{"id":10375,"date":"2026-05-25T10:16:29","date_gmt":"2026-05-25T13:16:29","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-05-25T10:26:44","modified_gmt":"2026-05-25T13:26:44","slug":"capitulo-07","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/starfall\/capitulo-07\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 07"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><strong>TW:<\/strong> o cap\u00edtulo a seguir ter\u00e1 descri\u00e7\u00f5es <strong>GR\u00c1FICAS<\/strong> de <strong>ABUSO F\u00cdSICO<\/strong> e <strong>PSICOL\u00d3GICO<\/strong>, perpetrados por figuras de autoridade sob uma crian\u00e7a. Pule para a sess\u00e3o com \u201c\u2022\u2022\u2022\u201c caso sinta-se desconfort\u00e1vel.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>%CERCI% \u2022 ANOS ANTES<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">Os sussurros come\u00e7aram cedo<\/span> naquela noite. %Cerci% conseguia ouvi-los pelo corredor, arrastando-se como espectros, risos abafados, baixos, quase disfar\u00e7ados, entoados de forma irregular e falas arrastadas, reverberando como unhas de metal em pedra polida; eram familiares demais para perturbar de imediato o sono da garotinha, mesmo que se encontrasse agora em estado deplor\u00e1vel de exaust\u00e3o. Os ossinhos doloridos pareciam raspar nas juntas magras e fr\u00e1geis, os m\u00fasculos tensos se contra\u00edam em espasmos, tremores que aumentava e desapareciam, travavam e despertavam c\u00e3ibras dolorosas. Mesmo envolta pela n\u00e9voa desorientadora do sono, ela ainda se obrigou a piscar, tentando afastar o cansa\u00e7o de sua mente, tentando concentrar-se no problema em suas m\u00e3os e n\u00e3o na letargia crescente. O tremor pareceu aumentar quando os ru\u00eddos ficaram mais altos. Seu cora\u00e7\u00e3ozinho martelou contra o peito fr\u00e1gil, os olhos arregalados, aterrorizados voltaram-se para a porta de madeira apodrecida, agarrando-se a parede como se o restante de sua vida dependesse disso; ent\u00e3o, movida pelo pr\u00f3prio medo, a garotinha, co\u00e7ou o couro cabeludo machucado, os cabelos raspados cutucando, de forma inc\u00f4moda, as m\u00e3ozinhas feridas, alguns dedinhos ainda tortos gra\u00e7as a puni\u00e7\u00e3o que recebera mais cedo de Lorde Thanatos. Lady Lyra havia chorado, dissera que tivera um pesadelo, sua recusa para deixar o quarto, gerou a puni\u00e7\u00e3o para %Cerci%, que n\u00e3o podia entender o que havia feito de errado, mas certamente havia sido algo muito ruim para convencer Lorde Thanatos de que a puni\u00e7\u00e3o mais adequada para si era justamente quebrar dedo por dedo de suas m\u00e3os \u2014 n\u00e3o chorou na frente do velho illyriano, n\u00e3o podia chorar, temia fazer as coisas pioraram mais, mas no segredo de seu min\u00fasculo quartinho, solu\u00e7ou baixinho, tentando colocar os ossinhos de volta no lugar e enrol\u00e1-los com o que sobrara de sua velha coberta pu\u00edda e aos peda\u00e7os agora. N\u00e3o conseguiu ir at\u00e9 o final, as m\u00e3ozinhas do\u00edam demais, ent\u00e3o tentou dormir.<br>\u2003\u2003Agora lan\u00e7ava-se em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o, desesperada como a prole abandonada de um animal selvagem ferido, deparando-se com potenciais predadores \u2014 porventura sabia que n\u00e3o teria um bom final, mas ainda assim, movida pelo instinto, a necessidade de lutar, de <em>sobreviver<\/em> tornava-se mais alta \u2014, arrastou-se para debaixo de sua cama, encolhendo-se em uma bolinha de membros magros e pele machucada, tr\u00eamula. As costinhas se pressionaram firmemente contra a pedra g\u00e9lida da parede, pequenos relevos fincando-se na pele machucada, enquanto ela prendia a respira\u00e7\u00e3o. Fechou os olhos com for\u00e7a, tentando lembrar-se de quaisquer ora\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, tentando lembrar-se de qualquer deusa ou deus que poderia salv\u00e1-la, mas %Cerci% %LaFay% n\u00e3o conhecia nenhum. N\u00e3o foi ensinada. Ent\u00e3o, implorou para o vazio por ajuda, como fazia todas as noites, l\u00e1grimas grossas escorreram pelos v\u00e3os de suas bochechas, encharcando a t\u00fanica velha, com o dobro de seu tamanho que usava; obrigou-se a prender a pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o, tentando n\u00e3o soltar um ru\u00eddo sequer, temendo que assim a encontrassem mais f\u00e1cil. Pediu, para qualquer entidade que existia, e pudesse ouvir, por ajuda, mas n\u00e3o recebeu resposta alguma.<br>\u2003\u2003A porta foi aberta bruscamente. A madeira, apodrecida de maneira interna, pareceu ceder como papel com a viol\u00eancia que os garotos mais velhos implicaram. Illyrianos como todos na Corte dos Pesadelos, os mesmos que seriam enviados em algumas semanas para o Acampamento de Guerra, treinar, tornar-se guerreiros habilidosos e ent\u00e3o tomar seus lugares nas prateleiras do Gr\u00e3o Senhor e Senhora da Corte Noturna \u2014 embora muito deste comando fosse apenas <em>fachada<\/em>, j\u00e1 que era <em>Keir<\/em> a quem <em>eles<\/em> eram leais. Aquilo havia come\u00e7ado com Lonan, o irm\u00e3o mais velho de Lyra, e a quem <em>%Cerci%<\/em> n\u00e3o viu mais desde que fora enviado para o Acampamento de Guerra; algumas noites antes de ser enviado, Lonan havia invadido o quartinho da menina, que dormindo profundamente n\u00e3o percebeu o ataque at\u00e9 que a dor a acordasse. Ela foi arrastada para fora da cama, as m\u00e3ozinhas foram amarradas em suas costas, os n\u00f3s eficientes foram elaborados para n\u00e3o apenas limitar seus movimentos, como igualmente cortar a circula\u00e7\u00e3o de seu sangue ali. Seus gritinhos assustados, os pedidos por socorro e ajuda foram silenciados com uma morda\u00e7a de pano. Completamente vulner\u00e1vel, Lonan a jogara no meio da floresta, e entre risos altos com seus amigos, apenas gritou para que ela corresse. E quando ela o fez, desesperada, desorientada, e sem ter ideia de <em>onde<\/em> deveria ir, a <em>quem<\/em> buscar por ajuda, Lonan retirou uma flecha de sua aljava, enroscou em seu arco, e ent\u00e3o atirou. Os risos aumentaram, a flecha cortou a pele da menina, que aos prantos, percebera apenas tardiamente que havia se tornado o <em>alvo<\/em> daquela <em>ca\u00e7a esportiva<\/em>.