{"id":10140,"date":"2026-04-08T13:23:23","date_gmt":"2026-04-08T16:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-04-08T13:37:41","modified_gmt":"2026-04-08T16:37:41","slug":"capitulo-06","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/five-years-gone\/capitulo-06\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 06"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">A manh\u00e3 chegou sem<\/span> pedir licen\u00e7a, invadindo as janelas amplas da imensa mans\u00e3o com uma claridade inc\u00f4moda que refletia direto nas telas espalhadas pela bancada de Tony Stark. Ele estava acordado h\u00e1 horas. Talvez n\u00e3o tivesse dormido. Sentado com uma x\u00edcara de caf\u00e9 \u2014 morno pela metade \u2014 e as pupilas quase fundidas \u00e0 luz azul da proje\u00e7\u00e3o \u00e0 sua frente, ele deslizava os dedos por manchetes em tempo real, dando zoom em coment\u00e1rios, editoriais, an\u00e1lises econ\u00f4micas e \u2014 o que mais o irritava \u2014 colunas de opini\u00e3o.<br>\u2003\u2003<strong>&#8220;A Nova Stark Expo deixa claro: Tony Stark n\u00e3o est\u00e1 apenas de volta \u2014 Ele est\u00e1 reinventando o S\u00e9culo XXI.&#8221;<\/strong><br>\u2003\u2003<strong>&#8220;O retorno triunfal de uma Era Stark?&#8221;<\/strong><br>\u2003\u2003<strong>&#8220;Tecnologia, Carisma e Ego: a trindade de ferro brilha em Long Island.&#8221;<\/strong><br>\u2003\u2003Os olhos dele pararam nessa \u00faltima. Um riso curto escapou, sem humor. Ele conhecia bem esse tipo de manchete \u2014 embebida em admira\u00e7\u00e3o dissimulada, mas com a pontinha de veneno disfar\u00e7ada como ironia estil\u00edstica. Jornalistas. Sempre precisavam parecer mais espertos que o sujeito na manchete. Ainda assim, n\u00e3o podia negar que a recep\u00e7\u00e3o havia sido positiva, muito al\u00e9m do que esperava. Investidores ligaram antes mesmo de o sol nascer completamente, ag\u00eancias do governo demonstraram interesse imediato nas patentes de demonstra\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo a m\u00eddia internacional se curvou ao espet\u00e1culo.<br>\u2003\u2003Mas nada disso era capaz de suprir aquele vazio interno.<br>\u2003\u2003O vazio persistia. N\u00e3o era falta de reconhecimento, era outra coisa. Algo que nem a avalanche de tecnologia, nem os aplausos do p\u00fablico, nem os sorrisos diplom\u00e1ticos do alto escal\u00e3o conseguiam silenciar. Era como se toda a gl\u00f3ria da noite passada tivesse sido constru\u00edda sobre um ch\u00e3o inst\u00e1vel \u2014 e ele sentia cada rachadura sob seus p\u00e9s.<br>\u2003\u2003A vis\u00e3o da mulher na plateia ainda o assombrava. Os olhos \u2014 t\u00e3o familiares quanto imposs\u00edveis \u2014 ainda estavam gravados na mem\u00f3ria como se fossem proje\u00e7\u00e3o no c\u00e9u noturno. Ele sabia que era imposs\u00edvel. Elena estava morta e enterrada h\u00e1 anos, e mesmo que aquela mulher tivesse algo da postura dela\u2026 aquilo n\u00e3o passava de uma coincid\u00eancia. Um truque da mente de algu\u00e9m exausto demais, pressionado demais, ferido demais.<br>\u2003\u2003Ele suspirou, passando a m\u00e3o pelo rosto. O anivers\u00e1rio estava se aproximando. <strong>Vinte e quatro anos.