{"id":10241,"date":"2026-04-29T13:15:45","date_gmt":"2026-04-29T16:15:45","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-04-29T13:21:05","modified_gmt":"2026-04-29T16:21:05","slug":"capitulo-07","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-07\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 07"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O vento em Washington<\/span> parecia mais cortante naquela manh\u00e3, mesmo para algu\u00e9m como Natasha Romanoff, acostumada aos extremos do clima e da vida. Ela caminhava em passos firmes, m\u00e3os enfiadas nos bolsos do casaco preto, atravessando o sagu\u00e3o quase vazio de um pr\u00e9dio federal escondido atr\u00e1s de fachada neutra e sem identifica\u00e7\u00e3o. A luz branca dos corredores refletia no piso encerado, e cada passo dela reverberava com a impaci\u00eancia que vinha carregando desde que o nome de Nick Fury surgiu na tela do celular \u00e0s cinco e meia da manh\u00e3.<br>\u2003\u2003Fury n\u00e3o costumava chamar para conversa a essa hora. N\u00e3o desde que a S.H.I.E.L.D. havia sido \u201coficialmente\u201d encerrada. N\u00e3o depois de tudo que havia sido desmontado, enterrado ou dispersado entre as cinzas do Triskelion e os escombros da guerra.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea tem cinco minutos \u2014 ela anunciou assim que entrou na sala reservada, sem sequer se sentar.<br>\u2003\u2003Fury estava de p\u00e9, de costas para ela, olhando para um painel de monitoramento improvisado montado com o que sobrou da intelig\u00eancia que ele ainda conseguia acessar. Era pouca coisa, mas o bastante para saber que algo estava errado.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso vai tomar mais do que cinco \u2014 respondeu ele, sem se virar. A voz carregava aquele tom seco que s\u00f3 aparecia quando o peso nas costas aumentava al\u00e9m do habitual. \u2014 Senta. Vai querer ver isso com calma.<br>\u2003\u2003Natasha hesitou, mas cedeu. Cruzou a sala, puxou a cadeira com um movimento r\u00e1pido e se deixou cair sobre ela. Cruzou os bra\u00e7os e esperou.<br>\u2003\u2003Fury clicou em um dos monitores. As imagens come\u00e7aram a desfilar na tela \u2014 fotos, v\u00eddeos de vigil\u00e2ncia, relat\u00f3rios com tarjas pretas demais, e ent\u00e3o as imagens dos corpos. Natasha manteve os olhos fixos, o rosto impass\u00edvel. N\u00e3o havia choque. Mas havia algo mais vis\u00edvel, mais claro: familiaridade.<br>\u2003\u2003\u2014 Tr\u00eas semanas, seis cidades diferentes. Agora j\u00e1 s\u00e3o treze mortos. Todos eles com hist\u00f3rico sujo. Hydra, contraintelig\u00eancia, tr\u00e1fico de informa\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00f5es negras. Gente que voc\u00ea e eu sab\u00edamos que estava viva porque ningu\u00e9m tinha terminado o servi\u00e7o direito. \u2014 Fury parou de falar por um momento, como se deixasse que as imagens falassem por si. \u2014 Agora est\u00e3o todos mortos. E n\u00e3o foi acidente. Algu\u00e9m est\u00e1 limpando a sujeira que a S.H.I.E.L.D. deixou espalhada.<br>\u2003\u2003\u2014 Esses cortes\u2026 essas fraturas\u2026 \u2014 Natasha comentou, inclinando o corpo para a frente. \u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 execu\u00e7\u00e3o&#8230; \u00e9 massacre. Quem quer que esteja fazendo isso, tem raiva. Muita raiva. E t\u00e1 deixando isso bem \u00f3bvio com cada morte.