Who Said It Could Not Be Forever?


Escrita porSamara Dias
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo. 22

Tempo estimado de leitura: 54 minutos

  - Aqui está! - Jesus me entregou uma das canecas onde eu vi sair uma fumaça branca de dentro, o cheiro era de dar água na boca! Agradeci e beberiquei o chocolate quente, que estava fervendo literalmente. Quase queimei minha língua! - É melhor você beber rápido porque daqui há alguns minutos esse chocolate vai estar virando uma pedra de gelo! - Eu gargalhei com o comentário e concordei.
  - Foi você que fez o chocolate quente? - Ele concordou com a cabeça enquanto bebia da sua caneca. - Mas o gosto me é tão familiar!
  - É claro que é! Eu peguei a receita com a sua avó. - Tentei não parecer tão surpresa, mas sei que falhei.
  - Co... Como ela está? - Jesus me abraçou de lado e eu bebi ainda mais avidamente do chocolate quente, sentindo lembranças me atingirem por causa do gosto.
  - Bem, é claro. Ela te mandou um beijo e disse que sente saudades. - Eu suspirei encostando minha cabeça no ombro dele.
  - Eu também sinto saudades dela. Muitas.
  - Imagino que tenha sido difícil pra você quando ela se foi. - Suspirei e concordei com a cabeça. - Ela era como uma mãe pra você, não é?
  - Muito mais do que isso. Minha avó era mãe, pai e amiga. Ela me ajudou muito mesmo sem saber de muitas coisas. - Beberiquei meu chocolate quente e Jesus fez o mesmo. Ficamos em silêncio por alguns instantes.
  - Quer falar sobre o que aconteceu? - Eu franzi minha testa sem entender do que se tratava. Jesus soltou um suspiro. - Do que aconteceu com você quando tinha treze anos.
  - Você tá falando do estupro, da separação dos meus pais ou do desprezo da minha mãe? - Virei meu rosto o suficiente para que pudesse olhar nos olhos dele. Imaginei que a dor que estava em meu coração naquele momento estava refletindo nos olhos dele.
  - Talvez sobre tudo. - Mordi meu lábio inferior e voltei a posição anterior. - Que tal começarmos pelo estupro? - Soltei o ar pesadamente, encarei a pequena fumaça branca enquanto ela saía de meus lábios.
  - Eu não preciso falar sobre isso. Eu consegui superar o que aconteceu e prefiro esquecer esse passado. - Voltei a beber o chocolate quente e acabei com todo o conteúdo da caneca. Jesus ao perceber isso, pegou a mesma de minhas mãos e depositou em um quanto qualquer antes de voltar a me abraçar de lado. - Obrigada.
  - Disponha. - Ele sorriu e eu fiz o mesmo. - Em relação ao estupro, eu também acho que não há necessidade de conversarmos sobre isso, mas preciso dizer que fiquei muito orgulhoso de você. Sua atitude de perdoar o rapaz foi algo que poucos fariam no seu lugar, ainda mais sem o ter denunciado. Você deu a ele uma segunda chance de ser bom. - Eu sorri.
  Nunca havia pensado dessa forma. Eu só quis perdoar o Filipe porque ele foi muito importante pra mim apesar de tudo. Eu o amei muito. Foi a primeira pessoa que eu amei e que me beijou e eu não conseguia vê-lo como aquele monstro que tinha me forçado. Tentava imaginar que era um pesadelo da minha cabeça e que outra pessoa tinha feito aquilo e que, para tentar deixar o trauma menor, eu havia imaginado o rosto do Filipe na hora.
  Claro que eu sei que não foi assim. Foi ele mesmo que fez aquelas barbaridades comigo, mas ainda assim, por mim ele teria uma segunda chance. É bom saber que eu dei uma a ele.
  - E ele aproveitou a segunda chance? - Tive que perguntar. Acabei ficando curiosa demais.
  - Sim. Ele conheceu uma moça de igreja, a alma gêmea dele, e já se casou. - Encarei Jesus com a boca aberta.
  - Casou? Uau! Ele é tão novo!
  - Pois é, a moça por quem ele se apaixonou ainda era virgem, pura. Ele respeitou a virgindade dela e se casou. - Fiquei impressionada com a revelação, afinal eu também era virgem quando ele arruinou a minha vida. - Depois de você ele não se envolveu com nenhuma outra virgem. Ele não queria tirar a virgindade de mais ninguém porque ele se lembrava do que fez com você. Só que então ele encontrou essa moça.
  - Quem diria! - Soltei sem pensar e Jesus sorriu pra mim.
  - Foi a sua atitude que proporcionou a ele essa oportunidade de conhecer a alma gêmea. Já imaginou se você não o tivesse perdoado? As coisas podiam ser bem diferentes pra ele hoje.
  Eu apenas consegui concordar com a cabeça. Ainda estava tentando assimilar as informações novas.
  - %Saáh%? - Voltei a olhar pra ele e vi sua expressão séria. - Quer falar sobre a sua mãe? - Desviei o olhar no mesmo segundo, segurando um palavrão na garganta. Não ia falar palavrão na frente de Jesus, mas imagino que ele possa ler meu pensamento agora.
  - Não.
  - %Samara%, você fez uma diferença tão grande na vida do Filipe ao perdoá-lo, por que não fazer o mesmo por sua mãe?
  - Porque ela não merece nada! - Gritei sentindo o ódio transbordando por minhas veias. - Que ela viva a vida dela longe de mim! Eu não quero nada com ela e nada que venha dela!
  - %Saáh%... - Jesus me abraçou com força, mas eu nem reparei.
  - Sabe como foi difícil escutar aquelas palavras saindo da boca dela? Sabe como isso está gravado na minha mente e no meu coração até hoje? Como dói todas as vezes em que eu precisei de uma mãe e não tive? Não Jesus, não tem como perdoar isso!
  - Tudo bem, tudo bem. - Senti ele dizer enquanto minhas lágrimas caíam por meu rosto deixando um rastro quente no frio. - Eu não estou pedindo você para perdoá-la para o bem dela, e sim para o seu. Você sempre vai sofrer se não perdoar a sua mãe e eu sinto o seu sofrimento %Samara%, sinto desde o início. Eu vi todas as lágrimas que você derramou por conta disso e eu chorei junto com você. Eu entendo você, mas eu preciso que você também entenda que não há maneira melhor de superar isso sem usar o perdão. - Suas mãos alisavam meus cabelos, transmitindo uma calma que eu achei só Jesus conseguir passar em um momento como esse.
  - Eu não posso. - Disse ao me afastar, tentando enxugar as lágrimas do meu rosto. Jesus trouxe suas mãos para minhas bochechas, ajudando a limpar minhas lágrimas.
  - Sim, você pode. Você já perdoou coisas piores querida. Você é forte e boa, consegue perdoá-la. - Ele deu um meio sorriso pra mim. Retirei os óculos escuros que estavam manchados com algumas das minhas lágrimas e esfreguei meus olhos.
  Tentei esquecer todas as coisas ruins e me concentrar nas lembranças boas que eu tinha da minha mãe. Das vezes em que ela cuidou de meus machucados quando eu caía brincando. Quando ela me levou ao parque de diversões e andou comigo no carrinho de bate-bate. Quando ela me disse que, por mais que ela não desejasse engravidar tão nova, eu sempre fui a filha que ela pediu a Deus e ela estava muito feliz com isso.
  Respirei fundo. Sim, eu acho que posso fazer isso!
  - Eu perdoo você mãe. - Foi um sussurro, mas imagino que fosse o suficiente.

