Capítulo Único
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Jordan não piscou. Se o sol achava que podia encará-lo de volta, ia perder.
Do alto da cobertura, Montgomery não parecia uma cidade; parecia um inventário. Prédios, ruas, pessoas — tudo lá embaixo era minúsculo, peças de um tabuleiro que ele já tinha virado de cabeça para baixo e sacudido até os bolsos encherem. O horizonte sangrava em dourado, a cor exata das barras que ele mantinha no cofre em Zurique.
Ele levou o copo à boca. O whisky de trinta anos desceu rasgando, sem gosto, apenas uma anestesia líquida e cara. Sua pele era uma constelação de terminações nervosas. Ele não bebia para apreciar o sabor, bebia para calar o barulho da própria cabeça, aquele zumbido constante de quem precisa da próxima vitória como um asmático precisa de ar.
A luz invadia a sala, batendo no vidro blindado. Não era "magnífica". Era insolente. Aquele clarão todo entrava sem pedir licença, iluminando os cantos escuros que o dinheiro deveria ter mantido na sombra. Jordan odiava o sol pelo mesmo motivo que amava o dinheiro: o sol era a verdade crua, e a verdade era algo que ele tinha passado os últimos sete anos tentando comprar ou soterrar.
Ele se viu no reflexo do vidro. O terno italiano cortado sob medida, o maxilar tenso, os olhos de um predador entediado. Não havia nada de poeta ali. Nada de trovador inseguro. Havia apenas a fome. Uma fome que engolia empresas, cidades e mulheres, e que continuava roncando.
Jordan não se virou. O reflexo no vidro mostrou o funcionário parado na porta, segurando uma caixa com as duas mãos, como se carregasse uma bomba ou uma oferenda. O garoto cheirava a medo e desodorante barato.
— Chegou correspondência. — o rapaz disse.
Jordan girou o gelo no copo.
— Tem um remetente ou é mais um da lista de convidados puxa-sacos?
— É... é um presente de casamento, senhor. Papel de seda. Parece caro.
Jordan soltou uma risada curta, seca. O som de algo quebrando.
— Senhor? Eu não entendo.
— Você é surdo ou só estúpido? — Jordan girou o corpo, a cadeira de couro rangendo. — Eu disse:
lixo. Se não for um contrato ou um cheque, eu não quero ver. Joga essa merda fora.
O garoto engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo. Sem dizer palavra, caminhou até a lixeira de metal escovado e soltou a caixa. O baque surdo foi o único som na sala.
A porta se fechou. Jordan voltou para a janela. O sol tinha desistido e mergulhado no horizonte, deixando para trás um rastro roxo, hematoma no céu. Montgomery começava a acender as luzes artificiais. Melhor assim. A luz elétrica ele podia controlar. A escuridão ele podia comprar.
Virou o resto do copo num gole só. O álcool queimou, mas não foi o suficiente. Nunca era.
✦✦✦
A porta de vidro se abriu, acionando um sino estridente, barato. Jordan fez uma careta. O som combinava com o lugar: pequeno, úmido, cheirando a terra molhada e fertilizante. Um cheiro orgânico que invadiu o nariz dele e brigou com o perfume importado de trezentos dólares que ele usava.
Não havia "outro sol" ali. Havia apenas trabalho braçal.
— Já vai. — a voz veio dos fundos, sem pressa.
Naomi surgiu atrás de uma cortina de contas, limpando as mãos num avental manchado de verde e marrom. Ela não correu. Não sorriu. Parou no meio do caminho quando o viu, e a expressão dela não mudou um milímetro. Não houve o "fraquejar" romântico; houve apenas o reconhecimento frio de um problema que ela teria que resolver.
Ela segurava uma tesoura de poda como se fosse uma extensão da mão.
— A revisão do orçamento é amanhã, senhor Capri. — ela disse. Seca. Voltou a atenção para um maço de gérberas sobre o balcão e continuou a cortar os caules.
Tlec. Tlec. O som era rítmico, indiferente à presença dele.
Jordan sentiu a irritação subir. Ele estava acostumado a parar o trânsito quando entrava numa sala. Naomi nem sequer tinha parado de trabalhar.