<br>\u2003\u2003Fury assentiu, finalmente se virando para encar\u00e1-la.<br>\u2003\u2003\u2014 E n\u00e3o est\u00e1 cometendo erros. Nada de digitais, nada de DNA, nada de rastros. Mas o padr\u00e3o \u00e9 claro demais pra ser ignorado.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea quer que eu encontre essa pessoa. \u2014 N\u00e3o era uma pergunta. Ela j\u00e1 sabia a resposta.<br>\u2003\u2003\u2014 Quero que encontre, sim. Mas n\u00e3o s\u00f3 isso \u2014 respondeu Fury, voltando a encarar as telas. \u2014 Quero que entenda o motivo. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pessoal. \u00c9 estrat\u00e9gico. Tem m\u00e9todo por tr\u00e1s da viol\u00eancia. E se n\u00e3o pararmos logo, vai escalar.<br>\u2003\u2003Natasha ficou em sil\u00eancio por alguns instantes, o olhar perdido em uma das imagens na tela \u2014 o corpo de um ex-agente russo, esquartejado em um galp\u00e3o abandonado na Cro\u00e1cia. Ela j\u00e1 tinha visto muita coisa. J\u00e1 tinha feito muita coisa. Mas havia algo de particularmente perturbador naquela sequ\u00eancia de mortes. Como se os alvos estivessem sendo apagados de forma ritual\u00edstica.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem alguma pista de quem poderia estar por tr\u00e1s disso?<br>\u2003\u2003Fury suspirou e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003\u2014 Nenhum nome, nenhum rosto. E at\u00e9 onde sabemos\u2026 ningu\u00e9m vivo tem esse tipo de perfil.<br>\u2003\u2003Ela olhou para ele com sobrancelha arqueada.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea acha que \u00e9 algu\u00e9m que dever\u00edamos conhecer?<br>\u2003\u2003\u2014 Eu acho\u2026 \u2014 Fury hesitou por um segundo, como se ponderasse at\u00e9 onde poderia ir \u2014 \u2026que talvez n\u00e3o estejamos lidando com algu\u00e9m que seja convencional.<br>\u2003\u2003Natasha franziu o cenho, mas n\u00e3o pressionou. Ela sabia ler Fury. Sabia quando ele estava omitindo algo \u2014 e sabia que, se estava, tinha um bom motivo.<br>\u2003\u2003\u2014 Me d\u00e1 48 horas. Quero acesso aos laudos completos, os locais das mortes e qualquer vigil\u00e2ncia que tiver. Vou come\u00e7ar por Praga. Aquele corpo mutilado no hotel\u2026 me diz que foi ali que o ca\u00e7ador deixou escapar alguma coisa.<br>\u2003\u2003Fury assentiu, j\u00e1 puxando os arquivos solicitados.<br>\u2003\u2003\u2014 E, Romanoff\u2026 \u2014 ele disse, enquanto ela j\u00e1 se levantava. \u2014 Isso \u00e9 entre n\u00f3s dois. Se esse tipo de coisa for parar nos ouvidos errados, pode dar in\u00edcio a uma ca\u00e7a internacional. E essa figura que t\u00e1 limpando o mundo\u2026 talvez n\u00e3o esteja t\u00e3o errada nos alvos.<br>\u2003\u2003Ela parou por um instante na porta, virando o rosto por cima do ombro.<br>\u2003\u2003\u2014 Se n\u00e3o estivesse matando como um animal, Fury\u2026 talvez eu at\u00e9 concordasse com ela.<br>\u2003\u2003E ent\u00e3o saiu. O corredor engoliu seus passos e Nick Fury ficou ali, sozinho com as imagens dos mortos, sentindo que havia acabado de soltar uma tempestade em busca de outra.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003As botas de Natasha pisaram o ch\u00e3o \u00famido com firmeza, o cascalho e os estilha\u00e7os de vidro se rearranjando sob o peso nada sutil do que havia acontecido ali. A noite anterior fora chuvosa, e agora o ar em Praga cheirava a terra molhada e decad\u00eancia \u2014 como se o pr\u00e9dio abandonado tivesse sugado para si todo o ar puro ao redor e regurgitado o que sobrou junto com o sangue das paredes. Era um antigo dep\u00f3sito, tr\u00eas andares de concreto sem manuten\u00e7\u00e3o desde os anos noventa. Um ponto discreto, quase invis\u00edvel, exceto pelo fato de que, agora, era uma cena de crime.