Who Said It Could Not Be Forever?


Escrita porSamara Dias
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo. 20

Tempo estimado de leitura: 58 minutos

  Abri meus olhos e pisquei algumas vezes. Aqueles pontinhos vermelhos e pretos ainda não haviam desaparecido da minha visão e o mal estar do meu corpo era bem forte. Soltei um gemido de dor quando uma pontada foi sentida na parte de trás da minha cabeça.
  Escutei um suspiro e virei lentamente a cabeça, pra evitar mais dor. Dei de cara com %Daniel%, sentado ao meu lado. Franzi a testa e reparei que estava deitada em minha cama.
  Subitamente, me recordei do que havia acontecido.
  - Hey. - Ele disse baixo e eu voltei meus olhos em sua direção. Respirei bem devagar para não desmaiar novamente. Ver %Danny% e escutar sua voz ao mesmo tempo era uma dose muito forte de dor para o meu pequeno corpo frágil. - Como você está?
  - O que você está fazendo aqui? - Tentei ser hostil para que ele não percebesse como eu estava afetada, e não era por culpa do desmaio.
  Ele levou a mão esquerda aos cabelos e bagunçou-os, desviando seu olhar do meu.
  - Está bem, pelo que eu vejo. - Seus olhos voltaram a fixarem-se em meu rosto. - Há quanto tempo você não come? - Não gostei nem um pouco daquela pergunta, muito menos de seu tom acusador. Desviei meu rosto, encarando o teto do quarto. %Danny% soltou o ar pesadamente.
  Senti o colchão mexer ao meu lado e vi pelo canto do olho %Daniel% levantando e saindo do quarto. Liberei o ar que estava preso em meus pulmões e levei minha mão direita até o lugar dolorido em minha cabeça. Uma elevação estava presente ali e a dor se intensificou quando eu toquei o lugar.
  Tirei a mão imediatamente e fechei meus olhos.
  Depois de um minuto voltei a sentir o colchão se mexer ao meu lado. Abri os olhos e dei de cara com %Daniel% segurando uma bandeja. Ele a colocou no criado-mudo ao seu lado e pegou o prato nas mãos. Esticou o mesmo em minha direção. Eu virei o rosto pro lado contrário.
  - Você precisa comer. - Eu não respondi novamente. - %Samara%, você precisa comer. - Sua voz era autoritária e nervosa. Eu trinquei os dentes com raiva, mas não me movi.
  - Não estou com fome. - Ele bufou e eu escutei o som do prato se chocando com a bandeja.
  - Você já se olhou no espelho? - Sua voz estava indicando claramente sua irritação, mas ele ainda falava baixo. - Você está, pelo menos, cinco quilos mais magra. Seu rosto tá tão branco que eu ainda estou me perguntando se você vai desmaiar a qualquer momento, ou se eu vou ter que te levar ás pressas para o hospital! - Mordi meu lábio inferior com força pra não responder nada.
  Ele fez uma pausa e eu logo senti o toque de sua mão no meu braço. O lugar formigou e se espalhou por todo o meu corpo como uma corrente elétrica.
  - Olha pra mim %Samara%. - Eu soltei o ar pesadamente, percebendo agora que estava prendendo a respiração desde que ele me tocou. Virei meu rosto para vê-lo, sabendo que ele não descansaria enquanto eu não o fizesse. Seus olhos eram amedrontadores e eu tremi involuntariamente. - Se você ainda tem, pelo menos, um pouco de consideração por mim, por favor, coma! - Ele suspirou e desviou o olhar, abaixando a cabeça e levando o dedo indicador e polegar até as têmporas. - Eu não posso sequer imaginar você desmaiando outra vez, ou até coisa pior. - Ele começou a balançar a cabeça, como se espantasse um pensamento muito ruim.
  Eu senti meu coração apertar para depois começar a bombear fortemente quando percebi o tamanho de sua preocupação. Sentei-me devagar e, ele ao perceber, veio para perto de mim e eu congelei. Um meio sorriso apareceu em seu rosto lindo enquanto ele ajeitava os travesseiros em minhas costas, seus olhos azuis grudados nos meus, a pele de seus braços a centímetros da minha. Se eu me aproximasse um pouquinho, conseguiria beijá-lo, sentir aquele gosto incrível de seus lábios de novo.
  Mas, tão rápido como foi sua aproximação, foi seu afastamento.
  Eu me encostei aos travesseiros engolindo meu suspiro de indignação por ele não ter me tocado, me beijado. Pra variar, sua presença estava me enlouquecendo.
  Ele pegou o prato mais uma vez e eu pude ver uma sorriso maior aparecer em seus lábios quando ele pegou o garfo e espetou uma batata frita. Eu nem ao menos tinha reparado no que tinha ali.
