{"id":10001,"date":"2026-03-20T18:13:57","date_gmt":"2026-03-20T21:13:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/historia-sem-nome\/rascunho-automatico\/"},"modified":"2026-03-20T18:14:35","modified_gmt":"2026-03-20T21:14:35","slug":"capitulo-6","status":"publish","type":"capitular","link":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/historia\/efeito-colateral\/capitulo-6\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 6"},"content":{"rendered":"<h2>\u2003\u2003%ANANYA%<\/h2>\n\u2003\u2003<em>Duas semanas depois.<\/em>\n<p>\u2003\u2003Faltavam exatamente setenta e duas horas para o fim de semana e ele estava longe de ser comum. Era o fim de semana do meu anivers\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Diferente do que acontecia com a maioria das pessoas, a proximidade da data n\u00e3o me despertava ansiedade nem estresse. Pelo contr\u00e1rio: eu me sentia tomada por uma tranquilidade profunda. Tudo estava sob controle, quase rigorosamente. Cada detalhe fora minuciosamente planejado e negociado com meses de anteced\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003Mais uma vez, meu anivers\u00e1rio seria exatamente como eu esperava. Nem um grau a mais, nem um a menos.<br \/>\n\u2003\u2003O hotel na Ilha Sundar mantinha a mesma ger\u00eancia desde o meu primeiro anivers\u00e1rio ali, o que garantia uma mem\u00f3ria institucional impec\u00e1vel. A equipe inteira \u2013 da cozinha \u00e0 governan\u00e7a \u2013 j\u00e1 conhecia o ritmo da dan\u00e7a. Al\u00e9m de contarmos com um planner dedicado, um profissional pago para suar cada detalhe de log\u00edstica, decora\u00e7\u00e3o e card\u00e1pio, minha m\u00e3e fazia quest\u00e3o de inspecionar pessoalmente todas as etapas.<br \/>\n\u2003\u2003A \u00fanica parte que realmente ficava sob minha responsabilidade era a lista de convidados. Eu mesma organizava a distribui\u00e7\u00e3o de quartos, passagens e hor\u00e1rios de cada um. Como eu n\u00e3o tinha tantos amigos, a maior parte do trabalho envolvia, na verdade, meus primos.<br \/>\n\u2003\u2003Os poucos convidados que n\u00e3o pertenciam \u00e0 fam\u00edlia sempre ficavam em su\u00edtes, uma escolha pr\u00e1tica, considerando que eu sabia que o \u00fanico \u201cconforto\u201d que meus primos realmente exigiam era bebida e cigarro \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. No fim das contas, eu tinha plena consci\u00eancia de que aceitariam dormir no ch\u00e3o, se fosse necess\u00e1rio, contanto que houvesse \u00e1lcool por perto.<br \/>\n\u2003\u2003Fechei a pasta com divis\u00f3rias, dando uma \u00faltima olhada para garantir que todos os convidados tivessem suas passagens e as instru\u00e7\u00f5es sobre os quartos do hotel. A maioria j\u00e1 havia participado do meu anivers\u00e1rio em anos anteriores, ent\u00e3o sabiam exatamente como se organizar. Depois de guardar a pasta na bolsa, olhei para o rel\u00f3gio e percebi que j\u00e1 estava mais do que na hora de ir para casa.<br \/>\n\u2003\u2003Franzi o cenho ao pegar o celular e notar a liga\u00e7\u00e3o perdida. Estive t\u00e3o imersa na revis\u00e3o final que n\u00e3o percebi o aparelho tocar. Retornei enquanto guardava os \u00faltimos objetos na bolsa.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 O que \u00e9 isso que voc\u00ea me enviou por e-mail?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Boa noite para voc\u00ea tamb\u00e9m, %Anthony%. S\u00e3o suas passagens. Lembra que eu disse que ir\u00edamos amanh\u00e3?<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o nos v\u00edamos pessoalmente havia duas semanas. Nosso contato se limitara a mensagens pontuais, como no dia em que precisei dos dados dele para comprar as passagens.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 E n\u00f3s vamos de trem?<\/em> \u2013 Perguntou, incr\u00e9dulo, tentando decidir se eu estava brincando ou se falava s\u00e9rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Por qu\u00ea? De avi\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 nem uma hora. De trem s\u00e3o quase seis.<\/em> \u2013 Ele parecia fazer c\u00e1lculos mentais, tentando encontrar alguma l\u00f3gica.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 que eu n\u00e3o ando de avi\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Voc\u00ea\u2026 espera. O qu\u00ea? Voc\u00ea n\u00e3o anda de avi\u00e3o? Achei que todo rico andasse de avi\u00e3o.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o quando posso evitar. \u2013 Dei de ombros, j\u00e1 ajustando a bolsa no ombro, pronta para sair.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Voc\u00ea tem medo?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pavor.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Por qu\u00ea?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Precisa de um motivo?<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Bom\u2026 sim?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Medo de cair. Ou de ficar no ar para sempre. Essas coisas. \u2013 Respondi de forma simples, at\u00e9 porque n\u00e3o era algo que eu soubesse explicar. Tranquei a porta do escrit\u00f3rio, acenei para o seguran\u00e7a do andar e segui em dire\u00e7\u00e3o ao elevador, sem acrescentar mais nada.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Ent\u00e3o por que voc\u00ea tem pavor de voar, eu sou obrigado a passar seis horas dentro de um trem?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003A pergunta me fez parar. Fiquei im\u00f3vel por um segundo, sentindo um calor desconfort\u00e1vel subir pelo rosto.<br \/>\n\u2003\u2003Ele tinha raz\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Eu podia ir de trem. Ele n\u00e3o precisava me acompanhar. Hav\u00edamos concordado em ir como um casal, n\u00e3o em chegar juntos, nem em dividir cada deslocamento como se aquilo tivesse algum significado al\u00e9m do combinado. Eu s\u00f3\u2026 tinha presumido. O que, exatamente? Nem eu sabia dizer.<br \/>\n\u2003\u2003Talvez eu tivesse confundido, por ele ser meu par naquele fim de semana, imaginei que dividir\u00edamos tudo. Que, fosse de trem ou avi\u00e3o, ele estaria ao meu lado porque, ao menos naquele intervalo cuidadosamente delimitado, \u00e9ramos \u201cum casal\u201d. Mas a verdade mais pura era que %Anthony% n\u00e3o era meu par. N\u00e3o de verdade.<br \/>\n\u2003\u2003Ele estava desempenhando um papel. E eu?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9\u2026 voc\u00ea tem raz\u00e3o. \u2013 Admiti, em voz baixa, sentindo o peso da pr\u00f3pria lucidez. \u2013 Eu consigo uma passagem de avi\u00e3o pra voc\u00ea. Me desculpa, eu s\u00f3 pensei que\u2026 \u2013 Interrompi a frase a tempo. N\u00e3o havia nada ali que precisasse ser dito em voz alta. \u2013 Vou mudar agora.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 N\u00e3o, %Anya%. N\u00e3o precisa gastar com isso. \u2013 <\/em>Respondeu. \u2013<em> S\u00f3 fiquei surpreso. S\u00f3 isso.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tem certeza? \u2013 Insisti, j\u00e1 no autom\u00e1tico. \u2013 Posso emitir agora mesmo. Voc\u00ea est\u00e1 certo\u2026 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que cheguemos juntos.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 N\u00e3o se preocupe com isso.<\/em> \u2013 Houve uma pausa curta. \u2013 <em>Ou\u00e7o o elevador. Voc\u00ea ainda est\u00e1 na empresa?<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Saindo agora.