Golpe de Amor


Escrita porKelsea
Revisada por Lelen


Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

  Os olhos de Laura ardiam, enquanto encarava a barra vermelha se movendo de forma lenta na tela do computador à sua frente, alguns segundos e seriam pegos. Por mais que já estivesse acostumada à sensação de adrenalina, aquilo era diferente, era mais do que apenas uma artimanha, era o golpe definitivo, capaz de lhe devolver de uma vez o futuro que lhe havia sido roubado tão cedo.
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  Como se quisesse se defender, suas memórias a levaram para quando tinha apenas dez anos, a garota de cabelos castanhos e seu irmão mais velho, Thomás, foram deixados pelo pai no orfanato da cidade. Mesmo depois de adulta, a cena ainda assombrava seus pensamentos. A maneira como seu pai saiu com carro sem nem olhar para trás enquanto ela gritava seu nome, entre lágrimas, sem entender direito o que estava acontecendo. Porém, de alguma forma sabia que seu pai não a amava mais. Sua cabeça indecente puxava na memória algo que poderia ter feito de tão grave para que isso acontecesse, mas nada aparecia, até porque, sempre havia sido uma garotinha doce e comportada.
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  Em meio às lágrimas, a jovem menina se aconchegou nos braços do irmão, sem se importar se o sufocaria devido a força com que o apertava. Thomás, por sua vez, compadecido pela situação e mais preocupado em consolar a irmã do que a si mesmo, a acolheu.
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  — Calma, Laura, está tudo bem. — Ele passava os dedos pelos fios castanhos da caçula.
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  — Não, não está tudo bem, Thomás, o papai se foi, o que vai ser de nós dois aqui, sozinhos?
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  O garoto mais velho, também jovem, no auge de seus treze anos, também estava apavorado, afinal não tinha a resposta, porém precisava ser forte, então, por instinto, virou a garotinha para si, antes de dizer:
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  — Me escuta, Laura, o papai pode ter te deixado, mas eu nunca vou te deixar, prometo, a partir de agora seremos só nós dois e desde que fiquemos juntos e que você me escute, nada irá acontecer!
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  A garotinha, ainda em choque, se limitou a dizer que sim com a cabeça.
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  A partir daquele momento ela levou a sério as palavras de Thomás, desde que estivesse ao lado, por esse motivo escutou quando, aos dezessete anos, influenciado por certas más companhias, ele chegou ao orfanato com o primeiro celular roubado, ela o encobriu, acreditando ser o melhor para o futuro dos dois. Também não deu um pio quando, na semana seguinte, ele apareceu com algumas carteiras. Certa vez ela tentou questioná-lo, afinal, mesmo tendo sido abandonada, ela havia aprendido a diferença entre o certo e o errado.
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  — Thomás. — Ela se aproximou cabisbaixa.
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  O garoto deixou as carteiras roubadas de lado e a encarou com as sobrancelhas franzidas.
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  — Eu sei que você sempre fala que nós devemos sobreviver e que está fazendo isso pelo nosso futuro, mas não há outras maneiras, quer dizer, você poderia parar de matar aula, se dedicar mais à escola ao invés de passar seu tempo…
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  O mais velho desceu da cama como se tivesse sido ofendido de forma pessoal.
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  — Laura, irmãzinha... — Ele se aproximou de forma ao mesmo tempo aconchegante e ameaçadora. Por mais que confiasse ao irmão de olhos fechados e, até o momento, ele sempre a tivesse tratado com carinho, a jovem de agora quatorze anos, sentiu uma pitada de medo crescer em seu peito. — Nós já falamos sobre isso. Eu estou aqui arriscando meu pescoço, e você vem querer me falar que estou errado?
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  — Não é isso, Thomás, mas o que você está fazendo é errado, e se a diretora descobrir?
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  A menção ao nome da coordenadora do local onde moravam, fez o garoto cerrar os punhos de forma discreta, mas o suficiente para que Laura sentisse sua garganta secar.
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  — Ela não vai descobrir a menos que você me dedure, e você não faria isso, não é, irmãzinha?
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  Laura fitou os olhos do irmão por alguns instantes, seu coração doeu ao constatar que toda a ternura, todo o carinho, pareciam ter desaparecido, era como se ele estivesse se tornando uma nova pessoa que ela não reconhecia, porém, ainda assim, era seu irmão.
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  — Claro que nunca faria isso, Thomás.
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  — Eu sei que não, Laura, você não quer me ver no reformatório no meio de delinquentes.
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  A visão de seu irmão atrás das grades e de cabeça raspada e num reformatório lhe causava pavor, afinal, ele era a única família que lhe restava, a havia protegido e dado o amor paterno do qual tanto carecia, porém, naquele instante ela não estava certa de que era esse tipo de amor que queria, entretanto, era melhor do que nenhum.
