Capítulo. 21
Tempo estimado de leitura: 45 minutos
- Como ela está? - Perguntei assim que avistei o médico se aproximando da sala de espera onde nós estávamos. Ele ergueu a mão como se nos pedisse calma.
- A paciente ainda está com febre alta e desacordada, mas os medicamentos para controle da febre já foram ministrados e esperamos que a temperatura abaixe em alguns minutos. - Ele deu uma olhada ao redor, encarando o nosso grupo preocupado. - Eu acabei de pegar o resultado de alguns exames e o que eu tenho em mãos é preocupante. - Eu prendi a respiração ao som daquelas palavras. - Mas antes de lhes dar o resultado, preciso fazer algumas perguntas em esclarecimento. - Soltei o ar pesadamente por meus lábios e concordei com a cabeça.
- O que precisar doutor. - %Harry% sibilou, parecendo ser o único com capacidade de falar naquele instante. O médico concordou com um aceno de cabeça e deu uma olhada nos papéis presos em sua pasta.
- Algum de vocês pode me dizer se ela ingeriu recentemente amêndoas amargas e não industrializadas ou a raiz da mandioca mal preparada? - Eu franzi minha testa e dei uma olhada rápida em %Paulinha% que parecia tão confusa como eu.
- Não. - Ela começou a dizer, um pouco confusa. - Eu imagino que ela nem goste de amêndoas e mandioca. - O médico concordou e anotou algo em seus papéis. - Mas o que isso tem haver com essa doença dela? - %Paulinha% disse, um choramingo saindo de sua garganta no final.
- Essa informação é extremamente importante, porque agora nós só temos uma explicação para o que encontramos nos resultados do exame dela. - O médico fez uma pausa, dando uma boa olhada em cada um. Eu queria matá-lo por não dizer logo o que estava acontecendo. - A sua amiga foi envenenada.
End POV.
%AnaPaula% POV.
- Você tá brincando, não é? - %Tom% quase gritou, tirando as palavras da minha boca. - Isso não pode ser verdade! - Eu concordei com a cabeça olhando o médico mais uma vez. Ele soltou um suspiro pesado.
- Creio que não exista outra explicação. - Ficamos mudos mais uma vez. As lágrimas se apossaram de meus olhos e eu não conseguia ver nada. - Existe uma quantidade bem significativa de cianeto no organismo dela que explica todos os sintomas descrito por você e os observados aqui no hospital. - Disse olhando para mim. Eu passei meus dedos por meus olhos para poder enxergar melhor. - Estamos fazendo novos exames para identificar de que forma ela ingeriu o cianeto.
- Espera aí! - %Danny% disse erguendo sua mão. Dr. Albert virou seus olhos para encará-lo. - O senhor está querendo dizer que esse veneno pode estar contido na amêndoa e na mandioca e que ela comeu sem saber e se envenenou?
- Essa seria uma possibilidade se sua amiga não tivesse confirmado que ela não gosta de nenhuma das duas citadas, e ainda assim, para que fosse acidental ela teria que ter acesso aos dois alimentos sem que estes tivessem intermédio industrial. Todos os dois passam por processos muito rigorosos para a retirada do veneno antes do consumo. Não haveria nenhuma possibilidade dela se envenenar comprando tais alimentos em supermercados, o que nos leva à questão do envenenamento induzido.
- Quer dizer que alguém tentou matar a minha amiga? - Eu gaguejei.
- Infelizmente sim. É o que eu acredito no momento. - Eu neguei com a cabeça tentando pensar claramente.
Ninguém iria querer matar a %Saáh%! Pelo amor de Deus, nós estamos aqui há pouco mais de cinco meses! Por que alguém iria querer fazer isso?
- O que esse veneno causa doutor? - %Harry% questionou. Saí das minhas perguntas e voltei minha atenção ao médico.
- Depende muito da quantidade administrada. Os sintomas propriamente ditos começam poucos minutos após a ingestão do cianeto. A exposição aguda afeta o sistema nervoso central inicialmente estimulando-o e depois deprimindo-o. Concentrações baixas de cianetos podem produzir sintomas e sinais não específicos como: dor de cabeça, agitação, náuseas, desmaios, vômitos, confusão e incontinência. Exposição a concentrações mais elevadas pode provocar hipertensão seguida de hipotensão, taquicardia seguida de bradicardia, dispneia, descoordenação de movimentos, convulsões, cianose, coma e disfunção cardíaca ou respiratória que pode ser fatal.
- Então, no caso dela a quantidade foi alta? - %Tom% peguntou, incerto. O médico concordou com a cabeça.
- Detectamos nos exames uma quantidade suficiente para matá-la em questão de duas horas. - Eu gelei com aquele comentário porque se nós tivéssemos demorado mais um pouco, ela teria morrido em casa. - Como eu fui informado pela ficha dela, ela havia ido a um restaurante e estava bem antes de comer, correto?
- Sim, mas... - Hesitei. - O senhor acha que ela foi envenenada lá? - Ele concordou com a cabeça. - Mas eu também comi a mesma coisa que ela! Eu teria que estar envenenada também! - Ele concordou com a cabeça mais uma vez e eu me vi confusa. Onde ele queria chegar afinal?
- A senhorita está certa, mas eu tenho convicção que ela não foi envenenada pela comida, e sim, pelo suco de maracujá. - Minha boca se abriu totalmente e eu comecei a tremer.
- Ah meu Deus! - Senti %Dougie% me abraçar de lado para tentar conter minha tremedeira. - Se o que o senhor diz está certo, era pra ela estar morta há muito tempo atrás! - Todas as cabeças se viraram em minha direção. Todas assustadas. Tentei me concentrar novamente para conseguir falar. - Ela estava sem fome, ela só conseguiu tomar metade do suco. - Eu gaguejei e senti o nó em minha garganta começar a sair junto com mais lágrimas. - Ela me disse que não queria comer nada, mas eu fiquei insistindo e insistindo! E eu me lembro dela dizer que o suco de maracujá tinha um gosto diferente. - Desabei nos braços do %Dougie% e comecei a chorar. Ele me apertou forte e eu senti seus lábios no topo da minha cabeça.
