{"id":10019,"date":"2026-03-26T12:07:11","date_gmt":"2026-03-26T15:07:11","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-26T12:19:48","modified_gmt":"2026-03-26T15:19:48","slug":"capitulo-2","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/clausuladeliberdade\/capitulo-2\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 2"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<em>Por %Helena% %Albuquerque%<\/em><br>\u2003\u2003<span class=\"versalete\">%Theo% disse que a<\/span> gente precisava conversar, e foi curioso perceber como o meu corpo reagiu antes da minha mente conseguir acompanhar.<br>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o acelerou primeiro. N\u00e3o o suficiente para virar p\u00e2nico, mas o bastante para me obrigar a inspirar devagar, como se precisasse reorganizar o ar dentro do peito.<br>\u2003\u2003Conversar.<br>\u2003\u2003Na minha cabe\u00e7a, a palavra imediatamente abriu uma s\u00e9rie de pastas invis\u00edveis, como um arquivo sendo consultado em velocidade.<br>\u2003\u2003Faculdade? Ele tinha ido mal em alguma avalia\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica?<br>\u2003\u2003Fam\u00edlia? Os pais dele estavam pressionando sobre alguma coisa?<br>\u2003\u2003Dinheiro? A gente nunca discutia sobre isso, mas ainda assim era uma possibilidade.<br>\u2003\u2003Meu c\u00e9rebro procurava explica\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas enquanto eu levantava os olhos para ele.<br>\u2003\u2003%Theo% estava parado na porta da cozinha como se tivesse esquecido por que tinha entrado ali. As m\u00e3os nos bolsos, os ombros tensos demais para algu\u00e9m que s\u00f3 queria iniciar uma conversa casual.<br>\u2003\u2003\u2014 Conversar sobre o qu\u00ea? \u2014 perguntei, mantendo a voz firme.<br>\u2003\u2003Eu nunca gostei de rodeios. Se havia um problema, eu preferia saber qual era o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Problemas claros s\u00e3o mais f\u00e1ceis de resolver.<br>\u2003\u2003Ele abriu a boca.<br>\u2003\u2003Fechou.<br>\u2003\u2003Hesitou.<br>\u2003\u2003Isso j\u00e1 foi estranho.<br>\u2003\u2003%Theo% n\u00e3o hesitava. Ele pensava, organizava, decidia. Sempre foi assim. Mesmo quando estava nervoso, ele parecia seguro do caminho que estava seguindo.<br>\u2003\u2003Ali, por\u00e9m, havia algo diferente.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada grave \u2014 ele come\u00e7ou, e eu senti o est\u00f4mago contrair antes mesmo de entender por qu\u00ea. \u2014 Eu s\u00f3\u2026 fiquei pensando.<br>\u2003\u2003Pensando.<br>\u2003\u2003Cruzei os bra\u00e7os, apoiando o peso em uma perna s\u00f3.<br>\u2003\u2003\u2014 Pensando em qu\u00ea?<br>\u2003\u2003Ele respirou fundo antes de responder, como se estivesse preparando o pr\u00f3prio discurso. %Theo% passou a m\u00e3o pela nuca.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu gosto muito de voc\u00ea \u2014 disse.<br>\u2003\u2003Meu cora\u00e7\u00e3o errou uma batida. Ningu\u00e9m come\u00e7ava uma conversa com <em>\u201ceu gosto muito de voc\u00ea\u201d<\/em> quando tudo estava simples.<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003Esperando.<br>\u2003\u2003E foi ali, entre o cheiro de caf\u00e9 ainda no ar e a luz da manh\u00e3 atravessando a cozinha, que eu percebi que aquela conversa n\u00e3o era sobre faculdade, fam\u00edlia ou dinheiro. Era sobre algo que eu nunca tinha considerado fr\u00e1gil: era sobre n\u00f3s. E eu n\u00e3o estava pronta para isso.