{"id":10304,"date":"2026-05-09T11:15:16","date_gmt":"2026-05-09T14:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-05-09T11:15:16","modified_gmt":"2026-05-09T14:15:16","slug":"capitulo-16","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/military-dignity-endless-war\/capitulo-16\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 16"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003O cheiro de canela e ma\u00e7\u00e3 impregnava o ar enquanto as luzes coloridas da \u00e1rvore de Natal piscavam suavemente, a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia tinha sido levemente alterada naquele ano &#8211; j\u00e1 que Joe e %Annie% que montavam todas as vezes enquanto os pais observavam e tiravam foto -, dessa vez foi Michelle quem ficou no lugar de Joe. E pelo brilho nos olhos dela, %Annie% soube que ela tinha gostado de toda a empolga\u00e7\u00e3o de montar a \u00e1rvore.<br \/>\n\u2003\u2003A barriga ainda pequena, mas j\u00e1 percept\u00edvel sob o vestido verde, pulsava com a vida que representava sua \u00fanica esperan\u00e7a em meio ao caos silencioso que tinha se tornado sua realidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Mais um pouco de rabanada, filha? &#8211; Alexander perguntou com seu sorriso um pouco torto, mas n\u00e3o menos caloroso.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, pousando a m\u00e3o instintivamente sobre a barriga.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, pai. Acho que a Angelina j\u00e1 est\u00e1 satisfeita por hoje. &#8211; ela sorriu, vendo o pai concordar sem desfazer o sorriso. &#8211; Estou guardando espa\u00e7o para o pav\u00ea da mam\u00e3e.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra, que retirava os pratos na mesa da sala de jantar decorada com velas e um caminho de mesa vermelho e dourado, levantou as sobrancelhas.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso mesmo. N\u00e3o \u00e9 todo dia que fa\u00e7o seu preferido. Eu caprichei dessa vez.<br \/>\n\u2003\u2003- A senhora sempre capricha. &#8211; %Annie% complementou, recebendo um sorriso t\u00edmido da m\u00e3e como resposta.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle se aproximou com uma ta\u00e7a de suco de uva, entregando-a para %Annie% com um sorriso sol\u00edcito.<br \/>\n\u2003\u2003Seus olhos escuros pareciam sempre observar tudo ao redor, mesmo quando aparentava total descontra\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Aqui est\u00e1. Sem \u00e1lcool, como prometido. &#8211; disse Michelle, sentando-se ao lado de %Annie% no sof\u00e1. &#8211; Seu irm\u00e3o j\u00e1 deveria ter ligado, n\u00e3o? J\u00e1 passa das dez.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% consultou o rel\u00f3gio na parede, sentindo uma pontada de preocupa\u00e7\u00e3o. Joe nunca atrasava suas liga\u00e7\u00f5es, especialmente em datas importantes. Desde que partira para o treinamento de novos recrutas fazia quest\u00e3o de manter contato regular.<br \/>\n\u2003\u2003- Ele deve estar ocupado com os preparativos da festa no quartel. &#8211; Alexander comentou, ajeitando-se no outro sof\u00e1 com alguma dificuldade. A cicatriz da cirurgia ainda era vis\u00edvel sob os cabelos grisalhos. &#8211; Lembram quando ele era pequeno e insistia em ficar acordado para ver o Papai Noel? Acabava dormindo embaixo da \u00e1rvore!<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sorriu com a lembran\u00e7a, mas seu pensamento vagou para outro lugar.<br \/>\n\u2003\u2003Para %Ryan%.<br \/>\n\u2003\u2003Para o que seria este Natal se ele estivesse ali ao seu lado, com a m\u00e3o grande e calorosa descansando sobre a barriga dela, sussurrando planos para o futuro da filha que nunca conheceria.<br \/>\n\u2003\u2003A dor familiar se instalou no peito, aquela sensa\u00e7\u00e3o de vazio que parecia sugar todo o ar dos pulm\u00f5es. %Annie% apertou os dedos ao redor da ta\u00e7a de suco, o vidro frio contra a pele um lembrete de que ainda estava viva, ainda respirando, mesmo quando cada batimento do cora\u00e7\u00e3o do\u00eda.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sabia que n\u00e3o devia pensar mais nisso, n\u00e3o naquele dia feito para celebrar e festejar, mas desde a festa de anivers\u00e1rio da av\u00f3 de %Ryan% parecia que todo o esfor\u00e7o que tinha feito para focar no que estava palp\u00e1vel bem a sua frente, tinha evaporado.<br \/>\n\u2003\u2003Se o Major n\u00e3o a tivesse feito relembrar toda a dor, toda a m\u00e1goa, talvez seus pensamentos n\u00e3o estariam t\u00e3o nebulosos.<br \/>\n\u2003\u2003- %Annie%? &#8211; a voz de Michelle soou distante, embora ela estivesse bem ao lado. &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 bem?<br \/>\n\u2003\u2003Ela piscou, for\u00e7ando-se a voltar ao presente, a ta\u00e7a em sua m\u00e3o, \u00e0s luzes piscando, \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o genu\u00edna nos olhos da fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim, s\u00f3&#8230; s\u00f3 pensando no Joe mesmo. &#8211; a mentira saiu mais f\u00e1cil do que deveria. %Annie% havia se tornado expert em esconder a verdade por tr\u00e1s de sorrisos for\u00e7ados e desculpas plaus\u00edveis.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra parou de arrumar a mesa momentaneamente e seus olhos encontraram os do marido que desviaram da filha para a esposa, os dois conversaram atrav\u00e9s daquela troca de olhar.<br \/>\n\u2003\u2003Ah eles sabiam que tinha alguma coisa que %Annie% n\u00e3o queria contar, n\u00e3o era apenas seu luto, toda a turbul\u00eancia que estava tendo que enfrentar em sua vida. Entretanto, respeitavam a filha o suficiente para n\u00e3o mencionarem em voz alta o que j\u00e1 sabiam.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio se espalhou pela sala como uma nuvem pesada, quebrado apenas pelo som distante dos fogos de artif\u00edcio de algum vizinho impaciente. Michelle mexeu-se desconfortavelmente no sof\u00e1, seus dedos tamborilando contra a almofada.<br \/>\n\u2003\u2003Foi ent\u00e3o que o telefone tocou.<br \/>\n\u2003\u2003O cora\u00e7\u00e3o de %Annie% pulou uma batida enquanto ela se apressava para atender o celular. Na tela, o rosto de Joe apareceu, o sorriso largo iluminado pelas luzes de Natal do quartel atr\u00e1s dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Feliz Natal, fam\u00edlia! &#8211; ele exclamou, a voz ligeiramente distorcida pela conex\u00e3o. &#8211; Desculpem a demora, tivemos um pequeno problema com a decora\u00e7\u00e3o. O Tenente Gon\u00e7alves achou que seria uma boa ideia pendurar luzes usando apenas fita adesiva.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu o al\u00edvio inundar seu corpo. Ela segurou o telefone para que todos pudessem ver Joe, seu irm\u00e3o com o uniforme impec\u00e1vel e o mesmo sorriso travesso de quando eram crian\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003- Filho! &#8211; Sandra exclamou, aproximando-se mais da tela. &#8211; Est\u00e1vamos preocupados. Seu pai j\u00e1 estava pronto para ligar para o comandante.<br \/>\n\u2003\u2003Alexander balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, rindo.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o exagere, baixinha. &#8211; disse o apelido da esposa em um tom suave. &#8211; Mas \u00e9 bom ver voc\u00ea, filho. Como est\u00e1 o Natal por a\u00ed?<br \/>\n\u2003\u2003- Nada comparado ao banquete que estou vendo a\u00ed atr\u00e1s. &#8211; Joe gemeu dramaticamente, inclinando-se para tentar ver melhor a mesa. &#8211; Isso \u00e9 rabanada da vov\u00f3? E aquilo&#8230; n\u00e3o me diga que \u00e9 o pav\u00ea da mam\u00e3e! %Annie%, voc\u00ea \u00e9 cruel em me mostrar isso quando estou comendo peru ressecado do refeit\u00f3rio!<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% riu, a primeira risada genu\u00edna da noite.<br \/>\n\u2003\u2003- Deveria ter vindo para casa ent\u00e3o, seu bobo.<br \/>\n\u2003\u2003- E deixar meus homens sozinhos no Natal? Eles iriam destruir esse quartel. &#8211; Joe fez uma careta exagerada, depois sorriu mais suavemente. &#8211; Mas s\u00e9rio, guarde um peda\u00e7o desse pav\u00ea para mim.<br \/>\n\u2003\u2003- Desculpa, mas n\u00e3o vai sobrar. &#8211; %Annie% provocou, apontando para Alexander com um sorriso maroto. &#8211; O pai j\u00e1 est\u00e1 na terceira fatia e olhando para a quarta como um lobo faminto.<br \/>\n\u2003\u2003Alexander arregalou os olhos e levou a m\u00e3o ao peito em uma express\u00e3o teatral de indigna\u00e7\u00e3o, as rugas ao redor dos olhos se aprofundando com o gesto exagerado.<br \/>\n\u2003\u2003- Vou mesmo comer tudo. &#8211; ele admitiu finalmente, passando a l\u00edngua pelos l\u00e1bios ainda doces de a\u00e7\u00facar, a voz assumindo aquele tom infantil que sempre usava quando era pego em flagrante. &#8211; Est\u00e1 divino. Melhor que no ano passado.<br \/>\n\u2003\u2003- Que sacanagem comigo\u2026 &#8211; ele reclamou em um tom s\u00e9rio, mas brincando.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle se aproximou, acenando para a c\u00e2mera.<br \/>\n\u2003\u2003- Ol\u00e1, Sargento %Madden%. Parece que voc\u00eas est\u00e3o tendo uma festa e tanto por a\u00ed.<br \/>\n\u2003\u2003O rosto de Joe se iluminou com um sorriso radiante, seus olhos brilhando de carinho e saudade.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea est\u00e1 na melhor delas, acredite. &#8211; ele disse, sua voz carregada de um desejo sincero de estar ao lado dela.<br \/>\n\u2003\u2003- Teria sido melhor se voc\u00ea estivesse aqui. &#8211; ela respondeu, sua voz suave e segura.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% observou a troca de olhares entre os dois, a tens\u00e3o quase palp\u00e1vel mesmo atrav\u00e9s da tela pequena do celular. Ela pigarreou, fingindo n\u00e3o notar o rubor nas bochechas de Michelle.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o, vamos abrir os presentes? Papai precisa descansar logo. &#8211; %Annie% sugeriu, piscando para o pai que tentava disfar\u00e7ar um bocejo.<br \/>\n\u2003\u2003- Abrir os presentes agora? Mas \u00e9 s\u00f3 meia-noite! &#8211; Joe protestou atrav\u00e9s da tela, seu rosto assumindo aquela express\u00e3o de crian\u00e7a contrariada que %Annie% conhecia t\u00e3o bem.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1 bem, voc\u00ea pode assistir enquanto abrimos. &#8211; %Annie% cedeu, ajustando o telefone para que o irm\u00e3o pudesse ver a \u00e1rvore e os pacotes coloridos espalhados embaixo dela.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra fez as honras em distribuir os pacotes, o presente de Joe continuou embaixo da \u00e1rvore e ela enfatizou que o filho s\u00f3 saberia o que era quando voltasse.<br \/>\n\u2003\u2003Alexander ganhou um rel\u00f3gio antigo restaurado, era o mesmo que pertencera ao pai dele e que havia sido danificado anos atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra ganhou um colar que projetava uma imagem da fam\u00edlia se colocasse um feixe de luz contra o pingente.<br \/>\n\u2003\u2003Joe falou com orgulho que tinha preparado o presente da sobrinha e %Annie% abriu o pacote, mostrando para todos o body que tinha a frase \u201c<em>Eu tenho o melhor tio do mundo\u201d<\/em> com um sorriso genu\u00ed<br \/>no.<br \/>\n\u2003\u2003O body se tornou pauta para a conversa um pouco mais longa que tiveram, Alexander brincou que o filho j\u00e1 era o tio mais bab\u00e3o e Sandra segurou o body para observar melhor enquanto imaginava Angelina vestindo-o, ainda t\u00e3o pequena.<br \/>\n\u2003\u2003- Ei, %Annie%. &#8211; a voz de Joe chamou a aten\u00e7\u00e3o da irm\u00e3 ap\u00f3s as risadas cessarem. &#8211; O seu presente est\u00e1 em uma caixa azul com fita prateada. Pede para a Michelle te entregar.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle imediatamente se levantou, seus movimentos fluidos e graciosos enquanto caminhava at\u00e9 a \u00e1rvore.<br \/>\n\u2003\u2003Ela voltou com a caixa azul nas m\u00e3os, entregando-a a %Annie% com um sorriso de quem j\u00e1 sabia o que estava ali.<br \/>\n\u2003\u2003- Aqui est\u00e1. Parece pesado. &#8211; comentou, sentando-se novamente.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% pegou o pacote, sentindo seu peso consider\u00e1vel sem ter a menor ideia do que poderia ser.<br \/>\n\u2003\u2003- Vamos l\u00e1, %Annie%, n\u00e3o temos a noite toda! &#8211; Joe brincou da tela do celular, que Sandra agora segurava para que ele pudesse ver tudo.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% removeu o papel de presente, revelando uma caixa de madeira entalhada. Seus dedos tra\u00e7aram os detalhes do acabamento, admirando o trabalho artesanal.<br \/>\n\u2003\u2003- Joe&#8230; \u00e9 linda. &#8211; ela murmurou, abrindo a tampa com cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003Dentro havia um grosso caderno de anota\u00e7\u00f5es marrom em um estilo retr\u00f4, com uma chave presa a uma tira dupla que envolvia o caderno. Mas n\u00e3o era s\u00f3 isso, tamb\u00e9m havia uma caneta de pena com detalhes incr\u00edveis no corpo bem como o recipiente para a tinta.<br \/>\n\u2003\u2003Era o sonho de consumo de %Annie% quando era pequena, infelizmente o tipo de caderno que queria era caro demais na \u00e9poca ent\u00e3o nunca chegou a ter algo nem ao menos remotamente parecido.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu as l\u00e1grimas queimarem seus olhos enquanto alisava a capa macia.<br \/>\n\u2003\u2003- Fiquei sabendo que voc\u00ea est\u00e1 escrevendo um di\u00e1rio da maternidade e achei que era a oportunidade perfeita para voc\u00ea ter um material adequado. &#8211; explicou Joe, sua voz mais suave agora. &#8211; Tem espa\u00e7o suficiente para colocar tamb\u00e9m as primeiras fotos do ultrassom, para o dia do nascimento, primeiro banho&#8230; tudo. E olha as p\u00e1ginas do meio.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% virou as p\u00e1ginas at\u00e9 o centro do \u00e1lbum. Ali Joe havia colocado fotos antigas: ele e %Annie% quando crian\u00e7as, brincando no quintal; Alexander ensinando Joe a andar de bicicleta; Sandra com farinha at\u00e9 os cotovelos fazendo nhoque com os filhos.<br \/>\n\u2003\u2003- Para ela conhecer a fam\u00edlia. &#8211; Joe disse, a voz embargada mesmo atrav\u00e9s da conex\u00e3o digital. &#8211; Para saber de onde vem.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% n\u00e3o conseguiu conter as l\u00e1grimas agora, elas escorriam livremente por seu rosto enquanto ela abra\u00e7ava o caderno contra o peito.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigada. &#8211; foi tudo que conseguiu dizer.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu foi carregado de emo\u00e7\u00e3o, interrompido apenas pelo som distante de mais fogos de artif\u00edcio. Alexander pigarreou, disfar\u00e7ando a pr\u00f3pria emo\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Bem, a festa n\u00e3o pode parar por nossa causa. &#8211; Alexander disse, tentando aliviar o peso emocional do momento. &#8211; Michelle, voc\u00ea n\u00e3o ganhou presente ainda.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, suas m\u00e3os se movendo nervosamente sobre o vestido.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o, n\u00e3o precisa. Eu que deveria ter trazido algo para voc\u00eas. N\u00e3o esperava&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Bobagem. &#8211; Sandra interrompeu, j\u00e1 se dirigindo novamente para debaixo da \u00e1rvore. &#8211; Claro que temos algo para voc\u00ea. Faz parte da fam\u00edlia agora, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% observou Michelle atrav\u00e9s das l\u00e1grimas que ainda emba\u00e7avam sua vis\u00e3o. Havia algo no modo como a mulher se encolheu ligeiramente ao ouvir as palavras de Sandra, uma hesita\u00e7\u00e3o quase impercept\u00edvel que passou despercebida pelos outros. %Annie% piscou, limpando os olhos com as costas da m\u00e3o, sentindo tristeza por ela.