{"id":10118,"date":"2026-04-06T15:59:52","date_gmt":"2026-04-06T18:59:52","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-04-06T16:02:08","modified_gmt":"2026-04-06T19:02:08","slug":"capitulo-1","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/fear\/capitulo-1\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\r\n<p align=\"center\"><em>\u201c(&#8230;) Nunca vi criatura mais interessante; os olhos t\u00eam geralmente uma express\u00e3o de selvageria, e at\u00e9 loucura, mas h\u00e1 momentos em que, se algu\u00e9m tem um ato de bondade para com ele ou lhe oferece um servi\u00e7o insignificante toda sua fisionomia se ilumina com um raio de benevol\u00eancia e do\u00e7ura que nunca vi igual. Mas no geral \u00e9 melanc\u00f3lico e desesperado; e \u00e0s vezes range os dentes como se impaciente pelo senso dos infort\u00fanios que o oprimem\u201d.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 <strong>SHELLEY, <\/strong>M. <em>Frankenstein ou o Prometeu Moderno.<\/em><\/p>\r\n<h3 align=\"left\"><strong>\u2003\u2003\u2022 ARQUIVO 107 \u2022 1948.<\/strong><\/h3>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>RELAT\u00d3RIO FINAL, <abbr data-title=\"Krasnyy, do russo, significa Vermelho, e Kluka, do russo, significa Boneca.\">KRASNYY KUKLA\u00b9<\/abbr>, 6.023:<\/strong> (&#8230;) n\u00f3s n\u00e3o tivemos escolha <em>(pausa longa)<\/em> quando Schmidt decidiu que a melhor linha de a\u00e7\u00e3o era o assassinato de Erskine, tivemos certeza de que caminho estar\u00edamos fadados a seguir <em>(pausa longa, seguida de exalo)<\/em> n\u00e3o havia outra maneira. Com a elimina\u00e7\u00e3o do criador, t\u00ednhamos um subjeto limitado, s\u00f3 havia um esp\u00e9cime com a f\u00f3rmula correta, e, \u00e9 claro, <em>eles<\/em> n\u00e3o iriam hesitar em proteg\u00ea-la, n\u00f3s <em>sab\u00edamos<\/em> que isso n\u00e3o iria acabar bem <em>(pausa longa)<\/em>. N\u00e3o tinha como chegar at\u00e9 ele. Com Erskine morto, perdemos a f\u00f3rmula finalizada, mas a f\u00f3rmula original ainda estava em m\u00e3os de Schmidt, ent\u00e3o, focamos <em>nisso<\/em> <em>(pausa)<\/em>. N\u00f3s enviamos <strong>Howlett<\/strong> para os fronts, um agente infiltrado, quer\u00edamos que ele ficasse de olho no esp\u00e9cime americano, e quando a oportunidade surgisse, ele deveria trazer-nos uma <em>amostra<\/em> do sangue, n\u00f3s ir\u00edamos analis\u00e1-lo e ir\u00edamos descobrir o componente-chave que permitiu o sucesso <em>(pausa longa seguida de exalo)<\/em> n\u00e3o precisamos da amostra. Encontramos a resposta em <abbr data-title=\"Majdanek, outrora conhecido como Lublin, foi um campo de concentra\u00e7\u00e3o constru\u00eddo por volta de 1941 como um Campo de Prisioneiros de Guerra, apenas em 1943 que tornou-se um Campo de Concentra\u00e7\u00e3o.\"><em>Majdanek<\/em>\u00b2<\/abbr>.<br>\u2003\u2003Havia acabado de chegar uma nova leva de prisioneiros. Os soldados, todos eles, variavam entre 39 anos a 15 anos. Sovi\u00e9ticos, capturados no front Austr\u00edaco. Homens e mulheres de <abbr data-title=\"Pavlichenko, \u00e9 uma refer\u00eancia a Franco Atiradora Lyudmila Pavlichenko, do ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico, conhecida por ser a Lady Death, famosa por matar 309 nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Adaptado aqui para melhor encaixe na hist\u00f3ria.