{"id":10264,"date":"2026-05-03T22:10:34","date_gmt":"2026-05-04T01:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-05-03T22:10:34","modified_gmt":"2026-05-04T01:10:34","slug":"capitulo-04","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/acordesecompassos\/capitulo-04\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 04"},"content":{"rendered":"<p>\u2003\u2003%D\u00e9bora% n\u00e3o hesitou.<br \/>\n\u2003\u2003Ela deu um passo largo, colocando-se suavemente entre a lente do celular da garota e o rosto de Gustavo. Bloqueou a c\u00e2mera com a prancheta, sem encostar na f\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003- Pessoal, o tempo estourou! O Gustavo precisa passar o som agora para entregar o show que voc\u00eas merecem mais tarde &#8211; anunciou ela. A voz era alta, projetada e carregada de uma autoridade que n\u00e3o admitia r\u00e9plica. &#8211; Obrigada pelo carinho de todos, a gente se v\u00ea na arena!<br \/>\n\u2003\u2003Sem esperar resposta, ela espalmou a m\u00e3o nas costas de Gustavo &#8211; um toque t\u00e1tico, firme e de direcionamento &#8211; e o guiou para longe da grade.<br \/>\n\u2003\u2003- Foca no corredor &#8211; sussurrou ela perto do ombro dele, sentindo a tens\u00e3o irradiar dos m\u00fasculos sob a jaqueta. &#8211; N\u00e3o olha pra tr\u00e1s, n\u00e3o d\u00e1 o <em>frame<\/em> que ela quer.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo obedeceu, os passos longos e r\u00e1pidos em dire\u00e7\u00e3o ao concreto do pavilh\u00e3o. Os gritos frustrados continuaram l\u00e1 fora, mas a pergunta da garota ainda deixava um rastro t\u00f3xico no ar.<br \/>\n\u2003\u2003Eles entraram no camarim designado, uma sala fria com paredes de divis\u00f3ria branca, sof\u00e1s de couro preto e um espelho de camarim com luzes de LED. Assim que Marc\u00e3o fechou a porta, isolando o som exterior, Gustavo arrancou o bon\u00e9 da cabe\u00e7a e o jogou no sof\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o gritou. N\u00e3o chutou nenhuma cadeira. Ele apenas passou as m\u00e3os pelo cabelo com for\u00e7a e soltou um suspiro pesado, rindo com esc\u00e1rnio.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 impressionante &#8211; disse ele, a voz carregada de uma exaust\u00e3o amarga, virando-se para %D\u00e9bora%. &#8211; Eu posso gravar um DVD amanh\u00e3, ganhar um Grammy, compor a melhor m\u00fasica da d\u00e9cada&#8230; e no final do dia, eu ainda vou ser o &#8220;ex da Boiadeira&#8221; que algu\u00e9m quer fazer de chacota na grade.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% ficou parada perto da porta, lendo o ambiente. Ela n\u00e3o viu um homem com o cora\u00e7\u00e3o partido chorando pela ex-namorada. Ela viu um profissional absurdamente irritado por ter seu m\u00e9rito reduzido a uma fofoca de p\u00e1gina de Instagram.<br \/><br \/>\n\u2003\u2003Ela caminhou at\u00e9 o frigobar, pegou uma garrafa de \u00e1gua de vidro, abriu e estendeu para ele.<br \/>\n\u2003\u2003- Beb\u00ea. E respira &#8211; disse ela, o tom calmo, sem pena.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo pegou a garrafa, tomou um gole longo e se jogou no sof\u00e1.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o \u00e9 dor de cotovelo, %D\u00e9bora%. Eu tenho um carinho gigante pela Ana, a gente viveu uma hist\u00f3ria muito foda, e eu respeito o espa\u00e7o dela. Mas essa narrativa&#8230; me esgota. &#8211; Ele gesticulou com a m\u00e3o livre, a frustra\u00e7\u00e3o transbordando. &#8211; A gente se falou m\u00eas passado, civilizadamente, para apaziguar umas coisas internas. Algu\u00e9m v\u00ea a gente conversando, e a m\u00eddia j\u00e1 cria uma novela de que estamos voltando. A\u00ed ela sai com um amigo, o Z\u00e9 ou quem quer que seja, e eu viro o corno abandonado da internet. \u00c9 rid\u00edculo!<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele, cruzando os bra\u00e7os.<br \/>\n\u2003\u2003- As pessoas consomem novelas, Gustavo. E, infelizmente, a trag\u00e9dia rom\u00e2ntica ou a fofoca de trai\u00e7\u00e3o gera mais engajamento que o lan\u00e7amento do seu EP novo.