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Melhor descansar, %Anya%. Vamos ter um fim de semana e tanto pela frente. \u2013 <\/em>A voz dele mudou, imperceptivelmente mais baixa. \u2013<em> E, olha\u2026 voc\u00ea nunca foi minha namorada. N\u00e3o sabe o quanto esse papel pode ser cansativo.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sinto informar, %Anthony%, \u2013 Sorri de lado. \u2013, mas eu sou a melhor namorada que voc\u00ea poderia ter.<br \/>\n\u2003\u2003<em>\u2013 Veremos. \u2013 <\/em>O sil\u00eancio que se seguiu foi curto, ainda assim, eu permaneci parada por alguns segundos, o telefone junto ao ouvido, como se tivesse perdido o timing de alguma coisa que n\u00e3o sabia nomear. <em>\u2013 Ent\u00e3o\u2026 nos vemos amanh\u00e3.<\/em><br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim. Amanh\u00e3. \u2013 Respondi r\u00e1pido demais.<br \/>\n\u2003\u2003Desliguei antes que ele acrescentasse qualquer coisa.<br \/>\n\u2003\u2003Controle, %Anya%. Era s\u00f3 isso.<br \/>\n\u2003\u2003O trem sairia \u00e0s nove da noite. Seis horas de percurso. Tempo suficiente para revisar mentalmente cada detalhe do fim de semana. Em que momento eu tinha come\u00e7ado a esperar mais do que o combinado?<br \/>\n\u2003\u2003Afastei o pensamento com a mesma disciplina que aplicava a qualquer vari\u00e1vel inconveniente. <em>\u201c%Anthony% n\u00e3o \u00e9 meu par. \u00c9 s\u00f3 um acordo\u201d<\/em>, repeti a frase em sil\u00eancio, como um lembrete. Como uma corre\u00e7\u00e3o de rota.<\/p>\n<p align=\"center\"><b>\u2013 \u053a \u2013<\/b><\/p>\n<h2>%ANTHONY%<\/h2>\n<p>\u2003\u2003Na noite seguinte, me vi parado no centro de uma esta\u00e7\u00e3o de trem em que nunca havia pisado antes. Quando adolescente, eu pegava o metr\u00f4 todos os dias para ir \u00e0 escola, mas aquilo ali parecia pertencer a um mundo completamente diferente. A esta\u00e7\u00e3o era ampla, silenciosa e organizada, nada que lembrasse o caos das esta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que eu conhecia.<br \/>\n\u2003\u2003Apalpei o bolso do casaco em busca da passagem, procurando o n\u00famero do port\u00e3o. Tentando n\u00e3o parecer t\u00e3o deslocado quanto me sentia, puxei as duas malas pesadas at\u00e9 o seguran\u00e7a mais pr\u00f3ximo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Com licen\u00e7a, pode me informar onde fica esse port\u00e3o? \u2013 Perguntei enquanto o homem alto analisava a passagem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O embarque VIP fica ap\u00f3s o port\u00e3o n\u00famero tr\u00eas, senhor.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 VIP?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sim, senhor. Sua passagem \u00e9 para os trens exclusivos, com cabine individual deluxe. \u2013 Explicou, solene, como se aquilo fosse absolutamente corriqueiro. \u2013 Posso acompanh\u00e1-lo at\u00e9 l\u00e1, se desejar.<br \/>\n\u2003\u2003Provavelmente imaginou que eu fosse o respons\u00e1vel por aquele gasto absurdo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o, obrigado. Eu me viro.<br \/>\n\u2003\u2003Segui na dire\u00e7\u00e3o indicada, mas o inc\u00f4modo come\u00e7ou a se instalar antes mesmo de chegar ao tal port\u00e3o. N\u00e3o era s\u00f3 um trem mais sofisticado. Era outra classe social. Um universo paralelo.<br \/>\n\u2003\u2003As mulheres estavam impec\u00e1veis, maquiagem precisa, roupas que pareciam escolhidas para serem vistas. Os homens vestiam ternos e casacos claramente sob medida. Me arrepiei ao pensar que, por enquanto, eram apenas estranhos cruzando meu campo de vis\u00e3o. Mas, em breve, aquelas pessoas seriam os familiares e amigos de %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente cheguei ao port\u00e3o correto, n\u00e3o demorei a encontr\u00e1-la. %Anya% estava sentada em uma das poucas cadeiras estofadas. Usava um vestido preto e um casaco bege um pouco mais longo do que o necess\u00e1rio. O contraste fazia com que o comprimento do vestido parecesse ainda mais curto, deixando as pernas \u00e0 mostra.<br \/>\n\u2003\u2003Levei menos de um segundo para perceber que passar seis horas naquele trem sem encar\u00e1-las seria um desafio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 atrasado. \u2013 Ela disse assim que me viu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Boa noite, %Ananya%. \u2013 Ajustei as malas nas m\u00e3os. \u2013 Eu sequer sabia que existia um port\u00e3o VIP.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu costumava viajar nos trens comuns, mas passei tempo suficiente sobre trilhos para acabar ganhando um cart\u00e3o fidelidade. Acredite ou n\u00e3o, gasto menos no VIP do que gastaria nos trens normais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea fala como se n\u00e3o tivesse dinheiro para as duas op\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tenho. \u2013 Ela se levantou, apanhou uma das malas do ch\u00e3o e empurrou outra na minha dire\u00e7\u00e3o, sem qualquer cerim\u00f4nia. \u2013 Mas s\u00f3 uma delas me garante lounge, restaurante e cabines individuais.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 De novo eu pergunto: como \u00e9 ter tudo o que quer, %Anya%?<br \/>\n\u2003\u2003Suspirei enquanto recolhia a mala dela e a encaixava junto \u00e0s minhas. Naquele ponto, eu j\u00e1 carregava tr\u00eas malas e uma mochila. Um n\u00edvel de servid\u00e3o que eu jamais imaginara atingir. Ela riu, obviamente satisfeita com a cena, e saiu caminhando \u00e0 frente, equilibrando a bolsa em uma m\u00e3o e a mala de rodinhas na outra.<br \/>\n\u2003\u2003E l\u00e1 estava eu, logo atr\u00e1s, feito um mordomo em um filme de com\u00e9dia, transportando o que parecia ser a bagagem completa da fam\u00edlia %Bhasin%, mas que, na pr\u00e1tica, era apenas o guarda-roupa pessoal de %Ananya% %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s os procedimentos b\u00e1sicos, fomos conduzidos ao trem. O corredor era longo, silencioso e absurdamente sofisticado. Enquanto avan\u00e7ava, comecei a calcular mentalmente quanto tudo aquilo deveria custar. Provavelmente o suficiente para quitar todas as minhas d\u00edvidas e ainda sobrar para um carro usado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Teve problema para conseguir sair mais cedo? \u2013 Ela perguntou.<br \/>\n\u2003\u2003Como viajar\u00edamos de trem, precisar\u00edamos sair na quinta-feira, um dia antes de todo mundo. Mas Martinez ficou t\u00e3o emocionado ao receber a liga\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria %Ananya% pedindo minha libera\u00e7\u00e3o antecipada que quase me ofereceu um b\u00f4nus. Tenho certeza de que, se ela tivesse pedido com um pouco mais de carinho, ele assinaria minha demiss\u00e3o sorrindo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Martinez quase chorou quando voc\u00ea ligou. Achei que fosse me dar f\u00e9rias s\u00f3 por causa disso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Me desculpa de novo por ter feito voc\u00ea vir de trem.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vai ser dif\u00edcil, mas acho que consigo te perdoar. \u2013 Respondi, com uma dramaticidade ensaiada, parando diante da porta da cabine. \u2013 Meu Deus. Isso aqui \u00e9\u2026<br \/>\n\u2003\u2003As palavras simplesmente desapareceram.<br \/>\n\u2003\u2003Eu esperava um espa\u00e7o estreito, duas camas desconfort\u00e1veis e um cheiro suspeito. Em vez disso, encontrei uma cabine digna de su\u00edte presidencial. As paredes em tons profundos de vermelho, detalhes dourados, uma cama de casal ocupando o centro como um trono. Um sof\u00e1 de veludo no canto. Uma mesa de madeira escura com dois card\u00e1pios perfeitamente alinhados e uma cloche de prata no meio. Tudo brilhava demais para parecer real.