<br \/>\n\u2003\u2003Nem poderia julgar a cunhada, depois de tudo que havia compartilhado e o fato de ser o primeiro natal dela, entendia a hesita\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Este aqui tem seu nome. &#8211; Sandra anunciou, voltando com um pacote pequeno embrulhado em papel dourado.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle recebeu o presente com as duas m\u00e3os e %Annie% notou como seus dedos tremeram sutilmente. O nervosismo era compreens\u00edvel afinal, estava sendo inclu\u00edda em uma tradi\u00e7\u00e3o familiar \u00edntima.<br \/>\n\u2003\u2003- Muito obrigada. &#8211; Michelle disse, sua voz mais baixa que o usual. Ela desembrulhou o papel com cuidado excessivo, como se quisesse ganhar tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Dentro havia uma pulseira delicada, com um pequeno pingente em formato de cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 linda. &#8211; Michelle murmurou, segurando a pulseira com delicadeza. &#8211; Realmente, voc\u00eas n\u00e3o precisavam&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Claro que precis\u00e1vamos. &#8211; Joe disse da tela, seu sorriso radiante. &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 cuidando da minha fam\u00edlia enquanto estou longe. Isso vale muito mais que qualquer presente.<br \/>\n\u2003\u2003- Joe est\u00e1 certo. &#8211; Alexander concordou, ajustando-se na poltrona. &#8211; Voc\u00ea tem sido um anjo para n\u00f3s, especialmente para a %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle sorriu agradecida, nunca tinha comemorado o Natal antes mas estar em fam\u00edlia e se sentir acolhida daquele jeito era o seu maior presente. %Annie% percebeu isso nela e olhou c\u00famplice para a cunhada que apenas levou as m\u00e3os at\u00e9 o peito, sem saber o que dizer.<br \/>\n\u2003\u2003A conversa durou alguns minutos a mais antes de Joe desligar, alegando que iria brindar com os soldados na base &#8211; nada de \u00e1lcool, apenas a boa e velha soda -, garantindo que em breve estaria em casa e se despediu.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que ele desligou, Michelle foi ajudar Sandra com a lou\u00e7a enquanto Alexander e %Annie% ficaram na sala conversando sobre os presentes, ele tinha ficado tocado com o fato de %Annie% ter ajudado Sandra a achar um jeito de recuperar o rel\u00f3gio da fam\u00edlia.<br \/>\n\u2003\u2003Quando Michelle e Sandra voltaram, j\u00e1 era perto da meia-noite e ficaram conversando um pouco mais at\u00e9 levantarem para fazer a contagem regressiva.<br \/>\n\u2003\u2003- Cinco&#8230; quatro&#8230; tr\u00eas&#8230; dois&#8230; um&#8230; Feliz Natal! &#8211; exclamaram juntos.<br \/>\n\u2003\u2003O rel\u00f3gio da sala bateu meia-noite e os quatro se aproximaram em um abra\u00e7o coletivo.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu o calor dos bra\u00e7os de seu pai envolvendo suas costas, o perfume familiar de sua m\u00e3e misturando-se com o aroma suave que emanava de Michelle. Era estranho como aquele momento simples parecia preencher uma pequena parte do vazio que carregava no peito.<br \/>\n\u2003\u2003- Feliz Natal, minha querida. &#8211; sussurrou Sandra, beijando a testa de %Annie%. &#8211; Este ano foi dif\u00edcil, mas estamos juntos. \u00c9 isso que importa.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% assentiu, incapaz de falar atrav\u00e9s do n\u00f3 em sua garganta. Quando se separaram, ela notou algo surpreendente, l\u00e1grimas brilhavam nos olhos de Michelle.<br \/>\n\u2003\u2003A mulher sempre t\u00e3o composta e controlada parecia genuinamente emocionada, suas m\u00e3os tremendo levemente enquanto ajustava a pulseira que acabara de ganhar.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigada. &#8211; Michelle disse, sua voz quase um sussurro. &#8211; Nunca tive&#8230; isto.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o precisou explicar o que &#8220;isto&#8221; significava.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% compreendeu instintivamente. Uma fam\u00edlia, um lugar para pertencer, o calor de um Natal verdadeiro.<br \/>\n\u2003\u2003Naquele momento, %Annie% sentiu uma conex\u00e3o inesperada com a cunhada, como se visse al\u00e9m da superf\u00edcie polida que Michelle sempre apresentava.<br \/>\n\u2003\u2003Alexander soltou um bocejo que tentou, sem sucesso, disfar\u00e7ar com a m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Acho que est\u00e1 na hora deste velho ir para a cama. &#8211; ele anunciou, passando o bra\u00e7o pelos ombros de Sandra. &#8211; O rem\u00e9dio est\u00e1 me deixando sonolento.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra concordou, lan\u00e7ando um olhar preocupado para o marido.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim, voc\u00ea precisa descansar. Amanh\u00e3 ainda temos o almo\u00e7o com os seus primos.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, meninas. &#8211; Alexander disse, inclinando-se para beijar a testa de %Annie% e, ap\u00f3s um momento de hesita\u00e7\u00e3o, a de Michelle tamb\u00e9m. &#8211; Feliz Natal.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% observou os pais subirem as escadas lentamente, o pai apoiando-se no corrim\u00e3o com mais for\u00e7a do que gostaria de admitir.<br \/>\n\u2003\u2003A fragilidade dele ainda a assustava, um lembrete constante de como a vida podia mudar em um instante.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea quer um ch\u00e1? &#8211; %Annie% perguntou a Michelle quando ficaram sozinhas, a casa se enchendo com um sil\u00eancio confort\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003- Um ch\u00e1 seria perfeito. &#8211; Michelle respondeu, seguindo %Annie% at\u00e9 a cozinha.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto %Annie% pegava as x\u00edcaras, notou como Michelle parecia mais relaxada agora, os ombros menos tensos, o sorriso menos medido.<br \/>\n\u2003\u2003Era como se algo tivesse mudado nela durante aquela noite, alguma barreira invis\u00edvel que come\u00e7ava a se dissolver.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea gosta de camomila? &#8211; %Annie% perguntou, j\u00e1 colocando \u00e1gua para ferver.<br \/>\n\u2003\u2003- Na verdade, prefiro hortel\u00e3, se tiver. &#8211; Michelle respondeu, apoiando-se no balc\u00e3o da cozinha. &#8211; %Annie%, eu queria te agradecer.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% levantou os olhos, surpresa.<br \/>\n\u2003\u2003- Pelo qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Por me receber t\u00e3o bem. Sei que n\u00e3o deve ser f\u00e1cil ter uma estranha na casa da sua fam\u00edlia, especialmente\u2026 &#8211; Michelle hesitou, como se pesasse cuidadosamente suas pr\u00f3ximas palavras. &#8211; Especialmente em um momento t\u00e3o dif\u00edcil para voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu um aperto no peito. Era a primeira vez que Michelle mencionava diretamente sua situa\u00e7\u00e3o, o luto que carregava como uma sombra constante.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma estranha. &#8211; %Annie% disse finalmente, surpreendendo a si mesma com a sinceridade daquelas palavras. &#8211; E tem sido bom ter voc\u00ea aqui. De verdade.<br \/>\n\u2003\u2003As duas trocaram um olhar de entendimento m\u00fatuo, algo inexplic\u00e1vel passando entre elas. %Annie% tinha a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que Michelle guardava segredos pr\u00f3prios, dores que talvez um dia compartilhasse.<br \/>\n\u2003\u2003O apito da chaleira quebrou o momento. %Annie% se virou para preparar o ch\u00e1, despejando a \u00e1gua quente sobre as folhas de hortel\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003- Vamos para a sala? &#8211; sugeriu, entregando uma x\u00edcara fumegante para Michelle.<br \/>\n\u2003\u2003Mal haviam dado dois passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sala quando a campainha soou, o som estridente cortando o sil\u00eancio da casa. %Annie% franziu o cenho, consultando o rel\u00f3gio de parede, quase uma da manh\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003- Quem poderia ser a esta hora? &#8211; murmurou, colocando sua x\u00edcara sobre a mesa e dirigindo-se \u00e0 porta.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle ficou para tr\u00e1s, seu corpo instantaneamente tenso, a m\u00e3o instintivamente movendo-se para o quadril, onde %Annie% notou com estranheza, que n\u00e3o havia nada.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% foi at\u00e9 a porta com a testa franzida e quando abriu, vendo a figura feminina tomou um susto.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% olhou atrav\u00e9s da porta escancarada e por um instante hesitou, incapaz de processar o que via.<br \/>\n\u2003\u2003Ali, no meio do frio da madrugada, estava Lynn sem maquiagem, de moletom azul e t\u00eanis de corrida, os cabelos ainda \u00famidos de suor.<br \/>\n\u2003\u2003O contraste entre a presen\u00e7a inesperada e o momento familiar de segundos atr\u00e1s a deixou sem palavras. Lynn abriu um sorriso largo ao ver a amiga, mas havia uma tens\u00e3o vis\u00edvel no modo como esticava os ombros e segurava uma sacola na m\u00e3o direita.<br \/>\n\u2003\u2003- Lynn, quando foi que voc\u00ea chegou? &#8211; %Annie% balbuciou, a voz saindo mais aguda do que gostaria.<br \/>\n\u2003\u2003- Ontem. &#8211; respondeu a amiga, os olhos faiscando com aquela velha energia que sempre fazia quando estava prestes a dar uma not\u00edcia bomb\u00e1stica. &#8211; Quis fazer uma surpresa, mas acho que voc\u00ea fez isso antes. &#8211; Lynn ergueu a revista que trazia consigo.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% reconheceu de imediato: era a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do jornal online local, o rosto dela em uma foto com o Major Walker durante a festa da fam\u00edlia %Mackie% estampava a capa com uma manchete escandalosa sobre o noivado.<br \/>\n\u2003\u2003O choque fez %Annie% estremecer, o corpo inteirinho enrijecendo como se fosse explodir de vergonha a qualquer momento.<br \/>\n\u2003\u2003O tempo pareceu desacelerar. Ela olhou de relance para Michelle, ainda parada na entrada da sala, atenta como um c\u00e3o de guarda, olhando de Lynn para %Annie%, avaliando cada rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o era pra ser assim. &#8211; %Annie% sussurrou, abaixando a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003O peso de todas as decis\u00f5es mal-explicadas dos \u00faltimos dias pressionando sua nuca.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu espero que n\u00e3o, j\u00e1 que voc\u00ea me convenceu de que jamais aceitaria o pedido dele. &#8211; Lynn rebateu, entrando sem cerim\u00f4nia e fechando a porta com o calcanhar. &#8211; Posso saber o que rolou?<br \/>\n\u2003\u2003- Muita coisa aconteceu. &#8211; %Annie% respondeu rapidamente, consciente de que cada palavra seria dissecada pela amiga, perita em detectar mentiras ou meias-verdades.<br \/>\n\u2003\u2003- Tenta me explicar ent\u00e3o. &#8211; Lynn insistiu, a voz mais baixa, quase gentil, mas com uma urg\u00eancia desesperada de algu\u00e9m que n\u00e3o tolera ser deixado para tr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Por um momento, %Annie% pensou em contar tudo.<br \/>\n\u2003\u2003Mas as palavras travaram na garganta. N\u00e3o podia envolver a amiga mais do que j\u00e1 estava envolvida, n\u00e3o podia arrastar ningu\u00e9m para aquele mar de segredos e desconfian\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003Ela apenas balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, os olhos marejando.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o posso. &#8211; admitiu, e a cada s\u00edlaba sentiu se despeda\u00e7ar um pouco mais.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn encarou %Annie% por um longo instante em sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o precisava dizer nada, porque o julgamento estava inteiro estampado na cara. %Annie% reconheceu aquele olhar, o de irm\u00e3 mais velha que ela sempre carregava, da confidente que sempre a direcionava para o caminho mais certo e seguro, da que ouvia seus segredos sempre com o cora\u00e7\u00e3o aberto e pronta para dar conselhos que %Annie% eventualmente seguia.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe qual \u00e9 o problema? Voc\u00ea est\u00e1 com raiva do %Ryan%, raiva de ainda am\u00e1-lo. &#8211; Lynn soltou e %Annie% arregalou os olhos, sentindo o golpe direto. &#8211; Voc\u00ea t\u00e1 agindo igualzinho a ele. Fingindo que n\u00e3o sente nada, posando de durona, mas por dentro t\u00e1 toda estra\u00e7alhada. E eu sei disso porque fa\u00e7o igual.<br \/>\n\u2003\u2003A frase caiu como uma bomba entre elas e Michelle, ainda parada ao lado, prendeu a respira\u00e7\u00e3o, visivelmente desconfort\u00e1vel com a discuss\u00e3o que invadia a privacidade do lar dos %Madden%.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% nem sequer se incomodou, estava acostumada a lavar roupa suja com Lynn na frente de quem fosse.<br \/>\n\u2003\u2003- O que voc\u00ea queria que eu fizesse? &#8211; %Annie% se defendeu, a voz oscilando entre o choro e a raiva. &#8211; De repente, tudo que eu achava que sabia era mentira, at\u00e9 o apartamento do %Ryan%, aquele que ele disse que era alugado, era dele de verdade, oficialmente, e ele nunca me contou!<br \/>\n\u2003\u2003Lynn come\u00e7ou a rir, mas n\u00e3o foi um riso de deboche. Foi um riso amargo, cansado, o riso de quem j\u00e1 passou por isso antes e sabe que \u00e9 imposs\u00edvel vencer.<br \/>\n\u2003\u2003- Enquanto voc\u00ea estava por a\u00ed com o Major, ele aproveitou para mexer os pauzinhos dele e transferir o Connor para os Estados Unidos.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% piscou, demorando alguns segundos para registrar a informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Como assim?<br \/>\n\u2003\u2003- Ele n\u00e3o s\u00f3 aprovou, como tamb\u00e9m solicitou que o Connor fosse transferido para a embaixada dos EUA assim que voltasse da lua de mel. &#8211; Lynn explicou, agora soando mais m\u00e3e do que amiga, como se estivesse relatando um boletim escolar ruim. &#8211; A gente s\u00f3 descobriu quando pisou no aeroporto de volta para c\u00e1. E, antes que voc\u00ea pergunte, n\u00e3o tinha nada no sistema que indicasse isso. Foi um acordo por fora.<br \/>\n\u2003\u2003Mas\u2026 aquilo n\u00e3o fazia sentido algum.<br \/>\n\u2003\u2003Por que ele faria isso? Por que ele n\u00e3o contou a ela?<br \/>\n\u2003\u2003- Quando voc\u00eas v\u00e3o? &#8211; %Annie% perguntou ainda tentando assimilar.<br \/>\n\u2003\u2003- Depois do feriado de ano novo. Achei que voc\u00ea j\u00e1 soubesse\u2026 Pela tua cara, n\u00e3o era o caso. &#8211; Lynn retrucou, cruzando os bra\u00e7os. &#8211; Walker n\u00e3o te conta tudo, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003- Acredite, Lynn, o Walker n\u00e3o me conta nem metade. &#8211; %Annie% respondeu, cada vez mais preocupada com o rumo da conversa.<br \/>\n\u2003\u2003A sensa\u00e7\u00e3o de ser uma pe\u00e7a em um tabuleiro cujas regras desconhecia s\u00f3 aumentava.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn olhou para Michelle, como se s\u00f3 ent\u00e3o notasse a presen\u00e7a da outra mulher no c\u00f4modo, e o olhar foi r\u00e1pido, mas afiado.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% tamb\u00e9m virou para Michelle, esperando algum coment\u00e1rio, mas ela apenas sorriu amarelo e saiu de fininho, deixando as duas sozinhas.