  Sua mão se aproximou com o garfo pra perto de minha boca, a batata a um centímetro de meus lábios. Eu senti o cheiro tentador da comida e meu estômago remexeu. Ainda assim, eu não abri minha boca.
  - Coma. - Pude ver que ele parecia estar se divertindo. A irritação havia sumido de seus olhos.
  - Eu posso fazer isso sozinha. - Ele riu, acho que de meu tom irritado.
  - Abra a boca. - Eu bufei ao ver que ele havia ignorado totalmente o que eu disse.
  Permaneci com a boca fechada por alguns minutos, mas a mão de %Danny% não se moveu. Eu rolei os olhos e abri a boca, sabendo que ele não ia desistir e, quanto mais rápido eu cedesse, mais rápido ele iria embora.
  %Danny% sorriu com um ar vitorioso e diminuiu o espeço entre minha boca e a batata frita. Eu mastiguei, sentindo meu estômago remexer e um pequeno enjoo me invadir. Engoli e aguardei o retorno da batata, mas ela não voltou como eu imaginei e meu estômago roncou em protesto, acho que esperando mais comida. %Danny% logo estava com o garfo carregado mais uma vez, esperando eu abrir a boca.

  - Chega. - Ele depositou o garfo no prato, e o mesmo na bandeja.
  - Bom, já é alguma coisa. - %Danny% parecia se referir a quantidade de comida que ainda restava no prato. Em comparação aos últimos dias, eu comi em alguns minutos o triplo do que eu comi a semana inteira. Sobrou pouca comida no prato.
  Eu comecei a me levantar, girando minhas pernas para estar na beira da cama. Antes mesmo de colocar os pés no chão, senti %Danny% me segurar pelo braço.
  - Onde você pensa que vai? - Estava irritado novamente.
  - Huum... Me arrumar? - Falei ironicamente. Ele continuou apenas me encarando. - Eu tenho que trabalhar %Daniel%.
  - Eu não vou deixar você ir trabalhar nesse estado! - Parecia indignado por eu ter dito que ia trabalhar. Aquilo me deixou irada.
  - O ponto positivo é que, você não tem que deixar nada aqui. - Eu me levantei rapidamente e ele veio junto, a mão ainda segurando meu braço. - Me solta!
  - %Samara%, coloca um pouco de juízo na cabeça! Você não pode ir trabalhar! - Puxei meu braço com força, mas ele apertou ainda mais o aperto de sua mão.
  - Solta o meu braço %Daniel%. - Falei entredentes.
  Ficamos nos encarando por muito tempo, furiosos um com o outro. Como um imã, nossos corpos se aproximaram e quando eu vi, os lábios de %Daniel% já estavam praticamente nos meus, seu nariz encostou de leve na ponta do meu e, como antes, houve aquela descarga elétrica.
  Subitamente, %Danny% soltou meu braço e se afastou, ficando de costas pra mim.
  Eu me lembrei que precisava respirar.
  - Você não vai trabalhar. - Lá estava o tom autoritário mais uma vez. Preferi não dar ouvidos.   Fui até meu guarda-roupa e peguei tudo o que eu precisaria. Dei meia volta, me direcionando para a porta do banheiro, passando bem longe de %Danny%. Fui surpreendida quando ia fechar a porta do banheiro.
  - Que droga %Samara%! Você nunca faz as coisas direito? Você precisa descansar! - Ele empurrou a porta para o lado, escancarando-a, e apoiando o braço esquerdo nela. Tentei empurrar, mas ele era bem mais forte do que eu.
  - Quem é você agora, meu pai? - Gritei frustrada, largando minhas coisas na bancada de mármore da pia.
  - Claro que não! - Ele também gritou. - Eu sou... - Hesitou, sua respiração acelerada. Eu cruzei meus braços junto ao peito, olhando-o com o máximo de ódio que eu consegui juntar. %Danny% desviou o olhar. - Eu era... - Sem querer, vi minha visão ficar embaçada.
  Não, merda! Eu não posso chorar só porque ele usou um verbo no passado!
  - Por que você se importa, afinal? - Tentei, mas foi inútil evitar que minha foz falhasse no final. %Daniel% voltou a me olhar, seus olhos azuis brilhavam por culpa das lágrimas não derramadas. Ele largou a porta, em sinal de desistência.
  - Merda! Eu não sei! - Disse elevando a voz. - Você acha que eu queria estar aqui? Se dependesse de mim, eu nunca mais veria você de novo! - Depois dessa, não deu mais pra segurar as lágrimas.