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu gosto muito <em>mesmo <\/em>de voc\u00ea \u2014 ele repetiu, como se refor\u00e7ar aquilo fosse necess\u00e1rio.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei \u2014 respondi. Ele assentiu, mas n\u00e3o parecia aliviado.<br>\u2003\u2003\u2014 E est\u00e1 tudo bem. A gente est\u00e1 bem. Isso n\u00e3o \u00e9\u2026 \u2014 ele respirou fundo \u2014 n\u00e3o \u00e9 sobre terminar.<br>\u2003\u2003<em>N\u00e3o \u00e9 sobre terminar.<\/em><br>\u2003\u2003Meu corpo reagiu antes da raz\u00e3o. Porque ningu\u00e9m diz isso quando n\u00e3o existe a possibilidade de t\u00e9rmino pairando no ar.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o falei nada.<br>\u2003\u2003%Theo% sempre organizava pensamentos como quem montava um diagn\u00f3stico cl\u00ednico. S\u00f3 que, dessa vez, as palavras pareciam escapar antes de se encaixarem direito.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu fiquei pensando\u2026 \u2014 come\u00e7ou. \u2014 A gente est\u00e1 junto desde sempre.<br>\u2003\u2003Eu permaneci im\u00f3vel.<br>\u2003\u2003\u2014 A gente nunca viveu outra coisa. Nunca <em>experimentou <\/em>nada al\u00e9m\u2026 <em>disso<\/em>.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o precisou apontar para n\u00f3s. Eu sabia exatamente ao que ele se referia.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu nunca beijei outra pessoa \u2014 ele continuou. \u2014 Nunca soube como \u00e9 estar com algu\u00e9m que n\u00e3o seja voc\u00ea. E n\u00e3o \u00e9 porque eu queira outra pessoa. N\u00e3o \u00e9 isso.<br>\u2003\u2003As palavras come\u00e7aram a ganhar forma: experi\u00eancia, escolha, certeza e liberdade. Ele falava como se estivesse tentando convencer a si mesmo de que aquilo fazia sentido.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu s\u00f3\u2026 \u00e0s vezes eu me pergunto se estou aqui porque eu escolho, ou porque sempre foi assim. Eu queria ter certeza. Queria saber que \u00e9 uma decis\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 continuidade.<br>\u2003\u2003Eu escutei.<br>\u2003\u2003Sem interromper.<br>\u2003\u2003Porque eu sempre escutava antes de reagir, ele n\u00e3o parecia cruel, n\u00e3o parecia insatisfeito, parecia inquieto. E inquieta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil de combater do que desamor.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o estou infeliz, %Helena% \u2014 ele acrescentou r\u00e1pido. \u2014 Eu s\u00f3 tenho curiosidade. Sobre o mundo. Sobre experi\u00eancia. Sobre saber como \u00e9 ter liberdade\u2026 e ainda assim escolher voc\u00ea.<br>\u2003\u2003Ali.<br>\u2003\u2003Naquela frase.<br>\u2003\u2003Eu entendi antes mesmo que ele terminasse, mas ele terminou.<br>\u2003\u2003\u2014 Talvez a gente pudesse\u2026 abrir um pouco as coisas.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio que se formou n\u00e3o foi abrupto, foi denso. Eu senti a palavra se acomodar no espa\u00e7o entre n\u00f3s.<br>\u2003\u2003Abrir.<br>\u2003\u2003<em>Relacionamento aberto.<\/em><br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o precisou usar o termo, eu entendi imediatamente.<br>\u2003\u2003Meu rosto permaneceu neutro. Minha respira\u00e7\u00e3o continuou controlada, mas algo dentro de mim se deslocou, como se uma estrutura que sempre esteve firme tivesse mudado alguns cent\u00edmetros de lugar.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o surtei, n\u00e3o levantei a voz, n\u00e3o chorei, n\u00e3o fiz perguntas impulsivas. Eu pensei, minha mente entrou em funcionamento da mesma forma que entrava diante de um caso dif\u00edcil.