<br \/>\n\u2003\u2003- Acho que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele, n\u00e3o \u00e9? &#8211; Lynn perguntou, o tom acusat\u00f3rio suavizando, dando lugar a uma tristeza resignada. &#8211; Eu vim aqui para me despedir, %Annie%. Eu n\u00e3o queria que fosse assim. Mas voc\u00ea n\u00e3o me deixou escolha.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu vontade de se encolher, de enfiar a cabe\u00e7a entre as pernas e sumir dali.<br \/>\n\u2003\u2003Sua voz saiu pequena, quase infantil.<br \/>\n\u2003\u2003- Nem eu.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn deixou a sacola sobre o sof\u00e1 sem pressa, como se o gesto fosse parte de algum ritual secreto delas.<br \/>\n\u2003\u2003A amiga se dirigiu at\u00e9 o sof\u00e1 e se sentou, finalmente deixando a fachada de durona cair.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o fa\u00e7o ideia do porqu\u00ea ele fez isso. &#8211; %Annie% confessou e pela primeira vez naquela noite, n\u00e3o estava mentindo para ningu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Por alguns segundos, ficou tudo em sil\u00eancio, exceto pelo tique-taque do rel\u00f3gio e pelo ronco abafado do pai no andar de cima.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn mordia o pr\u00f3prio l\u00e1bio, os olhos vermelhos de choro contido.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu espero que voc\u00ea descubra antes de cometer a burrice de se casar com o Walker. &#8211; Lynn falou baixo. &#8211; Voc\u00ea merece muito mais que isso.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% ficou olhando para as pr\u00f3prias m\u00e3os, os dedos entrela\u00e7ados como se fossem a \u00faltima barreira antes de desmoronar.<br \/>\n\u2003\u2003Pensou em tudo que j\u00e1 tinha perdido e no que ainda perderia.<br \/>\n\u2003\u2003%Ryan%. A fam\u00edlia. O pr\u00f3prio senso de quem era. E agora, talvez, a melhor amiga.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sentiu um n\u00f3 na garganta, e s\u00f3 conseguiu dizer:<br \/>\n\u2003\u2003- Significa que voc\u00ea n\u00e3o vai no casamento?<br \/>\n\u2003\u2003Lynn deu um sorriso triste, o mesmo que %Annie% vira tantas vezes antes, quando confessavam fracassos, desilus\u00f5es, ou simplesmente desabavam juntas no sof\u00e1 da mans\u00e3o da fam\u00edlia Alc\u00e2ntara.<br \/>\n\u2003\u2003- A\u00ed \u00e9 que t\u00e1, %Annie%. N\u00e3o sei se eu consigo\u2026<br \/>\n\u2003\u2003A confiss\u00e3o pairou no ar, dolorosa e definitiva. %Annie% sentiu vontade de chorar, mas se conteve, porque sabia que se come\u00e7asse, n\u00e3o conseguiria parar.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu queria que as coisas fossem diferentes. Queria mesmo. &#8211; Lynn continuou, a voz embargando. &#8211; Mas parece que a gente est\u00e1 sempre presa nesse ciclo, n\u00e9? De perder o que importa quando menos se espera.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% assentiu, porque n\u00e3o havia argumento que sustentasse o contr\u00e1rio. Tudo que podia fazer era aceitar.<br \/>\n\u2003\u2003Ent\u00e3o ficou ali olhando para a amiga que era quase uma irm\u00e3 e tentou memorizar cada detalhe daquele momento.<br \/>\n\u2003\u2003- E sua fam\u00edlia? E voc\u00eas? &#8211; perguntou, temendo a resposta.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn respirou fundo.<br \/>\n\u2003\u2003- Meus pais acham que \u00e9 uma boa oportunidade, meu irm\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o feliz e o Connor est\u00e1 animado com a mudan\u00e7a, mas eu\u2026 Eu s\u00f3 queria ter certeza que voc\u00ea estava bem antes de partir.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu t\u00f4. &#8211; mentiu %Annie%, sabendo que Lynn enxergava atrav\u00e9s da mentira, mesmo assim agradecendo por n\u00e3o ser chamada de volta \u00e0 realidade.<br \/>\n\u2003\u2003Ficaram em sil\u00eancio por alguns minutos, as duas olhando para o ch\u00e3o, cada uma perdida em pensamentos e lembran\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003Pensou em como a vida delas tinha se entrela\u00e7ado e agora parecia que seguiam caminhos opostos.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem algo na sacola pra mim? &#8211; %Annie% perguntou finalmente, tentando aliviar a tens\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn sorriu, um sorriso genu\u00edno dessa vez.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim. Achei que voc\u00ea poderia precisar, n\u00e3o \u00e9 o seu presente de Natal porque n\u00e3o deu tempo de tirar tudo da mala. &#8211; ela pegou a sacola e deu a %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003Curiosa, %Annie% abriu a sacola e encontrou um pote de sorvete de chocolate.<br \/>\n\u2003\u2003- Para os dias ruins. &#8211; Lynn explicou, dando de ombros. &#8211; Imaginei que, independente do que estiver acontecendo na sua vida, isso sempre ajuda.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu as l\u00e1grimas finalmente escaparem, escorrendo silenciosamente pelo rosto.<br \/>\n\u2003\u2003Era um gesto t\u00e3o simples, t\u00e3o t\u00edpico de Lynn, lembrar dos pequenos detalhes, das coisas que realmente importavam.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigada. &#8211; murmurou, segurando o pote de sorvete como se fosse o objeto mais precioso do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu tamb\u00e9m trouxe isso. &#8211; Lynn continuou, tirando um pequeno envelope do bolso do moletom. &#8211; \u00c9 um cart\u00e3o de Natal, mas tamb\u00e9m tem meu novo endere\u00e7o nos Estados Unidos. E o n\u00famero do telefone de l\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% pegou o envelope, seus dedos tremendo levemente.<br \/>\n\u2003\u2003- Vou sentir sua falta.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu tamb\u00e9m. &#8211; Lynn respondeu, a voz firme apesar dos olhos \u00famidos. &#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 como se fosse para sempre, certo? Voc\u00ea pode me visitar quando quiser. E tem essa coisa maravilhosa chamada internet.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% riu, mesmo em meio \u00e0s l\u00e1grimas. Era assim com elas, sempre encontravam um jeito de fazer piada mesmo nos momentos mais dif\u00edceis.<br \/>\n\u2003\u2003- Promete que vai me ligar quando chegar l\u00e1? &#8211; %Annie% pediu, enxugando as l\u00e1grimas com as costas da m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Prometo. E voc\u00ea promete me contar o que realmente est\u00e1 acontecendo quando estiver pronta?<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% hesitou, o peso dos segredos puxando seus ombros para baixo.<br \/>\n\u2003\u2003- Prometo. &#8211; disse finalmente, sabendo que talvez nunca pudesse cumprir essa promessa.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn se levantou, ajeitando a bolsa no ombro.<br \/>\n\u2003\u2003- Preciso ir. Eu meio que deixei o Connor sem saber aonde eu iria assim que chegamos na casa dos meus pais. &#8211; %Annie% assentiu, levantando-se tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003As duas se encararam por um momento, antes de se abra\u00e7arem com for\u00e7a, como se tentassem absorver a presen\u00e7a uma da outra antes da separa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Se cuida. Cuida da Angelina, eu vou pedir pra mandarem o presente dela. E o seu tamb\u00e9m. &#8211; Lynn sussurrou no ouvido de %Annie%. &#8211; E qualquer coisa, me liga. N\u00e3o importa a hora.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea tamb\u00e9m. &#8211; %Annie% respondeu, relutante em soltar a amiga.<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente se separaram, Lynn levou a m\u00e3o at\u00e9 a barriga de %Annie% e fez um carinho com um sorriso sutil.<br \/>\n\u2003\u2003Mesmo que a amiga n\u00e3o tivesse falado nada, %Annie% podia ler perfeitamente o que se passava na cabe\u00e7a de Lynn.<br \/>\n\u2003\u2003Ela sabia o porqu\u00ea de %Annie% fazer aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn se afastou e caminhou at\u00e9 a porta, parando apenas uma vez para olhar para tr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003Naquele olhar havia uma mistura de preocupa\u00e7\u00e3o, amor e uma pergunta silenciosa que %Annie% n\u00e3o estava pronta para responder.<br \/>\n\u2003\u2003A porta se fechou com um clique suave e %Annie% ficou parada segurando o pote de sorvete derretendo em suas m\u00e3os, sentindo como se uma parte dela tivesse acabado de partir.<br \/>\n\u2003\u2003- Ela \u00e9 importante para voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% se virou, surpresa ao encontrar Michelle parada na entrada da cozinha observando-a com uma express\u00e3o que n\u00e3o conseguia decifrar.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o era uma pergunta, mas uma constata\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Desde a inf\u00e2ncia. &#8211; %Annie% confirmou, levantando o pote indicando que iria lev\u00e1-lo at\u00e9 a cozinha. &#8211; Ela me conhece melhor do que eu mesma \u00e0s vezes.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle assentiu, um movimento curto e preciso, enquanto observava %Annie% ir at\u00e9 a cozinha e a seguiu.<br \/>\n\u2003\u2003- Deve ser bom ter algu\u00e9m assim.<br \/>\n\u2003\u2003Havia algo na voz de Michelle, uma nota de solid\u00e3o. %Annie% se perguntou sobre o passado da cunhada, sobre as amizades que talvez tivesse deixado para tr\u00e1s ao se mudar para ficar em Shalom.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea quer terminar aquele ch\u00e1? &#8211; %Annie% ofereceu, tentando afastar a melancolia que amea\u00e7ava engoli-la, depois de guardar o sorvete.<br \/>\n\u2003\u2003- Na verdade &#8211; Michelle hesitou, olhando para o rel\u00f3gio no celular -, acho que tamb\u00e9m vou me recolher. Foi um dia longo.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% concordou, subitamente consciente do cansa\u00e7o que pesava em seus pr\u00f3prios ossos.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, ent\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle sorriu, aquele sorriso contido que nunca parecia alcan\u00e7ar completamente seus olhos.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, %Annie%. E&#8230; feliz Natal.<br \/>\n\u2003\u2003- Feliz Natal, Michelle.<br \/>\n\u2003\u2003Quando Michelle subiu as escadas, %Annie% ficou sozinha na cozinha iluminada apenas pela luz suave sobre o fog\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ela abriu a geladeira novamente, pegou o pote de sorvete e uma colher. N\u00e3o se importava que fosse quase duas da manh\u00e3 ou que o sorvete estivesse meio derretido.<br \/>\n\u2003\u2003Nem se importou de sentar-se, se apoiou na bancada e arrancou a tampa do pote com tanta for\u00e7a que quase quebrou a borda.<br \/>\n\u2003\u2003Na primeira colherada seus olhos ca\u00edram sobre o anel de noivado que Walker havia dado, respirou fundo antes de largar a colher e tirar o anel com raiva do dedo, deixando que o diamante rodopiasse contra a bancada em um breve instante.<br \/>\n\u2003\u2003Seu cora\u00e7\u00e3o martelava contra as costelas enquanto uma certeza queimava dentro dela.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que Walker pisasse de volta na cidade, ela o encurralaria e arrancaria dele cada maldita resposta.<\/p>\n<p align=\"center\">[&#8230;]<\/p>\n<p>\u2003\u2003Major Walker andava de forma apressada pelo corredor da base sentindo as m\u00e3os formigarem, tinha tanto a fazer mas mesmo assim sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o era a visita surpresa que estava esperando-o em sua sala.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o era de receber visitas e isso o deixava em modo de alerta.<br \/>\n\u2003\u2003Abriu a porta j\u00e1 preparado para seja l\u00e1 qual fosse a guerra interna que teria que lidar mas ao olhar o rosto feminino da figura de p\u00e9 perto da sua mesa, tomou um susto.<br \/>\n\u2003\u2003- Alc\u00e2ntara? &#8211; sua voz denunciou a surpresa e tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o de Lynn que a fez virar.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom dia, Major. &#8211; algo no sorriso de leve de Lynn fez o Major engolir seco e fechar a porta com receio.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o sabia que j\u00e1 estava de volta \u00e0 cidade. &#8211; ele comentou enquanto andava at\u00e9 a mesa, estendendo a m\u00e3o para que ela se sentasse na cadeira \u00e0 frente.<br \/>\n\u2003\u2003- Muitas surpresas por esses dias, n\u00e3o \u00e9 mesmo? &#8211; o tom de Lynn era \u00e1cido e impulsivo, claramente ela n\u00e3o iria manter a finesse por muito tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Isso fez com que Walker desviasse os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003- Por favor, fique \u00e0 vontade.<br \/>\n\u2003\u2003- Prefiro ficar de p\u00e9.<br \/>\n\u2003\u2003Major respirou fundo, entendendo que estava entrando em um campo minado, e sentou-se em sua cadeira apoiando os cotovelos na mesa.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn n\u00e3o mudou o peso do corpo, permaneceu de p\u00e9, ereta, elegante e seus olhos de \u00e1guia estavam atentos a qualquer piscada de Walker.<br \/>\n\u2003\u2003Ele, no entanto, n\u00e3o pareceu se incomodar em ser observado com tamanha raiva e frustra\u00e7\u00e3o, na verdade j\u00e1 estava esperando essa rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei que voc\u00ea e Connor foram pegos de surpresa com a mudan\u00e7a, eu iria falar pessoalmente\u2026<br \/>\n\u2003\u2003- Poupe meu tempo, Major. &#8211; Lynn interrompeu, levantando a m\u00e3o para sinalizar que n\u00e3o queria mais ouvir. &#8211; N\u00e3o vim aqui para cobrar suas explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003Walker levantou as sobrancelhas perguntando silenciosamente o que ela estava fazendo ali ent\u00e3o e seus ombros enrijeceram instintivamente, prevendo o pr\u00f3ximo ataque.<br \/>\n\u2003\u2003- Vim para te alertar. &#8211; ela cruzou os bra\u00e7os. &#8211; Eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo e o que a %Annie% tem a ver com isso, mas vou deixar bem claro, se algo acontecer com ela ou com a Angelina\u2026<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o vai acontecer nada. &#8211; ele a cortou com a voz firme e fria. &#8211; Eu estou garantido que ambas fiquem seguras.<br \/>\n\u2003\u2003Foi a vez dela respirar fundo, sua express\u00e3o denunciava claramente que ela n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o acreditava nas palavras dele, como tamb\u00e9m n\u00e3o confiava.<br \/>\n\u2003\u2003Foi por isso que ela apoiou as m\u00e3os na mesa e inclinou o tronco, uma chama de f\u00faria em seus olhos da qual Major n\u00e3o p\u00f4de ignorar pela invas\u00e3o de seu espa\u00e7o pessoal.<br \/>\n\u2003\u2003- <strong>Se<\/strong> algo acontecer, n\u00e3o vai ter dinheiro no mundo que o fa\u00e7a escapar da minha f\u00faria. &#8211; ela continuou com determina\u00e7\u00e3o, ignorando completamente as palavras dele. &#8211; E eu n\u00e3o estou falando como uma Alc\u00e2ntara, estou falando como a melhor amiga.<br \/>\n\u2003\u2003Major n\u00e3o respondeu de imediato, continuou encarando Lynn enquanto via a verdade nos olhos dela.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o recuou, nem se abalou. Poderia jogar na cara dele o quanto a sua influ\u00eancia a ajudaria, mas n\u00e3o havia necessidade. Walker sabia, a fam\u00edlia Alc\u00e2ntara era poderosa demais e Lynn tinha recursos para fazer o que ela estava deixando nas entrelinhas.<br \/>\n\u2003\u2003Ela o ca\u00e7aria se fosse preciso.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem a minha palavra.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn sorriu de lado sarcasticamente, a vontade era dizer que as palavras dele n\u00e3o significavam nada para ela.