- Certo. Eu tenho informações suficientes. - O médico disse e eu fiz força para me recompor. - Eu preciso voltar a monitorá-la, mas retornarei com o resultado dos outros exames ou qualquer outra modificação do quadro clínico em que ela se encontra.
- Quando eu vou poder vê-la? - %Danny% perguntou com a voz esganiçada. - Eu quero ficar com ela!
- Desculpe, mas não será possível. Ela está na UTI agora e precisa de monitoramento constante. O estado ainda é muito grave e nós precisamos erradicar a febre e ver quais seriam os possíveis danos da parada cardíaca. Haverá um horário de visita pela manhã. Eu aconselho a vocês irem para casa descansar. Não há nada mais a se fazer, por enquanto. - Eu vi que %Danny% iria protestar, mas %Tom% o impediu. O Dr. Albert deu um aceno e saiu.
- Vocês podem ir, eu vou ficar! - %Danny% disse convicto, indo até o sofá e se sentando. Os braços cruzados bem junto ao peito e os olhos colados em seus pés.
- Você escutou o médico dude, não há mais nada o que fazer. Você deveria descansar. - %Tom% disse baixo. %Danny% bufou.
- Isso é o máximo de distância que eu me permito ficar longe dela, porque não há outra solução! Eu não vou sair desse hospital! - E pela sua voz, eu sabia que ele chorava.
%Tom% iria protestar mais uma vez, mas eu fiz sinal de negativo com a cabeça.
Eu entendia o %Danny%. Eu também não queria sair de perto daquele hospital. Mas imaginei que naquela hora ele queria ficar sozinho.
- Eu preciso ir em casa tomar um banho e pegar algumas coisas. - Comecei baixo. - Todos vocês deveriam ir também. Eu vou voltar e ficar aqui com o %Danny%.
End POV
Um clarão muito forte cegava meus olhos protegidos pelas minhas pálpebras. Esperei até que toda aquela luz amenizasse para abrir meus olhos. Pisquei algumas vezes para focalizar e vi porque havia tanta luz.
Muita neve.
Havia neve por toda parte.
Dei uma olhada ao redor e vi que eu estava deitada em um colchão inflável no meio do nada. Logo atrás de mim, há alguns metros de distância, consegui ver o oceano com algumas partes congeladas e ao seu redor uma grande geleira.
Tentei me levantar e tive dificuldade quando percebi que eu estava usando pelo menos uns trinta casacos e calças de frio. Uma bota fofinha estava em meus pés e eu tinha uma luva vermelha nas mãos. Coloquei as mãos em minha cabeça e percebi que havia uma touca ali.
Fiz um esforço para ficar de pé e voltei a dar uma olhada ao redor. O sol estava bem acima de mim e era refletido pela neve deixando meus olhos cegos por alguns segundos quando eu olhava diretamente para ela. Não estava fazendo tanto frio como parecia, mas muito menos fazia calor como o sol tentava me iludir.
Voltei meus olhos para meu colchonete e vi uma mochila azul ao lado deste. Me agachei e peguei a mochila. Explorei dentro dela e encontrei dois sanduíches enrolados em papel alumínio, uma coberta, uma bomba que eu acho que enche o colchão, uma garrafa térmica que pelo peso estava cheia, duas xícaras de plástico e um óculos de sol.
Peguei os óculos e o coloquei. Dei um suspiro de alívio quando a luz ficou mais amena para os meus olhos. Fechei a mochila e coloquei a mesma em cima do colchão.
Escutei um barulho estranho e quase morri de susto. Olhei para o lado do oceano de onde vinha o barulho e quase caí pra trás quando eu os vi.
Pinguins!
Devia haver uns trinta, talvez mais. Todos saindo da água e se sacudindo para tirar o excesso dela de seus corpinhos preto e branco. Alguns batiam as asas/nadadeiras enquanto outros carregavam peixes nos bicos e os jogavam em uma pilha ali perto.
Não aguentei apenas olhar.
Como não havia ninguém por perto mesmo, deixei o colchão e a mochila e saí andando até o encontro daquele grupinho lindo sem tirar meus olhos deles. Observei bem cada movimento, gravando tudo no fundo da minha cabeça.
Me aproximei o suficiente para não assustá-los e me sentei no chão coberto de leve. Senti muito frio no local, mas não me importei. Finalmente eu senti que estava onde deveria estar.
- Eu vejo que você encontrou os óculos. - Dei um pulo, assustada. Olhei para o lado e vi um homem alto, também vestido da cabeça aos pés com roupas de frio, com óculos escuros cobrindo seus olhos. - A claridade aqui pode cegar. - Ele concluiu sua fala e se sentou ao meu lado. Depois de um segundo de silêncio apenas observando o estranho homem ele me estendeu uma garrafa. - Peguei um pouco de água pra você, bem gelada, do jeito que você gosta. - Deu uma risadinha no final como se estivesse lembrando de uma piada.
Peguei a garrafa da mão dele porque eu realmente senti que estava morrendo de sede. Dei o primeiro gole e senti aquele líquido descer por minha garganta seca. Soltei um gemido de aprovação e comecei a beber o resto em vários goles rápidos. Em poucos segundos, a garrafa estava seca.
O estranho soltou uma gargalhada.
- Ainda bem que eu já tinha bebido antes. - Me encolhi, totalmente envergonhada da minha falta de educação.
- Me desculpe. Eu nem havia reparado que estava com tanta sede. - Ele negou com a cabeça, ainda sorrindo.
- Não se preocupe, %Samara%. Eu estava brincando! - Meus olhos arregalaram em surpresa.
- Você me conhece? - Seu sorriso me passou uma grande ternura.
- É claro que sim filha, e você também me conhece! - Franzi minha testa e reparei bem em seu rosto, mas não vi nada familiar.