<br>\u2003\u2003Aquilo tornou-se uma tradi\u00e7\u00e3o entre os illyrianos. Sempre que alguns dos meninos atingiam a idade necess\u00e1ria para serem mandados para o Acampamento de Guerra, eles encontravam desculpas para beber e, iniciavam uma busca por ela \u2014 em alguns raros solst\u00edcios %Cerci% encontraria uma boa forma de esconder-se, e ali, ficaria at\u00e9 que os meninos tivessem ido embora, sem maiores perturba\u00e7\u00f5es. Mas como a crueldade parecia intr\u00ednseca na natureza dos illyrianos, logo aquilo <em>tamb\u00e9m<\/em> tornou-se um jogo para eles; quem a encontrava, teria direito aos tr\u00eas primeiros disparos, aquele que a acertasse poderia escolher o que faria: as vezes quebravam algum de seus bra\u00e7os, \u00e0s vezes, raspavam-lhe os cabelos, e, algumas vezes, lhe cortavam a pele, superficialmente apenas para que seu sangue grudasse em suas roupas, antes de arremess\u00e1-la no lago; de seu sangue, as criaturas que viviam no lago seriam atra\u00eddas, e sem saber nadar, n\u00e3o demoraria muito para que %Cerci% fosse arrastada para o fundo do rio. A brincadeira s\u00f3 acabava quando ela estivesse inconsciente, ent\u00e3o acordaria de volta ao <em>Po\u00e7o<\/em>, onde ficaria por uma semana como puni\u00e7\u00e3o de Lorde Thanatos.<br>\u2003\u2003Botas pesadas chocavam-se contra o ch\u00e3o empoeirado, resmungos irritados, alguns fungados e risos se espalhavam pelo espa\u00e7o. Eles mexeram em tudo, mesmo que a menina n\u00e3o tivesse nada. Jogaram fora a coberta pu\u00edda que possu\u00eda, relegando a garotinha a dormir, novamente, sem nada para se cobrir, fazendo caretas de desprezo ou nojo. Um dos jovens resmungou que o lugar fedia, o outro riu e deu-lhe tapinhas no ombro. E ent\u00e3o, o que parecia ser o mais silencioso do grupo, aproximou-se da cama. %Cerci% tremeu, apavorada, sentindo seu corpo inteiro congelar enquanto o mesmo inclinava a cabe\u00e7a analisando a cama. Os olhos da menina se fixaram nas botas sujas de lama do rapaz, os cadar\u00e7os desfeitos, pendiam tortos pelo couro resistente, desgastado apenas pelo uso cont\u00ednuo. O jovem resmungou algo como se quisesse convir para os amigos de que ela n\u00e3o estava ali, e por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, %Cerci%, amortecida ainda pelo sono, ousou acreditar que ao menos, um daqueles monstros poderia ser <em>gentil<\/em>, sua percep\u00e7\u00e3o foi imediatamente tra\u00edda quando sentiu as m\u00e3os do jovem a agarrar debaixo da cama \u2014 ele n\u00e3o havia mentido para proteg\u00ea-la, havia mentido para proteger seu direito de atirar primeiro. Um grito estrangulado, repleto do terror que congelava os membros franzinos e raqu\u00edticos da crian\u00e7a foi bruscamente silenciado com o bra\u00e7o do jovem, as m\u00e3os, como garras, lhe cortaram o rosto, unhas afiadas fincaram-se na pele, agarrando-a de maneira firme, assegurando-se de que ela n\u00e3o escaparia. A garotinha <em>ainda<\/em> tentou se debater, tentou resistir, morder e chutar qualquer um que chegasse perto dela.<br>\u2003\u2003Fincou os dentinhos contra a m\u00e3o, sentindo o gosto met\u00e1lico e ferruginoso do sangue escorrendo por sua l\u00edngua com lentid\u00e3o nauseante. Um grito furioso escapou, e ent\u00e3o, um golpe atingiu a parte de tr\u00e1s de sua cabe\u00e7a. N\u00e3o levou nem mesmo meio segundo para que a menina desmaiasse. Seu corpinho ficou mole, a cabe\u00e7a pendeu para o lado, e com o desd\u00e9m oferecido para um saco de batatas, foi arremessada sobre as costas de algu\u00e9m. A \u00faltima coisa que seus olhos registraram foi a tonalidade escura, como a noite, de <em>asas<\/em> antes de tudo desaparecer no vazio.<br>\u2003\u2003A primeira coisa que percebeu quando voltou a ficar consciente foi a lama pressionada contra sua bochecha. Manchava metade de seu rosto, estatelada no ch\u00e3o, de barriga para baixo. Como sempre, tentou usar seus bracinhos para se levantar, mas percebeu que estavam amarrados, dessa vez com cordas resistentes que envolviam seu tronco franzido como um colete. Os punhos repousavam, doloridos, pressionados contra suas omoplatas, os dedinhos formigavam, a dor espalhava-se como ondas em quebra a beira mar, nauseante, assustador e intensa. Teria vomitado se pudesse, mas a \u00faltima coisa que comera foi metade de um p\u00e3o que Lady Lyra n\u00e3o quis terminar de comer \u2014 pegou escondido, sem que ningu\u00e9m visse, quando foi comandada descartar a comida \u2014, no caf\u00e9 da manh\u00e3. N\u00e3o comeu mais nada desde ent\u00e3o, tudo o que escorreu por seus l\u00e1bios ressecados e tr\u00eamulos foi apenas saliva misturada com bile, a fez se engasgar enquanto tremia. Um de seus olhos ainda estavam emba\u00e7ados pela pancada que havia levado na lateral da cabe\u00e7a, e agora podia sentir um galo se formar onde havia sido acertado.