{"id":10086,"date":"2026-03-29T01:34:22","date_gmt":"2026-03-29T04:34:22","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-29T01:34:53","modified_gmt":"2026-03-29T04:34:53","slug":"capitulo-03","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/acordesecompassos\/capitulo-03\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 03"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u2003\u2003POV %D\u00e9bora% \u2022 Estrada<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003A manh\u00e3 seguinte amanheceu da cor de chumbo. Uma garoa fina e persistente cobria Andir\u00e1, no Parana, transformando o asfalto em um espelho escuro e deixando o ar gelado.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0s 08h30 em ponto, o imponente \u00f4nibus <i>Double Decker<\/i> preto, envelopado com o nome e o rosto de Gustavo Mioto em propor\u00e7\u00f5es gigantescas, roncava o motor na frente do hotel. %D\u00e9bora% estava parada na porta, usando uma capa de chuva escura sobre a roupa de trabalho, coordenando o embarque da equipe t\u00e9cnica e da banda.<br \/>\n\u2003\u2003- O <i>case<\/i> das guitarras vai no bagageiro central, bem travado! &#8211; instruiu ela a um dos <i>roadies<\/i>. Em seguida, virou-se para os m\u00fasicos que entravam arrastando os p\u00e9s. &#8211; Fones de ouvido, fechem as cortinas das camas e durmam. Quero todo mundo inteiro na passagem de som em Mar\u00edlia \u00e0s quatro da tarde. Boa viagem.<br \/>\n\u2003\u2003Paulinho, o baterista, bateu uma contin\u00eancia pregui\u00e7osa antes de sumir para o segundo andar do \u00f4nibus.<br \/>\n\u2003\u2003Logo atr\u00e1s do gigante de metal, estava a van executiva preta &#8211; uma Mercedes Sprinter blindada, com vidros totalmente escuros. O ve\u00edculo exclusivo do artista.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0s 09h00, Gustavo saiu pela porta girat\u00f3ria do hotel. Ele vestia uma cal\u00e7a de moletom cinza grossa, t\u00eanis confort\u00e1veis e uma jaqueta jeans forrada sobre a camiseta preta. O bon\u00e9 estava puxado para baixo, escondendo os olhos amassados de sono, e ele carregava apenas uma mochila de couro em um ombro. Marc\u00e3o, o seguran\u00e7a pessoal dele, com seus quase dois metros de altura, caminhava logo atr\u00e1s, cobrindo- o com um guarda-chuva.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom dia, General &#8211; disse Gustavo ao chegar perto da van, a voz rouca, mas carregando o mesmo tom leve da noite anterior na piscina.<br \/>\n\u2003\u2003- Bom dia, Gustavo. O \u00f4nibus da banda j\u00e1 saiu na frente. Sua \u00e1gua e as vitaminas do nutricionista est\u00e3o no porta-copos.<br \/>\n\u2003\u2003Ele parou no degrau da van, protegido pelo guarda-chuva de Marc\u00e3o, e a encarou de cima a baixo.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea dormiu? Porque voc\u00ea parece irritantemente alerta para quem estava comendo pizza fria de madrugada.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sou movida a caf\u00e9 expresso duplo e log\u00edstica, Gustavo. Entra logo, o tr\u00e2nsito at\u00e9 Mar\u00edlia com essa chuva vai ser lento.<br \/>\n\u2003\u2003Ele soltou uma risada baixa e entrou. %D\u00e9bora% subiu logo atr\u00e1s. Marc\u00e3o assumiu o banco do carona na frente, ao lado do motorista, e fechou a divis\u00f3ria de vidro e isolamento ac\u00fastico que separava a cabine principal da \u00e1rea de passageiros.<br \/>\n\u2003\u2003O baque surdo da porta selou o ambiente. O isolamento ac\u00fastico da van VIP era absoluto; mal se ouvia o motor a diesel. O interior cheirava a couro limpo e ao perfume amadeirado de Gustavo. O espa\u00e7o era imenso, projetado para que o artista pudesse deitar se quisesse.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo sentou-se na poltrona individual da esquerda. %D\u00e9bora% ocupou a poltrona do lado direito, paralela a ele, com o corredor acarpetado entre os dois.<br \/>\n\u2003\u2003Nos primeiros quarenta minutos de estrada rumo a pr\u00f3xima cidade, o sil\u00eancio reinou. O balan\u00e7o suave da suspens\u00e3o era quase hipn\u00f3tico. %D\u00e9bora% abriu o notebook no colo, mergulhando nas planilhas da D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es, checando a reserva de quartos do pr\u00f3ximo hotel e alinhando os hor\u00e1rios com o produtor local. A luz fria da tela iluminava seu rosto concentrado.