<br>\u2003\u2003O corpo estava exatamente onde os agentes locais o haviam deixado. Natasha dispensou a equipe da Interpol ao chegar. Ela trabalhava melhor sozinha. A per\u00edcia oficial j\u00e1 fizera seu papel, e o que ela precisava n\u00e3o se encontrava em laudos feitos por olhos amadores \u2014 estava no cheiro met\u00e1lico que ainda pairava no ar, nos rastros quase apagados entre os entulhos, nos detalhes que olhos comuns n\u00e3o veriam. Ela se agachou devagar ao lado do cad\u00e1ver, estudando-o com a paci\u00eancia de quem j\u00e1 conviveu tempo demais com a morte para se assustar com a apar\u00eancia dela.<br>\u2003\u2003Era um homem. Ex-oficial da intelig\u00eancia da Hungria. Ligado \u00e0 Hydra por contratos antigos, lavagem de dinheiro, supervis\u00e3o de prisioneiros de guerra. Natasha j\u00e1 ouvira o nome dele sussurrado em algumas miss\u00f5es, mas nunca valera o esfor\u00e7o de ca\u00e7\u00e1-lo. Agora estava com a garganta aberta at\u00e9 a traqueia, os olhos revirados e os dedos de ambas as m\u00e3os quebrados um por um. N\u00e3o havia sinais de tiro. Nenhuma arma pr\u00f3xima. Apenas a brutalidade e a aus\u00eancia completa de miseric\u00f3rdia.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o teve d\u00favidas: aquilo fora feito por algu\u00e9m que queria que ele sofresse.<br>\u2003\u2003Passou a m\u00e3o enluvada pelo ch\u00e3o ao redor. Havia marcas t\u00eanues na poeira, quase apagadas pela chuva da madrugada, mas ainda vis\u00edveis para quem sabia procurar. Passos leves, firmes e \u00fanicos. Nenhum sinal de luta real \u2014 apenas deslocamento, abordagem, execu\u00e7\u00e3o. Natasha fechou os olhos por um segundo, tentando reconstituir a cena com os dados diante de si. A v\u00edtima foi pega de surpresa. Subjugada. Torturada. Depois, morta.<br>\u2003\u2003Era esse o padr\u00e3o que procuravam.<br>\u2003\u2003Ela se levantou, o olhar varrendo o espa\u00e7o ao redor. Era como estar dentro de um teatro onde a pe\u00e7a j\u00e1 havia terminado, mas o palco ainda cheirava a suor e tens\u00e3o. Ao fundo, um rastro de sangue escorria at\u00e9 uma parede onde uma frase fora rabiscada com o que parecia ser o pr\u00f3prio sangue da v\u00edtima:<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong><em>\u201cPara cada nome apagado, um erro corrigido.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A mensagem a fez franzir o cenho. Aquilo n\u00e3o era simples vingan\u00e7a. N\u00e3o era s\u00f3 ira reprimida. Era uma representa\u00e7\u00e3o cruel, uma declara\u00e7\u00e3o de guerra contra um sistema. Um acerto de contas em escala pessoal. E o que mais a preocupava\u2026 era que a pessoa por tr\u00e1s disso parecia entender muito bem como funcionar abaixo dos radares.<br>\u2003\u2003Natasha puxou o celular, acessando o banco de dados m\u00f3vel que Fury autorizara. Cruzou os nomes. Este homem era o quinto da lista. E agora, com os outros incidentes que ela come\u00e7ava a ligar, j\u00e1 se somavam treze. Todos mortos em circunst\u00e2ncias distintas, mas com a mesma assinatura: viol\u00eancia extrema, aus\u00eancia de pistas, zero testemunhas.