Chapter I
Tempo estimado de leitura: 48 minutos
Havia um homem ao lado de seu machado e sua lamparina, suas mãos marcadas e com algumas manchas, em consequência da exposição ao vento frio e cortante, contrastavam com seu semblante ranzinza em seu rosto fatigado e lábios secos expondo algumas feridas. Ele fitava com olhos cerrados ao longo da imensa floresta que era a vista dianteira de sua casa. Infinitas árvores sacolejantes de um verde escuro levemente mesclado com tons avermelhados de folhas queimadas pelo intenso frio daquela região. O norte da Europa intensamente frio, ainda possuía enormes e belas florestas, algo que poderia ser muito interessante para um lenhador. A região em que morava ficava no sul do país, tinha um quê de antiquada, porém, era um tanto quanto moderna. Então se levantou dali e começou a se distanciar de sua casa na floresta a caminho para a cidade, ele dava passos vagarosos e evitava olhar para as pessoas na rua, não distribuía bom dias e muito menos sorria para aqueles que ficavam o fitando. Ele simplesmente andava em direção ao açougue da cidade como se ninguém mais ao seu lado existisse. Normalmente seu trajeto pela cidade era o mesmo, saía de sua casa na floresta e caminhava tranquilamente até o açougue de seu velho amigo %Carl% %Lindemann% para comprar seu estoque de vinho, cerveja, destilados e carne para a semana. Algumas vezes ia até o bar se distrair e quando estava sem paciência para a conquista usufruía de prostitutas mais baratas e de falsa atuação.
- Ei, velho %Fitzroy%, comecei a pensar que tinha esquecido o caminho para a cidade ou sido comido por algum lobo.
- Suas graças são sempre um convite para vir para esses lados cada vez menos, meu caro. - disse o homem debochando e escorando-se no balcão.
- Você é um dos meus melhores clientes, não acabe assim com o meu orçamento, eu preciso comprar presentes de natal para minhas crianças. Mas então, qual o pedido de hoje? - disse %Carl% colocando um copinho no balcão e o enchendo com alguma bebida barata qualquer.
- Estou necessitado de duas garrafas de vinho e álcool puro para minha lareira e me veja também um lombo gordo, quero comer feito um porco hoje.
- Eu invejo essa sua vida de bebida, sexo e carne. Quem me dera não ser mais um pai casado, frustrado e com o avental sujo de sangue. Mas, aqui está seu pedido, não merece ficar ouvindo minhas lamúrias. - ao ouvir isso, %Fitzroy% colocou a mão direita sobre o ombro de seu amigo e o fitou profundamente.
- Cala essa merda de boca e pare de falar asneiras, crie juízo e continue trabalhando e mantendo sua casa como sempre fez, sem essa de se iludir que eu sou o homem mais foda e feliz de todos os tempos. Mas, antes de fechar o bico, me responde que diabos está havendo naquela igreja, estou vendo uma movimentação, gente andando pra lá e pra cá. Jesus voltou pra terra de novo e ninguém me avisou, é? - %Fitzroy% era um zombador nato e pouco crente nos poderes dos céus.
- Quando o próprio Jesus Cristo te der um tiro de espingarda bem na sua fuça por essas piadinhas infames, quem sabe você pare de blasfemar, seu bastardo. – o açougueiro por outro lado era extremamente religioso - Bem, deixe-me te informar sobre o que está acontecendo. Estamos recebendo um novo bispo na cidade, você sabe como são essas pessoas cheias de dinheiro, adoram bajular, ficar com falsidade e mesquinharia para o lado da igreja achando que vão todos para o céu. Eu juro que queria vender carne com vermes pra eles, pendurar carne podre nas portas de ouro deles e vender pratos feitos com os restos mortais de seus cachorros. Está todo mundo lá, fingindo que ama o bispo e se importa com ele. Eu que sou um fiel verdadeiro e dou meu santo dízimo todo mês, não fico fazendo essas porquics. - %Carl% era um tanto quanto revoltado com sua posição na cidade, era comerciante e com muito dinheiro, mas por trabalhar o dia inteiro e andar pela rua com um avental branco todo sujo de sangue e fedendo carne, não era respeitado por aqueles que tinham empregos um pouco mais nobres.
- Não tem capacidade nem pra matar as baratas que rondam essa joça e fica querendo me enganar com essa conversinha mole toda macabra? Mas, você me deixou curioso, há anos não piso meus pés naquela igreja e queria dar uma conferida no que tem novo pelas redondezas. Quem sabe eu até consigo trocar uma palavrinha com o próprio Jesus Cristo, hm?
- A hora que Jesus Cristo chegar na sua casa e enfiar esse lombo no seu rabo, você vai o respeitar. - %Fitzroy% não conseguiu evitar uma gargalhada alta perante tal comentário, pegou sua encomenda, a pagou e saiu do açougue ao som dos resmungos de seu amigo.
Como pouco andava pela cidade, as pessoas ficavam meio chocadas com sua presença por ali, sempre que precisavam dele iam até sua casa no meio da floresta contratar seus serviços. Todos sabiam como encontrá-lo, só não tinham muita coragem para tal. %Fitzroy% era lenhador já há muitos anos e depois de prestar serviços para as mais ricas famílias da cidade, ficou conhecido pelas redondezas e sempre podia contar com clientes que mantinham sua rotina de bebedeiras e caça pela floresta. Além de lenhador, %Fitzroy% era um exímio caçador de lobos e no passado conseguiu uns bons trocados vendendo pele.
Ele chegou em sua casa e logo acendeu seu forno à lenha e sua lareira. Fogo era necessário, mesmo em noites de verão. %Fitzroy% se despiu e ficou apenas de roupas íntimas andando por sua casa enquanto arrancava as garrafas de vinho dos sacos de papel. Já foi abrindo uma e virando da garrafa mesmo, sem se importar com regras babacas de higiene e etiqueta. O líquido de cor rubra corria por seus lábios carnudos e terminava de escorrer pela barba mal feita, que o deixava com uma expressão mais máscula do que as mulheres daquela cidade podiam resistir. %Fitzroy% era um homem quieto, concentrado em seu serviço e com um ar de mistério bem intenso, que não permitia que os habitantes dali soubessem muito sobre sua vida. Isso muito interessava as mulheres casadas, que amavam rolar pela folhagem seca de seu quintal com aquele homem de braços fortes e pegada violenta. %Fitzroy% era sedutor e sabia muito bem o que fazer com criaturas de seios e pernas fartas.