<br>\u2003\u2003Hiperventilando, ela se obrigou a se levantar, escorregando na lama g\u00e9lida e gosmenta abaixo de si, o cheiro de terra e sujeira espalhava-se pelo ch\u00e3o da floresta escura, iluminada apenas pelos breves relances da luz da lua que se infiltrava por entre os galhos espinhentos altos e as folhas verde escuras. Estava no escuro, aprisionada pelo sil\u00eancio da noite, desesperada por socorro, mas sem poder gritar \u2014 a morda\u00e7a, firme dessa vez, chegava a marcar a pele fr\u00e1gil com a for\u00e7a que havia sido amarrada. As l\u00e1grimas n\u00e3o demoraram a escorrer por seu rostinho aterrorizado, esvaindo-se como uma barragem quebrada. Solu\u00e7os abafados, ru\u00eddos pequenos e abafados de medo e desespero escapando por sua garganta, ao rodar em seu pr\u00f3prio lugar, tentando encontrar uma forma de sair daquele pesadelo, mas como sempre, n\u00e3o tivera tempo para assimilar <em>onde<\/em> estava. Acompanhada por um riso alto, cruel, uma flecha cruzou o ar, lhe cortando o vento t\u00e3o perto de sua orelha direita que ela p\u00f4de<em> jurar<\/em> sentir que algo havia a atingido. N\u00e3o precisou de incentivo melhor para correr.<br>\u2003\u2003Disparou pelo terreno irregular da floresta, os p\u00e9s enroscavam-se em ra\u00edzes sobressalentes, projetadas para fora, o corpinho chocava-se abruptamente contra os galhos de \u00e1rvores secas que lhe arrancavam, sem miseric\u00f3rdia, seu sangue. Gritinhos sufocados se misturavam com o arquejar desesperado de sua respira\u00e7\u00e3o, o peito inflava ao m\u00e1ximo que conseguia antes de contrair-se de novo, tentando absorver o quanto pudesse de oxig\u00eanio, mesmo quando desabava contra o ch\u00e3o.<br>\u2003\u2003%Cerci% nunca sabia por quanto tempo corria; era somente quando suas pernas fraquejavam e ela caia no ch\u00e3o, obrigando-se a arrastar-se que tinha ci\u00eancia de que seu corpo exausto como estava, n\u00e3o aguentaria mais. A garotinha ent\u00e3o arrastava-se para o primeiro buraco que encontrasse, fosse uma po\u00e7a de lama funda o suficiente para que apenas sua cabe\u00e7a ficasse para fora, ocultada por uma pedra, fosse um tronco velho infestado de insetos que iriam rastejar por sua pele, de cheiro e movimento nauseantes, fosse para debaixo das ra\u00edzes das \u00e1rvores submersas, torcendo para que os jovens illyrianos tivessem a perdido de vista. Mas naquela noite, em quest\u00e3o, tudo o que %Cerci% havia encontrado, havia sido um amontoado de arbustos espinhentos para se esconder. Envolta pela n\u00e9voa cega de seu pr\u00f3prio desespero, n\u00e3o hesitou antes de se lan\u00e7ar contra os espinhos, debatendo-se para caber naquele pequeno espa\u00e7o, obrigando-se a abafar seus solu\u00e7os tr\u00eamulos, enquanto esperava pelo amanhecer.<br>\u2003\u2003Quando o sol finalmente nascesse, os monstros teriam ido embora. Ela poderia se arrastar de volta para a Corte dos Pesadelos, e, se tivesse sorte, n\u00e3o seria pega por Lorde Thanatos, ou nenhum dos outros <em>Senhores<\/em>, que certamente iriam tentar envi\u00e1-la de volta ao po\u00e7o, como sempre, como puni\u00e7\u00e3o. Mas naquela noite, n\u00e3o foi o que aconteceu. Algo se moveu entre as sombras, projetando-se sobre o arbusto uma criatura envergada, alta, com chifres projetando-se do topo de sua cabe\u00e7a e olhos que pareciam brilhar como jades, arrastou-se. De repente o cheiro pungente de putrefa\u00e7\u00e3o e petrichor que se espalhava pelo solo da floresta adormecida, foi tomado por algo diferente, algo que parecia lembrar a flores silvestres, a frutas frescas e\u2026 <em>casa<\/em>. Como, porventura, %Cerci% poderia saber tal coisa, se ela nunca tivera uma? N\u00e3o temeu a criatura, nem mesmo quando se projetou sobre ela, movendo-se como um predador em dire\u00e7\u00e3o aos jovens illyrianos. N\u00e3o se encolheu quando ouviu o grunhido, a voz baixa, arrastada, vibra\u00e7\u00f5es t\u00e3o profundas que pareciam fazer o ch\u00e3o tremer.<br>\u2003\u2003A garotinha empurrou os joelhos contra o peito, sentindo algo diferente surgir em seu cora\u00e7\u00e3ozinho descompassado e exausto. Era mais suave, convidativa, como nunca pudera ousar sentir anteriormente, mas ainda assim, um respiro ap\u00f3s longa quantidade de tempo submersa. Ela sentiu <em>esperan\u00e7a<\/em>. Aqueceu-a como um cobertor, mesmo sob a noite fria e o olhar cruel da lua, aninhou-a com s\u00faplica silenciosa. Os olhinhos seguiram o monstro que fincava seus p\u00e9s sob o solo como se estes fossem suas \u00e2ncoras naquele mundo. Ossos estalavam como se ele fosse feito de madeira, ecoavam pelo espa\u00e7o acompanhado por um murm\u00fario sombrio, carregado por palavras estrangeiras que ela n\u00e3o conseguia compreender de fato, mas que a lembrava estranhamente de uma can\u00e7\u00e3o de ninar. Algo pareceu inflamar em seu peito, seu cora\u00e7\u00e3ozinho, agitado e martelando com veem\u00eancia contra o tronco franzino pareceu acalmar-se, o acalanto silencioso de um monstro que viera a seu resgate \u2014 n\u00e3o o contr\u00e1rio.