{"id":10193,"date":"2026-04-20T12:37:41","date_gmt":"2026-04-20T15:37:41","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-04-20T12:39:05","modified_gmt":"2026-04-20T15:39:05","slug":"unico","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/onemorenight\/unico\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo \u00fanico"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">O som do vidro<\/span> quebrando j\u00e1 fazia parte da sinfonia do espet\u00e1culo, que come\u00e7ava com n\u00f3s dois iniciando uma conversa casual ap\u00f3s nossos trabalhos, e, ap\u00f3s longos trinta minutos, o palco era tomado por uma discuss\u00e3o em que aument\u00e1vamos o tom de voz a ponto dos vizinhos de cima escutarem tudo \u2014 mas, a essa altura, eles deviam pensar <em>\u201cmais uma briga\u201d<\/em>, e voltavam para os seus afazeres. Os moradores do apartamento de baixo tamb\u00e9m estavam acostumados com nossos passos sincronizados, visto que, como se fosse ensaiado, segu\u00edamos um ao outro pelos c\u00f4modos descontando nossas frustra\u00e7\u00f5es e lamentando nossos sonhos que foram deixados de lado por termos sa\u00eddo de casa cedo demais.<br>\u2003\u2003Quase todos os dias apresent\u00e1vamos nossa pe\u00e7a sem tirar nem p\u00f4r, atuando perfeitamente como se fosse a primeira vez: vidros quebrados, l\u00e1grimas depois dos gritos e, por fim, encontrando aquela m\u00edsera migalha de conforto nos bra\u00e7os um do outro, prometendo que essa seria a \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Que, quando as luzes apagassem e apenas a lua estivesse no c\u00e9u, um de n\u00f3s iria embora. Como sempre juramos.<br>\u2003\u2003Eu e Cora nos conhecemos no primeiro ano do ensino m\u00e9dio, no grupo de apoio da biblioteca. Entre olhares curiosos e sil\u00eancios cheios de palavras, nos aproximamos e criamos uma amizade baseada em gostos comuns e fam\u00edlias disfuncionais. Encontramos um no outro o ref\u00fagio que sempre procuramos durante todos esses anos, e, quando nos formamos, mudamos para uma kitnet, fugindo do nosso passado e dando um passo em dire\u00e7\u00e3o ao futuro que sonh\u00e1vamos. No entanto, a realidade bateu na nossa porta cedo demais, e tudo aquilo que fantasi\u00e1vamos foi se despeda\u00e7ando conforme os dias passavam.<br>\u2003\u2003Cora trabalhava na loja de conveni\u00eancia e o pai de um amigo me chamou para ajud\u00e1-lo na sua oficina, o que nos sustentou por um bom tempo, at\u00e9 que conseguimos fazer alguns cursos para nos dar oportunidade para migrarmos para outras \u00e1reas e nos mudarmos para um espa\u00e7o um pouco maior. A vida parecia melhorar e finalmente pod\u00edamos vislumbrar aquele futuro que sonh\u00e1vamos. Mesmo n\u00e3o sendo do jeito que quer\u00edamos, ainda era melhor do que o nosso passado, e n\u00f3s dois tent\u00e1vamos o poss\u00edvel e o imposs\u00edvel para darmos o nosso m\u00e1ximo, contudo, quando tudo parecia se acertar, uma not\u00edcia fez o nosso mundo desmoronar, e a partir desse dia nos afundamos em trabalhar para pagar uma d\u00edvida que nem era nossa, mas que foi feita em nossos nomes. Por mais que os empregos que t\u00ednhamos fossem bons, infelizmente eles n\u00e3o eram suficientes para cobrir todos os gastos, e a maioria dos locais n\u00e3o queriam empregar pessoas sem faculdade, o que fez com que, em uma noite chuvosa, eu aceitasse o convite de um amigo que tinha uma academia de luta: participar de lutas ilegais.<br>\u2003\u2003Era simples: eu treinaria de gra\u00e7a e lutaria representando todos aqueles que patrocinavam o local contra os seus rivais. Mas, tinha um por\u00e9m: eram lutas <em>livres. <\/em>E s\u00f3 sa\u00eda do ringue quem conseguisse sobreviver. Eu cogitei antes de aceitar, mas ao encarar a nossa realidade e ver o qu\u00e3o sobrecarregada Cora estava por ter tr\u00eas turnos de trabalho, percebi que, apesar de n\u00e3o ser uma boa escolha, era a \u00fanica que eu tinha no momento. E assim, ap\u00f3s passar o m\u00eas inteiro treinando, eu terminava os dias vitorioso e com uma boa quantia no bolso.<br>\u2003\u2003E com um olho roxo e o supercilio aberto.<br>\u2003\u2003Cora nunca foi a favor desse trabalho, inclusive, nossas brigas come\u00e7aram por essa quest\u00e3o. Por mais cansada que estivesse, ela dizia que daria conta, e eu rebatia dizendo que mesmo eu tendo dois empregos e os bicos durante os finais de semana, o valor que faz\u00edamos mal dava para pagar o aluguel e a parcela da d\u00edvida. No in\u00edcio, termin\u00e1vamos as discuss\u00f5es sem maiores problemas, prometendo que era a \u00faltima vez que brigar\u00edamos. Entretanto, conforme o cansa\u00e7o ia nos consumindo e os fantasmas do passado iam reaparecendo, descont\u00e1vamos todas as nossas frustra\u00e7\u00f5es um no outro, nos culpando por erros que nem eram nossos.<br>\u2003\u2003Todas as madrugadas que eu chegava da academia, ela dizia <em>\u201cs\u00f3 mais uma noite\u201d<\/em> depois do nosso espet\u00e1culo, deixando claro que s\u00f3 aguentaria aquilo por pouco tempo. Eu tamb\u00e9m jurava que seria <em>s\u00f3 por mais uma noite <\/em>e, na manh\u00e3 seguinte, iria embora, a libertando daquele relacionamento em que \u00e9ramos dependentes, mas, assim como eu, ela se agarrava ao sentimento de conforto que a nossa rela\u00e7\u00e3o, apesar dos pesares, proporcionava, e, quando perceb\u00edamos, nossas bocas estavam coladas e nossos corpos se movimentavam em uma sincronia perfeita, fazendo ser dif\u00edcil a despedida.<br>\u2003\u2003Eu sabia que Cora tamb\u00e9m sentia a culpa ao acordar e ver que continu\u00e1vamos na mesma p\u00e1gina, incapazes de darmos um passo a frente. Era como se a nossa depend\u00eancia emocional estivesse grudada em nossas peles como uma tatuagem, gravada t\u00e3o profundamente que esquec\u00edamos daquelas promessas feitas quando jovens, que nunca ser\u00edamos como nossos pais e que quebrar\u00edamos aquele ciclo violento em que crescemos.<br>\u2003\u2003Mas, a verdade \u00e9 que estamos t\u00e3o imersos em nossas frustra\u00e7\u00f5es que n\u00e3o temos for\u00e7as para tentar sair delas, sendo mais f\u00e1cil descontar em n\u00f3s mesmos do que irmos embora.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o, depois de recolhermos os cacos de vidros espalhados pelo ch\u00e3o da sala, encontramos conforto nos bra\u00e7os um do outro, terminando a nossa pe\u00e7a com a promessa de que seria <em>s\u00f3 mais uma noite<\/em>, e, quando amanhecer, um de n\u00f3s sairia pela porta sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":true,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2652],"class_list":["post-10193","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-onemorenight"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10193"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}