<br \/>\n\u2003\u2003Aquela conversa nem ao menos deveria ter acontecido, se n\u00e3o fosse a atual situa\u00e7\u00e3o. Ela sentia que tinha alguma coisa acontecendo, s\u00f3 n\u00e3o podia provar.<br \/>\n\u2003\u2003Mas ela estava atenta e queria que ele soubesse disso.<br \/>\n\u2003\u2003Walker tinha agora mais um alvo em suas costas.<br \/>\n\u2003\u2003- Fa\u00e7a uma boa viagem. &#8211; ele sorriu, n\u00e3o alcan\u00e7ando seus olhos.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn recuou, mantendo o queixo erguido e retribuiu sorrindo divertida.<br \/>\n\u2003\u2003- Faremos, iremos na comitiva do Almirante. &#8211; avisou e por um m\u00edsero segundo Walker vacilou. Ela tinha gostado de ter dado a not\u00edcia para ele. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o estava sabendo? Sabe como \u00e9, para evitarmos <em>acidentes<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Lynn n\u00e3o quis ouvir a resposta do Major e por isso deu as costas, com pressa de sair daquela sala intimidante e sufocante.<br \/>\n\u2003\u2003Seu recado tinha sido claro e objetivo, n\u00e3o precisava mais perder tempo ali.<br \/>\n\u2003\u2003- Seu marido sabe que veio at\u00e9 aqui? &#8211; o tom amea\u00e7ador a pegou desprevenida, fazendo-a parar com a m\u00e3o na ma\u00e7aneta.<br \/>\n\u2003\u2003Ela nem ao menos fez quest\u00e3o de virar para encar\u00e1-lo, rindo seco.<br \/>\n\u2003\u2003- Ao contr\u00e1rio do seu relacionamento com a minha melhor amiga, Connor sabe de tudo que eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"center\">[&#8230;]<\/p>\n<p>\u2003\u2003Era v\u00e9spera de ano novo, %Annie% tinha ficado em casa enquanto Michelle tinha ido levar Alexander e Sandra na fisioterapia dele, a cunhada n\u00e3o voltaria para casa como costumava fazer j\u00e1 que por ser a \u00faltima sess\u00e3o do ano Alexander iria demorar um tempo a mais e Michelle tinha uma emerg\u00eancia no servi\u00e7o para resolver.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% achou bom ficar sozinha em casa, acabou falando com Lynn no telefone por alguns minutos. A amiga estava surtando com a viagem e %Annie% sabia que o fato dela ter ido se despedir pessoalmente era um pedido mudo para n\u00e3o ir at\u00e9 o aeroporto e transformar aquela despedida em algo ainda mais doloroso.<br \/>\n\u2003\u2003Ela tamb\u00e9m n\u00e3o estava pronta para isso, n\u00e3o depois de ouvir o tom de desapontamento da amiga.<br \/>\n\u2003\u2003Sabia que Lynn n\u00e3o a julgava, mas tamb\u00e9m sabia que ela n\u00e3o concordava com a sua decis\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Al\u00e9m disso, tinha sido uma manh\u00e3 bem produtiva, tinha atualizado o seu di\u00e1rio e acabou pesquisando algumas coisas na \u00e1rea da culin\u00e1ria. N\u00e3o que fosse realiz\u00e1-las agora j\u00e1 que n\u00e3o conseguiria a primeiro momento mas gostava de estar atualizada sobre, para quando tivesse a oportunidade de voltar a estudar n\u00e3o estaria parada no tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Estava levando o lixo para fora de casa quando um carro desconhecido parou na cal\u00e7ada de sua casa, a \u00fanica coisa que ela podia dizer era que aquele carro n\u00e3o era o tipo que seus vizinhos costumavam ter, muito menos que aparecia com frequ\u00eancia na rua dela.<br \/>\n\u2003\u2003Por isso, estava disposta a simplesmente ignorar e entrar, mas n\u00e3o chegou a fazer quando o vidro do passageiro desceu revelando quem estava por tr\u00e1s do volante.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% teve que conter o queixo que estava tentado a cair ao olhar a figura feminina elegante que fitava %Annie% com receio.<br \/>\n\u2003\u2003- O que a senhora quer? &#8211; perguntou, sem se importar se soou rude, estava im\u00f3vel sem saber o que fazer.<br \/>\n\u2003\u2003- Entre no carro e podemos conversar. &#8211; o tom de Cristina era r\u00edgido e s\u00e9rio.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% n\u00e3o sabia se era porque ela estava com vergonha de estar ali ou de falar com ela, podia ser os dois j\u00e1 que Cristina usava \u00f3culos escuro grande o suficiente para praticamente esconder seu rosto.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sei se devo. &#8211; rebateu, sincera.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o vou implorar.<br \/>\n\u2003\u2003A vontade de %Annie% era simplesmente virar as costas e deixar Cristina falando sozinha, n\u00e3o estava nem um pouco interessada em ser destratada de novo, por\u00e9m uma min\u00fascula parte de si estava curiosa para saber o que ela estava fazendo ali, principalmente como ela sabia onde %Annie% morava.<br \/>\n\u2003\u2003Se bem que, isso n\u00e3o era t\u00e3o dif\u00edcil de adivinhar.<br \/>\n\u2003\u2003Respirando fundo, ela concordou com a cabe\u00e7a silenciosamente e entrou no carro segurando firmemente o celular na outra m\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003O carro ficou em um sil\u00eancio perturbador enquanto Cristina sa\u00eda da rua da casa dos %Mackie%, %Annie% estava encolhida no banco e a testa franzida denunciava o qu\u00e3o na defensiva ela estava, nem ao menos conseguia ouvir a respira\u00e7\u00e3o de Cristina e isso era agonizante.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% segurou o telefone como se fosse uma \u00e2ncora, os dedos apertando a capa protetora at\u00e9 os n\u00f3s dos dedos ficarem brancos. O sil\u00eancio dentro do carro era sufocante, mas nem por isso %Annie% se atreveu a quebr\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o conseguia ver os olhos de Cristina por tr\u00e1s dos \u00f3culos escuros, j\u00e1 que a observava pelo canto do olho, mas sentia o peso do olhar da mulher como se estivesse sendo estudada.<br \/>\n\u2003\u2003Ela manteve o corpo colado \u00e0 porta, a m\u00e3o direita descansando sobre a ma\u00e7aneta, pronta para saltar se fosse necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina dirigia com precis\u00e3o mec\u00e2nica, as m\u00e3os enluvadas segurando o volante numa posi\u00e7\u00e3o perfeita, como se tivesse sa\u00eddo de uma aula de dire\u00e7\u00e3o defensiva. Cada movimento era calculado, controlado, e isso deixava %Annie% ainda mais nervosa.<br \/>\n\u2003\u2003- Aonde estamos indo? &#8211; %Annie% perguntou finalmente, a voz saindo mais tensa do que pretendia.<br \/>\n\u2003\u2003- Para um lugar onde possamos conversar sem ser interrompidas.<br \/>\n\u2003\u2003A resposta n\u00e3o esclareceu nada e %Annie% sentiu uma pontada de p\u00e2nico subir pela espinha. Ela olhou pela janela, tentando memorizar o caminho, mas Cristina havia tomado uma rota que %Annie% n\u00e3o conhecia bem.<br \/>\n\u2003\u2003As ruas estavam menos movimentadas por causa do feriado e isso s\u00f3 aumentava sua ansiedade.<br \/>\n\u2003\u2003O celular vibrou em suas m\u00e3os, uma mensagem de Michelle perguntando se ela precisava de alguma coisa do mercado. %Annie% digitou rapidamente uma resposta, sem tirar os olhos de Cristina, que parecia n\u00e3o se importar com o que ela fazia.<br \/>\n\u2003\u2003- Sua fam\u00edlia sabe onde voc\u00ea est\u00e1? &#8211; Cristina perguntou, como se tivesse lido seus pensamentos.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% hesitou. Mentir seria mais seguro, mas algo na voz de Cristina sugeria que ela j\u00e1 sabia a resposta.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Melhor assim.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras enviaram um calafrio pela espinha de %Annie%. Ela apertou o telefone com mais for\u00e7a, por um momento se arrependeu de ter entrado naquela droga de carro.<br \/>\n\u2003\u2003Quando ela come\u00e7ou a cogitar a hip\u00f3tese de avisar Michelle, reconheceu a rua onde Cristina come\u00e7ava a parar o carro.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% controlou a express\u00e3o de confus\u00e3o ao reconhecer o jardim da fam\u00edlia %Mackie% se aproximando.<br \/>\n\u2003\u2003O mesmo jardim onde ela havia se encontrado \u00e0s escondidas com %Ryan% diversas vezes.<br \/>\n\u2003\u2003Por que Cristina a levaria ali?<br \/>\n\u2003\u2003Sem dizer nada, Cristina parou o carro de vez e saiu do ve\u00edculo tendo a certeza que %Annie% faria o mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que o fez, %Annie% viu Cristina balan\u00e7ar levemente a cabe\u00e7a para que ela a acompanhasse. Ainda confusa, ela seguiu Cristina que come\u00e7ava a adentrar o jardim um pouco mais a frente e levantou os \u00f3culos at\u00e9 o topo de sua cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Com os bra\u00e7os para tr\u00e1s, Cristina observava o jardim mantendo a postura elegante e impec\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003- Esse jardim costumava ser o ref\u00fagio de %Ryan%. &#8211; a voz de Cristina estava carregada de tanta emo\u00e7\u00e3o que %Annie% se surpreendeu, talvez fosse a primeira vez que ouvia a mulher falar em um tom que n\u00e3o transbordasse raiva ou arrog\u00e2ncia.<br \/>\n\u2003\u2003Tinha uma melancolia que combinava com o clima daquele dia, vento forte, cheiro de chuva, c\u00e9u nublado.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei. &#8211; %Annie% suspirou profundamente assim que Cristina parou diante das flores brancas. &#8211; As favoritas dele.<br \/>\n\u2003\u2003Um sorriso triste se formou em seu rosto ao ser inundada pela lembran\u00e7a e suas palavras fizeram com que Cristina se virasse para encar\u00e1-la com um misto de surpresa e nostalgia.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina parecia chocada, como se n\u00e3o pudesse acreditar que %Annie% soubesse que as tulipas eram as flores preferidas de %Ryan%.<br \/>\n\u2003\u2003Ela respirou fundo e sua express\u00e3o s\u00e9ria, que j\u00e1 era quase uma m\u00e1scara impenetr\u00e1vel, voltou ainda mais r\u00edgida do que antes, como se estivesse se preparando para enfrentar uma tempestade de emo\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina ficou de costas para %Annie%, os ombros r\u00edgidos, mas assim que falou a voz saiu mais humana do que %Annie% jamais ouvira antes.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe quanto eu paguei para a m\u00eddia n\u00e3o cobrir a morte dele?<br \/>\n\u2003\u2003A pergunta vinha seca, sem drama, como se Cristina tivesse ensaiado cada palavra por meses e ainda assim, quando se virou o rosto estava marcado por sulcos de exaust\u00e3o e raiva contida.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% foi pega de surpresa. N\u00e3o sabia exatamente o que esperava ouvir daquela mulher, mas n\u00e3o era isso.<br \/>\n\u2003\u2003O cora\u00e7\u00e3o pulou no peito, piscou mais do que o necess\u00e1rio e as m\u00e3os formigaram de tens\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Entretanto, Cristina n\u00e3o esperou resposta.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 impressionante como qualquer um tem seu pre\u00e7o. Os grandes jornais, as revistas, at\u00e9 os tabloides de quinta. Todos aceitaram. &#8211; ela caminhou ao redor de uma moita de tulipas, afastando distraidamente os galhos com o dorso da m\u00e3o. &#8211; Achei que seria f\u00e1cil, sabe? &#8211; o tom era amargo. &#8211; Mas quando meu filho morreu, eu descobri que n\u00e3o h\u00e1 nada simples em perder algu\u00e9m que voc\u00ea carregou por nove meses. Ou em explicar para os outros por que voc\u00ea n\u00e3o quer virar um espet\u00e1culo.<br \/>\n\u2003\u2003O impacto daquelas palavras deixou %Annie% muda por v\u00e1rios segundos, a l\u00edngua presa no c\u00e9u da boca, o corpo de repente pequeno demais para conter toda aquela dor.<br \/>\n\u2003\u2003Nunca pensou que Cristina tivesse sentimentos parecidos com os seus, nem sequer que fosse capaz de senti-los. Mas ali, diante das flores preferidas de %Ryan%, a fachada daquela mulher parecia ruir bem \u00e0 sua frente de uma forma que jamais tinha sequer imaginado que um dia poderia assistir de perto.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu fiz isso para que n\u00e3o doesse, pelo menos n\u00e3o toda vez que ligasse a televis\u00e3o ou pegasse o jornal. &#8211; Cristina olhou para %Annie% como se a desafiasse a duvidar. &#8211; Ver not\u00edcias, mat\u00e9rias, programas inteiros sobre a morte dele era doloroso demais, e eu sabia que viriam atr\u00e1s de n\u00f3s como abutres famintos. &#8211; uma pausa longa, o olhar se perdeu no c\u00e9u nublado. &#8211; Eu preferi preservar o que tinha restado da nossa fam\u00edlia. Por isso a m\u00eddia n\u00e3o sabia onde foi o funeral. Ningu\u00e9m sabia, exceto talvez meia d\u00fazia de pessoas confi\u00e1veis<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu um gosto amargo na boca, uma pontada de indigna\u00e7\u00e3o misturada com pena.<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo explicava muita coisa, mas n\u00e3o era como se ela tivesse se preocupado com isso na \u00e9poca porque n\u00e3o pensava em nada al\u00e9m de sua dor, ignorou todo o resto.<br \/>\n\u2003\u2003Imaginou o que teria sido para Cristina enterrar a lembran\u00e7a de seu \u00fanico filho &#8211; j\u00e1 que nem ao menos tiveram as cinzas dele de volta -, cercada de seguran\u00e7as e advogados, todos orientados a calar jornalistas e impedir fotos.<br \/>\n\u2003\u2003Odiou a ideia, mas odiou ainda mais a si pr\u00f3pria por entender o impulso de proteger quem se ama, mesmo que isso custe a pr\u00f3pria sanidade.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% quis rir do tr\u00e1gico paralelo entre elas, nunca imaginou que tivesse algo em comum com Cristina mas ali percebeu que naquele momento agia como ela.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% estava tentando salvar a sua filha que estava para nascer enquanto Cristina salvava provavelmente uma das poucas coisas que havia restado de %Ryan%: sua mem\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina fechou os olhos por um instante, puxou o ar como quem luta para n\u00e3o desabar, e voltou a falar.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei o que voc\u00ea deve pensar de mim. Sei que nunca fui a m\u00e3e que ele merecia e menos ainda uma sogra decente. &#8211; a voz falhou, mas ela n\u00e3o se permitiu chorar. &#8211; N\u00e3o foi f\u00e1cil ver meu filho renunciando \u00e0 carreira, do futuro\u2026 &#8211; olhou de relance para %Annie%, os olhos quase brilhando de desafio. &#8211; \u2026 de tudo, por algu\u00e9m que eu nem conhecia direito.<br \/>\n\u2003\u2003<em>Por algu\u00e9m como eu<\/em>, pensou %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003Uma sombra de ressentimento dan\u00e7ou em seu peito, mas ela conteve a l\u00edngua. N\u00e3o queria afastar Cristina agora que pela primeira vez, a mulher mostrava algo al\u00e9m de hostilidade.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o vim aqui te acusar de nada. &#8211; Cristina recome\u00e7ou, a postura de novo dura, mas a voz cada vez mais baixa. &#8211; S\u00f3 quero que saiba que, apesar de tudo, eu respeito a sua dor.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras ecoaram em %Annie%, estranhas e quase absurdas, como se tivessem sido pronunciadas em outro idioma.<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo ela ficou tentada a agradecer, mas percebeu que seria in\u00fatil.<br \/>\n\u2003\u2003- Se a senhora acha que eu quero dinheiro\u2026 &#8211; arriscou %Annie% com um fio de voz, mais para preencher o sil\u00eancio do que por convic\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina ergueu uma das sobrancelhas, o rosto agora sem qualquer afeta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei que voc\u00ea n\u00e3o quer. &#8211; a confiss\u00e3o veio como uma brisa gelada. &#8211; Embora eu n\u00e3o concordasse com o relacionamento de voc\u00eas, eu conhecia meu filho. Se ele estava com voc\u00ea, \u00e9 porque voc\u00ea tem car\u00e1ter.