<\/strong> Era dif\u00edcil imaginar a filha que ele perdeu t\u00e3o cedo alcan\u00e7ando aquela idade. \u00c0s vezes, Tony tentava imaginar como ela teria sido: o tom de voz, o senso de humor, os tra\u00e7os herdados. Pensava se ela teria sido genial como ele, ou doce como Elena. Se gostaria de rob\u00f4s, de arte, ou talvez algo completamente oposto aos dois. N\u00e3o havia muitas fotos e quase nenhuma lembran\u00e7a f\u00edsica, mas Tony ainda guardava algumas grava\u00e7\u00f5es caseiras em um cofre junto dos documentos importantes, registros congelados de uma exist\u00eancia que foi engolida pelo tempo e pela dor.<br>\u2003\u2003Mais uma vez, o trabalho tinha sido sua fuga.<br>\u2003\u2003A Expo era o escudo que ele havia constru\u00eddo para suportar a aproxima\u00e7\u00e3o daquela data maldita. E, ironicamente, a maior vitrine de sua genialidade tamb\u00e9m era o lembrete mais cruel de tudo que ele havia perdido. Porque, no fim das contas, aquela exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era s\u00f3 sobre tecnologia. Era sobre legado, sobre o que ele deixaria para o mundo e o que ele nunca p\u00f4de deixar para a \u00fanica pessoa que talvez importasse de verdade.<br>\u2003\u2003Sexta-Feira interrompeu seus devaneios com um alerta sutil.<br>\u2003\u2003\u2014 Sr. Stark, h\u00e1 solicita\u00e7\u00f5es de entrevista da CNN, BBC e do NY Times em sua agenda para hoje. Recomendaria iniciar a triagem.<br>\u2003\u2003\u2014 Cancela tudo.<br>\u2003\u2003\u2014 Entendido. Algum motivo espec\u00edfico? \u2014 A voz dela, ainda que artificial, hesitou antes de continuar.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. S\u00f3\u2026 estou cansado, Sexta-Feira. \u00c9 isso, hoje n\u00e3o.<br>\u2003\u2003O holograma se dissolveu aos poucos, mas o cansa\u00e7o permaneceu. Tony levantou-se, apoiando-se na bancada como quem precisava sentir o ch\u00e3o antes de dar o primeiro passo. Ainda havia muita coisa para revisar da Expo \u2014 feedbacks, contratos, propostas \u2014 mas nada daquilo parecia urgente diante do turbilh\u00e3o que se formava dentro dele, porque mesmo depois de tudo, mesmo com o brilho dos holofotes, mesmo com a tecnologia mais avan\u00e7ada do mundo nas m\u00e3os\u2026 ele n\u00e3o conseguia escapar da aus\u00eancia. Nem do pressentimento de que algo grande, algo perigosamente \u00edntimo, se aproximava.<br>\u2003\u2003E ele ainda n\u00e3o fazia ideia do que era.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A televis\u00e3o chiava num volume baixo, o suficiente para preencher o sil\u00eancio abafado do apartamento com murm\u00farios de um mundo que ele fingia n\u00e3o pertencer mais. Bucky Barnes estava sentado na beirada da cama, o corpo curvado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. A m\u00e3o de metal \u2014 aquela maldita extens\u00e3o do passado que ainda parecia pulsar com vida pr\u00f3pria \u2014 repousava im\u00f3vel sobre a coxa. Do lado de fora, a Rom\u00eania seguia em seu ritmo lento, como todo outono. Carros antigos passavam com os motores resmungando. Gente apressada, vendendo peixe e p\u00e3o e cigarro nas esquinas. Um pa\u00eds que n\u00e3o fazia perguntas. Era por isso que ele estava ali.<br>\u2003\u2003Mas mesmo ali, longe de tudo e de todos, o passado sempre dava um jeito de encontr\u00e1-lo.<br>\u2003\u2003Na tela, um jornalista falava em romeno com uma express\u00e3o tensa. As imagens que acompanhavam a not\u00edcia eram mais eloquentes que qualquer palavra: corredores manchados de sangue, paredes cravejadas de balas, silhuetas cobertas por len\u00e7\u00f3is brancos e o escudo vermelho da Hydra pichado, borrado, riscado, quase como uma assinatura. Uma assinatura que Bucky reconheceu de imediato. N\u00e3o pelas letras, mas pelo padr\u00e3o.