{"id":10275,"date":"2026-05-06T12:05:51","date_gmt":"2026-05-06T15:05:51","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-05-06T12:08:25","modified_gmt":"2026-05-06T15:08:25","slug":"prologo","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/apenasumanoite\/prologo\/","title":{"rendered":"Pr\u00f3logo"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><em>&#8220;You want all my love and my devotion<br>You want my love and soul, right on the line<br>I have no doubt that I could love you, forever<br>The only trouble is, you really don&#8217;t have the time<\/em><br><em>You&#8217;ve got one night only, one night only<br>That&#8217;s all you have to spare<br>One night only<br>Let&#8217;s not pretend to care&#8221;<\/em><\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O corpo do menino<\/span> balan\u00e7ava \u00e0 medida que o carro seguia o curso. Encolhido no banco traseiro, n\u00e3o ousava fazer nenhum barulho e se policiava para n\u00e3o se prejudicar ainda mais. Com medo do motorista ver as m\u00e3os dele soltas, consideradas femininas para um homem, decidiu cruzar firmemente os bra\u00e7os para evitar reprimendas.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;Viadinho!&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003<em>&#8220;Aberra\u00e7\u00e3o!&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Tais palavras ecoavam em sua mente acompanhadas pela ard\u00eancia dos arranh\u00f5es espalhados pelo corpo, consequ\u00eancias gravadas na pele pelo cinto de quem deveria lhe amar, proteger e aceitar acima de tudo. A dor havia diminu\u00eddo um pouco, mas a aspereza da roupa contra a pele gerava um estranho inc\u00f4modo, como se estivesse causando autoflagelo pelo erro cometido. Com as costas apoiadas contra a porta traseira e os p\u00e9s descal\u00e7os no assento, recusava-se a encarar o homem que continuava a dirigir sem diminuir a velocidade. N\u00e3o soube distinguir h\u00e1 quanto tempo estavam no carro. Uma hora? Duas horas? N\u00e3o sabia.<br>\u2003\u2003Encarou a estrada e se deu conta que anoitecia. Se perguntava se a sua m\u00e3e teria for\u00e7as para enfrentar o marido. A mulher n\u00e3o era ruim. Longe disso. Era am\u00e1vel, carinhosa, atenciosa e nunca insultou o filho por ser quem era. N\u00e3o exigia que se enquadrasse num padr\u00e3o e nem rejeitava a ess\u00eancia do menino. Ela era o \u00fanico consolo que tinha dentro daquela resid\u00eancia. O problema \u00e9 que n\u00e3o foi criada para o confronto e nem para gerenciar conflitos \u2014 sequer tinha o temperamento adequado para isso. Portanto, o m\u00e1ximo que fazia era buscar proteger o filho e amenizar a ira do outro.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;Olhe para mim&#8221; \u2014 Segurava o rosto do menor, completamente avermelhado pelo desespero e banhado em l\u00e1grimas. \u2014 &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. Jamais ser\u00e1 mais do que isso. Essa coisa insignificante e errada que \u00e9. Ainda n\u00e3o acredito como a sua m\u00e3e foi capaz de parir um monstro.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Pelo reflexo da janela conseguiu enxergar as marcas das unhas deixadas pelo pai na t\u00eampora.<br>\u2003\u2003O clima denso dentro do ve\u00edculo era quase palp\u00e1vel. O jovem o sentia em cada c\u00e9lula do corpo. O medo o fez paralisar desde que o pai invadiu seu quarto tamanho o pavor. Torcia inutilmente para o r\u00e1dio ser ligado e ele poder ouvir uma m\u00fasica como forma de se distrair e afastar da mente a inc\u00f3gnita do que viria a acontecer nos pr\u00f3ximos momentos. Nem teve tempo de pegar seus fones de ouvido, sequer o celular. Tentava em v\u00e3o buscar o aparelho enquanto era empurrado pelos bra\u00e7os e caminhava descal\u00e7o aos trope\u00e7os. Era a \u00fanica esperan\u00e7a para acionar a m\u00e3e \u2014 se bem que, pelo estado emocional do pai, n\u00e3o saberia dizer se a mulher conseguiria controla-lo.<br>\u2003\u2003Seu genitor era um homem de temperamento terr\u00edvel, cheio de preconceitos e inflex\u00edvel. Pautava a vida nos ensinamentos b\u00edblicos e tudo que fosse contra o que estivesse escrito naquele livro que o filho tomou verdadeiro asco, deveria ser erradicado de sua frente, exclu\u00eddo e ignorado \u2014 mesmo que fosse a exist\u00eancia de algu\u00e9m. Para a infelicidade da fam\u00edlia, o filho mais novo era a personifica\u00e7\u00e3o daquilo que era abominado pelo pai.