PARTE 01.
RAVEN’S CODE.
PRÓLOGO.
TUDO COMEÇA QUANDO UM BRUXO PURO-SANGUE SE APAIXONOU POR UM TROUXA.
Uma história que parecia se repetir com frequência no mundo bruxo. Um bruxo considerado puro-sangue, nascido dentro de um nome poderoso e respeitado, apaixonar-se por um
mero humano
trouxa apenas revelava a tragédia encravada no âmago de corações que não podiam ver
barreiras, mas apenas buscar reconhecer
semelhantes. Inescapável, certamente.
Evitável.
A família Rozenn, porventura, era reconhecida no mundo bruxo — especialmente na
França — não apenas por sua beleza estonteante, capaz de enlouquecer bruxos (graças, provavelmente, à herança das antigas criaturas chamadas
Veelas), como também por sua pureza sanguínea intacta. Mantinham a tradição de envolver-se apenas com bruxos puro-sangue, permitindo que suas habilidades não apenas florescessem, mas alcançassem
profundidade — sobretudo no que dizia respeito às poções.
Essa tradição não carecia do apoio de muitos no mundo bruxo. Contudo, os jovens dessas famílias, por vezes, preferiam desertá-la, escolhendo, por vontade
própria, a solidão infundada do mundo trouxa, a submeter-se ao eterno tormento de
casar-se com um desconhecido
apenas para manter segura a linhagem de sangue. Eram famílias com habilidades consideráveis, que cultivavam uma
presença fixa em escolas renomadas no mundo mágico, como a Beauxbatons — e, eventualmente, em outra instituição mais adequada às expectativas da matriarca da família: a temida Durmstrang.
Blanche Rozenn nasceu durante uma noite de intensa tempestade, no fim do verão francês. Dizia-se que, desde pequena, a menina havia vindo ao mundo com o único propósito de tornar-se uma força a ser reconhecida. Determinada, habilidosa e focada em seus objetivos, não havia quem realizasse um
feitiço tão bem quanto Blanche Rose-Marie Rozenn. No entanto, sua
verdadeira habilidade estava nas
palavras. Garota ladina e sagaz, era facilmente uma das mais carismáticas e expressivas alunas de Durmstrang. Pouco não conseguiria com algumas palavras bem arranjadas e um tom de voz doce e amigável. Pouco não conseguiria com aquele sorriso charmoso e convidativo.
Conforme cresceu, aceitou a proposta feita por sua família de unir as casas Greengrass e Rozenn. Após uma breve negociação, ficou decidido que Edwin Greengrass seria o responsável por trocar seu sobrenome e assumir o posto de herdeiro da família Rozenn. Com um ano de casamento, Blanche e Edwin — agora estabelecidos em Paris — receberam, em sua mansão, a pequena Joanne Karine Rozenn, primogênita do casal. Nomeada em homenagem à avó materna, a garotinha era fisicamente idêntica à mãe, exceto pelos olhos herdados do pai. Como era comum entre as crianças Rozenn, seus cabelos platinados — quase brancos — carregavam a fama de serem fruto de um
pacto antigo com uma criatura mágica ancestral.
É claro, não passavam de lendas. Mas o folclore que envolvia o poder da Casa Rozenn jamais fora desmentido. Quaisquer que fossem as intenções por trás da manutenção da tradição, o objetivo era sempre lembrar a todos da
importância que a linhagem carregava.
Blanche e Edwin ainda se tornaram pais de mais três meninos antes da chegada do último filho.
A história, até aqui, tornava-se mais complexa. Após quase doze anos de casamento, o casal — conhecido por sua imagem impecável — ocultava do olhar público as incoerências e dificuldades causadas pelos ressentimentos de um relacionamento arranjado. Convidados pelo Ministro da Magia a mudarem-se para Bucareste, receberam, como extensão da oferta, a oportunidade para Blanche Rozenn tornar-se uma das professoras de Durmstrang. Uma posição de grande prestígio, jamais negada pela agora matriarca da família Rozenn.
E foi
nesse novo cenário que ela conheceu o admirável professor de Arte das Magias das Trevas, conhecido apenas como Vladimir Krasny.