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo n\u00e3o tentou dormir. Ele ficou olhando a paisagem verde do interior paranaense passar pela janela manchada de gotas de chuva. De vez em quando, pelo canto do olho, %D\u00e9bora% notava que ele virava o rosto para observ\u00e1-la digitar furiosamente.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea vai acabar com uma enxaqueca se continuar lendo com o carro em movimento &#8211; disse ele, a voz preenchendo o espa\u00e7o silencioso da cabine.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% parou de digitar, mas n\u00e3o tirou os olhos da tela.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu n\u00e3o enjoo. Tenho est\u00f4mago de a\u00e7o. Ossos do of\u00edcio.<br \/>\n\u2003\u2003- Duvido. Larga isso um pouco. Seus olhos t\u00e3o vermelhos. A paisagem aqui \u00e9 bonita, mesmo com chuva.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% suspirou. Ela sabia que ele estava certo; suas vistas j\u00e1 come\u00e7avam a emba\u00e7ar e a dor de cabe\u00e7a amea\u00e7ava dar as caras. Ela salvou o documento, fechou o notebook com um clique seco e o guardou na mochila aos seus p\u00e9s. Girou a cadeira levemente para o centro, ficando de frente para ele.<br \/>\n\u2003\u2003- Ok. Ganhou. Pausa de trinta minutos pra evitar um colapso ocular.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo sorriu, satisfeito, e se ajeitou na poltrona, esticando as pernas longas no corredor.<br \/>\n\u2003\u2003- Sabe, fazer esse trecho no Paran\u00e1 me lembra quando eu era mais novo, viajando com meu pai pra ver ele negociar show na regi\u00e3o. &#8211; Ele apontou o queixo para as planta\u00e7\u00f5es de soja que passavam r\u00e1pido l\u00e1 fora. &#8211; A gente comia sandu\u00edche de posto, dormia torto no carro e eu ficava sonhando com o dia em que viajaria numa van luxuosa, indo cantar pra trinta mil pessoas.<br \/>\n\u2003\u2003- E agora voc\u00ea est\u00e1 aqui &#8211; comentou %D\u00e9bora%, observando o perfil dele, o tom de voz anal\u00edtico, mas emp\u00e1tico. &#8211; A van blindada, o ar- condicionado perfeito, a agenda lotada e a sua equipe inteira viajando no seu pr\u00f3prio \u00f4nibus l\u00e1 na frente. Valeu a pena?<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo virou o rosto para ela. A pergunta soava como uma entrevista de neg\u00f3cios, mas os olhos dela mostravam que a resposta importava de forma pessoal.<br \/>\n\u2003\u2003- Valeu. Cada quil\u00f4metro. A m\u00fasica \u00e9 o que eu sou, eu n\u00e3o sei fazer outra coisa. Mas&#8230; a fatura chega alta, n\u00e9? Voc\u00ea perde anivers\u00e1rios de amigos, perde o almo\u00e7o de domingo da fam\u00edlia, perde a no\u00e7\u00e3o dos dias da semana. A estrada cobra um ped\u00e1gio caro.<br \/>\n\u2003\u2003- Cobra &#8211; concordou %D\u00e9bora%, a voz perdendo a rigidez habitual. Ela cruzou os bra\u00e7os, lembrando-se das pr\u00f3prias ren\u00fancias para erguer o nome da D&amp;R. &#8211; Eu perdi o nascimento da minha sobrinha porque estava coordenando a log\u00edstica de um festival no Rio de Janeiro que estava desmoronando. Minha irm\u00e3 ficou sem falar comigo por dois meses.<br \/>\n\u2003\u2003- S\u00e9rio? &#8211; Gustavo franziu a testa, a aten\u00e7\u00e3o totalmente voltada para ela. &#8211; E voc\u00eas se resolveram?<br \/>\n\u2003\u2003- Sim. Hoje sou a tia ausente, mas que compensa mandando os presentes mais caros da loja. &#8211; Ela riu, um som curto e pragm\u00e1tico. &#8211; Mas eu entendo perfeitamente o que voc\u00ea diz. A gente escolhe uma vida que n\u00e3o para de girar. Quem tem rotina das oito \u00e0s dezoito nunca vai entender o nosso fuso hor\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo assentiu lentamente, os olhos fixos nela. Havia um reconhecimento profundo ali. Ele n\u00e3o estava falando com uma f\u00e3 que achava a vida dele um conto de fadas, nem com uma produtora deslumbrada. Ele estava falando com uma colega de trincheira. Eles habitavam o mesmo ecossistema ca\u00f3tico.