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei. Mas ter que engolir isso de f\u00e3, na porta do meu pr\u00f3prio show&#8230; irrita. Irrita pra caralho. Parece que o meu trabalho n\u00e3o vale nada perto do meu CPF.<br \/>\n\u2003\u2003- E \u00e9 por isso que a partir de agora, o acesso ao seu CPF est\u00e1 bloqueado &#8211; disse %D\u00e9bora%, o tom cortante de uma empres\u00e1ria que acabou de tomar uma decis\u00e3o irrevog\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo franziu a testa, prestando aten\u00e7\u00e3o nela.<br \/>\n\u2003\u2003- O que quer dizer com isso?<br \/>\n\u2003\u2003- Quero dizer que a D&amp;R assume a narrativa de crise a partir de hoje. Eu vou blindar voc\u00ea. &#8211; Ela destampou a pr\u00f3pria caneta, o c\u00e9rebro operando em velocidade m\u00e1xima. &#8211; Entrevistas no camarim? O roteiro de perguntas vai ser aprovado por mim com trinta minutos de anteced\u00eancia. Se algum radialista tocar no nome dela, a entrevista acaba na hora e o ve\u00edculo perde o acesso \u00e0 turn\u00ea. Na grade, se a pergunta passar do ponto, eu te puxo na mesma fra\u00e7\u00e3o de segundo. Voc\u00ea n\u00e3o precisa sorrir por educa\u00e7\u00e3o para quem desrespeita o seu momento atual.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo a encarou. A postura r\u00edgida dele foi amolecendo. Ele estava t\u00e3o acostumado a produtores que diziam &#8220;faz parte, sorri e acena pra n\u00e3o perder f\u00e3&#8221;, que a abordagem de %D\u00e9bora% o desarmou. Ela n\u00e3o estava oferecendo um ombro para ele chorar; estava oferecendo uma barreira de artilharia.<br \/>\n\u2003\u2003- Eles v\u00e3o dizer que eu fiquei arrogante. Que a minha produ\u00e7\u00e3o \u00e9 antip\u00e1tica &#8211; ele pontuou, mas havia um al\u00edvio imenso na voz dele ao considerar a ideia.<br \/>\n\u2003\u2003- Deixa que me chamem de antip\u00e1tica. Meu trabalho n\u00e3o \u00e9 ser Miss Simpatia, \u00e9 garantir que voc\u00ea suba naquele palco com a cabe\u00e7a limpa. Se a m\u00eddia quer drama, que procure na concorr\u00eancia. Aqui a gente entrega m\u00fasica.<br \/>\n\u2003\u2003Um sil\u00eancio confort\u00e1vel e denso se instalou no camarim. Gustavo olhou para a garrafa de \u00e1gua em sua m\u00e3o e depois para %D\u00e9bora%. O peso nos ombros dele havia desaparecido.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 assustadoramente eficiente, %D\u00e9bora%.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sou paga para ser assustadora quando necess\u00e1rio. &#8211; Ela deu um meio sorriso, levantando-se e checando o r\u00e1dio na cintura, que havia acabado de piscar. &#8211; Agora foca no que importa. O palco est\u00e1 pronto. O Beto deixou as linhas de guitarra novas marcadas para hoje, e o t\u00e9cnico de luz quer que voc\u00ea teste os LEDs do refr\u00e3o. Podemos?<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo se levantou. A sombra da fofoca havia ficado no sof\u00e1. Ele estava de volta ao controle.<br \/>\n\u2003\u2003- Podemos. Vamos trabalhar.<br \/>\n\u2003\u2003Ele abriu a porta para ela. Enquanto caminhavam pelos corredores escuros rumo ao palco principal, Gustavo n\u00e3o olhou para o celular e n\u00e3o se importou com os ecos do lado de fora. Pela primeira vez em meses de turn\u00ea, ele sentiu que suas costas estavam, de fato, protegidas por algu\u00e9m que n\u00e3o tinha medo de comprar a briga dele.<br \/>\n\u2003\u2003O pavilh\u00e3o de eventos estava vazio, exceto pela equipe t\u00e9cnica espalhada e alguns funcion\u00e1rios da limpeza no fundo da pista. O eco no teto de zinco era imenso, engolindo os ru\u00eddos met\u00e1licos da montagem.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo subiu ao palco de dezoito metros com passos duros. Ele n\u00e3o fez as habituais brincadeiras com o baterista nem cumprimentou o t\u00e9cnico de monitor no caminho. Pegou seu viol\u00e3o ac\u00fastico no pedestal, sentou-se no banquinho central e ajeitou o microfone com um pux\u00e3o seco.<br \/>\n\u2003\u2003- Vamos passar <em>Eu Gosto Assim<\/em> primeiro, pra bater o grave do bumbo com a via de LED ligada &#8211; orientou o diretor musical pelo microfone de comunica\u00e7\u00e3o interna.