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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Entre Laços e Paetês

Escrita porJosie
Revisada por Lelen

Capítulo 1 • A Batida da Cortina do Tempo

  O som era de um batidão grave de um funk que saía de um rádio de pilha em algum lugar do ônibus coletivo. %Gui%, um jovem de dezoito anos com ombros curvados e olhos que evitavam o confronto, segurava firme a alça da mochila. O ônibus sacolejava pelo asfalto quente da cidade, que pulsava com uma energia caótica e vibrante.
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  — Olha lá o "mudo", tá viajando de novo! — gritou um adolescente no fundo do ônibus, provocando risadas em um grupo de rapazes com bonés de aba reta.
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  — Ei, %Gui%! Tá procurando o que no chão, perdeu uma nota de um real? — outro zombou, chutando levemente o calcanhar do jovem.
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  %Gui% sentiu o rosto arder. Ele apertou os lábios, desejando ser invisível. A timidez era sua armadura e, ao mesmo tempo, sua prisão. Pela janela, ele via a cidade passar: homens jovens em motos, equilibrando capacetes no braço enquanto costuravam o trânsito; crianças correndo descalças atrás de uma bola de capotão em terrenos baldios; mercadores gritando ofertas de frutas e eletrônicos paraguaios nas esquinas. Era um mundo de cores neon, asfalto remendado e o cheiro de óleo diesel.
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  Ao descer no ponto próximo à sua casa, %Gui% caminhou apressado. A cidade pequena tinha esse ar de "todo mundo sabe de tudo", e ele sentia cada olhar como um julgamento. Ao entrar no portão de ferro que rangia, o silêncio da residência o acolheu como um abraço triste.
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  — %Gui%? É você, filho? — A voz de Mara veio da cozinha.
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  Mara era uma mulher de fibra, mas cujos olhos carregavam uma sombra recente. A morte do marido, ocorrida há poucos meses, deixara um vazio que nenhuma rotina conseguia preencher. %Gui% apenas murmurou um "oi" e foi para o quarto, jogando a mochila na cama. Ele olhou ao redor, sentindo que, de alguma forma, não pertencia àquele barulho todo lá fora.
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  Enquanto isso, a poucas quadras dali, o clima na casa de Tomás, tio de %Gui%, estava longe de ser pacífico. Tomás estava sentado à mesa da cozinha, tentando ler o jornal, enquanto sua esposa, Merli, andava de um lado para o outro, gesticulando freneticamente.
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  — Eu não aguento mais, Tomás! A Chalia está impossível! Outra briga, por causa de uma bobagem, uma roupa que ela queria usar! — Merli exclamou, batendo com a mão no balcão. — Ela me respondeu com uma petulância que eu nunca vi!
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  — Merli, calma... é a idade. Os jovens de hoje são diferentes — tentou ponderar Tomás, sem muita convicção.
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  — Diferentes? Eles são afrontosos! Ela acha que o mundo gira em torno do umbigo dela. E você não diz nada! Fica aí, escondido atrás desse papel!
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  No quarto ao lado, o som da porta batendo indicava que Chalia não tinha a menor intenção de pedir desculpas. Tomás suspirou, sentindo o peso da família e das expectativas. Destinos, embora separados por séculos e realidades, começavam a se entrelaçar por fios invisíveis de autoridade, rebeldia e a eterna busca por um lugar ao sol.
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***

  A noite avançou sobre a cidade paulista, abafando o som das motos e do funk, dando lugar ao coaxar dos sapos e ao zunido dos ventiladores. Mas, como sempre, o tempo não para.
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  O dia começou a amanhecer com um céu tingido de rosa e laranja. Na casa de %Gui%, o cheiro de café fresco começou a invadir os cômodos. Mara já estava de pé, as mãos habilidosas sovando a massa do pão que logo estaria no forno. Era o seu ritual de sobrevivência.
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  %Gui% despertou antes do despertador. Ele se sentou na beira da cama e olhou para a cômoda. Lá, em uma moldura de madeira simples, estava o retrato do pai. Um homem de sorriso contido e mãos grossas do trabalho pesado. %Gui% sentiu um nó na garganta. A falta do pai era uma presença física, um peso no peito que parecia aumentar a cada manhã.
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  Ele se levantou e caminhou até a cozinha, onde a luz do sol começava a entrar pela janela de vidro martelado.
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  — Bom dia, filho. O café está quase pronto — disse Mara, sem parar o movimento das mãos, mas lhe lançando um olhar doce.
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  — Bom dia, mãe — respondeu %Gui%, sentando-se à mesa.
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  Ele observou o vapor subindo da xícara que Mara colocou à sua frente. Ali, naquele pequeno gesto cotidiano, havia uma continuidade silenciosa.
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*****