  %Danny% POV.
  - %Danny%? - Olhei pra porta e vi %AnaPaula% acenar para que eu fosse até ela. Dei um beijo no rosto da %Saáh%.
  - Eu já volto amor. - Cochichei no ouvido dela e saí. - Que foi %Paulinha%? - Fechei a porta atrás de mim.
  - O pai da %Samara% acabou de me ligar. Ele está aqui em Londres! - Fui pego de surpresa com aquela informação.
  - E você só me avisa que ele estava vindo agora? - Tive que me controlar para não gritar.
  - Eu também não sabia! Ele não me disse nada quando eu avisei que a %Samara% estava no hospital. Agora ele está me pedindo para ir buscá-lo no aeroporto. - Passei minhas mãos pelos cabelos, bagunçando-os. - Ele não sabe uma palavra de Inglês e eu tenho que ir pra lá logo, mas antes eu tinha que vir te avisar porque eu sei que você não estava preparado então, vai preparando sua cabeça aí.
  - Ele sabe sobre mim e ela? - Perguntei antes que ela pudesse se afastar. %Paulinha% franziu a testa.
  - Eu acho que o pai dela não sabe que é você, tipo, um cara famoso e tals, mas eu acho que a %Samara% contou que estava enrolada com um rapaz aqui. - Ela sorriu e eu acabei sorrindo também. - Eu preciso ir. - Ela deu meia volta e saiu.
  Avistei %Dougie% aguardando ela no final do corredor. Acenei e ele acenou de volta. Voltei para dentro do quarto tentando inutilmente espantar o súbito nervosismo que me atingiu.
  Eu ia conhecer o pai dela! Deus, como eu vou conseguir fazer isso sem a %Samara% pra me ajudar? A situação vai ser mais do que embaraçosa, vai ser um desastre!
  - %Saáh%, amor, será que dá pra você acordar agora? - Sentei na minha cadeira ao lado dela e embalei sua mão nas minhas. - Seu pai está vindo pra cá e eu não faço ideia de como agir, o que falar, nada! Eu não sei se vou conseguir fazer isso sem você então, vai, acorda aí! - Beijei a palma de sua mão com delicadeza e apoiei minha bochecha nela, fechando meus olhos. - O que eu vou dizer se ele perguntar sobre a gente, hun? Nem eu ao menos sei o que nós dois somos. Amigos? Namorados? Ficantes? Nenhuma das alternativas? - Soltei uma risada sem graça e respirei fundo. - Ele pode fazer o que quiser comigo desde que não me tire de perto de você.
  End POV.

  - Eu vou sair pra que você fique mais à vontade. - Arregalei meus olhos quando eu escutei a voz do %Danny% mais uma vez. Jesus ao meu lado sorriu.
  - Ele está falando com quem? - Perguntei com a voz fraca. Era tão difícil escutar a voz dele, mas não poder vê-lo, não poder senti-lo, era ainda pior.
  - Adivinha só! Um grande amigo dele que deixou de ser amigo assim que ele ficou com você. - Demorei alguns minutos para fazer a ligação e quando eu a fiz, soltei um grito.
  - James? - Jesus concordou com a cabeça. - Ah meu Deus! Eles vão se matar ali! - Escutei uma gargalhada alta. Olhei para Jesus e vi ele se contorcendo de tanto rir. - O quê? - Perguntei sorrindo também. A gargalhada dele era contagiante.
  - Você ficaria impressionada ao ver o que o James está falando pra você. Mais ainda porque o %Danny% está escutando tudo!
  - Ah não! - Levei as mãos à cabeça tentando não imaginar o que estava acontecendo naquele instante no quarto de hospital. - Eles vão mesmo se matar! - Vi Jesus negar com a cabeça, ainda sorrindo.
  - Pelo contrário. Eles vão fazer as pazes.
  - O quê? - Lá estava eu gritando mais uma vez.
  - É. Escuta. - Ele apontou para o próprio ouvido escondido embaixo da touca.
  - Foi mal cara! - A voz do %Danny% preencheu meus ouvidos mais uma vez e eu percebi que a voz estava embargada pelo choro.
  - Eles estão se abraçando nesse exato momento. É uma pena que você não pode escutar o que o James está dizendo. - Eu consegui sorrir, sentindo um enorme alívio me atingir.
  %Danny% e o Jimmy fazendo as pazes! Pelo menos uma coisa boa saiu desse coma!
  - Isso te deixa feliz? Se você acordasse agora o meu dia seria perfeito. - Ah, %Danny%. Você não tem noção do quanto eu estou feliz e de como eu queria poder acordar só pra ver os seus olhos lindos!
  - Gostou? - Jesus perguntou depois de alguns minutos. Eu saí de meu devaneio e concordei com a cabeça. - Que tal irmos visitar os ursos agora? - Eu abri a boca mais uma vez. Parece que a cada segundo Jesus me aparece com uma surpresa nova.
  - Sério? - Ele concordou com a cabeça, já se levantando. Estendeu a mão para que eu a pegasse. - Acho que você não vai deixar de me surpreender a cada segundo não é? - Ele gargalhou dando um impulso para o alto, me levantando.
  - E qual seria a graça de passar um tempo com você sem ver a sua carinha linda de surpresa a cada instante? - Gargalhamos juntos. - Vamos.

