ATO ÚNICO
“Se sou chefe dos pecadores, também sou chefe dos sofredores”
— STEVENSON, R. L. O estranho caso de Doutor Jekyll e Senhor Hyde.
%RIONA%.
FIZ UMA CARETA QUANDO MEU NARIZ ARDEU, OUTRA VEZ. Era o cheiro de mirra misturado com jasmim que incomoda. Espalhava-se pelo ar, pungente,
quase sufocante em uma fumaça esbranquiçada que se projetava para fora do
turíbulo, um pouco mais a frente, o
coroinha franzino agitou-o como um pêndulo, de um lado para o outro, espalhando mais e mais o aroma insuportável por toda a nave da
Catedral. Tecnicamente, havia sido um pedido de Laiose Fagan, a futura esposa de Casey, com o propósito de purificar e oferecer um começo
limpo para o matrimônio dos dois. Uma católica ferrenha, é claro, mas todos da família Fagan eram; não que seguissem os desígnios de
Deus corretamente — o pai era um promíscuo de merda, roubou uma quantia considerável do capital de giro de um banco mediano em Swansea, para cobrir com o que havia feito conseguiu convencer um Lorde moribundo a vender-lhe o título a preço de banana, com o novo título, lavou o dinheiro investindo em um pub questionável, até que a quantia inteira estivesse novamente no mercado sem vestígios aparente; a mãe era uma viciada em calmantes tarja preta, com propensão ao misticismo, um problema alcoólico severo, e um personal trainer com um pau grosso o suficiente para a convencer de que sua melhor escolha era continuar com o marido pelo “bem” de sua filha, enquanto dava uma na lavanderia do casarão todas as quintas-feiras a tarde. Não
importava que eles não fossem exatamente quem diziam ser, naquele jogo tudo o que importava era apenas se eles
pareciam ser. E Laiose Fagan, com seu histórico de notas perfeitas, puritanidade religiosa, e juventude era exatamente o cordeiro
perfeito para o sacrifício. Os pais dela não tinham
ideia do que haviam acabado de impor sobre os ombros da filha, no
destino que provavelmente a aguardava — os corações que iriam se partir, o desespero que se tornaria sua companhia, o abate
literal de si mesma —, igualmente, não posso dizer que eles se importam tanto assim com a garota para oferecer pesar pela situação que a colocaram.
Se eles se importassem, não teriam aceitado a proposta do pai de Casey assim tão rápido. Cormac Byrne era apenas um empreendedor
afiado, um CEO de um aglomerado de estabelecimentos que dominavam a vida noturna e especialmente a competitividade com a
outra cerveja preta, mas não era uma boa pessoa. Veja bem,
ninguém poderia ser uma
Guinness, mas isso não significava que
não houvesse espaço para competição; Cormac havia construído um império perfeito para ocultar seu
real trono,
mas este era um detalhe para um outro momento. No momento, tínhamos precedentes mais
sérios do que analisar a fundo a competitividade de empresas de fachadas e nomes laranja para manter o dinheiro circulando sem ter a atenção do principado britânico no nosso rabo. Não, nossa prioridade era ter
certeza de que
Casey não iria fugir do altar. Respirei fundo mais uma vez, como se isso fosse capaz de ajudar-me em algo, e arrependi-me no segundo que uma nova lufada de incenso atingiu meu rosto. Dou um passo para trás, levando minha mão esquerda em direção a meu rosto, tentando ocultá-lo e evitar chamar atenção quando espirrei o mais baixinho que consigo.
É claro que, não importava o
quanto eu tentasse ser silenciosa, Anne Elizabeth Byrne, a
esposa de Cormac,
sempre perceberia minha presença ali. A ruiva endireitou os ombros, elegante e afiada como navalha, lançando-me um olhar severo, repreensivo, fez-me abaixar a cabeça por respeito, uma comunicação silenciosa que compreendia a advertência e a lembrava de que eu,
igualmente, sabia qual era meu lugar. Anne Elizabeth Byrne jamais iria gostar de mim, em sua perspectiva, era o potencial produto de um
affair que acabou muito mal, mal o suficiente para ter feito com que o pétreo e frígido Cormac trouxesse a filha de sua
amante para dentro de casa e lhe reservasse toda sua atenção para compensar a perda da mãe. A verdade é que Anne Elizabeth provavelmente
ainda não tinha consciência de que não eu era filha de Cormac, nem ligação alguma com uma amante. Cormac Byrne
sempre havia valorizado
apenas uma coisa em toda sua vida, e isso era
lealdade. Cega, pura, bruta,
inquestionável; fora o que prometera para mim sobre os corpos de meus pais quando era pequena, o que eu teria se o seguisse.
Veja bem, Cormac me colocou abaixo de sua asa por culpa, isso era
inquestionável, mas duvido muito que tenha sido por algo como uma paixão secreta ou alguma bondade enviesada. Uma dívida
sempre deve ser
paga, era apenas o que era.
Também não me incomodava a ideia de que Anne Elizabeth Byrne visse-me como um bichinho de estimação de seu filho; não estava longe da verdade. Nós dois só tínhamos funções
diferentes naquele lugar. Supunha que Cormac tenha me acolhido por causa disso também; o herdeiro dele
precisava de um escudo. Era boa o suficiente para o trabalho. Mordi o interior de minhas bochechas outra vez, controlando minha respiração para não respirar
mais daquele maldito incenso do que precisava respirar, voltando a endireitar-me, em minha posição ao lado de minha família. Esforcei-me com demasiada concentração para
não expressar o quanto queria rir de toda a situação; o olhar fulminante e ressentido que recebi de Casey, em seu terno impecável italiano de grife, e rosa branca, delicada, presa à lapela do casaco pesado com um dos broches de corvos da família Byrne, permeados por rubis, não ajudava em nada.
Ouvi meu pai soltar um pequeno pigarro baixo, em advertência, e antes que pudesse inventar uma desculpa para deixar minha posição, senti-o tomar minha mão esquerda em seu braço, enroscando-a ao seu lado, como fizera com a esposa. Umedeci meus lábios, trincando minha mandíbula, permitindo-me focar em Laiose Fagan, e mais ninguém.
