{"id":10291,"date":"2026-05-08T11:30:16","date_gmt":"2026-05-08T14:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-05-08T11:32:35","modified_gmt":"2026-05-08T14:32:35","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/omahdi\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O sol de 1980<\/span> n\u00e3o apenas nascia; ele parecia se espregui\u00e7ar sobre a cidade, esticando seus dedos dourados por entre as ruelas estreitas que guardavam um segredo arquitet\u00f4nico. Vista de cima, a pequena localidade era um anacronismo vibrante. As casas, com seus contornos arredondados e cores terrosas misturadas a azuis e amarelos berrantes, evocavam uma mem\u00f3ria ancestral, uma semelhan\u00e7a quase m\u00edstica com a antiga Ur dos Caldeus, mas transplantada para o cora\u00e7\u00e3o de um Brasil oitentista. O ar da manh\u00e3 era uma tape\u00e7aria de aromas. Antes mesmo do primeiro despertador tocar, o cheiro de p\u00e3o sovado assando na padaria da esquina se entrela\u00e7ava com o perfume acre e doce das especiarias \u2014 canela, cravo e cominho \u2014 que as donas de casa mais tradicionais j\u00e1 come\u00e7avam a moer para o almo\u00e7o. Mara j\u00e1 estava de p\u00e9. Seus movimentos na cozinha eram uma dan\u00e7a coreografada pelo h\u00e1bito. O som do coador de pano recebendo a \u00e1gua fervente produzia um chiado reconfortante, enquanto o vapor do caf\u00e9 subia, emba\u00e7ando levemente seus \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o grande. Ela olhou pela janela e viu a vizinhan\u00e7a ganhar vida. Adolescentes de cal\u00e7as jeans de cintura alta e cabelos volumosos passavam em bicicletas, rindo alto, enquanto os senhores de chap\u00e9u de palha se cumprimentavam a caminho da &#8220;Padaria do Seu Manuel&#8221;.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, Mara! J\u00e1 no batente? \u2014 gritou uma vizinha que sacudia um tapete na cal\u00e7ada oposta.<br>\u2003\u2003\u2014 O dia n\u00e3o espera por ningu\u00e9m, Dona Lurdes! \u2014 Mara respondeu com um sorriso, embora seus olhos estivessem voltados para o corredor que levava aos quartos.<br>\u2003\u2003L\u00e1 fora, um som destoava da calmaria buc\u00f3lica: vindo de algum r\u00e1dio de pilha ou de um &#8220;tr\u00eas-em-um&#8221; potente em alguma casa distante, as batidas sincopadas e eletr\u00f4nicas de um funk primitivo, o som dos bailes que come\u00e7avam a ganhar as periferias, ressoavam como um cora\u00e7\u00e3o pulsante sob o solo da cidade. Era o novo mundo batendo \u00e0 porta do velho.<br>\u2003\u2003No quarto, Guisa abriu os olhos lentamente. A luz filtrava-se pelas frestas da veneziana de madeira, desenhando listras de ouro sobre seu cobertor. O primeiro pensamento que lhe atravessou a mente, antes mesmo de se espregui\u00e7ar, foi o compromisso da tarde.<br>\u2003\u2003&#8221;Hoje \u00e9 domingo. Missa das quatro&#8221;, pensou ela.<br>\u2003\u2003Ela se levantou e foi at\u00e9 a cozinha, onde o cheiro do caf\u00e9 era quase um abra\u00e7o.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, m\u00e3e \u2014 disse Guisa, a voz ainda rouca de sono.<br>\u2003\u2003\u2014 Bom dia, minha flor. J\u00e1 ia te chamar. Tome seu caf\u00e9, que o dia hoje \u00e9 longo. Quero deixar a casa em ordem antes de irmos para a igreja.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu lembrei assim que acordei. O Padre Jonas disse que o evangelho de hoje seria especial, n\u00e3o foi?<br>\u2003\u2003Mara assentiu, servindo uma fatia de p\u00e3o com manteiga para a filha.<br>\u2003\u2003\u2014 Sim, ele mencionou na \u00faltima reuni\u00e3o das Filhas de Maria. \u00c9 importante estarmos l\u00e1. A cidade anda muito agitada, Guisa. Esse barulho todo&#8230; \u2014 Mara fez um gesto em dire\u00e7\u00e3o ao som de funk que ainda ecoava ao longe \u2014 &#8230;parece que as pessoas est\u00e3o perdendo o sil\u00eancio de Deus.<br>\u2003\u2003A tarde chegou trazendo um calor \u00famido que fazia as cores das casas parecerem ainda mais saturadas. Mara e Guisa caminharam lado a lado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 par\u00f3quia central. Guisa usava um vestido de algod\u00e3o leve, com estampas florais mi\u00fadas, enquanto Mara vestia seu melhor conjunto de linho.<br>\u2003\u2003A igreja estava lotada. O cheiro de incenso misturava-se ao suor suave da multid\u00e3o e ao perfume de alfazema que exalava dos len\u00e7os das senhoras. O Padre Jonas, um homem de cabelos brancos e voz de trov\u00e3o, subiu ao amb\u00e3o para a leitura do Evangelho.<br>\u2003\u2003&#8221;Naquele tempo&#8230;&#8221;, come\u00e7ou ele, e o sil\u00eancio se fez absoluto.