{"id":10009,"date":"2026-03-23T10:11:54","date_gmt":"2026-03-23T13:11:54","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-23T10:17:27","modified_gmt":"2026-03-23T13:17:27","slug":"capitulo-05","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/nda\/capitulo-05\/","title":{"rendered":"CAP\u00cdTULO 05"},"content":{"rendered":"\r\n<p>\u2003\u2003<strong>\u2014 AQUELA ERA %ERIN% %VANHELSING%? \u2014 KAIN DIZ COM UM SORRISO LARGO, EM COREANO, PARA QUE NINGU\u00c9M MAIS ENTENDA AL\u00c9M DE N\u00d3S.<\/strong><br>\u2003\u2003N\u00e3o o respondo. Uma parte de mim ainda est\u00e1 chocado com o desd\u00e9m da rockstar. O golpe, ainda que acidental, parece reverberar por meus ossos, acompanhado daquela sensa\u00e7\u00e3o el\u00e9trica que ela parecia exalar, acompanhado do choque abrupto. Levo minha m\u00e3o instintivamente para o local acertado, prendendo minha respira\u00e7\u00e3o e franzindo o cenho. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma frustra\u00e7\u00e3o gritante; <em>%Erin%<\/em> acabou de passar por <em>mim<\/em> e <em>sequer<\/em> me viu?! Sinto o impulso de estender minha m\u00e3o para impedir que o elevador se feche, exigir que me reconhe\u00e7a, mas ent\u00e3o, ela j\u00e1 foi, o elevador j\u00e1 come\u00e7ou a descer, e deparo-me com meu reflexo. Solto um chiado entre dentes, minha respira\u00e7\u00e3o um pouco mais r\u00e1pida do que gostaria, com o montante de frustra\u00e7\u00e3o. Balan\u00e7o minha cabe\u00e7a, tentando manter o foco claro; foi s\u00f3 uma transa, s\u00f3 uma noite qualquer, n\u00e3o era como se eu n\u00e3o tivesse tido casos de uma noite na minha vida. Mas sempre havia sido <em>eu<\/em> a passar com indiferen\u00e7a, n\u00e3o? Acho que h\u00e1 uma vingan\u00e7a po\u00e9tica, considerando os cora\u00e7\u00f5es que parti antes da morte de Suho, elas se sentiriam satisfeitas de saberem que fui <em>eu<\/em> quem virou s\u00f3 mais um <em>nome<\/em> na cama de %VanHelsing%.<br>\u2003\u2003Sou acometido, de repente, por uma estranha incerteza: pela maneira que ela estava gemendo, assumi que <em>havia<\/em> gostado, mas foi s\u00f3 fingimento? %VanHelsing% era l\u00e1 assim t\u00e3o boa atriz? Parte de mim queria acreditar que ela n\u00e3o \u00e9, mas ent\u00e3o, aquela conversa com <em>Danny<\/em>, a baterista dela continua voltando \u00e0 minha mente. As palavras, as acusa\u00e7\u00f5es, mesmo as express\u00f5es era <em>tudo<\/em> calculado. Sinto minha mand\u00edbula apertando-se, a eletricidade torna-se algo mais quente, mais profundo e perigoso. Aceitei o papel de palha\u00e7o, uma parte porque queria ver at\u00e9 onde ia, j\u00e1 a outra porque <em>queria<\/em> saber como era estar com ela, mas ser esquecido? \u00c9 claro, <em>ela<\/em> \u00e9 uma <em>rockstar<\/em>, duvido muito que tenha algo que ela n\u00e3o tenha feito ou experimentado antes, em compara\u00e7\u00e3o, considerar-me med\u00edocre chega a ser pat\u00e9tico, mas <em>imediatamente <\/em>esquecido? Quando ela <em>ainda<\/em> estava com <em>minha<\/em> blusa? N\u00e3o \u00e9 apenas um golpe em meu ego doloroso, \u00e9 um choque de realidade, uma piada rid\u00edcula. Sinto um riso depreciativo come\u00e7ar a borbulhar por meu peito, mas o contenho. Passo minha m\u00e3o por minha face, tentando livrar-me dos resqu\u00edcios de ressaca que ainda tornam minha cabe\u00e7a sens\u00edvel, que fazem minha vis\u00e3o parecer saturada, suscet\u00edvel a aceitar a absor\u00e7\u00e3o de luz mais f\u00e1cil. Tento aliviar o montante de frustra\u00e7\u00e3o crescente, mas quanto mais penso nisso, quanto mais lembro-me da maneira com que ela havia me encarado e a forma com que <em>sequer<\/em> parecia ter me enxergado ao entrar naquele elevador, mais irritado fico.<br>\u2003\u2003N\u00e3o sou invis\u00edvel. N\u00e3o sou qualquer um. <em>Sei<\/em> que n\u00e3o, ent\u00e3o porque a indiferen\u00e7a dela incomoda? Tsc, perda de tempo\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Aish, se for, n\u00e3o \u00e9 muito educada, huh?<\/strong> \u2014 comento com uma indiferen\u00e7a for\u00e7ada, abrindo um sorriso torto para Kain, espregui\u00e7ando-me languidamente. Meus m\u00fasculos est\u00e3o doloridos pela noite, e a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 gostosa, se n\u00e3o fosse o amargor da indiferen\u00e7a de %VanHelsing% e a certeza de que ela <em>sequer<\/em> parecia reconhecer-me agora, <em>talvez<\/em> tivesse um bom dia. Ou\u00e7o Kain soltar uma risada for\u00e7ada, seguindo-me pelo corredor. Os olhos do segundo vocalista do grupo, cintilando com uma pergunta silenciosa que ignoro deliberadamente.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Ela tem liberdade po\u00e9tica para isso. <\/strong>\u2014 Min-Hyuk surpreendentemente com sua opini\u00e3o, projetando-se ao meu lado e dando-me um tapa nas costas, divertido. \u00c9 um gesto amig\u00e1vel, mas <em>quase<\/em> me faz soltar um chiado que se projeta em minha garganta, em resposta a sensibilidade da pele que ele havia acertado; as marcas de unhas de %VanHelsing% <em>ainda<\/em> latejavam, condecorando minhas costas como sua obra de arte pessoal. Agora, questiono-me se for tirar satisfa\u00e7\u00f5es ela ir\u00e1 fingir que nada aconteceu\u2026 \u2014 <strong>\u00c9 bem mais impressionante do que achei que seria. Quer dizer, ela \u00e9\u2026 uau\u2026 <\/strong>\u2014 Min-Hyuk diz com um <em>quase<\/em> sorriso, lan\u00e7ando um olhar em dire\u00e7\u00e3o ao elevador uma \u00faltima vez, antes de voltar a encarar-me com uma express\u00e3o divertida e um olhar especulativo. N\u00e3o posso dizer por que, mas algo incomoda na express\u00e3o de Min-Hyuk, uma coisa era ter Kain comentando sobre %VanHelsing%, ele praticamente comentava sobre qualquer mulher ou homem bonito que se aproximava, mas Min-Hyuk quase <em>nunca<\/em> tinha um coment\u00e1rio sobre.<br>\u2003\u2003De todos n\u00f3s \u00e9 <em>ele<\/em> quem leva aquele contrato absurdo a s\u00e9rio. T\u00e3o arrisca que suspeitava que j\u00e1 tivesse entrado em celibato sem saber; n\u00e3o que <em>esse<\/em> seja o problema. Solto um bufar nasalado, lan\u00e7ando um olhar de soslaio para meu melhor amigo, tentando ignorar o estranho aperto que envolve minhas entranhas.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>S\u00e9rio? J\u00e1 vi mais bonitas. <\/strong>\u2014 N\u00e3o consigo convencer a ningu\u00e9m, nem a mim mesmo, com aquela mentira, mas n\u00e3o me importo como havia soado. Min-Hyuk estreita os olhos, erguendo uma sobrancelha, e troca um olhar silencioso com Eun-Ho; n\u00e3o gosto do que vejo, ent\u00e3o uso Taehoon para divergir a aten\u00e7\u00e3o, acertando-lhe um tapa contra o peito usando as costas de minhas m\u00e3os, indicando com o queixo para que ele volte a si e continue andando. Empurro-o \u00e0 frente de mim, mais porque queria um escudo do que qualquer outra coisa. \u2014 <strong>Voc\u00ea tem que come\u00e7ar a tomar cuidado com as merdas que voc\u00ea faz, cara, sorte que o lugar era privado, mas ainda assim, se o boato sair, n\u00e3o vai cair bem.<\/strong><br>\u2003\u2003Taehoon d\u00e1 de ombros, girando em seus calcanhares para encarar-me, um sorriso torto nos l\u00e1bios e uma express\u00e3o petulante. Os cabelos mais curtos ainda est\u00e3o desalinhados, apontando para todos os lados como se ele n\u00e3o tivesse se dado ao trabalho de pente\u00e1-los, mas ainda est\u00e1 apresent\u00e1vel. A jaqueta de couro que envolve seu tronco destaca a pele p\u00e1lida, o rosto fino, <em>quase<\/em> o faz parecer perigoso, mas \u00e9 o mesmo idiota que me atormentou a viagem inteira para assistir <em>Princesa Mononoke<\/em> e havia chorado como uma criancinha com o final porque <em>\u201chavia sido lindo\u201d<\/em> o filme. Acho que dormi na metade do filme e acordei com os solu\u00e7os de Taehoon.