drasticamente. O peso que pairava no ar se dissipou aos poucos, dando lugar a conversas leves e provoca\u00e7\u00f5es amistosas, especialmente depois que comecei a provar os pratos servidos. A maioria era de culin\u00e1ria indiana, intensamente apimentada. E, bem, minha toler\u00e2ncia a pimenta sempre foi&#8230; question\u00e1vel. A cada mordida em um peda\u00e7o de dosa, minha express\u00e3o denunciava o desespero que eu tentava disfar\u00e7ar. Era em v\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003As rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o passaram despercebidas. As risadas foram surgindo, primeiro de Anjali, depois de %Anya%, at\u00e9 mesmo de Adit, que deixou escapar um leve sorriso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Esse se chama Pakora, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o apimentado. \u2013 %Ananya% explicou, pegando um peda\u00e7o do empanado com as pr\u00f3prias m\u00e3os e o levando \u00e0 altura da minha boca. \u2013 Esse \u00e9 de espinafre, prova. \u2013 Senti a ponta dos dedos dela ro\u00e7arem meus l\u00e1bios no gesto e, involuntariamente, contabilizei aquele como o segundo toque direto entre n\u00f3s desde a noite anterior.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Definitivamente sem masalas para voc\u00ea, genro. \u2013 Anjali comentou entre risos, cobrindo a boca com um len\u00e7o, o que fez Adit rir novamente, dessa vez, de forma mais solta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pakora? \u2013 Repeti o nome enquanto mastigava a massa crocante. \u2013 E qual o problema com masalas? Eu quero mais disso. \u2013 Apontei para o prato de %Anya%, que riu, cortou mais um peda\u00e7o e me ofereceu da mesma forma, mantendo o toque leve e espont\u00e2neo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Garam masala \u00e9 uma mistura de temperos. Pode ser um pouco forte demais para paladares sens\u00edveis como o seu. \u2013 Adit tentou manter o tom s\u00e9rio, mas a risada escapou antes mesmo que ele terminasse a frase.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Senhor, o m\u00e1ximo de tempero que meu paladar aguenta \u00e9 sal. \u2013 Brinquei, arrancando mais algumas risadas.<br \/>\n\u2003\u2003A mesa dos %Bhasin% era mais acolhedora do que eu esperava. A leveza, a forma como todos se tratavam com afeto, mesmo nas provoca\u00e7\u00f5es, n\u00e3o exigia esfor\u00e7o da minha parte. Eu n\u00e3o precisava fingir, estava genuinamente me divertindo. At\u00e9 Adit, mesmo com sua postura protetora, demonstrava gentileza e uma educa\u00e7\u00e3o firme, por\u00e9m, calorosa.<br \/>\n\u2003\u2003Eu era, sem d\u00favida, o alvo da piada, por\u00e9m nunca de um jeito cruel. Foi inevit\u00e1vel comparar com o ambiente ao qual eu estava acostumado. L\u00e1, o riso quase sempre vinha \u00e0s minhas custas. Ali, n\u00e3o. Ali, riam comigo.<br \/>\n\u2003\u2003A diferen\u00e7a era gritante.<br \/>\n\u2003\u2003E, pela primeira vez em muito tempo, eu me senti\u2026 parte. Bem-vindo de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Durante o jantar, fui percebendo mais nuances sobre os %Bhasin%. Mesmo espalhados por diferentes mesas no sal\u00e3o, conversavam como se estivessem lado a lado, em voz alta, trocando piadas, passando pratos e rindo de um canto ao outro. Era barulhento, desorganizado, acolhedor. Como uma fam\u00edlia deveria ser.<br \/>\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o tinha uma fam\u00edlia grande. Sempre fomos s\u00f3 eu, minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 e, por muito tempo, isso me pareceu suficiente. Mas, ao ver a naturalidade com que os %Bhasin% se relacionavam, me perguntei como teria sido crescer assim, cercado por tantas vozes, tantos risos, tantos bra\u00e7os que puxam para dan\u00e7ar sem perguntar.<br \/>\n\u2003\u2003Fui apresentado a alguns primos, tios e tias de %Anya%, todos educados, receptivos e, principalmente, alegres. Essas tr\u00eas palavras pareciam definir bem a fam\u00edlia %Bhasin%. Se todos os jantares fossem como aquele, eu n\u00e3o me importaria de participar de mais alguns.<br \/>\n\u2003\u2003Era f\u00e1cil esquecer que aquele era um jantar de gente rica e influente. Com eles, parecia s\u00f3&#8230; fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003Em um momento de distra\u00e7\u00e3o, levei a m\u00e3o ao bolso e enviei uma mensagem para Nina, perguntando se ela n\u00e3o viria ao jantar. J\u00e1 havia procurado por ela com o olhar, mas nem sinal dela ou do namorado esquisito. Inclinei-me para %Anya%, tocando de leve seu ombro. Ela balan\u00e7ava o corpo suavemente ao som da m\u00fasica indiana que ecoava pelo sal\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Onde est\u00e1 Nina?