<br>\u2003\u2003O telefone vibrou em sua m\u00e3o. Uma mensagem criptografada.<br>\u2003\u2003<strong>\u2014 <\/strong><em>\u201cEnviamos os arquivos do nome seguinte na lista. \u00daltima localiza\u00e7\u00e3o: Maryland.\u201d<\/em><br>\u2003\u2003Ela leu, mas n\u00e3o respondeu. O nome seguinte na lista&#8230; ela j\u00e1 sabia quem era. A mulher conhecida apenas como <em>Anya<\/em>. Uma ex-instrutora da Sala Vermelha. Uma que Natasha preferia esquecer. O fato de que um dos nomes mortos era essa mulher dizia muito. E o principal: quem quer que estivesse por tr\u00e1s das mortes, conhecia bem as entranhas da Hydra. Mais do que isso \u2014 conhecia os nomes que haviam escapado da justi\u00e7a. Conhecia a rede de corrup\u00e7\u00e3o interna. E conhecia as rotas de fuga.<br>\u2003\u2003Natasha virou-se devagar, encarando uma janela quebrada por onde a luz p\u00e1lida do final da tarde tentava se infiltrar. O mundo l\u00e1 fora seguia como se nada estivesse acontecendo, como se os gritos daquele homem nunca tivessem preenchido aquele espa\u00e7o. E isso era o mais aterrador. A limpeza estava sendo feita com a frieza de quem claramente n\u00e3o se importava com as consequ\u00eancias daquilo, ou com a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia.<br>\u2003\u2003Ela respirou fundo, ajeitou a jaqueta e caminhou at\u00e9 a sa\u00edda, os passos ecoando sobre o concreto manchado. Parou apenas por um instante na porta, olhando por cima do ombro para o corpo destru\u00eddo. Aquilo n\u00e3o era mais justi\u00e7a.<br>\u2003\u2003Mas, em algum n\u00edvel, talvez fosse o que ele merecia.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A estrada que levava at\u00e9 a Ba\u00eda de Chesapeake era cercada por \u00e1rvores nuas, esticando galhos retorcidos como ossos enregelados sob o c\u00e9u cinzento. O vento soprava com for\u00e7a, carregando folhas secas e o zumbido baixo de uma tempestade prestes a acontecer. Natasha dirigia com os olhos fixos na linha do horizonte, onde a floresta encontrava o mar. Maryland era calma demais. Bonita demais. Um lugar onde monstros deviam ter medo de se esconder. Mas, como ela sabia, monstros gostavam justamente de lugares assim \u2014 onde ningu\u00e9m procurava por eles.<br>\u2003\u2003Quando o carro parou diante da casa de madeira, afastada das outras e parcialmente coberta pela vegeta\u00e7\u00e3o, Natasha j\u00e1 sabia que estava tarde. A sensa\u00e7\u00e3o de que algo terminara ali pendia no ar como fuma\u00e7a. Ela saiu do ve\u00edculo, prendeu o cabelo num coque pr\u00e1tico e caminhou at\u00e9 a entrada com a m\u00e3o no coldre. As janelas estavam fechadas. Nenhum sinal de movimento. Mas havia o cheiro, quase impercept\u00edvel, de sangue velho. Ch\u00e1 de ervas. E&#8230; morte.<br>\u2003\u2003Ela arrombou a porta sem hesitar.<br>\u2003\u2003O interior era simples: m\u00f3veis antigos, tapetes desbotados, quadros com paisagens russas nas paredes. Tudo parecia congelado em outro tempo. No centro da sala, o corpo de Anya estava tombado sobre uma cadeira, a x\u00edcara ainda pendendo entre os dedos r\u00edgidos. O cheiro n\u00e3o era agrad\u00e1vel. O rosto estava p\u00e1lido, os olhos opacos, a pele do pesco\u00e7o com marcas arroxeadas que indicavam envenenamento. N\u00e3o havia sinal de luta, nada quebrado. Nada fora do lugar.<br>\u2003\u2003Era como se ela tivesse aceitado a morte.