Um homem bonito e imponente, de postura intrigante, olhos %obsidianos% intensos e observadores — capazes de captar pequenos detalhes que até mesmo os mais atentos poderiam deixar escapar por mero acaso ou distração —, e uma quietude gentil que parecia
sempre ser um convite para que se orbitasse ao seu redor. Os cabelos %acobreados% destacavam-se entre os rostos pálidos que povoavam Durmstrang, e sua gentileza, certamente, desafiava a postura mais fria das famílias puro-sangue de bruxos que compunham o Instituto. Talvez tenha sido por isso que Blanche Rozenn se encantou pelo homem soturno ou, igualmente, fosse apenas o despeito causado pelo marido, que agora preferia trabalhar com maior frequência no Ministério da Magia da Romênia, parecendo estar determinado — quase
obcecado — a entender o componente
há muito desaparecido do mundo bruxo, conhecido como Magia Ancestral. Quaisquer que fossem as desculpas pérfidas e irrisórias que Blanche pudesse usar para justificar sua traição, o fator-chave ocorreu: ela se envolveu com o belo e silencioso professor de Artes da Magia das Trevas.
O caso durou cerca de três anos, período em que Blanche Rozenn lecionou, antes de retornar, mais uma vez, a Paris. E, desse caso extraconjugal, nasceu sua última criança, que recebeu apenas o nome de
River, ou como Edwin Greengrass-Rozenn a chamava afetuosamente:
Rio. Para pouca surpresa de todos, embora ainda os deixasse perplexos, Blanche Rozenn não sobreviveu ao último parto. Já enfraquecida pela perda de sangue, morreu pouco antes de sua última criança nascer, perdendo a oportunidade de ter um último confronto com seu marido, Edwin, sobre a paternidade da criança.
Ficou claro, no momento em que a criança saiu de seu ventre, que não carregava o mesmo sangue de Edwin. Não era apenas a pequena estrutura que levantava suspeitas, mas também os pequenos detalhes que se tornaram evidentes conforme a criança crescia. Primeiro, a herança característica da família Rozenn não se manifestou na constituição de Rio que, por obra do destino — ou de um certo carma —, possuía cabelos %acobreados%, tal como o pai biológico, e não os loiros pálidos naturais de um Rozenn. Igualmente, possuía os olhos %obsidianos%, intensos e profundos, e não os azuis quase prateados da família. A dissonância era tamanha que, mesmo para uma criança, seria evidente a infidelidade da mãe para com o pai. E, ainda assim, Edwin Greengrass-Rozenn, de alguma forma, não guardou
ressentimento da criança, mesmo tendo todo o direito de fazê-lo — levando em consideração que Rio era a prova viva da infidelidade de sua falecida esposa.
Embora alguns o chamassem de
tolo e até mesmo
depravado por sua postura, Edwin Greengrass-Rozenn não mudava. Pelo contrário, demonstrou profunda compaixão ao tomar a criança como sua no instante em que segurou o pequeno corpinho que protestava entre soluços, sem
hesitar. Sua falecida esposa poderia ser a culpada, mas não a criança que ela havia carregado. Portanto, o ressentimento partiu de sua primogênita, mesmo contra a vontade do patriarca da família, e tomou forma nas atitudes de Joanne Karine Rozenn, que não demorou a influenciar os outros irmãos. Com o passar dos anos, à medida que as crianças cresciam, a discrepância no tratamento dos filhos de Edwin por parte de estranhos tornava-se visível. Talvez fosse por
isso que o patriarca tendesse a favorecer sua filha mais nova.
Veja bem, não é que Edwin não amasse os outros filhos com respeito e dedicação, como fazia com Rio. Talvez, fosse a natureza de Blanche,
profundamente marcada em Joanne, que o fazia, mesmo contra sua vontade, repudiar os mais velhos e ter um ponto mais suave e gentil para com a caçula. Ou, talvez, fosse a percepção de que a única criança que
realmente parecia carregar um resquício de sua própria gentileza e compreensão fosse justamente Rio — e nenhuma outra. Ou, ainda mais perverso, ressentido pela traição da esposa, desejasse suprir todas as necessidades da criança para que Rio
jamais precisasse sequer se lembrar de quem sua
mãe ou
pai biológico haviam sido. O suficiente para que nada lhe faltasse além dele.
E, de fato, Rio nunca precisou de mais ninguém em sua vida além de Edwin.
Quando a família se mudou para Londres, pouco mais de dois meses após Edwin adoecer, chegou o momento de Rio decidir para qual escola desejaria ir. Com o histórico da família puro-sangue, seria bem aceita em qualquer lugar onde quisesse trilhar seu caminho. No entanto, quando a carta de Hogwarts chegou, Rio prontamente a descartou, preferindo seguir os passos anteriores da família e ingressar em Durmstrang. É claro que Edwin não aceitou bem a decisão, considerando o histórico e as memórias amargas que guardava daquele lugar, mas, igualmente, não
questionou a escolha da filha, pois não lhe cabia tal papel.
