Horses

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 01

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

  Desde criança %Lua% sempre foi apaixonada por cavalos e montaria, e a mulher tinha total consciência de que esta era uma paixão e também um privilégio. Filha de pai e mãe militares, %Lua% nasceu em um lar pouco modesto, embora nada luxuoso, apenas pertencente a uma classe que permitia facilmente que a garota transitasse entre country clubs, bailes e eventos sociais e claro… Fosse uma praticante do hipismo. Com seus 27 anos de idade, %Lua% já havia ganho 15 competições do esporte e era considerada uma jockey talentosa e promissora. E também nesta idade, algo que mudaria sua trajetória aconteceu.
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Competição no Jockey Club Brasileiro, Gávea, Rio de Janeiro.

  A pista do Jockey Club Brasileiro localizado na Gávea, estava como sempre impecável desde 1932. A família Coutinho, herdeira e responsável pela manutenção do turfe não apenas no Rio de Janeiro como no Brasil, tinha o JC como um patrimônio inestimável. Ali, a elite carioca e brasileira se reunia desde a década de 30, e %Lua%, apesar de pertencer ao que eles chamariam de “elite emergente”, já competia naquela pista há cinco anos. Estava familiarizada com o local, inclusive com o calor que era comum.
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  Era favorita para ganhar mais uma vez, e %Lua% não precisava preocupar-se com nada. Exceto, com Crystal, sua égua que apresentava-se inquieta desde a chegada ao Jockey.
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  — O que há com ela, Fabrício? — A jockey perguntou ao veterinário.
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  — É aquela osteocondrite dissecante do jarrete, ao que tudo indica é congênita, já que a Crystal sempre apresenta este quadro, mesmo sem executar tantos esforços. Mas precisamos levá-la para alguns exames.
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  — De novo, Fabrício? E a fisioterapia dela? E o tratamento que a Isabelly tem feito com ela em todos estes anos?
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  — É eu sei… Me preocupa se a condição progrediu e se chegou, precisaremos de cirurgia. Há quanto tempo Crystal não apresenta efusão articular?
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  %Lua% pensou um pouco, mordendo os lábios e contando nos dedos.
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  — Quatro meses! Desde a minha última competição.
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  — Isso não é legal, %Lua%… — O veterinário confessou — Talvez seja melhor ao final dessa competição encaminhar a Crystal para o consultório e… Aposentá-la.
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  — O quê? — %Lua% se desesperou — Aposentar ela? Fabrício eu não estou pronta para isso!
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  “Atenção a todos jockeys, encaminhem-se com seus equinos imediatamente aos seus paddocks³ e preparem-se para o início da competição!”
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  O alto-falante do JC ecoou a mensagem e %Lua% sentiu-se pressionada e preocupada.
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  — E agora Fabrício!? Eu não vou poder competir, é isso?
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  — Acalme-se %Lua%! — O veterinário pediu — Vai passar seu estresse para a Crystal desse jeito! Olha, eu vou ministrar uma injeção anti inflamatória nela e vocês se preparam, de qualquer modo vamos monitorar o desempenho dela. Mas %Lua%, lembre-se que eu não vou ser negligente com a saúde da Crystal, se eu mandar parar, então você tem que parar, ok?
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  — Claro, Fabrício! Claro!
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  %Lua% e Crystal foram então, ao início de sua competição. %Lua% não competiria apenas no individual como na categoria de equipes.
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  Na disputa por equipes, os conjuntos são compostos por quatro atletas, e as piores notas da equipe são descartadas no decorrer da competição, a fim de que estabeleça-se uma média. Já na disputa individual vinte atletas são classificados para as duas rodadas finais competindo entre si, e vence aquele que obtiver o menor número de erros em suas execuções. No hipismo, as modalidades são “Salto”, “Adestramento” e “Concurso Completo de Equitação” (CCE). %Lua% era especialista no Salto e no CCE. E dentro da categoria de equipe, ela já havia competido CCE.
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  No “Concurso Completo de Equitação”, uma combinação entre as provas de saltos e adestramento, e ainda cross-country, as provas são realizadas em uma pista de 20 por 60 metros, com solo de areia, e os atletas devem realizar movimentações de manobras obrigatórias, previstas e pré-determinadas pelo programa de provas. %Lua% havia competido com Crystal no cross-country pela categoria de equipes, há três dias. Aliás, essa poderia ser uma prova extenuante para os cavalos a depender de suas condições, e que poderia supor a piora no quadro muscular da Crystal. Para o cross-country, o jockey deveria passar por obstáculos naturais como tanques, troncos de árvores, cercas, subidas e descidas em uma prova de corrida que tinha duração de três dias em um percurso já determinado. Cada dia de cross-country realizado era considerado uma etapa do CCE, portanto, %Lua% estava agora competindo na etapa de saltos e adestramento por equipes.
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  — %Lua%! — Marion, sua colega de equipe, chamou-a do paddock ao lado. — Está tudo bem com a Crystal? O Eli me disse que você achou-a estranha.
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  — Sim Marion, não se preocupe. — %Lua% foi objetiva na resposta.
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  %Lua% não gostava de demonstrar quando sua égua estava mal nas competições. Na verdade, nem a si mesma. Marion não insistiu e foi ela quem saiu primeiro para a primeira exibição de adestramento. Em seguida, Eli, o colega atleta delas, Ruan, e por seguinte, %Lua%.