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong><em>Voc\u00ea<\/em> se preocupa demais, irm\u00e3o<\/strong> \u2014 Taehoon diz com um sorriso torto, e lhe lan\u00e7o um olhar silencioso. Ele d\u00e1 de ombros. \u2014 <strong>Se alguma coisa sair, tudo o que a gente tem que fazer \u00e9 ligar para o seu pai e pedir para que ele d\u00ea um jeito, lembra?<\/strong><br>\u2003\u2003Kain solta uma risada baixa, desdenhosa.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Isso s\u00f3 funciona com o principezinho aqui, Tae <\/strong>\u2014 Kain pontua, mas percebo o veneno em suas palavras. \u00c9 enviesado, distorcido para soar como uma piada, mas sei bem que seu desd\u00e9m n\u00e3o \u00e9 somente pela minha origem. Ofere\u00e7o a ele um sorriso sarc\u00e1stico, considerando <em>quando<\/em> iremos ter aquela briga. Sinto que a tens\u00e3o pairar, ainda que impercept\u00edvel e leve, crescendo entre n\u00f3s dois. Desde que nos conhecemos, quando influenciei a entrada dele no grupo que Jun-Woo queria criar, Kain havia desenvolvido algum tipo de repulsa velada comigo. N\u00e3o o julgo por faze-lo, ele era mais pr\u00f3ximo de Suho do que a mim, posso <em>perceber<\/em> que, at\u00e9 uma extens\u00e3o, ele <em>igualmente<\/em> culpa-me pelo o que aconteceu, mas Kain nunca deixa de atingir <em>exatamente<\/em> onde meu ego torna-se sens\u00edvel. E a pior parte? Apesar do tom de esc\u00e1rnio e desd\u00e9m que implica enviesado, n\u00e3o deixa de ser verdade. \u2014 <strong>A gente \u00e9 outro caso, p\u00e9 na bunda na hora.<\/strong><br>\u2003\u2003\u2014 <strong>N\u00e3o tenho culpa se dei sorte de nascer na fam\u00edlia que nasci <\/strong>\u2014 fa\u00e7o piada, mas a alfinetada cont\u00ednua ali. Lan\u00e7o um olhar enviesado para Kain que abre um sorriso largo, afiado, e por um segundo tenho a vaga consci\u00eancia de que ele iria <em>adorar<\/em> conhecer %VanHelsing%. Os dois parecem compartilhar ao menos a <em>mesma<\/em> capacidade de colocar-me em alerta mesmo quando n\u00e3o deveria. A ideia de Kain se aproximando de %VanHelsing% soa perigosa, o suficiente para enviar-me um desconforto que ignoro completamente, focando na tarefa em m\u00e3os. \u2014 <strong>Mas isso n\u00e3o significa que as coisas que um faz n\u00e3o v\u00e1 resvalar em todos. <\/strong>\u2014 Onde est\u00e1 meu pr\u00eamio por ser a merda de um hip\u00f3crita?<br>\u2003\u2003Min-Hyuk solta uma gargalhada alta, gostosa, deixando sua cabe\u00e7a pender para tr\u00e1s, enquanto os ombros tremem debaixo da camisa azul escura; destaca-se em sua pele com uma tonalidade azul escura que mais se parece arroxeada sob a luz que encontramo-nos contrastando agradavelmente com os cabelos tingidos de azuis dele. For\u00e7o um pequeno sorriso, ciente do que ele ir\u00e1 falar, mas ainda assim, d\u00f3i um pouco; sei que deveria ter me acostumado com aquele tipo de rea\u00e7\u00e3o, <em>nunca<\/em> fui o filho perfeito dos meus pais, este era Suho, nunca fui o amigo perfeito, este era <em>Suho<\/em>, nunca fui sequer metade do artista que ele era, mas observar a descren\u00e7a de Min-Hyuk, ainda que seja uma piada \u00e0s minhas custas, n\u00e3o deixa de atingir algum ponto sens\u00edvel de meu ego j\u00e1 ferido. N\u00e3o importava o quanto tentasse demonstrar minha mudan\u00e7a, n\u00e3o importava o <em>quanto<\/em> eu tentava acreditar que desta vez seria diferente, de alguma forma, <em>sempre<\/em> retornava para o mesmo ponto. <em>Nunca<\/em> sa\u00eda do lugar. Os c\u00e9us sabem o quanto tento, mas parece em v\u00e3o.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Nunca pensei que escutaria <em>voc\u00ea<\/em> dizer isso, quem \u00e9 <em>voc\u00ea<\/em> e o que fez com o %Gray% que <em>eu<\/em> conhe\u00e7o? <\/strong>\u2014 Min-Hyuk provoca com um riso nasalado, dando um tapinha brincalh\u00e3o em meu ombro, antes de seguir em dire\u00e7\u00e3o ao est\u00fadio. Obrigo-me a segui-lo, mas percebo-me congelado no lugar. N\u00e3o \u00e9 a naturalidade com que ele diz as palavras, \u00e9 como estas <em>reverberam<\/em> por meus ouvidos. Um lembrete <em>ativo<\/em> da descren\u00e7a que havia conseguido construir com meus erros passados. Chega a ser c\u00f4mico, se n\u00e3o fosse depreciativo, n\u00e3o importava o quanto tentasse, as marcas de meus erros passados <em>jamais<\/em> pareciam desaparecer, sequer ficar menos evidentes, ao contr\u00e1rio, a ironia dava-se com o tamanho da profundidade que adquiriam agora.<br>\u2003\u2003Mas eu ainda estava dormindo com %VanHelsing%, n\u00e3o? <em>Ainda<\/em> havia bebido quando <em>sabia<\/em> que n\u00e3o, e ainda podia sentir aquela necessidade ao fundo de minha mente. Pulsando, <em>convidativa<\/em>, mais do que nunca agora sinto-a pesar; tenho a desculpa perfeita para puxar a primeira garrafa que encontrar e finaliz\u00e1-la o mais r\u00e1pido que consigo. Tenho a desculpa para esquecer-me por um momento do oceano que me puxa apenas para baixo. Para esquecer-me dos fantasmas que assombram o vazio e das garras que se fincam em minha mente, arrastando-me de volta para o fundo, onde tenho certeza de que, quando a \u00e1gua invadir meus pulm\u00f5es, e come\u00e7ar a afogar-me, n\u00e3o terei dessa vez <em>ningu\u00e9m<\/em> para me salvar. Um exalo tr\u00eamulo escapa por entre meus l\u00e1bios, baixo, quase impercept\u00edvel. Minha garganta est\u00e1 seca, dolorida, e tudo o que consigo pensar \u00e9 em beber. N\u00e3o \u00e9 que o pensamento suma, fica apenas adormecido, ao fundo de minha mente, pulsando como um pequeno arranh\u00e3o. Na maioria das vezes, \u00e9 f\u00e1cil ignor\u00e1-lo. \u00c9 f\u00e1cil fingir que n\u00e3o estou sentindo nada, ou ao menos atuar com uma indiferen\u00e7a da qual n\u00e3o sinto nem um pouco, mas s\u00e3o em momentos como este que voltam em evid\u00eancia.<br>\u2003\u2003Momentos em que n\u00e3o h\u00e1 como encontrar uma forma de escapar de mim. Da culpa que parece enroscar-se mais e mais por minhas entranhas, fazendo-as se contorcer, fincando suas ra\u00edzes fundo em meus m\u00fasculos, travando-me no lugar. Ou\u00e7o a risada nasalada de Kain e sinto o gosto amargo, pungente causado pela bile, escorrer de volta para minha garganta. Tensiono minha mand\u00edbula com for\u00e7a. Kain est\u00e1 certo em culpar-me; <em>se fosse Suho ali<\/em>\u2026<br>\u2003\u2003\u2014 Achei que viriam mais tarde, se soubesse que seriam pontuais, teria ao menos me preparado melhor. \u2014 Uma voz grave projeta-se da mesa de som quando atravessamos a entrada do est\u00fadio. \u2014 Podem ficar \u00e0 vontade. \u2014 O homem indica em dire\u00e7\u00e3o aos estofados um pouco mais atr\u00e1s de sua mesa de som, girando com a cadeira, para voltar em nossa dire\u00e7\u00e3o. Ele se recosta contra o apoio da cadeira cruzando os bra\u00e7os sobre o peito largo, mas n\u00e3o parece outra coisa sen\u00e3o amig\u00e1vel. \u00c9 quase um <em>al\u00edvio<\/em>.