<br>\u2003\u2003Fatos. Ele estava sendo honesto, n\u00e3o estava escondendo nada. N\u00e3o havia trai\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia mentira.<br>\u2003\u2003Ele estava inseguro. E a inseguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 crime, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 inofensiva.<br>\u2003\u2003Observei o rosto dele enquanto falava. N\u00e3o havia frieza. Havia d\u00favida. Havia uma tentativa quase desesperada de transformar aquilo em algo racional. Ele n\u00e3o queria outra pessoa, ele queria provar que me escolheria.<br>\u2003\u2003A quest\u00e3o era: <em>precisava provar?<\/em><br>\u2003\u2003Respirei fundo, sentindo o ar frio entrar devagar. Isso era maturidade? Ou medo? Ele tinha medo de nunca ter vivido nada al\u00e9m de mim.<br>\u2003\u2003E eu? Eu sempre estive ali. Nunca precisei competir, precisei ser conquistada, ou precisei ser escolhida. Eu fui continuidade, h\u00e1bito. Eu fui\u2026confort\u00e1vel. E a pergunta que surgiu foi a \u00fanica que realmente doeu. E se eu for s\u00f3 confort\u00e1vel demais?<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio entre n\u00f3s continuava pesado, mas mantive o olhar firme. N\u00e3o porque eu n\u00e3o estivesse sentindo, mas porque eu precisava entender antes de reagir.<br>\u2003\u2003Ele queria ter certeza. E, pela primeira vez, eu me perguntei se eu tamb\u00e9m tinha. Eu n\u00e3o falei nada imediatamente. %Theo% interpretou meu sil\u00eancio como algo que precisava ser preenchido.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o quero machucar voc\u00ea \u2014 acrescentou r\u00e1pido demais. \u2014 N\u00e3o \u00e9 sobre falta. N\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 suficiente.<br>\u2003\u2003<em>Suficiente.<\/em><br>\u2003\u2003A palavra ficou no ar, mas eu n\u00e3o reagi. Porque reagir seria admitir que doeu.<br>\u2003\u2003Passei os dedos pela borda da x\u00edcara ainda morna, observando o tra\u00e7o circular que o caf\u00e9 deixava na porcelana.<br>\u2003\u2003Para ele, aquilo era curiosidade, para mim, era ruptura de l\u00f3gica. N\u00f3s nunca fomos inst\u00e1veis, intermitentes ou d\u00favidas. Eu sempre soube onde estava, sempre soube o que \u00e9ramos. E agora ele estava me dizendo que precisava testar o mundo para ter certeza de mim.<br>\u2003\u2003Eu n\u00e3o sentia raiva, sentia deslocamento. Como se algu\u00e9m tivesse movido um m\u00f3vel da sala alguns cent\u00edmetros para o lado, nada quebrado, mas nada exatamente no lugar. Ele continuava me olhando, esperando alguma coisa, talvez uma resposta, um acordo, uma garantia, mas eu n\u00e3o tinha nenhuma das tr\u00eas naquele momento.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu preciso pensar \u2014 disse, finalmente.<br>\u2003\u2003Minha voz saiu est\u00e1vel, isso eu consegui manter.<br>\u2003\u2003Ele assentiu r\u00e1pido.<br>\u2003\u2003\u2014 Claro. Eu n\u00e3o estou exigindo nada agora.<br>\u2003\u2003Mas ele estava, mesmo que n\u00e3o percebesse. Porque, depois que uma possibilidade \u00e9 dita em voz alta, ela n\u00e3o voltava para o lugar de antes.<br>\u2003\u2003Levantei, peguei minha bolsa, a rotina continuava. Eu precisava ir para a faculdade. Tinha aula. Tinha est\u00e1gio no f\u00f3rum. Tinha responsabilidades reais \u2014 coisas que obedeciam a regras claras.<br>\u2003\u2003Relacionamentos n\u00e3o obedeciam.