Acordes e Compassos


Escrita porDébora Albino
Revisada/Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 24 minutos

  O despertador do iPhone de document.write(Débora) document.write(Albino) não tocava músicas. Era um som de radar, persistente e irritante, programado para às 05h30 da manhã. Naquele horário, o bairro dos Jardins ainda estava mergulhado em um silêncio cinzento, interrompido apenas pelo som distante de algum carro de luxo cruzando a Oscar Freire.
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  document.write(Débora) abriu os olhos e, em segundos, sua mente já estava operando em modo de execução. Ela não era do tipo que "precisava de cinco minutos". Ela se levantou, calçou os chinelos alinhados ao lado da cama e caminhou pelo apartamento onde cada objeto tinha um lugar geométrico. As paredes brancas, decoradas com quadros minimalistas, não davam pistas de que ali morava uma das produtoras mais respeitadas do mercado fonográfico. Não havia discos de ouro expostos, nem fotos com celebridades. document.write(Débora) preferia que seu nome fosse lembrado pela competência, não pela proximidade com o brilho alheio.
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  Enquanto a cafeteira italiana soltava o aroma forte do café sem açúcar, ela revisava seu cronograma. Naquela manhã, sua rotina de "General" seria testada. Ela estava acostumada com grandes festivais, onde lidava com duzentas pessoas ao mesmo tempo sem alterar o tom de voz. Mas agora, o desafio era diferente: a turnê "Conexão". Trinta dias substituindo Beto. Trinta dias cuidando de Gustavo Mioto.
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  — Trinta dias — ela murmurou para si mesma, servindo o café na caneca de cerâmica preta. — Entro, organizo a bagunça, garanto que o show aconteça e saio ilesa.
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  Ela olhou para sua planta suculenta no parapeito da janela. Era a única coisa viva que ela permitia em seu espaço, justamente por não exigir atenção constante ou grandes demonstrações de afeto. document.write(Débora) tinha um trauma bem guardado no fundo da gaveta, uma ferida causada por um artista que confundiu trabalho com paixão e a deixou com a reputação arranhada e o coração cético. Desde então, ela usava o crachá no pescoço como uma armadura.
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  Às 08h00, ela já estava no carro. O GPS marcava o destino: o escritório da Miotinho Produções. Enquanto dirigia, ela não ouvia rádio. Ela ouvia o último álbum de Gustavo, não como fã, mas como técnica. Analisava as transições entre as faixas, imaginava onde os fogos de artifício entrariam no palco e como a luz deveria cortar o cenário.
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  Quando estacionou, o caos já a esperava. O telefone de Beto, que agora estava em suas mãos, não parava de vibrar.
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  — document.write(Débora)? É o segurança do aeroporto. A van do Gustavo está atrasada e já tem fã furando o bloqueio. O que a gente faz? — a voz do outro lado soava desesperada.
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  document.write(Débora) respirou fundo, sentindo o cheiro de café e o ar-condicionado do carro. Ela prendeu o cabelo em um rabo de cavalo impecável, ajustou a jaqueta corta-vento e desceu do veículo.
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  — Respira — ela disse calmamente ao telefone, com a voz que já lhe rendera o apelido de General. — Eu estou chegando. Ninguém fura o bloqueio hoje.
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  A rotina de silêncio do seu apartamento nos Jardins parecia agora uma memória distante. document.write(Débora) document.write(Albino) estava oficialmente em solo inimigo, pronta para domar o furacão Mioto. Ela só não contava que, desta vez, o furacão não queria ser domado, mas sim acompanhado.
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  document.write(Débora) desligou o celular sem esperar a resposta do segurança. O silêncio que se seguiu no interior do carro por breves cinco segundos foi o último momento de paz que ela teria naquele mês. Ela olhou pelo retrovisor, conferindo se o crachá da "Miotinho Produções" estava devidamente posicionado sobre a jaqueta corta-vento preta. Aquela peça de plástico era seu escudo; o título de "Produtora Geral" era sua espada.
