1 • Growl
Tempo estimado de leitura: 12 minutos
O que você sentiria se fosse a primeira de sua espécie? Eu não sei por que o criador me escolheu, mas estou feliz por isso. Ansiando a lua cheia, para que eu possa me transformar!
Era inverno quando minha família foi expulsa da
alcateia Halla, meu pai era o alfa e tinha sido desafiado por um lobo andarilho, infelizmente, por um golpe baixo do desafiante, ele perdeu; a montanha de Hallasan não seria mais o nosso lar. Minha mãe estava me esperando ainda, foi um milagre ter aguentado as dores da gestação durante a migração até chegar na floresta de
Gotjawal, onde viveríamos.
Eu nasci em uma chuvosa noite de lua cheia, era uma raridade chover no inverno, isso fez com que minha mãe tomasse aquele dia como especial, o dia em que uma alfa estava nascendo. Era uma lenda entre os lobos, que dizia que todos os alfas eram os únicos que nasciam em sua ninhada e numa noite chuvosa do inverno, por isso era tão difícil nascer um lobo com a marca de um verdadeiro
alfa.
Segundo minha mãe, eu era uma
little wolf medrosa quando chovia, a culpa disso era o alto barulho dos trovões, algo que sempre me assustava. Minha vida de filhote não era tão fácil assim, não podia explorar tanto a região onde morávamos, por causa de possíveis caçadores de duas patas, minha mãe os chamava de humanos.
Eu os tinha visto uma vez, quando estava brincando de caçada com meus cinco irmãos mais velhos, uma das poucas vezes que minha mãe me deixava sair de perto dela. O sol da primavera tinha acabado de nascer, quando me afastei do perímetro estipulado por meus pais e me escondi no alto de uma grande rocha, o que me permitia ver muitos pontos do nosso território.
Eram dois humanos parados perto de um arbusto, falam algo que eu não entendia e pareciam bravos com alguma coisa, fiquei abaixada me escondendo entre elevações da rocha, observando seus movimentos. Ambos ficaram ali por algum tempo, estavam encaixando algumas coisas na terra, fiquei curiosa para saber o que era.
O tempo foi passando, eu já estava sentindo tanta fome, mas minha curiosidade para saber o que aqueles humanos tanto queriam era maior, ainda mais depois deles terem se escondido no arbusto. Assim que o céu ficou escuro, eles saíram do arbusto e foram embora, fiquei os vigiando até que desapareceram do meu campo de visão.
Ergui minha cabeça e olhei ao meu redor, não havia sinal dos meus irmãos ou de outros animais, senti um pequeno fundo em minha barriga e desviei meu olhar para a terra remexida, onde estava a coisa dos humanos. Fiquei tentada a saber se era algo de comer, afinal, aquele lugar era um pouco longe de casa, senti um vento gelado tocar meu pelo e atiçando minhas patas sobre a rocha, após um curto impulso pulei na terra.
Dei alguns passos até a coisa e a rodiei, depois me sentei de frente e permaneci mais algum tempo olhando para ela, não sabia se podia mexer naquilo, mas estava com tanta vontade de saber o que era. Me levantei e comecei a farejar, tinha um cheiro estranho, o que me fez perguntar se era realmente algum tipo de comida.
Ergui minha pata dianteira e comecei a raspar de leve a terra, até que minhas garras tocaram algo liso, tombei minha cabeça de leve. Fazia um barulho estranho quando minhas garras percorriam aquilo, quando eu coloquei um pouco mais de peso, ouvi um clique e de repente algo travou minha pata.
—
Ownnnn — soltei um uivo de dor.
Tentei me soltar o máximo que pude, mas estava sentindo como se minha pata estivesse para ser arrancada de mim. Era uma dor horrível que fazia meu corpo gelar, comecei a lamber um líquido que estava saindo de onde minha pata estava presa, queria que aquilo se abrisse para eu poder voltar para casa.
—
Owwnn. — Escutei um uivo atrás de mim: “
Pequena alfa”.