— Não vim falar de flores. — ele disse, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do balcão. Ele não pediu licença. — Tem um café na esquina. O dono me deve um favor, vai fechar pra gente. Vamos.
Naomi soltou a tesoura. O metal bateu na madeira gasta. Ela finalmente levantou os olhos. Não eram olhos de quem estava intimidada; eram olhos de quem estava cansada de lidar com crianças mimadas.
— Eu tenho encomendas para entregar. Não tenho tempo para cafés fechados e conversas sobre o passado.
— Eu estou pagando por esse tempo. — Jordan retrucou. A voz dele saiu mais agressiva do que planejava, o "Lobo" mostrando os dentes. Ele apoiou as mãos no balcão, ignorando a poeira de pólen que sujaria o terno italiano. — O cheque que a Gareth assinou cobre o aluguel desse buraco por um ano. Eu te disse. Acho que você pode tirar dez minutos.
Naomi o encarou. Por um segundo, Jordan achou que ela fosse mandá-lo para o inferno. Ele queria que ela mandasse. Ele queria a briga.
Mas ela apenas suspirou, um som curto pelo nariz. Desamarrou o avental e o jogou sobre as flores, sem cerimônia.
— Dez minutos. — ela disse. Não era uma concordância, era um ultimato.
Ela não foi até a porta virar a placa para "Closed". Não pegou bolsa, não ajeitou o cabelo, não checou o batom. Não tocou os lábios como se eles tivessem sido beijados. Ela simplesmente contornou o balcão e passou por ele, cheirando a chuva e esforço físico, ignorando completamente o braço que ele estendeu para lhe dar passagem.
Lá fora, o motorista já segurava a porta do Maybach aberta. Naomi parou, olhou para o carro de luxo estacionado em fila dupla, atrapalhando o trânsito, e depois olhou para Jordan. Havia um desprezo silencioso ali. Ela entrou no banco de trás sem cumprimentar o motorista, sem tocar no couro bege com admiração, sentando-se na ponta do banco como se estivesse num ônibus lotado, doida para descer.
Jordan entrou logo depois, fechando a porta e o mundo real lá fora. O ar-condicionado estava gelado, o isolamento acústico era perfeito, mas o silêncio dela fazia mais barulho do que o trânsito de todo o Alabama.
✦✦✦
O carro parou. O motorista abriu a porta, mas Jordan não esperou. Saiu ajeitando os punhos da camisa, marchando para dentro do café como se fosse o dono do imóvel — e, pelos próximos trinta minutos, tecnicamente era.
Naomi veio logo atrás. Ela não olhou para o chão, nem para o teto luxuoso. Olhou para as costas dele.
Lá dentro, o silêncio era artificial. Jordan estalou os dedos. Um garçom surgiu da sombra com uma garrafa de vinho que custava três meses de salário de um trabalhador comum.
— Château Margaux. — Jordan anunciou, sentando-se sem puxar a cadeira para ela. — Safra de 95. O ano em que saí daquela pocilga onde a gente morava. Achei poético.
Naomi sentou-se. Ajeitou o casaco barato sobre o colo.
— Eu não bebo em serviço. Água. Sem gás.
Jordan riu. O som bateu nas paredes vazias. Ele fez um sinal para o garçom, que serviu o vinho para ele e a água para ela, tremendo levemente. Em seguida, os funcionários evaporaram, deixando os dois sozinhos com o zumbido do ar-condicionado.
— Você continua teimosa. — Jordan girou a taça, observando o líquido vermelho manchar o cristal. — E continua vestindo roupas de liquidação.
— E você continua achando que o preço da etiqueta muda quem está vestindo a roupa.
Jordan parou a taça no ar. O sorriso dele não vacilou, mas os olhos ficaram frios.
— O orçamento das flores está aprovado. Dobre o valor. Gareth não olha extratos bancários, e eu quero que você use o melhor. Nada daquelas margaridas de cemitério que você vendia.
— O orçamento está adequado ao pedido.