\">Pavlichenko\u00b3<\/abbr> <em>(pausa longa seguida de exalo)<\/em> lembro-me deles, \u00e9 claro que me lembro. Estive no processo seletivo, antes da guerra estourar, havia pelo menos tr\u00eas remessas por sala de aula de potenciais soldados, mas dois se destacavam. T\u00e3o novos, n\u00e3o deveriam ter sequer chegado \u00e0 maioridade quando foram enviados para o front. Snipers excelentes de a\u00e7\u00e3o, estavam l\u00e1, quando enviamos nosso esquadr\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es <em>(pausa)<\/em> era <em>sangue<\/em> <strong>[CORTE]<\/strong><br>\u2003\u2003<em>(Exalo longo, seguido de pausa)<\/em> a chave para estabilizar os componentes que compunham o soro <em>SuperSoldado<\/em> encontravam-se no <em>sangue<\/em> de um dos <em>prisioneiros<\/em>. <em>(Pausa longa)<\/em> nunca vi algo assim <strong>[CORTE]<\/strong> <em>(Tosse)<\/em> n\u00e3o era nada que j\u00e1 tiv\u00e9ssemos visto antes. Sempre soubemos que essas\u2026 <strong>coisas<\/strong> poderiam ser <em>criadas<\/em>. N\u00f3s j\u00e1 hav\u00edamos tentado anteriormente, mas eram <em>(pausa longa)<\/em> fr\u00e1geis demais, n\u00e3o sobreviviam ao segundo teste, e quando muito, tornavam-se apenas <strong>cascas<\/strong>. Essas\u2026 <strong>coisas<\/strong> agiam como humanos, <strong>pareciam<\/strong> humanos, mas n\u00e3o eram, pod\u00edamos sentir, pairava no ar como veneno, nos infectava. <em>(Pausa longa seguida de exalo)<\/em> a equipe Delta encontrou tr\u00eas, e a Beta dois, n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos qual deles poderia ser a criatura em quest\u00e3o, ent\u00e3o trouxemos todos. Nunca tivemos interesse nos experimentos de Zola, mas antes que pud\u00e9ssemos saber que havia mais prisioneiros sendo testados, os americanos invadiram, tudo tornou-se um caos <strong>[CORTE]<\/strong><br>\u2003\u2003<em>(Tosse seguido de inspiro)<\/em> era uma coisinha rid\u00edcula o esp\u00e9cime. Pat\u00e9tico e jovem. Sabia seu nome, havia conhecido seu pai, o treinador, sequer contava que fosse digna de aten\u00e7\u00e3o. Mas o que pod\u00edamos fazer <em>(pausa longa)<\/em> n\u00f3s dever\u00edamos ter esperado que seria um desastre. Deus sabe que <strong>eu<\/strong> tentei avis\u00e1-los! Mas ningu\u00e9m estava ouvindo. Ningu\u00e9m se importava. Progresso e ordem, uma resposta <strong>comunista<\/strong> para os malditos <strong>capitalistas<\/strong> do ocidente <em>(pausa)<\/em> Dois subjetos morreram na noite que chegaram a base. Est\u00e1vamos na Sib\u00e9ria, localiza\u00e7\u00e3o confidencial, mas qualquer idiota sabia que era <strong>Minsk<\/strong>. No meio do nada, coberto por \u00e1rvores e gelo. Era a porra de um sacrif\u00edcio. As noites pareciam longas demais, os dias, n\u00e3o eram suficientes. Vi homens bons morrerem enquanto dormiam durante a vig\u00edlia noturna. Mas n\u00f3s precis\u00e1vamos do gelo. Era <strong>isso<\/strong> que mantinha a criatura sob controle <em>(pausa longa)<\/em>. N\u00e3o foi o frio que matou os subjetos, foi aquela\u2026 <strong>coisa<\/strong> <em>(pausa longa)<\/em>.