Virei minha face, era um dos meus irmãos. Ele se aproximou de mim e encostou seu focinho na minha pata presa, cheirando o líquido. Eu choraminguei um pouco, mostrando que não conseguia tirar minha pata daquela coisa, ele olhou para trás e uivou novamente, depois saiu correndo.
Eu estava contando com ele para ir até nossos pais e dizer que eu estava ali, o tempo foi passando e comecei a choramingar ainda mais pela dor, que só aumentava. Foi quando ele apareceu, diferente daqueles que tinham colocado aquela coisa ali, aquele humano tinha algo de especial.
Ele disse algo ao me ver, seu olhar era de compaixão, aos poucos foi se aproximando de mim. Eu tentei me afastar o máximo que pude, estava com um sentimento forte de agonia dentro de mim, porém não podia fazer nada já que minha pata estava presa. Eu choraminguei um pouco me encolhendo, mantive meu olhar no humano que se abaixava diante de mim.
Ele tocou em minha pata presa, dizendo algumas coisas estranhas, fiquei observando seus movimentos, de perto os humanos pareciam um tanto estranhos. Eu continuava choramingando por causa da dor, mas em poucos movimentos dele, senti minha pata sendo retirada daquela coisa.
Ele me pegou no colo. Mesmo sem pelo, conseguia me sentir confortável ali, porém já estava cansada demais para me mover ou até mesmo manter meus olhos abertos. Instantes depois, perdi o controle de todos os meus sentidos e tudo ficou escuro. Bem de leve, fui despertando através do meu olfato, percebendo que estava sobre algo bem macio, quente e confortável.
— Own — bocejei de leve esticando todas as minhas patas.
Abri meus olhos e me levantei, olhando para aquela coisa estranha e macia que estava em cima, senti uma leve pontada na minha pata que tinha ficado presa, quando olhei para ela, tinha algo enrolado nela. Cheirei primeiro para identificar o que era e depois mordisquei tentando tirar aquilo, porém o humano apareceu de repente me pegando.
Ele disse alguma coisa e sorriu, eu tombei minha cabeça, queria muito entender o que ele falava, logo ele me colocou novamente em cima da coisa macia e ajeitou o que estava enrolado na minha pata. Me deitei novamente e fiquei observando ele se locomover, não sabia o que era, mas parecia que estávamos dentro de uma árvore que tinha buracos que mostrava a floresta, parecia legal e era quente.
Não demorou muito até que o humano voltou a me pegar e me colocar no chão, era liso como a coisa que prendeu minha pata, porém percebi que não iria me machucar se caminhasse ali. Meu olfato foi me guiando pelo lugar até que encontrei pedaços de carne amassados, tinha um gosto bom, finalmente eu iria comer sem preocupação.
Eu fiquei ali na árvore daquele humano até minha pata melhorar, foi um longo tempo que quase me fez esquecer de casa. Eu o acompanhava todos os dias, por todos os lados, corríamos pela manhã em uma pequena trilha e ao final da tarde, sentávamos do lado de fora da grande árvore que ele morava, em frente a uma flor quente, vendo o pôr-do-sol.
Em um final de tarde, enquanto o humano entrou na grande árvore, meu olfato começou a sentir um cheiro conhecido, me levantei a comecei a me afastar, seguindo aquele rastro encontrei o que menos esperava. Era meu outro irmão que estava brincando com uma borboleta, eu me sentei e comecei a observar, até que finalmente ele viu que eu estava ali.
—
Own — resmungou ele: “
Pequena alfa?!”
—
Ownnn — eu uivei confirmando: “
Sou eu, seu beta bobão!”
Ele correu em minha direção e, pulando, me derrubou no chão. Brincamos um pouco rolando na terra, até que ele se lembrou da nossa alcateia e, mordendo minha orelha de leve, me fez o seguir até nosso lar. Assim que cheguei, vi o olhar desacreditado de minha mãe para mim, seus olhos brilharam de imediato.