<br>\u2003\u2003Nunca foi um menino considerado comum pelos padr\u00f5es da sociedade. Sempre teve gostos que n\u00e3o condiziam com o sexo masculino. Na escola, costumava brincar com as meninas e suas respectivas bonecas, j\u00e1 que, onde morava, isso era imposs\u00edvel. Brincava de maquiar, pentear e de casinha com as demais alunas. Ao menos no col\u00e9gio n\u00e3o recebia reprimendas. N\u00e3o era apreciador de nenhum esporte e nunca teve inclina\u00e7\u00e3o para lutas marciais. O genitor se esfor\u00e7ou para faz\u00ea-lo gostar de &#8220;coisas de homem&#8221;, assim como gostava de enfatizar.<br>\u2003\u2003Colocou o filho no futebol e no jud\u00f4. Esperava que o garoto se desenvolvesse melhor ali. A frustra\u00e7\u00e3o foi grande quando ambos os professores conversaram com o adulto em menos de quatro meses, alegando que o aluno n\u00e3o queria estar ali \u2014 palavras proferidas pela crian\u00e7a em todos os lugares, inclusive dentro de casa, em confid\u00eancia com sua m\u00e3e. N\u00e3o foi nem um pouco agrad\u00e1vel lidar com o genitor nas semanas seguintes.<br>\u2003\u2003Quanto mais o garoto crescia, mais era not\u00f3rio que a sua presen\u00e7a era inc\u00f4moda dentro de casa. As fei\u00e7\u00f5es eram delicadas demais, o corpo tinha certo ar de feminilidade e seus gestos eram igualmente considerados femininos. Era chamado de &#8220;viadinho&#8221; antes mesmo de saber o significado da palavra. Aos 9 anos come\u00e7ou a se monitorar. Evitava gesticular muito para n\u00e3o &#8220;desmunhecar&#8221; \u2014 sabe-se l\u00e1 Deus o que isso significava. Passou a aceitar as roupas escolhidas pelo pai. At\u00e9 mesmo se esfor\u00e7ava para assistir jogos de futebol numa tentativa de n\u00e3o receber ataques verbais do genitor. Por um tempo deu certo. At\u00e9 aquela tarde fat\u00eddica.<br>\u2003\u2003Apesar da tentativa de fingir ser quem n\u00e3o era para se proteger, n\u00e3o mentia para si. Por isso, longe dos olhos cr\u00edticos e julgadores do pai e cercado de quem gostava dele, mantinha sua ess\u00eancia. As suas amizades na escola eram compostas por grupos majoritariamente de meninas. No ano anterior, a escola recebeu um novo aluno. Os olhos simp\u00e1ticos e com uma ponta de humor logo lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o. Teve a sorte de sentar ao lado dele na escola.<br>\u2003\u2003Por ser bem comunicativo, n\u00e3o houve dificuldade em conversar com o garoto de cabelos negros e sorriso de dentes alinhados.<br>\u2003\u2003Aos poucos se aproximaram e Marcos ingressou no c\u00edrculo de amizade do aluno mais antigo.<br>\u2003\u2003Ah, os amores juvenis&#8230;. Pela primeira vez sentiu aquelas borboletas no est\u00f4mago acompanhadas do calor entre as pernas. Embora torcesse para que tivessem algum tipo de envolvimento amoroso, achava que n\u00e3o seria capaz de acontecer. At\u00e9 porque o colega n\u00e3o dava ind\u00edcios de ser gay. Era sempre mais masculino, sem trejeitos e com a voz mais grossa. Ouvia rap, era f\u00e3 do Fluminense e tinha uma certa marra na postura ereta, como se n\u00e3o admitisse ser olhado de cima por ningu\u00e9m. Ent\u00e3o pode-se imaginar o \u00eaxtase que invadiu o corpo do garoto quando Marcos segurou a sua pequena m\u00e3o pela primeira vez. Foi um momento inocente e \u00edntimo entre os dois.<br>\u2003\u2003O loiro era canhoto e o de cabelos negros, destro. Um dia, enquanto anotavam a explica\u00e7\u00e3o do professor sobre Napole\u00e3o na aula de Hist\u00f3ria Geral, sentiu algo ro\u00e7ar em sua m\u00e3o, mas n\u00e3o deu devida aten\u00e7\u00e3o. Quando constatou algo lhe entrela\u00e7ando os dedos, olhou para baixo curioso e se deparou com a m\u00e3o segurando a sua. Ao encarar Marcos, foi recebido por olhos hesitantes e receosos, como se tivesse reunido toda a coragem naquele pequeno ato. Estava t\u00e3o tenso que, quando recebeu um sorriso doce como resposta, Marcos soltou o ar que prendia nos pulm\u00f5es.<br>\u2003\u2003A partir dali come\u00e7ou a frequentar a casa do aluno quase semanalmente. Teve um al\u00edvio de sua tormenta, podendo estar na companhia da fam\u00edlia dele. O membro j\u00fanior era aceito pelos demais e ningu\u00e9m destratava o outro garoto. Quando ambos entravam no quarto, podiam ficar de porta fechada \u2014 e foi assim que aprenderam a se dar prazer.<br>\u2003\u2003Numa tarde de s\u00e1bado, o que era seu al\u00edvio se transformou na sua desgra\u00e7a.