Depois de sentar em sua mesa, ainda apenas de cueca, ele comia seu lombo bem assado com as próprias mãos e pouco se fodia com o vinho caindo no chão e o deixando manchado, ele não estava com paciência para boas maneiras. Depois de terminar de comer, pegou a água que tinha deixado esquentando em seu fogão à lenha e encheu sua banheira feita por suas próprias mãos com o líquido fervente e ali entrou, sentindo seus músculos definidos relaxarem com a água quente. %Fitzroy% havia resolvido ir até a igreja e brincar um pouco com o novo bispo, gostava de causar um pouco de desconforto naqueles que entregavam sua vida à Deus. Sua fé no Senhor acabou por enfraquecer com o passar do tempo em sua vida. Conforme o tempo ali na banheira fora passando, as mãos de %Fitzroy% tinham acabado de ensaboar seu corpo e ele sentiu uma leve presença se manifestando entre suas pernas enquanto o lavava. Uma masturbada descontraída parecia propícia para a hora, isso o deixaria de mais bom humor para voltar para a cidade. Seus dedos foram deixando de lavar seu membro para o acariciá-lo e suas mãos começaram a fazer aquele conhecido e prazeroso movimento de sobe e desce, logo ele pode sentir seu membro pulsando em sua mão, com as veias saltadas e a cabeça entumecida. Ele se contorcia em seu próprio prazer e depois de atingir seu ápice, sentiu-se mais pronto do que nunca para ir à igreja averiguar o novo enviado de Deus.
- É, meu companheiro, acho que já fomos batizados e agora podemos ir ver Jesus Cristo. - %Fitzroy% debochou conversando com seu próprio membro e foi em direção ao armário procurar por suas roupas. Vestiu uma calça de tecido grosso preto, calçou seu coturno que ia até a metade de sua canela, o amarrou e por fim, cobriu seu abdome definido pelas suas machadadas incessantes com uma camiseta de algodão de cor branca e uma camisa pesada com uma estampa xadrez preta e vermelha desgastada. Para não fugir de seu habitual traje, colocou seu charmoso chapéu de guaxinim e saiu de sua casa para ir até a igreja.
Quando foi chegando aos arredores da igreja, %Fitzroy% percebeu uma grande agitação e pessoas falando alto, estavam todos do lado de fora da catedral, o que indicava que a missa já havia acabado. A única catedral dali ficava em uma parte mais alta da cidade, que podia ser acessada por um caminho de pedras que levava até um rochedo bem ao alto, segundo os construtores da igreja, essa localização a colocaria mais perto de Deus. Ao lado de igreja havia uma casinha de abrigo aos pobres e mais ou menos há uns cem metros, encontrava-se um penhasco que dava para o mar violento de águas extremamente geladas. %Fitzroy% foi aos poucos se aproximando das pessoas que aos poucos começaram a o olhar com curiosidade, muitos os conheciam e outros não faziam ideia de quem era aquele homem, ele tinha alguns amigos por ali, que o conheciam bem o suficiente para saber que ele aparecia quando queria e não dava satisfação do que fazia da sua vida. %Fitzroy% foi se aproximando e logo pode avistar o homem que sem sombra de dúvidas era o novo bispo que estava causando tanto alvoroço naquela noite.
Ele não era um homem que gostava de aparecer, ser o centro das atenções, o referencial para todos os olhos. Realmente não era algo o qual ele procurava. Ainda mais naquele lugar, naquela Igreja a qual não frequentava há anos. O lenhador tivera um problema com Deus quando mais novo e apesar de terem recuperado em partes a amizade, ele ainda preferia estar distante. Entretanto, o homem não podia escapar de ser notado por alguns. Quando aparecia na cidade acabava por receber atenção, pois, era um mistério para todos. Eis que um dos importantes da cidade precisava de seus serviços e não perdera a oportunidade de ir até %Fitzroy%, encontrá-lo não era fácil.
- Olá. - Theodor %Martins% estendeu a mão, sorridente e simpático, como sempre.
- Boa noite, Theodor. Em que posso ajudá-lo?
- Pois bem, %Fitzroy%, estou precisando de um de seus serviços lá na minha humilde casa. Você é muito eficiente no que faz, eu admiro isso. - %Fitzroy% estava precisando de uns trocados, suas economias já estavam no fim e ele precisava de vinho correndo suas veias.
- Obrigado pelo elogio, você é um homem respeitável e gosto disso, será um prazer trabalhar em sua casa. Mas do que se trata o serviço em si?
- Minha esposa quer construir um deck na parte de fora de casa e dar uma reformada na parte de madeira de nossa adega e minha filha quer umas prateleiras para o quarto dela. Podemos nos ver na segunda para fazer o orçamento e já iniciar o serviço?
- Mas é claro, pode esperar por mim, estarei lá. Agradecido.
- Não há de quê, %Fitzroy%. - os dois deram um cumprimento de mão e sorriram um para o outro, Theodor voltou para o lado de sua família e amigos, enquanto %Fitzroy% dava o último gole em seu conhaque
xx
Acordei pela manhã com alguns raios de sol indesejáveis atravessando minhas pálpebras fechadas, eu simplesmente odiava acordar depois de uma noite regada a álcool. Minha cabeça sempre ficava mais pesada que o corpo, eu mal podia abrir meus olhos sem sentir uma dor insuportável e uma vontade de dormir pelos próximos mil anos. Porém, eu tinha um compromisso e como há tempos eu não fazia nenhum serviço grande, minha carteira estava meio vazia. Não cogitava em hipótese algum viver sem minhas garrafas de álcool e meus pedaços de carne assada, além disso, minha espingarda de caça estava precisando de uns cuidados. Theodor era um bom homem, conhecido na cidade pela sua boa índole e tinha digamos, um certo glamour por ser de uma das mais famosas famílias da região. A região da Europa que morava ainda vivia os velhos costumes, sem muitas agitações, cidade pequena cheia de fofoqueiros e famílias de tradições. Eu era o único lenhador da região e as famílias se recusavam a comprar móveis em lojas de departamento. Eles davam muito valor para o meu serviço feito à mão, era muito mais classudo e elegante e quem agradecia por esse luxo, era eu.
Levantei da cama com muito custo e fui direto para o meu banheiro, queria um banho quente com a água queimando a pele, mas, como estava com preguiça de aquecer água para meu ofuro, aproveitei meu chuveiro. Apesar de morar em uma casa de madeira toda artesanal e com fogão à lenha, eu tinha um chuveiro com água quente e energia elétrica. Afinal era a Europa, certo? Podia ser no sul da Suécia, mas não deixava de ser uma classuda cidade da Europa. Depois de me banhar, coloquei uma roupa qualquer que estava pendurada na minha cadeira e sai de casa. Depois de uma meia hora de caminhada, cheguei na cidade, porém ainda era cedo. Resolvi passar no açougue do meu velho companheiro de guerra, %Carl%. Ele era um resmungão, infeliz com a vida e seu serviço, mas não teve muita opção quando seu pai morreu e o deixou com dívidas e apenas aquele açougue como herança. Ele se casou, teve filhos, mas não se sentia realizado e eu gostava de alegrar um pouco seus dias.