  - Então por que você está aqui? Porque ficou me esperando acordar? Por que você não foi embora? - Eu explodi, minhas lágrimas caindo rapidamente e eu agradeci já que assim dificultava a minha visão de ver o homem na minha frente. – Por que, raios, você não me deixou naquela maldita calçada? Seria de maior ajuda, já que eu já tinha eliminado você da minha vida!
  - Agradeça ao %Dougie%. - Limpei minhas lágrimas rispidamente para encará-lo. Havia apenas uma lágrima solitária descendo pela sua bochecha. - Foi ele que me fez vir até aqui.
  - Foi ele que te obrigou a ficar no meu quarto ou a me alimentar? - Ele negou com a cabeça sem nem ao menos piscar, respirando fundo em seguida.
  - Você pode ter ferrado com o meu coração e me fazer ter certeza que eu nunca mais vou querer me apaixonar de novo, mas eu nunca vou querer ver você doente. - Ele se aproximou e eu recuei. %Danny% ficou perigosamente perto e eu prendi a respiração, encurralada pela pia do banheiro.
  Seu dedo indicador limpou algumas lágrimas que ainda estavam em meu rosto, em seguida, sua mão passou por meu cabelo, colocando-o atrás do meu ombro.
  - Eu nunca quis o seu mal. - Seu dedo desenhou os meus lábios, primeiro no inferior, depois no superior. Eu quase fechei os olhos de prazer, mas eles estavam muito vidrados em %Danny%. - Nunca. - E então ele se afastou mais uma vez, me deixando louca com a falta do seu toque.
  - Então você faz o contrário do que quer. - Eu rebati, fechando meus olhos pra tentar me recuperar silenciosamente. - Você sempre consegue me fazer mal, principalmente quando eu estou mais feliz. - %Danny% mordeu o lábio inferior, concordando com um aceno de cabeça.
  - É recíproco. - Sua expressão era tão triste que eu comecei a me perguntar se era o espelho da minha. Provavelmente, sim. - Aqui estamos nós de novo, fazendo mal um ao outro. - Ele gesticulou com a mão, sua voz pouco mais alto que um sussurro. - Talvez seja o melhor mesmo, estarmos separados.
  - É, talvez. - Eu dei de ombros, tentando passar a impressão de que não me importava. - Nós tentamos e não conseguimos... - Hesitei, segurando as malditas lágrimas que voltavam. - É melhor mesmo. - Concordei com a cabeça várias vezes, tentando convencer mais a mim do que a ele.
  - Isso o que a gente tá sentindo, é passageiro. - Ele desviou o olhar para seus pés. - Você vai encontrar alguém e eu também. Nós vamos superar. - Ele também parecia se convencer do que falava. Engoli todo o meu choro e respirei fundo.
  - Bom, eu já estou a um passo disso. - Ele levantou seu rosto e me encarou. - Tudo o que eu precisava saber para enterrar tudo isso de uma vez, agora eu já sei. - Respirei fundo mais uma vez, para ver se conseguia dizer o que eu ia dizer da forma mais convincente possível. - Em mais alguns dias eu vou estar pronta pra outra! - Seu rosto parecia tão sofrido, mas %Danny% endireitou o corpo e deu um meio sorriso que mais pareceu uma careta.
  - Eu também! Agora tudo isso é passado, uma lembrança ruim. - Forcei um sorriso, mas por dentro eu estava dilacerada.
  - Isso! - Minha voz quase se tornou um grito.
  - Ótimo! - Ele disse do mesmo jeito.
  - Então, agora você pode ir embora. Você não precisa mais se preocupar comigo. - Ele estancou no lugar por alguns minutos, mas logo começou a sair do banheiro, os passos lentos e os olhos nunca deixando os meus.
  - É verdade, eu posso ir. E eu não vou mais me preocupar porque você está bem, não está? - Ele apontou em minha direção e eu agarrei com força a bancada de mármore com as duas mãos, forçando outro sorriso.
  - É claro que sim! Não podia estar melhor! - Ele suspirou.
  - É nem eu! Nunca me senti melhor! - Parecia uma empolgação forçada. - Você está aí, eu estou aqui e nós estamos separados! Estamos felizes e separados! Está tudo como deveria ser! - Seus braços se movimentaram enquanto ele dizia. A cada palavra, ele se afastava mais de mim. Quando eu vi, ele já estava parado em frente à porta do quarto e eu continuava no mesmo lugar, vendo-o de longe.
  - É, tudo como deveria ser. - Não sei bem se meus olhos estavam me enganando ou se era mesmo verdade, mas eu o vi dar um passo na minha direção e parar como se estivesse numa batalha interior.
  %Danny% soltou o ar pesadamente, desviando seu rosto do meu.