Teria apoiado Rio independentemente de
onde seu caminho a levasse, mesmo que lhe apertasse o coração o receio de perdê-la para a Romênia — novamente.
A escolha de Rio por seguir para Durmstrang não se devia ao desejo de
pertencer à sua família, pois há muito já havia enterrado a vontade de ser aceita pelos irmãos. Devia-se unicamente ao desejo de provar-se
superior a Joanne. Joanne, que não hesitava em usar palavras cruéis e violentas contra a existência de Rio, logo percebeu que o talento da irmã superava o dos demais membros da família. O interesse de Rio pelas Artes das Trevas não estava ligado à execução de feitiços obscuros nem ao desejo de tornar-se um bruxo das trevas, mas nascia puramente da necessidade de se defender de Joanne.
Enquanto Joanne despertava cada vez mais a atenção de colegas e professores — exibindo, desde tenra idade, a habilidade
herdada da mãe, Blanche, de encantar e convencer com as palavras —, rapidamente se tornou uma estrela entre os futuros colunistas do Profeta Diário. Rio, por outro lado, demonstrou uma impressionante aptidão para a
metamorfomagia — talvez a mais notável que já passara pelos salões de pedra de Durmstrang. E foi
isso que a levou até
ele.
Nomeado Django, em homenagem ao tio-tataravô — conhecido na comunidade como o Bardo por suas cantigas ridículas, porém grudentas —, o garoto trouxa cresceu em uma pequena comunidade Romani, no coração de Cluj-Napoca. Espírito livre, sorriso cativante e personalidade calorosa, Django não se preocupava com muitas coisas além das próximas peripécias e de como convencer alguém a lhe oferecer comida de graça. Embora nascido em uma família trouxa, os Vatra não eram desprovidos de magia — apenas a concebiam de maneira diferente. Sua visão de mundo moldava sua percepção, mas, ainda em tenra idade, Django
conseguia ver os rastros da Magia Ancestral ao seu redor.
Ele a via envolvendo seus irmãos mais novos e sua mãe, Esmeralda. Via magia na maneira como seu pai dedilhava o violão e cantava “O Dadoro” para os filhos quando não queriam dormir e a fogueira ardia intensa demais para que seu calor fosse ignorado. Django a enxergava também nos rostos desconhecidos daqueles que desapareciam entre paredes ou andavam com varinhas em punho. Às vezes, gostava de esgueirar-se entre vielas estreitas até alcançar pubs onde tais criaturas se reuniam para beber algo vagamente semelhante à cerveja.
E foi lá que, aos dezesseis anos, ele viu Rio pela primeira vez.
Apaixonou-se — não pela aparência, mas pela
essência de Rio. Era uma figura curiosa: enquanto
muitos tendiam a se encaixar em algum ponto do espectro de gênero, Rio subvertia essa concepção à sua própria maneira. Não era uma coisa ou outra — era apenas
Rio, de beleza imensurável e timidez encantadora. Na maior parte do tempo, quando Django encontrava Rio, ela usava roupas masculinas e os cabelos estavam curtos. Django gostava especialmente quando ela usava tons de verde, que faziam os cabelos %acobreados% parecerem ainda mais intensos. Gostava de poder emprestar-lhe roupas, nas noites em que ela dormia em sua casa.
Os pais de Django nunca questionaram profundamente quem era Rio; apenas a acolheram como parte da família, com ternura e afeto. Por isso, não houve
hesitação quando Rio se viu diante do dilema que tantos bruxos puro-sangue enfrentam ao se apaixonarem por um trouxa.
Nem mesmo Edwin, seu amado pai, pôde tolerar tamanha
“traição” vinda justamente de sua filha preferida. É verdade que, no leito de morte, ele a perdoou. Mas já fazia tempo que Rio havia sido expulsa da família e relegada, sem piedade, ao mundo dos trouxas — consequência direta da influência de sua irmã mais velha.
Por um breve período, a perseguição de Joanne cessou.
