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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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De volta pra casa

Escrita porNathara Sant'anna
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Parte do Pop-Up Criativo #2 – Escreva seu livro.


Capítulo Um

“Voltar para casa nem sempre é o caminho mais fácil.”

  O motor da balsa fazia um barulho incessante, enquanto eu tentava ignorar as batidas do meu coração. Eu me sentia nervosa, minhas mãos suavam de uma forma completamente diferente, como se soubessem o que me esperava. Voltar para casa nem sempre é sinônimo de felicidade. Para mim é o completo oposto. Eu não gostava desse lugar, tudo aqui me irritava, desde o soar das gaivotas, até as ondas quebrando no mar.
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  Continuei sentada no banco de plástico, tentando ignorar alguns olhares curiosos que estava recebendo. Mantive minhas mãos dentro da jaqueta preta que usava tentando traçar um plano para sair o quanto antes desse lugar. Eu passei dez anos tentando esquecer quem eu fui aqui, mas o destino tem um senso de humor diferente quando se trata em dar uma rasteira em alguém.
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  Assim que a balsa ancora, peguei minhas malas e caminhei pela rampa que, pasmem, ainda era de madeira. Eu podia sentir ela se mexendo bem debaixo dos meus pés, como se um passo em falso fosse me jogar diretamente no mar.
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  O cheiro da ilha atingiu em cheio minhas narinas. Era uma mistura de maresia, peixe sendo limpo no porto, e gaivotas. Muitas gaivotas. Claro que para qualquer turista que fosse passar uma semana ou duas nesse lugar cheirava a perfeição, mas para alguém como eu que passou dezoito anos da minha vida sentindo isso, era um retrocesso. Eu precisava sair daqui o quanto antes, e não fazia nem cinco minutos desde que cheguei.
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  Caminhei em direção a saída do porto, e não olhei para os lados. Sabia que, se encarasse alguém por muito tempo, iriam me reconhecer e então a fofoca rolaria solta pela ilha. Eu não estava pronta para receber dezenas de “eu avisei”, “sua vida sempre foi a ilha, não sei por que foi embora”, ou “coitados dos seus pais, eles sentiram muito a sua falta” e por aí vai. Os moradores daqui tinham essa mania de se meter na vida dos outros, mesmo quando suas opiniões não eram solicitadas.
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  Parei em frente ao ponto de táxi e esperei por um tempo até alguém aparecer. Meus pais não poderiam vir me buscar, pois estavam ocupados com alguma coisa, então segundo eles eu teria que me virar. Claro que não esperava uma boa recepção, não quando eu fugi de casa logo que completei dezoito anos.
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  As ruas pareciam as mesmas desde a última vez que estive aqui.
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  Dez anos atrás.
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  A cidade não parecia ter mudado muito, exceto algumas casas novas que surgiram no caminho. Tirando isso, tudo parecia igual. A mesma árvore no centro da cidade, as mesmas casas coloridas com uma arquitetura que remete ao século dezenove. Algumas senhoras nas portas de suas casas, ou escoradas na janela tentando escutar uma fofoca para espalhar por aí. Parecia que eles estavam de alguma forma parados no tempo, e isso não era bom.
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  O táxi parou na frente da casa dos meus pais, e o senhor me ajudou a tirar minhas quatro malas de dentro do seu carro. Dez anos resumidos em quatro malas. Eu era uma vergonha.
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  Parei em frente ao portão de ferro que continuava da mesma forma de quando fui embora, e respirei fundo antes de abri-lo. A pintura desgastada ficando na minha mão. Minha casa ficava em um ponto alto da cidade, tendo uma das vistas mais privilegiadas, segundo meus pais, pois conseguimos olhar diretamente para o mar. Essa imagem me causava náuseas, mas foi onde eu cresci, afinal.
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  Arrastei minhas malas uma a uma pela escadaria de pedra que me levaria até a minha casa. Eu jamais conseguiria levar todas de uma vez, então faço duas descidas até que minhas malas estavam dispersas pela varanda.
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  Fitei a porta diante de mim por alguns minutos antes de criar coragem de abri-la e quando fiz, sou tomada por um cheiro fortíssimo de peixe, me causando ânsia.
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  — Você não aparece por anos, e quando aparece, decide vir de mala e cuia. — Todo mundo fala sobre como é maravilhoso sair da casa dos pais, mas ninguém fala sobre como é humilhante voltar para ela.
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  Minha mãe estava parada no corredor, com uma mão na cintura e outra segurando um facão ensebado. Ela estava limpando peixes, por isso tinha esse cheiro horrível dominando a casa.
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  — Olá para você, mãe. — Suspirei assim que ela virou de costas e voltou para a cozinha.
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  — Seu antigo quarto não existe mais, então você terá que dormir no quarto da sua irmã. — O fato dela ter mantido o quarto da minha irmã e não o meu deixa claro que não sou bem-vinda nessa casa.
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  — É por pouco tempo, pretendo arrumar um lugar para eu ficar. — Fui até a varanda, pegando minhas malas e as colocando para dentro.