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 muito solit\u00e1rio \u00e0s vezes &#8211; admitiu Gustavo, encostando a cabe\u00e7a na poltrona de couro. O isolamento ac\u00fastico da van fazia a voz dele soar ainda mais grave. &#8211; Voc\u00ea sai do palco em Mar\u00edlia hoje \u00e0 noite com milhares de pessoas gritando o que voc\u00ea escreveu. A\u00ed voc\u00ea entra no quarto do hotel de madrugada, a porta fecha, a adrenalina despenca e o sil\u00eancio \u00e9&#8230; quase insuport\u00e1vel. Por isso que eu gosto de ficar na piscina comendo pizza fria com os caras da t\u00e9cnica. Ajuda a lembrar que eu sou o Gustavo, e n\u00e3o s\u00f3 o &#8220;Mioto&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003A vulnerabilidade crua na voz dele pegou %D\u00e9bora% desprevenida. Ela viu, sem os holofotes e sem a armadura de artista, o peso real que ele carregava.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9 pra isso que a sua banda serve, Gustavo. E \u00e9 pra isso que a D&amp;R t\u00e1 aqui &#8211; disse ela, o tom firme e reconfortante, sem cruzar a linha do profissionalismo, mas com uma do\u00e7ura que raramente usava. &#8211; Aquele sil\u00eancio do hotel a gente n\u00e3o pode resolver, mas o caos ao redor dele, sim. A gente organiza a bagun\u00e7a pesada pra voc\u00ea focar s\u00f3 na parte que faz a sua vida valer a pena.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo a observou por longos segundos. Os ombros dele relaxaram visivelmente dentro da jaqueta jeans. Um sorriso genu\u00edno e contido se formou em seu rosto.<br \/>\n\u2003\u2003- \u00c9&#8230; acho que o Marcos Mioto sabia muito bem o que tava fazendo quando fechou contrato com voc\u00eas.<br \/>\n\u2003\u2003Ele pegou o celular no bolso da jaqueta e destravou a tela.<br \/>\n\u2003\u2003- Deixa eu adivinhar &#8211; disse ele, mudando deliberadamente o tom de voz para algo mais leve, quebrando a pequena tens\u00e3o melanc\u00f3lica. &#8211; Quando voc\u00ea quer desligar a cabe\u00e7a das planilhas, voc\u00ea n\u00e3o ouve os meus mod\u00f5es. Voc\u00ea tem toda a cara de quem ouve <i>Arctic Monkeys<\/i> ou algum pop alternativo brit\u00e2nico escondida no fone.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% deu uma risada baixa, surpresa e levemente ofendida com a precis\u00e3o do palpite.<br \/>\n\u2003\u2003- O preconceito contra a minha prancheta \u00e9 real. Eu tenho um gosto musical muito decente e bem ecl\u00e9tico, pra sua informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Veremos. Abre seu WhatsApp.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% pegou o pr\u00f3prio celular. Segundos depois, uma notifica\u00e7\u00e3o piscou. Um link do Spotify enviado por ele. <i>Playlist: Estrada &amp; Chuva.<\/i><br \/>\n\u2003\u2003- D\u00e1 o play na primeira &#8211; instruiu ele, colocando os pr\u00f3prios AirPods nos ouvidos. &#8211; Vamos ver se a General aprova.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% pegou seus fones sem fio na bolsa, colocou-os e clicou no link. Uma melodia suave de piano e guitarra, vagamente indie e atmosf\u00e9rica, preencheu seus ouvidos. <i>The 1975<\/i>. Ela conhecia. Ela adorava.<br \/>\n\u2003\u2003Ela levantou o olhar para Gustavo do outro lado do corredor. Ele j\u00e1 estava de olhos fechados, a cabe\u00e7a encostada na poltrona, batucando o ritmo suavemente no bra\u00e7o de couro do assento.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o disse nada. Apenas encostou a pr\u00f3pria cabe\u00e7a no assento, virou o rosto para a janela para observar as \u00e1rvores passarem em borr\u00f5es sob a chuva constante at\u00e9 Mar\u00edlia, e deixou a m\u00fasica tocar.<br \/>\n\u2003\u2003Estavam em poltronas separadas, divididos pelo corredor, cada um em seu pr\u00f3prio fone de ouvido. Mas, pela primeira vez desde que assinou aquele contrato de trinta dias, %D\u00e9bora% sentiu que ela e Gustavo Mioto estavam, de fato, na mesma sintonia.<\/p>\n<p><strong>\u2003\u2003POV %D\u00e9bora% \u2022 Chegada em Mar\u00edlia, Paran\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003O mundo l\u00e1 fora era chuva, neblina e asfalto escuro. Mas ali, dentro da cabine blindada da van, cada um imerso no pr\u00f3prio fone de ouvido, havia uma sintonia rara. N\u00e3o era o clima de romance clich\u00ea que ela tanto repudiava; era algo mais maduro. Um respeito silencioso e compartilhado por dois profissionais exaustos encontrando um o\u00e1sis no meio do caos.