Quase senti pena da garota; ela era nova, esperançosa demais,
achava que estava se casando por amor — ou que pelo menos estava apaixonada por Casey. É claro que provavelmente se apaixonou pela fachada que Casey apresentou para ela — a que ele era
treinado para fazer; o comerciante, o negociador charmoso e divertido, às vezes, meio espertalhão que fechava os negócios do pai. Ela
ainda não tinha ideia que
Casey quebrava todos seus brinquedos
apenas pelo
prazer de vê-los despedaçados antes de remontá-los como desejava. Para ela, Casey, muito provavelmente, seria um marido incrível, e que ele iria lhe dar uma família perfeita com tudo incluso, dois filhos adoráveis, um menino e uma menina, talvez tivessem mais um num futuro distante para suprir o vazio que a falta de um bebê faria, uma casa confortável no subúrbio de Dublin, e quem sabe, uma casa no lago com pedalinhos em Cork. Uma casa de campo, e natais adoráveis quentinhos que seriam expostos em cartões enviados para toda a família. Algo tradicional, estável e
seguro. Ela
ainda não tinha
ideia de que Casey
detestava a ideia de ter filhos — tanto que fizera uma vasectomia alguns anos atrás
apenas para ter certeza de que não iria engravidar nenhuma de suas prostitutas preferidas por acidente. Casey
odiava o campo, e se fosse escolher um lugar para viver, o desgraçado faria questão de comprar uma cobertura duplex bem no centro de Dublin a caminho dos pubs. Casey cabia
tanto naquele papel quanto
eu o fazia, a diferença é que,
Anne Elizabeth amava
ele, e queria certificar-se de que seu futuro estava assegurado.
Acho que é por isso que ele estava tão puto. Casey
me culpava por não ter tomado seu lugar naquela barganha ridícula; na cabeça dele era para
eu estar fantasiada de noiva naquele altar, não ele, e não com Laiose Fagan. Com o Senhor Fagan, o idiota que havia vendido a própria filha para o demônio e estava sorrindo agora, ao lado da esposa anestesiada como se este momento fosse permeado por felicidade e positividade, e não um abatedouro. Acho que estraguei minhas chances com meu futuro marido depois de quebrar o braço dele. Bem, não posso dizer que me importo muito com isso, e mesmo que Casey ressentisse-me, Cormac havia rido por uns bons trinta minutos quando lhe contei o que havia acontecido, não era como se
eu estivesse em problemas no momento. Desde que eu me lembrasse da minha posição naquela família, não precisava
preocupar-me com mais nada. Casey encarava-me de novo, e meu rosto se contorceu, dessa vez precisei abaixar a cabeça, pressionando os cantos internos de meus olhos, fechando-os como se estivesse com uma dor de cabeça irritante, e não lutando por minha vida para não começar a rir. Exalei baixo, entre os dentes, sentindo meu pai apertar minha mão com advertência.
— Eu recomendo
mesmo que não comece a rir, se o fizer os convidados irão perceber e a família Fagan irá tomar isso como um
desrespeito. — A voz de meu pai soou baixa, quase uma reprimenda sussurrada, mas por trás de seu tom característico, frio e comedido, podia
ouvir um certo humor colorindo suas palavras. Que filho da puta, ele estava tentando controlar o próprio riso
tanto quanto
eu estava. Lancei um olhar de soslaio, e vi os cantos dos lábios de Cormac se retorcerem um pouco. — Olhe para frente,
amendoim, não para
mim.
Mordi o interior de minhas bochechas com um pouco mais de força, mas obedeci sua ordem sem contestar. Concentrei-me em um ponto invisível de uma das colunas da nave da catedral, questionando-me silenciosamente qual seria de fato a cor que a parede possuía, já que o sol poente e as sombras a abstraíam. Ouvi-o soltar um riso baixo, grave que pareceu reverberar do centro de seu peito para fora de seus lábios finos de maneira imponente. Sufoquei um riso com muito custo, acertando a lateral de suas costelas, com força o suficiente apenas para ser percebida, mas não machucá-lo acidentalmente, e isso apenas o fez rir um pouco mais, usando-se de um amontoado de tosses secas para disfarçar o riso. Do outro lado, no altar, Casey parecia
colérico. — oh, isso iria gerar problemas mais tarde. Mas então,
quem em sã consciência gostaria de colocar-se
contra Cormac Byrne? Nem mesmo nossos inimigos o fariam, quiçá seu filho.
Cormac Byrne
sempre havia sido assim desde que me lembro de tê-lo visto pela primeira vez, encoberto pelas sombras e pelo sangue dos meus pais, Cormac era imponente, um predador do topo da cadeia alimentar
mesmo entre os de sua espécie. Fazia facilmente você se sentir pequeno e insignificante, como porventura pigmeus diante de um
gigante, mesmo que, de certa forma, sua aparência fosse meramente medíocre, semelhante a inúmeros outros CEOs. É claro, ele não era exatamente um
CEO, usava apenas a fachada para isso, mas o cabelo grisalho nas laterais, ainda impecável no topo de sua cabeça, cortados cuidadosamente e precisamente em um penteado
slideback, as rugas que formavam-se ao redor de seus olhos azuis afiados, como um lago congelado, a barba feita cuidadosamente para não deixar traço algum de presença em sua face, as roupas caras passadas a perfeição, sem nem mesmo
uma única dobra que pudesse revelar algum deslize ou pensamento adjacente para além de sua vida simples como empreendedor, chefe de uma família de classe alta, competidor direto com marcas de bebida geracionais. Mas é claro que não dava para ocultar a nota sombria que parecia acompanhar seu olhar gélido onde quer que repousasse. É claro que não poderia escapar do monstro que existia debaixo de sua pele, e, embora eu já o tivesse visto em pessoa no passado, conseguia senti-lo presente como uma sombra projetando-se sobre meus ombros. Sobre os ombros de todos ali.