<br>\u2003\u2003Passei por ele na cozinha, ele abriu espa\u00e7o para que eu sa\u00edsse. Por um segundo, nossos ombros quase se tocaram, era o mesmo apartamento, o mesmo cheiro de caf\u00e9, a mesma manh\u00e3. Mas a estabilidade tinha rachado em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003No elevador, sozinha, encostei a cabe\u00e7a no espelho frio, ontem estava tudo bem\u2026 ontem \u00e0 noite eu dormi com a certeza de que \u00e9ramos suficientes. Hoje eu estava sendo informada de que talvez f\u00f4ssemos apenas\u2026 convenientes.<br>\u2003\u2003A porta do elevador se abriu, o mundo continuava normal demais e eu ainda n\u00e3o sabia qual decis\u00e3o tomaria.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Peguei a bandeja no refeit\u00f3rio como fazia todos os dias: arroz, feij\u00e3o, frango grelhado e uma por\u00e7\u00e3o de salada que eu provavelmente n\u00e3o terminaria. A sequ\u00eancia era autom\u00e1tica, quase mec\u00e2nica. Meu corpo percorria o balc\u00e3o sem precisar pensar muito, como se a rotina fosse um trilho invis\u00edvel conduzindo cada passo.<br>\u2003\u2003Escolhi uma mesa perto da janela, n\u00e3o por prefer\u00eancia, mas por h\u00e1bito, e me sentei observando o movimento ao redor. O barulho de sempre preenchia o espa\u00e7o como uma trilha constante: talheres batendo nos pratos, cadeiras arrastando no piso, conversas cruzadas que se sobrepunham sem realmente se escutar. Algu\u00e9m reclamava de uma prova dif\u00edcil, outro grupo discutia est\u00e1gio como se fosse uma guerra iminente, duas meninas riam alto de alguma hist\u00f3ria que provavelmente perderia a gra\u00e7a em poucos minutos. A vida universit\u00e1ria seguia no volume normal, e nada parecia deslocado \u2014 exceto eu.<br>\u2003\u2003Peguei o garfo e comi duas garfadas sem fome. O frango tinha gosto de nada. Olhei para o celular, esperando ver algo que quebrasse aquele sil\u00eancio estranho, mas n\u00e3o havia nenhuma mensagem. A tela apagada refletiu meu pr\u00f3prio rosto por um segundo antes de escurecer completamente.<br>\u2003\u2003E aquilo, tecnicamente, era normal. %Theo% nunca mandava mensagem no meio da manh\u00e3 sem motivo. A gente tinha rotinas diferentes, hor\u00e1rios diferentes, responsabilidades que ocupavam o dia inteiro.<br>\u2003\u2003Mas hoje parecia diferente.<br>\u2003\u2003Porque agora havia um motivo.<br>\u2003\u2003A tela continuava vazia, e enquanto eu girava o garfo no prato sem perceber, a pergunta voltou com uma clareza inc\u00f4moda: se ele precisava provar ao mundo que me quer\u2026 eu n\u00e3o fui suficiente?<br>\u2003\u2003N\u00e3o chorei. N\u00e3o ali. Apenas mastiguei devagar demais, como se precisasse dar tempo ao meu pr\u00f3prio pensamento, como se desacelerar fosse capaz de reorganizar as coisas dentro de mim.<br>\u2003\u2003Levantei os olhos por acaso.<br>\u2003\u2003E foi quando vi %Theo% do outro lado do refeit\u00f3rio, sentado com alguns colegas de Medicina, e com Isadora. Ela falava animada, gesticulando como sempre fazia, o corpo inclinado para frente enquanto as m\u00e3os desenhavam hist\u00f3rias no ar. Era o tipo de pessoa que ocupava o espa\u00e7o com facilidade. %Theo% estava inclinado na dire\u00e7\u00e3o dela, escutando, e rindo.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era um riso \u00edntimo nem diferente. Era o riso que eu conhecia.<br>\u2003\u2003Mas, pela primeira vez, me peguei observando aquela cena como se estivesse fora da minha pr\u00f3pria vida, como se assistisse algo que ainda n\u00e3o tinha decidido se me inclu\u00eda.