<br>\u2003\u2003Natasha se aproximou devagar. Observou o rosto da mulher que um dia fora sua instrutora \u2014 e carrasca. Havia rugas em volta dos olhos. Um corte na base da l\u00edngua, t\u00edpico de quem tenta reagir ao envenenamento, mas nada que pudesse ser revertido. Ela estava morta h\u00e1 dias. Ainda n\u00e3o dava para determinar de forma exata quando havia acontecido, mas o cheiro j\u00e1 dava uma no\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003No ch\u00e3o, perto da mesa, havia uma \u00fanica evid\u00eancia: um peda\u00e7o rasgado de jornal, com um c\u00edrculo feito a l\u00e1pis em torno de uma manchete que listava os nomes de antigos oficiais da Hydra dados como &#8220;desaparecidos ap\u00f3s a queda&#8221;. O nome de Anya estava sublinhado. E acima, como se fosse um lembrete deixado apenas para quem soubesse o que procurar, uma palavra escrita com uma caligrafia extremamente cautelosa e bonita ao mesmo tempo:<\/p>\r\n<p align=\"center\"><strong><em>\u201cReden\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Natasha se endireitou. Sentiu o est\u00f4mago apertar. Aquilo j\u00e1 passara do padr\u00e3o, n\u00e3o era s\u00f3 uma lista de execu\u00e7\u00f5es. Quem quer que estivesse por tr\u00e1s daquilo estava jogando com simbolismos \u2014 um assassino que n\u00e3o queria apenas apagar nomes, mas contar uma hist\u00f3ria com eles. Uma hist\u00f3ria feita de dor, mem\u00f3ria e julgamento. Como uma vingan\u00e7a escrita \u00e0 m\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ela explorou o restante da casa em sil\u00eancio. Quarto vazio. Cozinha intacta. Nenhum sinal de arrombamento, mas havia uma porta entreaberta no andar de cima. Natasha subiu, cada degrau rangendo como se protestasse contra a sua presen\u00e7a. Quando empurrou a porta, deu de cara com um c\u00f4modo estreito transformado em abrigo improvisado \u2014 uma zona de p\u00e2nico para algu\u00e9m que sabia que o passado estava \u00e0 espreita.<br>\u2003\u2003Nas paredes, anota\u00e7\u00f5es em russo. Fotos antigas, registros falsificados, mapas. Nomes riscados com tinta vermelha. Anya sabia. Ela sabia que era a pr\u00f3xima e esperou mesmo assim. Mas o que realmente chamou a aten\u00e7\u00e3o de Natasha foi um envelope deixado sobre a mesa. Nele, seu nome.<br>\u2003\u2003<strong>&#8220;Natalia A.&#8221;<\/strong><br>\u2003\u2003Ela rasgou o lacre, os dedos firmes, e retirou uma folha curta. Era uma carta. Escrita \u00e0 m\u00e3o.<br>\u2003\u2003<em>&#8220;Voc\u00ea provavelmente vai encontrar isso tarde demais. Sempre foi mais r\u00e1pida do que eu, mas a verdade \u00e9 que certas contas v\u00eam nos encontrar, n\u00e3o importa o quanto corremos. Eu ensinei muita coisa a voc\u00ea. Algumas, com orgulho. Outras, com vergonha. Se essa morte for um acerto de contas, que seja. S\u00f3 lamento que, talvez, voc\u00ea tenha que ver tudo isso sem entender quem est\u00e1 realmente por tr\u00e1s. Espero que n\u00e3o seja tarde para voc\u00ea fazer diferente.&#8221;<\/em><br>\u2003\u2003Natasha leu at\u00e9 o fim, sem mudar a express\u00e3o. N\u00e3o havia pistas diretas. Nenhum nome. Apenas a confirma\u00e7\u00e3o de que Anya sabia o que estava acontecendo. Sabia que algu\u00e9m estava vindo e aceitou o destino, como se reconhecesse que merecia.<br>\u2003\u2003Ao sair da casa, o vento bateu forte de novo, levantando folhas no jardim malcuidado. Natasha apertou os olhos contra a luz fraca do entardecer. Ela j\u00e1 tinha nomes e j\u00e1 tinha corpos. Mas ainda n\u00e3o tinha rosto. E isso a incomodava mais do que ela queria admitir.