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% n\u00e3o soube como reagir.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o era um elogio, n\u00e3o exatamente, era mais uma constata\u00e7\u00e3o amarga de uma realidade que Cristina nunca conseguiu aceitar enquanto %Ryan% estava vivo, mas era tudo que %Annie% tinha agora.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o pediu para ser aprovada ou perdoada, mas as palavras de Cristina grudaram nela como uma segunda pele.<br \/>\n\u2003\u2003Por um momento, as duas ficaram ali em sil\u00eancio, cercadas pelos resqu\u00edcios de uma vida que j\u00e1 n\u00e3o existia.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina olhava para o jardim como se procurasse rastros do filho, alguma pista de que tudo aquilo n\u00e3o tinha sido em v\u00e3o. %Annie%, por sua vez, sentiu o peso daquela confian\u00e7a involunt\u00e1ria e se pegou pensando no que aconteceria a seguir.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o sei de quem ele herdou isso, talvez do av\u00f4. &#8211; disse Cristina, quase para si mesma. Os olhos estavam vermelhos, mas a postura era ereta. &#8211; Meu pai era assim. Duro, mas justo. Preferia engolir os erros a ter que desculp\u00e1-los em p\u00fablico.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% quis, por um instante, saber o que se passava na cabe\u00e7a de Cristina. Como era crescer sob a tutela de pessoas frias, como era ser obrigada a enterrar todos os sentimentos debaixo de uma camada de orgulho e protocolo.<br \/>\n\u2003\u2003Pensou em perguntar, mas algo no olhar de Cristina a deteve, um aviso silencioso de que havia limites para aquela tr\u00e9gua improv\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003- A senhora n\u00e3o precisava me chamar aqui para isso. &#8211; disse %Annie%, tentando manter a compostura. &#8211; Podia ter mandado uma mensagem, acho que conseguiria achar meu n\u00famero da mesma forma que conseguiu meu endere\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina soltou uma risada curta, sem humor.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea me acha t\u00e3o covarde assim?<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% piscou, surpresa.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o foi o que eu quis dizer.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o? &#8211; Cristina se aproximou, as duas agora separadas por menos de um metro. &#8211; Eu nunca fui boa em dizer essas coisas, %Annie%. &#8211; piscou algumas vezes ao ouvir seu nome sair da boca dela pela primeira vez sem resqu\u00edcio de arrog\u00e2ncia. &#8211; Nunca aprendi a pedir desculpa, a admitir que errei. S\u00f3 vim aqui porque achei que voc\u00ea precisava ouvir da minha boca que, apesar de tudo, voc\u00ea foi importante para ele. &#8211; o sil\u00eancio pesou por um segundo, antes dela acrescentar: &#8211; E para mim, tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003O final da frase caiu como uma tempestade silenciosa sobre %Annie%, que sentiu os olhos arderem.<br \/>\n\u2003\u2003Pensou em %Ryan%, no que ele diria daquela cena, provavelmente ficaria desconfiado com a atitude da m\u00e3e em resolver a situa\u00e7\u00e3o que ela mesma havia criado em um encontro no jardim, o mesmo jardim que ele havia entregado seu cora\u00e7\u00e3o a %Annie% h\u00e1 anos atr\u00e1s.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% mordeu o l\u00e1bio para n\u00e3o rir nem chorar.<br \/>\n\u2003\u2003Parecia t\u00e3o irreal aquilo, como se estivesse vivendo uma cena de um filme.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina ajeitou o \u00f3culos escuro no topo da cabe\u00e7a e ali ficou, encarando %Annie% como quem espera uma senten\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Quando %Ryan% foi at\u00e9 a mans\u00e3o te defender eu n\u00e3o queria ter enxergado o porqu\u00ea. &#8211; Cristina soltou e %Annie% sentiu o corpo paralisar como se tivesse sido picada por um inseto venenoso.<br \/>\n\u2003\u2003Era o qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- O qu\u00ea? &#8211; seu sussurro saiu t\u00e3o fraco que ela nem sabia se a mulher a sua frente ouviu.<br \/>\n\u2003\u2003Mas ao reparar que Cristina engoliu seco, soube que a resposta era positiva.<br \/>\n\u2003\u2003- Depois da temporada que ele passou no hospital, ele foi at\u00e9 a nossa casa com a tip\u00f3ia ainda no bra\u00e7o, eu achei que estava de volta para o lar de onde ele vinha mas foi bem diferente do que eu imaginei. &#8211; ela suspirou, seu olhar agora distante a lembran\u00e7a que rodeava sua cabe\u00e7a. %Annie% nem ao menos respirava. &#8211; A primeira coisa que ele disse foi que n\u00e3o iria abrir m\u00e3o de voc\u00ea, n\u00e3o existia concess\u00e3o. Era isso ou ele sumiria das nossas vidas para sempre.<br \/>\n\u2003\u2003As l\u00e1grimas se formaram pesadas e quentes nos olhos de %Annie%, foi preciso muito controle para que elas n\u00e3o sa\u00edssem junto com o grito que estava engasgado em seu peito.<br \/>\n\u2003\u2003%Ryan% nunca tinha comentado isso com ela. Apenas que ele tinha conversado com os pais e que eles entendiam o relacionamento deles.<br \/>\n\u2003\u2003Nunca imaginou que ele tinha dado um ultimato.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu achei a princ\u00edpio que ele n\u00e3o estava falando s\u00e9rio, mas quando olhei nos olhos dele assim que meu marido o confrontou, eu vi algo que nunca enxerguei antes. &#8211; a voz de Cristina tremeu. &#8211; N\u00e3o era s\u00f3 amor, era tamb\u00e9m confian\u00e7a, seguran\u00e7a, pura e limpa. Meu filho sempre escolheu voc\u00ea e eu demorei para entender isso porque do\u00eda.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% desviou os olhos sentindo o est\u00f4mago revirar, ela poderia vomitar ali e agora se tivesse for\u00e7a para isso, uma l\u00e1grima solit\u00e1ria caiu e ela a secou brevemente com \u00f3dio.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o queria chorar. N\u00e3o queria que aquela conversa a afetasse tanto.<br \/>\n\u2003\u2003Mas seria mentira se dissesse que aquilo n\u00e3o tinha feito seu cora\u00e7\u00e3o aquecer, que n\u00e3o sentia o amor de %Ryan% preencher cada poro de seu corpo.<br \/>\n\u2003\u2003O vento soprou entre os galhos e pela primeira vez %Annie% entendeu que Cristina n\u00e3o era apenas a vil\u00e3 de sua hist\u00f3ria, era tamb\u00e9m uma m\u00e3e de luto, uma mulher soterrada por expectativas e obriga\u00e7\u00f5es, talvez ela nunca tivesse reconhecido o sentimento que %Ryan% tinha por %Annie% porque nunca havia vivenciado plenamente.<br \/>\n\u2003\u2003Respirou fundo, esqueceu as dores antigas e tentou focar no presente.<br \/>\n\u2003\u2003- O que a senhora realmente quer? &#8211; perguntou hesitante, tentando esconder a incerteza em sua voz.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina parecia ter uma tempestade acima de sua cabe\u00e7a, como se estivesse prestes a lan\u00e7ar uma torrente de palavras, mas sem saber por onde come\u00e7ar.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o vim at\u00e9 aqui para pedir que sejamos amigas.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina disse isso sem rodeios, a voz cortante. %Annie% notou o jeito como seus dedos se entrela\u00e7aram \u00e0 frente do corpo, as articula\u00e7\u00f5es ficaram brancas, e percebeu que aquela mulher estava travando uma guerra silenciosa n\u00e3o s\u00f3 com ela, mas tamb\u00e9m com o pr\u00f3prio orgulho.<br \/>\n\u2003\u2003Se estava sendo dif\u00edcil para %Annie% manter uma conversa com ela por mais de cinco minutos, imaginava como estava sendo dif\u00edcil para ela ter que ficar ali, abrindo feridas na frente dela, tentando explicar que ela tamb\u00e9m tinha um cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Que, embora n\u00e3o tenha dito em voz alta, ela tenha errado.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% cruzou os bra\u00e7os, um gesto quase infantil de quem se blinda contra um ataque que j\u00e1 espera, mas tamb\u00e9m de quem quer sinalizar ao outro que n\u00e3o est\u00e1 completamente \u00e0 merc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003- Nem acho que isso seja poss\u00edvel um dia. &#8211; respondeu, com uma franqueza inesperada.<br \/>\n\u2003\u2003Parte de si queria acreditar que no futuro aquela tr\u00e9gua poderia evoluir para uma conviv\u00eancia menos hostil, mas o passado pulsava entre elas como uma ferida aberta.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o podia simplesmente piscar e esquecer tudo o que havia escutado, tudo o que aquela mulher havia feito.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, um sorriso torto surgindo por um segundo.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 igualzinha ao %Ryan% nessas horas. N\u00e3o sabe esconder nada.<br \/>\n\u2003\u2003A frase pairou no ar como uma ben\u00e7\u00e3o amarga e %Annie% sentiu o peito se contrair. Quase agradeceu \u00e0 sogra pelo elogio velado, mas n\u00e3o se permitiu ceder ao sentimentalismo.<br \/>\n\u2003\u2003J\u00e1 Cristina, mudou o peso do corpo e olhou para baixo, para as m\u00e3os que repousavam \u00e0 frente, os dedos tamborilando lentamente uma melodia invis\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei que esse beb\u00ea \u00e9 do %Ryan%.<br \/>\n\u2003\u2003O golpe veio seco, sem prepara\u00e7\u00e3o, e apesar de %Annie% j\u00e1 esperar por isso, ouvir a afirma\u00e7\u00e3o em voz alta foi como se algu\u00e9m tivesse arrancado um esparadrapo de uma ferida ainda fresca.<br \/>\n\u2003\u2003Ela olhou para a barriga, como se ali pudesse encontrar uma resposta definitiva e ent\u00e3o ergueu o queixo, encarando Cristina com determina\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Angelina.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina franziu o cenho, claramente perdida.<br \/>\n\u2003\u2003- O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- O nome da nossa filha. \u00c9 Angelina.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina ficou paralisada por um instante, os olhos marejados de uma emo\u00e7\u00e3o que ela n\u00e3o com certeza n\u00e3o iria nomear.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sempre quis ter uma menina. &#8211; murmurou, a voz t\u00e3o baixa que %Annie% precisou se aproximar um passo para ouvir. &#8211; Engra\u00e7ado, nunca disse isso nem para o %Ryan%.<br \/>\n\u2003\u2003Por um momento, as duas compartilharam um sil\u00eancio carregado, %Annie% se sentiu estranhamente bem ouvindo um segredo de Cristina, era como se estivesse conhecendo a mulher pela primeira vez.<br \/>\n\u2003\u2003Vulner\u00e1vel e diferente do primeiro embate que tiveram.<br \/>\n\u2003\u2003- Infelizmente, n\u00e3o nasci com o dom para ser m\u00e3e. &#8211; completou Cristina, agora com um sorriso t\u00edmido, feito de tristeza e autodeprecia\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ela piscou afastando as l\u00e1grimas em uma velocidade impressionante e ajeitou os \u00f3culos escuros que j\u00e1 n\u00e3o escondia mais nada.<br \/>\n\u2003\u2003- Estou aqui para garantir que n\u00e3o irei mais perturb\u00e1-la, mas \u00e9 tudo o que posso oferecer.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras sa\u00edram quase como um pedido de desculpas, ainda que torto e orgulhoso.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu os ombros relaxarem, mas o al\u00edvio n\u00e3o veio sozinho. Era um al\u00edvio contaminado por d\u00favidas, por lembran\u00e7as de todas as vezes em que Cristina se preparava para pisar nela como um inseto.<br \/>\n\u2003\u2003Confiar nela seria imposs\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 o suficiente pra mim. &#8211; disse, tentando convencer a si mesma tanto quanto convencer Cristina.<br \/>\n\u2003\u2003A sogra soltou uma risada seca que ecoou pelo jardim como o som de uma ta\u00e7a trincada.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso nunca \u00e9 suficiente para ningu\u00e9m, %Annie%. Nem para voc\u00ea, nem para mim.<br \/>\n\u2003\u2003Houve ali um convite para a sinceridade e %Annie% percebeu que Cristina queria mais do que tudo ser reconhecida em sua humanidade falha.<br \/>\n\u2003\u2003Era quase como se ela estivesse implorando para ser vista al\u00e9m de sua prepot\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003- Entretanto, se um dia voc\u00ea e consequentemente Angelina estiverem em perigo, basta um telefonema e eu farei o que puder.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina mexeu no bolso da cal\u00e7a de alfaiataria e tirou um cart\u00e3o, estendendo para %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003A promessa foi dita de tal forma que %Annie% n\u00e3o soube se devia se sentir protegida ou amea\u00e7ada.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que est\u00e1 fazendo isso? &#8211; indagou, sem conseguir conter a inquieta\u00e7\u00e3o enquanto receosa levantava a m\u00e3o para pegar o cart\u00e3o. &#8211; Fala como se fosse inevit\u00e1vel que eu v\u00e1 correr perigo.<br \/>\n\u2003\u2003Os olhos de %Annie% correram brevemente pelo telefone no cart\u00e3o e logo voltou a encarar Cristina que deu de ombros.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 ing\u00eanua, %Annie%. O que acha que seu noivado com algu\u00e9m como o Walker ir\u00e1 trazer?<br \/>\n\u2003\u2003A men\u00e7\u00e3o ao novo noivo foi como um soco no est\u00f4mago. %Annie% sentiu como se de repente todos os seus segredos tivessem sido postos \u00e0 mesa e ela sabia que n\u00e3o havia motivo porque era essa a sua mais nova denomina\u00e7\u00e3o. <em>Noiva de Walker.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003Mas por algum motivo, algo no tom dela fez %Annie% vacilar.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina n\u00e3o parou, dessa vez tinha uma cautela beirando a cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003- O Walker n\u00e3o \u00e9 um homem comum. N\u00e3o sei se voc\u00ea percebeu, mas ele faz parte de uma engrenagem que engole gente como voc\u00ea sem nem mastigar. &#8211; a cada palavra, Cristina cravava os olhos nos de %Annie%, quase como se tentasse hipnotiz\u00e1-la. &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 envolvida num jogo que nunca vai entender completamente. E, nesse jogo, mulheres gr\u00e1vidas de herdeiros indesejados acabam desaparecendo.<br \/>\n\u2003\u2003O sangue gelou nas veias de %Annie%, mas ela resistiu ao impulso de recuar.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso \u00e9 uma amea\u00e7a?<br \/>\n\u2003\u2003Cristina sorriu de forma enigm\u00e1tica.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 um aviso.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o preciso da sua prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina gargalhou, desta vez com genu\u00edno espanto.<br \/>\n\u2003\u2003- Precisa, sim. E vai precisar ainda mais quando perceber que, em nome do amor, voc\u00ea abriu m\u00e3o de todas as suas defesas. &#8211; ela se inclinou, apoiando as m\u00e3os nos joelhos, e olhou %Annie% nos olhos de novo: &#8211; Eu n\u00e3o estou dizendo que o Walker vai te fazer mal. Mas ele n\u00e3o hesitaria em sacrificar voc\u00ea se fosse preciso para manter o pr\u00f3prio poder.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% franziu a testa. Algo naquele enigma a deixou encucada, desde quando Cristina conhecia Walker?<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea fala como se me conhecesse melhor do que eu mesma.<br \/>\n\u2003\u2003Cristina ficou pensativa por um momento.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu conhe\u00e7o homens assim desde crian\u00e7a, %Annie%. Eles parecem protetores, mas s\u00e3o predadores.