Uma festa dos lobos foi feita naquele dia, a
pequena alfa tinha retornado para o lar e, para minha surpresa, nossa alcateia tinha crescido, pois meu irmão, o primogênito delta, tinha encontrado uma parceira para ele, que já estava esperando seus primeiros filhotes. Eu estava feliz em casa, junto da minha família, a partir daquele momento começaria minha preparação para ser uma boa alfa.
Porém, não estava me sentindo completa, talvez por causa daquele humano que tinha cuidado de mim, pensava nele quase todo o tempo. Queria vê-lo novamente, porém meu pai, o atual alfa, estava decretando uma nova lei.
—
Ownnnnnn — seu uivo era forte e alto: “
Não tem mais argumentos, mesmo tendo te ajudado, todos devem manter distância dos humanos.”
—
Own — eu resmunguei baixo, não queria obedecer: “
Mas ele curou minha pata.”
—
Ownn — minha mãe uivou para mim, mantendo seu olhar firme: “
Obedeça a nova regra, humanos ainda são perigosos.”
Meus irmãos estavam de acordo, até mesmo meu companheiro de aventura, o beta. Eu me afastei deles e fui até o pequeno arbusto que tinha ao lado da toca, aquele era meu canto. Minha mãe se aproximou e começou a fazer carinho em mim com seu focinho, mas eu estava um pouco chateada pela nova lei. Mesmo que ela argumentasse, eu não iria aceitar de fato aquilo, o humano que me salvou era diferente dos outros.
As estações foram se passando e eu estava crescendo saudavelmente, entre uma caçada e outra, tinha que enfrentar alguns treinamentos que meu pai executava. Um alfa tinha que ser forte, esperto e cauteloso ao mesmo tempo, porém na maioria das vezes, eu falhava na parte do cauteloso. O que me fazia lembrar sempre da minha pata que um dia foi machucada, tinha ficado uma marca nela, acho que o nome era cicatriz.
Sempre que podia, eu desviava da trilha nas caçadas e seguia para onde o meu humano morava, apesar de me manter distante dele, não me privava de observá-lo. Era final do outono, quando eu fui visitá-lo e o bobão do beta me seguiu.
—
Own — resmungou ele ao se aproximar de mim: “
Se o papai te pega aqui, ele te prende na toca.”
—
Ownn — mantive meu olhar no humano, estávamos no alto da colina: “
Ele só vai saber se você contar.”
Ele se deixou ao meu lado e ficou olhando o humano junto comigo.
—
Own — resmungou de novo: “
O que você acha de graça nele? Nem anda como nós.”
—
Ownn — retruquei: “
Graças a isso ele pôde me salvar, fico curiosa para saber o que os torna tão especiais.”
—
Own. — Ele me olhou: “
Falando assim, parece até que queria ser um deles.”
—
Ownn. — Mantive meu olhar no humano pensando nessa possibilidade: “
Talvez, por um dia, queria saber como é andar com duas patas.”
Ele começou a rir de mim e se aninhando, deitou a cabeça na terra fechando os olhos, já estava entendendo que ele ficaria ali para me dar cobertura, era o único que eu confiava em burlar as leis comigo. Eu olhei para ele e voltei minha face para o humano, vi uma grande coisa se locomovendo em direção a ele. Deixei meu irmão ali, deitado e silenciosamente, comecei a descer a colina.
Outro homem saiu de dentro da coisa, quando ela parou de se locomover, então eles começaram a brigar. Não entendia o que estava acontecendo, mas parecia com as brigas de lobo que estava acostumada, logo me lembrei de quando meu pai teve que defender nossa alcateia de um outro lobo no verão.
Mesmo sabendo que tinha que me manter longe, meus instintos foram mais rápidos que meus pensamentos, quando me dei por mim, já estava em cima daquele homem monstruoso mordendo seu braço.
"A sombra escura desperta em mim,
Fogos de artifício explodem em meus olhos,
Todo mundo se afasta do seu lado,
Porque eu estou ficando um pouco mais feroz."
- Growl / EXO