<br>\u2003\u2003Caminhou elegante como um fauno pela terra, os p\u00e9s fincando-se sobre o solo, desaparecendo ao redor da relva e flores silvestres que se erguiam, nascidas do vazio, e mortas no instante seguinte que ele estendia seu p\u00e9 para dar o pr\u00f3ximo passo. M\u00e3os em formas de garras envolveram o arco que tinha preso em seu tronco largo e parcialmente apodrecido. Ossos das costelas esquerdas, expostos, deformados, envoltos por ramalhetes e at\u00e9 mesmo vinhas. Sardas espalhavam-se por sua face assombrosamente bela, como um pequeno pontilhado de estrelas, espelhando o c\u00e9u noturno. Presas projetaram-se pelos l\u00e1bios ressecados e distorcidos, quando um rugido espectral escapou de sua garganta. Um brado de guerra reverberou pelas \u00e1rvores um aviso iminente da viol\u00eancia que os aguardava. %Cerci% arregalou os olhos um pouco mais, enterrando o rostinho em seus joelhos, espiando pela fresta o momento em que os ca\u00e7adores se tornaram <em>ca\u00e7a<\/em>. Paralisada pelo pr\u00f3prio medo, a garotinha n\u00e3o conseguiu assistir a cena que transcorria a sua frente, ent\u00e3o obrigou-se a fechar os olhos, enquanto gritos desesperados rasgavam a garganta daqueles que outrora a atormentaram.<br>\u2003\u2003Gorgolejos perturbadores reverberaram, gritos e barulhos de baque molhados espalharam-se pelo solo acompanhado pelo estalido constante da madeira que envolvia o corpo da criatura. %Cerci% concentrou-se <em>naquele<\/em> som, na forma com que pareciam estalar como lenha tocada sob o fogo. N\u00e3o soube dizer quanto tempo havia se passado, um ru\u00eddo alto, um grito desesperado, e ent\u00e3o, o sil\u00eancio a engoliu. Prendeu a respira\u00e7\u00e3o, tr\u00eamula, assustada demais para erguer sua cabe\u00e7a de onde havia enterrado entre seus joelhos, os olhinhos fechados com for\u00e7a, pareciam colados com piche. Foi o eco vago dos passos, rumando em dire\u00e7\u00e3o a onde ela estava, que a fez abrir os olhos.<br>\u2003\u2003Deparou-se com o rosto da criatura, agora, a poucos cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia de si. Um chorinho abafado escapou por sua boca amorda\u00e7ada, o cora\u00e7\u00e3ozinho, irregular e disparado, pareceu contrair-se dolorosamente em seu peito, a adrenalina, g\u00e9lida que corria por seu sangue, manchou o ar ao seu redor com o aroma de seu <em>medo<\/em>. Um ru\u00eddo baixo, profundo, pareceu percorrer, do centro do peito da criatura e reverberar at\u00e9 que se derramasse de seus l\u00e1bios, mas os olhos de jade, parecendo possuir aquele estranho brilho que permeava as sardas que decoravam seu rosto, n\u00e3o eram amea\u00e7adores. Por um momento, os dois apenas se encararam, o sil\u00eancio que se estendeu ao seu redor, n\u00e3o fora amea\u00e7ador, mas permeado por uma calmaria reconfortante. A criatura inclinou sua cabe\u00e7a para o lado, o movimento provocou estalidos por sua pele estrangeira, as galhadas de cervo rasparam o tronco de uma \u00e1rvore pr\u00f3xima. Ent\u00e3o, quase tr\u00eamulo, a criatura estendeu sua garra na dire\u00e7\u00e3o dela, a unha curvada, manchada de sangue, mal tocara a pele da garotinha, apenas repousou sobre a l\u00e1grima que escorria pela lateral de suas bochechas magras, roubando-lhe para si.<br>\u2003\u2003A criatura soltou um ru\u00eddo baixo, quase consolador, as sobrancelhas se uniram, e pareceu buscar alguma coisa que a menininha n\u00e3o conseguia entender. Com um gesto r\u00e1pido de seu pulso, as garras da criatura encontraram com as amarras que envolviam o pulsos e tronco da menina, arrebentando-a antes que pudesse causar um dano permanente. A garotinha chorou baixinho quando a dor acompanhada pelo fluxo de seu sangue esvaiu-se por seus membros amortecidos, ela solu\u00e7ou baixinho, as m\u00e3ozinhas tr\u00eamulas repousaram a frente de seu pequeno tronco, ao encarar assustada, e curiosa a criatura. O monstro arrastou-se um pouco mais para frente, como se desejasse sentar-se ao seu lado, mas n\u00e3o o fizera. Suas garras enroscaram-se nos espinhos e como se fossem feitas de apenas um sopro ef\u00eamero, desfizeram-se em um amontoado de cinzas, carregados pelo vento, finalmente oferecendo uma ponta de al\u00edvio para a pele torturada dela. Acabou caindo sentada no ch\u00e3o, mas esticou os bracinhos na dire\u00e7\u00e3o da criatura. Os dedinhos machucados, meio tortos, ainda com curativos improvisados sujos, tocaram o rosto da criatura, tentando sentir o que eram aquelas sardas curiosas que cintilavam. A criatura, por sua vez, apenas abaixou a cabe\u00e7a gentilmente, encarando-a no fundo de seus olhos. Ali, mesmo que ela n\u00e3o fosse capaz de compreender, encontrou um sentimento reconfortante, algo caloroso que pareceu se espalhar por seu corpinho tr\u00eamulo. Era pequena demais para compreender o que seria, mas desejou poder apegar-se a tal sentimento.<br>\u2003\u2003\u2014 <abbr data-title=\"'Pequena  estrela, o que fizeram com voc\u00ea', em ga\u00e9lico irland\u00eas.\"><em>A r\u00e9alta bheag, cad at\u00e1 d\u00e9anta acu duit\u00b9<\/em><\/abbr>\u2026 \u2014 entoou a criatura com uma voz melodiosa como sinos, carregados pelo vento, distantes, o som de sua voz era doce, gentil, at\u00e9 mesmo amig\u00e1vel. Parecia-se com o veludo macio dos vestidos que Lady Lyra usava, como a penugem macia dos pelos que os artes\u00e3os da Corte dos Pesadelos usavam para fazer os ursinhos de brinquedo da jovem senhora. Suave como uma can\u00e7\u00e3o de ninar, mesmo que porventura, %Cerci% nunca tivesse descoberto o que viera a ser tal coisa. \u2014 <abbr data-title=\"'Minha  pequena estrela', em ga\u00e9lico irland\u00eas.