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% manteve os olhos fechados, permitindo-se, apenas por aquele trajeto, n\u00e3o ser a produtora resolvendo crises. Apenas uma mulher apreciando uma excelente <i>playlist<\/i> indie, sentada a um metro de dist\u00e2ncia de um cara que carregava o peso do pr\u00f3prio nome com uma dignidade surpreendente.<br \/>\n\u2003\u2003Quando a van reduziu a marcha, pegando os primeiros sem\u00e1foros da \u00e1rea urbana de Mar\u00edlia, a chuva fina deu lugar a um c\u00e9u cinza claro. %D\u00e9bora% abriu os olhos e tocou no pr\u00f3prio fone sem fio, pausando a m\u00fasica. O feiti\u00e7o da estrada se quebrou instantaneamente.<br \/>\n\u2003\u2003- Chegamos &#8211; anunciou ela, a voz voltando ao prumo, limpa e profissional. Ela recolocou os fones na caixa e puxou o notebook da mochila. &#8211; O produtor local j\u00e1 mandou mensagem. O \u00f4nibus da banda chegou h\u00e1 meia hora.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo, que batucava no bra\u00e7o da poltrona, abriu os olhos devagar e tirou os pr\u00f3prios <i>AirPods<\/i>. Ele a observou ajeitar a postura e endireitar os ombros, reassumindo a patente de General em quest\u00e3o de segundos. Ele sorriu, um sorriso contido e respeitoso.<br \/>\n\u2003\u2003- Obrigado pela companhia, %D\u00e9bora%. E por n\u00e3o ser daquelas pessoas que sentem necessidade de falar o tempo todo. A viagem passou r\u00e1pido.<br \/>\n\u2003\u2003- O sil\u00eancio \u00e9 subestimado no nosso meio &#8211; respondeu ela, sustentando o olhar dele com naturalidade. &#8211; Boa <i>playlist<\/i>, a prop\u00f3sito. Voc\u00ea tem salva\u00e7\u00e3o fora do sertanejo.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu soprado enquanto a van parava suavemente na entrada do hotel. %D\u00e9bora% n\u00e3o corou, n\u00e3o tremeu. Ela simplesmente destravou a porta, assumindo o controle da situa\u00e7\u00e3o, repassando as coordenadas com o seguran\u00e7a Marc\u00e3o e coordenando a descida discreta de Gustavo para evitar alvoro\u00e7o no sagu\u00e3o. A engrenagem da D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es voltava a girar em pot\u00eancia m\u00e1xima. Faltavam vinte e nove dias.<br \/>\n\u2003\u2003O hotel em Mar\u00edlia era um pr\u00e9dio executivo moderno, o tipo de lugar onde todos os corredores parecem iguais e o carpete tem estampas geom\u00e9tricas destinadas a esconder manchas das rodinhas de malas.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% entrou no quarto 612, largou a mala ao lado do guarda-roupa e suspirou. Era a rotina t\u00e1tica: <i>Check-in<\/i>, testar a velocidade do Wi- Fi, verificar o n\u00edvel do ar-condicionado, desfazer a mala.<br \/>\n\u2003\u2003Ela tirou as roupas com agilidade, Camisas sociais penduradas, cal\u00e7as dobradas. O &#8220;Modo Base&#8221; precisava ser ativado rapidamente para ela n\u00e3o se sentir uma estranha em mais um quarto gen\u00e9rico. Enquanto organizava os itens de higiene no banheiro, sua mente vagou rapidamente de volta para a van. Aquele trajeto tinha sido perigosamente confort\u00e1vel. Sil\u00eancio compartilhado, na profiss\u00e3o dela, era a forma mais alta de intimidade intelectual.<br \/>\n\u2003\u2003O celular, jogado sobre a colcha branca esticada, tocou o som caracter\u00edstico de chamada de v\u00eddeo. <i>%Rayane%<\/i>. A s\u00f3cia devia ter um radar implantado para momentos em que %D\u00e9bora% amea\u00e7ava baixar a guarda t\u00e1tica.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% pegou o aparelho, apoiou-o contra uma garrafa de \u00e1gua na mesa de trabalho e atendeu, sentando-se na cadeira girat\u00f3ria.<br \/>\n\u2003\u2003- E a\u00ed, n\u00f4made? Chegaram vivos? &#8211; %Rayane% apareceu na tela, no escrit\u00f3rio da D&amp;R em S\u00e3o Paulo, devorando uma marmita de risoto. Passava das treze horas.<br \/>\n\u2003\u2003- Vivos e no hor\u00e1rio. O motorista \u00e9 \u00e1gil, a van \u00e9 um tanque de guerra blindado e a log\u00edstica fluiu &#8211; %D\u00e9bora% relatou, prendendo o cabelo num coque firme. &#8211; E voc\u00ea? Almo\u00e7ando na mesa de novo, %Rayane%? Cad\u00ea a pausa?