<br>\u2003\u2003O nome da organiza\u00e7\u00e3o nunca era dito diretamente, claro. Nem mesmo ali, na Europa Oriental, onde as feridas da guerra de Sokovia ainda latejavam de forma constante. Os rep\u00f3rteres usavam eufemismos \u2014 \u201corganiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais envolvidas em tr\u00e1fico de armamentos\u201d, \u201cfiguras controversas do submundo militar\u201d, \u201cex-militares com hist\u00f3rico duvidoso\u201d. Mas ele sabia, os olhos sabiam e o corpo sabia. Eram agentes da Hydra, um por um. E algu\u00e9m estava indo atr\u00e1s deles.<br>\u2003\u2003Bucky estendeu a m\u00e3o e pegou o controle remoto com um movimento seco. Aumentou o volume e mudou de canal. Outra emissora, mesma not\u00edcia, mas agora com imagens mais n\u00edtidas. Uma escada tingida de sangue escuro. Um homem com o maxilar arrancado. Uma mulher com os pulsos quebrados em \u00e2ngulos que o corpo humano n\u00e3o deveria permitir. E todos eles&#8230; conhecidos.<br>\u2003\u2003N\u00e3o amigos, nunca amigos. Mas nomes que haviam dividido corredores com ele. Olhares vazios que haviam o assistido ser desmontado e remontado. Cientistas, t\u00e9cnicos, soldados e supervisores. Eles usavam batas e armas, mas todos serviam ao mesmo objetivo: tornar pessoas em m\u00e1quinas. Bucky lembrava deles, mesmo quando queria esquecer. Mesmo quando passava noites inteiras acordado para garantir que nenhum deles retornasse nos sonhos.<br>\u2003\u2003A mat\u00e9ria exibia um gr\u00e1fico de localiza\u00e7\u00e3o. \u00c1ustria. Su\u00ed\u00e7a. Ucr\u00e2nia. Rep\u00fablica Tcheca. Bulg\u00e1ria. Agora, Rom\u00eania. Os assassinatos estavam se aproximando, como um c\u00edrculo se fechando.<br>\u2003\u2003Ele sentiu a nuca arrepiar.<br>\u2003\u2003Com os olhos presos \u00e0 TV, Bucky se levantou devagar. Foi at\u00e9 a mesa onde mantinha o velho caderno preto \u2014 aquele que usava para anotar nomes, datas, mem\u00f3rias de um tempo n\u00e3o t\u00e3o distante. Fantasmas registrados \u00e0 caneta. Abriu numa p\u00e1gina marcada. Ali estavam tr\u00eas nomes rec\u00e9m-riscados. E outros, agora em destaque nas telas do mundo.<br>\u2003\u2003Mas um padr\u00e3o novo se formava. Era o m\u00e9todo, a brutalidade e os locais.<br>\u2003\u2003Aquilo n\u00e3o era retalia\u00e7\u00e3o comum, era justi\u00e7a pessoal, mas n\u00e3o vingan\u00e7a cega. Era calculado e implac\u00e1vel, cruelmente familiar. Ele passou a m\u00e3o pelo rosto. Estava suando, mesmo com o frio do apartamento. N\u00e3o era medo, era algo pior. Era a sensa\u00e7\u00e3o de que, em algum lugar l\u00e1 fora, algu\u00e9m estava finalizando uma lista que ele tamb\u00e9m conhecia. Uma lista que talvez tenha sido escrita por m\u00e3os diferentes, mas com a mesma tinta que corria nas veias dele: condicionamento.<br>\u2003\u2003Talvez fosse um imitador. Um lun\u00e1tico com acesso aos arquivos secretos. Talvez fosse apenas coincid\u00eancia. Mas Bucky sabia, no fundo do peito, que n\u00e3o era.<br>\u2003\u2003E pior \u2014 ele suspeitava de quem poderia ser. Ou do qu\u00ea.<br>\u2003\u2003Respirando fundo, ele se afastou da mesa e foi at\u00e9 a janela. A cidade l\u00e1 fora parecia adormecida, mas ele conhecia bem esse tipo de tranquilidade. Era o sil\u00eancio antes da explos\u00e3o.