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu o corpo inteiro formigar, como se cada c\u00e9lula estivesse prestes a se rebelar contra ela mesma.<br \/>\n\u2003\u2003Engoliu seco, tentando processar tudo o que ouvira, tudo o que havia feito era tentar proteger quem mais amava e sabia que iria lidar com tal decis\u00e3o pelo resto de sua vida.<br \/>\n\u2003\u2003Mas ouvir aquilo de Cristina a fez duvidar se havia tomado a decis\u00e3o certa, escutar de pessoas pr\u00f3ximas era uma coisa, agora de uma pessoa que at\u00e9 ontem a odiava?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o quero acreditar que o Walker seja esse tipo de homem.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o fique atenta. &#8211; Cristina colocou os \u00f3culos escuro de volta no rosto e finalmente se virou, preparando-se para deixar o jardim. &#8211; Eu dormiria com um olho aberto se fosse voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% ficou paralisada, a m\u00e3o inconscientemente repousando sobre a barriga. A brisa pareceu atravessar sua espinha e por um momento ela pensou em %Ryan%, nos olhos acolhedores que iriam envolver %Annie% antes mesmo de seus bra\u00e7os para tirar qualquer sombra de d\u00favida que tivesse pairado sobre ela por causa daquela cena, e tamb\u00e9m no Walker, nos sil\u00eancios calculados e na gentileza que agora parecia, \u00e0 luz das palavras de Cristina, um dinamite prestes a explodir.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se virou para encarar Cristina pela \u00faltima vez, mas a mulher j\u00e1 deixava o jardim a passos r\u00e1pidos.<br \/>\n\u2003\u2003Completamente confusa pelo que ouvira, %Annie% saiu do jardim quase trope\u00e7ando no pr\u00f3prio p\u00e9, os pensamentos rodando em c\u00edrculos t\u00e3o velozes que a paisagem ao redor parecia perder o foco.<br \/>\n\u2003\u2003S\u00f3 se deu conta de que estava sem carteira e, portanto, sem dinheiro quando j\u00e1 havia caminhado metade do quarteir\u00e3o e o vento levantava o cabelo em redemoinhos.<br \/>\n\u2003\u2003Parou na esquina, tentando puxar o ar de volta para dentro do peito. Pegou o celular do bolso da cal\u00e7a e com os dedos tr\u00eamulos abriu o aplicativo de corridas.<br \/>\n\u2003\u2003O Uber demoraria sete minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Ela digitou o endere\u00e7o de casa quase no piloto autom\u00e1tico, sem saber direito se queria mesmo voltar para seu lar ou se preferia rodar em c\u00edrculos pela cidade at\u00e9 o sol sumir.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, pensou em ligar para %Ryan%, o impulso t\u00e3o absurdo quase a fez rir.<br \/>\n\u2003\u2003Ele nunca mais atenderia.<br \/>\n\u2003\u2003Pensou em Michelle, pensou no Walker, pensou em Angelina. E, no fundo, pensou em Cristina.<br \/>\n\u2003\u2003De uma coisa precisava admitir, n\u00e3o era daquele jeito que tinha imaginado o seu final de ano.<br \/>\n\u2003\u2003O carro chegou em cinco minutos, antes do previsto, e subiu na cal\u00e7ada para fazer o retorno. %Annie% entrou no banco de tr\u00e1s, agradecida pela pressa, e passou o trajeto inteiro olhando pela janela para a paisagem borrada da cidade.<br \/>\n\u2003\u2003O motorista perguntou se ela queria m\u00fasica e ela negou. Queria sil\u00eancio. Precisava de sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003Quando chegou ao endere\u00e7o, respirou fundo com a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a tomando conta de seu corpo.<br \/>\n\u2003\u2003Desceu do carro, agradeceu mecanicamente enquanto colocava o celular no bolso da cal\u00e7a e s\u00f3 percebeu uma presen\u00e7a inesperada quando levantou a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Uma silhueta alta, im\u00f3vel, encostada no batente da porta de entrada, bra\u00e7os cruzados, como se estivesse aguardando h\u00e1 uma eternidade do lado de fora.<br \/>\n\u2003\u2003O susto a fez parar de s\u00fabito, o cora\u00e7\u00e3o saltando numa batida.<br \/>\n\u2003\u2003Walker estava ali.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o de uniforme, mas em roupas civis, uma camisa social azul escura, cal\u00e7a jeans preta, um sobretudo leve cobrindo os ombros largos.<br \/>\n\u2003\u2003O cabelo bem penteado, as fei\u00e7\u00f5es duras suavizadas por uma express\u00e3o de fadiga, ou talvez s\u00f3 pelo inc\u00f4modo de ter sido ignorado.<br \/>\n\u2003\u2003Ele tinha mandado v\u00e1rias mensagens nos \u00faltimos dias, mas ela ignorou boa parte delas, n\u00e3o estava com cabe\u00e7a para manter uma conversa animada com Walker quando a \u00faltima coisa que sentia era anima\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% percebeu num relance que havia olheiras escuras sob os olhos do Major, como se ele n\u00e3o dormisse h\u00e1 dias.<br \/>\n\u2003\u2003Durante um longo segundo os dois ficaram se encarando, o muro invis\u00edvel de tudo o que n\u00e3o conseguiam dizer crescendo cada vez mais.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu raiva. Raiva de si mesma, de Cristina, do pr\u00f3prio Walker.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o queria aquele confronto, n\u00e3o agora, n\u00e3o queria mais ningu\u00e9m no seu mundo pelo resto do dia, mas ali estava ele como um lembrete de que suas escolhas sempre iriam assombr\u00e1-la, n\u00e3o importa o quanto tentasse fugir de cada uma delas.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o sabia se estava realmente preparada para despejar em Walker tudo o que se acumulava desde os \u00faltimos dias. Havia tanto a dizer, tanto a ser vomitado para fora, que seu corpo inteiro se contra\u00eda na tentativa de prender as palavras.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% percebeu que s\u00f3 agora, depois de tanto fugir, faltava coragem para encarar o Major. Olhos dele t\u00e3o atentos, t\u00e3o \u00e0 espreita, que cada movimento dela parecia um erro prestes a ser apontado e julgado.<br \/>\n\u2003\u2003Aquela raiva que havia sentido antes, de que o obrigaria a falar tudo o que ela sentia que ele estava escondendo, deu espa\u00e7o a inseguran\u00e7a e ao medo.<br \/>\n\u2003\u2003- Major, o que faz aqui? &#8211; a voz saiu inst\u00e1vel, hesitante, quase infantil. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o ia voltar s\u00f3 na pr\u00f3xima semana?<br \/>\n\u2003\u2003Walker demorou um segundo para responder.<br \/>\n\u2003\u2003Era de se esperar que ele fosse direto ao ponto, mas talvez nem ele soubesse como iniciar aquele confronto.<br \/>\n\u2003\u2003- Antecipei a volta. Tive que resolver umas pend\u00eancias com o comando, mas&#8230; &#8211; calou-se, a frase suspensa no ar como se procurasse as palavras certas. &#8211; Precisava falar com voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Ele parecia exausto, os olhos fundos como trincheiras, mas sustentou o olhar de %Annie% at\u00e9 que ela sentisse as pernas vacilarem, prevendo algo ruim.<br \/>\n\u2003\u2003- Tem algum problema? &#8211; ela avan\u00e7ou um passo com as m\u00e3os tr\u00eamulas junto ao corpo.<br \/>\n\u2003\u2003Walker baixou a cabe\u00e7a, vasculhando o ch\u00e3o de pedras antes de encarar %Annie% de novo.<br \/>\n\u2003\u2003- Uma editora chefe da OK Magazine entrou em contato comigo. &#8211; disse, sem rodeios. &#8211; Querem fazer uma exclusiva conosco.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% demorou para processar a not\u00edcia. Sentiu o est\u00f4mago revirar e a primeira rea\u00e7\u00e3o foi negar, desacreditar, torcer para que fosse apenas um blefe ou mal-entendido t\u00edpico da imprensa marrom.<br \/>\n\u2003\u2003- Por qu\u00ea? &#8211; a pergunta saiu sem \u00eanfase, quase sussurrada.<br \/>\n\u2003\u2003- Acho que algu\u00e9m ouviu a nossa conversa com a Cristina na festa. Talvez algum funcion\u00e1rio, talvez a pr\u00f3pria assessoria dela. J\u00e1 n\u00e3o importa. Eles sabem.<br \/>\n\u2003\u2003O sangue pareceu fugir do rosto de %Annie%. Ficou ali parada, sentindo o vento gelado chicotear o rosto e a promessa de uma humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica cada vez mais pr\u00f3xima.<br \/>\n\u2003\u2003Era s\u00f3 o que faltava.<br \/>\n\u2003\u2003- Droga!<br \/>\n\u2003\u2003Walker soltou um leve suspiro, uma esp\u00e9cie de riso amargo.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei que n\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea queria, mas pode ser bom.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom? &#8211; ela perguntou levantando uma sobrancelha, sem conseguir acompanhar o racioc\u00ednio.<br \/>\n\u2003\u2003- Para convencer todo mundo. &#8211; ele deu de ombros, como se aquilo fosse \u00f3bvio. &#8211; Se mostrarmos seguran\u00e7a, n\u00e3o vai sobrar espa\u00e7o para especula\u00e7\u00e3o ou para d\u00favidas.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% n\u00e3o conseguia se convencer. Imaginava a pr\u00f3pria imagem estampada em portais de fofoca, nas redes sociais, as vers\u00f5es distorcidas da pr\u00f3pria exist\u00eancia circulando a cada clique, os coment\u00e1rios, os julgamentos de quem era alimentado por esse tipo de fofoca barata e desnecess\u00e1ria.<br \/>\n\u2003\u2003Passou a m\u00e3o pelo rosto, sentindo os ombros cada vez mais pesados.<br \/>\n\u2003\u2003- Claro &#8211; murmurou, sem qualquer entusiasmo. &#8211; Vai ser \u00f3timo.<br \/>\n\u2003\u2003Walker identificou o sarcasmo, mas preferiu ignorar.<br \/>\n\u2003\u2003- Podemos marcar na mans\u00e3o da minha fam\u00edlia. &#8211; falou de forma despretensiosa. &#8211; Acho o loft pequeno para o tipo de mat\u00e9ria que eles querem fazer.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c9 claro que era. Ela mordeu o l\u00e1bio para n\u00e3o deixar o sorriso ir\u00f4nico escapar.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo bem. &#8211; %Annie% respondeu, embora a express\u00e3o de consentimento s\u00f3 tivesse sa\u00eddo para n\u00e3o estender o assunto.<br \/>\n\u2003\u2003O que mais poderia fazer? Se negassem para a imprensa, a mat\u00e9ria sairia de qualquer jeito, s\u00f3 que eles n\u00e3o teriam controle da narrativa. E a fofoca se espalharia como um v\u00edrus.<br \/>\n\u2003\u2003Tudo o que ela queria evitar.<br \/>\n\u2003\u2003Ela encarou Walker e observou a contra\u00e7\u00e3o lenta da mand\u00edbula, o piscar met\u00f3dico, a forma como ele mexia os ombros desconfortavelmente.<br \/>\n\u2003\u2003- Por que voc\u00ea n\u00e3o me contou sobre a transfer\u00eancia do Connor? &#8211; as palavras sa\u00edram afiadas, bem diferente do que deveria ter sido, uma pergunta simples e n\u00e3o um ataque.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% nem ao menos conseguiu controlar as palavras, quando percebeu j\u00e1 tinha dito em voz alta.<br \/>\n\u2003\u2003Walker levou meio segundo para processar.<br \/>\n\u2003\u2003A primeira rea\u00e7\u00e3o foi reflexiva, quase de autodefesa. Os ombros se enrijeceram, a respira\u00e7\u00e3o mudou de padr\u00e3o e os olhos por um instante ficaram vidrados.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o foi uma decis\u00e3o minha, %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o acreditou.<br \/>\n\u2003\u2003- Como n\u00e3o? Voc\u00ea comanda a equipe alfa, tudo passa pelo seu crivo. &#8211; sentiu o sangue subir ao rosto, n\u00e3o pela f\u00faria, mas pela suspeita de estar sendo tratada como algu\u00e9m incapaz de entender o que realmente se passava.<br \/>\n\u2003\u2003- Nem tudo. &#8211; agora o tom dele era moderado, quase neutro.<br \/>\n\u2003\u2003Mas %Annie% notou a forma como ele desviava o olhar, preferindo mirar os pr\u00f3prios sapatos ou o ponto logo acima da cabe\u00e7a dela.<br \/>\n\u2003\u2003Prote\u00e7\u00e3o? Fuga? Hesita\u00e7\u00e3o? Ela n\u00e3o sabia qual ele estava esbo\u00e7ando enquanto lutava para n\u00e3o a encarar nos olhos.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o foi ordem de quem? &#8211; %Annie% queria acreditar que era s\u00f3 curiosidade, mas sabia que era muito mais do que aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003- Diretoria de Opera\u00e7\u00f5es e Contrapropaganda. &#8211; Walker soou mais formal do que nunca, como se recitasse um comunicado oficial.<br \/>\n\u2003\u2003- E voc\u00ea s\u00f3 acata?<br \/>\n\u2003\u2003Ele hesitou, rolando a l\u00edngua pelo c\u00e9u da boca antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c0s vezes, sim.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu vontade de rir, mas era um riso de esc\u00e1rnio, quase desprezo.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o estamos na base. Pode guardar o protocolo, Walker. &#8211; disse e imediatamente se arrependeu porque viu nos olhos dele a fa\u00edsca de m\u00e1goa, quase impercept\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003%Ryan% raramente falava de Walker, ent\u00e3o ela sempre teve uma vis\u00e3o distante do homem, e nas poucas vezes foi o irm\u00e3o que com menos tato, dizia que &#8220;<em>o Walker era uma fortaleza cercada de minas terrestres, at\u00e9 o terreno baldio \u00e9 letal<\/em>.&#8221;<br \/>\n\u2003\u2003A pausa se alongou carregada e %Annie% s\u00f3 percebeu que estava tremendo quando Walker finalmente ergueu a cabe\u00e7a e estendeu o bra\u00e7o, como se quisesse tocar nela, mas segurou o gesto a meio caminho.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o quero discutir isso na cal\u00e7ada. &#8211; falou num tom que era quase pedido de desculpas, quase ordem.<br \/>\n\u2003\u2003- Ent\u00e3o n\u00e3o discute. &#8211; rebateu %Annie%, mas as palavras perderam for\u00e7a ao atravessar o ar frio.<br \/>\n\u2003\u2003Walker ficou alguns segundos em sil\u00eancio, depois balan\u00e7ou a cabe\u00e7a devagar.<br \/>\n\u2003\u2003- Connor foi transferido porque ser\u00e1 muito mais \u00fatil l\u00e1 do que aqui. &#8211; disse Walker e dessa vez a voz saiu num fio \u00e1spero, praticamente um desabafo.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu a frase ricochetear dentro do peito e o primeiro reflexo foi de recuo.<br \/>\n\u2003\u2003Era injusto atribuir culpa s\u00f3 a ele, mas era mais f\u00e1cil.<br \/>\n\u2003\u2003A raiva era uma armadura c\u00f4moda e simples de vestir, mas tudo o que ela conseguia pensar era que nada daquilo deveria estar acontecendo com nenhum deles, a equipe alfa n\u00e3o merecia aquilo, suas amigas n\u00e3o mereciam aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003- E voc\u00ea fez o qu\u00ea? &#8211; dessa vez n\u00e3o havia hesita\u00e7\u00e3o nem filtro, apenas a pergunta crua, como se %Annie% precisasse arrancar uma confiss\u00e3o para enfim perdoar.<br \/>\n\u2003\u2003Walker apertou os olhos e no contorno do rosto ela viu o tra\u00e7o do cansa\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Olheiras grossas, linhas novas na testa, um ranger de maxilar que parecia acionar centenas de mem\u00f3rias.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o respondeu de imediato, buscando as palavras no pr\u00f3prio sil\u00eancio at\u00e9 que riu amargo.<br \/>\n\u2003\u2003- Defendi o que pude.<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo soou falso, burocr\u00e1tico, autom\u00e1tico e %Annie% n\u00e3o disfar\u00e7ou a incredulidade.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o pareceu. &#8211; retrucou, a voz subindo meio tom.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio que se seguiu pesou, Walker respirou fundo, como se reunisse argumentos para uma audi\u00eancia militar, os dedos brancos de tanta for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei que n\u00e3o, %Annie%. &#8211; s\u00f3 ent\u00e3o ergueu o olhar e ela percebeu nos olhos dele que n\u00e3o havia s\u00f3 exaust\u00e3o, mas um tipo de vergonha contida, como se Walker de repente n\u00e3o soubesse mais como medir as pr\u00f3prias falhas. &#8211; Mas dessa vez n\u00e3o era comigo. O nome do Connor j\u00e1 estava na lista quando eu cheguei na sala.