<br>\u2003\u2003N\u00e3o preciso de muito para reconhec\u00ea-lo, e tenho minha confirma\u00e7\u00e3o quando Kain faz um toque um tanto elaborado para cumprimentar um completo estranho; aquele deve ser Doyle, o produtor. Lembro-me de Suho dizer que havia conhecido o produtor durante uma festa da <em>Pulse<\/em> em que ele havia sido convidado, n\u00e3o me lembro dos detalhes, n\u00e3o deveria estar s\u00f3brio no dia, mas lembro-me do sorriso largo que Suho tinha em seu rosto; lembro de como falou que o cara parecia ser um g\u00eanio, o tipo de pessoa que realmente havia nascido para ser um artista. Daqueles que sabia exatamente o que estava fazendo, o que funcionava e o que n\u00e3o trabalhava bem junto, que parecia ter uma criatividade profunda e uma maneira diferente de enxergar o mundo. N\u00e3o lembro dos detalhes, mas lembro de Suho dizer que estava ansioso para conhec\u00ea-lo. Lembro-me de murmurar algo com indiferen\u00e7a sobre, e apagar no sof\u00e1 como sempre acontecia. Agora sou <em>eu<\/em> quem trabalhar\u00e1 com Doyle. Tenho vontade de rir da ironia do destino, mas for\u00e7o um sorriso agrad\u00e1vel, estendendo minha m\u00e3o em um cumprimento para o produtor.<br>\u2003\u2003Ele n\u00e3o me conhece, isso \u00e9 n\u00edtido, mas n\u00e3o parece perceber a tormenta que se espalha por minha express\u00e3o, se o faz, ao menos \u00e9 discreto. Puxo um banco que se encontra abaixo da mesa de som, mixagem e grava\u00e7\u00e3o dele, sentando-me ali com a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que estou caindo. Em queda livre, s\u00f3 consigo pensar que a \u00fanica coisa que pode me impedir de atingir o ch\u00e3o \u00e9 justamente um copo de bebida. Iria ao menos amortecer a queda. Eun-Ho solta um riso baixo de algo que Taehoon diz sobre Kain querer fazer inveja por j\u00e1 ter conhecido o produtor antes. Min-Hyuk puxa um banco e senta-se ao meu lado, lan\u00e7ando-me um olhar tranquilizador, embora sua aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o demore muito para desvirtuar-se para o <em>sketchbook<\/em> de anota\u00e7\u00f5es de Doyle. Kain se joga no sof\u00e1 a nossa frente, esticando as pernas sobre a mesa de centro, e apoiando os bra\u00e7os atr\u00e1s da cabe\u00e7a. Eu observo Doyle com mais aten\u00e7\u00e3o do que deveria.<br>\u2003\u2003Cabelos bagun\u00e7ados, desalinhados, mas de um jeito que parece deix\u00e1-lo menos como um descuidado, e mais como um rebelde sem causa, o tipo de rebelde que faria sucesso com qualquer mulher que gostasse da est\u00e9tica metaleiro dos anos 80. \u00c9 um estilo \u00fanico que possui, a henley preta que se estica sobre seu tronco \u00e9 simples, mas adornado com os bra\u00e7os fechados de tatuagem, os brincos de ouro nos l\u00f3bulos da orelha e o piercing no superc\u00edlio esquerdo acompanhado por uma cicatriz o deixa estranhamente estiloso. Olhos verdes intensos, parecem adquirir uma tonalidade mais caramelizada sob a luz amarelada baixa do est\u00fadio. Ele tem um sotaque forte, embora fale de maneira calma e devagar para que Eun-Ho consiga acompanhar sem muitos desconfortos. A maioria de n\u00f3s \u00e9 versado em ingl\u00eas, normalmente cabe a <em>mim<\/em> ser o interlocutor entre as duas partes, quando n\u00e3o o quero fazer, como agora, \u00e9 Min-Hyuk que assume o papel. N\u00f3s traduzimos o que \u00e9 mais complicado de compreender e traduzimos de volta para o interlocutor o que os outros membros estavam falando. \u00c9 cansativo, mas instintivo a essa altura. Isso n\u00e3o significa que todos n\u00f3s n\u00e3o temos a necessidade de compreender ingl\u00eas, porque \u00e9 uma regra r\u00edgida da Pulse, parte da prepara\u00e7\u00e3o e treinamento \u00e9 ter a certeza de que sabemos nos comunicar bem. Doyle tem um rosto forte, marcado por \u00e2ngulos intensos, e parece ser exatamente o que qualquer garoto sonharia em tornar-se. O tipo de gal\u00e3 que <em>Hollywood<\/em> produz, mas de tudo no homem, o que me chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a lateral de seu pesco\u00e7o.<br>\u2003\u2003Um pouco mais abaixo da linha de sua mand\u00edbula, coberto pela mecha de cabelos longos que repousam em seus ombros e costas, encaracolados e desalinhados, percebo uma tatuagem escondida, pequena, <em>familiar<\/em>. \u00c9 delicada, discreta, <em>quase<\/em> imposs\u00edvel de notar, mas evidente se voc\u00ea <em>souber<\/em> o que est\u00e1 procurando; um beijo. O formato monocrom\u00e1tico, baseado em apenas contornos e pontilhados em degrad\u00ea cinza, se destaca pela pele marrom clara. Estreito meus olhos com a estranha sensa\u00e7\u00e3o de j\u00e1 ter visto aquela tatuagem em algum outro lugar, tento buscar em minha mente de <em>onde<\/em> poderia ser, mas meus pensamentos s\u00e3o interrompidos com a pergunta de Doyle sobre nosso processo criativo. Volto meu olhar para os olhos dele, e surpreendo-me com o <em>qu\u00e3o<\/em> verdes seus olhos s\u00e3o. Solto um pigarro, espelhando a postura dele, cruzando os bra\u00e7os, e esticando minhas pernas para frente. Cruzo meus tornozelos um sobre o outro, tentando conter o impulso de bater a sola de meu p\u00e9 no ch\u00e3o, tentando aliviar a tens\u00e3o crescente.<br>\u2003\u2003\u2014 Os hits s\u00e3o criados pela Pulse, n\u00f3s s\u00f3 seguimos o que \u00e9 adequado para o conceito do grupo \u2014 tento colocar da maneira mais profissional que consigo, a voz arrastada de %VanHelsing% ecoando por meus ouvidos com o esc\u00e1rnio e cinismo enlouquecedor, <em>\u201cSe a piada n\u00e3o se escreve por si mesma\u201d<\/em>. Odeio que a mem\u00f3ria de sua voz faz com meu corpo, como sinto-me em alerta e ao mesmo tempo eletrizado com a mera lembran\u00e7a de sua respira\u00e7\u00e3o contra minha pele, mas detesto <em>ainda mais<\/em> como ela parece estar <em>certa<\/em>. Explicar nosso <em>\u201cprocesso criativo\u201d<\/em> para Doyle agora soa estranhamente como uma mera piada, \u00e9 n\u00edtido o qu\u00e3o manufaturado nossas a\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo personalidades e comportamentos eram; n\u00e3o h\u00e1 <em>nada<\/em> de art\u00edstico no que faz\u00edamos. Ocorre-me pela primeira vez a diferen\u00e7a de lugares em que eu, e %Erin% %VanHelsing% estamos; ela pode ser uma femme fatale sem um <em>pingo<\/em> de consci\u00eancia, mas suas m\u00fasicas significam alguma coisa. Po\u00e7o dizer o mesmo sobre as nossas? \u2014 Mas n\u00e3o significa que n\u00e3o tenhamos composi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias tamb\u00e9m, na verdade, estamos trabalhando nisso.<br>\u2003\u2003Doyle assente, o gesto vagaroso, parecendo considerar minhas palavras com cuidado, ent\u00e3o ele levanta-se abruptamente. Fa\u00e7o uma careta, inclinando a cabe\u00e7a para o lado, meus olhos seguindo o movimento que ele faz, leva a m\u00e3o esquerda em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 lateral do pesco\u00e7o, co\u00e7ando o manto de tatuagens que envolviam seu pesco\u00e7o. Sou novamente levado a crer que j\u00e1 havia visto aquela tatuagem. Doyle pega um viol\u00e3o de dentro da cabine de grava\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o retorna, estende-o em minha dire\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 Kain quem toma para si o instrumento. O movimento atrai meu olhar para a assinatura elegante e afiada que h\u00e1 na madeira do corpo do instrumento, percebo ent\u00e3o de <em>o porqu\u00ea<\/em> a tatuagem de Doyle me \u00e9 familiar.<br>\u2003\u2003%Erin% %VanHelsing% <em>tamb\u00e9m<\/em> a tem.