<br \/>\n\u2003\u2003- A pausa \u00e9 essa atualiza\u00e7\u00e3o com voc\u00ea. Vi no rastreador da log\u00edstica que o \u00f4nibus da banda e a van j\u00e1 est\u00e3o no hotel. Como foi a viagem no aqu\u00e1rio VIP com o Mioto? Deu muito trabalho?<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% serviu-se de um copo d&#8217;\u00e1gua, o tom de voz casual e anal\u00edtico.<br \/>\n\u2003\u2003- Nenhuma dor de cabe\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio. Foi surpreendentemente agrad\u00e1vel, %Ray%. A gente conversou no in\u00edcio, depois fomos ouvindo m\u00fasica em sil\u00eancio. Ele tem uma vis\u00e3o muito madura sobre os ped\u00e1gios que a estrada cobra. Falou um pouco sobre a solid\u00e3o p\u00f3s- show, sobre perder o timing da vida normal. Ele \u00e9 incrivelmente l\u00facido pra algu\u00e9m do tamanho dele.<br \/>\n\u2003\u2003%Rayane% parou com o garfo no ar, os olhos castanhos semicerrados na tela. Ela conhecia a s\u00f3cia melhor que ningu\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003- %D\u00e9bora%&#8230; eu conhe\u00e7o esse seu tom de voz. \u00c9 o seu tom de &#8220;eu vi a alma do cliente e achei fascinante&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003- Menos, %Rayane%. Eu s\u00f3 constatei que ele \u00e9 humano. Ter empatia pelo cliente faz parte de uma boa gest\u00e3o de carreira.<br \/>\n\u2003\u2003- Faz. Mas ser terapeuta dele n\u00e3o faz &#8211; interrompeu %Rayane%, abandonando a marmita e encostando-se na cadeira do escrit\u00f3rio. &#8211; Olha s\u00f3, a gente sabe como a banda toca. Como empres\u00e1rias, a gente conhece o mercado. O Gustavo \u00e9 um cara sensacional, mas ele atrai holofotes 24 horas por dia. Tudo ao redor dele vira manchete, vira fofoca de internet.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sei disso. Por isso estou l\u00e1 para blind\u00e1-lo.<br \/>\n\u2003\u2003- Exato! &#8211; %Rayane% apontou a caneta para a tela. &#8211; A D&amp;R precisa ser invis\u00edvel na m\u00eddia e impec\u00e1vel nos bastidores. Se voc\u00ea come\u00e7a a virar a &#8220;amigona psic\u00f3loga\u201d do cantor, aquela que ouve m\u00fasica dividindo ang\u00fastias na van, a linha profissional fica turva. Voc\u00ea perde a m\u00e3o de ferro na hora de cobrar hor\u00e1rio e de dizer &#8220;n\u00e3o&#8221;. E se a imprensa cismar de tirar foto de voc\u00eas rindo pelos cantos, sobra pra reputa\u00e7\u00e3o da nossa empresa e talvez nossa chance de entrar na Miotinho Produ\u00e7\u00f5es desapare\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003A observa\u00e7\u00e3o da amiga era um balde de \u00e1gua fria necess\u00e1rio e extremamente racional. %D\u00e9bora% olhou para a janela do hotel, vendo o movimento cinzento de Mar\u00edlia l\u00e1 embaixo. %Rayane% estava defendendo o CNPJ delas, e com toda a raz\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea est\u00e1 certa. E eu n\u00e3o perdi a perspectiva, %Ray% &#8211; respondeu %D\u00e9bora%, a voz voltando \u00e0 inabal\u00e1vel frieza da &#8220;General&#8221;. &#8211; Saber que ele \u00e9 um cara decente e solit\u00e1rio s\u00f3 facilita o meu trabalho, porque sei que n\u00e3o estou lidando com um moleque deslumbrado. Mas a linha est\u00e1 desenhada no ch\u00e3o de concreto. Ele \u00e9 o cliente VIP, n\u00f3s somos a engrenagem.<br \/>\n\u2003\u2003- Certeza absoluta de que o profissionalismo t\u00e1 intacto? Nenhuma brecha?<br \/>\n\u2003\u2003- Nenhuma brecha &#8211; %D\u00e9bora% confirmou, batendo a ponta da caneta na mesa. &#8211; Ele vai ter os melhores trinta dias de log\u00edstica que a Miotinho Produ\u00e7\u00f5es j\u00e1 viu. Sem dramas, sem terapia de estrada e sem margem para fofoca.<br \/>\n\u2003\u2003%Rayane% sorriu, voltando a atacar o risoto, visivelmente aliviada com a firmeza da s\u00f3cia.<br \/>\n\u2003\u2003- Excelente. A D&amp;R agradece a sua lucidez de gelo. Seja o escudo de tit\u00e2nio dele e fa\u00e7a o nome da nossa empresa brilhar l\u00e1 dentro.<br \/>\n\u2003\u2003- Pode deixar. Agora vai terminar de comer antes que seu almo\u00e7o esfrie de vez. \u00c0s 16h eu tenho passagem de som e preciso focar.