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  Ao cruzar o portão de embarque privativo do aeroporto, a cena era exatamente o que ela desprezava: desorganização. Duas vans brancas estavam cercadas por cerca de trinta adolescentes eufóricas, enquanto três seguranças tentavam, sem sucesso, manter uma linha de isolamento que parecia feita de papel. No centro do redemoinho, através do vidro fumê de um dos veículos, ela pôde ver um vulto familiar ajustando um boné.
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  Ela não caminhou até eles. Ela marchou.
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  — Você, no portão 4, agora — ordenou ela ao primeiro segurança que cruzou seu caminho, sem diminuir o passo. — Chame a escolta motorizada para o pátio interno. Quero essas vans saindo por trás do hangar em três minutos.
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  O homem piscou, atordoado pela autoridade na voz daquela mulher que ele nunca tinha visto.
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  — Mas o Beto disse que...
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  — O Beto está de licença. Eu sou a document.write(Débora). E eu não dou sugestões, eu dou ordens. Movimente-se.
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  O cheiro de laquê, madeira compensada e adrenalina era o mesmo em qualquer lugar do Brasil, fosse em Barretos ou em uma casa de shows em São Paulo. Mas naquela noite, o ar parecia um pouco mais pesado nos corredores dos bastidores.
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  document.write(Débora) caminhava com passos firmes, o som de suas botas ecoando no concreto e fazendo a equipe de apoio abrir caminho quase que instintivamente. Ela não precisava gritar; sua postura resolvia 90% dos problemas. No pescoço, o crachá All Access balançava sobre a blusa preta de seda. No rádio comunicador preso à cintura, a voz do assistente de palco chiava:
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  — document.write(Débora), o Beto deixou a lista de convidados do camarim uma bagunça antes de sair de licença médica. A mãe do Gustavo tá perguntando onde fica a sala dela.
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  document.write(Débora) apertou o botão do rádio sem parar de andar, os olhos varrendo o corredor em busca da porta com a estrela.
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  — Coloca a dona Jussara na sala 2, aquela com o catering de frutas que eu pedi para reforçar. E avisa a segurança que ninguém entra no corredor principal nos próximos 15 minutos. Eu vou me apresentar ao chefe. — Ela soltou o botão e respirou fundo.
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  Ela gostava de sertanejo. Gostava mesmo. Sabia cantar todas as músicas do Mioto, do "Impressionando os Anjos" até os hits mais animados. Mas ali, naquele momento, ela não era fã. Era a profissional contratada a peso de ouro para cobrir uma licença de emergência e garantir que a turnê "Conexão" não descarrilasse.
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  Ela parou em frente à porta do camarim principal. Bateu duas vezes, secas, e entrou sem esperar muito convite.
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  O ambiente estava surpreendentemente silencioso em comparação ao caos lá fora. Gustavo Mioto estava sentado em um sofá de couro bege, dedilhando um violão distraidamente, com a cabeça baixa. Ele parecia cansado, mas focado. Ao ouvir a porta, ele levantou o olhar, esperando ver seu produtor habitual.
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  — Beto, você conseguiu ver o retorno do... — A frase morreu na boca dele quando viu a mulher parada à sua frente.
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  Gustavo endireitou a postura. Ele sabia quem ela era. O meio sertanejo era pequeno para quem era competente, e a fama de document.write(Débora) corria solta: eficiente, implacável e criativa.
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  — O Beto está a caminho do hospital com uma apendicite, Gustavo — disse document.write(Débora), o tom de voz calmo, mas que preenchia a sala. Ela estendeu a mão, profissional. — Eu sou a document.write(Débora). Vou assumir sua agenda e sua produção pelos próximos trinta dias.
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  Gustavo soltou o violão no suporte ao lado e se levantou. Ele era alto, e o perfume dele invadiu o espaço pessoal de document.write(Débora) de forma perigosa, mas ela não recuou um milímetro. Ele apertou a mão dela. O toque era firme e quente.