  %AnaPaula% POV.
  - Ela está nesse quarto. - Parei em frente à porta branca e falei para ele em português. Ele deu uma olhada na porta antes de acenar com a cabeça. %Dougie% deu três batidas na madeira antes de abri-la.
  Entramos no quarto silenciosamente. Vi %Danny% levantar da cadeira quando viu a gente entrar. Seu rosto demonstrava todo o seu nervosismo. Coitado! Até imagino como ele deve estar se controlando pra não pirar.
  Ele se afastou da cama assim que o pai de %Samara% foi até ela, que se debruçou sobre a filha e passou a mão por seu rosto. Vi que algumas pequenas lágrimas estavam caindo por seu rosto, mas ele as enxugou quando endireitou o corpo, voltando a olhar pra mim.
  - Ele é o %Daniel%? - Perguntou encarando o %Danny% que estava agora ao meu lado e do %Dougie%. Eu concordei com a cabeça.
  - %Danny%, esse é o pai da %Samara%. - Apontei pra ele que engoliu em seco. %Danny% se aproximou do homem e estendeu a mão.
  - É um prazer finalmente conhecê-lo Sr. %Dias%. Só lamento ser nessas circunstâncias. - Traduzi o que ele falou para o pai da %Saáh%. O mesmo apertou a mão do %Danny% e concordou com a cabeça.
  - Digo o mesmo %Jones%. - Ele soltou a mão com um meio sorriso. - Ainda estou muito surpreso em descobrir que você é o rapaz que minha filha tanto falava. - Traduzi o que ele disse e %Danny% sorriu sem graça. O pai da %Saáh% voltou para perto dela, olhando-a com afeição. - Ninguém nunca levou a sério quando ela dizia que encontraria o McFly em Londres, muito menos quando ela comentava que você era o amor da vida dela. - Tive grande prazer em traduzir isso para o %Danny% que sorriu largamente.
  Os dois se encararam por um momento.
  - Vocês dois estão namorando? - Tá aí a pergunta que %Danny% não queria responder. Traduzi pra ele e percebi seu olhar de desespero na minha direção. Ele voltou a encarar o pai da %Saáh%.
  - É complicado na verdade. Nós dois estávamos separados quando isso aconteceu. - Traduzi e vi o pai da %Saáh% concordar com a cabeça por um momento.
  - Mas você a ama %Jones%? - Traduzi mais uma vez e vi um olhar de determinação nos olhos de %Danny% antes dele responder.
  - Eu a amo com tudo o que sou. Posso ter cometido muitos erros com ela e ela comigo, mas nada mudou os meus sentimentos. Eu faria tudo pela %Samara%. - Senti lágrimas se formarem em meus olhos e demorei alguns segundos pra conseguir traduzir tudo para o pai da %Saáh%. %Dougie% agarrou a minha mão percebendo o quanto eu estava emocionada pelo o que o %Danny% acabara de dizer e ele parecia sentir o mesmo.
  Depois de tudo não havia dúvidas que o %Danny% e a %Saáh% se amavam verdadeiramente. É tão difícil imaginar que eles podem não ficar juntos se ela não acordar!
  Vi o pai da %Saáh% sorrir um pouco, olhando para a filha em seguida. Ele ajeitou os cabelos dela na lateral de seu rosto e passou o polegar delicadamente por sua bochecha.
  - Parece que você escolheu bem filha. Agora eu vejo que o seu lugar realmente é aqui, em Londres, com um rapaz que te ama de verdade. Fico muito feliz por saber disso. - Soltei um suspiro de satisfação ao escutar que o pai da %Saáh% havia aprovado o %Danny%. O mesmo que me encarou com um pedido silencioso para que eu dissesse o que o pai dela tinha dito.
  Traduzi tudo para ele, sabendo que o pai da %Saáh% não entenderia nada mesmo. Foi explícito o alívio que atingiu %Danny% naquele instante depois que eu acabei de traduzir tudo.
  - Que tal a gente sair para dar mais privacidade aos dois? - %Danny% perguntou para mim e %Dougie%. Eu achei a ideia excelente. Disse ao pai da %Saáh% que esperaríamos lá fora e ele apenas concordou com a cabeça e com um pequeno sorriso de agradecimento nos lábios.
  End POV.

  Era um silêncio muito confortador nos rondando naquele momento. Fiquei imensamente aliviada de ter tido a coragem de abrir a boca e dizer com todas as palavras que perdoava minha mãe. Jesus estava certo, eu precisava muito disso.
  Toda a minha vida eu tentei fugir desse sentimento, dessa realidade que dentro de mim existia esse ressentimento tão grande pela pessoa que me deu a vida. Apesar de ainda sentir tudo isso dentro de mim agora era mais leve, como se eu tivesse abrido uma válvula que fazia tudo aquilo escorrer pelo cano a qualquer momento, eu só precisava esperar.
  Claro, como eu estou morrendo no momento não vou ter sequer oportunidade para dar uma chance real a minha mãe. Sei que essa seria a pior parte já que, uma coisa é dizer de longe que perdoava, outra bem diferente é dizer olhando pra ela depois de tantos anos.
  Soltei um suspiro pesado e fixei meus olhos no enorme mamífero que estava a alguns metros de distância de mim e Jesus. Um Urso Polar andava junto a dois filhotes em direção ao rio. Acho que deve ser fêmea e que ela deve ser a mãe dos ursos menores já que ela tem o dobro do tamanho deles. Provavelmente estava indo pescar para alimentar os filhos, coisa que eu confirmei minutos depois.
  Sorri de leve ao ver que eu realmente amaria ficar ali por muito tempo realizando meu sonho de ser Bióloga, de cuidar daquele pedaço do mundo que todo mundo fazia questão de esquecer em prol das suas outras prioridades. Como se ficar cada dia mais rico fosse tão importante assim!
  Ninguém lembra que, se não tivermos a Terra, não haverá necessidade nenhuma de se ter dinheiro. Ser rico pra comprar o quê? Oxigênio? Água? Comida? Eu sinceramente acho que nós, humanos, não precisamos chegar a esse ponto. Mas do jeito que as coisas andam, essa realidade chegará muito em breve e as pessoas ainda vão se surpreender mesmo com tantos avisos que recebemos todos os dias.
  É uma pena mesmo eu não conseguir realizar esse sonho. Sempre quis salvar um pedacinho do planeta para que, quando eu morresse, pudesse dizer para mim mesma: “Eu fiz a diferença!”. Se todos pensassem como eu, que uma pequena parte já mudaria tudo, o mundo não seria o que é hoje.
  Mas fazer o quê? A vida não é justa mesmo.
  - Eu já volto amor.
  Estremeci ao escutar a voz sussurrada de %Daniel%, como se ele estivesse aqui do meu lado nesse instante. Dei uma olhada em Jesus e percebi que ele estava me encarando com as sobrancelhas arqueadas. Estava sem os óculos escuros e eu também, desde que eu chorei e retirei os mesmo, não vi necessidade de recolocá-los.
  - Você sabe onde ele está indo? - Jesus sorriu e deu de ombros, voltando seu olhar para a pequena família de ursos.
  - Você vai saber logo, logo.
  Fiquei calada ao ver que não poderia persuadi-lo a me dizer. Voltei a olhar os ursos também, estreitando meus olhos por culpa do sol. Foi então que eu me lembrei que na Antártica existia seis meses de dia e seis meses de noite, quer dizer que eu nunca vou ter noção se está ou não na hora de dormir já que, claramente como o escaldante sol que brilhava, estávamos no período de verão.
  Seis meses de dia sem fim.
  - A sua noção de tempo é diferente por aqui. - Eu voltei meu olhar pra Jesus. Ele tinha lido meus pensamentos de novo! - No coma, quero dizer. No caso dos seis meses de dia sem fim você está certa. Esse é o verão na Antártica!
  Soltei uma risada fraca antes de concordar com a cabeça.
  Fiquei muito encucada com essa afirmação dele. Quer dizer que já poderia ter se passado um mês de coma e eu nem ao menos ia notar? Pra mim mal se passaram horas que eu estou aqui na Antártica, com Jesus e os pinguins, ursos polares e gelo, muito gelo.
  - %Saáh%, amor, será que dá pra você acordar agora? - Quase dei um pulo, me esquecendo de %Danny% por um instante. - Seu pai está vindo pra cá e eu não faço ideia de como agir, o que falar, nada! Eu não sei se vou conseguir fazer isso sem você então, vai, acorda aí! - Ah Meu Deus! Meu pai? Como assim meu pai foi pra Londres? Nus, as coisas devem estar muito feias pro meu lado mesmo! Eu só posso estar morrendo! - O que eu vou dizer se ele perguntar sobre a gente, hun? Nem eu ao menos sei o que nós dois somos. Amigos? Namorados? Ficantes? Nenhuma das alternativas? - Quase gargalhei do desespero dele e fiquei realmente com dó do %Danny%. Conhecer meu pai em um momento como esse, sem nem ao menos saber como as coisas estavam entre a gente deveria ser muito constrangedor. - Ele pode fazer o que quiser comigo desde que não me tire de perto de você. - Meu coração deu um solavanco no peito.
  Será que o %Danny% realmente está comigo desde que fui pra o hospital? Será que ele realmente não saiu do meu lado em nenhum segundo, nem queria sair?
  Ah, como eu queria acordar agora!