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Essa \u00e9 a cabine? \u2013 Perguntei, ainda em choque. \u2013 Ou entramos sem querer na casa de algu\u00e9m obscenamente rico?<br \/>\n\u2003\u2003Ela riu. E, naquele instante, pela primeira vez desde que essa loucura de namoro falso come\u00e7ou, eu me senti\u2026 perigosamente animado com aquele fim de semana.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O trem faz algumas paradas, chegamos nas primeiras horas da manh\u00e3&#8230; \u2013 Explicou, entrando enquanto eu ainda permanecia parado na porta. \u2013 O que foi?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Estou tentando entender como vou viver o resto da vida andando s\u00f3 de trem. \u2013 Entrei, arrastando a mala, os olhos correndo pelo teto e pelas paredes decoradas, absorvendo cada detalhe. \u2013 Acho que vou acabar tendo que dar o golpe da barriga em voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Boa sorte com isso. \u2013 Ela ironizou.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% estava de costas, ocupada em retirar o casaco com movimentos precisos, quase coreografados. Dobrou o tecido com cuidado excessivo e o apoiou sobre o sof\u00e1 de veludo. Larguei as malas perto da parede, consciente demais de que, por maior que fosse, aquela cabine ainda nos manteria presos ali pelas pr\u00f3ximas horas. Sozinhos.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% se virou por fim, apoiando o peso em uma perna s\u00f3. O vestido preto ca\u00eda perfeitamente, simples demais para aquele ambiente exagerado. Por um instante, nossos olhares se encontraram sem aviso. Sustentamos o contato um segundo a mais do que o necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Ela foi a primeira a desviar, virando de costas para mim. Sentei na poltrona roxa e dourada, sem saber muito bem o que fazer em seguida. %Anya%, pelo contr\u00e1rio, parecia totalmente confort\u00e1vel naquele ambiente. Ela retirou os sapatos e foi at\u00e9 a mesa pequena encostada em um canto da cabine. %Anya% folheava o card\u00e1pio com paci\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Quer ir jantar? O restaurante daqui \u00e9 \u00f3timo. \u2013 Passou o card\u00e1pio e se voltou para o sof\u00e1, pegando o celular enquanto eu lia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu prefiro comer aqui, se n\u00e3o houver problemas.<br \/>\n\u2003\u2003Se aquilo era apenas o aperitivo da viagem, eu preferia nem imaginar o que o vag\u00e3o-restaurante reservava. Era luxo demais concentrado em um s\u00f3 lugar e n\u00f3s nem hav\u00edamos chegado ao destino final. %Anya% ergueu a cloche com naturalidade. No lugar da comida, havia um objeto: uma carta de vinhos encadernada em couro macio, com letras douradas em alto-relevo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vai querer algo para beber?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Um suco de morango. \u2013 Ela respondeu.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sem vinho? \u2013 Testei, dando uma espiada na carta.<br \/>\n\u2003\u2003O vinho mais barato da lista custava, com exatid\u00e3o ofensiva, o meu sal\u00e1rio. N\u00e3o o mensal. O sal\u00e1rio inteiro. Um valor que, naquele contexto, parecia perfeitamente razo\u00e1vel. Um insulto elegante a toda a minha l\u00f3gica financeira.<br \/>\n\u2003\u2003Era \u00f3bvio que eu pediria um. E colocaria na conta dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sabe que eu n\u00e3o bebo, %Anthony%. \u2013 Ela refor\u00e7ou, como quem avisa pela cent\u00e9sima vez que n\u00e3o come gl\u00faten.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9, eu sei. S\u00f3 queria saber se isso j\u00e1 tinha mudado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Poucas coisas na minha vida mudam. Mas fique \u00e0 vontade. \u2013 Ela fez um gesto suave com a m\u00e3o, como se estivesse me concedendo acesso ao Olimpo. Aquilo tudo me dava uma certa afli\u00e7\u00e3o burguesa, mas quando %Anya% fazia, parecia quase&#8230; charmoso. \u2013 Tamb\u00e9m vou precisar trocar o cobertor. Sint\u00e9tico faz mal \u00e0 minha pele.<br \/>\n\u2003\u2003E l\u00e1 estava ela de novo. A li\u00e7\u00e3o constante, quase pedag\u00f3gica, de sua riqueza obscena. Como se o universo tivesse sido calibrado para atender \u00e0s exig\u00eancias de %Ananya% %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003Ap\u00f3s o jantar ser servido, ficamos um tempo ali, a conversa fluindo entre garfadas sobre os dias que nos aguardavam na ilha. %Anya%, com um entusiasmo contido, come\u00e7ou a desenhar o roteiro.<br \/>\n\u2003\u2003Sexta-feira: um jantar de boas-vindas oferecido pelos pais dela. &#8220;Algo formal&#8221;, explicou. S\u00e1bado, o \u00e1pice: sua festa de anivers\u00e1rio, um evento que ela descreveu com a log\u00edstica de um tratado internacional. Domingo, para descomprimir (ou para prolongar a agonia), um passeio de barco. Enquanto descrevia tudo, havia um brilho nos olhos, uma anima\u00e7\u00e3o genu\u00edna, quase infantil, por cada detalhe. Apesar do tom despretensioso, era \u00f3bvio que cada minuto havia sido maquinado com cuidado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Minha fam\u00edlia \u00e9\u2026 intensa. \u2013 Ela acrescentou, depois de um instante. \u2013 Muitos primos, poucos amigos de verdade. Pais que gostam de fingir que s\u00e3o protetores. E eu tenho uma tend\u00eancia meio preocupante a fazer escolhas question\u00e1veis no meu anivers\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Um talento. \u2013 Comentei e ela sorriu, breve.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o \u00e9 melhor voc\u00ea estar preparado.<br \/>\n\u2003\u2003Levei a ta\u00e7a aos l\u00e1bios, degustando o vinho com mais aten\u00e7\u00e3o do que precisava. Bom demais. Caro demais. Eu estava literalmente bebendo meu sal\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E que tipo de casal n\u00f3s vamos ser? \u2013 Perguntei, apoiando o cotovelo na mesa. \u2013 Preciso reativar minhas aulas de teatro da senhora Cayllo?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Meu Deus, eu lembro dela! \u2013 %Anya% riu, de verdade. \u2013 Aquela que tinha o cabelo azul com\u2026<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pontas amarelas. \u2013 Completei.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso! \u2013 Ela balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, divertida. \u2013 Ela dizia que emo\u00e7\u00e3o se sentia no diafragma, n\u00e3o na voz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ela dizia muita coisa question\u00e1vel.<br \/>\n\u2003\u2003O riso se dissipou aos poucos, como se ambos soub\u00e9ssemos que aquilo era a \u00faltima camada segura da conversa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vamos s\u00f3 ser n\u00f3s mesmos. \u2013 Ela disse, por fim. \u2013 \u00c9 mais f\u00e1cil. Somos amigos, afinal. N\u00e3o? \u2013 Observei o jeito como ela esperava minha resposta sem me encarar diretamente.<br \/>\n\u2003\u2003Eu n\u00e3o era amigo da %Anya%. E, para ser franco, n\u00e3o tinha certeza se queria ser.