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Era tarde quando Natasha chegou ao complexo. O c\u00e9u j\u00e1 se confundia com o asfalto da estrada, engolindo as luzes da cidade \u00e0 dist\u00e2ncia. O jato pousou suavemente na pista de aterrissagem privada, mas ela desceu como se tivesse acabado de passar por um furac\u00e3o \u2014 e de certa forma, havia mesmo. N\u00e3o fisicamente, n\u00e3o no sentido literal&#8230; mas sua mente estava rodando em c\u00edrculos desde que sa\u00edra da casa em Chesapeake.<br>\u2003\u2003Ela caminhou pelos corredores de concreto e vidro do novo QG dos Vingadores com passos firmes e express\u00e3o de pedra, mas por dentro, a voz de Anya ainda ecoava. Ou melhor, o que restou dela. Era estranho \u2014 porque Natasha n\u00e3o sentia pena. Nem raiva e nem al\u00edvio. O que ela sentia, e odiava admitir, era inquieta\u00e7\u00e3o. Um inc\u00f4modo lento, que se instalava nos cantos da consci\u00eancia como poeira teimosa. A mulher estava morta, envenenada com calma e suavidade, como se o assassino quisesse saborear cada segundo da agonia alheia. E aquilo dizia muito.<br>\u2003\u2003Disse tudo, na verdade.<br>\u2003\u2003No centro de comando, Nick Fury a esperava. Encostado em uma das paredes, bra\u00e7os cruzados, casaco longo pendendo dos ombros como se fosse uma extens\u00e3o da pr\u00f3pria autoridade. O tapa-olho o deixava com aquele eterno ar de quem j\u00e1 sabia tudo antes mesmo de ouvir \u2014 mas Natasha sabia que, naquele caso, nem ele tinha as respostas.<br>\u2003\u2003\u2014 E ent\u00e3o? \u2014 ele perguntou, sem rodeios.<br>\u2003\u2003Ela jogou uma pasta sobre a mesa.<br>\u2003\u2003\u2014 Anya. Morta. Veneno no ch\u00e1. Sem sinais de invas\u00e3o, sem c\u00e2meras, sem digitais. S\u00f3 uma anota\u00e7\u00e3o com a palavra \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d e uma carta escrita \u00e0 m\u00e3o que n\u00e3o ajuda em porra nenhuma al\u00e9m de confirmar que ela sabia que ia morrer. Mas, voc\u00ea j\u00e1 sabia disso. S\u00f3 queria saber dos detalhes.<br>\u2003\u2003Fury arqueou uma sobrancelha. Pegou a folha, leu, e n\u00e3o demonstrou rea\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso j\u00e1 passou do ponto de coincid\u00eancia. Mas, o que me deixa confuso, \u00e9 o porqu\u00ea a morte de Anya foi t\u00e3o diferente das demais. Anya significava alguma coisa para o nosso alvo. A quest\u00e3o \u00e9 o que.<br>\u2003\u2003Natasha soltou um suspiro irritado. Tirou o coldre, jogou sobre a cadeira e apoiou os bra\u00e7os no encosto como se o peso do dia estivesse arrancando os ombros do lugar.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu vi coisa parecida antes, mas n\u00e3o nesse n\u00edvel. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 vingan\u00e7a, Nick. O jeito como deixou aqueles corpos&#8230; a pessoa por tr\u00e1s disso n\u00e3o quer s\u00f3 limpar a sujeira da Hydra. Quer fazer com que eles sintam o gosto de cada erro que cometeram. Devagar.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea acha que essas pessoas tiveram algum envolvimento com o assassino?<br>\u2003\u2003\u2014 Acho que isso \u00e9 n\u00edtido. Ningu\u00e9m gasta esse tipo de energia apenas por esporte. E, sinceramente? Essa pessoa \u00e9 boa demais. Muito boa. N\u00e3o deixou rastros, nem uma sombra. S\u00f3 a assinatura. \u201cReden\u00e7\u00e3o\u201d.