- Não estou me lembrando. Qual é o seu nome? - Ele desviou seu rosto do meu e ficou com ele de perfil. Pude reparar que seu nariz e queixo eram bem salientes. O primeiro era muito grande mesmo, acho que eu não havia visto um daquele tamanho ainda.
- Eu tenho muitos nomes filha. Alguns me chamam de Emanuel, outros de Jeová, e ainda há aqueles que usam o nome de meu pai para se referirem a mim – Ele voltou a me encarar com um sorriso de lado. -, mas você me chama de Jesus.
%Danny% POV.
- Acompanhantes de %Samara% %Dias%? - Abri meus olhos, alerta, ao escutar o nome da %Saáh%. %Paulinha% levantou sua cabeça de meu ombro onde ela dormia e fez sinal para a enfermeira. Esfreguei meus olhos e me levantei do sofá.
- Somos os acompanhantes. - Disse a ela que concordou com a cabeça.
- Vocês podem ir vê-la daqui trinta minutos, mas só entram na UTI de um em um. - Eu concordei com a cabeça. - O tempo de visitas é de uma hora, depois disso o próximo horário de visitas é ás cinco da tarde. - Ela me entregou um crachá onde tinha o emblema do hospital e escrito “UTI – Horário de visitas. 08H. Paciente: %Samara% %Dias%.” - É preciso estar portando esse crachá para entrar na UTI. Você sabe onde fica? - Neguei com a cabeça e ela explicou onde eu encontraria o local. Depois de eu agradecer, ela se afastou.
Dei uma olhada em %Paulinha% e a entreguei o crachá para ela ver.
Só de pensar que eu só teria alguns minutos para ver a %Saáh% já me deixa desesperado. Eu preciso estar com ela. Preciso estar do lado dela em todos os segundos.
- Vou ligar para o %Dougie% e avisar sobre o horário de visitas. - Eu concordei com a fala dela.
- Acho que vou comprar alguma coisa na lanchonete. Quer algo? - Ela concordou, já com o celular no ouvido e eu me levantei.
End POV.
- Jesus? - Perguntei com espanto.
- Ah, eu sei que não sou nada do que você esperava fisicamente, mas interiormente eu sou tudo o que você conhece e mais! - Disse em tom brincalhão e eu fiquei muda mais uma vez.
- Não é isso! É que... - Hesitei sem saber mais o que dizer. - Uau! - Exclamei e ele gargalhou alto. - Quer dizer... Foi o Senhor que me trouxe aqui?
- Ah não! - Ele começou a abanar as mãos. - O que aconteceu com o você do começo desta conversa, hun? Nós somos amigos! Nada de senhor aqui ok? - Foi a minha vez de gargalhar. Ele me lembrava um pouco da %AnaPaula%. Concordei com a cabeça.
- Foi você que me trouxe aqui? - Reformulei a pergunta e ele bateu palmas.
- Claro que sim! Você sabe onde estamos? - Voltei a dar uma olhada ao redor.
- Aqui me lembra muito das fotos que eu vi da Antártica. - Ele concordou com a cabeça e também deu uma olhada ao redor.
- É, deve lembrar mesmo, já que nós estamos na Antártica! - Minha boca escancarou e Jesus gargalhou mais uma vez. - Você deveria ver a sua cara de surpresa! - Ele gargalhou um pouco mais e eu tive que gargalhar junto. - Ah, assim é melhor! Seu sorriso é lindo! - Apontou o indicador para o meu rosto e eu corei. - E você ainda consegue corar com todo esse frio! Ah, Papai fez um excelente trabalho com você %Saáh%! Posso te chamar assim não é? - Eu sorri e concordei com a cabeça. - É isso que eu acho mais bonito nos humanos, como seus rostos reagem ás emoções, como um sorriso ou uma lágrima podem mudar suas feições e deixá-los ainda mais belos, mais parecidos com o Pai! E, puxa vida, você parece muito com Ele quando sorri assim!
- Eu pareço com Deus? - Perguntei baixinho. Jesus se arrastou para mais perto de mim.
- Você tem o sorriso Dele. - Eu sorri abertamente. - Você precisa sorrir mais, filha. - Concordei com a cabeça e nós voltamos a ficar em silêncio. Olhei para o grupo de pinguins que agora comiam alguns dos peixes que pescaram, dividindo igualmente entre eles.
- Eu morri Jesus? - Não o olhei quando fiz a pergunta. Eu tinha medo de saber a resposta. Muito medo.
Ainda assim, eu precisava perguntar.
- Do que você lembra? - Eu não esperava que ele me respondesse com uma pergunta, mas como eu sei que tudo pra ele tem um propósito, puxei pela memória.
- Me lembro de ir no restaurante com a turma da escola, depois ir pra casa com Carlos porque minha cabeça começou a doer muito. Me lembro também de vomitar umas duas vezes e de sentir meu corpo inteiro doer, mas provavelmente era a febre que eu tinha sentido quando toquei minha testa. E então eu fui dormir porque eu imaginei que estaria melhor quando acordasse como todas as outras vezes. E depois eu acordei aqui. - Jesus ficou calado ainda por alguns minutos e eu tive que virar meu rosto para vê-lo. Ele me deu um sorriso fechado, como se estivesse chateado, e pegou minha mão esquerda embalando-a nas suas, cobertas por uma luva listrada de azul e branco.
- Você não morreu %Saáh%. Quer dizer, você morreu por quatro minutos. - Eu imagino como minhas feições não devem ter ficado para ele precisar apertar minha mão, em sinal de conforto. - Eu te busquei e te trouxe aqui durante esse tempo, mas você está viva, só que em coma no hospital.
- Em coma? Então a Antártica é o meu coma? - Eu quase gargalhei quando Jesus concordou com a cabeça.