<br \/>\n\u2003\u2003- Eles n\u00e3o tomam decis\u00f5es assim sem o seu aval. &#8211; ela contra-atacou agora mais baixo, como se temesse que algum vizinho pudesse ouvir. &#8211; Sempre dizem que voc\u00ea \u201cblinda\u201d os seus.<br \/>\n\u2003\u2003Walker sorriu, mas o gesto era rob\u00f3tico.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu blindo at\u00e9 o limite do poss\u00edvel. &#8211; respondeu e deu um passo para tr\u00e1s, distanciando o corpo. &#8211; Mas quando o comando quer fechar uma porta, ningu\u00e9m for\u00e7a a entrada. Nem eu.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% engoliu seco, parte contrariada, parte ainda incr\u00e9dula.<br \/>\n\u2003\u2003Tinha alguma coisa nos olhos dele que a fazia recuar, como se n\u00e3o tivesse coragem para acreditar que tinha sido exatamente assim.<br \/>\n\u2003\u2003Parecia at\u00e9 que Walker estava desistindo de sua equipe sem lutar.<br \/>\n\u2003\u2003Era t\u00e3o diferente de\u2026<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% balan\u00e7ou a cabe\u00e7a antes que a compara\u00e7\u00e3o pudesse vir com mais for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- E o que vai acontecer com ele? &#8211; perguntou, tentando minimizar o tremor na voz.<br \/>\n\u2003\u2003- Vai para o Centro de Opera\u00e7\u00f5es Especiais. J\u00e1 saiu do contingente da cidade. &#8211; Walker explicou, agora soando mais protocolar do que nunca. &#8211; L\u00e1 pelo menos n\u00e3o vai ser exposto igual estava aqui.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, inconformada.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea fala como se fosse motivo de orgulho.<br \/>\n\u2003\u2003Walker hesitou e s\u00f3 depois de alguns segundos respondeu.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9. Mas \u00e9 melhor do que o destino da maioria.<br \/>\n\u2003\u2003Por um instante, os dois permaneceram im\u00f3veis, sem querer adentrar mais a fundo naquele assunto t\u00e3o delicado.<br \/>\n\u2003\u2003Walker sabia que %Annie% n\u00e3o estava satisfeita e ela sabia que ele n\u00e3o diria exatamente o que ela queria ouvir.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% percebeu que estava apertando o pr\u00f3prio punho com tanta for\u00e7a que os dedos dormentes chegavam a doer. Olhou para o ch\u00e3o tentando se recompor e foi ent\u00e3o que Walker numa gentileza inesperada, quebrou a dist\u00e2ncia e pousou uma m\u00e3o leve no ombro dela.<br \/>\n\u2003\u2003O gesto era hesitante, como se pedisse permiss\u00e3o para tal ato, e %Annie% sentiu a tens\u00e3o do corpo se transformar em confus\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ela nem sabia se devia permitir ou afastar o Major.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o deveria ter vindo. &#8211; Walker murmurou, quase s\u00f3 para si. &#8211; N\u00e3o hoje, n\u00e3o desse jeito.<br \/>\n\u2003\u2003Ele afastou a m\u00e3o rapidamente, nem ao menos teve tempo para que o gesto aquecesse %Annie%, fazendo-a se sentir ligeiramente mal por isso.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o queria que a culpa o corrompesse, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sabia o que deveria dizer para amenizar aquela situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Tinha imaginado um cen\u00e1rio bem diferente para aquela discuss\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio seguinte n\u00e3o era mais hostil, s\u00f3 resignado. %Annie% percebeu que n\u00e3o havia nada a confessar, nada a resolver.<br \/>\n\u2003\u2003O abismo entre eles talvez nunca se fechasse, mas pelo menos era um abismo compartilhado.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o vou te incomodar mais. &#8211; Walker anunciou, ajeitando os punhos da camisa sob o sobretudo. &#8211; S\u00f3 queria que voc\u00ea soubesse&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003Parou, o resto da frase morrendo no ar.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% teve a impress\u00e3o de que ele queria pedir desculpas. Ou talvez s\u00f3 perguntar se ainda havia alguma chance.<br \/>\n\u2003\u2003Mas como sempre optou pelo sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003Walker ficou ali por mais alguns segundos, como se esperasse que ela tomasse alguma iniciativa, ou talvez s\u00f3 quisesse prolongar o contato para al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o protocolar que se tornava rotineira.<br \/>\n\u2003\u2003- Sei que tudo isso parece uma loucura. &#8211; acrescentou, baixando o tom de voz. &#8211; Mas eu quero, de verdade, que d\u00ea certo.<br \/>\n\u2003\u2003- Que d\u00ea certo o qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00f3s. &#8211; ele hesitou. &#8211; Voc\u00ea, eu, a crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% quis acreditar nessa possibilidade. Quis se projetar em algum futuro em que tudo aquilo n\u00e3o fosse apenas um arranjo de conveni\u00eancia, mas uma escolha real, sustentada por afeto e n\u00e3o por expectativas alheias.<br \/>\n\u2003\u2003Mas n\u00e3o conseguiu, por isso suspirou cansada.<br \/>\n\u2003\u2003- Preciso entrar. &#8211; falou seca, cortando a conversa.<br \/>\n\u2003\u2003Walker assentiu, mas antes de sair tocou de leve o bra\u00e7o dela, gesto r\u00e1pido, quase involunt\u00e1rio, como se quisesse transmitir alguma coisa que n\u00e3o podia ser dita em voz alta.<br \/>\n\u2003\u2003- Me liga se quiser conversar. &#8211; disse e virou as costas, caminhando para longe com o mesmo passo impec\u00e1vel com que marcharia para uma batalha.<br \/>\n\u2003\u2003Nem ao menos deu espa\u00e7o para ela responder e %Annie% at\u00e9 agradeceu mentalmente porque ela n\u00e3o sabia o que dizer.<br \/>\n\u2003\u2003Entrou em casa sentindo o peito apertar, o f\u00f4lego perdido, como se tivesse acabado de correr uma maratona sobre estilha\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003Percebeu que estava tremendo tanto que as chaves ca\u00edram duas vezes antes de acertar a fechadura.<br \/>\n\u2003\u2003L\u00e1 dentro, se jogou no sof\u00e1 sem acender a luz, preferindo o breu ao espet\u00e1culo das pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003O celular vibrou com uma notifica\u00e7\u00e3o: uma mensagem de Michelle. %Annie% leu, mas n\u00e3o respondeu.<br \/>\n\u2003\u2003Deitou-se encolhida, abra\u00e7ada ao pr\u00f3prio corpo, tentando reconciliar a ideia de \u201cfam\u00edlia\u201d que Walker lhe oferecia com a antecipa\u00e7\u00e3o do desastre anunciado por Cristina.<br \/>\n\u2003\u2003Se sentia dividida entre dois ex\u00e9rcitos, nenhum dos quais oferecia tr\u00e9gua, apenas demandas e cobran\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003E tamb\u00e9m novas cicatrizes.<\/p>\n<p align=\"center\">[&#8230;]<\/p>\n<p>\u2003\u2003%Annie% abriu os olhos ao som de fogos de artif\u00edcio distantes. Por um momento, ficou desorientada, sem saber onde estava. O quarto estava escuro, exceto pela luz que se infiltrava por baixo da porta.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se ergueu nos cotovelos, tentando focar a vis\u00e3o. A casa dos pais. V\u00e9spera de Ano Novo.<br \/>\n\u2003\u2003Havia cochilado depois de passar a tarde toda ajudando nos preparativos para a festa. A fam\u00edlia inteira estaria reunida novamente, com exce\u00e7\u00e3o de Joe. Pelo menos Michelle estava ali para preencher um pouco o vazio deixado pelo irm\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentou-se na cama, esfregando os olhos. A barriga j\u00e1 proeminente parecia pesar uma tonelada.<br \/>\n\u2003\u2003Angelina estava agitada hoje, mexendo como se tamb\u00e9m estivesse ansiosa para a virada do ano.<br \/>\n\u2003\u2003Ela checou o celular. <em>21:48<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Os convidados chegariam em breve. Tios, primos, alguns vizinhos pr\u00f3ximos. Uma reuni\u00e3o pequena, mas suficiente para fazer seu est\u00f4mago apertar com a antecipa\u00e7\u00e3o de ter que responder perguntas sobre sua gravidez, sobre Walker, sobre o noivado que agora estava estampado em revistas de fofoca.<br \/>\n\u2003\u2003Depois daquela conversa com Cristina e o encontro com Walker na porta de casa, %Annie% sentia-se constantemente \u00e0 beira de um abismo.<br \/>\n\u2003\u2003As palavras de Cristina ecoavam em sua mente.<br \/>\n\u2003\u2003<em>&#8220;Voc\u00ea est\u00e1 envolvida num jogo que nunca vai entender completamente<\/em>.&#8221;<br \/>\n\u2003\u2003E Walker com sua proposta de entrevista s\u00f3 confirmava que sua vida particular agora era assunto de dom\u00ednio p\u00fablico.<br \/>\n\u2003\u2003Com um suspiro cansado, %Annie% levantou-se e foi at\u00e9 o espelho. Seu reflexo mostrava olheiras profundas que nem o melhor corretivo conseguiria disfar\u00e7ar.<br \/>\n\u2003\u2003Ela passou as m\u00e3os pelo vestido branco que havia escolhido para a ocasi\u00e3o, um dos poucos que ainda cabiam confortavelmente em sua silhueta modificada pela gravidez.<br \/>\n\u2003\u2003- Vamos l\u00e1, %Annie%. &#8211; murmurou para si mesma. &#8211; \u00c9 s\u00f3 mais uma noite.<br \/>\n\u2003\u2003O corredor estava iluminado quando ela saiu do quarto.<br \/>\n\u2003\u2003O cheiro de comida caseira impregnava o ar, o pernil assado de sua m\u00e3e, batatas gratinadas, aquele molho especial que Sandra fazia apenas em ocasi\u00f5es especiais.<br \/>\n\u2003\u2003Ao descer as escadas, %Annie% viu Michelle na base, o corpo esguio encostado ao corrim\u00e3o, os olhos fixos no celular. Ela ergueu o olhar quando ouviu os passos de %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003- Ah, voc\u00ea acordou. &#8211; Michelle sorriu, guardando o celular no bolso do vestido azul-marinho. &#8211; Sua m\u00e3e estava preocupada. Disse que voc\u00ea n\u00e3o dorme t\u00e3o profundamente desde crian\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% tentou sorrir, mas seus l\u00e1bios pareciam pesados demais.<br \/>\n\u2003\u2003A cabe\u00e7a ainda estava nublada pelo sono e pelas preocupa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o a abandonavam nem durante os sonhos.<br \/>\n\u2003\u2003- Quanto tempo dormi?<br \/>\n\u2003\u2003- Umas duas horas. Seu pai quase entrou para te acordar, mas Sandra n\u00e3o deixou. &#8211; Michelle olhou para o rel\u00f3gio. &#8211; Os convidados j\u00e1 est\u00e3o chegando. Ouvi a campainha tocar tr\u00eas vezes nos \u00faltimos dez minutos.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% respirou fundo, tentando reunir for\u00e7as para a noite que tinha pela frente. O som de conversas e risadas vinha da sala, aumentando sua ansiedade. Teria que sorrir, responder perguntas, fingir que tudo estava bem quando na verdade se sentia como uma bomba-rel\u00f3gio prestes a explodir.<br \/>\n\u2003\u2003- Vamos? &#8211; Michelle ofereceu o bra\u00e7o, um gesto simples que %Annie% agradeceu silenciosamente.<br \/>\n\u2003\u2003Juntas, elas caminharam at\u00e9 a sala onde meia d\u00fazia de pessoas j\u00e1 se aglomerava em pequenos grupos. %Annie% reconheceu os tios paternos, dois vizinhos antigos e alguns amigos dos pais.<br \/>\n\u2003\u2003Todos pararam brevemente suas conversas quando a viram entrar, olhares curiosos se voltando para sua barriga antes de subirem para seu rosto.<br \/>\n\u2003\u2003- %Annie%! &#8211; Tia Cida foi a primeira a se aproximar, bra\u00e7os abertos, perfume adocicado envolvendo %Annie% em um abra\u00e7o apertado. &#8211; Como voc\u00ea est\u00e1 linda! Essa gravidez te deixou radiante!<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% for\u00e7ou um sorriso, sentindo o est\u00f4mago revirar com a mentira.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o se sentia radiante. Sentia-se exausta, assustada, perdida.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigada, tia.<br \/>\n\u2003\u2003- E quando \u00e9 o casamento? J\u00e1 marcaram a data? &#8211; Tio Paulo perguntou, aproximando-se com um copo de refrigerante na m\u00e3o. &#8211; Esse noivo militar deve estar ansioso para oficializar tudo antes do nascimento, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar. A sala de repente parecia pequena demais, o ar ficando cada vez mais pesado.<br \/>\n\u2003\u2003- Ainda estamos decidindo. &#8211; respondeu, tentando manter a voz firme enquanto sentia o sorriso congelado em seu rosto.<br \/>\n\u2003\u2003Mais convidados chegavam e a cada nova pessoa que entrava, %Annie% sentia como se uma nova camada de peso fosse adicionada sobre seus ombros.<br \/>\n\u2003\u2003As perguntas se repetiam em varia\u00e7\u00f5es sutis. Quando seria o casamento, como estava o noivo e onde ele estava, se j\u00e1 tinham escolhido o enxoval do beb\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Cada sorriso for\u00e7ado consumia um pouco mais de sua energia.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% encostou-se na parede da sala tentando respirar. O vestido branco que antes parecia confort\u00e1vel agora apertava seu peito e o calor dos corpos reunidos tornava o ar pesado.<br \/>\n\u2003\u2003Ela passou a m\u00e3o pela testa, sentindo gotas de suor se formarem apesar da brisa suave que vinha das janelas abertas.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle surgiu ao seu lado com um copo de \u00e1gua.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea est\u00e1 bem? &#8211; perguntou, os olhos atentos examinando o rosto de %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00f3 um pouco quente. &#8211; %Annie% mentiu, aceitando a \u00e1gua com gratid\u00e3o. Seus dedos tremiam levemente ao segurar o copo.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle franziu o cenho, mas antes que pudesse dizer algo, Sandra apareceu, o rosto corado pelo calor da cozinha.<br \/>\n\u2003\u2003- Querida, voc\u00ea poderia me ajudar com as travessas? J\u00e1 est\u00e1 quase na hora de servir.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% assentiu, aliviada por ter uma desculpa para escapar das conversas. Seguiu a m\u00e3e at\u00e9 a cozinha, onde o cheiro de comida era ainda mais intenso. Seu est\u00f4mago revirou, n\u00e3o de fome, mas de n\u00e1usea.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra se movimentava com efici\u00eancia entre o fog\u00e3o e a bancada, organizando pratos e travessas. %Annie% tentou ajudar, mas seus movimentos pareciam lentos e descoordenados.<br \/>\n\u2003\u2003- Filha, voc\u00ea est\u00e1 p\u00e1lida. &#8211; Sandra observou, parando o que fazia para olhar %Annie% mais de perto. &#8211; Est\u00e1 se sentindo mal?<br \/>\n\u2003\u2003- Estou bem, m\u00e3e. S\u00f3 estou um pouco cansada.<br \/>\n\u2003\u2003Mas n\u00e3o estava bem. A sensa\u00e7\u00e3o de sufocamento crescia a cada minuto. As vozes dos convidados na sala, o tilintar de talheres, tudo parecia amplificado, invasivo.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% apoiou-se na bancada, tentando se concentrar em respirar.<br \/>\n\u2003\u2003Um, dois, tr\u00eas. Inspire. Um, dois, tr\u00eas. Expire.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o estava funcionando. Seu cora\u00e7\u00e3o batia cada vez mais r\u00e1pido e um zumbido come\u00e7ou a preencher seus ouvidos.<br \/>\n\u2003\u2003Sandra estudou o rosto da filha por mais um momento, a preocupa\u00e7\u00e3o evidente em suas fei\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003- Estou bem, m\u00e3e. De verdade. &#8211; %Annie% insistiu, for\u00e7ando um sorriso que n\u00e3o alcan\u00e7ou seus olhos. &#8211; S\u00f3 preciso de um minuto.<br \/>\n\u2003\u2003Ela assentiu, embora n\u00e3o parecesse totalmente convencida.