<br>\u2003\u2003Come\u00e7ou pequeno, 10 dos nossos, dois subjetos, 12 ao total. Essa foi s\u00f3 a primeira noite <em>(tosse seguida de pigarro)<\/em> a segunda, foram 32. A terceira 65. A quarta foram 298 baixas <em>(pausa longa)<\/em> comandei que nossas melhores armas fossem enviadas para conter aquele monstro, mas era imposs\u00edvel matar. Dois soldados, na \u00e9poca de outros projetos, haviam conseguido matar a <strong>coisa<\/strong>, eles cortaram, peda\u00e7o por peda\u00e7o, e espalharam pela sala. Levar\u00edamos para lugares opostos, na \u00e9poca, havia um certo interesse em encontrar aquelas criaturas vivas. N\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos deixar que <strong>eles<\/strong> soubessem que t\u00ednhamos um dos seus. Haveria respostas, questionamentos, est\u00e1vamos protegidos, a maioria infiltrada no governo americano, o restante espalhado no mundo, infestando-o como veneno. <em>(Pausa longa)<\/em> O corpo remendou-se sozinho.<br>\u2003\u2003O sangue pulsava no ar, girava como flocos de neve, mas n\u00e3o se movia. Tinha esse\u2026 <em>(pausa)<\/em> esse padr\u00e3o esquisito, como se estivesse vivo. Era como assistir \u00e0 atra\u00e7\u00e3o de dois \u00edm\u00e3s, como se aquele\u2026 aquela <strong>coisa<\/strong> reconhecesse a si mesma <em>(pausa longa)<\/em> se montou sozinho <em>(pausa longa)<\/em> em toda minha vida eu <em>(pausa longa seguido de exalo)<\/em> que Deus nos perdoe pelo que fizemos aquele dia<strong> [CORTE]<\/strong> <em>(barulho de respira\u00e7\u00e3o pesada seguido por pausa)<\/em> Sem a morte, restou-nos a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel para lidar com aquela coisa <em>(pausa)<\/em> n\u00f3s destru\u00edmos sua mente. Peda\u00e7o por peda\u00e7o, fragmentamos o consciente, moldamos o inconsciente para que respostas instintivas seguissem nossos comandos, instalamos programa\u00e7\u00f5es, palavras-chaves para que a mente agora fragmentada pudesse compreender apenas o comando, funcionou, durante um tempo <em>(pausa longa seguida de exalo)<\/em> n\u00f3s s\u00f3 n\u00e3o esper\u00e1vamos que a quebra de sua mente criaria o <strong>monstro<\/strong>.<br>\u2003\u2003<em>(Pausa longa seguida de pigarro)<\/em> com o projeto Soldado Invernal, e a instabilidade do primeiro subjeto, tivemos que construir uma ala abaixo do subsolo dos laborat\u00f3rios onde as c\u00e2maras de criogenia encontravam-se. N\u00f3s prendemos o primeiro subjeto do projeto Soldado Invernal na primeira c\u00e2mara de criogenia, e os subsequentes em uma sala posterior a dele. As c\u00e2maras consomem bastante energia, dentro do gelo, o corpo atrofia, e a passagem de tempo pode causar danos irrevers\u00edveis, ent\u00e3o esporadicamente os esp\u00e9cimes do projeto eram realocados, reintroduzidos como soldados <strong>dormentes<\/strong> na sociedade <em>(pausa longa)<\/em> eles sequer saberiam quem de fato eram, at\u00e9 que fossem acionados. N\u00f3s desconfi\u00e1vamos que havia agentes infiltrados nas bases, sab\u00edamos que em algum momento, n\u00e3o demorariam para se virarem contra n\u00f3s <em>(pausa longa)<\/em> a \u00fanica base que n\u00e3o esvaziamos foi a da Sib\u00e9ria. <em>(Pausa longa)<\/em> N\u00e3o havia escolha, n\u00e3o pod\u00edamos nos dar ao luxo de desligar <strong>aquela<\/strong> base, porque <em>(pausa longa)<\/em> n\u00f3s prendemos a <strong>criatura<\/strong> ali <strong>[CORTE]<\/strong><br>\u2003\u2003<em>(Tosse seguida de pigarro)<\/em> N\u00f3s <em>(tosse)<\/em> n\u00f3s <em>(tosses)<\/em> <strong>[CORTE]<\/strong> <em>(barulho alto de respira\u00e7\u00e3o)<\/em> n\u00e3o tenho muito mais tempo. Como procedimento padr\u00e3o, n\u00f3s \u00e9ramos envenenados todos os dias, e ao final de cada dia o ant\u00eddoto era oferecido, era uma maneira de conter o que era feito naqueles laborat\u00f3rios, <strong>dentro<\/strong> do laborat\u00f3rio, agora que tudo est\u00e1 acabado <em>(tosse)<\/em> receio que meu sistema n\u00e3o tenha se adaptado a quantidade ingerida. Sei que estou morrendo, mas admito que o fa\u00e7o com ego\u00edsmo <em>(tosse seguida por pausa longa)<\/em> n\u00e3o quero estar em um mundo onde essa verdade venha \u00e0 tona. N\u00e3o quero viver em um mundo onde essa <strong>criatura<\/strong> esteja viva <em>(pausa)<\/em> porque ela estar\u00e1. <strong>[CORTE]<\/strong> <em>(chiado alto)<\/em> preciso que <em>(chiado alto)<\/em> n\u00e3o a liberte! <em>(tosse)<\/em> <strong>[CORTE]<\/strong> <em>(respira\u00e7\u00e3o pesada, sons de engasgo)<\/em> sei que pode <em>(tosse seguido de pausa)<\/em> n\u00e3o pode soltar <em>(tosse seguido por chiado)<\/em> n\u00e3o pode controlar <em>(chiado)<\/em> <strong>[CORTE]<\/strong> gelo corta a <em>(chiado)<\/em> parasita <em>(tosse)<\/em> <strong>[CORTE]<\/strong><br>\u2003\u2003<strong>Krasnyy, <abbr data-title=\"Razhavchina, do russo, significa Ferrugem. Mischen\u2019, do russo significa, Alvo. Sneg do russo significa, Neve. Gorenjy, do russo significa, Queimado. Farfor, do russo significa, Porcelana. Sderzhivaniye, do russo significa, Conten\u00e7\u00e3o. Granat, do russo significa, Rom\u00e3.\">Rzhavchina, Mishen\u2019, Sneg, Gorenjy, Farfor, Dublikat, Sderzhivaniye, Granat<sup>4<\/sup><\/abbr> <\/strong><em>(chiado)<\/em> <strong>Krasnyy, Rzhavchina, Mishen\u2019, <\/strong><em>(chiado)<\/em> <strong>Sneg, Gorenjy, Farfor, Dublikat, Sderzhivaniye, Granat<\/strong> <em>(chiado)<\/em> <strong>Krasnyy\u2026<\/strong><\/p>\r\n<p>\u2003\u2003A voz desapareceu no segundo que os dedos apertaram com mais for\u00e7a o gravador. Fincaram-se na pe\u00e7a com viol\u00eancia, usando de toda sua for\u00e7a para esmagar seus componentes. Pe\u00e7as se soltaram, caindo no ch\u00e3o como uma pequena chuva superficial, espalhando-se pelo assoalho de madeira e a po\u00e7a escura que se formava causada pelo pingar cont\u00ednuo do sangue que deslizava pela toalha de mesa. A quebra do gravador foi acompanhada pelo sangue dele, mas n\u00e3o parecia sequer incomodar-se com. O olhar impenetr\u00e1vel, permanecia fixo no ch\u00e3o, perdido entre os pr\u00f3prios pensamentos, reluziram com um brilho esquisito, anormal. As orbes estavam completamente obscurecidas de um preto pungente, mas as \u00edris cintilavam com um tom vermelho intenso, como <em>sangue<\/em>. Veias projetavam-se pela pele, pulsando visivelmente.