<br>\u2003\u2003O choque imediato envia-me uma onda de tens\u00e3o, meus ombros latejam com a press\u00e3o que coloco neles, mas obrigo-me a afastar de minha mente o desconforto. Pode ser mera coincid\u00eancia; se fosse popular em qualquer site de imagens era puramente apenas uma ideia gen\u00e9rica que os dois tiveram a infelicidade de fazer. Mas algo a mais na situa\u00e7\u00e3o que a torna, no m\u00ednimo, <em>esquisita<\/em>. \u00c9 coincid\u00eancia demais que %VanHelsing% compartilhasse a <em>mesma<\/em> tatuagem com aquele cara, estando no mesmo est\u00fadio que ele, compartilhando os mesmos espa\u00e7os para que assumisse que n\u00e3o havia algo ali. <em>Pior<\/em>, h\u00e1 <em>significado<\/em>. N\u00e3o fa\u00e7o ideia do porqu\u00ea, mas certamente n\u00e3o apaga o amargor em minha boca, se algo, apenas o faz crescer. N\u00e3o me cabe saber sobre, e tampouco faz diferen\u00e7a; seja l\u00e1 qual fosse a motiva\u00e7\u00e3o, seja l\u00e1 qual fosse a hist\u00f3ria que ela parece compartilhar com Doyle, n\u00e3o quero saber. N\u00e3o <em>importa<\/em>. Havia sido apenas <em>uma noite<\/em>, nada mais. Tento afastar os pensamentos, tento focar na tarefa em minhas m\u00e3os, mas meu desconforto e frustra\u00e7\u00e3o est\u00e3o crescendo.<br>\u2003\u2003Preciso pensar em alguma outra coisa. Preciso <em>tir\u00e1-la<\/em> do meu sistema, da minha <em>cabe\u00e7a<\/em>.<br>\u2003\u2003Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inclinando-me para frente e estreitando os olhos para Kain. H\u00e1 um desafio silencioso ali, uma armadilha da qual n\u00e3o irei cair, mas fico <em>tentado<\/em> a dar-lhe uma resposta equivalente. Doyle balan\u00e7a a cabe\u00e7a em concord\u00e2ncia, assumindo a mesma postura que eu, indicando para que Kain mostre as composi\u00e7\u00f5es que Suho e ele passaram noites trabalhando; mesmo que tivesse sido <em>eu<\/em> a consert\u00e1-las posteriormente, n\u00e3o d\u00e1 para deixar de sentir o montante de frustra\u00e7\u00e3o crescente em meu peito. Min-Hyuk acerta minha costela com um movimento discreto, lan\u00e7ando-me um olhar de soslaio, uma advert\u00eancia silenciosa. <em>Porra, hoje n\u00e3o est\u00e1 sendo meu dia<\/em>. H\u00e1 igualmente a percep\u00e7\u00e3o pessoal que tanto eu quanto Kain possu\u00edmos de que somos dois trens descarrilados \u00e0 beira de um choque. N\u00e3o posso dizer que aceito suas justificativas, mas n\u00e3o posso culp\u00e1-lo igualmente; se Suho estava morto, era por causa <em>de mim<\/em>, e se Kain odeia-me por ter matado seu melhor amigo, ent\u00e3o tenho que lidar com isso pelo resto da vida.<br>\u2003\u2003Minha garganta contrai, seca e dolorida, e por instinto levo minha m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a mesma, co\u00e7ando-a. Est\u00e1 come\u00e7ando a ficar sufocante, at\u00e9 mesmo desvirtuando-me de meus pr\u00f3prios interesses e prop\u00f3sitos ali. Se pelo menos houvesse uma bebida por perto, algo que eu pudesse usar para aliviar o peso de minha pr\u00f3pria consci\u00eancia, de meu ego ferido e da minha frustra\u00e7\u00e3o. Busco com o olhar por algo, mas n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1quinas de venda ali, n\u00e3o tem como eu pedir por um energ\u00e9tico ou at\u00e9 mesmo uma garrafa pequena de cerveja sem que Min-Hyuk ou os outros caras percebam. O tempo arrasta-se, insuport\u00e1vel. Passo minhas m\u00e3os pelo meu rosto, impaciente, e n\u00e3o tenho certeza se Doyle percebe algo, mas pego-o encarando-me em sil\u00eancio. Os olhos estreitam-se por uma fra\u00e7\u00e3o de segundos, antes de anunciar, uma hora depois, uma pausa.<br>\u2003\u2003Para <em>minha sorte<\/em> \u00e9 nesse momento que Sumi invade o est\u00fadio com passos assertivos e claramente irritada. N\u00e3o me importo nem um pouco quando ela chama por meu nome com os dentes cerrados, parecendo estar se controlando para explodir, tenho vontade de agarr\u00e1-la pelos ombros e beij\u00e1-la como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3 por oferecer-me a desculpa perfeita para sair dali. Para colocar um pouco de dist\u00e2ncia aquele lugar e a sombra de %VanHelsing%, <em>mesmo<\/em> que ela n\u00e3o esteja ali. Levanto-me abruptamente, agarrando minha jaqueta e disparo para fora do est\u00fadio, concentrando-me em minha respira\u00e7\u00e3o.<br>\u2003\u2003Sumi \u00e9 uma figura reconfortante. A conheci ainda quando ela era chamada por um outro nome, e antes de sua transi\u00e7\u00e3o, mas ela <em>sempre<\/em> foi, irrevogavelmente, Soo-Min. Quando Suho e eu n\u00e3o pass\u00e1vamos de crian\u00e7as idiotas, <em>sempre<\/em> competindo para ver quem teria um pingo de aten\u00e7\u00e3o, por menor que fosse, das pessoas que estivessem ao nosso redor; Suho costumava ganhar qualquer adulto com sua postura meiga e m\u00ednima rid\u00edcula de etiqueta que nossa av\u00f3 tanto fizera quest\u00e3o que n\u00f3s aprend\u00eassemos; eu costumava a causar o caos, gritar, desafiar e at\u00e9 mesmo rir alto de qualquer m\u00ednima gafe e rid\u00edculo que os adultos faziam. Soo-Min, ou Sumi, como viera a ser chamada, era o \u00fanico ponto em comum que Suho e eu sempre tivemos. Ela costumava trabalhar como assistente de meu pai, mas seja l\u00e1 por qual motivo, acabou se demitindo quando Suho estava finalizando sua gradua\u00e7\u00e3o, e eu era adolescente demais para me importar. Dois anos depois ela retornou, seu corpo redesignado para espelhar sua alma, e com um diploma de advocacia finalizado, agora trabalhando em parceria com Jun-Woo. Jun-Woo administra, cria e coloca seu conhecimento da ind\u00fastria na mesa, e Sumi \u00e9 aquela respons\u00e1vel por execut\u00e1-la, e ela \u00e9 muito boa nisso; encontra os contratos certos, as palavras precisas para que n\u00f3s n\u00e3o fossemos usados erroneamente. Mais do que isso, \u00e9, de certa forma, como uma irm\u00e3 mais velha \u2014 cham\u00e1-la de m\u00e3e seria correr o risco de levar um tapa por faz\u00ea-la sentir-se <em>velha<\/em> \u2014 para n\u00f3s, a \u00fanica pessoa que se importava, ainda que minimamente.<br>\u2003\u2003Sigo-a sem resist\u00eancia alguma, deixo-a guiar-me para fora da gravadora, atravessamos a rua movimentada, alguns paparazzi se aglomeram um pouco a dist\u00e2ncia, no estacionamento do restaurante, parecendo determinados a flagrar algum movimento de alguma grande celebridade que entrasse naquele lugar. Vejo-os tirarem uma ou outra foto minha com Sumi quando puxo a porta do restaurante para que ela entrasse, um ato instintivo de cavalheirismo, ent\u00e3o abro meu sorriso mais charmoso e aceno para eles, tentando parecer simp\u00e1tico. \u00c9 uma faca de dois gumes essa situa\u00e7\u00e3o, ser simp\u00e1tico com um paparazzo \u00e9 dar a ele a falsa impress\u00e3o de que h\u00e1 liberdade para se aproximar e invadir uma conversa privada eventualmente, mas recusar-se e ressenti-lo por aglomerar-se ao seu redor s\u00f3 iria os atrair mais. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 a <em>minha marca<\/em> ser mal-educado e agressivo com paparazzi.<br>\u2003\u2003H\u00e1 uma reserva no nome de Soo-Min no restaurante, o que faz-me questionar a <em>quanto<\/em> tempo ela estava planejando o que quer que estava furiosa, mas ignoro completamente o aviso dela para que a seguisse caminhando em dire\u00e7\u00e3o ao bar, e apoiando-me contra o balc\u00e3o de m\u00e1rmore polido. Pe\u00e7o pela primeira bebida que posso pensar, <em>whisky on the rocks<\/em>, pe\u00e7o sem o gelo. Recebo um olhar exasperado do bartender, ciente de que meu pedido distorce o que s\u00e3o normas para prepara\u00e7\u00e3o dos drinks, mas sem importar-me nem um pouco. S\u00f3 quero <em>um copo<\/em>, s\u00f3 isso; n\u00e3o \u00e9 muito, posso me controlar. Um copo <em>n\u00e3o vai<\/em> matar-me, n\u00e3o matou ontem, n\u00e3o far\u00e1 hoje tamb\u00e9m. Est\u00e1 sob controle. <em>Estou bem<\/em>.