Ocupada com sua carreira de escritora e agora como a nova matriarca da família Rozenn, estava atarefada demais para se preocupar com Rio. E uma vez que a irmã havia sido banida e vivia uma vida simples com seu agora marido, Django, pouco podia fazer para interferir nos próprios planos de ascender ao Ministério da Magia. Joanne influenciava alguns azêmolas da sociedade bruxa com palavras vazias, convenientes ao ódio que cultivava — sem perceber que o fazia por pura debilidade emocional e enfado existencial. Seja como for, por um breve momento, Joanne estava
satisfeita com a bajulação infundada que recebia por suas palavras habilmente arranjadas para fazê-la soar bem.
Mas então, Rio e Django tiveram uma criança.
A criança herdara de Rio sua aparência, mas era de Django a sua personalidade. Curiosa, admiravelmente sagaz e perspicaz, era tão boa em observar detalhes quanto o seu avô biológico podia; tal como o pai, não apenas enxergava os rastros de
Magia Ancestral, como, surpreendentemente, a manuseava quando estivesse se concentrando muito. E
isto despertou não apenas o
interesse de Joanne, como, igualmente, seu senso de direito sobre a garotinha. Verdade seja dita, Joanne
jamais iria aceitar ser
menos que alguém, principalmente Rio, a quem jogava toda culpa —— aquela que
sequer possuía culpa alguma. Joanne precisava
vilanizar alguém para que pudesse suprir o doloroso fato que se recusava a reconhecer que a pessoa
mais nojenta que poderia ter conhecido a encarava
todos os dias pelo espelho.
Orgulhosa, não demorou muito para que Joanne iniciasse uma verdadeira
Caça às Bruxas. Alegou uma série de crimes que Rio
jamais poderia ter cometido, contudo, uma vez que Joanne havia conquistado a credibilidade que precisava, tampouco importava se suas palavras possuíam algum fundamento ou não; desde que ela o dissesse, alguns bruxos inescrupulosos rapidamente a usariam como
“verdade absoluta” para fundamentar seus
próprios desejos
pessoais e suas agendas. Para o desgosto de alguns poucos membros do parlamento, o Ministério da Magia não havia demorado tanto para aceitar as acusações difamatórias de Joanne, e como tal, tentarem capturar Rio e Django.
Mas o ódio que Joanne havia propositalmente incitado, não eram apenas pequenas chamas facilmente controláveis. Uma vez que o medo era instaurado e o ódio
“justificado”, tornavam-se labaredas gigantes que consumiam tudo pelo caminho, até que houvesse apenas cinzas. E talvez Joanne não tivesse a intenção de ver a dizimação de seus parentes, ou, talvez, lhe trouxesse para sua existência miserável, o conforto de uma validação muito esquecida em sua mente infantil. A validação de que
ela era a melhor —— mesmo que não fosse. A validação de uma insegurança que em nada possuía conexão se não a si mesma.
Mas uma vez que havia o desejo de cegar-se, um acreditaria em quaisquer mentiras que lhe fossem ditas; mesmo as que dizia a si mesmo.
Após a morte violenta e trágica de Rio e Django, a pequena garotinha, na época com apenas 3 anos, havia sido deixada sob a tutela de Joanne Karine Rozenn. A tutora não tardou em criar uma nova história, aclamada, que havia vendido
inúmeras cópias para os bruxos de todo o mundo; uma
doença perigosa e facilmente contagiosa que percebera que sua sobrinha possuía. Causada pelo sangue
sujo de um trouxa e um sangue-puro, o resultado poderia acarretar nas lacerações contínuas dos pequenos membros das crianças, criando inúmeras cicatrizes na pele que o marcavam como
doente. Devido a isto, um planejamento maior havia sido feito pelos bruxos de Durmstrang, que temiam que seus alunos pudessem vir a apresentar tal doença, e, como tal, extinguiu-se propositalmente a entrada de bruxos mestiços.
É claro que houve, de certa forma, resistências para com o novo livro de Joanne Karine Rozenn, e que isso a tornara mal vista em lugares mais progressistas, todavia, agora como a Vice-Diretora de Durmstrang, era apoiada por inúmeros pais e estudantes do Instituto que presavam fortemente para manter o sangue bruxo
sempre puro. O que poucos poderiam saber era que as poderosas exibições de magia que Joanne Karine Rozenn fazia em suas celebrações, na verdade vinha exatamente de uma canalização conectada diretamente com a garotinha acorrentada nas catacumbas abaixo do castelo de Durmstrang. E as cicatrizes que se formavam nos braços da menina eram
apenas as marcas deixadas para trás de sua crueldade, causadas pela
Magia das Trevas.
Porque Joanne
jamais seria algo melhor do que uma
mera parasita.