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  — Isso será um alívio, as férias de verão logo irão começar, então quero o quarto livre para que sua sobrinha possa usá-lo.
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  — Entendido.
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  Cada passo que eu dava para dentro daquela casa era uma memória que eu não queria recordar. Eu me sentia pequena aqui, como se o passado estivesse começando a me sufocar aos poucos.
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  A garota que sonhava demais e que achava que seria grande, era assim que meus pais falavam de mim para os vizinhos. E era assim que os vizinhos me viam, uma garota ingrata, que não se importava com a ilha, com a cultura e com as pessoas que moravam ali.
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  Subi as escadas com um pouco de dificuldade. Minhas malas estavam pesadas e eu não tinha ninguém para me ajudar. O quarto da minha irmã ficava no fim do corredor, e acabei cedendo ao parar na frente do que deveria ser meu quarto e abro a porta. Ele tinha se tornado uma espécie de depósito para os tricôs e rendas que minha mãe fazia e o fecho rapidamente.
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  Ela tinha se livrado de tudo que era meu.
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  Claro que ela faria isso. Eu sempre fui considerada a ovelha negra da família e talvez seja por isso que foi tão fácil deixar minha família para trás.
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  Entrei no quarto da minha irmã em silêncio, jogando minhas malas em um canto qualquer. Me sentei na beira da cama, e observei as paredes decoradas com fotos da minha irmã desde que era um bebê, se estendendo a sua adolescência e casamento, até chegar nas fotos da minha sobrinha. Em nenhum momento fui colocada entre eles. Eram fotos dos meus pais com a minha irmã, com o meu cunhado, com a minha sobrinha e em nenhuma eu estava.
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  Eu não pertencia a esse lugar, muito menos a essa casa.
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  Abri a janela, tentando tomar um ar. O sol já estava se pondo, pintando o céu em tons alaranjados que contrastavam com o azul do mar.
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  Sorri estupefata. Alguém lá em cima estava tentando me ensinar uma lição, mas eu estava ficando sem paciência.
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  Como se não bastasse minha vida ser uma merda e eu ter que voltar para um lugar que jurei jamais colocar os pés novamente, o cheiro da minha infância tomava conta do quarto que eu estava.
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  Inferno.
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  Eu não iria conseguir passar do jantar se continuasse ali. Peguei minha jaqueta preta e comecei a descer as escadas. Sabia que minha mãe não notaria que sai, mas se eu encontrasse meu pai, a conversa seria outra.
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  O ar da primavera deveria ser mais fresco, mas o vento que batia no momento faria qualquer um usar uma jaqueta, mesmo que leve para não passar frio. O cheiro da maresia ainda estava ali, e cada vez mais impregnado no meu corpo.
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  Desci as escadas de casa e peguei o caminho que me levava em direção ao centro. Foram cerca de vinte minutos de caminhada até chegar lá e comecei a pensar se eu beberia um café, ou algo mais forte.
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  — %Hailey%? %Hailey% Armstrong?
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  Parei abruptamente. Aquela voz era inconfundível. Me virei lentamente e dei de cara com Akemi. Ela estava do outro lado da rua, segurando uma sacola de mercado, me encarando como se eu fosse um fantasma que tinha se manifestado bem na frente dela.
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  — Hey! — Tentei não parecer surpresa por ela se lembrar de mim, mas acho que minha cara entregou tudo.
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  — Meu Deus! O que você está fazendo aqui? Quer dizer, minha tia jurou que viu você, mas eu não levei muito a sério. — Ela atravessou a rua e veio em minha direção. — Você está diferente… Mais pálida. Não tinha tempo de ir para a praia?
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  — As coisas são um pouco mais corridas no continente. Então não tive muito tempo. — Respondi.
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  — Precisamos mudar isso, você não parece uma garota da ilha, e sim uma garota do continente. Olhe só para a sua roupa!
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  Era isso que eu temia, o julgamento sobre ser diferente e não ser aquilo que os outros projetavam em mim.
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  — Bom… E você? Tem feito o quê? — Perguntei. Akemi não mudou muito desde a última vez que a vi.
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  — Me casei, tive dois filhos… — Arregalei meus olhos. Ela era tão nova para ter filhos, com tanta coisa para fazer… Enfim, eu não devo me meter nessas coisas, estou aqui apenas por um tempo, tempo suficiente para me reerguer e voltar para casa.
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  — Ah, que legal! — Dei um sorriso que parecia mais constrangido que outra coisa.
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  — Vai ser tão divertido quando todos souberem que você voltou para casa. Veio apenas para o festival de verão? Ou vai ficar permanentemente?
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  Se eu falasse que ficaria permanentemente, todos iriam saber que eu fracassei, mas se eu falasse que ficaria apenas para o festival de verão, meu tempo nessa ilha seria curto e eu não teria para onde ir depois.
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  — Precisei vir resolver algumas coisas, então ficarei apenas o tempo de resolvê-las para depois voltar para casa. — Essa seria a melhor forma de evitar uma fofoca maior.