<br>\u2003\u2003A pergunta surgiu antes que eu pudesse impedir: foi ali que a curiosidade come\u00e7ou? Foi ali que a ideia nasceu?<br>\u2003\u2003Talvez tivesse sido ela. Talvez algu\u00e9m tivesse mostrado a ele um mundo que eu nunca precisei mostrar \u2014 um mundo onde experi\u00eancias s\u00e3o comparadas, onde escolhas precisam ser testadas, onde a liberdade parece mais concreta do que a estabilidade.<br>\u2003\u2003%Theo% virou o rosto, e nossos olhares quase se cruzaram.<br>\u2003\u2003Quase.<br>\u2003\u2003Desviei primeiro. N\u00e3o por medo, mas por controle. Eu n\u00e3o queria que ele visse nada no meu rosto, nenhuma d\u00favida, nenhuma compara\u00e7\u00e3o, nenhuma possibilidade de inseguran\u00e7a.<br>\u2003\u2003Antes que ele pudesse se levantar, porque eu sabia que ele levantaria se me visse ali, empurrei a cadeira para tr\u00e1s. O som das pernas raspando no ch\u00e3o pareceu mais alto do que deveria. Levantei, deixei metade do almo\u00e7o no prato e sa\u00ed do refeit\u00f3rio sem olhar para tr\u00e1s.<br>\u2003\u2003No corredor, o ar parecia mais frio, ou talvez fosse apenas a sensa\u00e7\u00e3o de ter percebido algo que eu ainda n\u00e3o sabia como nomear. Eu n\u00e3o estava com raiva, nem com ci\u00fame.<br>\u2003\u2003Eu estava consciente.<br>\u2003\u2003E consci\u00eancia \u00e9 muito mais perigosa do que ci\u00fame, porque o ci\u00fame reagia, enquanto a consci\u00eancia observava. E, quando voc\u00ea come\u00e7ava a observar demais, algumas coisas nunca voltavam a parecer t\u00e3o simples quanto eram antes.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003O f\u00f3rum tinha um sil\u00eancio diferente do da faculdade.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era o sil\u00eancio distra\u00eddo de estudantes tentando parecer concentrados, mas um sil\u00eancio profissional, disciplinado, feito de conten\u00e7\u00f5es. Pilhas de processos ocupavam as mesas como pequenas muralhas de papel, carimbos batiam em intervalos regulares ao longe e o som constante de teclas preenchia o ambiente com uma urg\u00eancia controlada. Ali, tudo parecia mais s\u00e9rio, quase definitivo.<br>\u2003\u2003Sentei na minha mesa e comecei a organizar os processos que tinham chegado naquela manh\u00e3. Numerei folhas, separei anexos, conferi prazos com aten\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica. Organizar sempre me ajudou a pensar; colocar coisas em ordem dava a ilus\u00e3o de que o resto da vida tamb\u00e9m poderia ser reorganizado da mesma forma. E, naquele momento, eu precisava desesperadamente de alguma sensa\u00e7\u00e3o de controle.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 com cara de quem ganhou um processo e perdeu outra coisa.<br>\u2003\u2003A voz veio atr\u00e1s de mim, e eu nem precisei virar para reconhecer.<br>\u2003\u2003Marina Duarte tinha vinte e seis anos e era a estagi\u00e1ria mais velha do setor, al\u00e9m de possuir um olhar atento demais para deixar qualquer detalhe escapar. Depois de um noivado que terminou mal o suficiente para mudar a forma como ela enxergava relacionamentos, Marina se tornara uma esp\u00e9cie de especialista informal em detectar rachaduras emocionais nos outros.<br>\u2003\u2003Tentei rir.<br>\u2003\u2003N\u00e3o consegui.<br>\u2003\u2003Ela inclinou a cabe\u00e7a, analisando meu rosto como se estivesse avaliando uma prova pericial.<br>\u2003\u2003\u2014 Caf\u00e9.<br>\u2003\u2003A palavra n\u00e3o soou como convite.<br>\u2003\u2003Soou como diagn\u00f3stico.