— Você não entendeu. Eu não estou pedindo. Estou mandando você lucrar. — ele se inclinou sobre a mesa, o cheiro de álcool e perfume caro invadindo o espaço dela. — Olhe em volta, Naomi. Eu fechei um estabelecimento na Old Cloverdale numa terça-feira à tarde. Eu tenho homens na porta esperando minha ordem para respirar. E você quer falar de economia?
Naomi tomou um gole de água. Devagar.
— Eu quero falar sobre por que estou aqui. Se o orçamento está aprovado, eu vou embora.
— Você está aqui porque eu quero olhar para você.
A frase saiu crua. Jordan não sentia "euforia romântica". Ele sentia a fome de quem vê um objeto antigo numa vitrine e lembra que agora tem crédito para comprar.
— Você não mudou nada. — ele continuou, a voz baixando um tom, tornando-se perigosa. — Ainda tem esse olhar de quem sabe mais do que todo mundo. O mesmo olhar que você me deu quando eu disse que ia embora.
— Você foi embora. — ela corrigiu, a voz monótona. — Você
fugiu.
— Eu
venci. — Jordan bateu a base da taça na mesa. O cristal tiniu. — Existe uma diferença. Eu saí do buraco. Eu construí um império. Eu vou me casar com uma mulher cujo sobrenome abre portas que você nem sabe que existem.
— Então por que está tremendo, Jordan?
Ele travou. Olhou para a própria mão sobre a mesa. Estava firme, imóvel como uma estátua. Mas a vibração estava lá, no ar, no vidro, no peito. Queria saber se era ele quem estava tremendo, ou se era ela quem fazia a terra tremer.
Mas Naomi não olhava para a mão dele. Olhava para o rosto.
— Você me trouxe aqui para se exibir. — ela disse. Não era uma pergunta. — Para me mostrar o terno, o carro, o vinho. Você quer que eu me arrependa. Quer que eu olhe para isso tudo e pense: "Nossa, eu perdi um rei".
Ele só queria uma resposta. Simples. Binária. Sim, você venceu. Não, eu errei. Mas Naomi não dava respostas, ela dava diagnósticos.
— Você perdeu. — ele rosnou. — Você ficou com a poeira e as dívidas. Eu tenho o mundo.
— Você tem um circo. — Naomi levantou-se. O movimento foi suave, sem o rompante dramático de novelas. Foi o movimento de alguém que percebe que o filme é ruim e decide sair do cinema. — Gareth Thompson não é sua esposa, é sua sócia. Esse vinho não é gostoso, é caro. E você não é um vencedor, Jordan. Você é só um menino assustado brincando de banco imobiliário.
Jordan levantou-se também. A cadeira raspou no chão com violência.
— Não vire as costas para mim. Eu posso comprar essa cidade inteira e demolir aquela sua loja amanhã de manhã.
Naomi parou. Virou apenas o rosto. O sol da tarde batia na vitrine lá fora, mas ali dentro, na sombra artificial que ele tinha comprado, ela parecia brilhar sozinha.
— Você pode comprar a loja, Jordan. Mas nunca vai conseguir comprar o que eu sinto quando coloco a cabeça no travesseiro. — ela olhou para ele com uma pena devastadora. — Eu durmo. Você só desmaia.
Ela caminhou até a porta. O sino tocou novamente na saída.
Trim. Jordan ficou sozinho. O vinho na taça parecia sangue velho. Ele olhou para o lugar onde ela tinha sentado. O copo de água estava intocado, o vidro suando, a única coisa real naquela mesa.
Ele virou o vinho na garganta. Não desceu. Queimou.
✦✦✦
A sala de espera cheirava a laquê e um pouco de ansiedade. Jordan ajustou as abotoaduras de ouro. O motorista segurava o Rolex como quem segura uma granada sem pino, com medo de respirar errado perto do chefe. Não havia "amizade" ali. Havia hierarquia. Jordan pagava, o motorista obedecia. Era a única relação honesta que restava naquela sala.
Ele se olhou no espelho. O smoking preto não era só uma roupa; era uma armadura de combate. O tecido italiano escondia o homem e projetava o Deus. Se ele não soubesse que a gravata estava apertada, diria que eram as próprias mãos do destino em volta de seu pescoço, garantindo que ele não fugisse.