<br>\u2003\u2003As coisas estavam se movendo de novo. E ele sabia, pela forma como o peso em sua coluna aumentava, que o nome dele estava prestes a voltar aos arquivos de algu\u00e9m. Talvez at\u00e9 estivesse no topo da lista. Ele respirou fundo, ent\u00e3o fechou os olhos. Bastou apenas aquele pequeno momento e ele estava l\u00e1 de novo.<br>\u2003\u2003O vidro emba\u00e7ado da janela mal refletia seu rosto. Havia algo nos olhos dele que parecia mais velho do que o resto do corpo. Como se a idade real n\u00e3o estivesse no corpo, mas no ac\u00famulo de mem\u00f3rias que ele carregava calado. E foi ali, encarando a rua cinzenta, que algo se soltou dentro da cabe\u00e7a dele \u2014 n\u00e3o como um pensamento, mas como uma lembran\u00e7a que empurrava a realidade para o lado.<br>\u2003\u2003Um estalo. Um cheiro met\u00e1lico e ele j\u00e1 n\u00e3o estava mais no apartamento. Estava de volta ao ch\u00e3o frio de concreto, sob luzes cruas que n\u00e3o piscavam. N\u00e3o havia rel\u00f3gios e n\u00e3o havia tempo. Apenas o ritmo constante de uma respira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era sua.<br>\u2003\u2003A arena subterr\u00e2nea da Hydra se abria ao redor como uma jaula sem grades. N\u00e3o havia plateia, s\u00f3 c\u00e2meras. E do outro lado do c\u00edrculo, ela.<br>\u2003\u2003Sujeito 13.<br>\u2003\u2003Pequena, mas firme como a\u00e7o sob tens\u00e3o. Rosto limpo, olhar parado. Vestia preto, botas gastas, cabelo preso de modo pr\u00e1tico. Era nova \u2014 mais jovem do que qualquer um que j\u00e1 tivesse enfrentado ali. Mas algo no jeito como ela ficava de p\u00e9, no modo como os olhos passavam por ele como se o peso n\u00e3o intimidasse, j\u00e1 dizia tudo. N\u00e3o precisava provar nada. Era apenas mais um dia de treinamento, mais uma rodada de combate. Mas n\u00e3o parecia, n\u00e3o quando era com ela.<br>\u2003\u2003\u2014 Comecem \u2014 disse a voz automatizada nas paredes, seca como areia na garganta.<br>\u2003\u2003Bucky avan\u00e7ou primeiro. Ela n\u00e3o recuou.<br>\u2003\u2003Os passos dela eram leves, mas firmes. Cada movimento era um estudo r\u00e1pido do terreno, dos p\u00e9s dele, da respira\u00e7\u00e3o, do ombro que carregava mais peso. Ela aprendia enquanto apanhava, e apanhava pouco. Ele tentou uma investida direta, um soco com o bra\u00e7o esquerdo \u2014 o de metal \u2014 mirando o flanco dela. A garota girou o corpo, desviando por cent\u00edmetros, e se posicionou atr\u00e1s dele antes que o impulso terminasse.<br>\u2003\u2003Um chute atingiu a parte de tr\u00e1s do joelho dele. N\u00e3o forte o suficiente para derrubar, apenas para lembrar ele de que ela n\u00e3o tinha medo.<br>\u2003\u2003Ele se virou, r\u00e1pido. A m\u00e3o tentou agarr\u00e1-la, mas ela escapou como se soubesse exatamente onde a pegada falharia. Revidou com um soco no est\u00f4mago, depois outro na costela. Ela n\u00e3o queria derrubar, queria testar e medir o alcance.<br>\u2003\u2003Os sons do embate eram abafados. O couro das luvas contra tecido. A respira\u00e7\u00e3o acelerada dele contrastando com a calma fria dela.<br>\u2003\u2003Bucky se moveu com mais for\u00e7a. Um chute girat\u00f3rio, uma cotovelada que pegou de rasp\u00e3o a mand\u00edbula dela \u2014 s\u00f3 o suficiente para desequilibrar. A garota cambaleou, mas n\u00e3o caiu. Pelo contr\u00e1rio: usou o giro do pr\u00f3prio corpo para deslizar at\u00e9 o ch\u00e3o e, de l\u00e1, puxar a perna dele numa rasteira inesperada.