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como era com seu \u00faltimo namorado? \u2013 Cortei, ignorando deliberadamente a pergunta dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom\u2026 \u2013 Come\u00e7ou e a hesita\u00e7\u00e3o j\u00e1 dizia mais do que qualquer explica\u00e7\u00e3o. \u2013 A gente era carinhoso. Sem exageros. Tamb\u00e9m\u2026 eu e o Andreas n\u00e3o t\u00ednhamos qu\u00edmica nenhuma.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, entendi. \u2013 Levei a ta\u00e7a aos l\u00e1bios, mas n\u00e3o bebi. Mantive o vinho suspenso no ar enquanto sustentava o olhar dela por um segundo al\u00e9m do necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003Ela e Andreas n\u00e3o tinham qu\u00edmica. Nenhuma. Certo.<br \/>\n\u2003\u2003Mas n\u00f3s\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Era como brincar com fogo acreditando que dava para controlar a chama. Funcionava\u2026 at\u00e9 deixar de funcionar.<br \/>\n\u2003\u2003E, bem, n\u00e3o dava pra fingir que nada nunca tinha acontecido entre n\u00f3s. Porque tinha. Uma vez. Uma \u00fanica vez. E mesmo que tenha sido s\u00f3 uma rapidinha \u2013 impulsiva, escondida, quase criminosa \u2013 foi boa. Boa demais. Boa o suficiente para eu ainda pensar nela \u00e0s vezes como quem lembra de um gol aos 45 do segundo tempo.<br \/>\n\u2003\u2003Engoli em seco, tentando empurrar o pensamento para algum lugar mais seguro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 tem um detalhe t\u00e9cnico.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Qual?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O risco colateral. \u2013 Inclinei levemente a cabe\u00e7a. \u2013 Da linha ficar t\u00e3o borrada que nem a senhora Cayllo conseguiria dar um jeito nisso. \u2013 %Anya% me encarou como se estivesse diante de um quebra-cabe\u00e7a que ainda n\u00e3o sabia se queria montar. Esperava que eu risse, que dissesse <em>brincadeira<\/em>, como de costume. \u2013 O que estou tentando dizer&#8230;<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu entendi, %Anthony%. \u2013 Me interrompeu. \u2013 Est\u00e1 falando s\u00e9rio? Acha mesmo que isso pode acontecer?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Os filmes est\u00e3o a\u00ed para provar que sim. \u2013 Dei de ombros, tentei disfar\u00e7ar com um tom brincalh\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se inclinou levemente para a frente, estudando meu rosto, como se procurasse uma rachadura na postura.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea acredita em filmes. S\u00e3o literalmente feitos em est\u00fadios de papel\u00e3o e, adivinha s\u00f3? Os atores s\u00e3o pagos. \u2013 Sussurrou, como quem entrega um segredo de Estado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 S\u00f3 porque \u00e9 um filme n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o aconte\u00e7a na vida real. <em>Titanic<\/em>. <em>O Lobo de Wall Street<\/em>\u2026 \u2013 Citei s\u00f3 para provocar e consegui arrancar uma risada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 <em>Avatar<\/em>? <em>Alien vs. Predador<\/em>? \u2013 %Anya% arqueou as sobrancelhas, desafiadora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Escolheu logo os mais realistas. Humanos azuis e alien\u00edgenas musculosos brigando entre si\u2026 brilhante. \u2013 Inclinei a cabe\u00e7a, teatral. \u2013 Mas\u2026 estatisticamente falando, \u00e9 imposs\u00edvel que algo parecido n\u00e3o tenha acontecido em algum canto do universo. A gente nunca sabe.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, isso \u00e9 literalmente fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u2013 Ela balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, divertida. \u2013 Assim como em todas as com\u00e9dias rom\u00e2nticas. Mas, se voc\u00ea precisa de uma confirma\u00e7\u00e3o\u2026 \u2013 Ela acrescentou, com um sorriso pequeno, quase calculado. \u2013 Fica tranquilo, Romeu. Se acontecer, eu dou um jeito.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea sempre \u201cd\u00e1 um jeito\u201d? Em tudo?<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% sustentou meu olhar por um segundo longo demais antes de responder.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Algu\u00e9m precisa. \u2013 Deu de ombros. \u2013 Se eu n\u00e3o fizer, ningu\u00e9m faz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Controlar n\u00e3o \u00e9 o mesmo que evitar&#8230; \u2013 Murmurei, mais para mim do que para ela.<br \/>\n\u2003\u2003O trem seguiu pelos trilhos com um solavanco quase impercept\u00edvel e eu aproveitei o movimento para desviar do olhar atento dela. %Anya% inclinou a cabe\u00e7a, como se estivesse me analisando de novo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 preocupado comigo ou com voc\u00ea, %Anthony%? \u2013 A pergunta me pegou desprevenido. Abri a boca para responder qualquer coisa espirituosa e leve, mas nada veio. %Anya% percebeu. \u2013 Relaxa. Isso aqui \u00e9 s\u00f3 um fim de semana.<br \/>\n\u2003\u2003Assenti, for\u00e7ando uma risada, tentando aliviar o clima. Funcionou o suficiente para que ela retomasse o discurso autom\u00e1tico sobre hor\u00e1rios, convidados e protocolos familiares.<br \/>\n\u2003\u2003Levantei os olhos por cima da arma\u00e7\u00e3o dos \u00f3culos e da borda do copo bem a tempo de ver %Anya% se ajeitando na cama.<br \/>\n\u2003\u2003Ela se acomodou entre as almofadas com a naturalidade de quem j\u00e1 tinha decidido que dali n\u00e3o sairia t\u00e3o cedo. O iPad repousava sobre as pernas dobradas, iluminando o rosto dela. Dei uma olhada r\u00e1pida no rel\u00f3gio do pulso. Passava das onze.<br \/>\n\u2003\u2003Continuei recolhendo a mesa do jantar, empilhando os pratos com mais cuidado do que realmente era necess\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%, voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer isso. \u2013 Ela disse pela terceira vez naquela noite, sem nem tirar os olhos do iPad.<br \/>\n\u2003\u2003Ignorei o aviso com a dignidade de quem finge que n\u00e3o ouviu.<br \/>\n\u2003\u2003Levei os talheres at\u00e9 a bandeja, alinhei tudo, ajustei um guardanapo que j\u00e1 estava perfeitamente alinhado\u2026 tarefas completamente desnecess\u00e1rias, mas surpreendentemente \u00fateis.<br \/>\n\u2003\u2003Manter as m\u00e3os ocupadas ajudava a acompanhar o cen\u00e1rio sem pensar demais nele.<br \/>\n\u2003\u2003Quando terminei de organizar tudo, apoiei as m\u00e3os na mesa por um segundo e olhei de novo para o sof\u00e1. Eu j\u00e1 tinha testado antes. Um peda\u00e7o de papel\u00e3o teria sido mais acolhedor.<br \/>\n\u2003\u2003Dormir ao lado de %Ananya% %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003Nem nos meus devaneios mais improv\u00e1veis essa frase fazia sentido.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Tem problema se eu dormir com voc\u00ea? \u2013 Perguntei, tentando soar casual. Ela n\u00e3o tirou os olhos do tablet. \u2013 Aquele sof\u00e1 n\u00e3o tem estofado nenhum.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Fica \u00e0 vontade.<br \/>\n\u2003\u2003Novamente, ela fez aquele gesto breve de m\u00e3o, o mesmo de sempre. S\u00f3 que, desta vez, na penumbra do quarto, com a cama entre n\u00f3s e a pergunta ainda pairando no ar, aquilo n\u00e3o parecia um gesto de autoridade. Parecia um convite.<br \/>\n\u2003\u2003Talvez dormir ao lado dela n\u00e3o fosse uma boa ideia. N\u00e3o era como se eu fosse um tarado ou qualquer coisa do tipo. Mas %Anya% tinha esse efeito estranho, uma capacidade quase irritante de me deixar atento demais \u00e0s pr\u00f3prias rea\u00e7\u00f5es. Cauteloso com pensamentos que, em circunst\u00e2ncias normais, eu sequer teria.