<br>\u2003\u2003Deixou o gravador cair no ch\u00e3o, indiferente. O que n\u00e3o havia conseguido quebrar com a m\u00e3o, quebrou com o contato de sua bota contra o objeto. Caminhou, meio arrastado, pelo espa\u00e7o, por um momento, absorvendo a cozinha. Simples ao olhar, com nada demais, um fog\u00e3o moderno, e uma geladeira de duas portas. Prateleira com pratos e talheres, e uma gaveta cheia de temperos a esquerda. Uma escultura de madeira com o formato de uma ovelha permeada por facas. Fez uma careta pelo mal gosto, caminhando meio cambaleante em dire\u00e7\u00e3o ao objeto e ent\u00e3o retirando um cutelo dali. Girou-os por suas m\u00e3os, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, seus olhos registraram, desfocados e err\u00e1ticos, o rosto que o metal refletiu. Diferente da barba por fazer, o sangue que escorria pelos olhos, os cabelos escuros, e a pele morena, o que surgiu contra o metal da faca era um rosto empalidecido, l\u00e1bios ressecados, e cabelos de um vermelho escuro, desalinhados pendendo \u00e0 frente de seu rosto. A imagem sumiu t\u00e3o r\u00e1pido quanto apareceu, quando ele levou o cutelo para tr\u00e1s, e acertou em cheio no pulso esquerdo.<br>\u2003\u2003N\u00e3o houve grito. N\u00e3o houve dor. Observou, inexpressivo, quando o membro desabou no ch\u00e3o com um baque molhado. Do corte, sangue esva\u00eda-se em demasia, amontoando-se aos p\u00e9s em uma po\u00e7a, deslizando pelo assoalho como uma corrente de \u00e1gua, delineando as interse\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es da madeira, encontrando-se com a po\u00e7a de sangue que se acumulava \u00e0 mesa de jantar mal posta. Um pulsar pareceu percorrer com o toque dos dois l\u00edquidos da mesma mat\u00e9ria. Um vibrar que o fez cristalizar no ar momentaneamente, antes de voltar ao normal. Pulsando em um ritmo semelhante ao de um cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o algo aconteceu.<br>\u2003\u2003O sangue que escorria do corpo que jazia sobre a mesa <em>retrocedeu<\/em>. N\u00e3o mais pingava contra o assoalho, misturando-se com o do invasor, deslizou pelo ar at\u00e9 onde o buraco de tiro abria-se na testa. Gota por gota retornou para dentro do corpo, a cor retornando perturbadoramente para a pele outrora necrosada. O processo foi lento, mas quando acabou, o corpo do invasor desabou contra o ch\u00e3o, inerte, enquanto o do idoso retornou a vida com um arfar aud\u00edvel de dor. Os olhos emba\u00e7ados piscaram, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, enxergou escurid\u00e3o, cabos e fios grossos, e um vidro espesso, coberto por gelo. Piscou, e ent\u00e3o estava de volta \u00e0 cozinha. Mais algumas piscadas e sua vis\u00e3o ao menos havia se clareado. O comando de seu corpo estava prec\u00e1rio, a bala alojada no c\u00e9rebro impediu a reconstru\u00e7\u00e3o do mesmo por completo, ent\u00e3o a movimenta\u00e7\u00e3o agora n\u00e3o passava de um arrastar cansado. Observou as pr\u00f3prias m\u00e3os, envelhecidas pelo tempo e tr\u00eamulas, antes de apoi\u00e1-las sobre a mesa, empurrando-se para cima com um grunhido.