<br>\u2003\u2003Ele caiu.<br>\u2003\u2003As costas bateram no concreto com for\u00e7a. O impacto ecoou pelas paredes de ferro, mas ele j\u00e1 estava tentando se levantar quando sentiu o peso dela sobre o peito.<br>\u2003\u2003A l\u00e2mina fria tocou sua garganta.<br>\u2003\u2003Ficaram assim, por um segundo que pareceu longo demais. Ele olhou nos olhos dela e constatou que n\u00e3o havia empatia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o havia raiva. Apenas uma calma estranha, quase inquietante. Como se aquilo fosse rotina, como se ela tivesse feito aquilo centenas de vezes. Como se fosse o natural.<br>\u2003\u2003Ent\u00e3o, sem dizer nada, ela recuou. Levantou-se com a mesma agilidade com que lutava e voltou para a posi\u00e7\u00e3o original, esperando a pr\u00f3xima ordem. Bucky ficou deitado por mais um instante, ofegante. A garganta ainda sentia o toque da l\u00e2mina e a mente girava com uma pergunta que ele nunca teve coragem de fazer: quem diabos ela era?<br>\u2003\u2003Mas naquela \u00e9poca, perguntas n\u00e3o eram bem-vindas. S\u00f3 existia um motivo para estar ali: cumprir ordens. E ele as cumpria, como todos. Como ela.<br>\u2003\u2003O apito soou. O fim da sess\u00e3o.<br>\u2003\u2003Ele se sentou, o corpo inteiro latejando. Ela j\u00e1 estava de p\u00e9, esperando o pr\u00f3ximo oponente. O olhar dela cruzou o dele uma \u00faltima vez antes de se virar. E por um segundo, um \u00fanico segundo, ele viu algo. Uma hesita\u00e7\u00e3o? Um reflexo de d\u00favida? N\u00e3o durou, mas ficou.<br>\u2003\u2003A lembran\u00e7a se dissipou como fuma\u00e7a quando ele piscou. De volta ao presente, ao frio da Rom\u00eania. \u00c0 luz da manh\u00e3 que mal atravessava as janelas sujas, mas o gosto daquilo ainda estava na boca dele. Bucky se afastou da janela e foi at\u00e9 a mesa. Abriu o caderno novamente. Na margem de uma das p\u00e1ginas, escreveu algo:<br>\u2003\u2003<strong>&#8220;Ela me derrubou. De novo.&#8221;<\/strong><br>\u2003\u2003Fechou o caderno com for\u00e7a. Ele precisava encontr\u00e1-la antes que os outros fizessem isso, antes que ela decidisse que o nome dele tamb\u00e9m devia estar naquela lista.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A madrugada se estendia como uma manta encharcada sobre Bucareste, pesada e fria. A chuva n\u00e3o ca\u00eda em torrentes violentas, mas sim em um ritmo constante e ritmado, como se o c\u00e9u estivesse lavando a cidade por dentro. Cada gota que escorria pelas janelas do pequeno apartamento parecia fazer parte de uma trilha sonora conhecida \u2014 um lamento antigo que Bucky escutava noite ap\u00f3s noite sem jamais encontrar consolo. O som da chuva preenchia os espa\u00e7os que os pesadelos deixavam vazios.<br>\u2003\u2003Bucky dormia mal havia semanas. Naquela noite, n\u00e3o foi diferente.<br>\u2003\u2003Ele se revirava no colch\u00e3o estreito, a respira\u00e7\u00e3o presa em algum ponto entre o presente e o que vinha antes. O corpo inteiro se contra\u00eda em espasmos involunt\u00e1rios, como se o pr\u00f3prio sono fosse um campo de batalha. E, dentro dele, a guerra seguia viva \u2014 imagens confusas, ru\u00eddos de gritos abafados, o baque seco de corpos no ch\u00e3o. M\u00e3os sujas de sangue, comandos em l\u00ednguas que ele n\u00e3o queria mais entender. Olhos sem vida. E outros\u2026 que ainda o perseguiam.