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo bem. Vou levar essas travessas para a sala. Mas se voc\u00ea n\u00e3o estiver se sentindo melhor em alguns minutos, quero que v\u00e1 se deitar, entendeu? &#8211; seu tom n\u00e3o deixava espa\u00e7o para discuss\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% concordou com a cabe\u00e7a, aliviada quando sua m\u00e3e pegou duas grandes travessas e saiu da cozinha.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que ficou sozinha, ela se apoiou na bancada fechando os olhos. A press\u00e3o em seu peito aumentava, como se um peso invis\u00edvel estivesse esmagando seus pulm\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003A porta da cozinha se abriu novamente e %Annie% se endireitou rapidamente, preparando-se para mais uma mentira tranquilizadora.<br \/>\n\u2003\u2003Mas era Michelle quem entrava, carregando alguns copos vazios.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% tentou esbo\u00e7ar um sorriso, mas o l\u00e1bio inferior traiu seu esfor\u00e7o e tremeu. Michelle que vinha caminhando suavemente pela cozinha parou abruptamente, pousando os copos com um som seco sobre a bancada.<br \/>\n\u2003\u2003Os olhos dela imediatamente correram da superf\u00edcie de vidro para os olhos de %Annie%, atentos.<br \/>\n\u2003\u2003A sensa\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00e3o, de ter sido flagrada no instante mais vulner\u00e1vel, fez %Annie% vacilar.<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo, ela pensou em se recompor, em vestir uma m\u00e1scara de normalidade. Em vez disso, deixou o corpo escorregar pelo arm\u00e1rio at\u00e9 sentar-se no ch\u00e3o frio, abra\u00e7ada aos joelhos.<br \/>\n\u2003\u2003O cheiro do pernil assado agora parecia enjoativo. O zumbido em sua cabe\u00e7a aumentava, abafando at\u00e9 mesmo a trilha sonora de conversas e risadas que antes era insuport\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle se ajoelhou ao lado, as m\u00e3os pairando sobre o ombro de %Annie% como se temesse que um toque pudesse faz\u00ea-la desmoronar totalmente.<br \/>\n\u2003\u2003- %Annie%! &#8211; chamou, a voz mais grave do que de costume, firme e urgente.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% tentou responder, mas as palavras se emaranharam na garganta.<br \/>\n\u2003\u2003Sentia a l\u00edngua grossa, a boca seca, a respira\u00e7\u00e3o curta como se estivesse submersa.<br \/>\n\u2003\u2003O mundo ao redor parecia girar e ela temeu que fosse desmaiar. Michelle repetiu seu nome, mais baixo agora, enquanto seu toque finalmente se firmava, um calor real e material em contraste com a irrealidade da crise.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o sei o que eu t\u00f4 fazendo, Michelle. &#8211; %Annie% conseguiu, finalmente, entre um solu\u00e7o e outro. &#8211; Parece um pesadelo. A minha ex-sogra aparece do nada, machuquei a minha melhor amiga, como se n\u00e3o bastasse tudo o que\u2026 n\u00e3o sei se\u2026 eu s\u00f3 queria\u2026 eu\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o terminou. As palavras se dissolveram no pr\u00f3prio desespero e Michelle ficou ali, sustentando seu ombro com uma delicadeza inabal\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003- Ok, respira. &#8211; Michelle disse, o mesmo tom que Joe usava com ela quando era mais firme. &#8211; Olha pra mim, %Annie%. Olha aqui, nos meus olhos.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% obedeceu, mas seu olhar era turvo, como se enxergasse de dentro de um aqu\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003- Agora me diz: qual a cor do meu brinco?<br \/>\n\u2003\u2003A pergunta foi um choque. %Annie% piscou, confusa, mas Michelle insistiu.<br \/>\n\u2003\u2003- Me diz. Olha pro meu brinco. Qual a cor?<br \/>\n\u2003\u2003- Verde? &#8211; %Annie% respondeu, hesitante.<br \/>\n\u2003\u2003- Muito bem. Agora descreve ele pra mim.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9\u2026 prateado. Fino. Tem um pingente verde, cor de esmeralda. &#8211; a cada palavra, a voz voltava um pouco mais ao normal, menos afogada em p\u00e2nico.<br \/>\n\u2003\u2003- E o que mais?<br \/>\n\u2003\u2003- Uhm\u2026 Tem uns pontos pretos? Acho que \u00e9 tipo umas pedrinhas pequenas pretas.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle assentiu sorrindo de leve, mas seus olhos estavam marejados.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe por qu\u00ea? Porque eu n\u00e3o tenho dinheiro pra comprar joia de verdade, ent\u00e3o eu compro bijuteria no Saara. &#8211; o sorriso se tornou mais n\u00edtido, quase divertido. &#8211; Obrigada, %Annie%.<br \/>\n\u2003\u2003- Pelo qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003- Por ter voltado. Voc\u00ea teve uma crise de ansiedade.<br \/>\n\u2003\u2003A frase pareceu pairar no ar por um momento antes de se dissolver na realidade da cozinha.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% permaneceu sentada, a testa encostada nos joelhos, absorvendo a informa\u00e7\u00e3o como se fosse uma novidade sobre si mesma. N\u00e3o era a primeira vez que aquilo acontecia, mas era a primeira vez que algu\u00e9m nomeava o fen\u00f4meno com tanta calma sem o menor tra\u00e7o de julgamento.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle puxou uma cadeira e sentou-se ao lado, deixando que o sil\u00eancio se estendesse.<br \/>\n\u2003\u2003Passado o \u00e1pice do desespero, %Annie% sentiu o corpo exausto, como se tivesse corrido uma maratona sob chuva \u00e1cida.<br \/>\n\u2003\u2003- Vai passar. &#8211; Michelle disse, com a certeza de quem j\u00e1 esteve ali antes. &#8211; S\u00f3 precisa esperar um pouco. Pode ficar aqui comigo se quiser.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% assentiu, grata por n\u00e3o precisar fingir nada. Ficaram assim, lado a lado, respirando juntas at\u00e9 que os ru\u00eddos da festa pareceram distantes o suficiente para n\u00e3o ferirem mais.<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente se levantaram, %Annie% lavou o rosto na pia, usando a \u00e1gua gelada para varrer os \u00faltimos fragmentos de p\u00e2nico. Olhou-se no espelho da cozinha: os olhos ainda inchados, mas o rosto j\u00e1 menos p\u00e1lido que antes.<br \/>\n\u2003\u2003Michelle estava de p\u00e9 atr\u00e1s dela como uma sombra benevolente.<br \/>\n\u2003\u2003- Pronta? &#8211; perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003- Pronta. &#8211; %Annie% fechou os olhos por um segundo, depois sorriu de verdade, ainda que fosse um sorriso cansado.<br \/>\n\u2003\u2003Juntas voltaram para a sala, onde a festa continuava sem suspeita da tempestade que acabara de passar na cozinha.<br \/>\n\u2003\u2003%Annie% percebeu que as pessoas retomavam as conversas e risadas como se nada tivesse acontecido, o que de certa forma, era um al\u00edvio.<br \/>\n\u2003\u2003No decorrer da noite, ela at\u00e9 conseguiu responder \u00e0s perguntas dos tios e das vizinhas com mais leveza.<br \/>\n\u2003\u2003Quando a meia-noite se aproximou e todos se reuniram para a contagem regressiva, %Annie% buscou o olhar de Michelle na multid\u00e3o. Encontrou. Sorriram c\u00famplices de um segredo pequeno, mas vital.<br \/>\n\u2003\u2003Na hora dos fogos, sentiu a filha mexer forte, como se soubesse que algo tinha mudado.<\/p>\n<p align=\"center\">[&#8230;]<\/p>\n<p>\u2003\u2003O som de passos ao longo do corredor era sutil, mas para quem atravessava o labirinto de sombras e m\u00f3veis antigos cada rangido e estalo era um aviso de alerta, uma den\u00fancia de sua posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era s\u00f3 crucial, mas fatal.<br \/>\n\u2003\u2003O invasor escorregava entre os recortes de luz da lua cheia que iluminava aquele ambiente. De vez em quando alguns feixes a mais apareciam brevemente no c\u00e9u seguidos dos sons abafados, os fogos de artif\u00edcio daquela noite festiva estavam um pouco mais afastados.<br \/>\n\u2003\u2003Cada cent\u00edmetro de pele exposto j\u00e1 marcado por hematomas e cortes mostrava a disputa silenciosa pela sobreviv\u00eancia. Naquele ambiente, o sil\u00eancio absoluto das respira\u00e7\u00f5es era t\u00e3o fundamental quanto a arma fria mantida rente ao peito.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o sabia quantos corpos havia deixado pelos corredores e tampouco se importava.<br \/>\n\u2003\u2003A cada embate um imprevisto diferente. Cassetete improvisado de perna de cadeira, l\u00e2mina de cozinha, at\u00e9 mesmo uma garrafa quebrada de vodca. Os oponentes ca\u00edam diante da figura como pe\u00e7as de domin\u00f3. Um ou outro ainda se debatia no piso gelado ou fazia men\u00e7\u00e3o de arrastar-se at\u00e9 o r\u00e1dio de comunica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o chegavam a tempo.<br \/>\n\u2003\u2003O resultado era sempre o mesmo.<br \/>\n\u2003\u2003O invasor de p\u00e9 respirava com regularidade calculada enquanto os inimigos repousavam no piso, cada vez mais distantes do mundo dos vivos. O que movia naquela noite n\u00e3o era adrenalina ou vingan\u00e7a. Era a determina\u00e7\u00e3o de quem cumpre um protocolo antigo.<br \/>\n\u2003\u2003Seu alvo era um nome, uma miss\u00e3o a ser cumprida antes do amanhecer.<br \/>\n\u2003\u2003Ouviu passos decididos na sala ao lado, o padr\u00e3o de quem protege uma retaguarda, n\u00e3o de quem foge. Arma em punho avan\u00e7ou para o batente, os olhos ajustando-se ao escuro absoluto.<br \/>\n\u2003\u2003Quando uma silhueta apareceu, reagiu antes da sombra ter tempo de sequer pensar. Com uma tor\u00e7\u00e3o de punho, desarmou o primeiro advers\u00e1rio e num \u00fanico movimento arremessou a pistola contra o rosto do comparsa que surgia logo atr\u00e1s com os olhos arregalados. O disparo do silenciador veio baixo e abafado, errando o alvo por cent\u00edmetros. A bala cravou-se em algum ponto do porcelanato e um filete de poeira subiu no ar.<br \/>\n\u2003\u2003O primeiro homem ainda atordoado, recebeu uma coronhada seca na nuca e desabou sem resist\u00eancia. O parceiro, trope\u00e7ando para tr\u00e1s, tentou sacar uma navalha da bota, mas foi interceptado por um movimento \u00e1gil. O invasor puxou o pr\u00f3prio canivete e numa esp\u00e9cie de dan\u00e7a cruel cravou a l\u00e2mina na coxa do advers\u00e1rio que em resposta soltou um uivo involunt\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Saboreou a brecha aberta pelo pr\u00f3prio golpe e avan\u00e7ou, o punho fechado mirando direto no osso da bochecha do alvo, que caiu com a cabe\u00e7a ressoando em algum objeto de madeira.<br \/>\n\u2003\u2003Respirou fundo, a m\u00e3o firme ao redor do cabo da faca. Observou os corpos empilhados, a lamban\u00e7a de sangue e suor, e sorriu.<br \/>\n\u2003\u2003Os primeiros que enfrentara pareciam mais perigosos e atentos, o resto do grupo parecia preocupado demais em acabar com a vodca da casa.<br \/>\n\u2003\u2003Ao notar o bras\u00e3o costurado nos uniformes, uma estrela vermelha sobre fundo azul, franziu a testa. N\u00e3o esperava naquele endere\u00e7o encontrar gente de bandeira estrangeira.<br \/>\n\u2003\u2003Arrastou os dois corpos desacordados at\u00e9 a sala de jantar. Era um c\u00f4modo amplo, cujas paredes ostentavam fotos de fam\u00edlia e diplomas encapados em vidro.<br \/>\n\u2003\u2003Sentou os advers\u00e1rios ainda inconscientes nas cadeiras, amarrando-os com cordas grossas na altura do t\u00f3rax e coxas com n\u00f3s duplos, dignos de marinheiro.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o havia chance de fuga, nem se acordassem s\u00f3brios e com toda a for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Ajustou a ilumina\u00e7\u00e3o da sala para um tom amarelo opaco. Puxou uma terceira cadeira e acomodou-se com paci\u00eancia de quem executa uma rotina dom\u00e9stica.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio da casa era interrompido apenas por gemidos esparsos vindos dos corredores seguidos dos sons dos fogos de artif\u00edcio.<br \/>\n\u2003\u2003Sem pressa, tinha tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto aguardava o despertar, limpou o sangue da faca no bra\u00e7o do uniforme de um dos homens e revisitou mentalmente cada movimento feito nos \u00faltimos minutos e em especial as poss\u00edveis falhas.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o era paranoia, era experi\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003Sabia que nos pr\u00f3ximos segundos cada decis\u00e3o tomada poderia ser a diferen\u00e7a entre sair dali com vida ou virar quadro de per\u00edcia na manh\u00e3 seguinte.<br \/>\n\u2003\u2003Quando o primeiro prisioneiro recobrou os sentidos, gemeu alto, balan\u00e7ando o tronco com viol\u00eancia in\u00fatil.<br \/>\n\u2003\u2003O segundo demorou um pouco mais, por\u00e9m quando abriu os olhos, arregalou-os ao perceber a cena e parou de se mover por completo.<br \/>\n\u2003\u2003- Boa noite, princesas. &#8211; falou alto, gostando do pr\u00f3prio eco. O timbre era gelado, sem tra\u00e7o de nervosismo.<br \/>\n\u2003\u2003Os homens se entreolharam em desespero expl\u00edcito, mas continuaram calados.<br \/>\n\u2003\u2003Talvez esperassem que como todo predador fizesse um discurso, amea\u00e7asse, ou perdesse tempo com m\u00e9todos cl\u00e1ssicos de intimida\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- O chefe de voc\u00eas vai ficar bem desapontado. &#8211; disse, projetando o corpo para frente. Uma simples men\u00e7\u00e3o do chefe e o terror brotava nos olhos deles em quest\u00e3o de segundos. &#8211; Ali\u00e1s, acho que isto me pertence.<br \/>\n\u2003\u2003Esticou o bra\u00e7o o suficiente, retirando o canivete da perna do mais novo que grunhiu e tentou avan\u00e7ar, impedido pelas cordas.<br \/>\n\u2003\u2003Sorriu, girando a l\u00e2mina entre os dedos com destreza.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu devia ter avisado. Me desculpem. &#8211; o tom era falso a ponto de soar c\u00f4mico. &#8211; Agora, quem vai me explicar o que est\u00e3o fazendo aqui?<br \/>\n\u2003\u2003Olhou de um para o outro.<br \/>\n\u2003\u2003Sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003Sabia que n\u00e3o teria respostas f\u00e1ceis.<br \/>\n\u2003\u2003Passou para a segunda etapa.<br \/>\n\u2003\u2003- O que russos como voc\u00eas fazem aqui? &#8211; o tom agora era sombrio, firme.<br \/>\n\u2003\u2003O mais novo vacilou, olhou para a m\u00e3o sangrando, ent\u00e3o desviou o olhar. O mais velho sorriu, um sorriso largo e oco, e de repente come\u00e7ou a rir alto.<br \/>\n\u2003\u2003A gargalhada de quem j\u00e1 n\u00e3o espera nada do mundo.<br \/>\n\u2003\u2003Acompanhou a risada por um segundo e depois, sem hesitar levantou a arma e disparou. Um som seco, o proj\u00e9til perfurando a testa do homem.<br \/>\n\u2003\u2003O corpo tombou para tr\u00e1s, colidindo com a parede e escorregando at\u00e9 parar com o queixo apoiado no peito.<br \/>\n\u2003\u2003- Ainda acha gra\u00e7a? &#8211; perguntou para o vazio, sabendo que ele nunca mais responderia.<br \/>\n\u2003\u2003O mais novo agora sozinho e em p\u00e2nico transparente, tentou se livrar das amarras com for\u00e7a hist\u00e9rica. Chorou um palavr\u00e3o em russo, mas logo a dor e o medo o renderam \u00e0 realidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Vai falar agora por que vigiam esta casa?<br \/>\n\u2003\u2003O prisioneiro murmurou algo apressadamente em russo, como se recitasse uma ora\u00e7\u00e3o. Se irritou com a evasiva e sem qualquer compaix\u00e3o enfiou o canivete na m\u00e3o presa \u00e0 cadeira. O homem berrou, a voz ecoando pela sala como se chamasse por algu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003Mas ningu\u00e9m viria salv\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- No meu idioma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>no. 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