\"><em>Mo r\u00e9alta bheag\u00b2<\/em><\/abbr> \u2014 pareceu entoar em uma can\u00e7\u00e3o suave. Apoiou uma garra abaixo do queixo da menina, e ent\u00e3o, com um cuidado demasiado que soou estrangeiro para %Cerci%, inclinou a cabe\u00e7a da garotinha para tr\u00e1s, como se quisesse mostrar-lhe algo.<br>\u2003\u2003%Cerci% ofegou, pega de surpresa, quando seus olhinhos encontraram com os c\u00e9us noturnos. Primeiro, viu in\u00fameras estrelas encobrindo o manto azul escuro e profundo que havia se tornado, as nuvens carregadas que costumavam envolver as montanhas haviam sido dispersas pela brisa suave, assim como carregara consigo o aroma pungente do sangue dos jovens que a criatura havia ca\u00e7ado. Ent\u00e3o, como um s\u00fabito piscar, um risco atravessou os c\u00e9us, uma estrela, rodopiando em seu eixo desabou como uma explos\u00e3o de cores, riscando o horizonte. A garotinha soltou um ru\u00eddo baixo de puro fasc\u00ednio esquecendo-se de todo o resto por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos; dos illyrianos monstruosos que a perseguiram, da tortura que era coexistir como prisioneira para Lorde Thanatos, e servir Lady Lyra, para os pesadelos que se desfaziam em realidade pelo territ\u00f3rio de Keir. A garotinha apenas assistiu, com um fasc\u00ednio derivado de sua pr\u00f3pria inoc\u00eancia, a <em>Queda das Estrelas<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Mo Reit\u00edlin<\/em> \u2014 sussurrou a criatura suavemente, em uma despedida. %Cerci% acordou noutro dia, de volta ao po\u00e7o, correntes pesadas envolvendo seus pulsos magricelas, a escurid\u00e3o engolindo-a por completo, acompanhado pelos ru\u00eddos e chiados assombrosos dos monstros e pesadelos que se arrastavam abaixo da Corte dos Pesadelos, \u00e0 espreita do melhor momento que encontrariam para invadir-lhe a cela. O sobressalto a fez debater-se, em desespero, reabrindo os ferimentos que deveriam ter estancado pela noite.<br>\u2003\u2003Quando seu sangue tocou o ch\u00e3o, flores silvestres e relva, ergueram-se.<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>\u2022\u2022\u2022<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Perdida em seus pr\u00f3prios pensamentos, a jovem n\u00e3o percebeu que Skad havia acabado de dormir at\u00e9 que sentiu o peso do melhor amigo sobre a lateral de seu corpo como uma coberta gelada. N\u00e3o era como se ele n\u00e3o possu\u00edsse circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea, na verdade o tinha, mas a temperatura corporal das criaturas que compunham a Corte Invernal era, por si s\u00f3, amenas para sobreviv\u00eancia, era por isso que \u00e0s vezes <em>ela<\/em> sentia certa dificuldade para caminhar em tempestades de neve, enquanto Skad parecia andar com a mesma naturalidade que um membro da Corte Estival o faria na praia. Sua m\u00e3o direita, aquela que permanecia feita de carne, e que carregava as cicatrizes de seu passado atormentador causado pela Corte Noturna, estabilizou-se, o polegar pressionou por instinto as inscri\u00e7\u00f5es antigas e runas cuidadosamente tra\u00e7adas do peda\u00e7o da flecha de freixo que havia lhe permitido escapar daquele maldito pesadelo. Um suspiro suave escapou por entre seus l\u00e1bios apertados ao voltar sua aten\u00e7\u00e3o para o jovem babando em seu ombro.<br>\u2003\u2003Ele parecia exausto, os cabelos esbranqui\u00e7ados desalinhados e maiores do que o comum se espalhavam por sobre seus olhos como uma cortina sedosa e macia, os c\u00edlios tremiam ora ou outra conforme sonhava, os l\u00e1bios entreabertos expeliam uma respira\u00e7\u00e3o suave e profunda; ela fez uma careta, podia sentir o cheiro do h\u00e1lito dele, cheio de frutas vermelhas e vinho que pegara escondido da adega de seu pai ap\u00f3s o treinamento. O brinco em sua orelha pontiaguda parecia cintilar, dourado, sobre a palidez de sua tez; ele sempre havia cheirado a lim\u00e3o, mas naquele dia cheirava a suor, frutas, e papeis velhos. Skad resmungou alguma coisa intelig\u00edvel, e ent\u00e3o, preso no que quer que estivesse sonhando, tampou a boca de %Cerci%, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a dela para cima e para baixo e ent\u00e3o para o lado e para o outro. %Cerci% se empertigou, e, por despeito, mordeu a m\u00e3o dele; com for\u00e7a o suficiente para despert\u00e1-lo, com suavidade o suficiente para n\u00e3o o machucar.<br>\u2003\u2003Skad grunhiu, despertando de supet\u00e3o, mas n\u00e3o parecendo consciente. N\u00e3o soltou o rosto de %Cerci%. Ela estreitou os olhos, fuzilando-o com seu olhar, considerando se deveria acert\u00e1-lo com um tapa, e ent\u00e3o, avisar que sua ajuda havia sido o suficiente para o dia e que ele deveria ir para seu quarto, dormir em uma cama confort\u00e1vel que <em>n\u00e3o fosse ela<\/em>; descartou a ideia imediatamente, conhecia-o bem o suficiente para saber que Skad diria que estava confort\u00e1vel, que n\u00e3o estava com sono e n\u00e3o iria dormir at\u00e9 que eles tivesse resolvido a primeira parte do problema em m\u00e3os \u2014 entender o que diabos era aquela flecha, e acima de tudo, o que as runas significavam \u2014, n\u00e3o sairia at\u00e9 que <em>%Cerci%<\/em> estivesse cansada. Tentar convenc\u00ea-lo do contr\u00e1rio seria <em>sempre<\/em> uma declara\u00e7\u00e3o de guerra fria que, pela insist\u00eancia e manipula\u00e7\u00e3o emocional precisa <em>dele<\/em>, ela certamente <em>perderia<\/em>. O fizera vezes o suficiente para empertigar-se com a ideia de confront\u00e1-lo sobre.