<br>\u2003\u2003Arrastou-se, cego, pelo espa\u00e7o. Esbarrou com cadeiras, quinas e m\u00f3veis dispostos pelo caminho. Cambaleou, apoiando a m\u00e3o contra a parede, as unhas fincando-se contra o drywall, tentando guiar-se at\u00e9 o quarto. L\u00e1, empurrou quadros da parede e tirou gavetas do lugar, at\u00e9 que encontrou o cofre escondido na parede. N\u00e3o sabia a senha, ent\u00e3o fincou as unhas ali, agarrou-a e puxou com mais e mais for\u00e7a, at\u00e9 que as unhas se quebrassem, e sangue escorresse pelas pontas dos dedos. Este, pairou pelo ar, pulsando com um ritmo est\u00e1vel, vibrando ao formar pequenas pontas afiadas antes de voltar a seu estado natural. Deslizou pelas trancas, enroscando-se contra o metal. Ele se afastou alguns passos quando a vibra\u00e7\u00e3o pareceu percorrer seu corpo inteiro, ao ritmo de um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o lhe pertencia. Pulsou uma vez, ent\u00e3o duas, ent\u00e3o, na terceira, a porta explodiu. O metal cortou o ar com viol\u00eancia, enterrando-se na parede \u00e0 sua esquerda, decepando <em>parte<\/em> de seu rosto. Mas n\u00e3o importava.<br>\u2003\u2003Cambaleando para frente, al\u00e7ou de dentro do cofre o que precisava. N\u00e3o era o dinheiro, tampouco as joias, sequer o bras\u00e3o com a caveira e tent\u00e1culos enterrada ao fundo do ba\u00fa. Agarrou o peda\u00e7o de pl\u00e1stico com cuidado, girando-o em seus dedos, limpando com o polegar o sangue que se espalhava ali. O rosto enrugado e os cabelos grisalhos familiares, mas n\u00e3o tanto. As chaves estavam sobre a cabeceira da cama, o carro era um Chevrolet antiquado, da d\u00e9cada de 80, movido a \u00e1lcool, levou quarenta minutos para que a igni\u00e7\u00e3o funcionasse, quando deixou a garagem, foi acompanhado pelo cheiro de etanol queimado.<br>\u2003\u2003Dirigiu em uma linha reta, o caminho, familiar como sua pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o a usina nuclear abandonada. Quando parou na frente do porteiro, n\u00e3o fez movimento algum, apenas virou o rosto e aguardou que o homem se aproximasse. N\u00e3o ouviu o ru\u00eddo alto que o porteiro deixou escapar ao encar\u00e1-lo, ou como havia agarrado o comunicador pedindo por refor\u00e7os quase no mesmo segundo, os dedos tornando-se esbranqui\u00e7ados tamanha for\u00e7a imprimia no gesto. Apenas encarou-o sem v\u00ea-lo de fato. Os dedos enrugados, sangrentos, enroscaram-se com mais for\u00e7a contra o couro envelhecido do volante. Um pequeno estalo ecoou pelos ouvidos emudecidos enquanto o \u00fanico olho bom permaneceu fixo no guarda. Um pulso correu por seu corpo inteiro, parecendo ser espelhado pelo do guarda.<br>\u2003\u2003O homem, desorientado, pareceu engasgar-se, ao levar as duas m\u00e3os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria garganta. Agarrou-se ali, unhas arranhando e cortando a pele, rasgando-a em desespero, enquanto sangue come\u00e7ava a obscurecer e tomar para si os orbes de seus olhos. Gorgolejos desorientados escapavam do fundo da garganta do guarda, engasgando-se com o pr\u00f3prio sangue quando o mesmo escorreu por entre os l\u00e1bios entreabertos, escorreu por entre as narinas. Mais uma pulsa\u00e7\u00e3o. Mais intensa, mais violenta. O carro s\u00f3 seguiu caminho ap\u00f3s o corpo do guarda explodir, de dentro para fora. Uma mancha grotesca se formou na parede, peda\u00e7os de \u00f3rg\u00e3os e ossos foram arrastados e esmagados pelas rodas do carro, criando uma linha grotesca vermelha sobre o ch\u00e3o empalidecido pela neve.