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  — E eu sei também que você não duraria um dia aqui sem mim.
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  Claro que esse era o pensamento de Thomás, afinal, ele sempre a enxergava como a irmã caçula boba, incapaz de lidar com as outras meninas que a perturbavam e faziam piadas. O que mais doía era a constatação de que ele não estava errado.
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  Laura sentiu sua mente ser invadida por imaginações do que poderia acontecer caso ela se afastasse de Thomás, e de forma involuntária, as lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas.
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  O irmão mais velho, de forma protetora, mas ao mesmo tempo manipuladora, a envolveu em seus braços da mesma forma que naquele fatídico dia do abandono.
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  — Ah, minha doce Laura, irmãzinha querida, não precisa se preocupar, eu não vou a lugar nenhum, quer dizer, isso só depende de você.
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  — Eu sei e já disse que nunca vou te dedurar.
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  — Essa é minha pequena Laura! Lembra do que eu te falei no dia em que chegamos aqui?
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  — Sim, você disse que se eu te escutasse, tudo ficaria bem.
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  — Isso mesmo, menina esperta, e agora eu estou te pedindo para me escutar!
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  E Laura continuou escutando, manteve o silêncio mesmo quando as armações do irmão pioraram, além de carteiras, havia joias, passagens de aviões e identidades falsas. Porém, quando Thomás completou dezoito anos, foi obrigado a deixar o orfanato, Laura só pôde segui-lo três anos depois quando completou a mesma idade.
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  O mais velho a recebeu em um apartamento grande localizado em uma área afastada da cidade, ela não pôde deixar de perceber que a quantidade de carteiras, joias e artefatos havia triplicado, imediatamente seu coração teve um mau pressentimento.
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  Por não ter outra opção e por, apesar de tudo, ainda amar Thomás, Laura continuou morando com ele, por algum tempo ele a deixou de fora de seus esquemas, até que um dia chegou em casa segurando uma peruca ruiva, lentes de contato azuis e uma identidade falsa. Seus lábios formavam um sorriso malicioso.
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  O irmão mais velho afirmou que seria apenas uma “brincadeirinha” a fim de conseguir um dinheiro extra, porém, quando Laura se deu conta, uma pilha de identidades falsas ocupava sua cabeceira. Para cada alvo era uma história triste diferente, uma mãe no hospital, aluguéis atrasados. Para sua sorte, homens ricos costumavam ser muito ingênuos, ainda mais quando estavam diante de uma beldade como ela. Era sempre o mesmo processo,    Thomás escolhia o alvo, analisava sua preferência e com base nisso montava uma personagem para a irmã mais nova interpretar a fim de conquistá-lo. Depois de algumas semanas, ela preparava o bote e assim que tivesse com o bolo de dinheiro em suas mãos, ia embora. Não que ela sentisse pena dos homens ricos que enganava, afinal eles com certeza tinham uma vida de mordomias as quais ela sequer conseguia imaginar, porém estava cansada de interpretar sempre uma personagem diferente. Por pelo menos uma vez, queria ser apenas a Laura, ou pelo menos ver o fruto de seu esforço, já que o bolo de dinheiro sempre ia para as mãos de Thomás. Quando a garota ousava questioná-lo, ele afirmava que iria repartir os lucros com ela quando estivesse pronta. Agora, aos vinte e quatro anos, ela duvidava que esse dia iria chegar, contudo, ao mesmo tempo, não tinha para onde ir, se pelo menos um desses homens ricos cometesse a loucura de a pedir em casamento, ela aceitaria sem pensar duas vezes. Então, teve uma ideia.
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  — Thomás, se eu me casar com um milionário, poderei me ajudar e você poderá largar essa vida! — argumentou na ocasião.
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  O primogênito por sua vez a fitou de cima a baixo antes de dizer:
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  — Você por acaso não está satisfeita com a vida que levamos? Preferia estar naquele orfanato xexelento?
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  — Não é isso, mas Thomás, eu estou cansada de enganar um homem a cada mês com uma peruca escura e cada dia uma lente de cores diferentes. Eu quero mais, e se eu conseguir um marido rico, só tenho que aguentar dois anos, ou menos, dependendo do contrato nupcial e nosso futuro estará garantido. Não é o que você sempre quis?
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  O golpista experiente cruzou os braços.
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  — Isso é verdade.
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  — E eu me preocupo com você, irmão. Eu quero sair dessa vida de tramoias e te levar comigo, pensa só.
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  Ele suspirou, enquanto coçava o queixo em sinal de reflexão.
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  — Tudo bem, eu vou te dar uma chance, porém eu escolho o alvo!
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  — Fechado.