<br>\u2003\u2003Estou prestes a pedir para que o bartender deixasse a garrafa ali perto, s\u00f3 por desencargo de consci\u00eancia, quando Sumi agarra meu bra\u00e7o puxando-me para a mesa na \u00e1rea reservada ao fundo do restaurante. A sigo com uma sobrancelha erguida, um quase sorriso surgindo por meus l\u00e1bios, achando gra\u00e7a. Ela nunca havia sido pequena, mas com os saltos e a carranca, parece-se com uma amazona, elegante, mortal e est\u00e1 bufando de raiva quando me empurra contra a cadeira \u00e0 sua frente e aponta o indicador imperiosamente em minha dire\u00e7\u00e3o com um aviso silencioso \u2014 estou ferrado. Os cabelos pretos, longos e lisos, est\u00e3o penteados para tr\u00e1s cheios de gel que d\u00e1 a impress\u00e3o que ainda est\u00e3o \u00famidos, deixa o rosto livre para a maquiagem suave que usa, apenas para real\u00e7ar seus olhos e nariz arrebitado. As sobrancelhas angulosas est\u00e3o unidas, evidenciando sua falta de controle para a raiva que parece exalar de sua postura. O vestido elegante, preto, executivo parece ser composto por alfaiataria cara. Deveria ser novo porque nunca a havia visto com aquele antes, e certamente n\u00e3o havia em sua mala. Quando ela tivera tempo para comprar aquele vestido? Meu sorriso diminui um pouco, incerto, quando ela joga a papelada que carregava com viol\u00eancia sobre a mesa.<br>\u2003\u2003\u00c9 um <em>grande<\/em> bloco de papel, mas ainda escapa da minha compreens\u00e3o a raz\u00e3o para sua frustra\u00e7\u00e3o e n\u00edtida raiva comigo devido \u00e0quilo. Tento conter um revirar de olhos, levando o copo em dire\u00e7\u00e3o aos l\u00e1bios e bebendo o whisky em um \u00fanico gole. Solto um suspiro pesado, quase <em>me arrependendo <\/em>da velocidade com que bebi, sentindo aquele calor familiar percorrer por meu corpo, o \u00e1lcool queima, \u00e9 claro, minha garganta, mas a sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio relaxa meus m\u00fasculos, amortece um pouco meus pensamentos e deixa minha cabe\u00e7a mais leve. Apoio o copo sobre um dos pratos, inclinando-me para frente, para tomar em m\u00e3os os papeis e encontrar algum sentido naquela situa\u00e7\u00e3o toda.<br>\u2003\u2003Soo-Min n\u00e3o se senta, o que me diz de imediato que h\u00e1 um jogo de poder acontecendo agora. Pela maneira com que ela me encara sei que fiz alguma merda, a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00edtida o suficiente para que ela n\u00e3o tenha tomado de minhas m\u00e3os o copo de bebida, ciente do porqu\u00ea o deveria fazer, tento buscar em minha mente o <em>que<\/em> diabos poderia t\u00ea-la feito se irritar dessa forma, mas n\u00e3o encontro nada, n\u00e3o era como se eu\u2026 congelo no lugar, meus olhos <em>quase<\/em> saltando das \u00f3rbitas. <em>Porra\u2026<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Explica! \u2014 comanda Soo-Min, furiosa.<br>\u2003\u2003As palavras somem de minha boca, meus ombros se tencionam mais uma vez, e o efeito let\u00e1rgico da bebida, que deveria ter servido para aliviar o peso em meus ombros e silenciar minha mente, prende-me no lugar; mistura-se com o alerta que ela havia despertado em mim, acelera os batimentos de forma irregular, prende-me em um limbo desorientador de perigo e a certeza de que estou <em>prestes<\/em> a ter que lidar com as consequ\u00eancias de minhas a\u00e7\u00f5es. Levo minha m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a minha boca, a fim de abafar um praguejar em alto e bom som, ciente de que uma hora ou outra ela e os caras acabariam descobrindo sobre o que fiz, mas torcia para que fosse <em>mais tarde<\/em>, quando j\u00e1 estivessem longe daqui e a mem\u00f3ria fosse apenas uma piada. <em>N\u00e3o assim<\/em>. Pego o amontoado de papeis, piscando algumas vezes para conseguir focar-me naquilo, e tento ler; as palavras dan\u00e7am um pouco por meus olhos, e sei que n\u00e3o \u00e9 a bebida que causou tal rea\u00e7\u00e3o. Posso sentir o aperto crescente em meu peito, as palmas de minhas m\u00e3os parecem ser feitas de gelo, um tremor est\u00e1 crescendo e percebo que, acumulado com a situa\u00e7\u00e3o de mais cedo, o desconforto com Doyle e sua <em>maldita<\/em> tatuagem, estou tendo um pico de ansiedade e isso n\u00e3o \u00e9 a pior parte.<br>\u2003\u2003O gar\u00e7om que nos atende oferece vinho para Sumi, e ela n\u00e3o impede-me quando pego o copo para mim. Viro a ta\u00e7a de uma vez, e praguejo mentalmente, aquela merda, embora amarga <em>ainda<\/em> era fraca demais. Preciso de algo mais potente, algo que pudesse ajudar-me a escorar minha pr\u00f3pria ansiedade com. Leio as palavras, mas s\u00f3 consigo pensar em %VanHelsing%.<br>\u2003\u2003<em>Um contrato de confidencialidade<\/em>.<br>\u2003\u2003Estava me questionando <em>qual<\/em> seria a jogada dela. Estava calculando que talvez pudesse ter at\u00e9 mesmo fodido um pouco de simpatia por mim <em>nela<\/em>, mas n\u00e3o. N\u00e3o cheguei nem <em>perto<\/em>. Passo pelas p\u00e1ginas recheadas por jarg\u00f5es jur\u00eddicos e apontamentos precisos. Percebo que n\u00e3o deve ser a primeira vez que ela havia feito aquilo; quer dizer, %Erin% %VanHelsing% \u00e9 a porra de uma <em>rockstar<\/em> n\u00e3o \u00e9? Ela deveria ter feito <em>muita<\/em> merda e ocultado com um contrato de confidencialidade. A oferta de dinheiro n\u00e3o \u00e9 pequena, pelo contr\u00e1rio, chega a ser at\u00e9 mesmo generosa, e se a desgra\u00e7ada tem todo aquele montante para oferecer em um <em>simples<\/em> contrato, ent\u00e3o\u2026 <em>o qu\u00e3o<\/em> poderosa \u00e9 %VanHelsing%? <em>At\u00e9<\/em> onde o poder de sua influ\u00eancia e seu dinheiro <em>v\u00e3o?<\/em> Deixo os papeis ca\u00edrem outra vez sobre a mesa apoiando meus cotovelos sobre a madeira polida e laminada, antes de enterrar meu rosto em minhas m\u00e3os. <em>Puta merda\u2026<\/em> esfrego com as pontas de minhas unhas meu couro cabeludo, sentindo-a deixar pequenos cortes pela pele sens\u00edvel, mas ignoro a pequena ard\u00eancia que se espalha.<br>\u2003\u2003Ela <em>havia<\/em> avisado. Fui <em>eu<\/em> quem a subestimou. <em>Porra! Isso n\u00e3o pode estar acontecendo<\/em>; mas est\u00e1, e a pior parte \u00e9 n\u00e3o poder resolver isso da minha forma, comigo mesmo. Se n\u00e3o tivesse sido t\u00e3o est\u00fapido, se n\u00e3o tivesse aceitado aquela maldita fantasia. Mas eu <em>tinha<\/em> que envolver-me em problemas, n\u00e3o? N\u00e3o deveria ter bebido ontem, se n\u00e3o tivesse come\u00e7ado, n\u00e3o teria cedido t\u00e3o facilmente a %VanHelsing%. Mas ent\u00e3o, era <em>%VanHelsing%<\/em> ali; a <em>porra<\/em> de %Erin% %VanHelsing%, um sonho inalcan\u00e7\u00e1vel para muitos que eu <em>quis<\/em> saber que gosto tinha. E era <em>bom<\/em>, <em>bom demais<\/em> para ser verdade. N\u00e3o tenho como escapar dessa, n\u00e3o tenho como dizer que ela inventou aquilo porque h\u00e1 <em>provas claras<\/em> de que n\u00e3o \u00e9 mentira. Odeio-me por ter acreditado que talvez, por tr\u00e1s da m\u00e1scara, houvesse um pingo de dec\u00eancia em %VanHelsing%. Odeio-me por ter me deixado seduzir. Odeio-me por ter acreditado que era uma boa distra\u00e7\u00e3o. Odeio-me por ter acreditado que talvez, ela pudesse ter me reservado um pingo de gra\u00e7a, e percebesse que n\u00e3o somos inimigos, n\u00e3o sou <em>seu oponente<\/em>; mas ela me transformou em um. Colocou-me do <em>outro lado<\/em>, e est\u00e1 determinada a <em>destruir<\/em> tudo o que me resta \u2014 o que resta de <em>Suho<\/em>. Por um momento tudo o que consigo sentir \u00e9 apenas <em>raiva<\/em>, abrasiva, violenta, consumindo <em>tudo<\/em> o que encontra pelo caminho. Odeio-me por ter ca\u00eddo t\u00e3o facilmente; por ser apenas mais <em>uma<\/em> de suas v\u00edtimas.