Acho que, considerando nossa história, era de se esperar que eu nutrisse certo ressentimento. Havia sido
ele a destruir tudo o que conhecia, a roubar-me meus pais; mas então era ele que estava encarando-me com aquele olhar cúmplice que sabia que irritava Anne Elizabeth pelo fantasma que
ela havia criado, e era
ele quem havia me ensinado a sobreviver naquele mundo, a controlar minhas emoções e estar
sempre alerta. Não os fantasmas que
eu havia varrido para debaixo do tapete. Havia uma linha desfocada entre nós dois que nunca soube exatamente categorizar, e agora, percebo que não tinha a mínima vontade de examinar a fundo; não queria destruir isso à toa. Não queria perder o único
porto seguro que ainda tinha.
— Isso é ridículo — sussurrei por fim, após ouvir o padre pedir para que Casey e Laiose recitassem suas palavras. Voltei meu olhar por um momento, para as costas de Laiose, observando como a renda contrastava contra sua pele pálida e delicada, tentando controlar o impulso de autocrítica; as minhas possuíam cicatrizes, incidentes e encontros mal calculados com inimigos que haviam me ensinado bem o suficiente para
nunca confiar que minhas costas estavam seguras, a dela parecia porcelana chinesa. Se tocasse, provavelmente perceberia que eram macias. Senti inveja. — Quer mesmo ter Rufus e Cordelia Fagan na mesma mesa que você durante o
Natal? Já não basta o drama com Casey e Finn?
Observei o bom humor de meu pai oscilar brevemente com a menção de seu segundo filho, uma expressão pesarosa surgindo por seu semblante, antes de voltar a mesma frieza e controle que estava acostumada a ver em sua face.
Nunca deixe que suas emoções durem por muito tempo, você sobrevive com racionalidade, não desespero, palavras dele. Apertei meus lábios, tentando não fazer uma careta, estava em pé ao que pareceram
horas, e embora tivesse sido autorizada a usar o que sentia confortável, a gravata ao redor do meu pescoço — para o horror de Anne Elizabeth Byrne — estava começando a incomodar, restritiva demais, e a capela não era lá tão gelada, mesmo que o ar condicionado estivesse ligado, com a quantidade exorbitante de 300 pessoas ali tornava-se quase insuportavelmente
quente para que apreciasse. Nunca fui uma pessoa
calorosa.
— O que a faz pensar que Finn virá esse ano? Depois de nossa última conversa, ele deixou
bem claro o que acha de nossa família. Além disso, Casey e Laiose estarão em lua de mel, em alguma ilha polinésia, acho que conseguimos sobreviver a esta ceia tranquilamente — Cormac pontuou, racional, e dessa vez não consegui conter um sorriso em meu rosto. Desviei-o para o lado, tentando não chamar atenção alguma. A última coisa que precisava era
Casey paranoico outra vez, com os cochichos ridículos entre mim e meu pai. Cormac, para piorar a situação, pareceu estranhamente satisfeito por ter me pegado com as mãos no crime, como sempre fizera desde que era pequena. Aquele olhar de “te conheço” que ele nunca me negou. — E não finja que você não
gostaria de ver um pouco mais de drama na mesa, porque
sabe que a conheço. Tenho certeza de que não está aqui agora
apenas para apoiar seu irmão. —
Seu irmão, meu pai falava com uma naturalidade que era capaz de fazer qualquer um ali
realmente acreditar que saí da boceta de Anne Elizabeth, e não que fui uma de suas vítimas, carregada para a masmorra de bom grado a fim de aplacar alguma culpa religiosa que ele havia desenvolvido por
cinco minutos.
Dei de ombros, discretamente, erguendo meu queixo, dignamente. O padre pediu pelas alianças e por uma fração de segundos, tive
quase certeza de que Casey iria fugir. Ele prendeu a respiração, deu um passo para trás, para o degrau abaixo da linha do altar, a mandíbula tão tensa que poderia facilmente cortar mármore, os olhos, avermelhados, fixaram-se no rosto do pai, e então no meu, e então em Laiose. A jovem não pareceu perceber a hesitação, ou se a fez, atribuiu ao nervosismo gerado pela grandiosidade do evento. Havia fotógrafos do lado de fora da catedral, empresários e parceiros dos negócios de Cormac Byrne
ainda estavam ali para prestigiá-lo, assim como tentar encontrar brechas o suficiente para explorar fraquezas vantajosas para si. Não me entenda mal, aquilo ali era um ninho de víboras, você só precisava convencer-se de que era a
mais venenosa. Mas Casey estava calculando a corrida; reconhecia aquele olhar porque o tinha visto frequentemente desde o
momento que Casey ficou noivo da jovem. Não ia conseguir fugir, todavia, nosso pai havia sido claro, Casey se casava hoje, e se alguém, qualquer um de nós, ousasse atrapalhar, havia uma fazenda ao extremo norte do país com porcos o suficiente para fazer o trabalho em menos de duas horas. Tinha a impressão de que Connor
quase se cagou com a ameaça, Jaime e Angus mesmo silenciosos, pareceram engolir em seco. Acabei rindo de sua ideia, não por desrespeito, mas pelo tiro que aquilo tudo era no próprio pé. Casey não havia nascido para responsabilidades, muito menos para ser um marido; não havia virgem milagrosa no mundo inteiro que fosse mudar isso. Finn teria tido sorte melhor — se
Laiose não o tivesse
trocado. Agora, nossos seguranças mais leais encontravam-se espalhados pelos bancos, discretos, mas presentes, prontos para nocautear Casey se fosse necessário. Com a quantidade de pessoas ali, todavia, comecei a questionar-me se não era algo possível. Se Casey tentasse correr, ele ia conseguir escapar.