- Carl, tem cliente aqui na frente.
- Você? Tá mais pra visita indesejada. - disse ele, chegando ao balcão e me mandando um dedo do meio.
- Que falta de educação pra um começo de dia, %Carl%, dormiu num colchão de espinhos, hein?
- Eu tentei cara, eu tentei a madrugada inteira, mas ela não quis, simplesmente não quis. Eu não sei mais o que fazer. - ele me puxou pelo braço e grudou em meu colarinho me erguendo levemente do chão - Simplesmente não tem jeito mais.
- Me solta e explica que porra que tá acontecendo, você tá bêbado uma hora dessas? Tá pior que eu seu vagabundo.
- Chega mais pertinho, eu não quero que ninguém ouça, mas eu acho que minha mulher está me traindo, ela não faz mais "aquilo" comigo.
- Ela não trepa mais, é isso? - ele me olhou com uma expressão feia.
- Fala baixo filho da puta, quer que toda a cidade fique sabendo? Que diabo.
- Seu paranoico, para de frescura no rabo, quem sabe se você se deitar na cama sem cheiro de sangue de boi, sua mulher abra as pernas.
- Se retira daqui vai, some da minha frente.
- Você é uma piada, %Carl%, minha piada preferida - disse rindo para meu amigo que riu em deboche comigo - Eu tenho um orçamento para ir fazer, dou um pulo aqui depois.
- Vai com o diabo!
- Amém. - e sai em caminho para a casa dos %Martins%.
Cheguei em frente a residência deles e fiquei por um momento admirando aquele belo pedaço de imóvel que estava na minha frente. Era uma casa muito bela e enorme, de uma decoração impecável. Ela tinha um jardim cheio de plantas, grama verde e uma daquelas fontes em que um anjo jorra água pelo pinto. Toquei a campainha e logo uma velha senhora que deveria ser a governanta veio me atender. Me chamou para adentrar a sala e ainda disse que Theodor logo me receberia. Entrei naquele pedaço de luxúria e fiquei observando os belos móveis e a televisão enorme de mais de 50 polegadas, uma mistura de classicismo com tecnologia. A senhora me serviu um café e eu fiquei andando pela enorme sala em estilo loft enrolando. Logo ouvi alguns passos descendo a escada e ao subir meu olhar encarei um belo par de pernas. Olhei um pouco mais para cima e pude deslumbrar uma distinta mulher que muito provavelmente era a dona da casa. Ah sim, Irina era o nome dela. Me lembrava dela ainda da época em que éramos crianças. Seus seios acompanhavam o movimento do tronco coberto por uma camisa de seda azul mal abotoada. O quadril largo e carnudo era muito bem marcado pela saia preta de cintura alta que terminava não muito acima do meio de suas coxas. Era uma bela visão, mas não era realmente o tipo de mulher que me atraia.
- Bom dia, senhor %Fitzroy%, fico feliz que tenha aceitado nosso pedido, é muito difícil arrumar pessoas que ainda façam verdadeiros móveis de madeira e eu preciso de um deck formidável.
- Primeiramente, pode dispensar o senhor, por favor. Ainda sou um pouco jovem. - nós dois rimos e nos encaramos, aquela mulher estava com um ar safado não muito adequado.
- Você vai ficar muitos dias trabalhando por aqui, tenho que sair agora, mas, nos veremos com frequência. - ela me encarou com um pouco de perversidade e passou por mim roçando seu quadril - Meu marido logo irá descer. - despediu-se demoradamente e saiu casa à fora
Não se passaram cinco minutos até Theodor aparecer descendo as escadas, vestido de um modo mais simplório e vindo em minha direção.
- Hey, %Fitzroy%, ainda bem que veio. Estava com medo que ontem tivesse sido o álcool que o fez aceitar meu serviço.
- Eu ando precisando de dinheiro Theodor, não rejeitaria um serviço assim por pura graça, meus bolsos andam meio vazios.
- O preço do vinho andou subindo, hm? - ele zombou.
- O preço do vinho continua o mesmo. A carne não e nem as mulheres. – prostitutas eram uma prática feita de vez em quando - Umas bocetinhas não eram assim a preço de ouro antes.
- Ah, mas eu sei como é isso, ah como eu sei. Outro dia andei pelos lados da Rússia para visitar uns sócios e meu amigo, estava mais barato comprar uma casa de ouro do que pagar por uma trepada de qualidade.
- Valeu a pena o investimento?
- Eu não poderia responder. – Theodor me olhou sugestivo e sorriu.
- Sua esposa desconfia dessas coisas? - perguntei curioso.
- Eu não disse que a trai, só falei do preço da coisa. - nós dois nos olhamos e trocamos um sorriso safado. Apesar da graça, logo nos recompomos e fomos tratar de negócios.
O dono da residência me levou até o lado de fora da casa e me mostrou onde queria construir o deck, era uma área próxima da cozinha e serviria para receber as visitas nas festas de fim de ano. Depois de ver essa área, partimos para uma parte subterrânea da casa onde ficava a adega. Fiquei em excitação perto de tantas garrafas de vinho muito mais caras e nobres do que as que eu bebia. A culpa nessa história era minha, claro. Quando meu pai se mudou da cidade, por pura teimosia, rejeitei sua ajuda financeira por questão de orgulho e me contentava com o que meu dinheiro podia comprar.
Também vimos o serviço que ele desejava por ali e finalmente fomos para a última parte do orçamento. Subimos as escadas e caminhamos até o final do corredor, onde ele abriu uma porta branca e adentramos em um cômodo. Logo percebi que o quarto de sua filha, graças a decoração. Fiquei imaginando que uma garotinha de no máximos uns 15 anos deveria dormir ali, aquele casal não parecia ter uma filha mais velha que isso. Nós conversamos um pouco analisando o cômodo, medimos a parede. Fiz um pequeno projeto em desenho para mostrar como tudo mais ou menos ficaria. Finalmente passei meu preço e fechamos o negócio.
Eu tinha o suficiente para poder ficar bêbado por muitos dias seguidos. Eu e ele demos um aperto de mão para selar o acordo e fomos descendo as escadas conversando algumas trivialidades. Assim que chegamos ao degrau final, escutamos um barulho de porta sendo aberta e meus olhos foram guiados para baixo. Eis que me deparei com uma menina. Porém, não de 15 anos, sim com alguns perigosos anos a mais. O que a mãe pareceu não ter, a filha esbanjava. Encarei seu rostinho sorridente e não pude parar de encarar.