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  Jesus e eu comíamos um delicioso sanduíche de frango dentro da barraca. Havíamos passado muitas dificuldades para montá-la, mas agora era muito bom estar ali dentro, já que o vento muito frio da Antártica começava a ficar constante demais. Estávamos praticamente mergulhados nos edredons que espalhamos pelo local que tinha o espaço certeiro para duas pessoas adultas.
  - Oh ouh. - Franzi minha testa ao ver aquela expressão de quem acabou de ver alguém se dando mal no rosto de Jesus. Ele me deu uma olhada para depois sorrir de lado. - Seu pai acabou de entrar no seu quarto de hospital e eu acho que o %Danny% vai ter um colapso nervoso a qualquer segundo.
  Oh Deus!
  Desesperador. Muito desesperador saber disso e não poder ajudar o %Jones%.
  Do nada, Jesus gargalhou e eu acabei me esquecendo totalmente do meu sanduíche para ficar bem ligada a cada reação dele. Sabia que ele estava escutando tudo, talvez até vendo tudo em sua mente. Vai saber!
  - A %AnaPaula% tá traduzindo tudo, é hilário! - Eu sorri de leve imaginando o que a %Paulinha% estaria pensando vendo a cena de meu pai no mesmo ambiente que o %Danny%. - Estão se apresentando agora.
  - É um prazer finalmente conhecê-lo Sr. %Dias%. Só lamento ser nessas circunstâncias. - Sorri ao escutar a voz firme de %Danny%, um pouco mais baixa do que o costume. Só posso imaginar que ele esteja um pouco longe de mim.
  - Ele não gaguejou! Uau! - Abri minha boca, escancarando-a.
  - Você está tirando sarro com o %Danny%, Jesus? Que horror! - Neguei com a cabeça tentando esconder um sorriso.
  - Se você escutasse os pensamentos dele e visse como suas pernas tremem nesse exato momento, também faria o mesmo. - Ele deu uma piscadela na minha direção. - Seu pai tá falando umas coisas bem legais aqui. Você ia adorar escutar. - Quase explodi de curiosidade, mas Jesus não deu nenhum sinal de que me diria o que escutava. - Opa! Seu pai perguntou se vocês estavam namorando!
  Travei no mesmo segundo, visualizando %AnaPaula% %Ferreira% em minha frente com a reação exagerada que Jesus deu ao dizer aquela frase. Foi praticamente do mesmo modo escandaloso e surpreso que ela faria nesse momento.
  - É complicado na verdade. Nós dois estávamos separados quando isso aconteceu. - Soltei um suspiro quando escutei a resposta de %Danny%.
  - Uh, segure as lágrimas %Saáh%, porque seu pai acabou de perguntar ao %Danny% se ele te ama! - Comecei a tremer imediatamente.
  Não sei se quero saber a resposta. Na verdade, eu morro de medo de saber que de alguma forma os sentimentos de %Danny% por mim mudaram desde a nossa briga mais definitiva. Depois que ele disse a primeira vez, ele sempre fez questão de me lembrar o que sentia, mas eu sempre tive receio, porque no fundo, não confiava plenamente em %Danny% pra ver que aqueles sentimentos que ele dizia ter por mim eram verdadeiros.
  Mas depois que eu disse a ele como me sentia, sabia que as coisas haviam mudado entre nós. Tudo se tornou mais concreto, mais definitivo. Da mesma maneira que, quando escutei o que ele me disse antes de terminar comigo naquele trágico dia, eu acreditei em tudo.
  E no fundo eu sabia que %Danny% %Jones% escolheu não me amar mais.
  - Eu a amo com tudo o que sou. Posso ter cometido muitos erros com ela e ela comigo, mas nada mudou os meus sentimentos. Eu faria tudo pela %Samara%.
  Ok! Jesus estava certo, era hora de segurar as lágrimas. Mas vai dizer isso para elas que não conseguem se controlar?
  Ali estava a prova que eu queria para ter certeza que %Danny% me amava como eu o amava. Apesar de tudo o que aconteceu, lá estava ele dizendo com todas as letras sem nenhum tipo de indício de insegurança em sua voz. Ele tinha certeza do que dizia.
  E agora, eu tinha certeza do que ele sentia.
  Que grande ironia eu estar em uma cama de hospital, em coma, sem nenhuma previsão de voltar!
  End POV.