<br \/>\n\u2003\u2003A chamada encerrou. %D\u00e9bora% ficou encarando o reflexo pr\u00f3prio na tela preta do celular por alguns instantes. A conversa serviu para assentar a poeira e fixar seus p\u00e9s no ch\u00e3o firme da realidade.<br \/>\n\u2003\u2003A empatia que sentiu na van era natural, mas perigosa se n\u00e3o fosse dosada. Gustavo n\u00e3o precisava de uma amiga ali, precisava de uma gestora implac\u00e1vel que garantisse que tudo funcionasse com perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003E perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, definitivamente, era a especialidade de %D\u00e9bora%.<\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 16px;\">\u2003\u2003O Lobby e o Caf\u00e9 Ruim<\/span><\/h3>\n<p>\u2003\u2003Uma hora depois, o &#8220;Modo Casa&#8221; j\u00e1 estava devidamente desligado. %D\u00e9bora% desceu para o sagu\u00e3o vestindo o uniforme t\u00e1tico de campo: cal\u00e7a jeans preta de sarja, botas confort\u00e1veis para aguentar horas em p\u00e9 e uma camisa polo escura com a pequena logo da D&amp;R Produ\u00e7\u00f5es no peito. O r\u00e1dio comunicador j\u00e1 estava preso na cintura, o fone invis\u00edvel encaixado na orelha. A passagem de som em Maring\u00e1 seria em trinta minutos.<br \/>\n\u2003\u2003Ela encontrou Gustavo sentado em uma das poltronas de couro do lobby, folheando um guia de turismo local que devia ter uns tr\u00eas anos de validade vencida. Ele tamb\u00e9m j\u00e1 estava pronto para o trabalho: cal\u00e7a jeans, camiseta preta b\u00e1sica e um bon\u00e9 diferente. O cheiro de sabonete do hotel se misturava ao perfume amadeirado dele, que agora %D\u00e9bora% j\u00e1 identificava a metros de dist\u00e2ncia.<br \/>\n\u2003\u2003- Descobriu algum ponto tur\u00edstico imperd\u00edvel em Maring\u00e1 al\u00e9m da Catedral? &#8211; perguntou ela, parando ao lado da poltrona e checando o rel\u00f3gio.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo fechou a revista e soltou uma risada nasalada.<br \/>\n\u2003\u2003- Aparentemente tem um parque enorme aqui perto. A gente devia ir caminhar.<br \/>\n\u2003\u2003- Claro. Se sobrar tempo entre a montagem do painel de LED, a passagem de som, o atendimento aos radialistas no camarim e o show, a gente vai dar uma corridinha no parque &#8211; ironizou ela, o tom seco, mas sem hostilidade, sentando-se na poltrona \u00e0 frente dele.<br \/>\n\u2003\u2003- Voc\u00ea \u00e9 uma destruidora de sonhos, %D\u00e9bora% &#8211; ele disse, recostando-se na poltrona.<br \/>\n\u2003\u2003Havia uma garrafa t\u00e9rmica de caf\u00e9 de cortesia em um aparador pr\u00f3ximo. Gustavo se levantou.<br \/>\n\u2003\u2003- Quer um caf\u00e9? Aviso logo que tem gosto de pneu queimado com terra, mas tem cafe\u00edna.<br \/>\n\u2003\u2003- Aceito. Pneu queimado \u00e9 exatamente o que eu preciso pra lidar com o t\u00e9cnico de luz hoje.<br \/>\n\u2003\u2003Ele serviu dois copos de papel\u00e3o e entregou um a ela. O repasse foi r\u00e1pido, pr\u00e1tico, sem toques acidentais ou fa\u00edscas invis\u00edveis. Apenas dois colegas de trabalho dividindo combust\u00edvel ruim.<br \/>\n\u2003\u2003- Estava pensando no que a gente conversou na van &#8211; come\u00e7ou Gustavo, sentando-se novamente e soprando a fuma\u00e7a rala do caf\u00e9. &#8211; Sobre a sua fam\u00edlia no interior.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% ergueu as sobrancelhas, a mente de produtora j\u00e1 processando onde aquela conversa ia parar.<br \/>\n\u2003\u2003- O que tem eles?<br \/>\n\u2003\u2003- A gente tem uma folga na agenda na semana que vem, na ter\u00e7a-feira. \u00c9 o dia de deslocamento, mas o trecho \u00e9 curto. Vai ser um dia morto.<br \/>\n\u2003\u2003- Correto. O planejamento \u00e9 chegar na pr\u00f3xima cidade, fazer o <i>check-in<\/i> e deixar a equipe descansar no hotel o dia todo.<br \/>\n\u2003\u2003- Onde exatamente seus pais moram? \u00c9 perto da rota? &#8211; Ele perguntou, os olhos castanhos fixos nela, com um interesse que ia al\u00e9m do casual.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% cruzou as pernas, apoiando o copo no joelho.<br \/>\n\u2003\u2003- Eles t\u00eam um recanto no Norte Pioneiro. Fica a umas duas horas do nosso trajeto principal.