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o &#8211; cortou Gustavo. A voz dele soou grave e r\u00edspida no sistema de som de alta pot\u00eancia, reverberando pela arena vazia. &#8211; Vamos de <em>Com ou Sem Mim<\/em>. Valendo. Agora.<br \/>\n\u2003\u2003A banda se entreolhou, surpresa pela quebra do roteiro t\u00e9cnico, mas ningu\u00e9m questionou. O baterista contou o tempo nas baquetas e o teclado entrou rasgando o sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% estava na lateral do palco, na <em>house mix<\/em> secund\u00e1ria, de bra\u00e7os cruzados, prancheta esquecida sob o bra\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003Quando Gustavo come\u00e7ou a cantar, n\u00e3o foi uma passagem de som t\u00e9cnica para poupar as cordas vocais. Ele atacou a m\u00fasica.<br \/>\n\u2003\u2003<em>&#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o me disser, a verdade&#8230;&#8221;<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A letra, que naturalmente falava sobre incertezas e a dor de n\u00e3o saber onde se pisa, ganhou uma carga de energia densa que fez os t\u00e9cnicos de som tirarem os olhos das mesas de mixagem para observar o palco. Gustavo cantava de olhos fechados, a veia do pesco\u00e7o saltada, a m\u00e3o direita castigando as cordas do viol\u00e3o com mais for\u00e7a do que o necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Ele n\u00e3o estava cantando para implorar o amor de ningu\u00e9m, muito menos o da ex-namorada. %D\u00e9bora%, assistindo a poucos metros de dist\u00e2ncia, entendeu perfeitamente o que estava acontecendo. Ele estava despejando no microfone a frustra\u00e7\u00e3o do sagu\u00e3o, a humilha\u00e7\u00e3o do escrut\u00ednio p\u00fablico e o cansa\u00e7o de ser reduzido a um boato de internet com Z\u00e9 Felipe. Era a f\u00faria de um artista transformando lixo midi\u00e1tico em arte crua.<br \/>\n\u2003\u2003Era visceral. Era pesado. E era, de uma forma t\u00e9cnica e art\u00edstica, absolutamente irretoc\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003No \u00faltimo refr\u00e3o, o arranjo subiu. Gustavo abriu os olhos. Varreu a pista vazia e virou o rosto para a lateral do palco, procurando a \u00fanica pessoa ali que conhecia o contexto daquela explos\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Quando os olhos dele encontraram os de %D\u00e9bora% nas sombras das coxias, ele sustentou o olhar. N\u00e3o havia flerte rom\u00e2ntico. Havia um recado claro, de artista para empres\u00e1ria: <em>Eu estou deixando a raiva aqui em cima, como voc\u00ea mandou.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A m\u00fasica terminou com um acorde seco de viol\u00e3o que ecoou pelas arquibancadas de concreto at\u00e9 morrer no sil\u00eancio.<br \/>\n\u2003\u2003A equipe ficou muda por dois longos segundos, processando o impacto da performance.<br \/>\n\u2003\u2003- Puta que pariu, Gustavo&#8230; &#8211; murmurou o baixista, abaixando o instrumento. &#8211; Se voc\u00ea cantar assim \u00e0 noite, o est\u00e1dio vem abaixo. T\u00e1 aprovado o som.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo apenas assentiu, tirando a correia do viol\u00e3o do pesco\u00e7o e entregando o instrumento ao <em>roadie<\/em>. Ele respirava fundo, os ombros visivelmente mais leves. O veneno tinha sa\u00eddo do sistema.<br \/>\n\u2003\u2003Ele caminhou em passos lentos at\u00e9 a lateral escurecida onde %D\u00e9bora% o observava. Uma fina camada de suor brilhava em sua testa, apesar do frio do pavilh\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% estendeu uma toalha de rosto limpa e uma garrafa de \u00e1gua lacrada.<br \/>\n\u2003\u2003- Catarse conclu\u00edda? &#8211; perguntou ela, a voz baixa, o tom anal\u00edtico, mas com um tra\u00e7o claro de aprova\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Quase &#8211; admitiu ele, secando o rosto e o pesco\u00e7o. &#8211; Mas limpou o sistema. Eu precisava gritar um pouco. A ac\u00fastica daqui \u00e9 boa pra isso.