<br \/>\n\u2003\u2003E eu tinha provas disso.<br \/>\n\u2003\u2003Aquela noite. A bendita e maldita noite.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9r\u2026 pensando bem \u2013 Comecei, limpando a garganta \u2013, eu posso ficar aqui mesmo. N\u00e3o tem problema.<br \/>\n\u2003\u2003Ela levantou os olhos do tablet, o olhar desceu at\u00e9 a ta\u00e7a de vinho abandonada sobre a mesa\u2026 e ent\u00e3o voltou para o meu rosto.<br \/>\n\u2003\u2003Me senti invadido. E, para meu pr\u00f3prio desgosto, levemente excitado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Como eu disse, eu n\u00e3o ligo, pode ficar \u00e0 vontade. \u2013 %Anya% repetiu, prendendo os l\u00e1bios no que parecia ser um sorriso discreto.<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo, me perguntei o que exatamente se passava pela cabe\u00e7a dela. Mas, por instinto \u2013 ou autopreserva\u00e7\u00e3o \u2013, decidi n\u00e3o perguntar. %Anya% n\u00e3o era do tipo que se esquivava quando confrontada. E, sendo honesto comigo mesmo, eu n\u00e3o tinha certeza se estava pronto para ouvir a resposta.Parte inferior do formul\u00e1rio<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eu fico no sof\u00e1. \u2013 Engoli o vinho de uma vez s\u00f3, como se ele pudesse me anestesiar de alguma coisa que eu nem tinha coragem de nomear. Coloquei a ta\u00e7a vazia sobre a mesa, tentando parecer casual. \u2013 Por falar nisso\u2026 Como vai ser no hotel? A gente vai ficar junto?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Quartos separados. \u2013 Ela respondeu com naturalidade. \u2013 Minha fam\u00edlia indiana ainda n\u00e3o est\u00e1 pronta para esse tipo de evolu\u00e7\u00e3o cultural.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o foi sua prima que entrou em coma alco\u00f3lico no seu anivers\u00e1rio? A Nina mencionou algo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Maya. \u2013 Ela revirou os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Coma alco\u00f3lico, tudo bem. Dormir com o namorado: ultrapassa os limites.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bem-vindo \u00e0 fam\u00edlia %Bhasin%. \u2013 Ironizou. \u2013 Prefiro evitar certos estresses.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 por isso que voc\u00ea n\u00e3o bebe? \u2013 Perguntei. \u2013 Ou s\u00f3 evita na frente deles?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o gosto, n\u00e3o tenho o h\u00e1bito. Todo ano, no meu anivers\u00e1rio, eu abro uma exce\u00e7\u00e3o. S\u00f3 isso. \u2013 Ela fez uma pausa breve, pensativa, os olhos vagando por um segundo antes de voltar para mim. \u2013 A \u00faltima vez que bebi fora disso foi\u2026 \u2013 Parou no meio da frase. \u2013 Foi com voc\u00ea.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Comigo?! \u2013 Franzi a testa. Demorei uns dois segundos para minha mem\u00f3ria fazer o trabalho dela. Quando finalmente encaixou, soltei um pequeno \u201cah\u201d. \u2013 Ah. Aquele dia.<br \/>\n\u2003\u2003Primeiro ano de faculdade. Eu e Nina t\u00ednhamos organizado uma festa improvisada no nosso apartamento min\u00fasculo, se \u00e9 que \u201corganizar\u201d era a palavra certa. Na verdade, foi mais um monte de gente espremida num espa\u00e7o que claramente n\u00e3o comportava aquele tanto de gente.<br \/>\n\u2003\u2003Nina ainda estava se recuperando da depress\u00e3o naquela \u00e9poca. Qualquer pequena vit\u00f3ria j\u00e1 parecia motivo suficiente para comemorar. Existir j\u00e1 contava.<br \/>\n\u2003\u2003Eu s\u00f3 percebi horas depois que %Anya% tamb\u00e9m estava l\u00e1, quando entrei no meu quarto. Abri a porta e encontrei um tipo muito espec\u00edfico de caos: ela estava jogada na minha cama, atravessada no colch\u00e3o, completamente apagada, b\u00eabada demais at\u00e9 para perceber onde estava.<br \/>\n\u2003\u2003Eu tamb\u00e9m n\u00e3o estava exatamente s\u00f3brio naquela noite. Ent\u00e3o fiz o que qualquer pessoa razoavelmente pr\u00e1tica faria: fechei a porta, deitei no lado oposto da cama e apaguei tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2003\u2003No dia seguinte, ela acordou primeiro, pediu desculpa com uma cara meio constrangida, eu dei de ombros\u2026 e nunca mais falamos sobre aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Pois \u00e9. Eu parei de beber depois disso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Por causa daquela noite? \u2013 Inclinei a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o exatamente. \u2013 Explicou, calma. \u2013 Mais pela sensa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lembrar das coisas. N\u00e3o ter controle.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Engra\u00e7ado\u2026 \u00e0s vezes perder o controle faz sentido pra mim.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Para mim, \u00e9 um pesadelo. \u2013 Ela fez uma careta leve. \u2013 Mas sabe o que essa hist\u00f3ria prova?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O qu\u00ea?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que, tecnicamente, j\u00e1 dormimos juntos. \u2013 O sorriso que estampou o rosto dela era pura provoca\u00e7\u00e3o. Fingi revirar os olhos. O que eu sentia, na verdade, era um calor subindo pela nuca. \u2013 Ant, pode vir pra c\u00e1. Eu nem me mexo. Prometo.<br \/>\n\u2003\u2003O jeito como ela disse isso, o sorrisinho contido, a voz mais baixa, como se estivesse me fazendo uma proposta inocente e perigosa ao mesmo tempo&#8230; Me fez questionar todos os motivos que me trouxeram at\u00e9 aqui.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Vou ao banheiro. \u2013 Dei as costas, saindo do vag\u00e3o a tempo de ouvir a risada baixa e provocativa de %Ananya%.<br \/>\n\u2003\u2003Depois de enrolar no banheiro mais do que o necess\u00e1rio \u2013 lavando o rosto, arrumando o cabelo que j\u00e1 estava arrumado e at\u00e9 lendo r\u00f3tulos de shampoo que eram ofertados ali \u2013 percebi que n\u00e3o dava mais para adiar. Eu precisava voltar para a cabine.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto caminhava pelo corredor estreito, tentei me convencer de que eram s\u00f3 algumas horas. S\u00f3 uma noite. Nada que eu j\u00e1 n\u00e3o tivesse vivido antes. Afinal, tecnicamente, j\u00e1 tinha dormido ao lado de %Anya% uma vez, embora nenhum de n\u00f3s estivesse consciente o bastante para lembrar como foi.<br \/>\n\u2003\u2003Abri a porta da cabine tentando n\u00e3o fazer barulho. As luzes j\u00e1 estavam apagadas, dava para ver muito pouco, mas eu sabia onde ela estava. Evitei olhar na dire\u00e7\u00e3o da cama. Fui direto para o sof\u00e1, que parecia ter sido projetado por algu\u00e9m com \u00f3dio genu\u00edno da coluna humana.<br \/>\n\u2003\u2003Virei de lado.<br \/>\n\u2003\u2003Depois de costas.<br \/>\n\u2003\u2003Depois de lado de novo.<br \/>\n\u2003\u2003Nada funcionava.<br \/>\n\u2003\u2003O joelho esbarrava no bra\u00e7o r\u00edgido do assento, a lombar come\u00e7ava a reclamar como se eu tivesse passado o dia inteiro carregando caixas, e o travesseiro continuava escorregando cada vez que eu tentava me ajeitar.<br \/>\n\u2003\u2003Soltei um suspiro longo, irritado demais para aquele sil\u00eancio quase solene da cabine. O tipo de suspiro que, em qualquer outro lugar, passaria despercebido, mas ali pareceu ecoar. Como uma confiss\u00e3o p\u00fablica de fracasso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 %Anthony%. \u2013 Murmurei alguma coisa indistinta, mais um ru\u00eddo do que uma resposta, enquanto continuava tentando me ajeitar. \u2013 Vem pra cama.