- Olá pai, voltei mais cedo da aula hoje, o professor de álgebra teve um compromisso surpresa.
- Tudo bem, filha, assim você tem um tempo para descansar. Então esse é o homem que lhe falei que viria até aqui fazer nossos projetos. Ele é %Fitzroy%, o lenhador. - eu pude analisar aquela garotinha com um pouco mais de atenção e tenho que admitir que ela poderia dar volume nas minhas calças. O jeito doce e distraído de caminhar, a ingenuidade no olhar. A combinação dos detalhes dela me deixaram com a cabeça fraca.
- Bom dia, senhor %Fitzroy%, meu pai estava falando muito bem do seu trabalho. Prazer, me chamo %Louise%. - ela me olhou sorridente e caminhou até mim para apertar minhas mãos. A garota era dona um olhar e comportamento tão angelical que fizeram eu me sentir feito um verdadeiro pecador de merda por cogitar perversidades.
- Olá %Louise%, a gente vai se encontrar por aqui nas próximas semanas então queria pedir um favor. Pelo amor de Deus, não me chame de senhor, eu não consigo ser tratado feito velho. - ela e seu pai olharam para mim rindo.
- Tudo bem, %Fitzroy%, foi só um sinal de respeito, mas eu prometo lhe tratar como um jovem homem. Bem, se vocês me dão licença, vou até a cozinha comer alguma coisinha. Até mais. - ela saiu saltitante com o fichário em seus braços e foi em direção à cozinha. Não pude deixar de reparar no jeito como seus quadris iam de um lado para o outro.
Assim que finalizei meu compromisso do dia rumei para açougue, meu velho companheiro precisava de mim para provocá-lo um pouco. %Carl% era minha rocha, eu o amava demais. Era como um irmão para mim. Meus dias não eram completos sem ele resmungando e me xingando.
- E aí, cortador de galho, conseguiu o serviço?
- Sim, meu caro, muita embriaguez para nós, é tudo que eu consigo pensar.
- Eu aqui levando chifre e você aí, com esse papinho fútil de ficar bêbado. Seja um pouco mais compassivo, por favor, eu estou numa fase difícil e você não está me apoiando.
- E o que você quer que eu faça? Que eu transe com você ou que eu coma sua mulher pra saber qual que é o problema? - ele me olhou revoltadinho, revirando os olhos.
- Sinceramente, você é revoltante. Ganharia fácil o Nobel de pior amizade da humanidade com quilômetros de vantagem. Só não te corto em pedaços pra vender aqui, porque nem mosca vai querer essa carne podre que você tem.
- Pra que isso, meu Deus? Por que você faz essas coisas? Sua mulher deve ser a pessoa mais inocente nessa história e você aí, acusando ela sem prova nenhuma.
- Sem prova nenhuma? O fato dela me recusar já não diz muita coisa?
- Já parou pra pensar que você fede mais que uma vaca em decomposição, se fosse casado com um urubu, quem sabe a estratégia funcionaria?
- Cala a boca antes que eu corte sua língua fora. - eu o olhei fazendo biquinho e ele me tacou um guardanapo fedorento, ri daquela merda toda e pedi uma dosezinha de conhaque costumeira.
- Hein, ficou sabendo da mais nova da cidade?
- Qual? - perguntei franzindo a sobrancelha.
- O tal do bispo novo, resolveu mandar todos os padres embora daqui, está recrutando uma nova galera, tem umas carolas bem revoltadas blasfemando por aí.
- Por qual motivo do diabo você acha que esse tipo de notícia mequetrefe me interessa?
- Quer saber, vai pra casa do diabo no inferno, seu ridículo.
- Vai me ofender me chamando de ridículo, é isso mesmo? - eu não podia evitar rir alto daquela mula.
- É, é isso mesmo, não gostou? Reclama pro Papa, eu estou sem paciência.
- Eu te amo, %Carl%, me dá um abraço.
- Sai de perto de mim, eu te mato, seu zé caralho.
- Mas sério, essa coisa toda de padre me lembrou duma coisa, preciso fazer um telefonema.
- O que suas putinhas tem a ver com os padres?
- Pare de me julgar, vou ligar para um amigo. - %Carl% me olhou meio confuso, sem atender aquilo tudo.
Eu tinha um melhor amigo na época da escola, nós éramos completamente grudados e fazia muito tempo que não o via. Quando nos formamos, eu não me lembro muito bem o porquê, ele resolveu ir para um mosteiro virar padre. Senão me engano foi por causa de uma garota que o tinha traído bonito, daquelas que bebem em uma festa e acabam nuas no meio de um monte de caras gozando pra lá e pra cá. Ele tinha ido para a Itália. Na última vez que conversamos, ele me disse que estava no interior do país fazendo alguma coisa que não lembro o que era. Não sabia se estava lá ainda, alguns meses tinham passado e eu precisava mais que tudo falar com ele e chamá-lo de novo para a velha terra. Nem que fosse para tê-lo como padre ao meu lado. Abri minha carteira e saquei uma tira de papel amassada. Em preto estava o nome do padre e seu telefone.
- Quem é %Gustav% %Moore%? - perguntou o açougueiro pegando o papel em mãos.
- A curiosidade matou o gato, %Carl%.
- Babaca!
- Empresta essa droga de telefone que eu vou ligar para ele, daí você vai entender.
Peguei o telefone de %Carl%. A anotação ali feita era do último número que ele havia me passado. Disquei o mesmo e perguntei por %Gustav% %Moore%. O homem do outro lado da linha me comunicou que ele não se encontrava mais ali, que havia mudado para Roma e estava em treinamento no Vaticano. Para minha surpresa, o mesmo homem me passou o número atual. A brincadeira durou cerca de meia hora e quando eu estava no fim da pacência, escutei aquela voz tão conhecida e amada. %Gustav% pareceu muito animado em falar comigo. Expliquei para ele toda a situação e o mesmo me jurou de pé juntos, que pegaria o próximo voo para a cidade e se apresentaria ao bispo com uma carta de recomendação do próprio vaticano. Eu finalmente teria meu velho %Moore% de volta à ação comigo, nem que fosse para comer a hóstia.
xx
E então mais um dia se passou. Acordei ainda cedo para ir para o meu primeiro dia de trabalho. Não era necessário chegar lá às sete da manhã, além de ser desumano, os %Martins% não eram muito preocupados com essa burocracia chata de que "quem cedo madruga, Deus ajuda" ou algo do tipo.