<br>\u2003\u2003Mas odeio mais <em>ela.<\/em><br>\u2003\u2003\u2014 Olha, eu estava b\u00eabado\u2026 \u2014 come\u00e7o a dizer, entre dentes, defensivo demais, mas n\u00e3o \u00e9 meu tom que revela a confirma\u00e7\u00e3o que Sumi precisava, \u00e9 minha escolha de palavras. Acabo de confirmar meu erro, e Sumi parece querer explodir. Porra, n\u00e3o era para <em>isso<\/em> ter acontecido. De repente quero <em>matar<\/em> o %SeoJun% de ontem. Se n\u00e3o fosse a porra de um imbecil que n\u00e3o podia controlar o pr\u00f3prio pau, <em>eu<\/em> n\u00e3o estaria nesta situa\u00e7\u00e3o <em>agora<\/em>. Deveria ter seguido o conselho de Massaro e ficado longe, puta merda, <em>Massaro havia<\/em> me avisado, fiz pouco de suas palavras por mero capricho egoc\u00eantrico. <em>Se ela fosse um monstro, garoto, Hollywood j\u00e1 a teria esquecido<\/em>, o empres\u00e1rio havia me dito, acreditei que partira de um lugar de despeito, mas agora? Agora tenho a plena certeza de que n\u00e3o era, e que Massaro igualmente estava equivocado; %Erin% %VanHelsing% <em>\u00e9<\/em> um monstro, mas ela \u00e9 bonita demais para conseguir <em>disfar\u00e7ar<\/em>. Esfrego mais uma vez meu rosto, como se isso pudesse acalmar meus nervos, como se pudesse me oferecer alguma solu\u00e7\u00e3o ou guia para aquela situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ajuda em nada. Havia sido <em>apenas<\/em> uma noite! <em>Como<\/em> isso poderia ter virado <em>esse<\/em> caos?! Repouso meu olhar sobre a papelada outra vez, tentando entender <em>o que<\/em> ela queria. Tento ignorar a parte ferida de meu ego que espirala imaginando <em>o qu\u00e3o<\/em> ruim pode ter sido para ela aquela noite para n\u00e3o querer que fosse <em>falado<\/em> sobre, mas estaria enganando-me se convence-me que ela <em>n\u00e3o havia<\/em> gostado.<br>\u2003\u2003Sei que gostou. Pude <em>sentir<\/em>; ela queria tanto quanto eu. Ela havia aproveitado cada <em>minuto<\/em>, lembro-me de seus gemidos vividamente, por mais que seja uma completa desgra\u00e7ada, duvido que pudesse <em>fingir<\/em> aqueles sons. Ela est\u00e1 tentando foder comigo para atingir Massaro, ela havia admitido isso, mas aparentemente, o plano \u00e9 mais profundo e preciso, porque agora \u00e9 <em>minha<\/em> carreira <em>inteira<\/em> na m\u00e3o de uma <em>vadia sem cora\u00e7\u00e3o<\/em>.<br>\u2003\u2003\u2014 <em>Sabe o que \u00e9 isso? Estou falando com voc\u00ea, %Lee%, olhe para mim quando estiver falando! Sabe o que \u00e9 isso?! <\/em>\u2014 ela grita em um sussurro urgente, inclina-se para frente e acerta a mesa com um tapa forte. N\u00e3o tenho uma rea\u00e7\u00e3o a sua atitude agressiva porque estava familiarizado com aquele tipo de demonstrativo, mas certamente, n\u00e3o faz muito para aplacar minha pr\u00f3pria f\u00faria. Deixo-me recostar-me contra a cadeira, apoiando minhas duas m\u00e3os sobre a mesa, fechadas em punhos. Sustento seu olhar acusat\u00f3rio, mas n\u00e3o a respondo. S\u00f3 consigo pensar em <em>como<\/em> quero <em>acabar<\/em> com %VanHelsing%. Sumi inspira fundo, endireitando-se, algo parece ter atravessado meu rosto, para que sua postura mude, de uma irada para uma frustra\u00e7\u00e3o mal controlada enquanto ela se senta \u00e0 minha frente pela primeira vez. Gesticulo para o gar\u00e7om outra vez, a fim de pedir por uma bebida, e manter a garrafa perto desta vez. Isso \u00e9 <em>demais<\/em>, mesmo para mim. \u2014 <strong>Desculpe, eu n\u00e3o quis te assustar <\/strong>\u2014 ela diz em nossa l\u00edngua natal, mas n\u00e3o a respondo. N\u00e3o estou assustado, estou <em>furioso<\/em>, tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que se disser algo, se <em>fizer<\/em> algo, irei explodir, e se explodir, <em>o quanto<\/em> ainda terei controle sobre mim dessa vez? Ela inspira fundo, esperando em sil\u00eancio enquanto o gar\u00e7om coloca mais vinho em minha ta\u00e7a, mas dessa vez sou mais r\u00e1pido e comando, mais imperioso do que tinha inten\u00e7\u00e3o, para que ele deixasse a garrafa. Vejo Sumi unir as sobrancelhas, prestes a abrir sua boca para corrigir-me, mas algo em minha express\u00e3o a faz hesitar. Desvia completamente a aten\u00e7\u00e3o para o contrato de confidencialidade, puxando-o para si, e trincando a mand\u00edbula. \u2014 <strong>Ela mandou um contrato de confidencialidade para voc\u00ea, %Lee%. N\u00e3o \u00e9 uma resposta da gravadora, sequer da boate que estavam, ela pediu para que os advogados pessoais dela o fizessem, isso aqui <em>\u00e9 pessoal<\/em>. Sabe o que significa a porra de um contrato de confidencialidade?<\/strong><br>\u2003\u2003Tenho vontade de gritar com Sumi. Amo-a como se fosse parte de mim, \u00e9 doloroso pensar em sequer descontar a frustra\u00e7\u00e3o que sinto nela quando ela \u00e9 a <em>\u00fanica boia<\/em> que impede-me de submergir outra vez. J\u00e1 havia perdido Suho, n\u00e3o quero perd\u00ea-la tamb\u00e9m. Mas est\u00e1 testando minha paci\u00eancia ao tratar-me com tal condescend\u00eancia; sim, havia acabado de foder com minha vida, minha carreira e provavelmente o grupo inteiro porque <em>quis uma noite<\/em> para mim, entretanto n\u00e3o \u00e9 culpa <em>minha<\/em> se a desgra\u00e7ada da mulher com quem havia dormido \u00e9 na verdade uma completa <em>maldita<\/em>. Tensiono minha mand\u00edbula com for\u00e7a, sinto meus dentes travar, meus olhos queimam o semblante impaciente de Sumi.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>N\u00e3o, o que significa, Soo-Min? <\/strong>\u2014 Minha voz soa r\u00edspida demais, minha raiva transborda por minhas palavras mesmo sem inten\u00e7\u00e3o de atingi-la. Levo a ta\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o aos meus l\u00e1bios, mas a bebida parece amarga em minha l\u00edngua agora.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>N\u00e3o seja insolente, garoto idiota! <\/strong>\u2014 Sumi chia entre dentes, antes de lan\u00e7ar as m\u00e3os para cima, e exalar pesado. Vejo-a esfregar a ponte de seu nariz, massageando-a com impaci\u00eancia, antes de apoiar os cotovelos sobre a mesa e unir as m\u00e3os \u00e0 frente de seus l\u00e1bios. O gloss avermelhado deixa os l\u00e1bios dela rosados, destacam-se na pele clara como porcelana. \u2014 <strong>At\u00e9 onde foi?<\/strong><br>\u2003\u2003N\u00e3o a respondo, e percebo de imediato que fazer-me de desentendido n\u00e3o ir\u00e1 funcionar, n\u00e3o dessa vez. Ainda assim, tento soar o mais ofendido poss\u00edvel quando retalho de volta, um sussurro afiado escapando de meus l\u00e1bios:<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Quer que descreva tudo para voc\u00ea?