<br>\u2003\u2003Nunca descobriu como, mas o pai ouviu coment\u00e1rios sobre Marcos. Escolheu um dia para avisar que faria dois plant\u00f5es no trabalho \u2014 era m\u00e9dico. Passaria o final de semana todo fora. Por causa disso, o filho aproveitou a oportunidade para chamar Marcos em sua casa, com o objetivo de conhecer a sua m\u00e3e. A mulher o recepcionou com amorosidade por saber o qu\u00e3o importante era aquele momento para o filho. Logo ap\u00f3s o almo\u00e7o, precisou sair ao mercado, ent\u00e3o os dois teriam a casa para si por poucas horas.<br>\u2003\u2003Quando estava chupando aquele pau que adorava, sentiu uma dor latejante nas costas que o fez cair. N\u00e3o conseguiu distinguir como ou com o que foi golpeado, mas n\u00e3o demorou para os gritos come\u00e7arem para expulsar o convidado de l\u00e1.<br>\u2003\u2003O pai havia chegado de surpresa. Ao se deparar com a cena, n\u00e3o pensou duas vezes antes de socar as costas do filho. A f\u00faria era tamanha que, ap\u00f3s jogar Marcos pelos cabelos port\u00e3o afora, pegou o cinto e desferiu incont\u00e1veis golpes no filho, proferindo palavras de \u00f3dio e xingamentos. O adolescente vestia apenas a cueca. N\u00e3o teve um cent\u00edmetro do corpo do adolescente que n\u00e3o tivesse sofrido com a fivela daquele cinto. As l\u00e1grimas e os solu\u00e7os de dor n\u00e3o foram suficientes para o adulto cessar a viol\u00eancia.<br>\u2003\u2003Por fim, quando cessou o epis\u00f3dio de viol\u00eancia pelo cansa\u00e7o, o obrigou a se vestir e o tirou de casa, o colocando dentro do carro.<br>\u2003\u2003\u2014 Pode sair. \u2014 Foram as primeiras palavras ditas pelo pai ap\u00f3s come\u00e7ar a dirigir. N\u00e3o havia nenhuma emo\u00e7\u00e3o na voz.<br>\u2003\u2003\u2014 Sair pra onde? \u2014 A voz embargada n\u00e3o passou de um sussurro.<br>\u2003\u2003\u2014 A\u00ed j\u00e1 n\u00e3o me interessa. Anda. N\u00e3o quero nunca mais olhar pra sua cara. \u2014 Cuspiu pela janela em sinal de esc\u00e1rnio.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o vou ficar aqui. Pai&#8230;<br>\u2003\u2003Se calou quando o homem virou para encar\u00e1-lo pela primeira vez desde que o arremessou dentro do ve\u00edculo. Os olhos carregados de \u00f3dio e nojo o fizeram engolir as palavras.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o me chame assim. N\u00e3o \u00e9 e nem nunca foi meu filho. Deus deve ter me punido por algum erro que cometi, mas j\u00e1 estou expurgando esse karma para longe da minha vida. Saia. Voc\u00ea n\u00e3o passa de um erro da natureza.<br>\u2003\u2003Um sil\u00eancio sepulcral se instalou entre eles.<br>\u2003\u2003Como o mais novo n\u00e3o mexeu um m\u00fasculo sequer, o adulto abriu a porta do carro, mas n\u00e3o sem avisar:<br>\u2003\u2003\u2014 Tudo bem. J\u00e1 que quer tornar as coisas mais dif\u00edceis&#8230;<br>\u2003\u2003O filho tentou lutar, sem sucesso. As s\u00faplicas por miseric\u00f3rdia n\u00e3o foram suficientes, nem mesmo os solu\u00e7os e a voz tr\u00eamula puderam impedi-lo. O garoto se agarrou ao banco numa tentativa de continuar no interior do carro. Quem costumava ser chamado de pai o segurou pelos cabelos e o agarrou pelos bra\u00e7os sem dificuldade, o retirando de onde passou as \u00faltimas tr\u00eas horas. Jogou o filho no ch\u00e3o com tanta for\u00e7a que sentiu o ar sumir momentaneamente dos pulm\u00f5es e a testa bateu com for\u00e7a no asfalto da estrada. O impacto foi forte ao ponto do galo logo se instalar. Quando conseguiu se ajoelhar, p\u00f4de v\u00ea-lo entrar no ve\u00edculo. N\u00e3o adiantou correr para tentar alcan\u00e7ar o carro.<br>\u2003\u2003Pela primeira vez se deparou com uma realidade que jamais pensou que fosse se tornar a sua, nem em seus piores pesadelos.<br>\u2003\u2003Sozinho, abandonado, com feridas no corpo e na alma ap\u00f3s ser espancado e com apenas a roupa do corpo para lhe proteger do frio do inverno, virou as costas e iniciou a caminhada tendo a luz da lua como sua como guia.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;You want all my love and my devotionYou want my love and soul, right on the lineI have no doubt that I could love you, foreverThe only trouble is, you really don&#8217;t have the timeYou&#8217;ve got one night only, one night onlyThat&#8217;s all you have to spareOne night onlyLet&#8217;s not pretend to care&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2682],"class_list":["post-10275","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-apenasumanoite"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}