- Eu sempre bato um papinho com as pessoas que entram nesse estado no lugar que elas amam ou que elas sempre sonharam em conhecer. Eu só vim a Antártica com mais cinco pessoas sabia? Não é um local muito comum. - Então eu gargalhei, de felicidade, de frustração, de medo. E no fim eu estava aos prantos e Jesus estava me abraçando bem forte e cochichando palavras de conforto enquanto me embalava em seus braços.
%Danny% POV.
Avistei o local onde ela estava e não desgrudei meus olhos de lá, mesmo quando uma moça começou a vestir aquela roupa de hospital em mim e me entregou uma touca para meus cabelos. Mesmo quando eu entrei no espaço de desinfecção, meus olhos ainda estavam grudados onde eu sabia que ela estava. Deitada e imóvel naquela cama de hospital.
Saí daquele quadrado de vidro e adentrei a UTI, uma enfermeira me aconselhou a não mexer em nada, não conversar muito alto e todas aquelas coisas e regras de hospital. Eu concordei a todas com um aceno de cabeça, ainda sem desviar meus olhos da %Saáh%.
Quando finalmente fui liberado, andei rapidamente até ela. Sentindo meu coração apertar ao vê-la naquele estado, me aproximei até estar ao lado dela. Segurei sua mão esquerda que não estava cheia daquelas ligações a sua veia onde eles aplicavam as injeções e onde corria o que eu imagino ser soro.
Me senti um pouco feliz ao ver que a temperatura da sua mão estava próxima ao normal. Só um pouco mais fria que a minha. O que comprovava o fim da febre. Mas minha felicidade durou pouco ao ver seu rosto com aquelas sondas nasais. O mesmo rosto que eu sempre vi cheio de vida, de expressões, agora estava ali, imóvel, inexpressivo.
Fiquei um tempo apenas gravando ela em minha memória. Sabia que eu podia aproveitar já que eu era o último a visitá-la e devia ter uns vinte minutos com ela. Dei uma olhada em cada centímetro de seu rosto, de seus cabelos, de seu pescoço descoberto e de seu corpo coberto pela roupa do hospital e um edredom azul.
Tentei colocar na mente que ela logo acordaria, que eu não precisava me preocupar, que o pior já havia passado, mas nada ficava na minha cabeça por mais que um segundo. Só de olhar pra ela dessa forma, tão debilitada, tão mal, não tem como não pensar no pior.
- %Saáh%? - Cochichei perto de seu ouvido. - Eu escutei uma vez que as pessoas em coma escutam tudo o que dizem pra elas. - Dei uma olhada em seu rosto e vi que seus olhos mexiam por baixo das pálpebras, como se ela estivesse sonhando. - Eu não sei se quero que isso seja ou não verdade. - Soltei um suspiro, encostando minha testa na bochecha dela. - Tem tantas coisas que eu queria dizer, mas não com você assim! Eu só queria que você acordasse, que eu pudesse olhar em seus olhos.
A mão dela deu um espasmo, como se tivesse apertado a minha e eu pulei em surpresa. Dei uma olhada em seu rosto e vi que não havia mudança alguma e me lembrei da enfermeira dizer que os pacientes em coma podem se mover, respondem a alguns toques, mas não significa que estejam voltando em consciência.
Soltei o ar pesadamente e voltei a minha posição anterior, sentindo as lágrimas em meus olhos.
- Eu estou com tanto medo %Saáh%, tanto medo.
End POV.
- Ok! Chega de lágrimas, hun? - Jesus sorriu pra mim enquanto enxugava meu rosto com seus polegares. Concordei com a cabeça respirando fundo para engolir o choro. - Assim é melhor! - Eu sorri, feliz por saber que eu não estava sozinha.
- Obrigada! - Ele deu de ombros e me abraçou de lado.
- Quer saber de uma coisa que está acontecendo agora? - Ele não olhou pra mim, estava com os olhos fixos nos pinguins.
- Eu quero. - Respondi baixo e ele me deu uma olhadela de um jeito conspiratório.
- Você está recebendo suas primeiras visitas agora. - Olhei bem pra ele para tentar entender se ele estava brincando ou não comigo, mas é claro que Jesus não brincaria com algo assim.
- Quem está...? - Não consegui terminar a frase. A única pessoa que vinha em minha cabeça naquele momento era o %Danny%. Será que ele estava indo me ver? Será que ele está preocupado? Será que ele ainda se importa?
- Hey! - Jesus bateu em meu ombro com o seu, para cortar meus pensamentos. - Ele salvou a sua vida, sabia? - Minha boca se abriu em mais um perfeito 'o'. - Ah, mas é claro que você não sabia, você estava morrendo! - Ele bateu com a mão na testa e fez uma careta.
- Ele quem?
- O homem que não sai da sua cabecinha. %Daniel% %Jones%! - Ele cutucou minha testa e eu senti minha respiração falhar.
- Como que isso...? - Mais uma vez eu não consegui terminar uma frase. Tenho que começar a controlar minhas emoções por aqui, afinal de contas eu estou com Jesus, ele vai me fazer muitas outras revelações malucas e impossíveis, tenho certeza.
- Bem, lembra quando eu disse que você morreu por quatro minutos? - Concordei com a cabeça. - Você estava sendo reanimada nesse tempo por um desfibrilador.
- Nossa! Eu levei um choque?
- Um não, você levou quatro choques! - Eu soltei um 'uau' e Jesus me acompanhou.
- Eu sempre quis saber como seria levar um choque daqueles! - Ele gargalhou ao meu lado e levou o dedo indicador até o local onde meu coração batia.
- Você não sentiu nada na hora, mas pode ter certeza que se você acordar vai sentir uma dor terrível nessa área. - Eu tentei não me concentrar muito no fato dele ter dito se você acordar.
- O que ele fez? - Perguntei para desviar meus pensamentos.
- Ah sim! - Ele bateu em sua testa novamente. - O médico desistiu depois do terceiro choque, mas ele invadiu o lugar, pegou o médico pelo jaleco e gritou pra ele tentar mais uma vez. Foi incrível! - Eu sorri da empolgação de Jesus. Ele me lembrava muito mesmo a %AnaPaula%. - E esse último choque fez seu coração voltar a bater.