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  — A famosa document.write(Débora) — ele disse, com um meio sorriso que formava aquelas covinhas características. Os olhos dele a analisaram com uma curiosidade genuína. — Já ouvi dizer que você salvou a gravação do Luan no ano passado quando o gerador pifou.
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  — Exageros — ela respondeu, permitindo-se um sorriso breve e contido. — Eu só fiz o gerador funcionar. Hoje, meu trabalho é garantir que você suba naquele palco em 40 minutos com a cabeça tranquila. Falando nisso... — Ela olhou para o violão e depois para ele. — O retorno do seu ouvido esquerdo estava chiando na passagem de som. Já mandei trocar o bodypack. Era isso que ia perguntar pro Beto?
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  Gustavo piscou, surpreso.
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  — Era. Como você sabia?
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  — Eu estava na mesa de som ouvindo a passagem enquanto você cantava. Nada me passa despercebido. — Ela checou o relógio de pulso. — Você tem vinte minutos de descanso real. Quer que eu tire todo mundo daqui ou prefere que eu chame a banda para aquecer?
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  Gustavo cruzou os braços, encostando-se na borda da mesa de centro. Ele parecia impressionado. Pela primeira vez no dia, a tensão nos ombros dele relaxou.
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  — Você é rápida.
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  — Eu sou eficiente, Gustavo. — Ela o encarou nos olhos. — E sou fã do seu trabalho, então, por favor, não me faça passar vergonha com um show meia-boca hoje só porque seu produtor favorito está doente.
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  Ele riu, uma risada solta e rouca.
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  — Combinado, chefe. Pode deixar a banda entrar em cinco minutos. Antes... aceita um café? Ou produtores lendários não bebem café antes do show?
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  document.write(Débora) hesitou por um milésimo de segundo. A regra número um do manual não escrito dos produtores era manter uma distância segura do "talento". Mas recusar um café oferecido pelo próprio artista soaria indelicado, talvez até arrogante.
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  — Café é combustível. Eu aceito — respondeu ela, descruzando os braços. — Mas puro e rápido. Temos um cronograma.
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  Gustavo sorriu de canto e caminhou até a máquina de expresso no canto da sala. Enquanto ele manipulava as cápsulas, document.write(Débora) aproveitou para escanear o ambiente com mais atenção. Havia várias folhas de papel espalhadas sobre a mesa de centro: o roteiro do show, algumas letras rabiscadas e a setlist da noite.
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  — Açúcar? Adoçante? — perguntou ele, de costas.
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  — Nada. Do jeito que vier — disse ela, aproximando-se da mesa. Seus olhos focaram na lista de músicas impressa. Ela franziu a testa levemente.
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  Gustavo voltou trazendo duas xícaras pequenas de cerâmica preta. Entregou uma a ela, tomando o cuidado de não encostar os dedos nos dela, mas mantendo o contato visual.
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  — O que foi? — ele perguntou, notando a expressão dela ao olhar para os papéis. — Esse franzido na testa aí. Não gostou da ordem das músicas?
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  document.write(Débora) tomou um gole do café. Estava quente, forte, perfeito.
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  — Não é que eu não goste — começou ela, escolhendo as palavras. A fã dentro dela queria gritar que qualquer coisa que ele cantasse seria ótimo, mas a produtora precisava falar. — Mas vi que você tirou "Contramão" do bloco acústico e colocou no final, perto do encerramento.
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  Gustavo encostou-se novamente na bancada, bebericando seu café. Ele parecia genuinamente interessado na opinião dela.
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  — É. Eu senti que o show estava caindo um pouco no meio. Achei que jogar ela para o final ia dar um gás. O Beto concordou.
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  — O Beto entende de logística, Gustavo. Eu entendo de feeling de plateia — document.write(Débora) rebateu, com uma franqueza que surpreendeu a si mesma. Ela colocou a xícara na mesa e apontou para o papel. — "Contramão" é uma música de conexão. Se você jogar para o final, quando a galera já tá na euforia pra ir embora ou esperando os hits mais agitados pra pular, você perde a intimidade. Deixa-a no acústico. É o momento que as pessoas ligam a lanterna do celular. É o momento que elas se apaixonam pelo show.