<br>\u2003\u2003Desceu do carro ainda em movimento. O mesmo atingiu uma parede antes de parar. Mancou para dentro da usina abandonada, o cheiro pungente de ferrugem, mofo e poeira espalhava-se pelo ar como uma est\u00e1tica sufocante, as luzes oscilavam irregularmente, mas n\u00e3o fazia diferen\u00e7a alguma. As solas dos sapatos ecoaram pelos corredores vazios, chocando-se contra po\u00e7as de \u00e1gua parada, ao direcionar-se para uma parede ao final do andar. A frente da parede, buscou pela estante correta onde, abaixo do objeto, puxou a alavanca que abriu a porta grossa do laborat\u00f3rio no subsolo.<br>\u2003\u2003N\u00e3o usou o elevador, foi de escada. Degrau por degrau, o ar parecia tornar-se mais denso, frio, quanto mais chegava ao seu destino final. Cabos grossos enroscavam-se por entre paredes de cimento queimado, c\u00e2maras entreabertas revelavam sangue e marcas de lutas que deveriam ter ocorrido ali. Um peda\u00e7o de metal dourado e forjado com a logo <em>Ind\u00fastrias Stark<\/em>, foi chutado para longe do caminho, ao parar novamente em frente a uma parede qualquer. Desta vez, o que alcan\u00e7ou foi uma caixa de eletricidade, arrancou o painel com toda a for\u00e7a que possu\u00eda em suas m\u00e3os, derrubando as pe\u00e7as e alguns dedos pelo caminho, antes de al\u00e7ar um pequeno monitor. Estendeu o chip do cart\u00e3o, enfiando-o por um pequeno buraco para a leitura e libera\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o afastou-se alguns passos cambaleados, voltando seu rosto na dire\u00e7\u00e3o de onde a porta grossa com v\u00e1rias camadas de tranca e press\u00e3o abriu-se. Desceu os cinco degraus de metal que compunham a passarela que levava para dentro da gaiola e parou na frente do <em>scanner<\/em>. Ali, inclinou-se para frente, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de retina. Por um momento, apenas piscou o \u00fanico olho, tentando livrar-se do que tingia seus olhos, como o esvair de uma \u00e1gua, o olho preto e vermelho voltou ao normal por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, revelando os tons %prateados% para o scanner, antes de voltar a cobri-lo outra vez como uma n\u00e9voa. Piscou novamente, esperando que a porta interna fosse destravada, mas tudo o que fez foi acionar o alarme.<br>\u2003\u2003Inexpressivo, ele encarou o lugar no momento em que a porta que havia passado se fechou com um estalo alto que reverberou pelas paredes, estremeceu o ch\u00e3o. Luzes avermelhadas acenderam-se enquanto os laborat\u00f3rios entravam em quarentena. Ele tremeu. Um grito inumano escapou de sua garganta, arrebentando o restante de suas cordas vocais, destruindo a traqueia ao avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao acesso para a parte inferior da passarela fechada pela porta com tranca de identifica\u00e7\u00e3o ocular. Acertou com toda a for\u00e7a de seu corpo a porta, mas de nada adiantou. O an\u00fancio de quarentena ecoou alto e ensurdecedor enquanto os alarmes tornavam-se um ru\u00eddo cont\u00ednuo que desaparecia no cen\u00e1rio. Acertou novamente, o sangue explodiu, manchando a porta de metal refor\u00e7ada. Ele tremeu outra vez. Acertou mais uma vez, e ent\u00e3o mais uma, at\u00e9 que ele <em>explodiu<\/em>.