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu a convidei para sentar com a gente, mas&#8230; acho que seria estranho demais para eles. \u2013 Ela murmurou baixo no meu ouvido. Antes que eu perguntasse o motivo, ela completou: \u2013 Meus pais n\u00e3o gostaram muito do namoro da Nina com o Andreas.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o tive nem tempo de reagir. Maya \u2013 a prima de %Anya% \u2013 apareceu ao nosso lado como um furac\u00e3o, j\u00e1 puxando-a pela m\u00e3o e convidando-a para dan\u00e7ar. %Anya% tentou recusar, resistiu por um segundo, talvez dois, mas foi in\u00fatil. Anjali rapidamente se juntou \u00e0 conspira\u00e7\u00e3o, rindo enquanto ajudava a arrast\u00e1-la para o centro do sal\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003E ent\u00e3o aconteceu.<br \/>\n\u2003\u2003Em quest\u00e3o de segundos, me vi diante de um verdadeiro espet\u00e1culo: m\u00fasica vibrante preenchendo o ambiente, palmas marcando o ritmo, corpos se movendo com uma sincronia quase coreografada. Havia energia em cada gesto, alegria em cada giro, como se tudo ali tivesse sido ensaiado e, ao mesmo tempo, fosse completamente espont\u00e2neo.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya%, que antes relutava, j\u00e1 estava rindo, entregue ao momento, os movimentos leves acompanhando a batida como se aquilo fizesse parte dela desde sempre.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei ali, observando. Era um universo diferente do meu em todos os sentidos e ainda assim, de alguma forma, eu n\u00e3o me sentia deslocado.<br \/>\n\u2003\u2003Um tio %Bhasin% se aproximou de Adit e vi isso como minha deixa para sair. Sinalizei para %Anya% que estava indo ao banheiro enquanto me afastava. Caminhei em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro tranquilamente, e ap\u00f3s ter me aliviado, ouvi toques na porta do banheiro enquanto lavava as m\u00e3os. Rapidamente, fui at\u00e9 a porta desocupar o c\u00f4modo o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas me surpreendi quando fui empurrado de volta para dentro de maneira quase agressiva.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, meu caro. \u2013 A voz de Davi Martinez cortou o ar antes mesmo de sua presen\u00e7a se materializar. Era grave, quase teatral. Assustadora. \u2013 Jamais imaginei v\u00ea-lo t\u00e3o&#8230; domesticado. Um %Bhasin% de estima\u00e7\u00e3o agora?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ol\u00e1, senhor. \u2013 Respondi, me esfor\u00e7ando para n\u00e3o revirar os olhos ou estampar o desprezo no rosto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E nossos acordos? \u2013 Ele ajustou o rel\u00f3gio de ouro, o tique-taque aud\u00edvel no sil\u00eancio que se seguiu.<br \/>\n\u2003\u2003&#8221;Est\u00e3o enterrados junto com sua dec\u00eancia&#8221;, pensei. Mas o que saiu foi: \u2013 Progressos lentos. Os %Bhasin% t\u00eam&#8230; resist\u00eancia ao seu nome.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E por que voc\u00ea acha que eu escolhi voc\u00ea? Sempre soube da implic\u00e2ncia de Adit e Anjali comigo. Mas \u00e9 exatamente por isso que voc\u00ea est\u00e1 aqui. Para mostrar que sou um homem confi\u00e1vel, de boa \u00edndole. \u2013 Tive que conter uma gargalhada. Aquilo era absurdo demais, at\u00e9 para ele. \u2013 Se voc\u00ea foi capaz de se enfiar entre as pernas da herdeira %Bhasin%, pode ir al\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Senti um gosto amargo na garganta. A repulsa foi imediata. A vontade de socar o rosto dele t\u00e3o presente quanto a raiva que crescia no peito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu n\u00e3o estou com ela por interesse. \u2013 As palavras sa\u00edram mais duras do que eu esperava.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pois deveria. Seria uma vantagem e tanto ter ao lado algu\u00e9m com o dinheiro e a influ\u00eancia de uma %Bhasin%. Principalmente para algu\u00e9m como voc\u00ea&#8230; que tem talento em perder. Perdeu a m\u00e3e, perdeu a ex-namorada %Bhasin%&#8230; vai perder o emprego tamb\u00e9m?<br \/>\n\u2003\u2003Meu corpo travou. A garganta secou. O sangue ferveu. Como ele sabia dessas coisas? At\u00e9 onde aquele homem havia cavado na minha vida? Ali, diante de mim, estava a prova viva da fama que o precedia. Sujo. Corrupto. Cruel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 uma amea\u00e7a, senhor Martinez? Porque, para algu\u00e9m que j\u00e1 perdeu quase tudo, perder mais uma coisa n\u00e3o vai fazer muita diferen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a. \u00c9 um lembrete. Talvez, cercado por essa gente, paparicado como o cachorrinho da fam\u00edlia, voc\u00ea ache que pertence a este lugar. Mas n\u00e3o se iluda, %Anthony%\u2026 fora daqui voc\u00ea n\u00e3o passa de algu\u00e9m comum. Irrelevante. Med\u00edocre.