<br \/>\n\u2003\u2003- Foi um excelente uso da ac\u00fastica &#8211; ela concordou, dando um passo para o lado para deixar um t\u00e9cnico de luz passar com um cabo. &#8211; O bloqueio midi\u00e1tico no camarim j\u00e1 est\u00e1 armado para a noite. A imprensa n\u00e3o vai chegar a tr\u00eas metros de voc\u00ea com perguntas que n\u00e3o estejam no <em>script<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Ele tomou metade da \u00e1gua da garrafa de uma vez s\u00f3, apoiando-se na estrutura met\u00e1lica do palco ao lado dela.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigado, %D\u00e9bora%. Por n\u00e3o ter me mandado engolir sapo l\u00e1 fora e por me deixar estourar aqui dentro.<br \/>\n\u2003\u2003- Minha fun\u00e7\u00e3o \u00e9 garantir que o Mioto do palco entregue os hits e o Gustavo n\u00e3o enlouque\u00e7a no processo &#8211; ela respondeu com naturalidade, checando o rel\u00f3gio. &#8211; Mas a catarse acabou. O p\u00fablico pagou pra beber, pular e esquecer os pr\u00f3prios problemas hoje \u00e0 noite, n\u00e3o pra resolver os seus. Vamos passar as mais animadas agora. Consegue sorrir?<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo a encarou. O sorriso que despontou no rosto dele dessa vez n\u00e3o teve nada de ensaiado. Foi verdadeiro, aliviado e cheio de cumplicidade.<br \/>\n\u2003\u2003- Com voc\u00ea ali na porta barrando a loucura? Consigo fazer at\u00e9 coreografia.<br \/>\n\u2003\u2003- Menos. Foca na afina\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 de bom tamanho &#8211; ela rebateu, virando-se de volta para a prancheta para esconder a express\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim, General.<br \/>\n\u2003\u2003Ele deu as costas e caminhou de volta para o centro do palco, pedindo o viol\u00e3o novamente e fazendo uma piada com o baterista, o clima da equipe subitamente restaurado e leve.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% ficou parada na penumbra, o fone do r\u00e1dio comunicador zumbindo em seu ouvido com instru\u00e7\u00f5es da portaria, mas ela n\u00e3o processou as palavras de imediato.<br \/>\n\u2003\u2003A &#8220;General&#8221; n\u00e3o sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar com paix\u00e3o adolescente. O que a atingiu foi algo muito mais perigoso para uma gestora: um respeito profundo e irrefre\u00e1vel pelo homem debaixo dos holofotes.<br \/>\n\u2003\u2003A rela\u00e7\u00e3o deles havia ultrapassado a fronteira de &#8220;cliente e contratada&#8221; muito antes dos trinta dias. Eles agora compartilhavam segredos de bastidor, frustra\u00e7\u00f5es reais e a confian\u00e7a m\u00fatua de uma trincheira. E, no mercado da m\u00fasica, a lealdade de trincheira era o cimento mais imposs\u00edvel de se quebrar.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% respirou fundo, apertou o bot\u00e3o do r\u00e1dio e voltou ao trabalho. O muro estava de p\u00e9, mas a porta de a\u00e7o tinha acabado de ganhar uma fechadura nova.<\/p>\n<h3>\u2003\u2003<strong>A Crise das 06h30<\/strong><\/h3>\n<p>\u2003\u2003O celular de %D\u00e9bora% n\u00e3o tocou; ele vibrou em um zumbido cont\u00ednuo e agressivo contra a madeira da mesa de cabeceira at\u00e9 despencar no carpete. Eram 06h30 da manh\u00e3 de domingo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela acordou num pulo, a mente varrendo o nevoeiro do sono em um segundo. O instinto da D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es entrou em alerta vermelho. Ningu\u00e9m na ind\u00fastria liga repetidas vezes nessa hora da manh\u00e3 ap\u00f3s um show de s\u00e1bado, a menos que uma carreta tenha tombado ou a internet tenha explodido.<br \/>\n\u2003\u2003Pescou o aparelho do ch\u00e3o. Quinze notifica\u00e7\u00f5es de %Rayane%. Oito do grupo de monitoramento de m\u00eddia da gravadora. E um link enviado pelo Assessor de Imprensa com a legenda: <em>&#8220;Temos um vazamento n\u00edvel 4.&#8221;<\/em><br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% sentou-se na beira da cama, ignorando o frio do ar-condicionado, e abriu o link. Era uma p\u00e1gina de fofoca no Instagram com tr\u00eas milh\u00f5es de seguidores.