<br>\u2003\u2003Fez ent\u00e3o a \u00fanica coisa que lhe restava fazer, recostou-se contra o sof\u00e1 macio acoplado a janela abobadada da biblioteca da Corte Invernal, ainda fedendo lama e suor da sess\u00e3o de treinamento que tivera mais cedo, junto com Skad, ap\u00f3s rolar v\u00e1rias vezes entre a lama e a neve para ter certeza que seu cheiro n\u00e3o estava l\u00e1 um dos melhores, e o observou de fato. Pela m\u00e3e, ela sentiu um afeto t\u00e3o profundo pelo idiota que parecia que faria seu cora\u00e7\u00e3o transbordar. N\u00e3o era rom\u00e2ntico, como Lumia costumava a descrever em seus livros <em>\u201cespeciais\u201d<\/em>, porventura talvez %Cerci% nunca fosse capaz de compreender tal concep\u00e7\u00e3o. Sentia-se como se uma parte de si estivesse faltando, uma pe\u00e7a, pequena e impercept\u00edvel que havia deixado para tr\u00e1s, na Corte dos Pesadelos e que n\u00e3o percebera at\u00e9 que fosse tarde demais; talvez, ela fosse quebrada demais para compreender o que <em>aquele<\/em> tipo de amor viria a ser. Certamente n\u00e3o era l\u00e1 sua prioridade encontr\u00e1-lo igualmente, carregava pesos e correntes demais para focar em fantasias rom\u00e2nticas. N\u00e3o era igualmente sexual, %Cerci% n\u00e3o tinha tanta certeza assim se sequer <em>era capaz<\/em> de sentir-se atra\u00edda por algu\u00e9m, sentia-se suja demais, <em>o tempo todo<\/em>, a ideia de algu\u00e9m toc\u00e1-la era nauseante, e havia aquele instinto de <em>correr<\/em> sempre que algu\u00e9m se aproximava, mas Skad\u2026 pela m\u00e3e, Skad era <em>s\u00f3 <\/em>Skad. E isso, por si s\u00f3, era <em>perfeito<\/em>. Um afeto t\u00e3o profundo que parecia queimar, natural e pungente, com a natural conclus\u00e3o de que era certo. Era consequ\u00eancia, n\u00e3o imposi\u00e7\u00e3o. Apenas <em>era<\/em>.<br>\u2003\u2003Mesmo que ele dormisse com a boca entreaberta, que babasse sobre seu ombro esquerdo, onde sua cabe\u00e7a estava escorada, com a t\u00fanica branca entreaberta ao redor do pesco\u00e7o e peito, revelando a linha forte de suas clav\u00edculas, e a pele que parecia espelhar a neve; havia algumas cicatrizes ali, pequenas, mas percept\u00edveis, de suas pr\u00f3prias aventuras. Quando era um pouco mais novo, ele lhe contara in\u00fameras aventuras que tivera, e sendo ela, acreditara em todas as suas palavras; agora, %Cerci% desconfiava que o hero\u00edsmo nobre que Skad apresentara era um tanto quanto exagerado, n\u00e3o era menos querido por isso. %Cerci% bufou baixinho, a lufada de ar quente chocou-se contra a m\u00e3o dele, antes dela estender a m\u00e3o direita e apertar o nariz do Herdeiro da Corte Invernal.<br>\u2003\u2003Skad finalmente pareceu livrar-se do torpor de seu pr\u00f3prio cansa\u00e7o. Piscando, meio desorientado, o garoto primeiro tentou registrar onde estava, antes de perceber que segurava o rosto de %Cerci% e que ela lhe apertou o nariz.<br>\u2003\u2003\u2014 T\u00f4 acordado \u2014 defendeu-se no mesmo segundo, atrapalhando-se com suas palavras, tossindo um pouco como se tivesse se engasgado com sua pr\u00f3pria saliva, antes de soltar o rosto de %Cerci% com cuidado. Um rubor suave pareceu colorir suas bochechas de um jeito que ela raramente costumava a ver, e %Cerci% abriu um sorriso, <em>doida<\/em> para come\u00e7ar a fazer piadas sobre o amigo. S\u00f3 n\u00e3o o fez, porque n\u00e3o era de sua natureza respostas sagazes e afiadas; n\u00e3o por falta de tentativa, mas por falta de talento. \u2014 Estou totalmente acordado, n\u00e3o me olhe assim! J\u00e1 estava, mas agora estou <em>mais<\/em>, juro que estou \u2014 ele disse meio afobado, e ela riu baixinho, negando com sua cabe\u00e7a suavemente. \u2014 Onde a gente estava? \u2014 Skad pigarreou, endireitando-se no estofado e voltando a projetar seu tronco sobre a mesa, fingindo uma seriedade que ela sabia perfeitamente que ele n\u00e3o possu\u00eda. Parecia prestes a adormecer outra vez, os olhos piscando deliberadamente, a express\u00e3o serena ocultando o cansa\u00e7o por tr\u00e1s das olheiras que manchavam sua pele alva. %Cerci% mordeu o interior de suas bochechas tentando n\u00e3o sorrir quando a cabe\u00e7a de Skad pesou outra vez contra a mesa, por instinto, ou apenas cuidado, a jovem esticou a m\u00e3o com rapidez o suficiente para impedi-lo de acertar a mesa de mogno, segurando sua testa com cuidado.<br>\u2003\u2003Skad pareceu despertar com seu toque, a sensa\u00e7\u00e3o de sua pele abaixo de seus dedos enviando uma onda curiosa de formigamento por sua pele \u2014 a pele dele sempre era mais fria do que a dela, sempre parecia mais pr\u00f3xima de neve do que do sol e %Cerci% <em>gostava<\/em> da sensa\u00e7\u00e3o. Ouviu-o bufar baixinho, virando o rosto em sua dire\u00e7\u00e3o, sem mover um <em>m\u00fasculo<\/em>. Seus olhos azuis, como os do pai dele, fixaram-se em seu rosto, sem desviar-se. Talvez mais despertos do que uma pessoa sonolenta deveria estar, mas n\u00e3o menos nublados pelo cansa\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente pode encerrar hoje? \u2014 pediu baixinho, com um sorriso ador\u00e1vel que aquecia sua face sempre p\u00e9trea e fr\u00edgida, e %Cerci% percebeu-se incapaz de n\u00e3o retribuir o gesto. Era uma criatura curiosa; quando o conheceu, tivera certeza de que o menino n\u00e3o gostava dela, mas agora, encarando-o na privacidade noturna da biblioteca da Corte Invernal, %Cerci% <em>quase<\/em> poderia pegar-se entretendo a ideia de que havia encontrado\u2026 pela m\u00e3e, porventura realmente tivesse encontrado um <em>amigo<\/em>. Ap\u00f3s tantos anos sem ter ideia do que tal palavra significava, agora deparava-se com a possibilidade mais real do que jamais fora. \u2014 Fica aqui hoje? \u2014 arriscou Skad, quase esperan\u00e7oso. %Cerci% apertou os l\u00e1bios negando com um gesto singelo de sua cabe\u00e7a, para a decep\u00e7\u00e3o do amigo. \u2014 Sabe, voc\u00ea n\u00e3o precisa dormir em um albergue s\u00f3 porque B\u00f3reas disse, tem espa\u00e7o para voc\u00ea aqui, posso falar com Lumia\u2026 \u2014 Skad come\u00e7ou a negociar, mas desistiu quando viu %Cerci% n\u00e3o fazer men\u00e7\u00e3o alguma de interromp\u00ea-lo.