Fiquei calada depois daquilo. Senti um alívio enorme me invadir. %Danny% ainda se importava, mesmo depois de tudo o que aconteceu conosco, ele ainda não desistiu de mim.
- Você ainda não me disse quem está me visitando! - Jesus fez uma careta e eu gargalhei.
- Nesse instante quem está com você é a %AnaPaula%. Ela tá tendo uma séria dificuldade de segurar as lágrimas. - Soltei um suspiro pesado. Ah, %Paulinha%! - Antes dela já entraram o %Tom%, o %Dougie%, a Rafaella e o %Harry%. - Dei um pequeno sorriso.
Meus amigos não me abandonaram, mas pra variar, eu tinha que estar dando trabalho.
- Ah! - Ele chamou minha atenção com um sorriso enorme. - Adivinha só quem está entrando agora? - Meu coração acelerou automaticamente. Eu sabia que era ele mesmo antes de Jesus dizer. - %Danny%. - Ele se levantou e eu franzi a testa. - Eu vou pegar o nosso colchão inflável, porque, eu não sei você, mas meu bumbum tá anestesiado por causa da neve. - Eu gargalhei alto. - Aproveite o momento filha. - Ele piscou um olho, deu meia volta e saiu.
Fiquei encarando Jesus andar com certa dificuldade pela quantidade de roupas e o gelo escorregadio tentando entender de que momento ele estava falando.
- %Saáh%? - Ah meu Deus! Eu escutei a voz dele! Eu escutei!
Olhei ao redor, mas não vi %Danny% em lugar algum. Eu só posso estar ficando louca!
- Eu escutei uma vez que as pessoas em coma escutam tudo o que dizem pra elas. - Ah! Eu escutei de novo! De onde será que a voz dele tá vindo? Será que eu to imaginando? - Eu não sei se quero que isso seja ou não verdade. - Ele soltou um suspiro e eu senti as lágrimas formando em meus olhos. - Tem tantas coisas que eu queria dizer, mas não com você assim! Eu só queria que você acordasse, que eu pudesse olhar em seus olhos.
Eu quero acordar! Por favor! Eu quero ver os olhos dele, eu quero acabar com esse sofrimento!
Escutei ele soltar o ar pesadamente, como se seus lábios estivessem bem próximos de meu ouvido. Senti minha pele arrepiar e fechei meus olhos, apreciando o som da sua respiração.
- Eu estou com tanto medo %Saáh%, tanto medo.
- Ah, %Danny%! - Comecei a chorar assim que escutei seu soluço, indicando que ele chorava também.
%AnaPaula% POV.
- Vocês precisam descansar um pouco. - %Dougie% disse para mim e %Danny% assim que eu retornei para a sala de espera. %Danny% negou com a cabeça e eu acompanhei. - De que vai adiantar ficar aqui? - Ele continuou parecendo indignado. %Dougie% às vezes não consegue perceber que certas coisas não há como discutir.
- Eu não vou sair daqui até ela acordar. - Falei cruzando meus braços.
- E eu só saio daqui com ela comigo. - %Danny% nem ao menos desviou o olhar do seu celular. %Dougie% bufou e eu me sentei ao seu lado no sofá.
- Pelo menos ela vai ser transferida para um quarto. - Eu concordei com a cabeça, após a fala do %Tom%. - Vamos poder ver ela a hora que quisermos.
- De uma coisa eu sei. - %Harry% começou, pegando a atenção do %Danny%. - A %Paulinha% e o %Danny% vão ter que tirar o par ou ímpar para ver quem vai ficar com ela o tempo todo, já que apenas um pode permanecer no quarto. - Ele deu de ombros e eu automaticamente olhei para o %Jones%. O rosto dele dizia que não haveria par ou ímpar nenhum. Eu respirei fundo.
Sabia que seria impossível discutir com ele e eu tinha que trabalhar de qualquer maneira. E tinha que ir na aula também. Ainda havia uma semana até as férias de inverno.
- Não precisa se preocupar %Harry%, o %Jones% vai ficar com a %Saáh%. - Os quatro me encararam, imagino que surpresos por eu ter cedido tão facilmente. - Eu tenho que trabalhar pra viver, lembram? - Dei de ombros sorrindo.
- Quanto a isso, você sabe que não precisa ir trabalhar... - Eu coloquei minha mão no braço do %Dougie% e o encarei seriamente.
- Nós já conversamos sobre isso bêe, eu não quero discutir. - Ele soltou um suspiro pesado e concordou com a cabeça.
Eu já tenho coisas demais com o quê me preocupar, não quero ter que me lembrar do %Dougie% querendo me bancar agora. Isso seria demais!
- O detetive deu alguma notícia? - %Tom% perguntou se dirigindo ao %Danny%. O mesmo que suspirou, negando com a cabeça.
- Ele ainda tá de olho no restaurante, mas não apareceu nada suspeito até agora. Perguntou os funcionários, mas não deu em nada. - Ele esfregou as têmporas. - Eu não consigo entender como isso foi acontecer!
- É, isso tá sendo um grande mistério mesmo! - %Harry% comentou. - E a única pista que a gente tem é o restaurante, mas se ele não descobrir nada por lá, como vamos saber quem fez isso com ela?
- Mais difícil ainda é saber o porquê de terem feito isso com ela. - %Tom% completou. - Meu leitão não me disse que tinha inimigos por aqui, e eu acho muito difícil ela ter! - Nós concordamos com sua fala e eu respirei fundo. Tinha que contar logo antes que o %Danny% enlouquecesse por ver o James aqui, ou o Carlos.
- Então, falando em amigos da %Saáh%. - Comecei devagar, sem olhar o %Jones%. - Carlos e James virão aqui assim que ela for transferida para o quarto. - Escutei um rugido e vi que o %Danny% estava com os dentes cerrados. Tentei ignorar. - Eles queriam vir hoje, mas eu expliquei a situação das visitas na UTI e eles acabaram se contentando em vir amanhã.