  O sol de sábado mal havia começado a escalar o horizonte quando %Gui% despertou. Havia uma eletricidade suave sob sua pele, um entusiasmo injustificado que o fazia sentir que aquele dia carregava uma promessa. Ele desceu as escadas em direção à cozinha, onde o aroma reconfortante de café coado e pão na chapa já dominava o ambiente.
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  — Bom dia, meu filho! — Mara saudou, com um sorriso que parecia iluminar a cozinha tanto quanto a luz matinal. — Acordou animado hoje, foi?
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  — Bom dia, mãe. Não sei, parece que o sábado tem uma energia diferente, né? — %Gui% respondeu, puxando a cadeira e servindo-se de uma generosa fatia de pão.
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  A conversa foi interrompida pelo som da porta da frente. Era Tomás, o irmão mais velho de Mara, que trazia consigo o frescor da rua e a agitação de quem já tinha começado o dia há horas.
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  — Bom dia, família! — Tomás sentou-se à mesa, aceitando a xícara de café que Mara lhe estendeu. — Merli mandou beijos. Ela e a Chalia estão lá em casa organizando as coisas.
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  Enquanto eles conversavam sobre a rotina da família, o silêncio da manhã era sutilmente quebrado por um som que vinha de longe, mas ganhava força conforme o vento soprava: um funk vibrante. As batidas eram pesadas, rítmicas, e as letras, embora fortes e cruas, traziam a melodia da periferia que pulsava ali perto. Era o contraste perfeito para a calma daquela mesa de café.
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  O tempo parecia correr de forma elástica. A manhã avançou e, num piscar de olhos, o sol já começava a ensaiar sua descida, pintando o céu com tons de laranja e violeta. As ruas estavam vivas. Crianças brincavam, vizinhos trocavam fofocas nos portões e as praças exibiam orgulhosas seus matagais verdes, flores coloridas e árvores frondosas que resistiam ao asfalto.
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  %Gui%, em um momento de descanso no sofá, pegou o celular. Ao abrir o Instagram, o primeiro post no topo do feed era de Henrique Tury. O ex-youtuber de trolagens, que agora exibia uma expressão mais serena e um visual sóbrio, havia postado um novo vídeo.
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  — "A Palavra que Edifica: O que a Bíblia diz sobre o recomeço" — leu %Gui% em voz baixa.
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  Desde que fora batizado, Tury transformara seu canal. Onde antes havia pegadinhas infantis, agora havia mensagens de fé. %Gui% assistiu a alguns minutos, sentindo-se inspirado pela mudança genuína do rapaz. Ele curtiu o vídeo e, logo depois, sentiu vontade de conversar. Foi até o quarto de sua tia, Raquel.
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  Raquel era o porto seguro daquela casa. Uma freira devota, que exalava uma paz quase sobrenatural.
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  — Tia Raquel? — %Gui% chamou, encostando-se no batente da porta.
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  — Entre, meu querido. Estava justamente orando por nós — disse ela, fechando o pequeno livro de orações.
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  Os dois conversaram por um longo tempo sobre fé, sobre as mudanças no mundo e sobre como a espiritualidade se manifestava de formas diferentes em cada pessoa. Raquel ouvia com paciência, sempre oferecendo palavras que pareciam bálsamo para as inquietações de %Gui%.
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  Mais tarde, Mara chamou o filho.
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  — %Gui%, me acompanha até a lotérica? Preciso quitar essas contas antes que o dia acabe.
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  %Gui% e Mara caminharam juntos. O ambiente da lotérica era peculiar; havia aquele cheiro característico de papel impresso, de tinta fresca e o burburinho de pessoas apostando na sorte. Enquanto Mara conferia os canhotos no balcão, %Gui% observava o movimento. Na volta, enquanto caminhavam pela calçada estreita, um jovem passou por eles em direção a uma oficina próxima. Era Tiago Gustavo. Moreno, com cerca de 16 anos, Tiago tinha uma beleza magnética e um jeito de andar que transbordava confiança. Ele trabalhava ali perto e já era uma figura conhecida, mas, naquele momento, sob a luz dourada do fim de tarde, algo em %Gui% estremeceu. Um frio no estômago, uma atração súbita e intensa que o fez perder o fio da conversa com a mãe por alguns segundos. Tiago deu um aceno discreto, e %Gui% sentiu seu coração acelerar.
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  Nesse exato momento, a imagem começa a desfocar. Um véu diáfano e acinzentado cobre a tela, e o som do funk moderno é substituído pelo som de cortinas entrelaçado. A cortina do tempo começava a mudar...
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  %Delvanete% Rocha segurava um pequeno terço. A jovem estava rezando o terço em homenagem da mãe, que morreu cedo. Lizabete. Uma mulher cujo coração estava devotado em servir e buscar o Criador. Delva era uma jovem cujo coração estava em Deus. Seu livrinho de orações catolicas estava sempre com ela. Ela era uma mulher de muita fé. Algumas trilhas ao lado, estava %Berseva%, a mulher de quarenta anos cuidava de sua filha mais velha, Simone. Sem que notassem, um véu preenche o local, fazendo %Delvanete%, %Berseva% e %Gui% dormirem...
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