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se quiser atravessar essa noite sem problemas, \u00e9 melhor cuidar do que diz. \u2013 Respondi, com os dentes cerrados, concentrado em manter as m\u00e3os firmes.<br \/>\n\u2003\u2003Eu nunca tinha entrado numa briga de verdade. Ainda assim, naquele instante, teria dado qualquer coisa para apagar o sorriso de Martinez com um soco bem colocado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Posso n\u00e3o ser o sujeito mais decente do mundo\u2026 \u2013 Disse ele, j\u00e1 se afastando em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro. \u2013 Mas voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9, %Campelli%. \u2013 Parou na porta, virou o rosto s\u00f3 o suficiente para me lan\u00e7ar o aviso final, g\u00e9lido: \u2013 Se quiser continuar exibindo sua namoradinha at\u00e9 o fim da noite, pense bem em cada passo que der a partir de agora.<br \/>\n\u2003\u2003Fiquei parado por alguns segundos depois que ele saiu. Respirava fundo, devagar, mas o ar parecia pesado demais. O luxo ao redor s\u00f3 piorava tudo. M\u00e1rmore impec\u00e1vel, espelhos amplos, metais dourados reluzindo sob uma luz perfeita.<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente levantei o olhar, encarei meu reflexo e n\u00e3o me reconheci. A raiva distorcia meus tra\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003Achei que conhecia a raiva. Achei que j\u00e1 tinha passado por tudo: as piadas veladas no escrit\u00f3rio, as portas que se fechavam um segundo antes de eu chegar, os olhares que diziam, sem precisar de palavras, <em>voc\u00ea n\u00e3o pertence a este lugar<\/em>. Achei que j\u00e1 tinha aprendido a engolir cada uma dessas pequenas viol\u00eancias, a mastigar em sil\u00eancio at\u00e9 que deixassem de ter gosto. Mas eu estava errado.<br \/>\n\u2003\u2003<em>&#8220;Se voc\u00ea foi capaz de se enfiar entre as pernas da herdeira %Bhasin%&#8230;&#8221;<\/em><br \/>\n\u2003\u2003O pensamento de Martinez, impl\u00edcito naquele ar de superioridade, foi o estopim. Sem racionalizar, chutei a lixeira de a\u00e7o polido com toda a for\u00e7a do meu corpo. A sorte de estar vazia foi o \u00fanico freio para um constrangimento maior. Respirei fundo, tentando sugar o ar gelado do ar-condicionado e expelir o f\u00faria junto com ele.<br \/>\n\u2003\u2003Ao sair, a m\u00e1scara j\u00e1 estava recolocada. O sorriso relaxado, os ombros descontra\u00eddos. Um ator retornando ao palco.<br \/>\n\u2003\u2003Voltei para o sal\u00e3o decidido a afogar aquele asco repugnante que Martinez incrustara em mim. Caminhei direto para o pequeno bar, ignorei o bartender com um aceno breve e peguei eu mesmo a garrafa de um u\u00edsque caro, despejando uma dose generosa num copo baixo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Querido! Finalmente te encontrei! \u2013 Dodi apareceu ao meu lado como um borr\u00e3o de cores, irradiando aquele entusiasmo exagerado t\u00edpico dos que j\u00e1 passaram do ponto. Com um gesto teatral, ergueu o indicador para pedir mais um drink, o bracelete de ouro tilintando no pulso. \u2013 E ent\u00e3o, onde est\u00e1 a nossa aniversariante?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ali. \u2013 Indiquei com um leve movimento de cabe\u00e7a. %Anya% rodopiava no centro do sal\u00e3o, cercada pela m\u00e3e e por algumas primas. Entre s\u00e1ris ondulantes e o brilho inquieto das joias refletindo as luzes da festa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, olha s\u00f3 como ela brilha! \u2013 Dodi colocou a m\u00e3o no peito, fingindo um desmaio teatral. \u2013 Se %Anya% fosse uma estrela de cinema, sua casa teria fila de pretendentes com dotes embaixo do bra\u00e7o. Ia faltar bandeja para tanto anel de noivado!<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O qu\u00e3o b\u00eabado voc\u00ea est\u00e1? \u2013 Perguntei, rindo da compara\u00e7\u00e3o exagerada, tentando cobrir a tens\u00e3o que ainda latejava em mim. Entretanto, enquanto eu a via dan\u00e7ar algo dentro de mim se acalmou. Ela era um ant\u00eddoto visual contra a frieza que Martinez tinha deixado em mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O suficiente para j\u00e1 ter tentado me arrastar para o banheiro duas vezes. \u2013 Anwar apareceu por tr\u00e1s de n\u00f3s, sorrindo com aquela tranquilidade debochada. Pediu um drinque e se virou para mim: \u2013 U\u00edsque ou cerveja,<em>estrangeiro<\/em>?<br \/>\n\u2003\u2003Desde que fui oficialmente apresentado como o namorado de %Anya%, a maioria dos primos, especialmente os com quem mais simpatizei, adotou o apelido.