<\/strong> \u2014 Sumi silencia-me com um chiado entre dentes. Mordo minha l\u00edngua para n\u00e3o retorquir ela outra vez, j\u00e1 estava em uma situa\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel, seria <em>ainda<\/em> pior se colocasse Sumi como minha inimiga tamb\u00e9m. A \u00fanica que possuo agora \u00e9 <em>%VanHelsing%<\/em>, e deus a proteja porque uma parte de mim quer <em>muito<\/em> arruinar completamente a carreira daquela miser\u00e1vel gostosa. Finalizo mais um copo antes de exalar alto, cruzando os bra\u00e7os sobre meu peito e erguendo meu queixo ao encarar Sumi. Petulante, \u00e9 claro, mas n\u00e3o menos obediente. \u2014 <strong><em>Mating press, Reverse Cowgirl<\/em><\/strong><em>,<\/em> <strong>ela \u00e9 bem flex\u00edvel quando quer <\/strong>\u2014 solto com um tom afiado, se para choc\u00e1-la ou para irrit\u00e1-la n\u00e3o tenho certeza, mas tenho minha resposta pela forma com que Sumi fecha os olhos e inspira fundo pelo nariz, solta pela boca.<br>\u2003\u2003Ficamos em sil\u00eancio por um momento, e sinto uma estranha vontade de rir. Talvez seja o nervosismo, talvez seja o amontoado gritante de frustra\u00e7\u00e3o que se formou em meu peito e agora nubla meus pensamentos, mas quando penso mais a fundo, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o rid\u00edcula que questiono-me se \u00e9 uma pegadinha. \u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9, %VanHelsing% sabia sobre meu contrato, assim como eu, ela s\u00f3 havia sido um pouco mais esperta que eu ao aproveitar-se de brechas que eu n\u00e3o havia calculado direito ainda. Aos frangalhos, meu ego apenas explicita uma imbecilidade de minha parte que estou <em>apenas<\/em> come\u00e7ando a compreender. Enquanto o sil\u00eancio se estende entre n\u00f3s dois, alcan\u00e7o a garrafa de vinho outra vez, tomo mais um copo, e ent\u00e3o mais um, \u00e9 somente no terceiro que Sumi faz algo e toma a garrafa de minhas m\u00e3os. Ela lan\u00e7a-me um olhar exasperado, um aviso silencioso, mas tudo o que consigo concentrar-me \u00e9 na sensa\u00e7\u00e3o frustrante de <em>ainda<\/em> estar com meus pensamentos nublados, de ainda permanecer preso naquele precip\u00edcio iminente entre a completa ansiedade e f\u00faria, e o relaxamento que o \u00e1lcool costumava a oferecer. Sei que n\u00e3o deveria, estou exagerando demais, mas sinceramente? Que tudo fosse para o inferno\u2026 posso parar <em>amanh\u00e3<\/em>. Por hoje tudo o que desejo \u00e9 esquecer que <em>vi<\/em> %Erin% %VanHelsing% em minha vida.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Ou\u00e7a, a Pulse n\u00e3o \u00e9 idiota <\/strong>\u2014 Sumi come\u00e7a a dizer cautelosamente, as sobrancelhas unidas com uma ponta de preocupa\u00e7\u00e3o que ignoro completamente. N\u00e3o \u00e9 por despeito, mas por covardia; seria mais f\u00e1cil fingir que ela n\u00e3o se importava, minha consci\u00eancia ficaria mais tranquila, ao menos. \u2014<strong> Eles <em>sabem<\/em> que h\u00e1 momentos como esses, eles est\u00e3o preparados para isso. N\u00e3o h\u00e1 problema nenhum em ficar com algu\u00e9m, %SeoJun%, n\u00e3o transformando isso em um relacionamento p\u00fablico, o contrato est\u00e1 seguro.<\/strong><br>\u2003\u2003Fecho meus olhos, deixando minha cabe\u00e7a pender para tr\u00e1s. Posso <em>quase<\/em> ouvir um belo de um <em>\u201ceu avisei, garoto\u201d<\/em> vindo de Massaro e nem o conhe\u00e7o direito.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Mas <\/strong>\u2014 Sumi apressa-se a pontuar \u2014 <strong>s\u00f3 funciona quando \u00e9 um <em>an\u00f4nimo<\/em>. Uma garota qualquer! \u00c9 <em>f\u00e1cil<\/em> descredibiliz\u00e1-las! N\u00e3o deixe provas, %Lee%! Achei que havia ensinado isso a voc\u00ea <\/strong>\u2014 Sumi diz afiada, e assenti lentamente. Fuzilo-a com o olhar, mas a crueldade de suas palavras s\u00e3o apenas um reflexo do mundo que estamos inseridos, logo, posso culp\u00e1-la por isso? Era s\u00f3 o que era. Havia coisas <em>piores<\/em> a acontecer. \u2014 <strong>O que estava pensando quando escolheu <em>justamente<\/em> %Erin% %VanHelsing% para isso? Tem <em>ideia<\/em> do inferno que ser\u00e1 <em>tentar<\/em> descredibiliz\u00e1-la?<\/strong><br>\u2003\u2003Solto um riso nasalado, irritado.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>N\u00e3o t\u00e3o dif\u00edcil assim, ela j\u00e1 tem a fama de uma <em>vadia<\/em> mesmo, qual a diferen\u00e7a? Diga que inventou uma hist\u00f3ria, que est\u00e1 querendo chamar aten\u00e7\u00e3o <\/strong>\u2014 rosno em um sussurro para Sumi, e n\u00e3o consigo me sentir culpado pelo que sinto. Quer dizer, n\u00e3o deixa de ser verdade, de certa forma, que ela \u00e9 uma maldita desgra\u00e7ada querendo aten\u00e7\u00e3o, todos <em>n\u00f3s<\/em> somos, e querendo ou n\u00e3o, ela <em>possui<\/em> aquela fama, se for ser sincero, tenho quase certeza de que ela <em>gosta<\/em> de ser vista como uma vadia, isso lhe permite o que quiser. Embora seja pass\u00edvel de cr\u00edticas duras de algum lado da m\u00eddia e at\u00e9 mesmo dos f\u00e3s, ainda assim tem algum tipo de <em>poder<\/em> ali. Se n\u00e3o, por que diabos ela nunca havia feito nada sobre? Sumi lan\u00e7a-me um olhar indecifr\u00e1vel, mas estou com tanta raiva de %VanHelsing% que n\u00e3o me importo de questionar, ou sequer <em>tentar<\/em> entender o que diabos ela queria convir com aquilo.<br>\u2003\u2003Ela solta um exalo baixo, entre dentes, impaciente.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Aish, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 me ouvindo, %Lee%.<\/strong> \u2014 Sumi exala entre dentes, um pequeno sibilo escapando ao servir-se do vinho que tomara de minhas m\u00e3os. Observo o l\u00edquido, n\u00e3o o rosto da \u00fanica pessoa ali que poderia confiar minha vida cegamente. Detesto vinho, acho fraco e ran\u00e7oso, quando se coloca na boca, parece crescer, \u00e9 azedo e, em sua maioria, apenas um suco levemente alcoolizado, mas minha garganta ainda seca ao observar o l\u00edquido \u00e0 minha frente. Trinco meus dentes, sentindo a mistura de frustra\u00e7\u00e3o e raiva crescerem, mas sei que \u00e9 mais do que isso, uma parte de mim quer gritar com Sumi apenas para que <em>consiga<\/em> a bebida, j\u00e1 a outra, ainda est\u00e1 enredada demais com o problema que %VanHelsing% \u00e9 para importar-me tanto assim com educa\u00e7\u00e3o, mesmo que devesse. Controlo-me, todavia, esperando que ela ao menos elabore o que quer que esteja tentando com <em>tanto<\/em> afinco explicar para minha intelig\u00eancia \u201climitada\u201d. \u2014 <strong>%VanHelsing% \u00e9 conhecida por muito, mas n\u00e3o \u00e9 uma mentirosa, se vier a p\u00fablico, mesmo que n\u00e3o diga o seu nome, as pessoas <em>v\u00e3o acreditar<\/em>. Merda, ela \u00e9 a porra de um <em>sexy symbol<\/em> h\u00e1 dois anos! Chamam-na de vadia, e h\u00e1 idiotas em podcasts falando um monte de merda, mas tenho certeza que implorar de joelhos por um simples olhar! <\/strong>\u2014 A tens\u00e3o em minha mand\u00edbula aumenta, e sinto-a espalhar-se como uma press\u00e3o frustrante por minhas t\u00eamporas. Contenho o impulso de interromper Sumi, de dizer-lhe que era superestimar %VanHelsing%, mas estaria sendo mesquinho e equivocado; %Erin% <em>\u00e9<\/em> tudo isso sim, talvez <em>mais<\/em>, e como eu a <em>odeio<\/em> por isso. Sumi leva o copo aos l\u00e1bios, desviando os olhos para as pessoas que sentam no restaurante, sua maioria parte da gravadora ou de uma <em>boutique<\/em> de moda de alta costura que ficavam naquela rua; n\u00e3o consigo conter o impulso espelhar, engulo em seco ao observar o movimento de sua garganta. \u2014 <strong>Al\u00e9m disso <\/strong>\u2014 Sumi umedece os l\u00e1bios, antes de pigarrear baixo, vejo os cantos de seus l\u00e1bios se contra\u00edrem e ent\u00e3o curvarem-se para baixo \u2014, <strong>o contrato \u00e9 unilateral. Pro\u00edbe <em>voc\u00ea<\/em> de falar sobre o que aconteceu, mas a cl\u00e1usula dela s\u00f3 a impede de referenci\u00e1-lo de quaisquer formas. Ela <em>ainda<\/em> ir\u00e1 poder falar sobre, e se mencionar <em>rapper<\/em> e <em>k-pop<\/em> numa mesma frase, considerando que voc\u00eas s\u00e3o os primeiros e talvez \u00fanicos no momento na mesma gravadora, <em>quanto<\/em> tempo ir\u00e1 levar at\u00e9 que eles relacionem voc\u00eas dois? <\/strong>\u2014 Sumi termina e sinto como se tivesse acabado de levar um soco.