<br>\u2003\u2003Skad ajeitou-se outra vez, afastando seu rosto da palma estendida de %Cerci%, e ent\u00e3o, com um gesto um tanto quanto inesperado, tomou-lhe em suas m\u00e3os. As pontas de seus dedos tra\u00e7aram com cuidado as cicatrizes que se formavam ali. %Cerci% sentiu o familiar impulso de encolher-se, de puxar sua m\u00e3o para longe do alcance do melhor amigo, mas ent\u00e3o, pela primeira vez, hesitou ao perceber que o toque n\u00e3o era agressivo, era simplesmente\u2026 <em>gentil<\/em>. Compreendeu ent\u00e3o, somente naquele momento, o que a palavra poderia significar \u2014 percebeu que era a primeira vez que algu\u00e9m lhe oferecia tal gesto. Desprovido de segundas inten\u00e7\u00f5es ou acusa\u00e7\u00f5es indiretas.<br>\u2003\u2003\u2014 Faz parte da liga\u00e7\u00e3o \u2014 %Cerci% disse baixinho, abaixando seu olhar para sua m\u00e3o, sentindo-se estranhamente inadequada, como se suas m\u00e3os fossem sujas demais para que Skad as tocassem. Ela apertou os l\u00e1bios em uma fina linha r\u00edgida, subitamente consciente de si mesma, ent\u00e3o, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a suavemente em um n\u00e3o, puxou-a de volta para si. \u2014 N\u00e3o posso ficar longe dele, tanto quanto ele pode ficar longe de mim, a diferen\u00e7a \u00e9 que ele \u00e9 mais poderoso que eu, ent\u00e3o n\u00e3o afeta muito ele.<br>\u2003\u2003Skad franziu o cenho, encarando com curiosidade as marcas que tra\u00e7avam os bra\u00e7os da jovem como uma grossa camada de tinta uniforme.<br>\u2003\u2003\u2014 Meu pai e minha m\u00e3e s\u00e3o <em>parceiros <\/em>\u2014 Skad disse quase de supet\u00e3o, as engrenagens de sua cabe\u00e7a quase vis\u00edveis conforme o garoto parecia considerar cada m\u00ednima nuance na fala de %Cerci%, com um exagero demasiado desnecess\u00e1rio. %Cerci% franziu os cenhos confusa com as palavras de Skad. \u2014 Eles t\u00eam a <em>liga\u00e7\u00e3o<\/em> <em>de parceria<\/em>, \u00e9 a mesma coisa com voc\u00ea e o B\u00f3reas? \u2014 A voz baixa do rapaz tornou-se levemente mais defensiva do que antes, e %Cerci% fez uma careta, n\u00e3o pela curiosidade do melhor amigo, mas pela a ideia de B\u00f3reas ser algo al\u00e9m do que B\u00f3reas. A criatura que a havia acolhido como seu filhote em uma nevasca insuportavelmente forte e que n\u00e3o havia a abandonado desde ent\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele n\u00e3o \u00e9\u2026 quer dizer, eu sou a <em>sombra<\/em> dele, e ele \u00e9 a <em>minha<\/em>. \u2014 Ela tentou colocar em palavras o sentimento, mas acabou desistindo sem saber ao certo como expor em palavras a sensa\u00e7\u00e3o. \u2014 \u00c9 parte de mim, eu posso sentir seus pensamentos por minha mente, e seu poder por minhas veias, mas mais do que isso, \u00e9 meu amigo \u2014 ela disse com sinceridade voltando o olhar para Skad com um sorriso meigo. \u2014 Como voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Algo nos olhos de Skad pareceram cintilar com intensidade, e %Cerci% por um momento pensou em como os olhos dele poderiam lembr\u00e1-la da \u00e1gua cristalina em uma manh\u00e3 de sol, na forma que o gelo parecia adquirir sob o toque da luz, ainda frio e distante, mas n\u00e3o menos belo. Skad abriu um sorriso largo que revelou pequenas covinhas ao redor de suas bochechas. O brinco que pendia em sua orelha esquerda tilintou com o movimento de sua cabe\u00e7a, quando a inclinou para a direita, encarando-a com um afeto sincero.<br>\u2003\u2003\u2014 Promete? \u2014 Skad disse animado, mesmo com as sobrancelhas franzidas de %Cerci%. \u2014 Promete que sou seu amigo? Pra sempre? \u2014 pediu ele estendendo o dedo mindinho na dire\u00e7\u00e3o dela e %Cerci% sorriu. Ouvira tantas vezes de Lumia sobre aquele pequeno ritual, uma coisa simpl\u00f3ria at\u00e9 mesmo considerada infantil, mas sendo a promessa de um <em>fae<\/em> possu\u00eda igual valor, muitos diziam que o truque era desonesto e n\u00e3o deveriam ser ensinados para crian\u00e7as por se tratar de impulsos infantis que, muito provavelmente, poderiam ganhar conota\u00e7\u00e3o real com o acordo de <em>magia<\/em> entre os <em>faes<\/em>; mas o olhar genu\u00edno de Skad, a ansiedade que alastrava-se pelo peito de %Cerci% com a mera possibilidade de finalmente ter um amigo verdadeiro em um mundo que n\u00e3o hesitava em lembr\u00e1-la de que n\u00e3o <em>pertencia<\/em>, a garota n\u00e3o havia hesitado em entrela\u00e7ar o mindinho com o de Skad em uma promessa silenciosa. Um voto a nunca ser desfeito, mesmo que o gesto com o dedo mindinho fosse meramente ilustrativo; mesmo que n\u00e3o tivesse poder algum.