— Não pensa em algo assim para você? — Meu pai escolheu
aquele momento para me fazer aquela pergunta, e quase me engasguei com minha saliva. Precisei respirar fundo para não rir, e lhe lancei um olhar enviesado; questionava-me realmente se ele havia a feito por curiosidade ou se foi porque, a próxima na linha do abate era
eu. Estreitei meus olhos, desconfiada. Em todos meus 25 anos, Cormac sempre ficara
feliz de que não tinha planos para casar;
lealdade é para com sua família primeiro, sempre dizia, mas agora? Simplesmente do nada? Chame-me do que quiser, paranoica, pessimista, descrente, mas era fácil perceber uma armadilha quando você se deparava com algo assim. Ergui uma sobrancelha, esperando-o elaborar. Meu pai pareceu desaprovador, mas seu olhar era gentil, paternal demais para assumir que não havia intenção nenhuma por trás. — Não me olhe assim,
amendoim, estou orgulhoso por quem você é, nunca escondi isso de ninguém, mas não sente falta
disso? — Indicou com a cabeça na direção de Casey e Laiose, e precisei trincar os dentes para não rir com incredulidade. Questionava-me se nós dois estávamos vendo a
mesma cena, mas de alguma forma, desconfiava que não. — Uma
família, %Rio%, para
você construir como bem quiser, talvez ter algumas crianças, sua vida não
precisa ser só…
isso. Pode me dizer se algum homem, ou mesmo mulher, a encantou, não ficarei em seu caminho, desde que seja bom para você e respeite nossa família, na verdade, faço gosto. Apenas diga que arranjarei tudo, não precisará se preocupar com nada.
Encarei-o com uma surpresa cômica, e vi os cantos dos lábios dele se contraírem. Não porque continham um riso, mas porque estava começando a ficar
envergonhado. Não era maluca de ferir o ego de Cormac, todavia, então soltei um riso nasalado, depreciativo.
— Eu? — Ofereci a ele um sorriso torto, negando com a cabeça. — Pareço uma esposa para você? — sussurrei fazendo uma careta. Senti meu sorriso alargar com o suspiro pesado de Cormac. Apesar do meu tom leve, podia ver um brilho entristecido surgir ali, quase
desapontamento; isso me incomodava mais do que qualquer outra coisa poderia ter feito, significava que ele
estava mesmo falando sério. — Pai, por favor, a gente sabe que não sou boa em sustentar um personagem por muito tempo, além do mais, quem seria o maluco? — Fiz piada e quase dei risada comigo mesma; podia imaginar-me dando tapinhas, orgulhosa, em meu ombro com meu ombro, eu havia perdido muito tempo criando uma
fama para meu nome, para não ser vista sequer como
potencial noiva. Mordidas, pontapés e amarguras inclusas. Homens possuíam um ego frágil, qualquer coisa poderia afetá-los, por competência, fiz questão de os lembrar
por que deveriam
me temer e não
desejar. Não foi muito difícil.
— Existem alguns,
bem-dispostos, na verdade, não pensa em nenhum nome? — Cormac disse, e soltei um bufar, achando graça de suas palavras. Lancei um olhar descrente na direção do mais velho, tentando
compreender suas intenções. Era alguma aliança que ele queria formar? Ou um outro estratagema para proteger
sua família? — Não precisa sequer ser alguém inserido na elite, querida, Jaime parece gostar muito de você, pelo o que soube até mesmo Casey já notou sua…
apreciação pelo rapaz, e ele é um bom homem, leal a nossa família, e parece fazer sucesso com as jovens — meu pai desdenhou da última parte e tentei não fazer uma careta, porque aquela situação era ridícula; aqui estava, a minha frente, um dos homens mais perigosos de toda Irlanda, e talvez Reino Unido inteiro, brincando de ser
casamenteiro. Se eu
sequer fosse assim tão inocente… voltei meu olhar na direção onde Jaime, um de nossos homens, encontrava-se, perto da segunda fileira à esquerda, cabelos ruivos cacheados ordenados, olhos profundos, um nariz aquilino
muito bom, e uma cicatriz que cortava metade de seu belo rosto. Não posso dizer que fodas escondidas dentro de um carro ou no jardim de Anne Elizabeth tenham conseguido me
convencer que
ele seria um bom marido para mim.
Os olhos de Cormac estavam fixos em meu rosto quando voltei a encará-la.
—
Tudo bem — disse por fim, revirando meus olhos de maneira exagerada. Voltei-me na direção de meu pai, com um sorrisinho que provavelmente o
alerta que não estava levando nem um pouco aquela situação a sério. O que posso fazer? Era uma apreciadora
nata da beleza que a liberdade humana me oferecia.
Gostava de ter
opções, não
certezas. — Me arrume um
cão de guarda. — Alarguei meu sorriso ao ver a expressão de Cormac endurecer, desaprovador. Mordi o interior de minhas bochechas, segurando o riso, quando finalmente aquele espetáculo inteiro acabou; agora vinha uma das partes
críticas daquela situação:
convencer Casey a entrar no avião que o levaria para sua
lua de mel.
— E é por
isso que a senhorita está de castigo, mocinha. — Cormac apontou em minha direção, mas minha petulância compreendia bem o suficiente que, embora ele fosse um homem de
poucas palavras, não era
assim que ele me punia. Ao menos,
não mais.
— Permissão para descansar, senhor — fiz piada e Cormac apertou os cantos dos lábios em resposta. Tentei não suspirar, às vezes meu senso de humor enviesado não acompanhava o dele. Uma falha
minha, certamente. Senti-o apertar um pouco mais o toque em meu braço, como se não desejasse que deixasse seu lado; não era por algum sentimentalismo barato, Cormac não era
esse tipo de pessoa, era sobre
passar uma
mensagem.
Unidade.
Lealdade. Mas não fazia parte daquela família, e seria um erro enganar-me a acreditar que de fato havia um espaço ali, não que Anne Elizabeth não fizesse trabalho o suficiente para refrescar minha memória. Puxei meu braço com um pouco mais de força, apenas para impedi-lo de manter-me ali, e então oferecei-lhe um olhar cúmplice. — Além disso, acho melhor você focar em um problema de cada vez, velhote, você já tem que cuidar de Casey, e sinceramente, boa sorte ao tentar convencê-lo entrar naquele avião. — Dei uma piscadela para meu pai, ouvindo-o bufar e murmurar alguma coisa como “petulante” em minha direção, antes de afagar meu ombro esquerdo, sendo guiado para seguir a procissão de Laiose e Casey para fora da igreja.