<br \/>\n\u2003\u2003A express\u00e3o de Gustavo mudou na hora. O interesse polido virou curiosidade genu\u00edna.<br \/>\n\u2003\u2003- Um recanto? Tipo ro\u00e7a?<br \/>\n\u2003\u2003- Tipo ro\u00e7a com CNPJ &#8211; ela corrigiu, um sorriso de orgulho escapando. &#8211; Eles produzem cacha\u00e7a artesanal. O lugar \u00e9 incr\u00edvel, mas \u00e9 o interior do interior.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo quase derrubou o copo de papel\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003- Cacha\u00e7a artesanal e ro\u00e7a. %D\u00e9bora%, pelo amor de Deus. A gente precisa ir.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% piscou, a mente log\u00edstica entrando em curto-circuito por tr\u00eas segundos antes de reagir.<br \/>\n\u2003\u2003- O qu\u00ea? Gustavo, n\u00e3o. Absolutamente n\u00e3o. Voc\u00ea tem no\u00e7\u00e3o do risco de seguran\u00e7a? Eu n\u00e3o posso simplesmente desviar uma van blindada e aparecer no recanto da minha fam\u00edlia com o Gustavo Mioto a tiracolo. A vizinhan\u00e7a descobre, a cidade inteira desce pra l\u00e1, minha m\u00e3e infarta tentando fazer comida pra todo mundo e a D&amp;R perde a ap\u00f3lice de seguro da turn\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003Ele riu alto, o som ecoando no lobby vazio e fazendo o recepcionista olhar para eles.<br \/>\n\u2003\u2003- Qual \u00e9, General, abaixa as armas. A gente faz um esquema discreto. N\u00e3o precisa levar a equipe. Vai na van s\u00f3 eu, voc\u00ea, o Marc\u00e3o da seguran\u00e7a e o motorista. A gente n\u00e3o posta nada, zero celulares. Eu troco minha presen\u00e7a vip por uma dose dessa cacha\u00e7a e comida de fog\u00e3o a lenha.<br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% o encarou, incr\u00e9dula. Ele n\u00e3o estava flertando. N\u00e3o havia nenhum tom de &#8220;vamos fugir juntos&#8221; naquilo. Ele estava, genuinamente, querendo um peda\u00e7o de terra firme. Ele queria fugir da bolha de vidro, do carpete de hotel e da comida pasteurizada de servi\u00e7o de quarto.<br \/>\n\u2003\u2003Ela lembrou do que ele dissera na van sobre a solid\u00e3o ensurdecedora. Um artista em <i>burnout<\/i> era o pesadelo de qualquer turn\u00ea. Levar o cliente para a propriedade da fam\u00edlia cruzava uma linha do protocolo padr\u00e3o da D&amp;R? Sim. Mas gerenciar a sa\u00fade mental do artista tamb\u00e9m era responsabilidade dela. E um dia de paz na ro\u00e7a poderia render um cantor com o dobro de energia para o resto do m\u00eas.<br \/>\n\u2003\u2003- Isso \u00e9 um pesadelo log\u00edstico &#8211; murmurou ela, avaliando as vari\u00e1veis. &#8211; Meu pai vai te fazer sentar num toco de madeira e te alugar por tr\u00eas horas contando vantagem sobre a produ\u00e7\u00e3o da cacha\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003- Eu sou o melhor ouvinte de hist\u00f3rias de alambique que voc\u00ea vai conhecer &#8211; garantiu ele, o sorriso de quem sabia que estava ganhando a discuss\u00e3o. &#8211; \u00c9 s\u00e9rio, %D\u00e9bora%. Eu odeio ficar trancado em hotel no dia de folga. Pensa com carinho. Como minha produtora. Um artista relaxado rende muito mais no palco.<br \/>\n\u2003\u2003Ele estava usando as palavras dela contra ela. %D\u00e9bora% n\u00e3o p\u00f4de evitar um sorriso de canto de boca. Ele era bom argumentador.<br \/>\n\u2003\u2003- Vou fazer uma an\u00e1lise de risco da rota e falar com o Marc\u00e3o &#8211; ela cedeu, estritamente profissional, mas com um brilho divertido no olhar. &#8211; Se o n\u00edvel de exposi\u00e7\u00e3o for baixo, eu ligo pra minha m\u00e3e. N\u00e3o estou prometendo nada.<br \/>\n\u2003\u2003- J\u00e1 \u00e9 um come\u00e7o.<br \/>\n\u2003\u2003O r\u00e1dio na cintura de %D\u00e9bora% chiou. Era o coordenador de palco avisando que o som estava liberado para teste.<br \/>\n\u2003\u2003A van preta buzinou suavemente l\u00e1 fora, encostando na porta de vidro do hotel.<br \/>\n\u2003\u2003- Hora do show &#8211; %D\u00e9bora% se levantou, jogando o copo de papel\u00e3o no lixo mais pr\u00f3ximo. &#8211; A passagem de som nos espera. O t\u00e9cnico disse que mudou o <i>grid<\/i> de luz, ent\u00e3o se prepare pra ficar marcando posi\u00e7\u00e3o no palco por um bom tempo hoje.