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  Alguns dias depois, Thomás apareceu com um arquivo de informações reunidas sobre Adailton Senna, um jovem piloto bicampeão mundial que, no auge da carreira na Fórmula 1 já acumulava bilhões em patrimônio.
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  — Muito bem, aqui diz que o Adailton é festeiro e já esteve envolvido em alguns escândalos em Mônaco, nada com que não possamos lidar.
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  — Então, eu só tenho que agir como uma piriguete? — indagou Laura folheando os papéis.
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  — Aí é que está, irmãzinha, se o nosso plano fosse que você ficasse com ele por uma noite e engravidasse, porém somos mais ambiciosos do que isso. Quero ver um anel de noivado nesse seu dedo. Um piloto de corrida famoso como o Adailton nunca se casaria com uma garota que ele conheceu em uma festa, não, pois a mídia espera que ele arrume um par à sua altura, alguém de classe, mas é verdade que uma história de superação também vende. Por isso você se infiltrará no campeonato como parte da imprensa!
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  Laura esfregou os ouvidos para ter certeza de que não tinha escutado errado, nos últimos anos havia interpretado inúmeras personagens diferentes, a lutadora, a garota ingênua, a herdeira falida, mas uma jornalista era novidade.
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  — Eu não entendi.
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  — Pensa comigo, o campeonato vai começar no próximo mês, vinte e um países, você terá muitas oportunidades de seduzi-lo.
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  — Certo, só tem um problema, Thomás, eu não sou jornalista, como é que eu vou conseguir uma credencial de imprensa?
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  — Você esqueceu que o seu irmão é um hacker experiente? — A garota cruzou os braços entendendo onde o irmão estava querendo chegar, mais uma identidade falsa.
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  — Certo, mas se essa é a identidade que terei pelo resto da vida, quero usar pelo menos meu primeiro nome verdadeiro.
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  Thomás não criou problemas diante da condição imposta pela irmã caçula.
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  Assim, Thomás usou parte do dinheiro dos golpes para comprar as passagens de avião e Laura passou as últimas semanas estudando o que podia sobre Fórmula 1, como funcionam as cabines, as corridas, as festas… Tudo para que o seu plano corresse da melhor forma possível e para que ela finalmente tivesse sua tão sonhada liberdade. 
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  O bip do computador a trouxe de volta ao momento presente e ela suspirou aliviada ao ler a frase “download concluído com sucesso” piscando na tela.
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  Era a primeira vez que Laura ficava feliz de ver sua foto em uma credencial falsa.
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  — Muito bem, acabei de cadastrar a senhorita Laura Harrison, metade brasileira, metade inglesa. Treine seu sotaque! Agora você é oficialmente parte da imprensa que irá cobrir o campeonato mundial de Fórmula 1!
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  — Mal posso acreditar que isso pode mesmo dar certo! Quer dizer, falta apenas uma semana para o campeonato começar agora e…
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  Todavia, antes que ela pudesse terminar a frase, Thomás advertiu:
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  — Eu te dei o meu voto de confiança, irmãzinha, você terá o tempo do campeonato para fazer o Adailton se apaixonar por você, mas se falhar, terá que voltar para casa e continuará dando golpes para compensar o investimento que fizemos. Entendido?
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  A garota engoliu seco.
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  — Como assim?
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  — As passagens de avião, suas roupas de jornalistas e a identidade falsa, tudo isso custou dinheiro, que será perdido se o plano não funcionar.
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  Laura tentou sem sucesso esconder o choque que invadiu seu peito, mesmo tendo convivido esses anos com irmão e sabendo o que ele havia se tornando, nunca imaginou que ele a cobraria daquela forma.
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  — Mas eu sou sua irmã.
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  — Sim, você é, mas família é família, negócios a parte, achei que já tinha aprendido.
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  A garota lutou para conter as lágrimas que se formavam em seus olhos, precisava ser forte, fantasma forma que havia sido quando o pai a abandonou precisava provar que ninguém nunca mais a abandonaria. Mesmo sendo arriscado, era sua chance de liberdade, de recuperar seu futuro e o de Thomás, não podia desistir. Dessa forma, começou a arrumar as malas, pois estaria a caminho de Mônaco na semana seguinte.
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Lelen

Aaah, que bom que essa história voltooou! Eu gosto da temática dela.
Vamos ver o que a Laura vai aprontar pra chegar onde precisa e quando o Ayrton vai entrar na história!

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