<br>\u2003\u2003Ap\u00f3s a leitura, a homilia come\u00e7ou. O padre falava sobre a import\u00e2ncia de manter as ra\u00edzes em solo firme, mesmo quando os ventos da modernidade sopravam com for\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Meus irm\u00e3os, vivemos em tempos de mudan\u00e7as \u2014 dizia o Padre Jonas, gesticulando com as m\u00e3os calejadas. \u2014 As luzes da cidade brilham mais forte, a m\u00fasica est\u00e1 mais alta, mas a luz de Cristo \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o cega. N\u00e3o se deixem levar pelos sorrisos f\u00e1ceis do mundo, pois muitas vezes eles escondem o vazio da alma.<br>\u2003\u2003Guisa ouvia atentamente, sentindo um arrepio na nuca. Ela sentia que aquelas palavras, de alguma forma, eram para ela. Ao seu lado, Mara mantinha as m\u00e3os postas, os olhos fechados em ora\u00e7\u00e3o profunda.<br>\u2003\u2003Na sa\u00edda, o sol j\u00e1 come\u00e7ava a se p\u00f4r, pintando o c\u00e9u de um rosa viol\u00e1ceo. Enquanto desciam as escadarias da igreja, um grupo de jovens rapazes, encostados em um Opala estacionado na pra\u00e7a, observava o fluxo de fi\u00e9is. Quando viram Guisa, trocaram olhares e sorrisos zombeteiros.<br>\u2003\u2003\u2014 Olha l\u00e1, a santinha saiu da caixa! \u2014 cochichou um deles, alto o suficiente para que ela ouvisse.<br>\u2003\u2003Os outros riram, uma risada seca e provocativa que fez Guisa apertar o passo e segurar o bra\u00e7o da m\u00e3e com mais for\u00e7a. Mara percebeu, mas n\u00e3o olhou para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003\u2014 Ignore, Guisa \u2014 murmurou Mara, a voz firme. \u2014 O trigo e o joio sempre crescem no mesmo campo.<br>\u2003\u2003Ao chegarem em casa, o ambiente familiar e seguro as acolheu. A tens\u00e3o da rua dissipou-se assim que Mara acendeu a luz da cozinha.<br>\u2003\u2003\u2014 Vamos ado\u00e7ar essa alma, filha? \u2014 prop\u00f4s Mara, j\u00e1 pegando o avental. \u2014 Me ajude com o bolo.<br>\u2003\u2003Guisa sorriu, sentindo o peso do dia diminuir. O &#8220;Bolo de Chocolate Cinco Copos&#8221; era uma tradi\u00e7\u00e3o de conforto na casa delas. N\u00e3o precisava de balan\u00e7a, apenas de precis\u00e3o e carinho.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu pego os copos, m\u00e3e \u2014 disse Guisa, posicionando-os em fila sobre a mesa de f\u00f3rmica.<br>\u2003\u2003Mara come\u00e7ou a separar os ingredientes com uma meticulosidade quase ritual\u00edstica.<br>\u2003\u2003\u2014 Primeiro o a\u00e7\u00facar, Guisa. Um copo bem cheio. O a\u00e7\u00facar \u00e9 a base da do\u00e7ura que a gente precisa ter com os outros, mesmo quando eles n\u00e3o merecem.<br>\u2003\u2003Guisa despejou o a\u00e7\u00facar na tigela de cer\u00e2mica.<br>\u2003\u2003\u2014 Agora o chocolate \u2014 continuou Mara. \u2014 Um copo de chocolate em p\u00f3, do bom. Ele d\u00e1 a cor e a for\u00e7a. Sem ele, \u00e9 s\u00f3 um bolo comum.<br>\u2003\u2003Elas seguiram o processo: o leite, a farinha, o \u00f3leo. Cada ingrediente era acompanhado por uma instru\u00e7\u00e3o silenciosa ou um coment\u00e1rio sobre o dia. Guisa batia a massa com uma colher de pau, observando a mistura se tornar homog\u00eanea, brilhante e densa.<br>\u2003\u2003\u2014 O segredo, Guisa, \u00e9 o tempo \u2014 disse Mara, observando a filha. \u2014 As pessoas hoje querem tudo r\u00e1pido, como se a vida fosse uma dessas m\u00fasicas de r\u00e1dio. Mas um bolo, como uma vida boa, precisa de tempo para assar, para crescer.<br>\u2003\u2003Enquanto o bolo ia para o forno, o aroma de chocolate come\u00e7ou a preencher a casa, expulsando qualquer resqu\u00edcio de zombaria ou barulho externo. Sentadas \u00e0 mesa, esperando o tempo do forno, m\u00e3e e filha conversavam sobre o futuro, sobre a missa e sobre suas pr\u00f3prias vidas. L\u00e1 fora o som de m\u00fasica alta ainda ecoava, provavelmente um funk met\u00e1lico mas j\u00e1 n\u00e3o assustava tanto. H\u00e1 algumas l\u00e9guas dali, uma mulher, uma das vizinhas, Dona Maria Concei\u00e7\u00e3o varria a casa. Outras l\u00e9guas dali, bem mais longe, uma mulher chamada Ana em sua juventude, ajudava a m\u00e3e Dona Euridice a preparar o caf\u00e9 da tarde. O coador j\u00e1 dava sinais que coava o caf\u00e9. Ana viu que os irm\u00e3os alguns mais velhos e outros mais novos conversavam entre si. N\u00e3o muito longe dali, uma mulher morena com cabelos ruivos, chamada Deva preparava o que seria o jantar, enquanto observava o tempo&#8230;<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":80,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2679],"class_list":["post-10291","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-omahdi"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/80"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10291"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}