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Mas\u2026 \u2013 Comecei, num reflexo autom\u00e1tico, algo entre teimosia e um orgulho mal colocado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Agora.<br \/>\n\u2003\u2003O seu tom era firme. Autorit\u00e1rio o suficiente para ser ofensivo em qualquer outro contexto. Ali, no entanto, soou perigosamente\u2026 sedutor.<br \/>\n\u2003\u2003Respirei fundo, vencido antes mesmo de terminar o argumento. Peguei o cobertor e atravessei o espa\u00e7o curto at\u00e9 a cama, cada passo desnecessariamente consciente. Deitei com cuidado excessivo, como se o colch\u00e3o fosse um territ\u00f3rio minado. Ajustei o travesseiro, estiquei a coberta, alinhei o corpo. Tudo para evitar o inevit\u00e1vel: perceber que ela estava ali.<br \/>\n\u2003\u2003Meu corpo estava exausto depois de um dia inteiro de trabalho, de estresse acumulado, de sorrisos sociais e disfarces bem ensaiados. Tudo que eu queria, em teoria, era dormir. Mas no exato momento em que encostei a cabe\u00e7a no travesseiro, meu sono evaporou.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Sabe, voc\u00ea pode se mexer, se quiser\u2026\u2013 Aconselhou. Eu n\u00e3o via seu rosto, mas pelo tom de sua voz, sabia que ela estava com aquele sorriso preso nos l\u00e1bios.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o quero correr riscos. \u2013 Disparei, sem me importar em usar meus filtros de pensamento.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Risco de qu\u00ea? \u2013 Perguntou e foi a primeira vez que ouvi um leve vacilo em sua voz.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o temos um bom precedente. \u2013 O sil\u00eancio nos engoliu no ambiente e a tens\u00e3o era palp\u00e1vel. \u2013 Da \u00faltima vez, eu implorei que voc\u00ea me parasse e voc\u00ea n\u00e3o parou. \u2013 Antes de fazer uma besteira, decidi (com muito pesar) encerrar a comunica\u00e7\u00e3o. \u2013 Boa noite, %Anya%.<br \/>\n\u2003\u2003Apaguei naquela noite com uma rapidez quase ofensiva (especialmente depois de passar v\u00e1rios minutos garantindo, com toda a seguran\u00e7a do mundo, que n\u00e3o estava com sono nenhum). Mal me ajeitei no colch\u00e3o e pronto: meu corpo simplesmente desligou a consci\u00eancia sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003O problema \u00e9 que eu conhecia muito bem a reputa\u00e7\u00e3o do meu sono.<br \/>\n\u2003\u2003Minha m\u00e3e reclamava desde sempre. Nina chegou a amea\u00e7ar me filmar uma vez, dizendo que precisava de provas. E mais de uma ex-namorada descreveu minhas noites usando termos muito t\u00e9cnicos, como <em>\u201cfurac\u00e3o noturno\u201d<\/em> ou <em>\u201catividade s\u00edsmica moderada\u201d<\/em>.<br \/>\n\u2003\u2003Eu s\u00f3 queria ter lembrado de avisar a %Ananya%.<br \/>\n\u2003\u2003Acordei de forma abrupta, com um pux\u00e3o firme nos cabelos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Devia ter te amarrado no sof\u00e1. \u2013 Ouvi o resmungo \u00e1spero, seguido pelo empurr\u00e3o decidido de seus p\u00e9s contra meu quadril, como se estivesse tentando remover um m\u00f3vel mal posicionado.<br \/>\n\u2003\u2003Em algum momento da noite, eu tinha encurralado %Ananya% contra a parede. Minhas costas pressionavam as dela, como se meu subconsciente tivesse decidido transform\u00e1-la em parte da estrutura do quarto. O rosto dela estava perigosamente pr\u00f3ximo do concreto gelado. E, considerando o estado do meu cabelo, ela j\u00e1 tinha perdido a paci\u00eancia h\u00e1 alguns minutos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Hm. Foi mal. \u2013 Murmurei, sem abrir totalmente os olhos, j\u00e1 virando para o outro lado.<br \/>\n\u2003\u2003As horas previstas de viagem se estenderam at\u00e9 quase dez da manh\u00e3 por causa de um atraso no itiner\u00e1rio (algo que eu s\u00f3 soube depois, j\u00e1 que passei boa parte do trajeto dormindo profundamente). Assim que coloquei os p\u00e9s para fora do trem, a ansiedade que eu vinha tentando sufocar desde o in\u00edcio da viagem voltou com for\u00e7a total.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% avisou que seguir\u00edamos de lancha at\u00e9 a ilha. O porto ficava a poucos minutos da esta\u00e7\u00e3o e o trajeto curto foi suficiente para que a expectativa crescesse a cada passo. O cheiro salgado do mar j\u00e1 pairava no ar quando chegamos ao trapiche de madeira.<br \/>\n\u2003\u2003Ali, ela cumprimentou um senhor de idade, de pele bronzeada pelo sol e sorriso f\u00e1cil, que nos aguardava em uma lancha de um vermelho vibrante. Com mochilas nas costas e malas nas m\u00e3os, embarcamos no pequeno ve\u00edculo mar\u00edtimo. Enquanto o Ankar \u2013 esse era o nome dele \u2013 conduzia a lancha com uma tranquilidade de quem faz aquilo a vida toda, eu fiquei s\u00f3 olhando em volta.<br \/>\n\u2003\u2003O mar oce\u00e2nico se estendia num azul t\u00e3o transl\u00facido que parecia coberto por um v\u00e9u de seda esticado. A luz do sol tocava a \u00e1gua com suavidade, espalhando reflexos dourados na superf\u00edcie a cada ondula\u00e7\u00e3o. Era imposs\u00edvel n\u00e3o se impressionar.<br \/>\n\u2003\u2003\u00c0 medida que nos aproxim\u00e1vamos da ilha Sundar, minha admira\u00e7\u00e3o s\u00f3 crescia. Nina sempre comentava sobre como aquele lugar parecia sa\u00eddo de um filme, mas v\u00ea-lo com os pr\u00f3prios olhos era outra coisa. At\u00e9 peguei o celular e tirei umas fotos, sabendo que nenhuma delas ia chegar perto do que meus olhos estavam vendo.<br \/>\n\u2003\u2003A ilha era mesmo pequena. Dali de onde est\u00e1vamos, dava para enxergar quase tudo: um contorno de areia clara, algumas forma\u00e7\u00f5es rochosas surgindo do mar e, dominando a paisagem como se tivesse todo o direito de estar ali, o hotel.<br \/>\n\u2003\u2003A constru\u00e7\u00e3o ocupava uma boa fatia da ilha, com uma arquitetura curiosa \u2013 metade ref\u00fagio r\u00fastico, metade revista de design \u2013, madeira escura e, ao mesmo tempo, paredes inteiras de vidro refletindo o sol, varandas com guarda-corpos transparentes e linhas modernas demais para fingir simplicidade.<br \/>\n\u2003\u2003Sete andares de puro exagero.<br \/>\n\u2003\u2003E tudo conectado diretamente ao atracadouro, de modo que quem chegasse pelo mar praticamente desembarcava dentro do sagu\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E a\u00ed? \u2013 %Anya% perguntou, com os olhos fixos em mim e um sorriso contido nos l\u00e1bios, como quem esperava uma avalia\u00e7\u00e3o sincera.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 espantoso. \u2013 Admiti. \u2013 S\u00e9rio. \u00c9 incr\u00edvel, %Anya%. Isso\u2026 \u00e9 de voc\u00eas?<br \/>\n\u2003\u2003Por um segundo, considerei seriamente a possibilidade de %Anya% simplesmente possuir a porra de uma ilha.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O dono do hotel \u00e9 amigo do meu pai. \u2013 Fez um gesto leve com a cabe\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada. \u2013 Vamos. Vou ter que te apresentar pra todo mundo. Voc\u00ea sabe disso, n\u00e9?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Claro \u2013 Respondi, com a tranquilidade ensaiada de algu\u00e9m que definitivamente n\u00e3o estava entrando em p\u00e2nico. \u2013 Ossos do of\u00edcio.<br \/>\n\u2003\u2003Por dentro, no entanto, meu est\u00f4mago estava executando acrobacias ilegais. Era a mesma sensa\u00e7\u00e3o de entrar numa entrevista de emprego para a qual voc\u00ea n\u00e3o estudou\u2026 e ainda mentiu no curr\u00edculo.