<br>\u2003\u2003Ele acordou com um sobressalto, arfando, com o peito ofegante e os olhos arregalados em busca de luz e l\u00f3gica. Mas ali n\u00e3o havia l\u00f3gica, apenas o mesmo teto manchado de infiltra\u00e7\u00e3o, a l\u00e2mpada oscilando fraca no corredor, e o gosto amargo na garganta \u2014 n\u00e3o de sangue, mas de lembran\u00e7a. O suor encharcava sua nuca, a camiseta colada ao corpo como se tivesse corrido quil\u00f4metros sem sair do lugar. O colch\u00e3o velho, deformado pelo peso e pelo tempo, rangia sob o movimento brusco. Mas n\u00e3o foi isso que o congelou.<br>\u2003\u2003O cora\u00e7\u00e3o martelava no peito como se fosse sair pela garganta. A respira\u00e7\u00e3o ainda era curta e r\u00e1pida. Os olhos demoraram a se ajustar \u00e0 penumbra do apartamento mal iluminado \u2014 a \u00fanica luz vinha da rua, filtrada em tons azulados pela cortina encharcada.<br>\u2003\u2003Foi quando viu. Ela estava ali.<br>\u2003\u2003Sentada na cadeira do outro lado da sala, com as pernas cruzadas, cotovelos apoiados nos bra\u00e7os do m\u00f3vel, o rosto meio encoberto pelas sombras projetadas pela l\u00e2mpada da rua. O corpo permanecia im\u00f3vel como se fizesse parte da mob\u00edlia, como se sempre tivesse estado ali, apenas esperando.<br>\u2003\u2003Mas os olhos\u2026 os olhos estavam vivos. Fixos nele e t\u00e3o azuis quanto safiras.<br>\u2003\u2003E o pior n\u00e3o foi o susto. Nem o fato de ela ter entrado sem que ele notasse, coisa que o deixaria paranoico por dias. O pior foi o sorriso. Um curvar discreto dos l\u00e1bios, sinistro, quase impiedoso \u2014 como se estivesse se divertindo com a confus\u00e3o dele, com o terror que se instalava aos poucos no fundo da alma dele.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o se mexeu de imediato. N\u00e3o porque n\u00e3o podia, mas porque seu corpo ainda n\u00e3o aceitava que aquilo era real. A imagem dela ali, t\u00e3o concreta, t\u00e3o absurda quanto inevit\u00e1vel, parecia ter sido arrancada diretamente de seus pesadelos. E ao mesmo tempo\u2026 havia uma familiaridade desconcertante naquela figura diante dele. Um vest\u00edgio da lembran\u00e7a anterior. Da garota que lutava como se o mundo fosse um teste eterno de sobreviv\u00eancia. Ela estava diferente agora. Mais velha, mais fria. Mas os olhos eram os mesmos.<br>\u2003\u2003O sorriso aumentou um pouco quando ela percebeu que ele realmente estava acordado.<br>\u2003\u2003\u2014 Finalmente. \u2014 A voz saiu baixa, arrastada, como se estivesse degustando a pr\u00f3pria presen\u00e7a ali.<br>\u2003\u2003Bucky continuava calado. Observava cada detalhe: a forma como ela mantinha a postura relaxada, como quem n\u00e3o tem pressa alguma; a pistola apoiada no colo, o casaco escuro ainda molhado pelas gotas da chuva que escorriam do capuz para o ch\u00e3o. Ela n\u00e3o se escondia. N\u00e3o tinha por que esconder.<br>\u2003\u2003Ele tentou falar, mas a garganta estava seca. Ela se levantou devagar, sem pressa alguma, os passos macios no ch\u00e3o de madeira.<br>\u2003\u2003\u2014 Tem tempo que eu queria ver se voc\u00ea ainda acordava com pesadelos. \u2014 Ela parou a poucos metros dele. Inclinou levemente a cabe\u00e7a, como se estivesse tentando ler as emo\u00e7\u00f5es no rosto dele. \u2014 Parece que sim.