<br>\u2003\u2003Fury se moveu, finalmente. Passou por ela, olhando os arquivos digitais numa das telas. Puxou um relat\u00f3rio, abriu uma linha de tempo, marcou as mortes com pontos vermelhos num mapa da Europa. O padr\u00e3o come\u00e7ava a ficar mais compreens\u00edvel. Um ciclo. Uma espiral apertando. Sempre nomes ligados a opera\u00e7\u00f5es da Hydra ou Sala Vermelha. Sempre gente que desapareceu dos holofotes quando tudo caiu. E sempre mortos de formas criativas demais para serem acidentais.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea acha que \u00e9 uma vi\u00fava?<br>\u2003\u2003A pergunta ficou no ar. Natasha demorou a responder. Passou a m\u00e3o pelo rosto, fechou os olhos por um segundo.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o sei, mas pode ser que sim. E se for, \u00e9 uma que a Sala Vermelha manteve muito bem escondida. O tipo que eles nunca colocariam nas miss\u00f5es secretas. Seria do tipo&#8230; <em>perdido no sistema<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 Perdido ou escondido? \u2014 ele rebateu, sem alterar o tom.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu.<br>\u2003\u2003\u2014 Quero tudo que temos sobre ex-agentes da Hydra que se infiltraram em academias russas, instru\u00e7\u00f5es conjuntas, at\u00e9 treinamento cruzado entre o programa do Soldado Invernal e a Sala Vermelha. Qualquer coisa, mesmo que tenha sido arquivado como especula\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 J\u00e1 mandei rastrear \u2014 Fury respondeu. \u2014 E voc\u00ea, Romanoff? Vai conseguir continuar com isso?<br>\u2003\u2003Ela encarou a pr\u00f3pria imagem refletida no vidro escuro da janela. Por um segundo, a express\u00e3o vacilou. N\u00e3o de medo \u2014 mas de reconhecimento. Aquilo era familiar. <em>Demais<\/em>. Ela conhecia o padr\u00e3o, afinal, era o mesmo com o qual havia sido treinada. O sil\u00eancio entre os golpes, o cuidado em matar sem deixar ru\u00eddo e o tipo de treinamento que deformava quem voc\u00ea era, e substitu\u00eda por algo mais eficiente. Mais&#8230; impessoal.<br>\u2003\u2003\u2014 Se for uma de n\u00f3s \u2014 ela disse, enfim \u2014, ent\u00e3o eu sou a \u00fanica que pode parar ela.<br>\u2003\u2003Fury assentiu devagar. Mas o olhar dele estava mais longe, como se j\u00e1 estivesse cinco passos \u00e0 frente, tentando decifrar um tabuleiro que s\u00f3 tinha pe\u00e7as invis\u00edveis.<br>\u2003\u2003\u2014 Essa miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre encerrar um rastro de sangue, Natasha. \u00c9 sobre impedir que o pr\u00f3ximo nome da lista&#8230; seja algu\u00e9m que a gente ainda n\u00e3o pode perder.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o precisou perguntar. Sabia do que ele estava falando. Do que <em>ele<\/em> estava com medo. Afinal, n\u00e3o eram s\u00f3 os fantasmas da Hydra que estavam voltando \u00e0 superf\u00edcie. Era o passado inteiro que todo mundo jurou que tinha enterrado.<br>\u2003\u2003E algu\u00e9m, em algum lugar, estava desenterrando tudo com um sorriso no rosto.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u201cPara cada nome apagado, um erro corrigido.\u201d \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u201cReden\u00e7\u00e3o.\u201d \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2504],"class_list":["post-10241","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}