<br>\u2003\u2003Fomos at\u00e9 a pequena copa do f\u00f3rum. O espa\u00e7o era apertado, com uma mesa redonda encostada na parede e uma cafeteira que sempre parecia trabalhar mais do que devia. O cheiro de caf\u00e9 rec\u00e9m-passado estava impregnado no ambiente, misturado ao de papel e toner.<br>\u2003\u2003Marina serviu duas x\u00edcaras e me entregou uma, sem a\u00e7\u00facar.<br>\u2003\u2003\u2014 Agora fala.<br>\u2003\u2003Segurei o caf\u00e9 entre as m\u00e3os por alguns segundos, observando o vapor subir devagar. N\u00e3o dramatizei, n\u00e3o chorei, n\u00e3o fiz pausas teatrais.<br>\u2003\u2003Apenas disse:<br>\u2003\u2003\u2014 Meu namorado quer abrir o relacionamento.<br>\u2003\u2003Marina n\u00e3o reagiu imediatamente. N\u00e3o arregalou os olhos, n\u00e3o fez esc\u00e2ndalo, nem soltou qualquer exclama\u00e7\u00e3o exagerada. Ela simplesmente ficou em sil\u00eancio, permitindo que a frase ocupasse o espa\u00e7o entre n\u00f3s.<br>\u2003\u2003Depois perguntou, com a mesma calma:<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea quer?<br>\u2003\u2003Eu hesitei, e percebi que era a primeira hesita\u00e7\u00e3o real desde que o dia tinha come\u00e7ado.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu quero ser madura.<br>\u2003\u2003Marina soltou um suspiro baixo.<br>\u2003\u2003\u2014 Ser madura n\u00e3o \u00e9 aceitar tudo \u2014 respondeu. \u2014 \u00c9 saber o que voc\u00ea aguenta.<br>\u2003\u2003A frase me atingiu com mais for\u00e7a do que eu esperava. Apoiei os cotovelos na mesa e passei os dedos pela borda da x\u00edcara, tentando organizar pensamentos que ainda pareciam dispersos.<br>\u2003\u2003\u2014 Mas a gente \u00e9 melhor amigo antes de ser namorado \u2014 falei, mais baixo. \u2014 Ele n\u00e3o disse isso como algu\u00e9m insatisfeito. Ele falou como algu\u00e9m confuso, como quem est\u00e1 tentando entender a pr\u00f3pria cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Marina continuava me observando sem interromper.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele desabafou comigo \u2014 acrescentei. \u2014 Como faria com um amigo.<br>\u2003\u2003Ela permaneceu em sil\u00eancio, esperando que eu terminasse.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o quero perder o que eu tenho com ele \u2014 continuei, sentindo a frase ganhar peso ao ser dita em voz alta. \u2014 Minha vida sempre foi com ele por perto. Eu n\u00e3o sei existir sem ele. N\u00e3o existe uma vers\u00e3o de mim que n\u00e3o tenha %Theo% %Montenegro%.<br>\u2003\u2003Falar aquilo tornou tudo mais concreto do que eu gostaria.<br>\u2003\u2003Marina inclinou o corpo levemente para frente.<br>\u2003\u2003\u2014 Isso \u00e9 bem preocupante.<br>\u2003\u2003Ergui os olhos.<br>\u2003\u2003\u2014 Preocupante?<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o saber quem \u00e9 sem ele.<br>\u2003\u2003Ela tomou um gole do caf\u00e9 antes de continuar.<br>\u2003\u2003\u2014 E talvez n\u00e3o seja de todo ruim voc\u00ea conhecer pessoas novas tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Franzi a testa.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o quero outras pessoas.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o estou falando s\u00f3 de romance \u2014 explicou, apoiando a x\u00edcara na mesa. \u2014 Estou falando de mundo.<br>\u2003\u2003Ela fez um pequeno gesto com a m\u00e3o, como se abrisse algo invis\u00edvel no ar.<br>\u2003\u2003\u2014 \u00c0s vezes a gente se apega tanto \u00e0 ideia de \u201csempre\u201d que esquece de perguntar se aquilo ainda \u00e9 escolha.