Acenei na direção de Casey com um sorriso doce, petulante, e vi quando seus olhos acenderam com uma fúria mal contida — é, ele estava
prestes a explodir, que
bom que era Cormac lidando com ele, e não eu. Não teria tanta
paciência quando nosso pai o tinha. Finalmente livre daquela encenação toda, levei minha mão direita em direção a gravata, afrouxando-a o suficiente para que repousasse contra meu peito, descartando com um movimento de meus ombros o casaco pesado, escuro. Foi uma sorte que Anne Elizabeth tivesse aceitado minha escolha de vestimenta, algo sutil e elegante que pudesse se camuflar contra as paredes adornadas de pinturas neoclássicas da catedral. Ou talvez, ela não se importasse, desde que fosse apenas um fantasma, acredito que eu também não me importava, mas a camisa de alfaiataria branca era irritante o suficiente para parecer me sufocar. Fiz uma careta indicando na direção de Connor e Jaime, para que me seguissem. Embora aquilo fosse um casamento formal, diante executivos e empreendedores que participavam na borda de comando e lucros da empresa de Cormac,
havia sempre algum filho da puta estúpido o suficiente para arriscar. Havia
sempre alguém disposto a fazer um sacrifício “nobre” para atrapalhar nosso domínio.
Impedi-los era a
minha função naquela família.
— Seu pai espera que você participe pelo menos da festa — ouvi Jaime dizer, seu sotaque sulista
quase me fez sorrir, mais carismático do que o tom comedido e frio que estava acostumada; não fui
feita para sustentar conversas fiadas.
— E ter que consolar Laiose pela grande decepção que ela está
prestes a descobrir que a aguarda? Não, obrigada — disse com um sorriso torto, empurrando a porta dupla de madeira enquanto os convidados, padrinhos e madrinhas do casamento se reuniam em algum ponto bonito da igreja, para serem fotografados e parabenizar o mais novo casal. Senti meu celular vibrar em meu bolso esquerdo e precisei tateá-lo um pouco para encontrá-lo. Apertei meus lábios, digitando a senha para desbloqueá-lo. — Além disso, você
sabe que preciso encontrar Finn
antes do
Natal. Alguma notícia sobre?
Jaime soltou um exalo cansado, seguindo-me pela direita, Connor caminhava um pouco mais atrás, pela esquerda. Eram uma contradição considerável, um é alto e com músculos magros, que precisava de ternos feito sob medida para que lhe coubesse no corpo, o outro, bem, tinha a mesma altura que eu possuía e não era lá muito meu fã — não posso dizer que me importava com o que
Connor pensava de mim; era bom saber que suas filhas pequenas
ainda precisavam de bolsas para estudar. Deslizei para o lado as notificações que surgiam pelo aparelho e observei três chamadas perdidas de Brianna. Descartri as ligações de minha melhor amiga — se é que posso chamá-la de tal coisa sendo quem era, vivendo da forma que vivia —, abrindo a conversa com Finn. Cinco mensagens foram enviadas entre a noite de ontem e uma hora atrás: a primeira, uma pergunta, a segunda, um lembrete, a terceira, uma tentativa de apaziguamento, a quarta um aviso, a última um
ultimato. Fui ignorada nas cinco tentativas. Tensionei minha mandíbula, contendo o impulso de xingá-lo, de nós três,
ele precisava ser o mais cabeça dura, certo? Girei meu pescoço, tentando aliviar a tensão crescente em meu corpo, estreitando meus olhos quando vi uma
outra mensagem surgir por minha tela.
Número desconhecido.
Mas sabia
exatamente quem
era.
Porra. — Nada até agora — Jaime resmungou, mas com um tom compreensivo. Não posso dizer se gostava de ouvi-lo oferecer simpatia para mim, ou se isso incomodava-me o suficiente para considerar acertá-lo com meu celular apenas para que tenha motivo para ficar em silêncio. Mantive-me calada, apenas assentindo. — Talvez devesse dar um tempo para ele, %Rio%. Não deve ser fácil ver o irmão tomar tudo o que lhe pertencia.
Soltei um riso seco, mais afiado do que amigável, lançando um olhar desdenhoso na direção de Jaime.
— Ninguém apontou a porra de uma arma na cabeça de Laiose para obrigá-la a casar-se com Casey,
Jaime. O pai dela é um merda e a vendeu,
sim, mas ela
ainda tinha autonomia para
negar — disse um pouco mais afiada do que deveria. Verdade seja dita, estava pouco me fodendo para o que quer que ele estivesse pensando ou nos dramas que Finn estava assim
tão desesperado para
começar, não quando tinha a porra da mensagem em minhas mãos. Desta vez
ele foi sucinto pelo menos,
último andar, à esquerda. Trinquei meus dentes com força, bloqueando a tela antes que um dos dois homens que me seguiam pudessem vê-la, antes de devolver meu celular para o bolso da minha calça. Enfiei minhas mãos ali, inclinando minha cabeça para trás, como se estivesse aproveitando a brisa amena do período invernal a se aproximar. Duas semanas para o Natal, as temperaturas amenas já começavam a tingir o horizonte com a alvura insuportável da neve. Meus olhos, todavia, percorreram os prédios. Último andar, à
esquerda; virei para a direita e foi neste momento que um flash vermelho se encontrou com meu olho esquerdo.
A mira de uma arma, voltei-me na direção de onde o pontilhado vermelho partia, ciente que o centro da mira, neste momento, devia ser o meu peito. Queria gritar, xingar e explodir com o primeiro idiota que aparecesse em meu caminho, ao em vez disso, mantive minha expressão cuidadosamente vazia, firme e distante.
Porra… — Se Laiose escolheu
Casey assim tão fácil, Finn
nunca a teve para começo de conversa. Há oito bilhões de pessoas no mundo, uma boa parte é
mulher, é só parar de chorar e
encontrar a próxima.
Jaime pareceu estranhamente ofendido com minhas palavras, talvez tenha sido mais insensível do que esperava; ou talvez estivesse apenas quebrando-lhe a ideia de que tinha de mim. De qualquer forma, já era tarde demais para importar-me em como era percebida por um dos homens de meu pai, minha atenção estava fixa no último andar de um prédio abandonado ao fim da rua. Quase dei risada, o desprezo amargava minha língua, e a tensão que acumulava-se em meus ombros, pareceu se espalhar pelo resto do corpo.
É claro, que o desgraçado escolheria o único lugar mais
óbvio para ficar.