<br \/>\n\u2003\u2003<strong>Manchete:<\/strong> <em>&#8220;CLIM\u00c3O! Mioto trava ao ser questionado sobre Ana Castela e Z\u00e9 Felipe. O sertanejo ainda sofre pela Boiadeira?&#8221;<\/em><br \/>\n\u2003\u2003O v\u00eddeo era tremido, gravado do \u00e2ngulo da f\u00e3 na grade de Mar\u00edlia. Mostrava a pergunta invasiva, mas a edi\u00e7\u00e3o era venenosa: deram um zoom lento no rosto de Gustavo no exato milissegundo em que ele trincou o maxilar. Colocaram um filtro preto e branco, desaceleraram a imagem e inseriram uma m\u00fasica melanc\u00f3lica de fundo. Logo em seguida, a m\u00e3o de %D\u00e9bora% aparecia bloqueando a lente, e a voz dela soava autorit\u00e1ria cortando a grava\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Os coment\u00e1rios eram um esgoto a c\u00e9u aberto:<\/p>\n<ul>\n<li>&#8220;Nossa, a cara dele de quem vai chorar no banho.&#8221;<\/li>\n<li>&#8220;Z\u00e9 Felipe n\u00e3o perdoa, n\u00e9? Supera, Mioto!&#8221;<\/li>\n<li>&#8220;Gente, quem \u00e9 essa produtora grossa empurrando a f\u00e3? Que equipe lixo.&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u2003\u2003- Produtora grossa, n\u00e3o. Gestora de crise &#8211; murmurou %D\u00e9bora%, a voz rouca de sono, mas os olhos brilhando com a frieza de uma estrategista.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o foi ao banheiro. N\u00e3o pediu caf\u00e9. Abriu o notebook no colo e iniciou o &#8220;Modo Sala de Guerra&#8221;. Se a narrativa que queriam vender era a de um &#8220;Gustavo fr\u00e1gil e abandonado&#8221;, ela iria esmagar essa hist\u00f3ria com o peso da m\u00e1quina que operava os bastidores.<br \/>\n\u2003\u2003Seus dedos voaram no teclado. Tr\u00eas abas abertas: o painel de controle da assessoria jur\u00eddica, o grupo de WhatsApp com os l\u00edderes dos cinco maiores F\u00e3 Clubes (FCs) oficiais, e o e-mail do suporte do Instagram.<\/p>\n<h3>\u2003\u2003<strong>Caf\u00e9 da Manh\u00e3 com o Chefe do Chefe<\/strong><\/h3>\n<p>\u2003\u2003\u00c0s 08h00, %D\u00e9bora% desceu para o restaurante do hotel. A &#8220;General&#8221; estava blindada: blazer preto de corte impec\u00e1vel sobre uma camiseta de seda branca, cal\u00e7a de alfaiataria e o iPad na m\u00e3o. Ningu\u00e9m diria que ela estava acordada h\u00e1 uma hora e meia orquestrando um ataque digital em massa.<br \/>\n\u2003\u2003O restaurante estava calmo, mas uma mesa no fundo, isolada por um biombo de plantas, atra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o discreta e nervosa dos gar\u00e7ons.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo estava l\u00e1. Usava um moletom com o capuz puxado sobre o bon\u00e9, mexendo em um prato de frutas sem comer absolutamente nada. A postura era a de quem queria desaparecer.<br \/>\n\u2003\u2003E, sentado \u00e0 frente dele, bebendo um expresso duplo, estava uma figura que fez os p\u00e9s de %D\u00e9bora% travarem por um microssegundo no carpete.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos Mioto.<br \/>\n\u2003\u2003Ele era exatamente como as fotos das revistas de neg\u00f3cios o retratavam: imponente, com cabelos grisalhos milimetricamente alinhados e aquela aura pesada de quem conhecia os esqueletos e os cofres da ind\u00fastria da m\u00fasica brasileira. Ele n\u00e3o estava ali a passeio. Tinha voado com o jato da empresa logo cedo. Estava falando baixo, o tom grave e severo de uma repreens\u00e3o executiva.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% ajeitou os ombros, ergueu o queixo e caminhou at\u00e9 a mesa. O salto da bota marcando o ritmo da sua autoridade.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom dia &#8211; disse ela, a voz projetada com polidez cir\u00fargica.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo levantou a cabe\u00e7a r\u00e1pido, um al\u00edvio imenso cruzando suas fei\u00e7\u00f5es. Marcos Mioto parou de falar e virou-se lentamente, analisando-a de cima a baixo com um olhar que parecia escanear seu curr\u00edculo inteiro.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom dia, %D\u00e9bora% &#8211; apressou-se Gustavo. &#8211; Pai, essa \u00e9 a %D\u00e9bora%. A produtora da D&amp;R que est\u00e1 cobrindo a licen\u00e7a do Beto.