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  — Entendi, pensei que você voltaria um dia… Mas nunca imaginei que levaria anos para isso acontecer. — Semicerrei meus olhos, desconfiada de suas palavras. — Quando você foi embora… Muitas feridas demoraram para cicatrizarem, se é que você me entende.
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  — Onde você quer chegar com isso? — Cruzei meus braços abaixo do peito.
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  — Ninguém esperava que você embarcasse em uma balsa e fosse embora, quer dizer, um jeito bem dramático pós formatura, não é mesmo? — Ela devolve a pergunta.
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  — Todo mundo sabia que eu não pertencia a esse lugar. — Resmunguei.
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  — Mas acho que todos os seus amigos tinham esperança de você ficar, quer dizer… Você e %Kai% namoravam na época.
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  — Bom, nós tínhamos sonhos diferentes. — Finjo pegar meu celular do bolso e checar as horas.
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  — Acho que essa é a minha deixa. — Akemi percebe finalmente meu desconforto. — É bom ver você aqui, e acho que deve ser bom você ver um rosto conhecido sem ser o dos seus pais, mas se voltou para cá esperando uma recepção calorosa, lamento dizer que não terá. Muita gente ressente de você.
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  Com essas palavras, Akemi me deixa para trás de boca aberta. Ela seguiu seu caminho, me deixando parada no meio da calçada. Akemi sabia muito bem como usar as palavras, talvez esse fosse um dos motivos de nos tornarmos amigas quando mais novas e de eu tê-la mantido por perto durante toda a minha adolescência. Ela não tinha medo de magoar as pessoas.
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  Muita gente ressente de você.
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  Sabia que tinha magoado algumas pessoas com as minhas decisões, mas porque sou julgada por sair dessa ilha e ir atrás dos meus sonhos? Era como se eu só pudesse ser amada se continuasse ali, estagnada no tempo.
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  Eu precisava de uma bebida forte. Meu começo não tinha sido como eu imaginei. Claro que na minha cabeça eu passaria despercebida por aqui, mas à medida que eu ando e, mais olhares desconfiados e julgadores eu recebo.
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  Fiquei surpresa ao ver o letreiro chamativo escrito âncora, o dono do lugar parecia ter um bom gosto, porque ele transformou um galpão velho em um ambiente bem agradável de se estar, isso que eu nem entrei no local ainda. Mas o meu maior problema era que ele remetia à praia, algo que eu odiava do fundo da minha alma.
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  Lá dentro, o bar que também parecia funcionar como uma espécie de restaurante, parecia estar calmo. Mas algo me fez parar no lugar que estava. Eu conhecia aquelas costas. Durante toda a minha juventude tive um belo vislumbre delas, e minhas unhas também, mas o que chamou minha atenção é que diferente de Akemi, ele não parecia mais o garoto que eu conheci anos atrás e que foi atrás de mim em uma balsa, tentando me convencer a não ir embora, pelo contrário, ele parecia um homem.
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   Minha atenção desvia quando um garotinho passa por mim como um furacão, rindo de alguma coisa enquanto segurava uma folha de papel. Arregalei meus olhos ao observar aquela criança. Cabelos castanhos, queimados pelo sol. Olhos cor de mel… Ele era a cara de uma pessoa que estava bem diante dos meus olhos.
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  %Kai% tinha um filho.
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  Quer dizer, não esperava que %Kai% esperasse por mim, pois rezei muito para que ele encontrasse alguém que amasse as mesmas coisas que ele e o amasse por completo. Porém ter um vislumbre desse meu pedido, ao vivo e a cores, me deixou chocada.
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  — Papai, olha meu desenho! Olha meu desenho!
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  O menino parou ao lado dele, puxando a camisa de %Kai%, que o olhou com atenção. A cena se desdobra bem diante dos meus olhos. Ele pega o desenho do filho e sorri. Um sorriso que eu conhecia muito bem e que antes era direcionado apenas para mim.
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  Minha respiração ficou curta. %Kai% tinha um filho. Parece que ele construiu uma vida digna e exatamente como ele sempre desejou, mas porque sinto inveja? Será que é pelo fato de eu ter voltado para casa sem nada, quando anos atrás eu decidi ir embora e alcançar o mundo, prometendo que jamais voltaria para essa cidade? Para essa vida?
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  Eu queria dar meia volta e sumir dali. Não sabia como encarar %Kai%, e não pensei muito sobre isso desde que entrei na balsa e fiz meu caminho de volta para a cidade. Isso não deveria me afetar. Fui embora há dez anos, nesse meio tempo tive outros relacionamentos e a partir do momento que pisei meus pés no continente jurei nunca mais pensar nele. Mas por que esse sentimento de inveja e culpa apareceram de uma forma tão avassaladora?
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  Decidida, virei de costas e comecei a caminhar para fora, mas então, alguém entrou no local, chamando %Kai% em seguida.
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  Olhei para trás, e nossos olhos se cruzaram. O sorriso que ele tinha nos lábios desapareceu à medida que a ficha cai e %Kai% percebe que eu estava parada bem diante dele.
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  — O que diabos você está fazendo aqui, %Hailey%?
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