— Algumas pessoas consideram simpatia um traço de graça, %OHara%. — O comentário de Jaime
quase chamou minha atenção, e voltei meu rosto na direção dele, sustentando seu olhar em silêncio. Estreitei meus olhos, observando seu rosto, agora defensivo. Ah, puta merda, aquilo
não era só sobre Finn, era? Tentei não revirar os olhos, mas os cantos de meus lábios se repuxaram para baixo, em uma
quase careta. Merda, é por
isso que não achava uma
boa ideia encontros casuais,
homens nunca conseguiam deixar
apenas no casual. Eles
sempre precisavam complicar tudo, não?
— E que bem isso já fez a alguém? — Ofereci um sorriso falsamente doce, meus olhos fixos no semblante dele, sem piscar, questionando-me se este era o momento que precisava lembrá-lo de nossas posições e do trabalho que precisava ser feito, ou se ele iria ao menos ser um bom garoto e se comportar. Para meu alívio, Jaime apertou os lábios em uma fina linha rígida, desviando seu olhar do meu rosto. Tomei meu casaco de suas mãos, contando com
Casey para divergir a atenção, ao divergir meu caminho. Ao em vez de entrar no sedan preto que nos aguardava, segui pela viela de pedra, que levava em direção a rua do outro lado da igreja, onde o prédio pela metade,
ainda em construção encontrava-se.
Como sempre,
Casey não me decepcionou. Ele
era um bom garoto, afinal.
E por falar em um bom garoto… •••
Não fazia ideia de quem ele era. Não havia registros de seu nome em lugar nenhum, e a única informação que encontrei sobre
quem de fato poderia vir a ser, era que, ele fazia parte do
SAS; que seu apelido era
Ghost. Tensionei minha mandíbula com força, esmurrando o botão do elevador de carga, sentindo o pequeno tranco que o objeto dá, fazendo-me cambalear um pouco para o lado, antes de alçar a arma que mantenho presa, oculta por minhas roupas, na parte de trás de minhas costas. Era
por isso que preferia usar calças a vestidos — havia muito mais chance de
ocultar uma arma por trás de um amontoado de tecidos do que em um vestido colado que delineava as formas de meu corpo. Não precisava de requinte, precisava de
praticidade; algo
efetivo. Destravei a pistola automática, o ruído,
clic clac, ecoou por meus ouvidos, mas ignorei; o peso frio do objeto se aqueceu sob meu toque, mesmo encoberto pelas luvas. Detestava usar
armas de fogo, faziam barulho demais, atraíam
muito a atenção, mas eram mais precisas e
limpas do que usar uma
faca. Não podia arriscar ter uma mancha marcando o tecido branco de minha blusa, não no casamento do meu irmão. Não quando meu pai havia deixado claro que não queria
brigas ali — já bastava que Casey estivesse travando sozinho.
Retirei a munição, girando-a em meus dedos apenas para verificar a quantidade de balas, calculando mentalmente minhas próximas ações antes de enfiar minha mão em meu bolso por um instante. Quanto tive certeza que meu plano estava alinhado, retornei a munição para a base da pistola, encaixando-a com um clique metálico antes de empurrá-la para cima, e destravar a arma. Tomei o cuidado de raspar a numeração de todas as balas que uso, fazia parte do trabalho ter a certeza de que, se localizada, as provas não fossem voltadas para mim
diretamente, mas isso não significava que não existiam
câmeras pelo prédio. Merda, exalei entre dentes questionando-me o quão fundo naquela armadilha encontrava-me, e o quanto desta
eu mesma havia criado. Girei meu pescoço, sentindo-o estalar, tenso. Exalei por entre meus lábios, o gosto metálico que pairava pelo ar era acompanhado pelo aroma pungente de cimento, areia e poeira. Secava minha garganta, incomodava meus olhos. O elevador parou com um tranco e um aviso estúpido de chegada com um
ping que provavelmente ecoou por todo andar.
Porra… Meu coração disparou. Não havia calculado que o elevador de carga teria um
aviso de parada. Apertei com mais força a arma, o peso familiar contra as luvas em minhas mãos, o metal morno por meu toque, fincou-se contra a palma de minha mão, o suficiente para me fazer lembrar que
estava no controle, só precisava
usar meu cérebro. Trinquei meus dentes, observando a tranca destravar, a grade de ferro enferrujada e com respingos de cimento seco à minha frente continuava no lugar. Era manual, ia precisar empurrá-la para abri-la, mas se o fizesse, ia estar exposta.
Ele vai atirar em mim. Precisava criar uma distração.
Porra, calculei mal para um caralho. Por uma fração de segundos, a tensão apenas
pairou pelo ar ao meu redor, meus músculos latejavam com a pressão de minha tensão, meus ombros doíam, e minha mente corria, desenfreada, pelas possibilidades; eu sairia daqui e levaris um tiro na cabeça, não ia ter nem tempo de
registrar o que aconteceu, eu
ficava aqui, e ia ser alvejada em cinco minutos. Eu saía, e ia estar
exposta por pelo menos cinco minutos até conseguir usar o
primeiro pilar de sustentação que encontrasse, ele conseguiria me matar em menos de um minuto.
Maldito fantasma… o chiado escapou entre meus dentes. Se apertasse para descer, então ia ser uma covarde, e não ia
saber o que
diabos esse desgraçado podia querer comigo
agora. Trinquei com força meus dentes, a pressão tornando-se dolorosa em minhas têmporas enquanto calculava meus próximos passos. Voltar atrás
não era uma opção; iria até o
fim, não importava
o que acontecesse.