<br>\u2003\u2003Um golpe teria do\u00eddo menos. Pisco, primeiro em choque, e ent\u00e3o, tentando conter a f\u00faria que amea\u00e7a transbordar por meu peito. Abro minha boca e ent\u00e3o a fecho, minha respira\u00e7\u00e3o parece perder-se primeiro, antes de encontrar-se mais r\u00e1pido e irregular. N\u00e3o consigo pensar, n\u00e3o consigo <em>absorver<\/em> a <em>dimens\u00e3o<\/em> do que %Erin% %VanHelsing% havia acabado de fazer. Quando disse que destruiria a mim, achei que o faria por meio de pol\u00eamicas e rumores, a maioria na ind\u00fastria seguiria por esse caminho; \u00e9 mais f\u00e1cil, e muitas vezes, mais pr\u00e1tico. N\u00e3o que ela <em>ativamente<\/em> tivesse criado aquele tipo de armadilha. Solto um riso seco, desprovido de quaisquer tra\u00e7os de humor em minha voz, incr\u00e9dulo, frustrado, mas acima de tudo, furioso. Isso \u00e9 absurdo! \u00c9 absurdo puro\u2026 mas ainda assim, \u00e9 <em>exatamente<\/em> o que ela est\u00e1 fazendo. Proibir-me de sequer mencionar algo que aconteceu ontem \u00e0 noite, enquanto ela poderia contar a hist\u00f3ria livremente se quisesse? Ainda posso fazer o mesmo, sei que deve <em>haver<\/em> alguma lei que me protege de tal coisa. Posso compartilhar minhas experi\u00eancias individuais da forma que quiser, mas \u00e9 a\u00ed que a crueldade e, para meu desalento pessoal, sagacidade de %VanHelsing% parece entrar: ela sabe que, considerando meu contrato, n\u00e3o irei o fazer.<br>\u2003\u2003Arriscar dizer que transei com uma rockstar, em uma noite de completa devassid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas arriscar a quebra e multa de um contrato multimilion\u00e1rio; \u00e9 provocar a ira em f\u00e3s que n\u00e3o iriam hesitar em demonstrar seus desagrados. Que iriam bradar seu desgosto, \u00e9 manchar para sempre minha imagem, \u00e9 tornar-me p\u00e1ria em minha pr\u00f3pria casa. Ela <em>sabia<\/em> que jamais o faria; ela <em>sabia<\/em> que eu aceitaria o que quer que ela oferecesse, fossem quais fossem as condi\u00e7\u00f5es, para que tivesse a <em>certeza<\/em> de que ela n\u00e3o poderia dizer nada referente a mim. Apoio meu cotovelo sobre a mesa, outra vez, e ent\u00e3o seguro minha boca com for\u00e7a, quero gritar, apenas levantar e gritar; quero quebrar tudo at\u00e9 que minhas m\u00e3os estejam ensanguentadas e n\u00e3o sinta nada. Mas \u00e9 imposs\u00edvel fugir da f\u00faria que direciono aquela <em>\u00fanica<\/em> mulher. Isso n\u00e3o vai ficar assim, n\u00e3o, n\u00e3o posso <em>aceitar<\/em> pensar que ela escapar\u00e1. Ela havia come\u00e7ado isso, certo? Tudo bem, eu acabaria.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>Se n\u00e3o assinar? O que acontece? <\/strong>\u2014 Sinto que vou explodir, minhas palavras soam mais baixas que o normal, arrastadas, como se estivesse precisando de um pequeno delay de segundos para projet\u00e1-las com a maior calma que consigo exibir. Sumi percebe de imediato, e lan\u00e7a-me um olhar preocupado, ignoro-a, mantendo meu olhar fixo no contrato de confidencialidade \u00e0 minha frente.<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>O que voc\u00ea acha que ela ir\u00e1 fazer, %SeoJun%? <\/strong>\u2014 Sumi murmura baixo, cautelosa, como se estivesse escolhendo as palavras, mas a pergunta \u00e9 redundante. N\u00f3s dois <em>sabemos<\/em> o que %Erin% %VanHelsing% far\u00e1 se porventura n\u00e3o assinasse aquela merda de contrato. Ela iria dizer tudo; iria <em>arruinar<\/em> tudo. Tudo bem, ela ganhou <em>esta<\/em>, mas isso \u00e9 apenas <em>o come\u00e7o<\/em>. Recuso-me a ser pe\u00e3o de mais algu\u00e9m, especialmente se esta pessoa for %VanHelsing%.<br>\u2003\u2003N\u00e3o respondo Sumi, apenas estendo minha m\u00e3o em sua dire\u00e7\u00e3o, o pedido silencioso por uma caneta. Minha respira\u00e7\u00e3o, acelerada e irregular, come\u00e7a a tornar minha mente rarefeito, sinto que tudo no espa\u00e7o gira, mas ignoro a sensa\u00e7\u00e3o, puxando as folhas com mais for\u00e7a do que necess\u00e1ria, sem importar-me de ler. Espero por um momento e tenho certeza de que Sumi est\u00e1 hesitando, ela provavelmente n\u00e3o gosta da ideia de que eu assine aquela porcaria de contrato de confidencialidade \u2014 mesmo que houvesse zeros o suficiente para perceber que %VanHelsing% havia investido uma <em>boa<\/em> quantidade de dinheiro em silenciar-me \u2014, mais do que <em>eu<\/em> gosto de o fazer, mas que outra escolha tenho? O <em>que<\/em> me resta a fazer se n\u00e3o abaixar a cabe\u00e7a para a maldita vadia sem cora\u00e7\u00e3o que %Erin% %VanHelsing% \u00e9?<br>\u2003\u2003\u2014 <strong>N\u00e3o se preocupe, entrego isso para %VanHelsing%, <em>eu mesmo<\/em><\/strong>\u2014 digo uma vez que todas as assinaturas necess\u00e1rias est\u00e3o feitas, e empurro a caneta de Sumi de volta sem gastar mais um olhar na dire\u00e7\u00e3o da advogada. Sei que n\u00e3o deveria enxerg\u00e1-la como minha inimiga, e de fato, n\u00e3o o fa\u00e7o, mas n\u00e3o consigo pensar em outra coisa sen\u00e3o %VanHelsing% no momento. N\u00e3o tenho <em>ideia<\/em> de como chegar at\u00e9 o endere\u00e7o, mas n\u00e3o preciso de muito para localizar-me, s\u00f3 de um carro, ent\u00e3o pego o de Sumi, mesmo que isso a fa\u00e7a gritar que tenha perdido a cabe\u00e7a.<br>\u2003\u2003Perdi <em>sim<\/em>, e agora farei isso ser problema <em>de todos<\/em>.<\/p>\r\n<hr>\r\n<p>\u2003\u2003<strong>Nota da Autora:<\/strong> grava bem o nome do Doyle, essa n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima vez que voc\u00ea ver\u00e1 ele por aqui. SEIS cap\u00edtulos (contando com o pr\u00f3ximo) para INICIAR a hist\u00f3ria, mas finalmente o caos come\u00e7ou! Um grande beijo pra Isy, que cuidou dessa fic com tanto carinho e cuidado que nunca vou esquecer! Al\u00e9m de ser um amor, mesmo eu enviando uma tonelada de texto ruim! <strong>VALEU DEMAIS MEU ANJO!! Que seu neneco venha saud\u00e1vel, feliz, conhecer a m\u00e3e incr\u00edvel que ele deu a sorte de ter!<\/strong> Obrigada pelo carinho e a aten\u00e7\u00e3o com minhas hist\u00f3rias, viu? (e a ansiedade pela efici\u00eancia sksks)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003Nota da Autora: grava bem o nome do Doyle, essa n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima vez que voc\u00ea ver\u00e1 ele por aqui. SEIS cap\u00edtulos (contando com o pr\u00f3ximo) para INICIAR a hist\u00f3ria, mas finalmente o caos come\u00e7ou! Um grande beijo pra Isy, que cuidou dessa fic com tanto carinho e cuidado que nunca vou esquecer! 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