The Tale Of The Narcissus, The Beast And The Two Faces

Escrita porLiv
Revisada por Natashia Kitamura

CAPÍTULO 1 • Snuff – O narciso e a fera

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

  O som da goteira era o único barulho audível na minha casa, o qual eu não me preocupei em parar desde que percebi que estava sozinho. O quarto escuro estava gelado e solitário, mas a vontade de abrir as cortinas é tão escassa quanto o meu desejo de enxergar a claridade invadindo a minha visão, trazendo o tão esquecido calor. Para muitos, a vida pode ser como em um conto de fadas, um encanto; para outros, é apenas um ciclo amaldiçoado que aprendemos a sobreviver para que possamos existir. E para mim, como podem reparar, o significado da vida é a segunda opção.
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  O reino de Lorenzo é como qualquer um, porém, há um pequeno detalhe que o diferencia dos demais: as maldições. Surgidas em algum século, as pessoas bradam suas palavras e amaldiçoam as outras, resultando nos amaldiçoados que tentavam descobrir um jeito de se livrar dessa sua característica. Caso estejam se perguntando qual é a minha, eu explico. Não existe um nome certo, tem quem nos chame de "narcisos"; outros, de "fera". Em algum momento do passado, um antecessor achou que seria incrível agir no impulso, na ganância, na luxúria e sem se importar com os próximos, resultando em um ex amante com coração partido e sede de vingança a amaldiçoá-lo – tendo a maldição sendo passada de geração para geração. Os narcisos, fixados em sua beleza e egocentrismo, perderam a chance de terem suas vidas calmas no momento em que a maldição diz que instantaneamente quem nos olhar, se apaixonará por nós. Basicamente, pessoas normais que não são portadoras de maldições – já que amaldiçoados não são afetados por quem é amaldiçoado – se apaixonariam apenas por nossa aparência, ignorando tudo ao seu redor. Seria como ter um mar de indivíduos atrás de você por puro interesse físico, o que é um saco. Tiveram os que tentaram se libertar, mas nunca deu certo; a condição para quebrar a maldição é que precisamos amar e ser amado verdadeiramente, ao mesmo tempo. Para muitos, pode parecer que é bobeira, contudo, esse assunto é algo delicado para alguns narcisos. É difícil encontrar alguém que goste de você por quem você é, quanto mais alguém que te ame. No entanto, tiveram os narcisos que abraçaram a sua maldição e optaram por viver no meio de falsas promessas, mesmo que isso significasse que o vazio que sentiam permaneceria até que morressem. Somos também chamados de "feras", não só por conta de rumores que quando não éramos amados, nos tornaríamos uma; porém, por causa do que o vazio causava na gente. O sentimento de estar oco por dentro levava muitos a perderem suas cabeças e o sentido de suas vidas, agindo de formas agressivas. É daí que vem o nosso outro nome.
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  Eu não posso julgar os meus antepassados pela nossa fama, porque, no momento, o vazio é a única coisa habitando em mim.
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  Cassandra Lewis me conheceu há cinco meses, e começamos a namorar semanas após nosso primeiro encontro. Ela era como uma brisa em uma tarde ensolarada, vindo de modo calmo e terno, me acolhendo sem hesitar. A mulher não se importava em andar de mãos dadas mesmo que eu estivesse usando roupas femininas – como parte de evitar um dos efeitos da minha maldição –, e nunca me questionou o motivo de eu usá-las. Soube que gostava de viajar pelos reinos em busca de conhecimento, além de adorar as músicas típicas e de cantar em bares. Seu trabalho atual era como garçonete, e eu sempre ia buscá-la quando seus turnos terminavam tarde; aproveitávamos os momentos juntos para ir a encontros, sempre confiando segredos um ao outro. No dia que eu a contei sobre a minha maldição, Cassandra segurou minhas mãos e sorriu, dizendo que gostava de mim independente da condição que assombrava a minha família. Nossas semanas não podiam ser melhores, até que um certo dia, ela disse que me amava. Depois de algumas doses de vinho, estávamos esperando a comida ficar pronta e Cassandra expôs os seus sentimentos assim, como se estivesse acostumada a falar deles. Eu a beijei, emocionado por ser correspondido, já que eu a amava verdadeiramente há um tempo. Todavia, nem tudo é um conto de fadas.
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  Cassandra não me amava, e nunca me amou. Demorou para eu perceber esse grande detalhe que sempre esteve claro, e eu apenas não o enxerguei. O tão grandioso sentimento não passava de uma ilusão, e eu fui o único a ser deixado a deriva dessa sensação que me atormentava por dentro. Todos aqueles segredos e momentos gravados na minha pele e mente foram embora, me pondo em um lugar onde repensar os meus pecados era inevitável. O ar em volta de mim ainda parece ser uma cela, que cada vez mais vai diminuindo e diminuindo, até esmagar todas as emoções que eu carregava na bagagem. "Se você realmente me ama, me deixe ir!", eu dizia em todos os sonhos que eu tinha com ela, os quais repetiam as mesmas cenas diversas vezes. Descobri que Cassandra amava apenas a minha aparência; em uma de suas cartas – que eu ainda pressionava nos meus lábios, na falha tentativa de fingir que o sentimento estava ali –, a mulher revelou que a primeira vez que tinha me visto não tinha sido a do nosso encontro, mas sim em um dia que eu trocava de roupa, ou seja, a mulher se apaixonou pelo narciso, e não pelo %Pran% %Kyle%. É admirável o quanto ela manteve toda a sua narrativa e esteve comigo, e ainda me pergunto o porquê de não ter ido embora mais cedo – não é como se Cassandra não tivesse outras pessoas interessadas em si. Às vezes gostaria que Lewis não tivesse sido minha amiga, para que assim eu pudesse magoá-la da forma como me machucou no final, no entanto, não consigo me levar a culpá-la totalmente. Essa é uma condição que eu tenho que conviver desde que nasci, então, espero que se a mulher ainda se importe comigo, nunca me deixe saber. Prefiro permanecer na ignorância do que ser mantido na ilusão agridoce de que o vazio se tornaria inexistente.
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  Não sei a hora exata que adormeci, mas a noite caía lá fora juntamente da chuva; observei pela janela uma silhueta de alguém, que cantarolava uma melodia tão conhecida por mim. Cocei os olhos, tentando enxergar melhor quem era, e ao me aproximar, ela se limitou a sorrir brevemente, perguntando em seguida:
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  - Até quando ficará solitário, moonchild?
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