<em>Estrangeiro<\/em>. Uma piada interna que nasceu r\u00e1pido, mesmo que, no papel, compartilh\u00e1ssemos a mesma nacionalidade. No in\u00edcio, fiquei na defensiva, mas logo percebi: era um sinal de aceita\u00e7\u00e3o. Uma forma de me incluir na intimidade familiar atrav\u00e9s do humor leve. Numa fam\u00edlia com ra\u00edzes t\u00e3o profundas e entrela\u00e7adas, aquilo era, de fato, uma honra disfar\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 U\u00edsque. \u2013 Respondi, levantando o copo, mas, honestamente? J\u00e1 n\u00e3o prestava mais aten\u00e7\u00e3o em nada ao meu redor.<br \/>\n\u2003\u2003No meio de todas aquelas pessoas dan\u00e7ando, meu olhar s\u00f3 conseguia pousar sobre %Anya%. Para o quadril dela, para ser mais espec\u00edfico.<br \/>\n\u2003\u2003Aquele peda\u00e7o de pele \u00e0 mostra \u2013 entre a borda do s\u00e1ri e o c\u00f3s da saia \u2013 movia-se para a esquerda e para a direita com uma despretens\u00e3o que beirava o injusto. Como se dan\u00e7ar fosse uma l\u00edngua materna. E talvez fosse mesmo. Talvez ela tivesse nascido naquela pista, entre primas e tias e luzes de festa. Eu n\u00e3o sabia muito sobre a vida anterior dela.<br \/>\n\u2003\u2003As pessoas ao meu redor ainda falavam comigo. Algu\u00e9m perguntou algo sobre o escrit\u00f3rio. Dodi, em algum lugar, ria de algo que eu n\u00e3o ouvi direito. Minhas respostas tinham se tornado autom\u00e1ticas. Tudo isso pois estava ocupado demais tentando n\u00e3o perder de vista a imagem que dan\u00e7ava no centro do sal\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Ananya%, com as bochechas coradas \u2013 aquele rosa quente que s\u00f3 aparece depois do segundo drink e da terceira m\u00fasica \u2013, os cabelos soltos balan\u00e7ando conforme ela girava e ria, e o brilho da pele real\u00e7ado por uma leve camada de suor que refletia as luzes como pequenas estrelas t\u00edmidas.<br \/>\n\u2003\u2003Ela parecia fora do alcance do resto do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o no sentido arrogante. N\u00e3o no sentido &#8220;sou rica demais para voc\u00ea. Havia algo hipnotizante na forma como ela se movia. Os quadris descreviam curvas que a m\u00fasica n\u00e3o pedia, mas que combinavam perfeitamente. Me perguntei se eu era o \u00fanico que estava vendo aquela miragem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E ent\u00e3o a gente joga uma bomba na quadra de t\u00eanis.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ou explode as paredes, tanto faz.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras absurdas me tiraram do transe, entrando pelos meus ouvidos como se atravessassem \u00e1gua. Levei alguns segundos at\u00e9 entender que os dois ao meu lado \u2013 Anwar e Dodi \u2013 estavam falando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00eas v\u00e3o fazer o qu\u00ea?! \u2013 Perguntei, confuso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 num n\u00edvel de distra\u00e7\u00e3o que dava para confessar um assassinato aqui do seu lado. \u2013 Comentou Anwar, balan\u00e7ando a m\u00e3o na frente do meu rosto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Foi mal. \u2013 Murmurei, soltando uma risada sem gra\u00e7a. \u2013 \u00c9 que\u2026 \u2013 Inclinei levemente a cabe\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o de %Anya%. \u2013 Dodi tinha raz\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003O gritinho agudo e empolgado de Dodi cortou o sal\u00e3o alto o bastante para faz\u00ea-la se virar. %Anya% nos encontrou com o olhar, curiosa, e abriu um sorriso antes de acenar. N\u00f3s tr\u00eas erguemos os copos quase ao mesmo tempo, como se fosse ensaiado. Ela riu, balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em negativa e voltou para a dan\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Se voc\u00ea continuar olhando para minha prima desse jeito, com essa cara de quem vai devor\u00e1-la com os olhos, vou acabar tendo que te agredir\u2026 \u2013 Amea\u00e7ou Anwar, o tom traindo o riso que ele mal conseguia segurar.<br \/>\n\u2003\u2003A suposta amea\u00e7a n\u00e3o teve efeito nenhum. Nem se Anwar tivesse me empurrado com for\u00e7a, eu conseguiria desviar o olhar de %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003E o pior \u2013 ou talvez o melhor \u2013 foi perceber o momento exato em que aquela imagem deixou de ser apenas presente e se transformou em mem\u00f3ria. Ela j\u00e1 tinha ficado daquele jeito diante dos meus olhos antes.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 que, da \u00faltima vez, n\u00e3o havia m\u00fasica alta nem festa. N\u00e3o havia s\u00e1ris coloridos ou olhares de familiares. Havia apenas o sil\u00eancio pesado do escrit\u00f3rio dela, depois do expediente, com as luzes da cidade cintilando do lado de fora da janela. No escuro. O rubor no rosto dela n\u00e3o vinha da dan\u00e7a, mas da press\u00e3o dos meus l\u00e1bios contra a pele. O brilho era de suor, sim, mas suor nascido do calor de nossos corpos colados.