  %Danny% POV.
  - %Jones%. - Vi o rapaz me cumprimentar com um aceno de cabeça. Eu fiz o mesmo.
  - Andrade. - Ele andou até a cama de hospital onde %Saáh% repousava e deixou seus olhos bem fixos no rosto dela. - Vou sair pra deixar você à vontade. - Disse a contra gosto. É claro que eu não queria deixar o Carlos sozinho com a %Samara%, mas jamais admitiria isso agora. Tudo o que me importa é fazer o que a %Saáh% queria que eu fizesse.
  E o primeiro de tudo é ser educado com o cara que a beijou meses atrás. Uma merda, é claro.
  Uma coisa é fazer as pazes com o James, outra bem diferente é ser amiguinho do Carlos.
  - Pode ficar. Não preciso esconder nada de você. - Ele nem ao menos olhou em minha direção. - Você sabe muito bem que eu sou apaixonado por ela. Você sair do quarto não vai mudar essa informação. E eu não me sinto com vergonha ou intimidado em dizer o que eu sinto na sua frente. - Ele virou o rosto em minha direção. Os olhos transbordavam sinceridade e uma pontada de desafio, como se me desafiasse a contradizê-lo.
  - Foda-se! - Bradei, baixando a voz. - Eu só estava tentando ser educado, não por você, mas pela %Saáh%. - Ele sorriu, sentando-se na beira da cama de hospital, passando a mão pelo braço imóvel da %Samara%. - Eu também não me importo, já sei do caso de vocês! - Tentei esconder meu ciúme, meu ódio e meu rancor quando falei aquelas palavras.
  Carlos olhou pra mim com confusão. Eu permaneci impassível, pronto para rebater quando ele negasse. Vi o mesmo balançando a cabeça de um lado para o outro e voltando seu olhar para a %Samara%.
  - Então você não contou pra ele? - Perguntou me ignorando completamente. Quem ficou confuso agora fui eu. - Você fez aquela promessa, mas eu te falei que poderia quebrá-la %Saáh%. - Disse com carinho. Fiquei ainda mais confuso e agora curioso.
  - Do que diabos você está falando? - Só percebi que havia dito quando ele olhou em minha direção mais uma vez.
  - Estou falando %Jones%, do motivo de você estar com a errada ideia de que eu e a %Samara% estávamos juntos. - Ergui minha sobrancelha, abrindo a boca para rebater, mas ele não me deixou falar. - Você acha mesmo que se eu estivesse com ela teria deixado você ficar aqui até agora? Quem deveria estar aqui seria eu! - Ele soltou uma risada.
  Carlos desviou seus olhos dos meus por um momento, apenas para olhar a %Samara%. Ele passou o dedo indicador pela bochecha dela antes de suspirar.
  - Eu deveria ficar calado, deixar que você continuasse com essa ideia na cabeça, mas eu não suporto ver a %Saáh% triste. - Voltou seus olhos na minha direção e eu pude perceber que o cara falava sério. - Eu e a %Samara% estávamos ajudando um amigo nosso todas as noites. Um amigo nosso que nós descobrimos recentemente ser dependente químico. - Fiquei surpreso com a informação. Jamais imaginaria algo assim. - Ele estuda com a gente e mora na mesma república que eu. Eu, com a ajuda da %Saáh%, resgatei o cara depois dele desaparecer por dois dias em uma espelunca. Ele estava com princípio de overdose quando a gente encontrou ele.
  Fez uma pausa correndo os dedos pela mão de %Samara% que se repousava em seu ventre.
  - Paul sempre escondeu muito bem o vício, mas algo fez ele se descontrolar. Quando voltou a si no hospital, fez a mim e a %Saáh% prometermos que não contaríamos sobre o ocorrido para ninguém. Depois disso, estávamos perto das provas finais e o Paul estava muito preocupado já que se reprovasse os pais dele iriam acabar vindo até aqui pra saber o porquê. Então a %Samara% teve a ideia da gente estudar com ele todos os dias e se ele estivesse bem, faria as provas. Foi o que aconteceu. Paul foi para uma clínica de reabilitação e eu e a %Saáh% recebemos uma autorização do médico para vê-lo todos os dias das 19:30h ás 20:30h. Era por isso que ela saía todos os dias à noite e porque não falou pra você o motivo de sair comigo. - O cara deu de ombros e eu simplesmente repassava em minha cabeça tudo o que escutei.
  - Quer dizer que... Ela estava estudando mesmo? - Gaguejei porque agora eu sabia que ela não havia mentido pra mim, mas sim omitido algumas partes. Carlos soltou uma risada.
  - Ela não mentiu pra você idiota. Você foi burro de não confiar nela. Ela odiava não poder contar tudo pra você mais do que você imagina, mas ela tinha feito uma promessa. - Carlos se concentrou apenas em mim, o corpo todo virado em minha direção. - Eu disse a ela pra te contar tudo depois dela me dizer o que aconteceu com vocês, mas a %Saáh% me disse que não valia a pena tentar, que as coisas com vocês dois jamais dariam certo e que ela estava cansada de sofrer por alguém que não merecia. Eu não insisti no assunto porque primeiro: eu gostei muito da situação, e segundo: eu acho que ela estava certa. Apenas um completo idiota faria o que você fez com ela tantas vezes.
  - Se ela tivesse me contado tudo, seria bem diferente! - Gritei com raiva por culpa daquele imbecil tentando me julgar. Quem ele pensa que é? - Eu estava tentando com ela, estava deixando de lado todos os nossos outros desentendimentos e o meu orgulho para fazer dar certo! Eu não tenho culpa se ela não confiou em mim! - Senti as lágrimas em meus olhos, mas tratei de evitá-las. Vi Carlos concordar de leve com a cabeça.
  - Pelo que eu sei, ela te pediu um voto de confiança. - Ele ergueu a sobrancelha, me desafiando a dizer o contrário. Não disse nada. - E também sei que quem começou ferrando tudo foi você. Eu sou amigo dela aqui %Jones%, sei de muitas coisas que aconteceram com vocês. %Samara% te deu chances até demais.
  Ele se levantou da cama, se aproximou da %Saáh% e depositou um beijo na testa dela. Depois endireitou o corpo e voltou a olhar pra mim. Me desencostei da parede e me aproximei mais, de forma ameaçadora.
  Queria ver o que ele faria agora, que merda mais ele falaria.
  Se ousasse dizer qualquer outra coisa sobre mim e a %Samara% eu tinha certeza de que iria avançar nele sem pensar duas vezes. Estou com tamanho ódio correndo por minhas veias que só preciso de uma faísca para explodir.
  - Mas eu não tenho nada a ver com vocês dois, não vou me intrometer. - Deu de ombros. - O caso aqui é: você deveria repensar no que você está fazendo aqui ao lado dela. O que você vai fazer quando ela acordar? Será que você já não a fez sofrer o suficiente %Jones%? Será que a %Samara% não merece ter um pouco de paz e felicidade que ela tanto estava procurando quando saiu do Brasil e veio pra cá? Depois de tudo o que aconteceu, você realmente acha que pode fazer ela feliz como ela merece? - Carlos jogou os braços ao ar, como se estivesse cansado daquilo. - Eu só te peço que pense nisso. A %Samara% é importante demais pra mim e, por mais que eu saiba desde o início que ela não retribui aos meus sentimentos, eu sempre vou estar pronto e esperando por ela. Eu quero que ela seja feliz e tenho certeza que posso fazê-la feliz, mas será que você pode?
  O cara não me deu chance de dizer nada. E nem se eu tivesse chance, teria conseguido dizer alguma coisa depois de tudo o que eu ouvi. Carlos abriu um meio sorriso antes de dar meia volta e caminhar com passos firmes pra fora do quarto. Eu ainda continuei estático, paralisado no mesmo lugar.

  Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012.