Quando cheguei na residência a governanta estava me esperando na porta. A mesma me disse que os donos da casa tinham saído e que a filha estava na escola, mas que tinham deixado uma mesa de café da manhã preparada para mim. Adentrei-me pela cozinha e parecia que um banquete real estava à minha frente. Jarras de suco de laranja, leite, chocolate em pó, bolo, pães e... cerveja. Sim, cerveja. Patrões como esse, nunca mais arranjaria na minha vida. Me sentei à mesa e comecei a beliscar uma coisa aqui e outra ali. Abri a garrafa de cerveja sem cerimônia e quase a tomei em um único gole. Convidei a governanta para se juntar a mim e nós ficamos conversando sobre como a música dos anos 80 era melhor que a atual. Theodor logo chegou para que eu pudesse enfim trabalhar.
- Aqui estão suas ferramentas, conforme havia me pedido, fique à vontade, a casa é sua.
Eu tinha um companheiro que era dono de uma F250 que trazia as lenhas já cortadas para mim, normalmente eu já deixava uma determinada quantia de reserva para que não fosse preciso passar dias e noites derrubando árvores. Enquanto isso, me preocupei em organizar as ferramentas e minhas ideias. Precisava traçar um plano mental de como eu iria distribuir a madeira. Ainda era preciso envernizá-las e isso demoraria uns dois dias, ou seja, seria um trabalho meio longo. Eu estava por lá, distraído esperando meu funcionário chegar. Seus atrasos eram costumeiros graças às noites perdidas em boates. Sim, a cidade possuía boates e eu não podia impedi-lo de ir, então, tudo que eu podia fazer era sentar e esperar.
Eu estava brincando com alguns pregos até sentir uma presença se aproximando. Imaginei que fosse Wilda, a governanta, mas tal fora minha surpresa.
- Olá senhor %Fitzroy%, tudo bem? - %Louise% irrompeu o silêncio sorrindo para mim. Ela vestia uma roupa que definitivamente não era seu uniforme. Estava muito mais para uma camisola de estampa de zebra. Garotinha, não era certo fazer isso com meu cérebro. As mãos para trás e o cabelo preso em um rabo de cavalo me cativaram.
- Lembra sobre o que eu falei sobre essa história de senhor aí? - ela olhou para mim e sorriu sem jeito.
- Me desculpe, foi a força do hábito em respeitar as pessoas, meus pais são meio paranoicos comigo.
- Isso funciona mais com aqueles nobres ricos. Não sou um adolescente, mas também não sou um idoso. Prefiro ser tratado como "você".
- Desculpa, de verdade, isso não se repete mais, você vai ver.
- Gostei de ver. - nós trocamos sorrisos e ela olhou meio sem graça para o chão.
- Wilda me disse que estava na escola. – para evitar contato, virei rosto para o lado e finge que procurava por alguma ferramenta. - Eu até cheguei a descer vestida de uniforme, mas... – corou por um momento como se tivesse aprontado algo –... Meu pai me deixou ficar em casa hoje. Ela era extremamente "lindinha" por mais chulo que isso possa parecer, com traços de menina se misturando com algumas curvas de mulher. %Louise% era o tipo de garota que despertaria tesão em mim de uma maneira bem fácil, não fosse sua maldita expressão de santidade. Ela me parecia muito angelical e tímida, me sentia meio culpado por querer profaná-la. Nós ficamos conversando um pouco sobre as coisas e aproveitei para perguntar como eram as tais prateleiras que ela queria em seu quarto. Ela me contou que queria mudar a decoração por lá, já que o quarto parecia mais um reduto de uma menininha de 12 anos de idade. Fui obrigado a concordar com tal afirmação. A conversa fluía calmamente, estávamos começando a nos conhecer melhor. Tudo tornou-se menos interessante quando Irina chegou perto de nós e educadamente interrompeu nossa conversa. A mais velha disse que precisava me passar umas instruções e pediu licença para a filha. %Louise% se levantou tomando cuidado em manter a camisola tampando as partes críticas de seu corpo e se foi. Antes de atravessar a porta da cozinha, deu uma viradinha de leve e me mandou um tchauzinho. Eu apenas ri para ela. Aquela garota não poderia ocupar muito espaço no meu cérebro.
- Pois então, sobre o que a senhora gostaria de falar? - aquilo cheirava à estratégia de gente safada, mas eu resolvi ver até onde tudo aquilo poderia parar.
- Eu queria que me acompanhasse até a adega para que possa te contar alguns detalhes e explicar algumas coisas. - eu assenti com a cabeça. Atravessamos a cozinha e chegamos na sala de jantar, que possuía uma escada que levava para a tal parte subterrânea da casa onde se encontrava a adega. Irina foi descendo as escadas vagarosamente. Algumas vezes olhava para trás sorrindo pervertida para mim. Finalmente descemos todos aqueles degraus e me deparei novamente com o paraíso, várias e várias e várias garrafas de vinho ali na minha frente, tão seduzentes e atraentes.
- Pelo o que percebi, você tem uma paixão por vinhos, %Fitzroy%.
- Eu e essas pequenas garrafas cheias do néctar dos deuses temos um forte relacionamento. - ela riu da minha piadinha barata e foi se aproximando. Subiu um pouco seu vestido grudado nas coxas para aumentar o charme.
- Eu também sou apaixonada por vinhos, principalmente os com sabores amadeirados. - eu não pude evitar um pequeno sorrisinho de deboche, ela simplesmente estava dando em cima de mim sem vergonha alguma. Pobre marido. Cruzei meus braços e me escorei em um barril que estava atrás de mim. Para falar bem a verdade eu não estava muito tentado em ceder aos seus encantos. A filha era realmente quem eu desejava.
- E afinal, a senhora me trouxe aqui para quê? - ela me fitou com os lábios entre os dentes e se aproximou. As mãos furtivas, as pernas trançando nas minhas.
- Nenhuma ideia, senhor %Fitzroy%? - perguntou, pondo os braços em meu pescoço. Olhei para ela de uma forma que tentava mostrar minha falta de interesse. Mesmo assim a mulher insistiu.
- Para beber vinho que não foi, estou certo? - ela apenas arqueou a sobrancelha e me olhou profundamente antes de aproximar seus lábios dos meus. Apesar de todo o corpo bem definido, cheio de carnes e da conversinha safada, ela não era exatamente o tipo que conseguia me fazer perder a razão. Eu não a queria. Sentia falta de alguma coisa. A boca dela na minha não surtiu efeito. E foi então, que um barulho vindo da parte de cima a assustou, prontamente me soltou evitando um problema maior.