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  Quando %Lua% entrou na pista de exibição dos animais, acompanhada da sua excelentíssima e vigorosa Crystal, todo o público presente aplaudiu e os locutores da competição em tom de voz calmo, reverenciavam-nas em elogios. No hipismo, a plateia e todo o ambiente deve ser mantido em certo barulho controlável, mais próximo ao silêncio para assim manterem os animais calmos. A jockey realizou os primeiros movimentos de adestramento da égua, que apesar da aparente mudança de humor que sua tutora reconheceria à distância, participou de uma excelente exibição. Crystal saiu da pista novamente sob elogios dos comentaristas, mas %Lua% mantinha-se preocupada, principalmente pelo relinchar irritado que sua égua lançou ao retornar ao paddock.
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  — Eu sei que você está cansada e com dor, minha amiga. Mas vamos aguentar só mais este dia, sim? Prometo que depois de hoje, você poderá descansar… — %Lua% falava baixinho com o animal, acariciando a cara de Crystal e sentindo as lágrimas escorrerem de seus olhos. Ela não estava mesmo pronta para aposentar sua companheira.
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  — E então %Lua%, como ela respondeu? — Fabrício surgiu ao lado das atletas, acarinhando a equina com cuidado.
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  — Está estressada, é notório. Mas vou tentar a prova de saltos com ela.
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  — %Lua%, talvez você devesse não competir no individual. Será desgastante para a Crystal.
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  — Sabe me dizer se dentre os cavalos do jockey, Pimpão está disponível?
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  Pimpão era um cavalo do Jockey Club, cujo qual as aulas de equitação e montaria eram realizadas com ele. Era um dos muitos animais do clube e velho conhecido de %Lua%, já que foi nele que ela treinou no início de suas competições. O temperamento do cavalo era dócil e alegre, o que originava seu nome.
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  — Atualmente ele só é utilizado para a equoterapia, %Lua%. Impossível o jockey liberá-lo para você, ainda mais que… Pimpão já está velho.
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  — Mas ele era o melhor cavalo! — %Lua% reclamou e não insistiu, compreendendo bem a situação.
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  — Eu posso tentar achar outro substituto para você…
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  — Faça isso, por favor, Fabrício. Não acho que será preciso… Sei que minha velha amiga vai aguentar mais essa última competição comigo, não é Crystal? — %Lua% disse suplicante para sua equina que soltou um bufo relincho e abaixou a cabeça diante da tutora. — Mas vê? Ela está cansada, então seria bom ter um plano B.
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  — Poupá-la é o mais certo mesmo %Lua%, não se sinta frustrada com isso.
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  Os dois assentiram, e então %Lua% abraçou a cabeça de sua égua enquanto aguardavam a prova de saltos. Depois que Ruan saiu da sua prova de saltos com nenhum tipo de problemas, — aliás, a equipe de %Lua% estava indo muito bem — ela já estava pronta e montada em Crystal. Entraram na pista de novo, as duas majestosas e todos estavam ansiosos por aquele momento. %Lua% e Crystal eram imbatíveis nos saltos! Era dentre todas as modalidades, a favorita também de quem as assistia.
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  Crystal obedeceu ao comando inicial de sua jockey, iniciando o trote até a primeira estação da prova, e %Lua% abaixou-se à altura da égua falando com ela, enquanto preparavam-se para saltar o primeiro obstáculo:
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  — Você consegue Crystal! Vamos fazer como sempre e nos divertir, ok?
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  Crystal saltou sem nenhum problema ao tanque, o primeiro obstáculo. Continuou o seu trote rumo à segunda estação da prova.
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  — Muito bem, minha amiga! Muito bem! — %Lua% incentivou e ergueu seu tronco, em sua pose elegante e esportiva.
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  Crystal saltou o segundo obstáculo também sem interferências, depois o terceiro, e na quarta estação era onde as coisas começavam a complicar. A distância entre os obstáculos ficam menores e os saltos maiores, exigindo que os atletas (tanto jockey quanto animal) se esforçassem mais em velocidade e precisão. %Lua% começou a sentir que Crystal estava nervosa, a partir da quinta estação de prova, e ainda faltavam três obstáculos. Na sétima estação foi onde tudo aconteceu. A cerca de 1,50 metros que para a potência muscular da égua era quase nada, naquela manhã, parecia um paredão. Crystal não suportou o salto, sentindo na fase de impulsão uma dor aguda na patela da perna traseira esquerda, e seu salto foi comprometido. A égua tropeçou na segunda barra de madeira do obstáculo, levando não só parte do obstáculo ao chão, como também caindo relinchando em agonia. %Lua%, quando via que na queda sua égua poderia cair sobre si, lançou-se para fora do animal rolando pela pista. Depois de ver Crystal agonizante no chão, morrendo de dores, %Lua% não demorou a se levantar e ir até a égua preocupada. Fabrício já corria para a pista junto à equipe de veterinários.
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  — Remoção de animal! — Ele gritou para a equipe de apoio enquanto entrava correndo.
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  %Lua% viu os músculos embolados na perna traseira de sua amiga e começou a chorar preocupada, Crystal relinchava e batia a cara no chão, como se estivesse revirando-se em dor.
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  — Calma minha Crystal, nós vamos cuidar de você! Acabou, acabou! — %Lua% dizia chorosa abraçada ao pescoço da égua e fazendo carinho em sua cara.
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  Os veterinários logo que chegaram viram o estrago e Fabrício suspirou. Eles removeram a égua da pista e levaram-na imediatamente ao centro de atendimento. %Lua% os acompanhava desesperada, sem dar qualquer atenção maior aos jurados, restante de provas e/ou seus colegas de equipe.
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•🏇•