- Me avise antes, porque se eu ver um dos dois, nem sei o que posso fazer. - %Danny% comentou com raiva, praticamente amassando seu celular na sua mão direita.
- %Danny%, eles têm tanto direito quanto a gente! - Rebati tentando controlar a parte de mim que queria completar a frase com “não era deles que a %Saáh% estava com raiva”.
- Merda! Eu sei! - Ele gritou e a enfermeira que passava no momento olhou pra gente com cara de brava. - Eu sei! - Ele repetiu mais baixo.
- Dude, segura a barra dessa vez, pela %Saáh%. - %Tom% disse com uma ternura que apenas ele poderia ter quando o assunto era o %Danny%. - Ela iria gostar de saber que você deixou de lado a raiva por causa dela, hun? - %Danny% soltou o ar pesadamente, concordando com a cabeça em seguida.
- Hoje eu sei que eu deixaria qualquer coisa de lado por causa dela. - Ele suspirou, escondendo o rosto em suas mãos. - Qualquer coisa.
End POV.
- Tão ruim assim? - Eu enxuguei meu rosto com o auxilio das minhas mãos e as luvas, negando com a cabeça. Jesus jogou o colchão inflável que ele carregava entre o braço esquerdo no chão, colocou minha mochila em um canto e de lá retirou dois edredons. Apontou para que eu sentasse e eu sorri.
Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar do chão. Assim que me sentei no colchão ele se sentou ao meu lado e jogou um dos edredons em cima de meus ombros, cobrindo-me com carinho. Suspirei aliviada pelo calor imediato que aquele edredom pesado me proporcionou.
Jesus ficou calado, acho que me dando um tempo para que eu mesma começasse a contar porque chorava, mas nem eu mesma sei por onde começar! Talvez pela pergunta que mais me incomoda.
- Por quê? - Ele virou seu rosto em minha direção e sorriu com os lábios fechados. O sol bateu em seu rosto e uma luz muito forte quase cegou meus olhos cobertos pelos óculos de sol. Assim que a luz passou eu voltei a reformular a pergunta. – Por que eu posso escutá-lo? - Jesus deixou seus dentes brancos aparecerem e deu um aceno de cabeça, como se compreendesse.
- É relativo. - Eu franzi a testa. - Veja bem, você escuta tudo ao seu redor, mas seu cérebro está selecionando o que fazer você escutar, entende?
- Acho que sim, mas eu nunca imaginei você dando uma explicação científica pra esse tipo de coisa. - Eu sorri e Jesus gargalhou.
- Ah, sim! Eu já fiquei com muitas pessoas que acreditavam que tudo isso que estava acontecendo era um sonho maluco causado pelo coma. Foi muito difícil convencê-los do contrário. - Com seu dedo polegar e o indicador ele apertou a ponta do meu nariz que só então eu percebi que estava dormente, porque no mesmo instante um calor muito forte percorreu o lugar e eu senti que toda a pele do meu rosto esquentava. - Bom? - Ele perguntou e eu concordei com a cabeça. - Tá bem frio por aqui hoje. - Ele se afastou e voltou a olhar para a frente. - Olha só! - Disse animado apontando para frente.
Olhei na direção e vi um pequeno pinguim andando até nós. Travei no mesmo segundo para tentar não assustá-lo ou algo do gênero, mas Jesus não parecia pensar da mesma forma que eu.
Ele jogou de lado seu edredom e foi engatinhando até o pinguim, chamando o mesmo por uns assovios estranhos. O pinguim praticamente correu ao seu encontro e Jesus o pegou nos braços. O bichinho bateu as nadadeiras e soltou sons animados da garganta, os outros de seu grupo ao longe acompanharam os som e começaram a bater as nadadeiras também.
Eu sorri encantada com a cena. Era muito surreal ver tudo aquilo.
- Vem aqui! - Jesus me chamou com um aceno de sua mão. O pinguim que estava em seu colo virou o rosto para olhar pra mim e começou a bater as nadadeiras novamente. - Ele está chamando você também! - Joguei de lado meu edredom e fui até eles.
O pinguim no colo de Jesus pulou para o meu e eu me assustei com aquilo. Jesus apenas sorriu pra mim, me dando sinal para que eu o segurasse sem medo, o que eu fiz.
Como eu estava de luvas, não consegui sentir como era o pinguim realmente, mas sabia que ele era escorregadio porque minha mão nunca ficava no lugar onde eu a colocava e eu subitamente comecei a gargalhar.
- Ele é tão lindo! - Eu disse encarando os pequenos detalhes daquele bichinho fofo. - Como ele pode estar vindo tão facilmente até nós? - Jesus me deu um olhar de quem dizia “você ainda não percebeu?” e eu apenas sorri entendendo.
- Eu disse pra ele que não havia problema em se aproximar. Disse que ele podia confiar na gente. - Eu concordei com a cabeça.
É claro que ele podia falar com os animais! Ele era um dos criadores!
- Jesus? - Perguntei depois de um breve silêncio apenas observando o meu mais novo amiguinho pinguim. - Porque eu consigo escutar apenas a voz do %Danny%? - Ele suspirou fazendo uma coluna de fumaça sair por sua boca.
- O sentimento que vocês dois partilham um pelo outro é o mais puro que o meu Pai colocou no mundo. É o amor puro, mútuo e sincero. Mesmo que vocês dois tenham sofrido muito desde que descobriram esse amor, não foi por culpa dele e sim, por suas naturezas humanas que são falhas e conseguem atrapalhar até o mais forte dos sentimentos. - Jesus se aproximou de mim e pegou o pinguim do meu colo. - Veja, ele já ama você. - Apontou para o bichinho e eu sorri. - Se você o machucasse nesse instante, o que ele faria? - Não entendi bem onde ele queria chegar com aquela pergunta, mas respondi mesmo assim.