<br \/>\n\u2003\u2003%Anya% entrela\u00e7ou os dedos nos meus.<br \/>\n\u2003\u2003Come\u00e7amos a caminhar pelo caminho de pedras que levava at\u00e9 as portas de vidro do hotel, e foi nesse momento \u2013 com o som das ondas atr\u00e1s de n\u00f3s e aquele pr\u00e9dio absurdo crescendo \u00e0 nossa frente \u2013 que uma percep\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda finalmente se acomodou na minha cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003Eu era, de fato, o namorado de %Ananya% %Bhasin%. E estava prestes a atravessar a porta de entrada do universo intenso, barulhento e potencialmente ca\u00f3tico que era a fam\u00edlia %Bhasin%.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o chegamos l\u00e1 sem obst\u00e1culos. Fomos parados algumas vezes por conhecidos dela \u2013 todos sorridentes, todos curiosos demais, todos me avaliando com aquele olhar r\u00e1pido que tenta decidir se voc\u00ea \u00e9 passageiro ou permanente \u2013 e s\u00f3 depois disso seguimos para os quartos.<br \/>\n\u2003\u2003Enquanto caminh\u00e1vamos pelo corredor elegante, tentei organizar a cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003A ideia era simples: tratar aquilo como trabalho. Mais uma miss\u00e3o, como tantas outras que eu j\u00e1 tinha executado com efici\u00eancia quase mec\u00e2nica.<br \/>\n\u2003\u2003Funcionava em teoria. Na pr\u00e1tica, cada janela que cruz\u00e1vamos sabotava completamente o plano.<br \/>\n\u2003\u2003A \u00e1gua tinha aquele azul transl\u00facido que parecia mentira de cat\u00e1logo tur\u00edstico. A luz da tarde batia como se algu\u00e9m tivesse ajustado a ilumina\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio. Era o tipo de ambiente que fazia voc\u00ea esquecer, por alguns minutos, qualquer plano mais complicado.<br \/>\n\u2003\u2003Foi ali que tomei uma decis\u00e3o silenciosa.<br \/>\n\u2003\u2003Eu ia me divertir.<br \/>\n\u2003\u2003Quer dizer, sejamos honestos: eu estava hospedado em um hotel de luxo, numa ilha ridiculamente bonita, \u00e0 beira-mar\u2026 e n\u00e3o estava pagando um centavo por isso. Tudo patrocinado por terceiros.<br \/>\n\u2003\u2003Recusar essa oportunidade seria quase ofensivo. Uma esp\u00e9cie de desrespeito ao investimento feito para me colocar ali.<br \/>\n\u2003\u2003Al\u00e9m disso \u2013 e esse argumento me pareceu muito convincente naquele momento \u2013 eu merecia.<br \/>\n\u2003\u2003Quando finalmente entrei na su\u00edte, j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo homem que tinha embarcado naquele trem horas antes. Alguma coisa tinha relaxado dentro de mim. Talvez fosse a brisa do mar. Talvez fosse o luxo descarado daquele lugar. Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava permitindo a mim mesmo aproveitar o cen\u00e1rio.<br \/>\n\u2003\u2003De qualquer forma, uma coisa estava clara.<br \/>\n\u2003\u2003Eu estava oficialmente pronto para aproveitar tudo o que a ilha dos %Bhasin% tivesse a oferecer.<br \/>\n\u2003\u2003Inclusive as partes potencialmente perigosas.<br \/>\n\u2003\u2003Eu ainda estava absorvendo o cen\u00e1rio quando levei a m\u00e3o \u00e0 porta para fech\u00e1-la, mas parei ao ouvir passos decididos no corredor. N\u00e3o precisei olhar. Eu j\u00e1 conhecia aquele ritmo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ei. Tudo certo? \u2013 A voz de %Anya% surgiu na porta da su\u00edte.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Certo? \u2013 Abri os bra\u00e7os em um gesto amplo, quase teatral. \u2013 %Anya%, olha isso! \u2013 Apontei para a imensid\u00e3o azul do outro lado do vidro. \u2013 Eu sinto que voc\u00ea acabou de me promover. Ou me colocou de f\u00e9rias antecipadas. Talvez as duas coisas.<br \/>\n\u2003\u2003Ela encostou o ombro no batente da porta e deixou escapar uma risada curta, claramente se divertindo com meu n\u00edvel de empolga\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que bom que voc\u00ea est\u00e1 bem instalado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u201cBem instalado\u201d \u00e9 um eufemismo generoso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00d3timo. \u2013 Ela assentiu, satisfeita. \u2013 Porque eu vou dormir um pouco e depois a gente desce, pode ser?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Dormir? \u2013 Voltei a encarar o mar, como se a paisagem pudesse desaparecer se eu parasse de vigiar. \u2013 Nem se eu quisesse.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Diferente de voc\u00ea, \u2013 Ela retrucou, cruzando os bra\u00e7os. \u2013 que me usou de travesseiro humano a noite inteira, eu n\u00e3o dormi quase nada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Isso \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o grave. \u2013 Lancei um olhar por cima do ombro.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u00c9 um fato.. \u2013 Ela estreitou os olhos. \u2013 Preciso descansar, sen\u00e3o n\u00e3o chego viva at\u00e9 o fim do dia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Que exagero.<br \/>\n\u2003\u2003N\u00e3o era. Eu sabia muito bem o quanto eu me espalhava quando dormia. Meu hist\u00f3rico era basicamente uma sequ\u00eancia de relatos alarmados e testemunhas indignadas.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Por que voc\u00ea n\u00e3o desce e vai conhecer o hotel? \u2013 Sugeriu. \u2013 Acho que a Nina j\u00e1 deve estar por a\u00ed. Assim voc\u00ea j\u00e1 vai se ambientando.<br \/>\n\u2003\u2003A sugest\u00e3o parecia inocente demais.<br \/>\n\u2003\u2003Estreitei os olhos.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea s\u00f3 quer escapar da obriga\u00e7\u00e3o de me apresentar oficialmente pra todo mundo.<br \/>\n\u2003\u2003Ela n\u00e3o perdeu nem meio segundo fingindo inoc\u00eancia.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Amor\u2026 \u2013 Disse, com um tom doce demais para ser sincero. \u2013 Voc\u00ea me conhece t\u00e3o bem. \u2013 A provoca\u00e7\u00e3o veio acompanhada de um pequeno aceno de cabe\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao teto. \u2013 Meu quarto \u00e9 o \u00fanico logo acima do seu. Se precisar de alguma coisa, \u00e9 s\u00f3 subir.<br \/>\n\u2003\u2003Assim que ela saiu, decidi tomar um banho para relaxar o corpo da viagem. A \u00e1gua quente me devolveu uma parte da energia que eu nem percebia ter perdido. Vesti algo leve e confort\u00e1vel e mandei uma mensagem para a Nina. Ela respondeu quase imediatamente, avisando que j\u00e1 estava na piscina.<br \/>\n\u2003\u2003Fui at\u00e9 a varanda e procurei por ela l\u00e1 embaixo. N\u00e3o demorei a encontr\u00e1-la. Estava sentada \u00e0 beira da piscina, ao lado de um cara alto demais para passar despercebido, com aquela postura relaxada de quem sabe exatamente onde est\u00e1. S\u00f3 podia ser o Andreas.<br \/>\n\u2003\u2003O ex da %Anya%. Atual da minha irm\u00e3.<br \/>\n\u2003\u2003\u00d3timo. Um almo\u00e7o em fam\u00edlia absolutamente promissor me aguardava.<br \/>\n\u2003\u2003Durante o trajeto at\u00e9 a \u00e1rea da piscina, eu tinha genuinamente acreditado que estava indo direto para um pesadelo social. Na minha cabe\u00e7a, seria uma vers\u00e3o tropical dos jantares corporativos que eu era obrigado a frequentar. Mas, assim que entrei na \u00e1rea da piscina, fui praticamente engolido por um cen\u00e1rio que n\u00e3o tinha absolutamente nada a ver com o que eu tinha imaginado. O espa\u00e7o estava lotado de gente \u2013 amigos, primos, conhecidos da %Anya% \u2013 todos jovens, bronzeados, espalhados em grupos barulhentos, rindo alto como se n\u00e3o existisse amanh\u00e3. A m\u00fasica vibrava nas caixas de som com intensidade suficiente para sugerir uma rave particular.