Jordan olhou para a entrada. As flores.
Malditas flores. Gareth tinha pagado o triplo. Naomi tinha aceitado. Jordan sorriu com escárnio para os arranjos de lírios brancos. Naomi não era santa; ela era prática. Ela tinha mandado as flores mais bonitas e mais caras do Alabama, não como um presente, mas como uma fatura. Cada pétala branca gritava o preço que ele estava pagando para estar ali.
Ele caminhou para o corredor. O tapete vermelho se estendia como uma língua.
À medida que andava, Jordan não via convidados; via o PIB dos Estados Unidos sentado nos bancos de madeira. Banqueiros, políticos, magnatas. Eles não estavam ali para celebrar o amor. Estavam ali para testemunhar uma fusão. Gareth Thompson não era uma noiva; era um ativo estratégico. O casamento era a assinatura final do contrato que lhe daria a Europa.
Meu dia. Minha esposa. Meu império. Ele repetiu o mantra. Os flashes dos fotógrafos estouraram quando ele entrou na nave da igreja, cegando-o momentaneamente. Era isso. A dopamina. A droga. O mundo olhando para ele.
Jordan chegou ao altar. Virou-se. E então, o mundo parou.
Lá no fundo, na última fileira, onde a luz dos vitrais morria, estava a mancha vermelha.
Naomi.
Ela não estava sorrindo. O rosto dela era uma máscara de pedra. Ela não estava ali para impedir o casamento, nem para chorar, nem para torcer. Estava ali como quem assiste a um acidente de carro: com a curiosidade mórbida de ver o estrago.
O olhar dela atravessou a igreja e acertou Jordan no peito. Não havia amor naqueles olhos. Havia reconhecimento. Ela sabia exatamente o que ele era: um menino pobre fantasiado de rei. Ela estava ali para vê-lo fechar o caixão por dentro.
A música mudou. Gareth entrou.
A multidão suspirou. A noiva inglesa era uma visão de poder, seda e diamantes. Jordan olhou para ela e viu o futuro: jantares beneficentes, capas de revista, contas na Suíça. Era a união perfeita. A união de dois predadores no topo da cadeia alimentar.
Gareth chegou ao lado dele. Sorriu. Um sorriso de sócia majoritária.
O padre começou a falar. Palavras antigas, vazias, sobre "amor" e "fidelidade". Jordan não ouvia. O zumbido na cabeça dele era ensurdecedor. Ele olhou para o fundo da igreja novamente. Naomi ainda estava lá. Imóvel. O vestido vermelho era a única coisa viva naquele mausoléu de pedra e dinheiro.
Ela era a saída de emergência. A porta para o mundo real, onde as coisas doíam, onde o café era barato e o sono era tranquilo.
— Gareth Thompson, aceita Jordan Capri como seu legítimo esposo?
— Aceito. — a resposta dela foi um disparo rápido.
O padre se virou para ele. O silêncio na igreja pesou toneladas.
Jordan olhou para Naomi uma última vez. Ela não desviou o olhar. Ela o desafiou.
Vai em frente, os olhos dela diziam.
Termine o serviço. Vire a coisa que você tanto queria ser. O ar faltou. O "Lobo" dentro dele uivou, faminto, desesperado pela caça, pelo topo, pelo ouro. Mas o menino que apanhava do pai queria correr. Queria descer aquele altar, pegar a mulher de vermelho e sumir na chuva. Queria saber se ela ainda o aceitaria de volta, mas ele não sabia como perguntar.
Gareth pigarreou. Um som discreto, afiado como uma navalha.
Jordan olhou para a noiva. Viu a impaciência nos olhos dela. Viu o contrato. Viu o poder.
Ele respirou fundo. O cheiro de lírios e dinheiro encheu seus pulmões. Ele olhou para o fundo da igreja e, mentalmente, matou o menino pobre. Hesitou, mas o fez de qualquer jeito. Enterrou-o ali mesmo, debaixo do mármore frio.
Jordan Capri endireitou a postura. O sorriso que ele abriu não tinha alegria; tinha dentes.
Naomi se levantou e saiu antes do beijo. E Jordan nunca mais viu o sol.
Fim