<br>\u2003\u2003A palavra ficou ecoando na minha cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Escolha.<br>\u2003\u2003Parecia me perseguir desde aquela manh\u00e3.<br>\u2003\u2003\u2014 Ele disse que quer ter certeza \u2014 murmurei.<br>\u2003\u2003Marina me encarou diretamente.<br>\u2003\u2003\u2014 E voc\u00ea? Voc\u00ea tem?<br>\u2003\u2003Fiquei em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003Porque, at\u00e9 aquela manh\u00e3, eu nunca tinha me feito essa pergunta.<br>\u2003\u2003Nunca precisei.<br>\u2003\u2003Marina recostou na cadeira e cruzou os bra\u00e7os.<br>\u2003\u2003\u2014 Se voc\u00ea aceitar isso s\u00f3 para n\u00e3o perder ele, vai perder alguma coisa de qualquer jeito.<br>\u2003\u2003Engoli em seco.<br>\u2003\u2003\u2014 E se eu disser n\u00e3o, eu posso perder ele tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003Ela n\u00e3o respondeu imediatamente. Apenas me observou por alguns segundos antes de falar com calma:<br>\u2003\u2003\u2014 Ent\u00e3o a pergunta n\u00e3o \u00e9 o que ele quer viver. A pergunta \u00e9 o que voc\u00ea aguenta viver.<br>\u2003\u2003O caf\u00e9 j\u00e1 estava frio quando me levantei. Eu ainda n\u00e3o tinha resposta, mas, pela primeira vez desde que aquela conversa come\u00e7ou, a decis\u00e3o n\u00e3o parecia ser apenas sobre ele.<br>\u2003\u2003Parecia ser sobre mim tamb\u00e9m.<br>\u2003\u2003E isso me assustava muito mais do que a proposta dele.<\/p>\r\n<p align=\"center\">\u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\r\n<p>\u2003\u2003Cheguei em casa antes dele.<br>\u2003\u2003Como quase sempre.<br>\u2003\u2003A chave girou na fechadura com o mesmo som discreto de todos os dias, e o apartamento me recebeu do jeito que sempre recebia: silencioso, organizado, previs\u00edvel. Deixei a bolsa na cadeira da sala e permaneci parada por alguns segundos no meio do ambiente, como se o corpo ainda precisasse decidir o que fazer com o resto do dia.<br>\u2003\u2003O sil\u00eancio ali dentro tinha peso.<br>\u2003\u2003N\u00e3o era simplesmente aus\u00eancia de barulho. Era a presen\u00e7a constante de pensamento.<br>\u2003\u2003Passei pela cozinha e toquei a bancada com a ponta dos dedos enquanto observava o espa\u00e7o ao redor. O sof\u00e1 estava no mesmo lugar, a televis\u00e3o desligada, e o copo que ele tinha usado pela manh\u00e3 ainda permanecia na pia.<br>\u2003\u2003Tudo estava normal.<br>\u2003\u2003Exceto eu.<br>\u2003\u2003Troquei de roupa, prendi o cabelo e comecei a preparar o jantar antes mesmo de decidir conscientemente o que faria. Cortar legumes ajudava a pensar; movimentos repetitivos traziam foco, como se o corpo pudesse ocupar a mente enquanto ela tentava reorganizar o resto.<br>\u2003\u2003Quando a porta se abriu, eu j\u00e1 sabia que era ele.<br>\u2003\u2003O ritmo dos passos sempre entregava.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi \u2014 disse ele, entrando como se nada tivesse acontecido naquela manh\u00e3.<br>\u2003\u2003\u2014 Oi.<br>\u2003\u2003Ele largou a mochila no sof\u00e1 e veio at\u00e9 a cozinha. Depositou um beijo leve na minha bochecha, um gesto autom\u00e1tico e familiar que carregava um calor conhecido demais.<br>\u2003\u2003\u2014 Como foi o dia? \u2014 Continuei mexendo a panela.<br>\u2003\u2003\u2014 Normal. \u2014 Ele permaneceu alguns segundos ali, talvez esperando que eu dissesse mais alguma coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 O meu tamb\u00e9m \u2014 respondeu por fim.