  Dezoito dias. Quase três semanas que a %Samara% está nesse hospital. Nenhum sinal de que sairia do coma, nenhum sinal de que voltaria pra mim.
  Todos os tratamentos contra o cianureto deram resultado e o corpo dela está, teoricamente, normal. Não dá para eles terem noções das sequelas causadas pela parada cardíaca se a %Saáh% não acordar. A única coisa que resta é esperar o cérebro dela reagir.
  Ter esperança.
  Como se fosse tão fácil assim ter esperança depois de tanto tempo. Não sei como outras pessoas em casos parecidos conseguem ficar firmes com isso. Eu não consigo mais.
  Cada dia que passa, apenas pensamentos ruins invadem minha cabeça. Eu tento desviá-los, pensar nos momentos bons que tive com a %Saáh%, mas essa técnica não está ajudando mais.   Tudo o que me vem na cabeça é que ela não vai mais acordar. Já faz muito tempo. O cérebro dela não responde mais.
  Acho que eu sou o único que já perdeu as esperanças, na verdade, há apenas um mínimo vestígio dela em mim. O pai da %Saáh% foi embora semana passada depois de ter certeza de que não havia mais nada que ele pudesse fazer. Ele tinha que trabalhar e cuidar de outras coisas no Brasil, não podia ficar aqui ainda mais com a %Samara% sem previsão de acordar.
  Ele também queria transferi-la para o Brasil. Tratar dela lá. Mas eu jamais deixaria isso acontecer. Sabia que o problema pra ele era a questão financeira, mas eu já estava arcando com tudo e a %Saáh% estava no melhor hospital de Londres. Consegui convencê-lo que o melhor mesmo era deixá-la aqui, que eu o deixaria informado através da %Paulinha% sobre tudo.
  Ele concordou com relutância, mas eu sabia que era só pelo fato de eu estar pagando tudo. Só que ele também sabia que era melhor pra saúde da %Saáh% ficar aqui. Eu to pouco me importando com o dinheiro. Eu só quero a %Samara% de volta.
  Não deixei de pensar nem um segundo nesses dias sobre o que o Carlos me disse alguns dias atrás. Cheguei a conclusão várias vezes de que ele estava certo. Eu não fazia noção de como fazer a %Samara% feliz dali pra frente, porra, minha experiência foi toda pelo ralo depois que eu conheci a %Saáh%. Fiz uma balança de todas as vezes que a fiz sorrir e das vezes que a fiz chorar e o resultado não foi nada satisfatório. Eu tinha sido uma merda com ela na maioria das vezes.
  Eu mal conseguia olhar pra ela agora sem imaginar como tudo poderia ter sido diferente se eu não tivesse bebido como um louco naquela festa lá em casa. Talvez, nós dois estivéssemos juntos nesse momento, viajando para algum lugar. Ela não estaria nessa maldita cama de hospital, desacordada por dezoito dias!
  Senti as lágrimas em meu rosto e não me importei. Já fazia mesmo alguns dias que eu não chorava e eu estava precisando desabafar, jogar pra fora toda essa confusão que estava dentro de mim.
  Pela primeira vez na minha vida eu queria algo que estava totalmente fora do meu alcance. Não depende de mim se ela acorda ou não. Por mais que eu tenho implorado todos esses dias, ela ainda continua desacordada e eu simplesmente não suporto a ideia de não fazer nada, de não poder fazer nada além de ficar aqui ao lado dela e esperar.
  Se sentir impotente é a pior sensação que uma pessoa pode passar. Pior que isso é se sentir inútil. E aqui estou eu sentindo as duas coisas. Eu sou uma merda mesmo!
  Eu preferia vê-la com outro cara do que aqui nesse lugar! A única coisa que eu quero é que ela acorde, que ela seja feliz! Seria pedir muito?
  - O que você acha %Saáh%? - Cochichei vendo um vulto no lugar onde deveria estar a %Samara%. As lágrimas estão atrapalhando toda a minha visão. - Talvez essa seja a solução mesmo já que eu fui o culpado de você estar aí de alguma forma. Talvez você devesse ficar com outro cara, alguém que faça você feliz de verdade porque eu sei que não vou conseguir fazer isso. - Um soluço alto escapou por meus lábios e eu tive que parar de falar mesmo sem querer. Tentei controlar esse choro, mas só consegui depois de alguns minutos. - Eu prometo pra você %Samara% que, quando você acordar, eu vou me separar de você. Eu vou me afastar e deixar você livre pra ser feliz longe de mim. Mesmo que eu te ame demais, eu não posso te privar de uma chance de felicidade longe de mim pra ser egoísta o bastante pra te ter por perto. Eu não mereço uma garota incrível como você, eu sabia disso desde o início! - Parei de falar por culpa de mais soluços que escapavam de meus lábios. Tive que morder minha mão para abafá-los.
  Demorei algum tempo para poder me recuperar. Me levantei de minha cadeira, limpando minhas lágrimas rispidamente, e aproximei meu rosto do rosto imóvel dela. Repassei em minha mente mais uma vez, cada traço daquele rosto que eu tanto amava. É engraçado perceber que só quando eu estou perto de perdê-la é que eu realmente dou valor a tudo o que ela fez por mim.
  - Por mais que me doa muito, eu prometo %Samara% %Dias% que, se você acordar, eu vou me afastar de você. Só não se esqueça que eu te amei demais e vou continuar amando até o dia que eu morrer. Você é a única pra mim %Saáh%. Única.
  End POV.