<br \/>\n\u2003\u2003Agarrei o copo de u\u00edsque com mais for\u00e7a do que o necess\u00e1rio e virei o restante de uma vez s\u00f3. A mem\u00f3ria tinha forma. Tinha o rosto de %Anya%, o rubor marcado na pele, a respira\u00e7\u00e3o irregular, os gemidos baixos demais para atravessar paredes, intensos demais para serem esquecidos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%? \u2013 Dodi cutucou meu bra\u00e7o, arrancando-me do transe. \u2013 Est\u00e1 com cara de quem viu um fantasma.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 pensando em como explodir a quadra de t\u00eanis. \u2013 Respondi no autom\u00e1tico porque %Anya% dan\u00e7ava agora com o corpo voltado para mim, os olhos presos nos meus.<br \/>\n\u2003\u2003A <em>namoradinha<\/em> de quem Martinez falara. A <em>herdeira<\/em> que eu deveria proteger dentro daquela farsa cuidadosamente constru\u00edda. Naquela lembran\u00e7a, por\u00e9m, ela n\u00e3o era nada disso. N\u00e3o era um papel, nem um sobrenome, nem uma responsabilidade.<br \/>\n\u2003\u2003Naquela noite, no escuro do escrit\u00f3rio, ela tinha sido s\u00f3 minha. Mesmo que por pouco tempo. Mesmo que tivesse sido um erro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u2013 \u053a \u2013<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003Exceto pela WDM Corp., eu sempre fui o tipo de cara que se enturmava com facilidade. Festas eram praticamente parte da minha rotina. Na \u00e9poca em que eu namorava Kiara, era raro um fim de semana que n\u00e3o come\u00e7asse com um convite e s\u00f3 terminasse no domingo \u00e0 tarde, deixando na boca o gosto de ressaca e na mem\u00f3ria hist\u00f3rias absurdas demais para serem repetidas em voz alta.<br \/>\n\u2003\u2003Eu j\u00e1 tinha visto de tudo. Conhecia cada tipo de b\u00eabado, j\u00e1 tinha passado por festas que mais pareciam surtos coletivos e, em mais de uma ocasi\u00e3o, fui pe\u00e7a-chave \u2013 quando n\u00e3o o pr\u00f3prio epicentro \u2013 do caos.<br \/>\n\u2003\u2003Mas naquela noite, naquela ilha at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida para mim, era diferente. N\u00e3o havia excessos, nem esfor\u00e7o para que a divers\u00e3o acontecesse. S\u00f3 gente que gostava umas das outras, compartilhando o tempo sem pressa.<br \/>\n\u2003\u2003Perceber aquilo foi\u2026 estranho. Porque eu sempre achei que divers\u00e3o vinha acompanhada de exagero, como \u00e1lcool, barulho e algum tipo de descontrole controlado. Gente gritando, m\u00fasica estourada, pelo menos uma pessoa chorando no banheiro e outra dormindo no sof\u00e1 antes da meia-noite. Esse era o meu conceito de uma boa noite. A receita que eu aprendi e que repeti tantas vezes que virou verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Mas ali, sentado num sal\u00e3o de jogos, cercado por gestos simples, algo diferente acontecia. A celebra\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisava de exagero para existir. Ela se constru\u00eda nos detalhes: nos olhares c\u00famplices trocados entre primos, nas risadas que surgiam sem esfor\u00e7o, na leveza de quem s\u00f3 queria estar junto. E mesmo sendo o &#8220;estrangeiro&#8221;, eu me sentia inclu\u00eddo.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s o jantar, o grupo migrou para o sal\u00e3o de jogos e eu, como extens\u00e3o de %Anya%, fui arrastado junto. O sal\u00e3o era um mundo \u00e0 parte: menor que o sal\u00e3o de jantar, mas infinitamente mais vivo. O ar, antes carregado de formalidade, agora era descontra\u00eddo, perfumado pelo couro dos sof\u00e1s e pelo aroma amadeirado das bebidas no minibar.<br \/>\n\u2003\u2003A atra\u00e7\u00e3o \u00f3bvia era a mesa de bilhar, um \u00edman para os mais competitivos. Jogos eletr\u00f4nicos piscavam em um canto, ecoando nostalgias dos anos 80. Ainda assim, para mim, a melhor parte do lugar era a porta externa, mantida completamente aberta, criando uma liga\u00e7\u00e3o direta com a praia. O frescor do mar invadia o ambiente e o som distante das ondas quebrando trazia uma tranquilidade inesperada.<br \/>\n\u2003\u2003Jogar sinuca ali era uma experi\u00eancia \u00fanica. Meus p\u00e9s estavam descal\u00e7os, enterrados na areia fria que invadia o piso de madeira, enquanto me inclinava sobre o feltro verde. Era o tipo de prazer simples, mas profundo, que eu nunca soube que existia.<br \/>\n\u2003\u2003Desviei o olhar do grupo que eu conversava e encontrei Nina e %Anya% debru\u00e7adas sobre uma mesa, gargalhando. Mesmo com a m\u00fasica tocando, mesmo com o som das ondas se quebrando, mesmo que eu estivesse sentado no sof\u00e1 da \u00e1rea externa do sal\u00e3o, eu conseguia ouvir as risadas de Nina e %Anya% se cruzando e reverberando pelo local.