<br \/>\n\u2003\u2003E havia fuma\u00e7a. Muita fuma\u00e7a.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Eles s\u00e3o viciados em narguil\u00e9 aqui. \u2013 Nina explicou, divertida, quando me aproximei com a express\u00e3o clara de algu\u00e9m que tinha acabado de atravessar um portal dimensional aromatizado.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ok\u2026 isso \u00e9\u2026 diferente. \u2013 Murmurei, tentando processar a mistura de m\u00fasica alta, gente demais, fuma\u00e7a demais e uma liberdade social que claramente n\u00e3o constava no meu roteiro mental.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 O que voc\u00ea achou que seria? \u2013 Nina zombou, arqueando uma sobrancelha. \u2013 Um baile bollywoodiano? Um evento de gala?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Honestamente? Sim. Pensei exatamente nisso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Bom, espera s\u00f3 at\u00e9 todo mundo ficar b\u00eabado e come\u00e7ar a dan\u00e7ar m\u00fasica indiana. \u2013 Comentou uma voz masculina ao lado dela, entrando na conversa com naturalidade demais. \u2013 A parte bollywoodiana vem no segundo ato. \u2013 Virei o rosto devagar e dei de cara com um sujeito alto, cabelo castanho escuro, sorriso cheio de dentes perfeitos. Ele estendeu a m\u00e3o na minha dire\u00e7\u00e3o. \u2013 E a\u00ed, cara. Sou o Andreas.<br \/>\n\u2003\u2003Forcei um sorriso educado, ignorando a pontada imediata de inc\u00f4modo. Eu sabia exatamente quem ele era. <em>O<\/em> Andreas. Ex da %Anya%, atual da minha irm\u00e3. Um combo impressionante, capaz de dar n\u00f3 em qualquer c\u00e9rebro funcional. Basicamente, um <em>walking red flag<\/em> com um \u00f3culos de sol que custava mais do que o meu aluguel.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah, \u00e9. Voc\u00eas n\u00e3o se conhecem. \u2013 Nina se adiantou, pr\u00e1tica demais. \u2013 Esse \u00e9 o %Anthony%, meu irm\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea \u00e9 o ex da minha namorada. \u2013 As palavras escaparam antes que meu filtro social tivesse qualquer chance de interferir. N\u00e3o deu pra segurar. A oportunidade era perfeita e ele precisava ouvir aquilo.<br \/>\n\u2003\u2003O cara estava namorando a melhor amiga da ex, pelo amor de Deus.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Depende de quem \u00e9 sua namorada. \u2013 Respondeu, o sorriso continuou ali, mas o aperto de m\u00e3o se tornou visivelmente mais firme.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 literalmente no anivers\u00e1rio dela.<br \/>\n\u2003\u2003O olhar de Andreas oscilou entre mim e a Nina algumas vezes, o cenho se franzindo a cada nova tentativa de encaixar a informa\u00e7\u00e3o. Ficou claro, em segundos, que minha irm\u00e3 tinha convenientemente omitido esse detalhe da narrativa rom\u00e2ntica.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ent\u00e3o\u2026 acho que esqueci de mencionar isso. \u2013 Nina disse, fazendo um gesto vago com as m\u00e3os, como se estivesse falando sobre o clima ou o card\u00e1pio do almo\u00e7o. \u2013 %Anya% e %Anthony%\u2026<br \/>\n\u2003\u2003Ela simplesmente se sentou de volta na cadeira de praia, abandonando a frase no ar e o caos emocional na nossa conta.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 \u2026juntos \u2013 Completei, por pura caridade narrativa.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ah. Que\u2026 legal, cara. Desejo felicidades.<br \/>\n\u2003\u2003A voz dele saiu t\u00e3o autom\u00e1tica que parecia lida direto de um teleprompter invis\u00edvel. Andreas se sentou ao lado da Nina, que j\u00e1 estava distra\u00edda, olhando em volta, completamente alheia ao vinco de d\u00favida que se instalou na testa do pr\u00f3prio namorado.<br \/>\n\u2003\u2003Mas eu percebi.<br \/>\n\u2003\u2003Andreas tentava agir normalmente. Conversava com a Nina, ria no tempo certo, assentia como quem estava genuinamente interessado no que ela dizia. Mas havia um atraso m\u00ednimo em cada rea\u00e7\u00e3o, uma fra\u00e7\u00e3o de segundo a mais do que o natural. O tipo de detalhe que a maioria das pessoas ignoraria.<br \/>\n\u2003\u2003Mas eu n\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea vai ficar em p\u00e9 a\u00ed julgando ou vai sentar? \u2013 Nina perguntou, sem nem olhar para mim, batendo com a m\u00e3o na espregui\u00e7adeira ao lado dela.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Estou absorvendo o ambiente.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ele est\u00e1 avaliando o territ\u00f3rio. \u2013 Andreas comentou, num tom brincalh\u00e3o.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Algo assim. \u2013 Sorri de lado.<br \/>\n\u2003\u2003Tudo parecia casual \u00e0 primeira vista \u2013 gente rindo, copos tilintando, crian\u00e7as correndo entre as mesas, algu\u00e9m discutindo animadamente perto do bar \u2013 mas havia uma l\u00f3gica invis\u00edvel organizando tudo aquilo. Pequenas \u00f3rbitas sociais que se formavam e se desfaziam, conversas que mudavam de tom dependendo de quem se aproximava.<br \/>\n\u2003\u2003Uma informalidade do tipo que funciona muito bem\u2026 at\u00e9 algu\u00e9m pisar na hierarquia errada.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 analisando isso como se fosse uma cena de crime. \u2013 A voz de Andreas veio do meu lado, virei o rosto para ele. \u2013 Relaxa. A fam\u00edlia da %Anya% pode ser&#8230; intensa. Mas ningu\u00e9m aqui vai te devorar.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Imagino que isso venha de experi\u00eancia pessoal.<br \/>\n\u2003\u2003O coment\u00e1rio ficou suspenso entre n\u00f3s por um instante, como uma bola que ningu\u00e9m tinha certeza se devia rebater. Andreas levou o copo \u00e0 boca, tomou um gole lento e olhou para a piscina antes de falar de novo.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 E voc\u00ea? \u2013 Perguntou. \u2013 J\u00e1 tinha conhecido os %Bhasin% antes dessa viagem?<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o. Estou tendo a experi\u00eancia completa agora.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 N\u00e3o \u00e9 todo mundo que entra num ambiente como esse sem nenhum tipo de aviso pr\u00e9vio. \u2013 Comentou. \u2013 Corajoso.<br \/>\n\u2003\u2003\u2013 Ou inconsequente. \u2013 Murmurei, deixando o olhar vagar pela energia ca\u00f3tica que parecia pulsar em todo aquele lugar. \u2013 Ainda estou tentando decidir qual dos dois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2003\u2003%ANANYA% \u2013 \u053a \u2013 %ANTHONY%<\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":0,"parent":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0},"historias":[2252],"class_list":["post-10001","capitular","type-capitular","status-publish","format-standard","hentry","historias-efeito-colateral"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular\/10001","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/capitular"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitular"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10001"}],"wp:term":[{"taxonomy":"historias","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocriativo.net\/acervo\/wp-json\/wp\/v2\/historias?post=10001"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}