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  Gustavo ficou em silêncio por alguns segundos, observando-a. O olhar dele não era de desafio, mas de avaliação. Ele estava pesando a audácia daquela mulher que acabara de chegar contra a experiência dele de anos de estrada.
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  Ele soltou uma respiração lenta e colocou sua xícara ao lado da dela. Então, pegou uma caneta que estava sobre o sofá.
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  — Você é sempre assim? — ele perguntou, girando a caneta entre os dedos.
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  — Assim como?
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  — Direta. Sem medo de contrariar o "chefe".
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  — Eu fui contratada para fazer o show ser inesquecível, não para concordar com você — document.write(Débora) sustentou o olhar, embora sentisse o coração acelerar levemente. A presença dele era magnética, e tê-lo focado nela daquele jeito era desconcertante.
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  Gustavo riu baixo, balançando a cabeça negativamente, como se não acreditasse na sorte (ou no azar) que tinha. Ele se inclinou sobre a mesa e riscou a setlist, desenhando uma seta enorme trazendo a música de volta para o meio do show.
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  — Ok, document.write(Débora). — Ele disse o nome dela testando a sonoridade, de um jeito mais suave. — Vamos fazer do seu jeito hoje. Mas se o meio do show ficar morno...
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  — Não vai ficar — ela o cortou, com um sorriso confiante e profissional. — Eu garanto.
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  — Gosto dessa confiança — murmurou ele, largando a caneta.
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  O clima no ambiente mudou sutilmente. Deixou de ser apenas uma reunião de alinhamento e virou algo mais... denso. Havia uma curiosidade mútua pairando no ar. Gustavo parecia prestes a perguntar mais alguma coisa, talvez algo pessoal, quando batidas ritmadas e barulhentas soaram na porta.
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  A porta se abriu num estrondo e três músicos entraram rindo, carregando instrumentos e quebrando instantaneamente a bolha de silêncio que havia se formado entre document.write(Débora) e Gustavo.
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  — E aí, Mioto! Bora que o povo tá gritando lá fora! — gritou o baterista, parando bruscamente ao ver document.write(Débora) parada ali, impecável, com a xícara de café e a postura de general.
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  document.write(Débora) virou-se para a banda, a máscara de chefe voltando ao lugar instantaneamente.
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  — Boa noite, meninos — disse ela, a voz projetada. — Vocês têm três minutos para o aquecimento final aqui dentro. O palco está liberado em cinco. Vamos seguir a setlist original no bloco 2, com a alteração que acabei de fazer com o Gustavo. Sem questionamentos agora.
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  Ela olhou para Gustavo uma última vez. Ele já estava pegando o violão novamente, mas piscou para ela — um gesto rápido, cúmplice, quase imperceptível para os outros.
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  — Bom show, Gustavo — disse ela.
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  — Obrigado, document.write(Débora). — Ele respondeu, e havia um tom diferente na voz dele agora. Um tom de respeito. — A gente se vê na saída do palco.
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  document.write(Débora) assentiu e saiu da sala, fechando a porta atrás de si. No corredor frio, ela soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. Seria um longo mês.
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O Palco (POV: Gustavo)

  O palco é um lugar curioso. Para quem vê de fora, é só luz, gritaria e festa. Para mim, é onde o tempo distorce. Uma hora e meia pode parecer cinco minutos ou cinco dias, dependendo da energia da noite.
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  E aquela noite estava... elétrica.
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  Eu já estava suando quando a banda diminuiu o ritmo. O baterista fez a contagem suave no chimbal e as luzes do palco baixaram, trocando os feixes frenéticos de estrobo por um tom azul profundo e acolhedor. Era a hora do bloco acústico. O momento da verdade.
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  Puxei o banquinho para o centro, ajeitei o violão no colo e aproximei o microfone. Pelo canto do olho, vi a setlist colada no chão, iluminada por uma pequena luz de led. Ali estava a marca de caneta preta, grossa e decidida, que document.write(Débora) tinha feito trinta minutos atrás.