- Ele fugiria de mim, com certeza. Talvez tentasse me atacar, querendo me machucar também. - Dei de ombros e Jesus concordou com a cabeça, olhando para o pinguim.
- Sim. Ele poderia fazer qualquer uma dessas coisas, mas depois que a raiva dele passasse, que a dor sumisse, ele estaria disposto a tentar mais uma vez, a perdoar você, porque ele te ama. - Jesus voltou seu olhar pra mim. - As pessoas são assim %Samara%. Elas amam, mas também machucam umas as outras. Algumas pessoas simplesmente não foram abençoadas com o poder de amar e outras nasceram com o poder de amar incondicionalmente. Por isso que há tanto sofrimento no mundo, porque no fim das contas algumas vão perdoar porque amam, mas essas pessoas vão continuar ferindo quem as amam porque elas não conhecem o amor.
- Isso é injusto. - Soltei sem pensar. Jesus fez sinal para que eu continuasse. Eu respirei fundo sentindo o ar gelado em meus pulmões. - Todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de amar. Eles não deveriam ser excluídos. - Jesus sorriu e eu me senti uma louca por estar contestando aquilo com ele.
- Todas as pessoas nascem com o amor %Saáh%. Meu Pai depositou o amor dele na criação e concepção daquela criança, não importa de que maneira ela foi concebida e por quem. A diferença é que, a partir do momento que as crianças começam a entender o mundo ao seu redor, elas passam a cultivar o amor dentro delas, ou afastá-lo para longe de seus corações. O sentimento ainda está lá, pronto para ser resgatado e cultivado, a pessoa só precisa escolher fazer isso.
Eu concordei com a cabeça e fiquei em silêncio, refletindo no que Jesus tinha acabado de me dizer. No fim das contas, tudo girava em torno do livre arbítrio mesmo.
- Então o %Danny% e eu... - Hesitei sem saber como completar a frase. Jesus aguardou, paciente. - Nós somos almas gêmeas?
- Sim, vocês são! - Fiquei surpresa.
- Eu nunca imaginei que isso fosse verdade. - Jesus deu de ombros.
- Não é da maneira que dizem por aí. “Você e sua alma gêmea são predestinadas a ficarem juntas!” e coisas do gênero. - Ele fez aspas com os dedos. - Na verdade existe sim uma alma gêmea para cada pessoa, mas são elas que escolhem se ficam juntas ou não. Muitas pessoas cruzam com suas almas gêmeas todos os dias e simplesmente não dão atenção. Todos sempre têm uma chance, o primeiro encontro, o primeiro olhar, já foi destinado por meu Pai realmente, mas o que acontece a partir dali depende exclusivamente do casal.
- Uau, isso sim é inacreditável. - Sibilei impressionada.
- Veja o seu caso, por exemplo. Você se apaixonou por sua alma gêmea desde a primeira vez que o viu, mas vocês tinham que se encontrar para que ele também tivesse a oportunidade de se apaixonar por você. Foi por isso que vocês esbarraram naquele shopping.
- Aquele encontrão foi destinado? - Ele concordou com a cabeça. - Uau!
- Pense bem em quantas coisas poderiam ter acontecido depois daquela primeira troca de olhares de vocês. Ele poderia pedir desculpas e sair de perto, poderia xingar você pelo esbarrão, poderia fingir que nada havia acontecido, mas não. Mesmo com tantas possibilidades ele escolheu ajudar você e te acompanhar, te conhecer melhor. A partir dali, o amor verdadeiro de vocês nascia e apenas vocês podem fazê-lo morrer.
Jesus me entregou o pinguim e eu o apertei em meu colo.
- Vou pegar a garrafa térmica na bolsa. Tem um delicioso chocolate quente lá! - Apenas consegui concordar com a cabeça e sorrir de leve. Assim que Jesus saiu, eu voltei a olhar para o meu amigo pinguim. Senti meu coração tão apertado pela saudade.
Saber daquela informação deixava tudo diferente.
Eu achei que era impossível, mas não. O %Danny% realmente era o amor da minha vida e eu era o seu. Não havia erro. Não existia outra pessoa no mundo mais perfeita pra ele do que eu, mesmo com todos os meus defeitos, eu era dele.
A pior parte disso é me lembrar que eu provavelmente não vou viver pra contar isso a ele. Eu nem ao menos sei se vou acordar do coma.
Talvez esse lugar, esse encontro com Jesus, seja a minha passagem. Seria mais fácil morrer se eu não soubesse que o %Danny% era a minha alma gêmea.
- O que você acha amiguinho? Vou viver ou morrer? - Cochichei me sentindo louca por estar falando com um pinguim. E eu provavelmente estava já que eu imaginei ter visto as laterais de seu bico subindo para o alto, como se sorrisse pra mim.
Eu acabei sorrindo junto.
%Danny% POV.
- Dude? - Desviei meu olhar do rosto da %Saáh% e vi o %Dougie% parado na porta do quarto. Me levantei da cadeira, deixando a mão dela que eu segurava, ao lado de seu corpo, e andei para fora do quarto. - Eu vou dar uma passada em casa e pegar a %Paulinha% na dela. Você quer que eu te traga algo da sua? - Concordei com a cabeça.
- Pega mais uma muda de roupa e um moletom, e um travesseiro. - %Dougie% concordou com a cabeça pegando a chave de minha casa que eu lhe entregava. - Cadê o %Tom%?
- Ainda tá lá fora conversando com os repórteres e tentando convencê-los a saírem da frente do hospital. - Eu soltei um suspiro. - Acho até que eles demoraram muito pra descobrir que alguém estava no hospital já que desde sábado que a gente entra e sai aqui. - Eu concordei com a cabeça e ele deu um soco de leve em eu ombro. - O %Harry% chega daqui a pouco. - Ele deu meia volta e saiu e eu voltei a entrar no quarto.
Desde que a %Samara% foi transferida para o quarto, eu não consegui dizer nenhuma palavra pra ela. Sempre que eu tentava, minha voz ficava presa em minha garganta e eu só conseguia olhar pra ela, segurar sua mão forte e esperar.