<br \/>\n\u2003\u2003Foi no sal\u00e3o de jogos que eu entendi, finalmente, o motivo pelo qual %Ananya% havia pago uma fortuna por minha presen\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o via minha irm\u00e3 sorrir assim h\u00e1 muito tempo. Nina estava leve, quase irreconhec\u00edvel em sua tranquilidade. Era vis\u00edvel que ela estava feliz, algo que eu n\u00e3o tinha visto desde a \u00faltima crise de depress\u00e3o que a abalou.<br \/>\n\u2003\u2003Era por isso. Tudo aquilo \u2013 os acordos velados, os namoros encenados, as mentiras cuidadosamente costuradas \u2013 existia por um motivo \u00fanico. Nina precisava daquilo. Era como se, por alguns instantes, o tempo tivesse voltado atr\u00e1s e colocado cada pe\u00e7a em seu lugar. E %Anya% sabia. Sabia que o seu papel era esse: devolver a Nina o reflexo esquecido de si mesma.<br \/>\n\u2003\u2003Meu copo de u\u00edsque ficou suspenso no ar quando Nina, percebendo meu olhar, me acenou com aquele sorriso que eu achara perdido. O mesmo de quando \u00e9ramos crian\u00e7as e ela acreditava que o mundo cabia em nossas m\u00e3os.<br \/>\n\u2003\u2003E naquele momento, eu teria feito muito mais que fingir um namoro com %Anya%. Eu faria qualquer coisa para manter aquele sorriso no rosto de Nina.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, sua vez. \u2013 Voltei a dar aten\u00e7\u00e3o ao meu grupo, visto que est\u00e1vamos em uma intensa partida de p\u00f4quer desde a hora que chegamos ali.<br \/>\n\u2003\u2003Eu estava me deleitando t\u00e3o contente com a vis\u00e3o de Nina e seu riso de anima\u00e7\u00e3o que at\u00e9 esqueci que o tal do Andreas existia e n\u00f3s est\u00e1vamos na mesma mesa jogando cartas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Flush. \u2013 Joguei as cartas na mesa, encarando o rosto descontente de Andreas.<br \/>\n\u2003\u2003Que cara ambicioso. Ele ganhou as \u00faltimas tr\u00eas rodadas e agora que eu tive um bom conjunto de cartas, ele estava irritado. Era isso ou ele ainda n\u00e3o tinha aceitado que era comigo que %Anya% estava dividindo a cama.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o est\u00e1vamos, mas ele n\u00e3o sabia disso e eu jamais o deixaria perceber o contr\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Mais uma rodada? \u2013 Algu\u00e9m na mesa perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Narguil\u00e9? \u2013 Outro ofereceu.<br \/>\n\u2003\u2003Novamente, desviei o olhar para dentro do sal\u00e3o. Podia usar a desculpa de estar observando Nina e sua facilidade de ingerir \u00e1lcool, mas bem no fundo, eu sabia que estava procurando por %Anya%. Por um momento, o olhar dela encontrou o meu. Ficamos nos fitando por alguns segundos at\u00e9 Nina perceber e pux\u00e1-la pelo bra\u00e7o, ambas vindo em nossa dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Ananya% havia trocado de roupa depois do jantar, mas mantivera a maquiagem impec\u00e1vel e as joias ainda reluziam sob a luz do sal\u00e3o. Agora usava uma bata estampada, confort\u00e1vel e casual, que terminava bem acima dos joelhos. Ou seja, %Anya% estava andando para cima e para baixo com as pernas mais vis\u00edveis do que o normal.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Prima! Gostou do meu presentinho? \u2013 Um dos rapazes cujo nome n\u00e3o memorizei perguntou assim que %Anya% se aproximou. A ta\u00e7a de vinho branco em suas m\u00e3os explicava as bochechas ruborizadas e olhos acentuados.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Um bom Montrachet. Voc\u00ea nunca erra, Ravi. \u2013 Ela levantou a ta\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a ele, agradecendo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que bom, pois eu trouxe v\u00e1rias garrafas para voc\u00ea. E n\u00e3o pense que eu esqueci de voc\u00ea, <em>ladki<\/em>. \u2013 Apontou para Nina.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ei, s\u00f3 eu a chamo de ladki! \u2013 %Anya% esbravejou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea me trouxe algo? \u2013 Nina perguntou, ocupando o lugar vazio que Andreas deixara com uma naturalidade que quase me irritou.<br \/>\n\u2003\u2003Bunda-mole. Revirei os olhos mentalmente. Peguei o copo de u\u00edsque que descansava no muro baixo, virei o resto de uma vez s\u00f3. Pela segunda vez naquele dia, minha m\u00e3o encontrou o bra\u00e7o de %Anya%. Girei-a suavemente e a pousei em meu colo, como se o espa\u00e7o ali lhe pertencesse por direito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vem c\u00e1, deixa eu limpar seu olho. \u2013 A mentira saiu f\u00e1cil. Sua maquiagem estava perfeita, \u00e9 claro. Mas eu precisava de um pretexto, de um motivo para manter meu rosto perto do dela, para ter uma desculpa para toc\u00e1-la.