- Melhor você se ajeitar primeiro e logo eu subo. - Apenas consenti com a cabeça. Desamassei a camisa enquanto subia as escadas. O primeiro dia de serviço não era o melhor dia para ser pego se atracando com a mulher do patrão.
xx
Meu pai cumpriu a promessa de me deixar faltar na escola. Eu poderia ficar em casa, morrer de comer sorvete assistindo seriados pela madrugada e dar umas voltas. Há muito tempo não ia até a praia, apenas olhar o mar batendo com violência nas pedras. Pensar na nova decoração do quarto também estava nos planos.
Estava cansada daquele conto de fadas que parecia o cômodo, eu queria algo mais adulto. Claro que cheio das minhas frescuras, mas com cara de gente adulta e não de pirralha. Procurei algumas coisas na internet e achei tudo que eu mais queria na minha vida. Comecei dizendo para meus pais que só queria novas prateleiras para os meus livros, mas isso era só uma desculpa pra mudar todo o meu quarto. Para isso meu pai tinha contratado o lenhador da cidade, ele cortava sua própria madeira e fazia os móveis todos a mão com seu sócio. O que os deixava muito mais interessantes e bem feitos. Gostei da ideia de poder fazer as coisas do meu jeito.
A única coisa que meu pai não tinha me contado era que o tal do lenhador não era um homem asqueroso e sujo como eu pensava. Muito pelo contrário, ele era delicioso dentro do clichê camisa xadrez preta e vermelha. A barba por fazer, os braços fortes, os ombros largos e aquela boquinha carnudinha estava me fazendo querer muito mais que meros móveis dele. Mas eu não podia sair sensualizando pela casa, meus pais eram crentes de que eu era uma jovem menininha de 17 anos, exalando inocência. Mesmo sendo quieta e até um pouco ingênua, existia uma menina safadinha dentro de mim. Cansada de ficar no quarto, resolvi descer para comer alguma coisa e me distrair por lá. Na escada encontrei Wilda, a nossa governanta. Ela não sabia que estava em casa e me olhou meio assustada pedindo explicações. Expliquei a situação a ela que logo ficou desesperada pra arrumar meu café da manhã. Wilda era um amor, ela sabia ser muito melhor que a perdida da minha mãe. Prontamente disse que ela não precisava se incomodar, afinal eu conseguia arrumar meu próprio café sozinha. Desci as escadas cantarolando. Ao chegar ao piso inferior fui em direção à cozinha, abri a geladeira e peguei um pote de iogurte e um pedaço de bolo de laranja. Me entupi com aquilo. Era simplesmente meu café da manhã preferido. Então eu olhei para fora e vi o que tal %Fitzroy% estava lá, sentado com algumas ferramentas na mão. Fiquei analisando aquele homem tão homem. Ele tinha uma coisa que me interessava muito, expressões másculas. O lenhador não tinha aquela cara de moleque preocupado com coisas banais, não, ele era diferente. Muito forte. Possuía um tronco largo que não ficava muito marcado pelo fato de estar com uma camiseta um pouco grande em seu corpo. Ele atiçava minha curiosidade.
Resolvi ir conversar com ele, não custava tentar. Entretanto, digamos que fora um pouco desastroso. Acabei várias vezes sorrindo feito uma besta olhando para ele sem saber o que dizer. Eu era um verdadeiro fracasso quando queria demonstrar interesse por homens. Depois de um tempo jogando conversa fora, literalmente, minha mãe apareceu e disse que precisava falar com ele.
Bufei internamente e me levantei pedindo licença. Entrei em casa e fui para sala de televisão. Procurei por algo interessante, nada. Porém, para minha surpresa, minha atenção fora tirada da TV. Vi aqueles dois passando pela sala de jantar e indo em direção à escada que levava até a adega. Aquilo me deixou com as orelhas meio em pé, não sei muito bem dizer a razão, mas eu estava sentindo que eles iam fazer coisas que não deveriam lá embaixo. Minha curiosidade foi maior que o medo deles me verem e eu fui sorrateiramente segui-los. Desci a escada bem devagarinho na ponta dos pés e parei em um lugar estratégico para que eu pudesse observá-los sem que eles me vissem. Eles ficaram um tempo por lá, falando algumas coisas idiotas e nada parecia estar prestes a acontecer. Acabei perdendo a graça, comecei a me sentir uma idiota por achar que eles fariam algo e estava quase subindo de volta. Até que vi minha mãe sensualizando para o lado dele. Minha mãe não prestava, realmente. Ficaram um colado no outro. Me senti extremamente chocada, nunca imaginei minha mãe fazendo aquele tipo de coisa. Uma certa revolta tomou conta de mim. Minha mãe sempre vinha até mim com um papinho de santidade. Ela era ótima em implicar com o fato de eu namorar. Mas, quem diria. Irina não era uma santa. Afinal, ela era casada e. modéstia a parte, meu pai era um baita homem bonitão e charmoso.
Nessa minha epifania momentânea acabei batendo meu cotovelo no corrimão e fiz um barulho mais alto do que deveria. Os dois interromperam aquela sujeira e olharam para cima. Sai correndo desesperada para que eles não me vissem e subi numa velocidade incrível. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e fiquei ofegante na porta. Se eles tivessem me visto, eu estaria bem ferrada.
xx
Meu primeiro dia de serviço na casa de Theodor tinha terminado. Estava bem cansado, fazia algum tempo que não tinha que envernizar madeira, bater pregos, cortar madeira e essas coisas. Depois de sair de lá resolvi passar no açougue para tomar umas na Taverna da Coruja com %Carl%. Um barzinho descolado da cidade. Ele era moderno, porém rústico e muito bem decorado. Como eu havia trabalhado na construção por ali, o pessoal sempre me dava umas cortesias. Então não era de todo ruim beber umas por lá.
Atravessei a rua e fui me aproximando do açougue até que pude ver uma cena um tanto quanto bizarra. %Carl% estava sentado na calçada, chorando e limpando as lágrimas com aquele avental nojento todo cheio de sangue. Me aproximei dele e o levantei, ele nem falou nada, só caiu por cima de mim chorando feito criança. Não estava entendendo muito bem toda aquela dramaticidade, mas suspeitei que aquilo significava que sua esposa realmente o estava traindo.
- Ei, eu vim aqui te chamar pra tomar umas comigo e não é porque você tá aí chorando feito um bebê que eu vou mudar de ideia, ok? Vem comigo.
- Não, eu perdi a razão de viver. Não quero tomar nada, eu vou me matar. Eu... eu... eu vou enfiar a faca de cortar bife em mim e acabar com essa desgraça.
- Porra, %Carl%! Se comporte feito homem. - ele olhou para mim todo assustado e logo desmanchou a cara de choro. Vi a transformação em seu semblante, logo ele me fitou irritado.
- Vai à merda, seu pau de bosta.