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  “Contramão”. Agora.
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  — Essa próxima... — comecei a falar, e minha voz reverberou no estádio lotado. O simples som da minha respiração no microfone fez o grito da galera aumentar. — Essa a gente quase deixou para o final hoje. Mas uma pessoa nova na equipe me disse que esse era o momento exato pra gente se conectar. Vamos ver se ela estava certa.
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  Dedilhados iniciais. A melodia inconfundível de "Contramão" começou.
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  Não levou nem cinco segundos. Antes mesmo de eu cantar a primeira frase ("me fala qual é o seu perfume..."), o público reagiu. Não foi com pulos ou empurra-empurra, foi com uma onda coletiva de emoção. Centenas, talvez milhares de lanternas de celulares se acenderam simultaneamente, transformando a escuridão da plateia em um céu estrelado artificial.
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  Eu cantei a primeira estrofe, mas quase não consegui me ouvir. A voz da multidão cobriu o som dos meus fones in-ear. Eles cantavam cada palavra com uma intensidade que arrepiava.
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  Ela tinha razão.
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  O pensamento veio claro e forte no meio do refrão. Se eu tivesse deixado essa música para o final, com todo mundo cansado e bêbado, esse momento mágico teria se perdido na euforia da despedida. Aqui, no meio do show, funcionou como um abraço coletivo. Renovou a energia de todo mundo.
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  Maldita produtora competente. Sorri internamente enquanto deixava a plateia cantar o refrão sozinha.
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  Instintivamente, olhei para a lateral do palco, para a coxia esquerda, onde ficava a mesa de produção. Geralmente, é um lugar escuro e caótico, cheio de técnicos correndo. Mas meus olhos a encontraram imediatamente.
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  document.write(Débora) estava parada perto do monitor de vídeo, os braços cruzados, o rádio comunicador preso ao cinto brilhando com a luzinha vermelha de "ocupado". Ela não estava pulando, nem filmando com o celular como a maioria das pessoas que ficavam ali. Ela estava imóvel, observando a plateia com um olhar crítico e analítico.
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  Ela estava trabalhando. E, caramba, como ela ficava bonita daquele jeito sério, iluminada apenas pelo reflexo azulado das luzes do palco. O cabelo, que antes parecia perfeitamente alinhado, agora tinha alguns fios soltos por causa do calor e da correria, o que a deixava estranhamente mais real.
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  Como se sentisse meu olhar, ela desviou a atenção do público e olhou para o centro do palco. Nossos olhares se cruzaram por um segundo. Mesmo à distância, vi a expressão dela.
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  Ela não sorriu abertamente. Apenas ergueu o queixo levemente e assentiu com a cabeça, um movimento curto e seguro. Eu te avisei, o gesto dizia. Eu sei o que estou fazendo.
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  Senti um sorriso bobo repuxar o canto da minha boca enquanto eu voltava para o microfone para finalizar a música. Aquele gesto de aprovação dela valeu mais do que eu gostaria de admitir. O Beto, meu produtor antigo, teria feito um "joinha" exagerado. document.write(Débora) manteve a classe.
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  Terminei a música sob aplausos ensurdecedores. A energia estava lá em cima.
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  — É... — falei no microfone, rindo soprado enquanto ajeitava a correia do violão. — Parece que ela estava certa mesmo.
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  A banda atacou a próxima música, um hit animado, e eu me levantei, sentindo uma adrenalina nova. Não era só pelo show. Era o desafio. Eu queria ver se conseguia impressionar aquela mulher do mesmo jeito que ela tinha acabado de me impressionar.
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  O caos pós-show era uma entidade viva. Assim que Gustavo desceu os degraus finais da rampa lateral do palco, uma nuvem de pessoas o envolveu. Alguém jogou uma toalha branca sobre seus ombros, outro enfiou uma garrafa de água em sua mão, e o produtor de estrada gritava algo sobre "van na saída B em 15 minutos".