<br>\u2003\u2003A chuva de \u00f3rg\u00e3os e estilha\u00e7os de ossos que se espalhou pelo espa\u00e7o n\u00e3o foi acompanhada pelo sangue, este pairou, pulsando em formas variadas pelo ar, antes de deslizar em dire\u00e7\u00e3o a porta. Tomou-lhe pelas laterais, pelas frestas e pequenos espa\u00e7os poss\u00edveis, deslizando lentamente, mas certamente, para dentro da c\u00e2mara. Mesmo um fino buraco seria o suficiente para que se guiasse em dire\u00e7\u00e3o ao que desejava. Espiralou pelo ar como um g\u00e1s perigoso, refletindo a ilumina\u00e7\u00e3o baixa e ritmada das telas que cintilavam o sistema interno de seguran\u00e7a. Deslizou, como uma serpente sobre o termostato da c\u00e2mara, aos 54 graus abaixo de zero, levou segundos para que o sangue que pulsava, rastejando e deslizando em dire\u00e7\u00e3o ao centro da sala, se tornasse igual aos demais. Cresciam e espiralavam pelo ar como galhos, formavam padr\u00f5es como folhas, e cintilavam, individualmente, como flocos de neve, cobrindo a sala inteira com o sangue desconhecido. Levou ainda menos para que as \u00faltimas gotas a se congelarem, pulsassem, girando e transformando-se novamente em um fragmento afiado.<br>\u2003\u2003Com a velocidade de um disparo, o fragmento de gelo atingiu em cheio o painel de controle da c\u00e2mara. Foi congelado antes que pudesse infiltrar-se na parafernalha. Algo estranho, todavia, n\u00e3o tardou a acontecer. A gota congelada que recaiu sobre o painel, <em>desta<\/em> vez, havia conseguido ser r\u00e1pida o suficiente para se enroscar nos teclados, infiltrando-se por entre a fia\u00e7\u00e3o. A fia\u00e7\u00e3o envelhecida pelos anos de uso e a falta de troca dos \u00faltimos nove, come\u00e7ou a sobreaquecer quando o gelo que envolvia o sangue derreteu sobre os mesmos. Um curto circuito n\u00e3o tardou a pulsar, desligando o painel que sobrecarregou o sistema e travou o termostato. O term\u00f4metro preso na parede coberto pelo sangue congelado, come\u00e7ou a marcar a numera\u00e7\u00e3o, outrora decrescente, agora, movia-se <em>crescente<\/em>, mais e mais a cada minuto que passava.<br>\u2003\u2003Como uma chuva, o sangue que pairava no ar, desabou no ch\u00e3o, movendo-se como se tivesse vida pr\u00f3pria, espiralando e pulsando. Veios afiados projetavam-se para cima, enquanto o l\u00edquido escorria por entre as extremidades e laterais da porta, devido \u00e0 quantidade exorbitante. Acompanhado ao sangue, em meio aos fios grossos, suspensos no ar, aos canos de criogenia, e morda\u00e7a, as amarras e mesmo o explosivo preso \u00e0 cabe\u00e7a, a criatura encurvada em posi\u00e7\u00e3o fetal, pela primeira vez em muito tempo, <em>respirou<\/em>.<br>\u2003\u2003Olhos com \u00f3rbitas pretas e \u00edris vermelhas como sangue, abriram-se, furiosos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c(&#8230;) Nunca vi criatura mais interessante; os olhos t\u00eam geralmente uma express\u00e3o de selvageria, e at\u00e9 loucura, mas h\u00e1 momentos em que, se algu\u00e9m tem um ato de bondade para com ele ou lhe oferece um servi\u00e7o insignificante toda sua fisionomia se ilumina com um raio de benevol\u00eancia e do\u00e7ura que nunca vi igual. 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