- Esse é o %Carl% que eu conheço. Vem, vamos lá na Coruja, eu te pago um copo de leite enquanto você me conta o que aconteceu.
Nós fomos caminhando até lá, Carl vomitando toda a história na minha cara. Resolvi deixá-lo falar e falar até que ele desabafasse tudo. Chegamos no local e moça que ficava na recepção logo me reconheceu. Nos cumprimentamos e eu sentei-me à mesa que sempre costumava sentar, uma mais afastada, encostada na parede perto da janela que dava para a rua. Ali eu podia beber, jogar cartas e olhar o movimento. O garçom veio e eu pedi uma cerveja para mim e %Carl% pediu uma dose de vodka misturada com rum, acho que ele queria realmente morrer.
- Agora você me conta a merda direito. O que disse lá fora estava confuso demais e não tinha lógica.
- É o seguinte. Eu estava lá em casa na hora do almoço, sentado no meu sofá, assistindo a ESPN e comendo um franguinho frito bem relaxado. Foi aí que Morgan chegou da escola com as crianças. Eu fui dar um beijo nela e ela simplesmente se esquivou de mim dizendo que precisava conversar. As meninas foram lá na cozinha pegar comida e ela sentou do meu lado. A biscate nem teve a preocupação de enrolar pra me dizer que estava tendo um caso com um finlandês e que não aguentava mais me enganar e mentir. Disse queria se separar de mim, que já tinha conversado com minhas filhas e que elas tinham entendido. Afinal elas têm 14 e 16 anos, ninguém é mais bebê. Ela disse que vai morar com o cara por lá e que as meninas vão junto com ela, mas que sempre virão me visitar. É isso, eu fui chifrado, abandonado e trocado. Perdi minha mulher, vou ficar longe das minhas filhas e vou morrer vendendo carne, fedendo a linguiça e batendo punheta bêbado na minha cama. Tá satisfeito agora? - eu fiquei ligeiramente com dó do %Carl%. Posteriormente um sentimento de ódio da mulher dele me invadia. O homem era direito, correto, fazia de tudo por elas e amava a mulher mais que tudo. Que puta sacanagem. Ele fazia tudo pela família e aquilo era realmente cretinagem. Mas, sabia o quão forte ele era. Depois da morte do pai e de todo o sofrimento o homem estava ainda mais fortalecido. E no fim das contas ele não podia fazer nada, matar a mulher dele e o amante só piorariam as coisas.
- Você tem que esfriar a cabeça e deixar isso pra lá, eu sei que você ama a Morgan, mas ela jogou limpo e disse que não quer mais. Deixa ela ir embora, ser feliz e sai do fundo desse buraco fétido que você se encontra e vê se vive um pouco.
- É, talvez você tenha razão. Tem muita mulher com fogo por aqui.
- É claro que eu estou certo, ser corno não é tão ruim assim.
- Vai para o inferno, %Fitzroy%. Judas do caralho. - era muito prazeroso provocar meu amigo.
- Relaxa aí, mané, eu também já levei uns chifres, você sabe disso. Eu fiquei puto por muito tempo, mas depois eu me acostumei com a ideia de que a garota era uma vadia filha duma égua e que logo ela morreria de aids e tudo ficou certo.
Nós ficamos por ali um tempo, falando asneiras e putarias até que eu percebi uma movimentação na porta da taverna. Tinha alguém perguntando por mim e eu olhei curioso. Fora uma surpresa e tanto. Tinha um homem alto e loiro, vestindo uma calça social preta e aquelas camisas pretas de padre com o colarinho branco. Era %Gustav%. Fiquei extremamente feliz vendo aquela cena.
- Hey, %Gustav%. - eu o berrei e o mesmo olhou em minha direção, eu vi um sorriso se abrir em seus lábios. Ele agradeceu a recepcionista pela informação e veio para o meu lado. Me levantei e fui ao se encontro. Nós nos abraçamos e demos aqueles tapões nas costas um dos outros. Pode parecer bem homossexual, mas eu estava muito feliz em ver meu amigo novamente.
- Caralho, %Gustav%, tem uns 10 anos que eu não te vejo e você tá aí todo garotão.
- Esse é o poder da palavra de Deus, %Fitzroy%. - ele disse com a cara toda séria e sentou-se à mesa, mas eu sabia que era só alopração da parte dele, eu ainda não entendia como um fanfarrão como ele tinha virado padre.
- Então, %Carl%, esse é meu amigo %Gustav% %Moore%, da época da escola, ele é padre e como você me disse que o bispo estava recrutando novos padres pra cá, eu resolvi que seria uma boa ele voltar para a Suécia. E %Gustav%, esse é o %Carl%, meu amigo desde que você foi para a Itália, ele é açougueiro e acabou de levar um pé na bunda da mulher.
- Nossa, %Fitzroy%, muito obrigado por me apresentar como um corno fracassado. Ele sempre foi assim filho de uma mãe? - %Carl% perguntou para o recém chegado %Gustav%.
- Sempre teve um espírito de porco, mas eu não o levava muito a sério. - nós rimos ali todos juntos e %Gustav% pediu ao garçom uma garrafa de água com gás. Teria que me acostumar com ele não bebendo bebidas alcoólicas, pelo menos não em público.
- E como foram as coisas lá pela Itália? - perguntei.
- Depois que a minha namorada maravilhosa fez o favor de me trair com cinco numa festa, eu resolvi ir pra Itália me aproximar de Deus. Desisti dessa vida de mulheres. Como homens não são minha praia, decidi me entregar ao celibato e à vida da masturbação eterna. Entrei para um mosteiro em Roma e logo eu estava lá no Vaticano estudando junto com os arcebispos, conheci o próprio Papa. E por incrível que pareça, foi divertido.
- Porra, cara, com cinco? Tô começando a me sentir menos mal, pelo menos a minha me traiu com um só, pelo o que eu sei até agora né, vai saber.
- Viva, nós três já levamos chifres por aqui, então chega de conversa barata, vamos falar de coisa que presta.
Nós três ficamos, rindo e falando merda. Infelizmente, meu cérebro tinha uma mania idiota de apitar quando a dose de estrogênio e progesterona tornava-se maior. Ao prestar um pouco mais atenção percebi que %Louise% estava no meio de algumas garotas. Diferente de doce e tímida agora, ela me pareceu muito mais adulta. Foi muito interessante vê-la maquiada, bem arrumada, com uma roupa sensual e bem mais, como poderia dizer, "soltinha".
- Mas já tá olhando as meninas, %Fitzroy%? Que desgraça.
- %Carl%, não seja recalcado. Ali no meio tá a filha dos %Martins%, tô trabalhado na casa deles e estou só analisando com um pouco mais de atenção a cria deles, é pecado?