<br \/>\n\u2003\u2003Ela levantou a cabe\u00e7a, e ao virar o rosto para mim, o mundo externo \u2013 Nina, o sal\u00e3o, a m\u00fasica \u2013 desfocou por completo. Est\u00e1vamos t\u00e3o pr\u00f3ximos que eu podia ver os min\u00fasculos reflexos dourados em seus olhos castanhos, a textura quase impercept\u00edvel do p\u00f3 iluminador em suas ma\u00e7\u00e3s. Podia contar seus c\u00edlios.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Conseguiu? \u2013 Ela murmurou, a voz um fio de som s\u00f3 para mim. Inclinou a cabe\u00e7a num \u00e2ngulo que exp\u00f4s ainda mais a linha suave de sua mand\u00edbula para mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu rosto. Voc\u00ea disse que estava sujo. Est\u00e1? \u2013 Ela passou os dedos levemente sob o olho, sua busca por uma sujeira inexistente era quase uma provoca\u00e7\u00e3o inconsciente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Seus olhos se estreitaram, n\u00e3o com irrita\u00e7\u00e3o, mas com uma compreens\u00e3o lenta e perigosa. Um pequeno sorriso come\u00e7ou a tocar os cantos de sua boca. \u2013 E por que voc\u00ea&#8230;? \u2013 Ela revirou os olhos, vendo minha express\u00e3o suspeita. \u2013 H\u00e1-h\u00e1, engra\u00e7adinho.<br \/>\n\u2003\u2003Em seguida, ajeitou-se melhor no meu colo, com a naturalidade de quem se senta sempre ali, cruzando as pernas como se aquele fosse o lugar mais \u00f3bvio do mundo. Minha m\u00e3o ainda repousava em sua cintura, indecisa entre manter o contato ou recuar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Seus pais n\u00e3o ligam? \u2013 Murmurei, me aproximando um pouco mais, enquanto apontava discretamente para o narguil\u00e9, que poderia ser malvisto em muitos lugares.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eles odeiam, mas j\u00e1 perderam a guerra.<br \/>\n\u2003\u2003Dei uma olhada r\u00e1pida ao redor e notei que pelo menos quatro dos seis grupos ali tinham narguil\u00e9s espalhados por perto. O n\u00famero j\u00e1 era o suficiente para torn\u00e1-los praticamente imbat\u00edveis, se \u00e9 que algu\u00e9m ainda estava tentando.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea usa?<br \/>\n\u2003\u2003Com meu passado \u2013 bem, nem t\u00e3o distante assim \u2013, eu n\u00e3o tinha muito direito de julgar algu\u00e9m por fumar em um narguil\u00e9 (ou \u201chookah\u201d, como chamavam l\u00e1), quando, se eu fosse ser honesto, fazia coisas bem mais question\u00e1veis alguns meses atr\u00e1s. Ent\u00e3o, pensei que talvez %Anya% fosse mais radical, mas&#8230; quem sabe?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 J\u00e1, mas n\u00e3o sou exatamente f\u00e3 de todas as ess\u00eancias. \u2013 Ela deu de ombros, como se fosse uma coisa totalmente normal. \u2013 O Ravi sempre traz umas novidades e acabo experimentando, mas n\u00e3o sou t\u00e3o viciada quanto o resto deles. E, al\u00e9m disso, percebo uma certa dificuldade na academia depois que fumo demais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Academia?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9, montei uma em casa. Tenho tentado manter a rotina de treino, sabe como \u00e9&#8230; \u2013 Ela parecia relaxada ao falar disso, mas logo percebi que estava me distraindo com os detalhes que, bem&#8230; n\u00e3o eram exatamente sobre academia. Eu recuei um pouco, como se estivesse \u201cfazendo um levantamento\u201d visual de sua resposta. N\u00e3o que eu precisasse disso. Conhecia bem o corpo de %Anya%, mas \u00e0s vezes n\u00e3o fazia mal refor\u00e7ar a imagem. \u2013 Ei! \u2013 %Anya% me interrompeu com um soco de brincadeira nos meus ombros, que me fez rir.<br \/>\n\u2003\u2003Logo, todos estavam acomodados na mesma mesa grande, compartilhando copos, conversas e hist\u00f3rias. Era um ambiente t\u00e3o descontra\u00eddo que eu me senti aliviado. Eu podia ser apenas o %Anthony% de vinte e tantos anos, rindo das piadas bobas de Anwar e Dodi, que estavam flertando descaradamente um com o outro. Eu n\u00e3o precisava ser o %Anthony% advogado, aquele que finge o tempo inteiro. Estava, de alguma forma, me permitindo ser eu mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003Era ir\u00f4nico, na verdade. Afinal, o prop\u00f3sito do meu final de semana era, exatamente, o oposto disso: um grande fingimento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E a\u00ed? Como est\u00e1 sendo a noite como \u201cprimeiro\u2013damo\u201d? Ou primeiro\u2013cavalheiro, como preferir. \u2013 Olhei para tr\u00e1s, procurando pela dona da voz brincalhona.<br \/>\n\u2003\u2003Minha irm\u00e3 sempre teve uma p\u00e9ssima toler\u00e2ncia para \u00e1lcool. Basta um gole de espumante e ela j\u00e1 est\u00e1 rindo de coisa que n\u00e3o tem gra\u00e7a. Dois goles, j\u00e1 est\u00e1 contando segredo. Tr\u00eas, j\u00e1 est\u00e1 no colo de algu\u00e9m prometendo amizade eterna.