  - Quer que eu chame os ursos pra perto da gente com eu fiz com os pinguins? - Eu parei de espiar a pequena família pela abertura da barraca e voltei meus olhos pra Jesus. Ele estava com um sorriso presunçoso no rosto.
  - Você não está brincando, está? - Ele gargalhou e negou com a cabeça. - Eu adoraria ficar perto deles, mas será que eles não vão nos machucar? Dizem que os Ursos Polares podem ser bem perigosos. - Jesus rolou os olhos antes de voltar a olhar pra mim.
  - Você acha que eu deixaria eles machucarem você? - Eu mordi meu lábio inferior e neguei com a cabeça. - O que eu te disse com os pinguins?
  - Que você disse que nós somos amigos pra que ele pudessem se aproximar sem medo. - Soltei um suspiro quando percebi o quão idiota eu fui. - É que noventa por cento das vezes é difícil lembrar que eu estou ao lado do Jesus todo poderoso que fala com os animais e faz o que quiser. - Ele sorriu pra mim, erguendo uma sobrancelha. - Você é normal demais.
  - Qual é? - Ele bateu a mão no meu joelho. - Eu já fui humano ou você se esqueceu? Eu sou normal! - Eu comecei a negar com a cabeça, um sorriso enorme surgindo em meu rosto. Eu estou mesmo indo tirar uma com a cara de Jesus? Sou louca pra caralho vei!
  - Você não foi um ser humano normal, se esqueceu? Mesmo sendo humano você era divino! - Jesus sorriu como se estivesse envergonhado com o elogio.
  - Fico lisonjeado por saber que eu superei suas expectativas %Saáh%. - Nós gargalhamos juntos. - Vem! Nossos visitantes chegaram. - Eu franzi minha testa quando vi ele engatinhando para a entrada da barraca. Fui atrás, ficando ao lado dele.
  Bem em frente a nossa barraca estavam os três ursos. Eles eram muito maiores do que eu imaginava, os filhotes eram quase da minha altura e a mãe deles era o dobro de mim. Fiquei bem calada e imóvel, com medo de que do nada, eles dessem a louca e nos atacassem. Sabia que era só o instinto de sobrevivência falando mais alto, mas no fundo eu confiava que nada de ruim iria acontecer. Eu confiava muito em Jesus.
  Nosso relacionamento por aqui ficou tão íntimo, tão pessoal. Ele realmente me lembrava muito uma versão masculina da %AnaPaula% e acho que é por isso que eu me dou tão bem com ele de cara. Não é porquê ele é Jesus, mas sim porque ele é alguém que está me fazendo rir, chorar, e realizar um dos meus sonhos mais impossíveis, afinal, não é qualquer um que consegue passar um tempo na Antártica!
  Um dos filhotes de urso se aproximou de mim e eu gelei. Ele veio andando em suas quatro patas e, quando estava a apenas centímetros de mim, começou a me cheirar. Oh Deus! Que ele não pense que eu sou a refeição!
  - Ele quer que você toque nele. - Eu olhei pra Jesus com uma grande interrogação em meu rosto e ele apenas sorria pra mim. - Vá em frente!
  Voltei meu olhar para o urso. Ele estava parado no mesmo lugar, mas eu consegui ver o movimento de seu focinho. Ele ainda estava me cheirando. Respirei fundo e ergui minha mão até sua cabeça bem devagar, assim que toquei nele percebei que o urso não me faria nenhum mal então eu sorri.
  Tirei as luvas de minhas mãos para poder sentir o pelo dele melhor, nem me importei com o frio de matar que estava fazendo e logo enterrei minhas mãos no pescoço do filhote, sentindo o pelo macio entre meus dedos. Soltei uma risada quando o urso inclinou a cabeça na direção das minhas mãos, como se gostasse do carinho.
  - Uau! Ele é tão... - Parei de falar observando o urso fechar os olhos enquanto eu coçava seu pescoço com minhas unhas.
  - Fofo? - Jesus completou. Dei uma olhada nele e vi que ele sorria, brincando com o outro filhote de urso.
  - Eu ia dizer incrível, mas ele é fofo também! - Ele soltou uma risada alta.
  - Eu devia imaginar que você não diria algo como 'fofo' no seu primeiro contato com um urso de verdade. - Ele negou com a cabeça como se não acreditasse que tivesse dito fofo uns instantes antes. - Uma futura bióloga vê animais desse gênero por um outro ponto de vista.
  Eu sorri em resposta e continuei o carinho com o filhote que logo estava com sua cabeça deitada em minhas pernas. Parecia que ele iria tirar um cochilo a qualquer momento, ou talvez já estivesse tirando já que seus olhos estavam fechados.
  O silêncio tomou conta de nós. A mamãe urso dormia entre mim e Jesus. O filhote que estava em meu colo também dormia e o que estava com Jesus brincava de arrastar suas patas pela neve.
  Quem visse de fora diria que aquela cena era impossível de acontecer e eu concordaria totalmente se não estivesse vivendo aquilo. Era surreal demais, mas ao mesmo tempo, real demais. Eu só queria viver aqui pra sempre, sem problemas, sem decepções, sem lágrimas.
  A minha vida inteira eu busquei por um lugar assim onde eu me sentisse à vontade, me sentisse feliz. Queria fugir de tudo que me lembrasse meu passado, meus traumas, mas isso nunca foi possível. Eles sempre me perseguiam não importava onde eu estivesse. Não é de espantar que eu esteja tão bem por aqui, tão confortável. Mesmo com esse frio de rachar que tá fazendo.
  - O que você acha %Saáh%? - Quase gritei ao escutar o cochicho de %Danny%.
  Do que será que ele está falando? Achar o quê?
  - Talvez essa seja a solução mesmo já que eu fui o culpado de você estar aí de alguma forma. Talvez você devesse ficar com outro cara, alguém que faça você feliz de verdade porque eu sei que não vou conseguir fazer isso. - Não! Não diz isso %Daniel%, não fale algo assim!
  Olhei pra Jesus e vi que ele estava com os olhos grudados nos meus. Eu queria muito saber o que estava acontecendo, por que o %Danny% estava dizendo aquelas coisas, mas sabia que Jesus não me diria nada só pelo seu olhar.
  - Eu prometo pra você %Samara% que, quando você acordar, eu vou me separar de você. Eu vou me afastar e deixar você livre pra ser feliz longe de mim. Mesmo que eu te ame demais, eu não posso te privar de uma chance de felicidade longe de mim pra ser egoísta o bastante pra te ter por perto. Eu não mereço uma garota incrível como você, eu sabia disso desde o início!
  - Não! - Cochichei sentindo as lágrimas invadirem meus olhos. Fechei-os com força tentando esquecer que havia escutado o %Danny% dizer que iria se separar de mim. Neguei com a cabeça algumas vezes, muitos 'não' escaparam de meus lábios sem eu perceber.
  - Por mais que me doa muito, eu prometo %Samara% %Dias% que, se você acordar, eu vou me afastar de você. Só não se esqueça que eu te amei demais e vou continuar amando até o dia que eu morrer. Você é a única pra mim %Saáh%. Única.
  - Ah meu Deus, não! - Gritei, soluços fortes saindo de minha garganta e se propagando pelo gelo. O pequeno urso deitado em meu colo acordou, fixando seus olhos em mim. - %Danny%, não! - Meu peito se contorcia de dor. Ele me amava, mas estava abrindo mão de mim, estava fazendo uma promessa e ia me deixar.
  - %Saáh%? - Escutei a voz calorosa de Jesus e ergui minhas mãos que tremiam até meu rosto, tentando esconder minhas lágrimas. - Por que o choro? - Funguei algumas vezes antes de ter coragem de dizer.
  - Você escutou o que ele disse? - Perguntei com a voz fraca e Jesus concordou com um aceno de cabeça. - Ele vai se afastar de mim!
  - Você só se fixou nessa parte? - Não entendi o que ele queria dizer.
  - O quê...? - Jesus sorriu pra mim e eu fiquei mais confusa.
  - %Saáh%, ele fez uma promessa pra que você melhorasse. Ele abriu mão do que ele mais ama no mundo, que no caso é você, em troca da sua melhora. Você não acha essa uma linda prova de amor? - Oh! Não consegui dizer absolutamente nada. Eu não havia analisado por aquele ângulo porque realmente, minha cabeça só latejava a parte que ele me amava, mas ia me abandonar.
  - Mas agora se eu acordar ele vai me deixar. - Minha voz sumiu no final da frase e o urso em meu colo se levantou, inclinando a cabeça como se pedisse carinho. Eu acabei sorrindo antes de levar minhas mãos ao seu pescoço mais uma vez.
  - Bom, sim! Mas você acha isso ruim? Não foi você que decidiu que não o queria mais na sua vida antes de entrar em coma? - Eu concordei com a cabeça como um robô. Não tinha como negar essa afirmativa.
  - Mas eu o amo. Eu não quero mais ninguém! - Senti uma mão em meu ombro e vi que Jesus estava agora bem perto de mim, com um sorriso acolhedor em seus lábios.
  - Se você tivesse a escolha de morrer ou acordar do coma nesse instante, o que você escolheria? - Minha testa franziu e minhas mãos congelaram no pescoço do urso. O mesmo pareceu perceber a seriedade da conversa porque se afastou, indo deitar-se com sua mãe e seu irmão. - Pense bem. Você poderia ir comigo para o paraíso, viver sem problemas, sem decepções e sem lágrimas. Você seria muito feliz lá, eu garanto. Se você escolhesse acordar, teria que lidar com toda a sua vida e ainda com a promessa do %Danny%.
  Tentei engolir os soluços que estavam em minha garganta, entalados. Será que aquilo era um teste? Claro que eu não saberia dizer já que Jesus disse: “Se você tivesse a escolha...” Era apenas uma suposição, é claro.
  Respirei fundo.
  A ideia de morrer era tentadora. Ficar livre de todos os males seria muito mais que bom, seria perfeito! Mas eu não posso simplesmente esquecer todos os sonhos que eu não realizei. Esquecer todas as coisas que eu ainda quero fazer.
  E, claro, esquecer o %Danny%.
  - Eu acordaria do coma. - Jesus arregalou os olhos como se estivesse surpreso por minha resposta, mas eu sabia que não. Ele já tinha visto isso na minha cabeça com certeza. - Mesmo sabendo que eu corro o risco de sofrer muito por causa dessa promessa do %Danny% eu não posso simplesmente desistir da minha vida se eu tenho uma chance. Você e o paraíso sempre estarão esperando por mim, certo? - Dei um pequeno sorriso limpando o restante das lágrimas que haviam em meu rosto. Jesus sorriu também antes de me abraçar.
  - Gostei da escolha. Você mostrou que não se deixa levar pela direção mais fácil e sim pelo o que você acha que será melhor pra você, mesmo que você possa sofrer com isso. Fico orgulhoso %Saáh%, mas acho que agora está na hora da gente dormir! - Ele se ergueu, dando um aceno com a mão na direção dos ursos. - Dê tchau aos nossos amigos! - Eu sorri ao me levantar também, correndo até os meus amigos ursos e dando um mega abraço em cada um deles. Meu medo totalmente esquecido.
  Voltei alegremente até a barraca onde Jesus, de braços cruzados e um mega sorriso no rosto, me esperava. Entramos na barraca e nos ajeitamos lá dentro. Jesus me cobriu com o edredom carinhosamente, fazendo carinho em meus cabelos agora sem a touca.
  - Sabe, passar o dia com você foi muito bom. Eu gostei muito %Saáh%. Espero que você não se esqueça de hoje! - Eu sorri ao encarar os olhos de Jesus que brilhavam.
  - Eu nunca vou me esquecer disso e espero que amanhã você me venha com muitas outras surpresas hun? - Ele mostrou aquela fileira de dentes brancos, um pouco tortos, mas ainda assim, perfeitos.
  - Ah sim! Com certeza! Quando você acordar vai ter uma mega surpresa te esperando. - Jesus me deu uma piscadinha e eu sorri, concordando com a cabeça. - Agora vai dormir. Boa noite %Samara%! - Eu concordei com a cabeça já sentindo um sono pesado me invadir.
  Meus músculos todos relaxaram quando eu fechei meus olhos, mas eu ainda estava sorrindo.
  - Boa noite Jesus. Obrigada por esse dia incrível! - Continuei sentindo suas mãos em meu cabelo e no instante seguinte eu apaguei, mas meu sorriso ainda estava em meu rosto. Acho que nunca dormi tão feliz assim.