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos n\u00e3o sorriu. Ele levantou-se parcialmente e estendeu a m\u00e3o. O aperto foi um teste de for\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- A famosa &#8220;General&#8221; que o Beto garantiu que seguraria a turn\u00ea &#8211; a voz de Marcos era um trov\u00e3o contido. &#8211; E a mesma mo\u00e7a que, desde as seis da manh\u00e3, a internet est\u00e1 chamando de pitbull do sertanejo por maltratar f\u00e3s.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo encolheu-se na cadeira, abrindo a boca para defend\u00ea-la. &#8211; Pai, o v\u00eddeo foi cortado, n\u00e3o foi bem as&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003- Deixe-a responder, Gustavo &#8211; cortou Marcos, sem tirar os olhos de %D\u00e9bora%. O teste n\u00e3o era para o filho. Era para ela.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% n\u00e3o piscou. Ela sustentou o olhar do homem que era a maior inspira\u00e7\u00e3o do seu CNPJ, sentindo a adrenalina varrer qualquer tra\u00e7o de intimida\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 uma honra conhec\u00ea-lo pessoalmente, Marcos &#8211; ela respondeu, soltando a m\u00e3o dele com firmeza. &#8211; E quanto \u00e0 internet: o v\u00eddeo omite a invas\u00e3o de privacidade e o desrespeito direto ao seu artista. O meu trabalho n\u00e3o \u00e9 ser simp\u00e1tica com quem gera fofoca de corredor; \u00e9 proteger a sanidade do cantor para que ele entregue o show milion\u00e1rio que o p\u00fablico pagou para ver. Se isso me transforma na vil\u00e3 tempor\u00e1ria do Twitter, eu durmo muito bem com esse t\u00edtulo.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos Mioto ficou em sil\u00eancio por tr\u00eas longos segundos. Ele estava medindo a espessura da armadura dela.<br \/>\n\u2003\u2003- Proteger o artista na hora \u00e9 o b\u00e1sico da opera\u00e7\u00e3o de campo, %D\u00e9bora% &#8211; disse Marcos, sentando-se novamente e cruzando as m\u00e3os sobre a mesa. &#8211; Mas a manchete j\u00e1 estourou. &#8220;Mioto abalado&#8221;. Isso soa como fraqueza para os contratantes. Isso alimenta o fantasma desse tri\u00e2ngulo amoroso que eu venho tentando enterrar h\u00e1 seis meses com a equipe de marketing. O Beto estaria suando frio me perguntando o que fazer. O que <em>voc\u00ea<\/em> fez?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Gustavo e colocou o iPad no centro da mesa, deslizando-o para a frente do todo-poderoso da Miotinho Produ\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o emitimos nota de rep\u00fadio. Isso valida a fofoca e alimenta os abutres &#8211; come\u00e7ou ela, a voz no ritmo de um relat\u00f3rio de diretoria. &#8211; Apliquei a t\u00e1tica de sufocamento de algoritmo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela tocou na tela, abrindo um gr\u00e1fico em tempo real.<br \/>\n\u2003\u2003- Passo um: o jur\u00eddico j\u00e1 enviou uma notifica\u00e7\u00e3o de <em>copyright strike<\/em> para as tr\u00eas maiores p\u00e1ginas de fofoca. O v\u00eddeo deles usa o \u00e1udio oficial de fundo do pavilh\u00e3o, que pertence \u00e0 gravadora. \u00c9 uma tecnicalidade agressiva, mas o algoritmo do Instagram j\u00e1 derrubou os dois maiores v\u00eddeos automaticamente h\u00e1 dez minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo arregalou os olhos, olhando para o iPad e depois para ela, chocado com a velocidade. Marcos Mioto se inclinou para a frente, ajustando os \u00f3culos.<br \/>\n\u2003\u2003- Passo dois &#8211; continuou %D\u00e9bora%, deslizando a tela para o Twitter. &#8211; Liberei para os presidentes dos cinco maiores F\u00e3 Clubes oficiais um v\u00eddeo em alta defini\u00e7\u00e3o, gravado na passagem de som ontem \u00e0 tarde. Mostra o Gustavo cantando <em>Com ou Sem Mim<\/em> no viol\u00e3o. Cru, visceral, impec\u00e1vel e focado. Instru\u00ed os FCs a inundarem as redes com a hashtag <em>#MiotoNoPalco<\/em>. A narrativa de &#8220;abandonado&#8221; est\u00e1 sendo engolida pela narrativa de &#8220;artista focado e no auge vocal&#8221;. Em meia hora, entramos nos Trending Topics.