Retirei a porra do meu casaco de novo com um plano em mente. Não era bom, sequer cobria
metade das possibilidades que provavelmente acabavam comigo com a porra de um buraco na cabeça, mas era melhor do que
nada. Melhor do que sair daqui sem a
informação que estava atrás. Meu tempo estava acabando, precisava ser
rápido. Apoiei meu pé esquerdo contra a grade de ferro do elevador, empurrando-a com a lateral de meu pé esquerdo, ouvindo um ruído agudo, irritante em resto do metal em atrito, mas empurrei-o o suficiente para que apenas meu pé tivesse criado uma brecha. Apoiei então a sola de meu sapato contra a estrutura de metal, posicionando-me para chutar a proteção de metal do elevador com toda a força que tinha em minha perna. Aproximei-me mais da porta respirando fundo o suficiente para manter o ar preso em meus pulmões. Não ousei fazer mais barulho algum. Concentrei-me em
ouvir, mas o filho da puta
era perigoso porque era
silencioso. Como a porra de um
Fantasma — tão silencioso quanto, não menos preciso. Exalei por entre meus dentes, abrindo meus lábios o suficiente para que o ruído fosse inaudível. Tentei acalmar minha pulsação, manter meus batimentos controlados, precisava que minhas mãos estivessem firmes. Um ruído ecoou um pouco mais a distância, à esquerda, em um ângulo de quarenta
graus. Três, dois…
Chutei com força a grade de ferro, que chocou-se contra a parede contrária com um estrondo alto, um amontoado de poeira se ergue,
quase fazendo-me tossir; minha garganta se contraiu, meu nariz ardeu, minha boca estava seca. Arremessei meu casaco no ar, na direção que assumia que ele estava, ao mesmo tempo que lancei-me em direção ao chão. Rolei pelo meu ombro direito, o mais rápido que conseguia quando ouvi três disparos. Dois acertaram meu casco, um atingiu-me de raspão.
Merda. Disparei o mais rápido que consegui em direção ao primeiro pilar de sustentação que encontrei; era largo o suficiente para providenciar cobertura imediata, mas não o suficiente para mantê-lo
longe. Lancei-me contra o chão, deslizando com a falta de atrito com a poeira de cimento e areia que se espalhou pelo mármore recém colocado, antes de escorar minhas costas contra o pilar. Era grosso o suficiente para cobrir três de mim, mas igualmente era uma armadilha perigosa — estava protegida, mas não tinha visão alguma de nenhum dos lados. Se projetasse meu rosto para a esquerda, ele iria me acertar, se o fizesse a direita, igualmente iria me acertar. Fiz uma careta, praguejando em gaélico. Lancei um olhar em direção ao meu braço acertado, o sangue tingia o tecido branco com o que parecia ser um corte mais fundo do que poderia justificar; quando Cormac percebesse o ferimento,
dificilmente iria poderia alegar que esbarrei em algum lugar, ou que um de seus seguranças me acertaram sem querer. Eles tinham ordens expressas de não me tocar a menos que
ele mandasse — e fazia
anos desde a última vez que ele ordenou que um deles me
segurasse. Desgraçado de merda. Lancei um olhar ao redor, as câmeras estavam cobertas, ao menos
isso estava ao meu favor. Bom. Agora só precisava encontrar uma forma de livrar-me do maldito. Recostei minha cabeça contra o concreto poroso atrás de mim, frustrada, ouvindo-o se deslocar. Botas pesadas esmagando pequenos fragmentos de mármore descartados em algum ponto atrás de mim, próximo do elevador.
Quase abri um sorriso; que idiota de
merda…
— Atirar em mulher sozinha? Isso não parece muito com a postura de um
cavalheiro, não acha? — gritei, mais pela frustração crescente que se projeta em meu peito do que qualquer outra coisa. Fiz uma careta, com raiva, escorando minhas costas contra o concreto poroso e coberto por uma fina camada de areia que acabou manchando minha blusa branca. Porra,
estava ficando cada vez
mais difícil encontrar uma explicação plausível para meu pai. Afinal, a última coisa que ele iria acreditar era que fui
“sequestrada” por algum inimigo, conhecendo meu
histórico. Havia um
motivo para que fosse
eu o escudo, e não
Casey. Havia um motivo para que eles viessem atrás de
Casey e não de
mim. Fiz uma careta, frustrada.
— Sempre trato
damas com respeito — ele retorquiu, o sotaque pesado britânico dando nos nervos. Tão polido, tão miseravelmente elegante, que quase cedi ao impulso de
vomitar. Se havia algo que odiava
mais do que dramas desnecessários em família, eram
justamente os britânicos. E não era
apenas porque era irlandesa. — Mas ainda não achei nenhuma
aqui,
luv¹.
Filho da puta. Soltei uma risada nasalada, sem conseguir me conter. Tudo bem, tudo bem, aquela foi boa, tenho que admitir. Não vou me importar de arrastar a porra de sua cabeça para casa e usá-la como troféu mais tarde. Arranquei com meus dentes uma de minhas luvas, e projetei-a para fora de minha cobertura. Meu coração martelava contra meu peito, intenso o suficiente para fazer com que meu foco estivesse fixo
nele. O disparo acertou a minha luva, derrubando-a no chão com um buraco grotesco no tecido.
Te peguei. Lancei-me para o lado contrário, mirando na figura alta, com o rosto coberto por uma balaclava, encoberto por sombras que projetava-se contra um pilar de concreto do outro lado do espaço consideravelmente grande. Peguei-o desprevenido, desta vez, ao disparar em sua perna direita, de apoio, e então seu antebraço esquerdo que empunha a arma. Os olhos castanhos claros, cor de avelã dele, arregalaram-se por trás da balaclava que ocultava sua face. Não lhe dei tempo para se recuperar, girei a arma em minha mão, abandonando seu propósito imediato, e usando-a como um peso para acertá-lo. Chutei com força a lateral de seu joelho esquerdo, ouvindo-o grunhir com a dor do impacto, ao mesmo tempo que tentava acertá-lo com toda a força que tinha em meu corpo e braço. Precisava fazê-lo soltar a merda da
sniper. Se ele conseguisse espaço suficiente, então acabou para mim. Merda! Eu e minha curiosidade…
Acertei com violência a lateral direita de seu rosto com o cano da arma, lançando-me para trás quando ele girou a sniper em suas mãos tentando acertar-me com a coronha da arma pesada.