#

  Dor. Meu corpo doía muito mesmo. Parecia que todos os meus músculos estavam machucados de algum atropelamento, talvez de um espancamento. Nunca senti tanta dor assim.
  Estranhei isso, mas não me preocupei. Talvez seja só mal jeito de ter dormido naquela barraca, por mais que ela parecesse muito confortável ontem. Pelo menos eu não estava mais sentindo todo aquele frio, a temperatura estava até agradável. Ou Jesus deu um jeitinho ou o sol esquentou demais hoje.
  Não senti a presença daquele amontoado de pano que me rodeava quando eu fui dormir, no caso o enorme edredom e todas as minhas roupas contra o frio. Estranho. Talvez seja só impressão.
  Abri meus olhos com dificuldade já que minhas pálpebras pareciam pesadas demais e pisquei algumas vezes. O branco daquela imensidão de gelo apareceu em minha visão de forma embaçada e eu fiquei ainda mais confusa ao constatar isso. Eu não dormi dentro da barraca? Como é que eu estou vendo branco por toda parte?
  Pisquei mais algumas vezes e percebi que não era a imensidão da Antártica que eu estava vendo e sim, um teto branco. Consegui identificar uma lâmpada fluorescente desligada olhando para outro ponto da parede.
  Onde é que eu estou? Cadê Jesus? Será que ele me trouxe para outro lugar que eu sonhava estar, como surpresa?
  Minha boca se escancarou quando eu dei uma olhada ao redor.
  Havia uma máquina apitando ao meu lado direito que eu só consegui escutar agora. Uma porta também estava nesse lado direito. Virei meu rosto com dificuldade, engolindo um gemido de dor por culpa do movimento de minha cabeça e olhei para o meu lado direito. Uma enorme janela jazia na parede, coberta parcialmente por uma cortina bege. Olhei um pouco mais para o lado e vi.
  %Danny%.
  Ele estava com a cabeça deitada ao lado de meu braço esquerdo. Sua mão pousada sobre a minha como se ele tivesse adormecido apertando-a. Estava sentado em uma espécie de poltrona reclinável. Os cabelos que eu tanto amava e ansiava tocar, estavam bagunçados e o rosto dele estava sereno, tranquilo, enquanto ele dormia com a boca levemente aberta.
  Os músculos de meu rosto e de meus lábios automaticamente trabalharam para formar um sorriso enorme. Por mais que eu sentisse dor também com aquele movimento, eu continuei da mesma maneira.
  Eu acordei do coma!
  Jesus não estava brincando quando me fez aquela pergunta, ele me deixou escolher! Ele sabia! Sabia que o %Danny% faria aquela promessa e me deixou escolher depois daquele instante, ele me deixou ver o lado fácil e o complicado. Ele sabia!
  Tirei minha mão bem devagar debaixo da de %Danny% para não acordá-lo. Levantei a mesma em direção ao seu rosto e delineei sua bochecha, agora com uma barba rala, com meu indicador ignorando a merda da dor que estava atingindo todo o meu corpo com cada movimento.
  Ele franziu um pouco a testa, mas logo relaxou, sem acordar. Me senti uma menina travessa naquele instante e levei minha mão cheia de dedos para seus cabelos. Tentei arrumá-los delicadamente, ainda sem querer acordá-lo, mas depois de alguns segundos, isso aconteceu.
  Os enormes olhos %azuis% estavam nublados quando apareceram, confusos. Um segundo depois eles se arregalaram em minha direção. Minha mão ficou imóvel em seus cabelos, porque eu comecei a ficar com medo de sua reação quando me lembrei daquela promessa.
  - %Saáh%? - Sua voz tão baixa. Ele tinha cara de achar que estava sonhando, de não acreditar que eu estava acordada na frente dele. Concordei de leve com a cabeça e sorri mais. - %Saáh%! - %Danny% se jogou em cima de mim no segundo seguinte. Ele me abraçou com força mesmo com a dificuldade por eu estar deitada e com agulhas e mais agulhas grudadas em meu braço esquerdo. Ignorei a dor muscular e aproveitei aquele contato, aquele calor que emanava dele.
  - Meu Deus você acordou! - Ele se afastou, as mãos em meu rosto, seus olhos me encaravam com tanta felicidade. - Eu não acredito! Você está bem? - Me perguntou preocupado, seus olhos analisando meu rosto agora em busca de algum sinal de desconforto.
  Eu já não sentia dor alguma, estava em um estado de êxtase e prazer tão grande de poder vê-lo que nada mais importava.
  - Eu estou bem %Danny%. Estou aqui.
  - Eu pensei que ia perder você. - %Danny% colou nossas testas, os olhos fechados com força. - Eu quase perdi você %Saáh%. Tive tanto medo, amor. Tanto medo! - Sua respiração quente batia em meus lábios e a única coisa que eu pensava era em beijá-lo e que existia esperança. Ele ainda me chamava de amor.
  As coisas vão melhorar a partir de hoje. Eu não recebi uma segunda chance de Jesus à toa!

Capítulo. 22
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