<br \/>\n\u2003\u2003- E o terceiro passo &#8211; ela finalizou, fechando a aba e bloqueando a tela. &#8211; \u00c0s 09h em ponto, a equipe de m\u00eddias sociais vai soltar um carrossel de fotos da arena lotada de ontem, agradecendo Mar\u00edlia, com a agenda esgotada da semana. A mensagem corporativa \u00e9 silenciosa e letal: <em>Ele est\u00e1 faturando e trabalhando demais para ser figurante em novela de ex-namorada<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003O sil\u00eancio na mesa foi absoluto. Gustavo estava boquiaberto. Ele sabia que ela era boa, mas ver a &#8220;General&#8221; desmontar uma crise midi\u00e1tica nacional antes do caf\u00e9 esfriar era um espet\u00e1culo assustador.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos Mioto olhou para o iPad apagado. Depois olhou para o filho. E, finalmente, olhou para %D\u00e9bora%. O rosto r\u00edgido do empres\u00e1rio cedeu, dando lugar a um sorriso de aprova\u00e7\u00e3o que pouqu\u00edssimas pessoas no mercado j\u00e1 tinham visto.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 letal, menina &#8211; constatou Marcos, a voz perdendo o tom de teste e assumindo um respeito cristalino. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pediu permiss\u00e3o. Voc\u00ea executou, matou o problema e me apresentou o corpo.<br \/>\n\u2003\u2003- Crises de imagem n\u00e3o esperam o hor\u00e1rio comercial, Marcos. E a D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi contratada para pedir permiss\u00e3o &#8211; respondeu %D\u00e9bora%, permitindo-se um sorriso microsc\u00f3pico, o cora\u00e7\u00e3o finalmente batendo num ritmo normal de puro triunfo profissional.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos soltou uma risada grave e rouca, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a. Ele virou-se para Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea tem muita sorte, moleque. Eu vim de S\u00e3o Paulo voando baixo porque achei que a equipe reserva ia deixar a turn\u00ea afundar nessa fofoca com a Ana Castela de novo. Mas o barco n\u00e3o est\u00e1 apenas controlado. Ele est\u00e1 blindado.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu te avisei, pai. A %D\u00e9bora% \u00e9 de outro n\u00edvel &#8211; disse Gustavo, a voz carregada de um orgulho que fez o est\u00f4mago de %D\u00e9bora% dar um giro.<br \/>\n\u2003\u2003- Vejo que sim. &#8211; Marcos tomou o resto do caf\u00e9 em um gole s\u00f3 e se levantou, abotoando o palet\u00f3. &#8211; Eu n\u00e3o fico para o almo\u00e7o. S\u00f3 vim checar a temperatura da crise. E a temperatura est\u00e1 congelada.<br \/>\n\u2003\u2003Ele estendeu a m\u00e3o para %D\u00e9bora%, dessa vez n\u00e3o como um teste, mas como um selo de parceria.<br \/>\n\u2003\u2003- Parab\u00e9ns pelo trabalho, %D\u00e9bora%. Continue sendo a barreira de concreto dele. O Gustavo tem o talento e um cora\u00e7\u00e3o mole demais pra esse mercado de tubar\u00f5es. Ele precisa de generais com sangue frio por perto.<br \/>\n\u2003\u2003- O CNPJ dele est\u00e1 seguro comigo, Marcos. Boa viagem de volta.<br \/>\n\u2003\u2003Marcos deu um tapinha forte no ombro de Gustavo, abaixou-se e disse algo inaud\u00edvel no ouvido do filho que o fez concordar com a cabe\u00e7a. Em seguida, o empres\u00e1rio virou as costas e marchou para fora do restaurante, seguido por dois seguran\u00e7as.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que Marcos sumiu no lobby, Gustavo soltou todo o ar dos pulm\u00f5es de uma vez, afundando na cadeira, tirando o capuz da cabe\u00e7a e passando a m\u00e3o no rosto.<br \/>\n\u2003\u2003Ele olhou para %D\u00e9bora% do outro lado da mesa. O olhar dele n\u00e3o era de um cliente satisfeito. Era de algu\u00e9m que havia acabado de encontrar um farol no meio de um furac\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea tem no\u00e7\u00e3o de que acabou de deixar o Marcos Mioto sem palavras? &#8211; perguntou Gustavo, a voz embargada de al\u00edvio e pura admira\u00e7\u00e3o. &#8211; Nem o Beto consegue fazer isso. Como voc\u00ea fez tudo aquilo em uma hora?