<br \/>\n\u2003\u2003Mas, pelo visto, ela tinha encontrado algu\u00e9m t\u00e3o fraco para bebida quanto ela.<br \/>\n\u2003\u2003Andreas estava completamente b\u00eabado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Melhor do que eu imaginei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea provou o u\u00edsque envelhecido do tio Kapur? \u2013 Andreas questionou e, por pouco, eu n\u00e3o entendi o que a l\u00edngua dele enrolava. Assenti, confirmando. \u2013 E n\u00e3o est\u00e1 b\u00eabado?! \u2013 Exclamou alto.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ok, senhor. Por que n\u00e3o vai beber uma \u00e1gua? \u2013 Nina o guiou at\u00e9 o bar enquanto n\u00f3s riamos dos passos tr\u00f4pegos do rapaz. \u2013 Isso que d\u00e1 beber de barriga vazia. \u2013 Comentou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Por falar nisso, n\u00e3o vi voc\u00eas no jantar hoje.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, n\u00e3o fomos. N\u00e3o me senti confort\u00e1vel em ir por conta de&#8230; \u2013 Ela apontou para si e Andreas, que estavam com a cabe\u00e7a apoiada no balc\u00e3o do minibar e se levantou quase imediatamente. \u2013 Aqui \u00e9 diferente. Ningu\u00e9m liga para o que aconteceu, ningu\u00e9m liga se ele \u00e9 ex de %Anya% ou n\u00e3o, especialmente com voc\u00ea aqui. Mas l\u00e1, no sal\u00e3o, com todos os&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tios! S\u00e3o terr\u00edveis. Aquele bando de velhos ricos e fofoqueiros, que adoram colocar o nariz onde n\u00e3o s\u00e3o chamados. \u2013 Andreas interrompeu, falando alto.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o contive a risada e tentei me colocar mais pr\u00f3ximo a ele, para que ningu\u00e9m ouvisse ele proferindo xingamentos com os mais velhos, especialmente se seus filhos estivessem no mesmo local que n\u00f3s. Nina foi mais incisiva e apertou a m\u00e3o contra a boca do cara, que ainda xingava sem parar. Ainda rindo, enfiamos mais alguns mls de \u00e1gua goela abaixo do Andreas e voltamos a roda onde %Anya% estava.<br \/>\n\u2003\u2003Ela narrava a hist\u00f3ria com um entusiasmo contagiante, como se, por alguns instantes, fosse outra pessoa. O \u00e1lcool parecia ter dissolvido a timidez que normalmente a envolvia, revelando algu\u00e9m expansiva. Gesticulava, ria alto, prendia a aten\u00e7\u00e3o de todos com uma facilidade que eu nunca tinha visto nela. S\u00f3bria, ela jamais teria atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o de todos para si para contar uma hist\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003Olhei ao redor, tentando encontrar uma cadeira livre. Senti %Anya% pegar em minha m\u00e3o, mantendo-me no lugar quando percebeu que eu procurava uma cadeira livre. Sem desviar o olhar dos amigos ou perder o fio da meada da hist\u00f3ria, ela levantou e gentilmente me colocou sentado no lugar onde ela estava e, em seguida, se sentou em minhas coxas novamente. Coloquei as m\u00e3os em sua cintura, ajeitando seu quadril sobre mim, com um esfor\u00e7o quase sobre-humano para que eu n\u00e3o focasse no jeito que suas n\u00e1degas estavam completamente coladas em&#8230;mim.<br \/>\n\u2003\u2003Fiz um esfor\u00e7o consciente para me desconectar das vozes ao redor, do som ambiente, das distra\u00e7\u00f5es e me concentrar apenas nela. E deu certo. Enquanto %Anya% falava, animada, sobre as trapalhadas dos anivers\u00e1rios anteriores naquele mesmo lugar, sua voz ia ganhando uma textura diferente para mim.<br \/>\n\u2003\u2003Foi a\u00ed que fui tomado por uma pontada inc\u00f4moda de arrependimento. Um ressentimento silencioso, pois ali sentado ao lado dela, ouvindo e rindo, me dei conta de que queria t\u00ea-la conhecido antes.<br \/>\n\u2003\u2003A verdade \u00e9 que fui eu quem construiu aquela barreira invis\u00edvel entre n\u00f3s. Primeiro, por conta do sobrenome dela. Cresci com a ideia de que pessoas como %Ananya% %Bhasin% viviam em uma realidade inalcan\u00e7\u00e1vel. Depois veio a Kiara e sua guerra silenciosa com a prima, como se fosse meu dever permanecer leal a um campo que nem era realmente meu.<br \/>\n\u2003\u2003Acabei erguendo barreiras onde, na verdade, nunca houve nada que impedisse o caminho. Ainda assim, ao ver %Anya% t\u00e3o pr\u00f3xima \u2013 t\u00e3o acess\u00edvel, t\u00e3o\u2026 real \u2013 algo dentro de mim sussurrava, hesitante, se ainda havia tempo de realmente conhec\u00ea-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 \u053a \u2013<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2252],"class_list":["post-10388","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}