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  O barulho ainda zumbia nos ouvidos de Gustavo, e o suor escorria por suas têmporas, mas seus olhos buscavam um ponto fixo no meio daquela confusão.
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  Ele a encontrou encostada em um case de equipamentos preto, digitando algo no celular com agilidade. document.write(Débora) parecia a única ilha de pragmatismo naquele oceano de euforia do pós-show.
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  Gustavo se desvencilhou de um assistente que tentava tirar o ponto de retorno de sua orelha e caminhou até ela. A presença dele ainda irradiava o calor do palco, mas document.write(Débora) apenas levantou os olhos da tela quando ele parou à sua frente.
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  Ela bloqueou o celular. Por um breve segundo ela o analisou — não como um fã, mas como um médico analisa um paciente: notou o cansaço nos olhos dele e o esforço respiratório ainda acelerado.
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  — Parabéns, Gustavo — disse ela, com um tom profissional e direto. — Foi um show sólido. A banda estava afiada e você entregou o que o público esperava. É uma performance consistente.
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  Gustavo passou a toalha pelo rosto, sentindo o peso do elogio. Ele percebeu que ela não era do tipo que distribuía adjetivos vazios.
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  — Obrigado. — Ele deu um passo à frente, tentando sair do fluxo de pessoas que passavam com instrumentos. — Eu estava falando sério lá em cima. Aquela mudança na setlist que você sugeriu salvou o ritmo. A energia mudou na hora. Você tem uma leitura rápida.
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  — É para isso que eu fui contratada — ela respondeu, mantendo a expressão neutra, embora houvesse um lampejo de satisfação profissional no olhar. — Eu observo padrões. E o seu ritmo estava caindo. Fico feliz que tenha tido o discernimento de aceitar a instrução, mesmo sem me conhecer.
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  — Digamos que eu sei identificar quem sabe o que está fazendo — ele rebateu.
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  Um técnico passou empurrando um amplificador entre eles, e document.write(Débora) imediatamente retomou o foco na planilha que brilhava no celular.
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  — Bom, a adrenalina vai baixar e você vai precisar preservar a voz. O Beto me passou o básico, mas eu preciso entender as peculiaridades dessa turnê. Não trabalho com suposições.
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  — Concordo — Gustavo assentiu, bebendo um longo gole de água. — Tem muita coisa acontecendo. Gravação de clipe, logística... Eu não quero que a gente se desencontre como hoje.
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  — Eu não trabalho com desencontros, Gustavo — ela disse, arqueando uma sobrancelha de forma resoluta. — Mas preciso alinhar o cronograma com você. Sem intermediários para não perder informação.
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  Gustavo pensou por um segundo. A agenda do dia seguinte era cheia.
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  — Amanhã de manhã? — sugeriu ele. — Podemos tomar café no hotel.
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  document.write(Débora) negou com a cabeça sem hesitar.
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  — De manhã você dorme. Sua voz precisa de repouso absoluto depois de um setlist desse peso. Marcamos para o almoço. Meio-dia e meia, no restaurante do hotel. É um ambiente controlado e passamos a pauta dos próximos trinta dias. Pode ser?
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  Gustavo soltou um riso curto. Ela já estava ditando o ritmo, e o mais estranho era que ele não sentia vontade de contestar.
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  — Meio-dia e meia. Fechado.
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  — Ótimo. Agora vá para a van, sua equipe já está cronometrada para a saída — ela deu um passo para o lado, abrindo caminho para ele, sem nenhum toque, apenas um aceno de cabeça profissional. — Até amanhã, Gustavo.
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  Ela se virou e saiu andando em direção à saída de produção. Gustavo ficou parado por um momento, observando a segurança com que ela comandava o espaço ao redor, antes de sentir o produtor de estrada puxar seu braço.
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  — Vamos, Mioto! A van tá ligada!
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  Gustavo foi, mas a sensação era de que, pela primeira vez em muito tempo, o caos da sua agenda tinha encontrado um obstáculo à altura.
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