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% puxou o iPad de volta para si, a postura inabal\u00e1vel, mas os olhos suavizando ao encontrar os dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu te disse ontem no camarim. Deixa a parte ruim comigo. Voc\u00ea s\u00f3 foca em tocar viol\u00e3o. Vai comer suas frutas ou vai ficar me encarando com essa cara de choque?<br \/>\n\u2003\u2003A sa\u00edda de Marcos Mioto deixou um v\u00e1cuo de sil\u00eancio na mesa. D\u00e9bora% sentou-se na cadeira que o empres\u00e1rio havia deixado vaga, permitindo-se encostar as costas no estofado pela primeira vez na manh\u00e3. A adrenalina t\u00e1tica come\u00e7ava a baixar, deixando um rastro de cansa\u00e7o nos ombros.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo, que ainda estava processando o furac\u00e3o dos \u00faltimos vinte minutos, empurrou o prato de frutas intocado para o lado e apoiou os bra\u00e7os na mesa, encarando-a com uma mistura de choque e admira\u00e7\u00e3o absoluta.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea jantou a crise, engoliu a p\u00e1gina de fofoca e ainda serviu de sobremesa pro meu pai. &#8211; Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, rindo nervoso. &#8211; &#8220;Sufocamento de algoritmo&#8221;? Voc\u00ea inventou isso agora?<br \/>\n\u2003\u2003- O nome t\u00e9cnico \u00e9 Gest\u00e3o de Reputa\u00e7\u00e3o por Deslocamento de Foco, mas achei que seu pai, sendo um homem de neg\u00f3cios, apreciaria uma terminologia mais agressiva &#8211; confessou ela, roubando um p\u00e3o de queijo da cesta dele e dando uma mordida. &#8211; E eu estava calculando cada milissegundo daquela conversa. Seu pai n\u00e3o \u00e9 um homem que aceita hesita\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- N\u00e3o parecia hesitar. Voc\u00ea parecia uma muralha de concreto armado. &#8211; Gustavo ficou s\u00e9rio, o olhar castanho se suavizando. &#8211; Obrigado. De verdade. Por ter acordado cedo pra limpar a minha barra e n\u00e3o me deixar afundar nisso.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 o meu trabalho, Gustavo. E o seu trabalho hoje \u00e9 esquecer que a internet existe. &#8211; Ela checou o rel\u00f3gio no pulso. Nove da manh\u00e3. &#8211; O inc\u00eandio est\u00e1 apagado. Seu pai deu a b\u00ean\u00e7\u00e3o. A equipe inteira est\u00e1 de folga hoje e o \u00f4nibus s\u00f3 segue viagem \u00e0 noite.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo abriu um sorriso lento, daquele tipo que desarmava defesas com uma facilidade irritante.<br \/>\n\u2003\u2003- O que significa que o convite pro interior ainda est\u00e1 de p\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% o avaliou por um momento. Levar o cliente para a propriedade da fam\u00edlia era uma quebra de protocolo, mas depois da manh\u00e3 brutal que ele teve, um isolamento rural era a melhor prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica poss\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003- Est\u00e1. Mas com regras estritas de seguran\u00e7a &#8211; ela pontuou, a General assumindo o controle da log\u00edstica. &#8211; Nada de postar localiza\u00e7\u00e3o, nada de fotos no Instagram. Um dia cem por cento <em>offline<\/em>. Vamos na van blindada, s\u00f3 eu, voc\u00ea, o Marc\u00e3o na seguran\u00e7a e o motorista. O Recanto fica no Norte Pioneiro, a pouco mais de uma hora e meia daqui.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu aceito qualquer termo de contrato que envolva sumir do mapa e comer comida de verdade &#8211; ele concordou, erguendo a x\u00edcara de caf\u00e9 como num brinde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003A Crise das 06h30 \u2003\u2003Caf\u00e9 da Manh\u00e3 com o Chefe do Chefe<\/p>\n","protected":false},"author":155,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2539],"class_list":["post-10264","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-acordesecompassos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/155"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}