  Eles haviam ficado meia hora analisando a égua em exames de imagem. Crystal já estava cansada e um pouco dopada.
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  — É uma cirurgia muito extensa, Fabrício, e a recuperação dela pode ser pior! Sacrificá-la será menos doloroso para ela!
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  — De jeito nenhum! — %Lua% ecoou contra a sugestão de um dos veterinários que examinavam à Crystal.
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  — Eu sou contra o sacrifício animal, Jorge. Tentaremos salvar a vida dela seja qual for a circunstância! — Fabrício deu sua última palavra como chefe médico da equipe. — Temos que levar ela ao centro cirúrgico, %Lua%. Não se preocupe, eu cuidarei bem dela, ok?
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  Marion entrou apressada na zona médica veterinária procurando por %Lua% e quando avistou-a conversando com Fabrício indicou:
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  — Amiga, você precisa vir se ainda for competir no individual, agora. O treinador está no paddock com seu novo cavalo.
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  %Lua% olhou para a égua deitada sofrida e chorando declarou:
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  — Não vou competir. Não quero!
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  — %Lua%, por favor não faça isso! Pela Crystal! Você precisa fazer valer o esforço da sua égua até aqui, ao menos brigando por aquele troféu!
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  — Ela precisa de mim, Marion! Não posso deixar ela sozinha!
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  Fabrício tocou os ombros da amiga e a tranquilizou:
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  — Vá competir. Eu consegui um bom cavalo para você, o Bóris. Ele é um campeão também, tem a idade da Crystal e uma boa experiência com provas e salto. Ficar aqui com ela agora não vai adiantar, temos que anestesiá-la e removê-la logo. Então vá para a prova, e quando tudo acabar venha ao meu hospital aguardar sua amiga no fim da cirurgia dela, ok?
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  — Promete que vai cuidar dela, Fabrício? Não vai deixar fazerem nenhuma maldade com ela?
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  — Prometo! Pode ir.
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  Eles se abraçaram, %Lua% foi até a Crystal acariciando a amiga equina, olhando nos olhos brilhantes e tristonhos da égua, e implorando por perdão. %Lua% sentia-se culpada pela dor que seu animal vivia agora, e prometendo ir logo ao encontro dela, %Lua% saiu olhando para trás e vendo sua amiga ser preparada para remoção a um veículo móvel.
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  Marion tentava acalmar %Lua% com palavras de incentivo, abraçada à amiga, mas a verdade era que %Lua% não conseguia mais pensar em nada. Ele até tentou relaxar depois da familiarização com Bóris, feita por seu treinador no paddock, ela tentou se concentrar enquanto estava montada ao animal, mas… Não conseguia deixar de sentir um peso no peito.
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  %Lua% entrou para a prova individual de saltos aparentemente equilibrada e elegante, por fora. Contudo, por dentro, estava uma pilha. Ela estava agindo no automático sob o cavalo, o que foi seu problema, pois, diferente de Crystal, Bóris não tinha com ela a mesma química de anos. Não foi culpa do cavalo quando, preparados para a terceira estação de obstáculos, %Lua% escutou o relinchar de longe de um animal que ela sabia e sentia, era o grito de sua amiga Crystal. A jockey assustou-se virando o tronco e a cabeça para trás buscando Crystal com o olhar, tentando vê-la sendo removida, mas não seria possível da pista. O ecoar do relinchar da égua em seus ouvidos, só foi substituído pelo coletivo “Oooooh”, da plateia que a assistia. Bóris travou antes de saltar o obstáculo, e %Lua%, totalmente fora de postura e desequilibrada, foi lançada para longe. %Lua% bateu a cabeça no chão e com o relincho de sua amiga nos ouvidos, fechou os olhos, pouco a pouco.
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