<br>\u2003\u2003O jantar seguiu exatamente o roteiro de sempre: pratos servidos, televis\u00e3o ligada em volume baixo, conversas superficiais tentando preencher o espa\u00e7o. Ele comentou sobre uma aula pr\u00e1tica na faculdade; eu mencionei um processo que tinha passado pela mesa do f\u00f3rum.<br>\u2003\u2003Mas tudo soava ensaiado, como se estiv\u00e9ssemos representando a normalidade em vez de realmente viv\u00ea-la.<br>\u2003\u2003Eu mastigava devagar demais, prestando mais aten\u00e7\u00e3o ao peso do sil\u00eancio do que ao gosto da comida.<br>\u2003\u2003\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 bem? \u2014 ele perguntou em determinado momento.<br>\u2003\u2003Levantei os olhos para ele. E, de repente, percebi que estava cansada demais para continuar organizada.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o. \u2014 %Theo% ficou im\u00f3vel.<br>\u2003\u2003\u2014 N\u00e3o? \u2014 Larguei o garfo.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu tive um dia de merda, %Theo%.<br>\u2003\u2003Ele abriu a boca para responder, mas eu continuei antes que ele conseguisse dizer qualquer coisa.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o consegui prestar aten\u00e7\u00e3o na aula. Anotei artigo errado, coisa que eu nunca fa\u00e7o. Sa\u00ed do refeit\u00f3rio porque vi voc\u00ea rindo com a Isadora e fiquei me perguntando se foi ali que tudo come\u00e7ou. Passei o dia inteiro ouvindo na minha cabe\u00e7a voc\u00ea falar sobre escolha e liberdade como se eu fosse um ponto fixo da sua vida, algo que sempre estaria aqui, esperando.<br>\u2003\u2003Minha voz n\u00e3o estava alta.<br>\u2003\u2003Estava firme.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu n\u00e3o sou confort\u00e1vel, %Theo%. N\u00e3o sou continuidade autom\u00e1tica da sua vida. N\u00e3o sou um h\u00e1bito que voc\u00ea pode testar para ver se ainda funciona.<br>\u2003\u2003Ele permaneceu em sil\u00eancio.<br>\u2003\u2003Respirei fundo antes de continuar.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu sei que voc\u00ea foi honesto. Sei que voc\u00ea n\u00e3o quer me trair e que est\u00e1 tentando entender o que sente. Eu sei que voc\u00ea est\u00e1 confuso. Mas eu n\u00e3o vou fingir que isso n\u00e3o me afetou.<br>\u2003\u2003O ar entre n\u00f3s parecia pesado demais.<br>\u2003\u2003\u2014 %Helena%\u2026 \u2014 ele come\u00e7ou.<br>\u2003\u2003\u2014 Eu pensei o dia inteiro \u2014 interrompi.<br>\u2003\u2003E pensei mesmo. Na faculdade, no f\u00f3rum, no caminho de volta para casa.<br>\u2003\u2003\u2014 Pensei bastante.<br>\u2003\u2003%Theo% engoliu em seco.<br>\u2003\u2003\u2014 E?<br>\u2003\u2003Sustentei o olhar dele.<br>\u2003\u2003\u2014 E eu j\u00e1 me decidi.<br>\u2003\u2003Ele ficou tenso de imediato.<br>\u2003\u2003\u2014 Qual \u00e9 a decis\u00e3o?<br>\u2003\u2003Segurei o olhar dele por alguns segundos. Pela primeira vez desde os treze anos, tive a sensa\u00e7\u00e3o clara de que o que eu dissesse ali n\u00e3o seria apenas uma resposta moment\u00e2nea.<br>\u2003\u2003Poderia mudar completamente a hist\u00f3ria que constru\u00edmos juntos.<br>\u2003\u2003E, pela primeira vez, eu precisava escolher com a mesma consci\u00eancia que ele dizia buscar.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Por %Helena% %Albuquerque% \u2b50\u2b50\u2b50 \u2b50\u2b50\u2b50 \u2b50\u2b50\u2b50<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2563],"class_list":["post-10019","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-clausuladeliberdade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10019"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}