Esperar, esperar e esperar.
Eu já estava cansado de esperar, mas jamais desistiria. Um dia ela ia acordar e eu estaria ali, ao lado dela, quando isso acontecesse.
Duas batidas na porta me assustaram. Levantei meu olhar vi quem estava na porta. Bourne. Respirei fundo para controlar o ódio que formava dentro do meu ser.
Não vou fazer isso. Não vou brigar com ele.
Praticamente escutei a voz da %Saáh% em meu ouvido dizendo “Seja educado, %Jones%”.
- Posso entrar? - Ele perguntou, ainda parado na entrada do quarto. Eu concordei com a cabeça e me levantei da cadeira, dando uma última olhada na %Samara%.
- Eu vou sair pra que você fique mais a vontade. - Foi muito difícil dizer, mas eu consegui. O Bourne franziu a testa e negou com a cabeça.
- Não precisa. Eu sei que você não quer sair de perto dela. - Eu o encarei e vi que ele não estava brincando. Queria mesmo que eu ficasse.
Respirei fundo e dei de ombros, voltando a ficar no canto oposto à cama da %Saáh%, deixando a cadeira ao lado de sua cama para que ele pudesse sentar.
O Bourne entendeu o recado e fechou a porta do quarto. Foi para o lado da cadeira e se sentou. Deu uma longa olhada da %Samara% e eu tentei segurar o ciúme dentro de mim.
- Ah princesa! É só eu viajar e você consegue se meter em encrencas? - Ele pegou a mão dela e beijou delicadamente. Eu trinquei os dentes. - Eu tive que cancelar duas entrevistas e pegar o primeiro avião de volta quando fiquei sabendo. E não me venha você depois brigar comigo porque eu deixei meu trabalho de lado por sua causa! - Era estranho vê-lo conversando daquela maneira com ela, como se a %Saáh% estivesse acordada.
Ele fez uma pausa, com a testa encostada nas mãos dela e os olhos fechados. Parecia estar chorando silenciosamente.
- Será que dá pra você acordar? Eu tenho tanta coisa pra contar! - Ele olhou o rosto dela e suspirou. - Lembra que a gente tinha conversado pelo telefone antes de eu viajar, no sábado de manhã? Então. Logo em seguida, adivinha quem eu encontrei no aeroporto? Annie. - Ele sorriu de leve. - Ela estava esperando o irmão chegar pra ver a apresentação do trabalho dela mais tarde e a gente acabou ficando conversando lá enquanto o irmão dela não chegava e o meu voo não saía.
Ele fez uma pausa, abaixando a mão de %Saáh% e a depositando ao lado de seu corpo, ainda sem desentrelaçar seus dedos.
- Você tinha razão %Saáh%. A Annie gosta mesmo de mim. Sabia que ela se declarou ali, dentro do aeroporto? - Ele soltou uma risada. - Eu fiquei estático, imagina só! Ela me disse: “Eu sempre gostei muito de você James, mas você só tem olhos pra %Samara%” - Ele negou com a cabeça, ainda sorrindo. - Bem que você disse que ela morria de ciúmes de você! E antes que você me xingue, eu contei pra ela que nós dois éramos apenas amigos. Ela não acreditou muito bem, e adivinha só o que eu fiz pra provar? Eu a beijei! Bem ali no aeroporto!
Ele parou, seu rosto ficou um pouco triste, olhando para a %Saáh%.
- Droga %Saáh%! É nessa hora que você grita comigo e faz um escândalo! - James deu uma olhada em mim antes de suspirar. Eu imagino a surpresa que ele viu em meu rosto. - Foi engraçado porque o irmão dela apareceu na hora e ela ficou toda sem graça, mas dava pra ver que estava feliz. - Ele voltou a sorrir. - E como sempre você estava certa! Eu gostei da Annie %Saáh%, até já marquei um encontro com ela no fim de semana. E eu acho bom você acordar até lá, porque eu preciso de algumas dicas! - Ele se levantou e inclinou seu troco para poder dar um beijo na testa dela.
O Bourne se afastou um pouco, mas continuou na mesma posição, encarando profundamente as pálpebras fechadas dela.
- Se você não acordar logo e resolver as coisas entre você e o %Danny%, eu juro que mato você! - Cochichou, mas eu consegui escutar. - A %Paulinha% me disse que o cara não saiu um segundo desse hospital e quase tem um ataque quando tem que almoçar ou tomar banho, porque consequentemente vai ficar longe de você por alguns minutos. - Ele deu uma olhada em minha direção e eu acabei sorrindo.
James se endireitou e sorriu também, andando em minha direção. Estendeu a mão, em sinal de paz. Eu sorri mais abertamente e agarrei a mão dele, o puxando para um abraço.
- Foi mal cara! - Disse pra ele, em sinal de desculpas. Senti o James negar com a cabeça.
- Você estava com ciúmes, eu entendo. - Ele se separou de mim, para poder me olhar nos olhos. - Eu nunca vi você assim, tão apaixonado por alguém. Isso justifica qualquer desentendimento que nós tivemos afinal, eu fiquei com a sua garota. - Soltei uma risada e ele me acompanhou. - Não existe ninguém na vida da %Saáh% além de você %Danny%. O coração dela é seu. Lembre-se disso! - Ele me deu mais um abraço e se afastou. - Eu preciso ir. Tudo bem se eu voltar depois? - Eu concordei com a cabeça e sorri.
Aquela visita tinha sido bem melhor do que o esperado.
Andei até a cadeira e me sentei novamente, ainda sorrindo. Cheguei perto do rosto da %Saáh% e coloquei meus lábios próximos ao ouvido dela.
- Isso te deixa feliz? - Eu não precisei escutar ela falar pra saber que sim, eu e o James temos feito ás pazes deixava ela muito feliz. - Se você acordasse agora o meu dia seria perfeito. - Suspirei e depositei um beijo de leve em sua bochecha.