<br \/>\n\u2003\u2003- Sim, senhora.<br \/>\n\u2003\u2003Eles caminharam juntos para a sa\u00edda rotat\u00f3ria, ombro a ombro. N\u00e3o havia a tens\u00e3o clich\u00ea de um romance proibido, nem a formalidade g\u00e9lida do primeiro dia. Havia apenas uma din\u00e2mica de respeito se solidificando. Dois profissionais da estrada que, aos poucos, descobriam que trabalhar juntos tornava o caf\u00e9 ruim suport\u00e1vel e o peso da turn\u00ea muito mais leve.<\/p>\n<p><strong>A Chegada e o Fantasma da M\u00eddia<\/strong><\/p>\n<p>\u2003\u2003A chegada ao local do show foi, como de costume, ca\u00f3tica. A van executiva blindada manobrou lentamente pela entrada de servi\u00e7o do pavilh\u00e3o de eventos, onde uma grade de ferro separava o ve\u00edculo de cerca de cinquenta f\u00e3s que aguardavam sob o c\u00e9u ainda nublado. Eles seguravam cartazes, capas de chuva e celulares com as lanternas ligadas apontadas para os vidros escuros.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que o motorista desligou o motor, o som dos gritos atravessou o isolamento ac\u00fastico. <i>&#8220;Gustavo! Mioto!&#8221;<\/i><br \/>\n\u2003\u2003%D\u00e9bora% foi a primeira a descer. A &#8220;General&#8221; avaliou a seguran\u00e7a em cinco segundos. Havia tr\u00eas seguran\u00e7as locais segurando a grade, al\u00e9m do Marc\u00e3o, que j\u00e1 havia descido e se posicionado. Era o suficiente.<br \/>\n\u2003\u2003- Tudo limpo &#8211; disse ela, voltando-se para a porta aberta da van. &#8211; Voc\u00ea tem exatos cinco minutos, Gustavo. O cronograma da passagem de som est\u00e1 apertado por causa do atraso na montagem do LED.<br \/>\n\u2003\u2003Gustavo assentiu, respirando fundo e ajeitando o bon\u00e9. Era fascinante e um pouco assustador ver a transi\u00e7\u00e3o. Os ombros dele se endireitaram, o sorriso carism\u00e1tico se acendeu e qualquer tra\u00e7o de cansa\u00e7o desapareceu. Ele entrou no &#8220;Modo Artista&#8221;.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que ele colocou o p\u00e9 no asfalto, a histeria aumentou. %D\u00e9bora% ficou a dois passos de dist\u00e2ncia, prancheta na m\u00e3o, observando a linguagem corporal da multid\u00e3o, pronta para intervir se algu\u00e9m ultrapassasse o limite f\u00edsico.<br \/>\n\u2003\u2003Ele foi impec\u00e1vel. Pegou celulares para <i>selfies<\/i>, autografou chap\u00e9us, aceitou cartas. Olhava nos olhos das pessoas e agradecia com uma paci\u00eancia genu\u00edna. Ele sabia que aquelas pessoas pagavam a estrutura milion\u00e1ria que o cercava.<br \/>\n\u2003\u2003Mas a harmonia quebrou no \u00faltimo metro de grade.<br \/>\n\u2003\u2003Uma garota, talvez com seus vinte anos, esticou o bra\u00e7o por cima do ombro de outra f\u00e3, enfiando o celular gravando com o flash ligado bem no rosto de Gustavo.<br \/>\n\u2003\u2003- Gu! \u00c9 verdade o que saiu no <i>Daily do Garotinho<\/i>? &#8211; a menina gritou, a voz estridente cortando os outros chamados. &#8211; Que voc\u00ea e a Ana estavam ensaiando voltar, mas ela assumiu o Z\u00e9 Felipe em Goi\u00e2nia? Manda um recado pra ela no meu v\u00eddeo! Voc\u00ea t\u00e1 com raiva?<br \/>\n\u2003\u2003O sorriso de Gustavo n\u00e3o sumiu &#8211; anos de treinamento de m\u00eddia o impediam de quebrar a postura em p\u00fablico &#8211; mas congelou. A m\u00e3o que segurava a caneta para autografar uma capinha de celular parou no ar. O maxilar dele trincou de forma quase impercept\u00edvel.<br \/>\n\u2003\u2003Aquilo n\u00e3o era a pergunta de algu\u00e9m preocupado; era a busca desesperada por um corte viral para o TikTok \u00e0s custas da paz dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003POV %D\u00e9bora% \u2022 Estrada \u2003\u2003POV %D\u00e9bora% \u2022 Chegada em Mar\u00edlia, Paran\u00e1 \u2003\u2003O Lobby e o Caf\u00e9 Ruim A Chegada e o Fantasma da M\u00eddia<\/p>\n","protected":false},"author":155,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2539],"class_list":["post-10086","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-acordesecompassos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/155"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10086"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}