Quase acertou minha costela, aproveitei a abertura em sua postura para chutar a perna direita ferida dele, ouvindo-o sufocar um grito de dor e raiva, enquanto seu corpo projetava-se para frente. Sua perna direita cedeu sob seu peso, e ele caiu parcialmente de joelhos à minha frente, acertei com força seu pulso, obrigando-o a soltar, antes de chutá-la para longe. Ele pareceu desistir de recuperar a arma, e avançou em minha direção. Derrubou-me com facilidade, o impacto roubou o ar de meus pulmões e fez com que estrelas explodissem por minhas pálpebras. Por uma fração de segundos tudo o que consegui registrar foi dor. Espalhava-se como ondas elétricas por minha corrente sanguínea, amortecia o restante e fazia-me refém de minha própria pulsação. O martelar intenso abafava todo o resto, a dor cegou por tempo o suficiente para que o instinto tomasse controle da racionalidade — meu segundo erro. Agarrei por instinto parte de sua balaclava, rasgando-a com a força que coloquei ao tentar tirá-lo de cima de mim, minhas unhas fincaram-se abaixo da carne que o tecido protegia, lhe rasgando com violência o suficiente para que ao menos
duas unhas minhas se quebrassem. Mal registrei a dor, usando o momentum de distração dele para acertá-lo com força na costela e empurrá-lo para longe de mim. Ele desabou ao meu lado, parecendo levemente desorientado, mas não demorou a recuperar-se.
Um grito furioso e permeado por dor escapou de minha garganta quando senti agarrar com força meu rabo de cavalo, puxando minha cabeça para trás, impedindo-me de arrastar-me para onde
sua arma encontrava-se. Ele me arremessou de volta ao chão. Obriguei-me a usar o impacto para rolar por meu próprio corpo até conseguir me colocar de pé outra vez. Empunhei outra vez minha arma, mantendo a mira fixa no centro da cabeça dele. Um exalo frustrado escapou de seus lábios, parcialmente revelados do amontado de tecido que havia rasgado. Sua balaclava agora revelava a lateral da mandíbula quadrada, bem-marcada, a barba por fazer tinha
claros indícios do sangue que havia arrancado com minhas próprias mãos, os cantos dos lábios revelavam as cicatrizes que provavelmente emolduravam seu rosto. Se havia uma consistência sobre ele, era que
nunca arrancava aquela porcaria de balaclava. Manteve sua identidade secreta e dificultava o rastreamento, já que não tínhamos um rosto, só a menção de um apelido ridículo, e um padrão de comportamento — poderia ser qualquer um —, mas pela primeira vez, em muito tempo, desde que o nome dele
surgiu em meu caminho, questionei-me se a motivação por usar aquela merda de tecido, era
outra. Talvez não fosse
apenas para ocultar sua identidade; talvez fosse
mais pessoal.
Ghost se deixou sentar em seus calcanhares, ainda de joelho, ofegante e com as roupas desalinhadas como as
minhas. A diferença era que suas roupas eram projetadas para combate, as minhas, faziam
parte do código de vestimenta de um evento público, e agora
eu teria muito o que explicar para meu pai. Que merda! Ele ergueu as duas mãos para cima, em um aviso de rendição, os olhos castanhos claros, como avelãs cintilavam com um brilho perigoso, não era capaz de dizer exatamente por que me incomodava, mas era a certeza de que, naquele jogo de poder, vantagem era
ilusão. Ele poderia estar ajoelhado à minha frente, mas tinha a sensação gritante de que não era
eu no controle
daquela situação. Dei um passo na direção dele, e então outro, até parar a sua frente.
— Cinco palavras, ou atiro em você — cuspi as palavras, junto com a mistura de sangue e poeira que acumulava-se em minha boca. Fiz uma careta, tinha mais arranhados do que supus que teria, mas então, foi
ele quem começou.
Ele pendeu a cabeça para trás, o canto de seu lábio cheio de cicatrizes se curvou para cima, desdenhoso, afiado como navalha. Isso
apenas serviu para me irritar ainda mais. Apertei com força a arma, considerando apenas dispará-la de uma vez. Seria melhor do que ouvi-lo, afinal, um problema a menos para Cormac preocupar-se; mas era a merda da minha curiosidade que o deixava vivo. Porque
Ghost podia ser muitas coisas, mas suas informações
nunca eram
inúteis. Ao menos não a médio prazo. Tensionei minha mandíbula com força, tentando controlar minha própria frustração.
— Vai se foder… — ele começou a dizer, mas o silêncio com um disparo que passou
muito perto de sua cabeça. Vi-o se calar, a mandíbula tensa o suficiente para fazer um pequeno músculo projetar-se por sua pele ensanguentada, antes de apoiar a arma abaixo de seu queixo. Pressionei o cano da arma ali, empurrando sua cabeça para trás, a fim de encarar-me.
—
Duas palavras — avisei com veneno.
Algo atravessou seu olhar. Quente, intenso e
furioso. Se fosse capaz, teria me matado apenas com aquele maldito olhar, e não pude conter um sorriso com a ideia — deixe-o tentar.
Gostava da sensação, mais do que a do poder de tê-lo a minha mercê como bem desejava.
— Retribuição. — Estreitei meus olhos tensionando a mandíbula. Tudo bem, ele foi esperto, usou apenas
uma para dizer o que queria. Não movi um músculo, presa no acumulativo de tensão que permeava por meu corpo, mas ao menos, abaixei a arma vagarosamente. Se Ghost estava satisfeito ou não, não era capaz de dizer, seus olhos por trás da balaclava não revelavam muito, mas podia
sentir que havia algo em sua postura que informava-me que ele
finalmente havia conseguido a mão ganhadora naquele maldito jogo. Merda…
Vi-o levantar-se deliberadamente, o movimento calculado não era proveniente do medo, mas de uma pequena exploração de minhas vulnerabilidades; ele não estava levantando-se apenas para impor-se sobre mim como a sombra de uma montanha, ele estava
ganhando tempo.
— É muita audácia da sua parte achar que eu…
— Observei você por muito tempo. Tínhamos um acordo porque existia um entendimento em comum. — Ele não precisava dizer o nome, estava implícito na maneira com que
ambos sentimos o gosto amargo permear nossas bocas.
McTavish. Aquele idiota… — O jogo mudou. Agora você paga a
sua parte.
Não contive um grunhido baixo, irônico, queria
tanto ferrar sua têmpora com a coronha da arma que podia sentir os músculos de meu corpo tremerem.
— E quem é o alvo desta vez?
— Price. — É só o que disse.