- Pedofilia é meio que crime, meu amigo. Além de ser pecado. - disse %Gustav%.
- Agora vão ficar vocês dois contra mim, é isso mesmo?
- Bem, eu não beijo uma garota faz tanto tempo, que nem posso ficar dando palpite.
- Sem querer ser muito curioso, quanto tempo mais exatamente? - perguntou %Carl%.
- Muito tempo, muito tempo.
xx
Ele estava lá e eu precisava fazer algo
Tomei coragem e me levantei. Respirei fundo esperando aquela faísca que me faria andar até ele. O lenhador estava com mais dois amigos, o que piorava a minha situação. E eis que aquele empurrãozinho que faltava surgiu da parte de Charllie, minha querida amiga fez o favor de me impulsionar para frente com um tapa na bunda. Quase tropecei e cai de boca no chão. Agora não tinha mais jeito, era andar ou andar. Eu fui caminhando até lá sem jeito, percebi que os três estavam me olhando. Não sabia ser exatamente sensual. Até tentei rebolar meus quadris um pouco e empinar meus peitos. Não deu muito certo, o maldito %Fitzroy% acabava com a minha segurança.
- Oi %Fitzroy% e oi amigos do %Fitzroy%. - disse meio sem jeito e eles deram uma risadinha.
- E aí, %Louise%, quer sentar com a gente aqui um pouco? - um dos amigos dele perguntou, eu o conhecia, era %Carl%, o dono do açougue, ele era um cara gente boa. Suas filhas estudavam na mesma escola que eu.
- Posso? - perguntei meio tímida. Queria perder aquela cara de besta que eu tinha.
- É claro que pode, garota, senta aqui. - %Fitzroy% puxou a cadeira do lado dele para que eu me sentasse.
Eu pedi um Schweppes Citrus e a gente começou a conversar. Seu outro amigo se chamava %Gustav% %Moore%. Por um momento me senti tentada por ele, o cara era um gostoso de primeira. Mas tudo bem, meu foco central era realmente o lenhador. Aos poucos seus amigos foram inventando desculpas se para levantar da mesa. Quando foram embora ficamos ali nós dois, um olhando para a cara do outro, sem saber muito bem o que fazer.
- E então, eu ainda não sei quantos anos você tem.
- Faz pouco tempo que fiz 17 anos. Pelo menos eu posso sair de casa sem me sentir uma criança perdida na rua.
- Ah, meus 17 anos! Foi uma boa época da minha vida. - o lenhador deveria ser um homem muito experiente, aquele tipo que já havia feito de tudo, vivido loucuras e mais loucuras. E eu ali, patética e sem graça, era deprimente.
- Faz tanto tempo assim que você saiu dos 17 anos? - não sabia sua idade e estava curiosa para saber.
- Tá me chamando de velho, %Louise%? - ele olhou para mim meio que malvado. Senti o peso da culpa me atingir.
- Não, %Fitzroy%, calma. Não, sério, calma. - fiquei com cara de medo e ele riu de mim - É que sei lá, não é que você seja velho, mas é um cara que já saiu da puberdade há algum tempo, e... você é mais velho e experiente. - eu estava nervosa e me perdendo nas palavras. – Eu gosto dos mais velhos. - completei e só depois de terminar de falar que percebi o quão a frase era cheia de malícia e desnecessária. Não sabia mais o que fazer com a minha cara.
- Então você gosta dos mais velhos? - eu olhei para ele mordendo os lábios em nervosismo, não sabia muito bem o que responder. Não poderia de forma alguma estragar aquela chance.
xx
Não sabia se era ironia divina ou algo do tipo, mas eu só sei que eu e %Louise% estávamos um do ladinho do outro. Ela naquela situação era uma coisa muito... instigante. A garota parecia mais desenvolta e menos tímida do que eu havia visto antes. Isso não ajudou muito na batalha contra minha consciência. Estava me animando muito rápido e tal coisa era perigosa. Aquela garota poderia ainda ser virgem ou pelo menos inexperiente. Se nós fôssemos além naquela brincadeira os sentimentos poderiam se confundir e eu realmente não queria que a garota acabasse perdida pelo velho lenhador solitário, frio e sem intenção nenhuma para o romance.
- Homens bem resolvidos eu diria. - Ah, aquela garota estava brincando com a minha cara. - Mas, e então, como é a vida na floresta. Sem os agitos e as facilidades da cidade? - ela pareceu querer desconversar, aliviar a tensão que se instaurara.
- Sinceramente, as coisas por lá são bem mais calmas e tranquilas. Eu tenho tudo que preciso na minha casa, tenho minhas garrafas de vinho, uma banheira quente e TV a cabo, por incrível que pareça.
- E você recebe visitas por lá? - ela perguntou meio curiosa demais pro meu gosto.
- De que tipo de visitas você está falando, senhorita %Louise%?
- Pessoas, oras. - não disse, mas eu sabia que se ratavam de mulheres. É claro que ela estava curiosa para saber sobre essa parte da minha vida. Diaba abusada.
- E por que a curiosidade? A senhorita não é muito novinha pra ficar falando sobre minhas visitas íntimas? - ela estava meio sem saber o que fazer com as mãos e colocou a sua direita sobre uma das minhas coxas.
- Não sou mais criança, %Fitzroy%. - Eu coloquei um dos meus braços em volta do seu pescoço nos aproximando mais. Percebi que ela estava ficando bastante nervosa e eu estava gostando daquilo. Não deveria, iria me culpar por tal fato depois, mas estava gostando.
- E o que você quer dizer com isso? - %Louise% me olhou meio envergonhada, ela havia corado instantaneamente, simplesmente não sabia mais o que responder. Sua mão que estava na minha coxa começou a tremer de leve e seus lábios tentavam dizer algo, mas ela não conseguia.
- Que eu sei de algumas coisas e posso falar sobre algumas coisas. - %Louise% estava se perdendo no que dizia.
- Quais coisas? - ela me olhou assustada e apenas sussurrou um “nada” bem fraquinho. Por mais culpado que eu me sentisse em violá-la, acho que meu espírito de lenhador queria desbravar aquela mata.
- Olha, acho que eu vou voltar pras minhas amigas. Elas estão lá sozinhas e uma delas tem uma história pra me contar. Foi bom te ver, a gente se fala lá em casa, tá? - ela me deu um beijinho molhado no rosto, sorriu meio sem graça e levantou-se da mesa correndo antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. Acho que ela estava meio caidinha por mim e eu queria ensinar coisas a ela, mesmo àquelas que ela já achava que sabia. Eu só precisava me livrar daquele peso enorme na consciência, que nunca, havia me perturbado antes.