<br>\u2003\u2003Bucky inspirou fundo, os dedos se contraindo sutilmente em cima do len\u00e7ol. Ela o estudava, mas n\u00e3o como quem reencontra um velho amigo e sim como quem volta a olhar uma pe\u00e7a defeituosa de laborat\u00f3rio. Algo que conheceu por dentro, algo que um dia foi seu igual.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai dizer nada? \u2014 ela perguntou com leveza, a ponta do sarcasmo se escondendo atr\u00e1s do tom calmo. \u2014 Estou desapontada.<br>\u2003\u2003O maxilar dele se contraiu. Finalmente, a voz saiu, rouca e grave:<br>\u2003\u2003\u2014 O que voc\u00ea quer com isso?<br>\u2003\u2003Ela piscou devagar. O sorriso sumiu lentamente, mas os olhos n\u00e3o perderam o brilho. N\u00e3o respondeu de imediato, em vez disso, caminhou at\u00e9 a janela, observando a chuva escorrer pelo vidro como linhas de uma carta que s\u00f3 ela sabia ler. Seus ombros pareciam leves, como se aquele encontro n\u00e3o tivesse peso emocional. No entanto, havia algo nos gestos dela que dizia o contr\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso? \u2014 Ela deu um sorriso torto ao encar\u00e1-lo. \u2014 Voc\u00ea vai ter que ser mais espec\u00edfico. \u00c9 muita coisa.<br>\u2003\u2003Ele manteve o olhar firme, mas havia algo nos olhos dele \u2014 uma sombra de reconhecimento, um fio de culpa preso no fundo da \u00edris.<br>\u2003\u2003\u2014 Os assassinatos \u2014 disse. \u2014 Os rastros. Os corpos. Por que agora?<br>\u2003\u2003A express\u00e3o dela se fechou sutilmente. As fei\u00e7\u00f5es endureceram, e o brilho ir\u00f4nico nos olhos desapareceu por um instante. Um sil\u00eancio tenso se formou entre eles, mais denso que a chuva l\u00e1 fora.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 sobre agora, achei que tinha sido clara \u2014 ela respondeu, seca. \u2014 \u00c9 sobre antes. Sobre o que nunca foi resolvido. Sobre o que foi deixado pra tr\u00e1s por gente como voc\u00ea, como eu.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o desviou o olhar, mas algo dentro dele estremeceu.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea quer vingan\u00e7a?<br>\u2003\u2003Ela soltou um riso curto, abafado. N\u00e3o havia alegria, era um som oco.<br>\u2003\u2003\u2014 Vingan\u00e7a? \u2014 repetiu, como se experimentasse o gosto da palavra. \u2014 Eu quero o que \u00e9 justo. E \u00e0s vezes\u2026 precisa ser um pouco brutal.<br>\u2003\u2003Ela deu um passo para tr\u00e1s, se preparando para sair, mas ent\u00e3o parou de novo. Virou o rosto por cima do ombro e falou com a mesma calma inquietante de antes:<br>\u2003\u2003\u2014 A pr\u00f3xima vez que eu vier\u2026 n\u00e3o vai ser pra espiar voc\u00ea.<br>\u2003\u2003E com isso, desapareceu pelo corredor, deixando o apartamento mergulhado de novo no som da chuva e na respira\u00e7\u00e3o contida de Bucky. Permaneceu ali, im\u00f3vel, a respira\u00e7\u00e3o presa, o cora\u00e7\u00e3o ainda descompassado. Cada cent\u00edmetro da pele formigava. N\u00e3o era s\u00f3 o susto. Ele n\u00e3o se mexeu por longos minutos. O que acabara de acontecer n\u00e3o era s\u00f3 uma visita. Era um aviso.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501 \u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501\u2501<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2504],"class_list":["post-10140","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-five-years-gone"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10140"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}