<br>\u2003\u2003\u2014 Para sempre \u2014 ela repetiu com um sorriso c\u00famplice e Skad assentiu, ainda sonolento, mas com um brilho incandescente em seus olhos, observando-a com aten\u00e7\u00e3o. \u2014 N\u00e3o importa o que aconte\u00e7a, sempre seremos amigos \u2014 ela prometeu, mas n\u00e3o soube ao certo para <em>quem<\/em> fazia a promessa, se para Skad, ou se para si mesma.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2022\u2022\u2022<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong>SKAD<\/strong> \u2022 <strong>CORTE INVERNAL<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Foi somente quando seus p\u00e9s chocaram contra os bancos de neve macios e escorregadios que os olhos azuis como gelo do rapaz encontraram-se com o que parecia ser pequenos veios sob a neve. Formavam-se como pequenos galhos de \u00e1rvores pelo solo, pequenas <em>veias<\/em> desenhadas sob a neve derretida, quase impercept\u00edveis em sua finura, mas com uma assombrosa certeza de que n\u00e3o pertencia <em>\u00e0quele<\/em> mundo, porque, onde a mancha vermelha parecia espalhar-se, como veios sob uma pele alva, projetavam-se para cima margaridas atra\u00eddas por um c\u00e9u sem sol algum. O vento g\u00e9lido atingiu a face do macho, afastando algumas mechas de seus cabelos p\u00e1lidos para longe de seu rosto, fazendo alguns fios rebeldes engancharem em seus c\u00edlios, pesados pelos cristais de gelo que projetavam-se ali. Algo contorceu-se dentro de seu peito, algo que pareceu trincar, inicialmente antes de se romper com um impacto abrupto, fizera seu est\u00f4mago se contorcer, como uma criatura mal matada, debatendo-se por agonia, o gosto amargo de bile espalhou-se por sua l\u00edngua pungente e imposs\u00edvel de ser ignorado, enquanto sua garganta pareceu se contrair; lufadas de ar, agora pesadas, escapavam pelos l\u00e1bios entreabertos dele, lentamente <em>percebendo<\/em> o que diabos estava acontecendo. Os olhos buscaram por alguma pista, por algum <em>tra\u00e7o<\/em> dos cabelos dela, de seus olhos, qualquer pista por menor que fosse de onde %Cerci% poderia estar, mas n\u00e3o havia nada.<br>\u2003\u2003Apenas <em>sangue<\/em>.<br>\u2003\u2003Um <em>rastro<\/em> de sangue que perdia-se em meio \u00e0s \u00e1rvores congeladas, as ra\u00edzes cobertas pela neve e a viol\u00eancia invernal. Medo, puro e visceral, contorceu-se por suas veias, enroscando-se por seu peito como vinhas repletas de espinhos, lhe cortando a carne, obliterando seu caminho, expondo-a, viva e vulner\u00e1vel \u00e0 crueldade ardente do desespero. A corda que se enroscava por seu pesco\u00e7o, pareceu apertar-se ainda mais contra sua garganta, restritivo, sufocando-o conforme o tecido grosso e revestido de sua capa chicoteava o vazio atormentador atr\u00e1s de si. Ouviu a voz de Ivar, o comando para que eles continuassem se movendo, que a tempestade de neve iria piorar, que deveriam buscar ref\u00fagio, e que as criaturas estavam se aproximando de onde estavam, mas Skad estava congelado no lugar. Como uma est\u00e1tua cuidadosamente esculpida pelo vento e pela umidade do ar, encarando o rastro vermelho pungente no solo conforme o choque tingia sua pele. Os dedos, outrora enroscados com mais for\u00e7a contra a espada, como se porventura desesperado para mant\u00ea-la a seu alcance, escapou, desabando sob a neve, o tremor crescente, amortecendo os m\u00fasculos tensos.<br>\u2003\u2003Uma sensa\u00e7\u00e3o perturbadora pareceu come\u00e7ar a dominar seu peito, esquisita e desconfort\u00e1vel, quase dolorosa quando ele percebeu, com uma pontada de horror que, porventura, talvez, ele tivesse chegado tarde demais. Talvez ele estivesse atrasado, talvez %Cerci% tivesse sido levada pela corrente\u2026 n\u00e3o! Ele n\u00e3o podia.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> eu quero agradecer do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o por voc\u00ea ter lido at\u00e9 aqui, muito obrigada por manter essa fic viva, mesmo que ela n\u00e3o seja l\u00e1 a minha mais conhecida ou a mais impressionante, eu realmente me divirto ao desenvolv\u00ea-la, especialmente pela constru\u00e7\u00e3o dos personagens. Vale sempre lembrar que a fic \u00e9 inspirada no mito de <em>Orpheus <\/em>e <em>Eurydice<\/em>, junto com umas pitadas de <em>Branca de Neve<\/em>, logo prepara o seu cora\u00e7\u00e3o porque haver\u00e1 momentos bem tristes, no mais, s\u00f3 tenho a agradecer por ter chegado at\u00e9 aqui, e por ter lido! Escrever essa hist\u00f3ria fez meu ano, de certo modo, e espero que tenha valido a pena para voc\u00ea que a l\u00ea. Muito obrigada, do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, e te vejo daqui a pouquinho, prometo, \u00e9 rapidinho!<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TW: o cap\u00edtulo a seguir ter\u00e1 descri\u00e7\u00f5es GR\u00c1FICAS de ABUSO F\u00cdSICO e PSICOL\u00d3GICO, perpetrados por figuras de autoridade sob uma crian\u00e7a. Pule para a sess\u00e3o com \u201c\u2022\u2022\u2022\u201c caso sinta-se desconfort\u00e1vel. %CERCI% \u2022 ANOS ANTES \u2022\u2022\u2022 \u2022\u2022\u2022 SKAD \u2022 CORTE INVERNAL \u2003\u2003Nota da Autora: eu quero agradecer do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o por voc\u00ea ter lido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[1920],"class_list":["post-10375","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-starfall"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}