  - Adeus %Saáh%. - Seus olhos azuis focaram nos meus por um segundo. Eu vi algumas lágrimas descendo velozmente por seu rosto, e no outro segundo %Danny% desapareceu do quarto.
  Eu soltei a bancada de mármore já vendo que havia perdido a sensibilidade dos meus dedos pela força que eu apertei o local. Não me importei.
  Eu não me importava com mais nada.
  Afundei no chão frio e me deitei, abraçando a mim mesma e simplesmente deixando que os soluços me dominassem.
  Essa seria a última vez que eu choraria por %Daniel% %Jones%.

  Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012

  - É uma pena ela não poder vir %Tom%. - Ele deu de ombros, colocando outra colher de sorvete de chocolate na boca.
  Eu já havia engordado todos os seis quilos e trezentas gramas que tinha perdido na semana anterior, tudo culpa do %Tom% e suas besteiras doces e deliciosas que ele trazia todos os dias. Eu nunca havia comido tanto chocolate na vida, o que batia meu recorde da Páscoa.
  Mas Deus sabe o quanto eu precisava de chocolate pra continuar mostrando pra todo mundo que tudo estava bem, quando na verdade não estava.
  Meus pedaços ainda estavam espalhados pelo chão do meu banheiro. Nem ao menos sei se algum dia vou conseguir juntar os cacos.
  - Tudo bem! Eu vou filmar toda a apresentação pra ela ver depois. - Eu sorri ao ver a boca dele manchada de chocolate. Me lembrei de quando a gente tinha ficado junto assim, com um pote de sorvete.
  Tentei ver se ainda havia algum mínimo sinal daquela atração louca que a gente sentiu, mas não havia nada. Provavelmente, a carência tinha dominado nós dois naquela época.
  %Tom% era meu melhor amigo e era assim que as coisas sempre deveriam ser.
  - Certo! - Enchi minha colher de sorvete.
  - O %Danny% também vai. - Eu quase deixei minha colher de sorvete cair no sofá, mas recuperei o controle das minhas mãos rapidamente. Eu estava ficando muito boa nisso.
  - %Paulinha% disse que achava que ele não ia. - Tentei não gaguejar. Eu havia visto %Danny% apenas uma vez depois do que aconteceu. Foi de relance, quando eu cheguei na casa do %Tom% e ele estava lá. No instante que ele me notou, pegou suas coisas e saiu, como se ficar perto de mim fosse algo insuportável.
  Tentei imaginar como é que chagamos à isso, mas no fim, eu já sabia a resposta.
  - Todo mundo achava que ele não ia, e eu acho que é por isso que ele vai. - Eu coloquei outra colher de sorvete na boca, tentando acalmar meu coração idiota. - Parece que ele quer provar que as coisas entre vocês acabaram, quer dizer... - Ele hesitou e eu senti o chocolate derreter em minha boca, o frio deixando minha língua dormente – Acho que ele quer mostrar que te superou, que não se abala com sua presença. Que não sente mais nada por você.
  - Bom, isso é ótimo, porque eu também não sinto mais nada por ele! - %Tom% pegou o pote de sorvete de minhas mãos, que eu nem havia percebido que apertava tanto que ele estava quase arrebentando o plástico. Depois, ele voltou com uma toalha de papel e limpou meus dedos sujos de sorvete.
  - Será mesmo? - Eu apenas bufei sem encará-lo. - Será mesmo que o melhor era vocês dois estarem desse jeito?
  - Sim. Eu estou bem do jeito que estou e, pelo que parece, ele também está. Tudo está ótimo! - %Tom% embolou o papel melado de sorvete e o jogou em cima da mesa de centro. Depois ele me abraçou me deixando enterrar o rosto em seu peito.
  Só percebi que estava chorando quando um soluço escapou por meus lábios e %Tom% me apertou ainda mais em seus braços dizendo que tudo ficaria bem.
  Mas não ficaria, eu sabia disso. Não sem %Danny%.
  - Eu vou esquecê-lo um dia %Tom%. - Minha voz saiu abafada de encontro ao seu peito. Sua mão fez um cafuné em meus cabelos. - Eu vou me apaixonar de novo, eu vou encontrar alguém. Não existe ninguém que não possa ser esquecido. Não existe amor que não possa ser apagado. É só uma questão de tempo. - Funguei e %Tom% puxou meu rosto para que eu pudesse encarar seus olhos.
  - Não tenho tanta certeza, mas eu espero que sim. Pelo seu bem e pelo o dele. - Eu voltei a enterrar meu rosto em seu peito. A blusa já encharcada com minhas lágrimas. - Eu só quero que você e o %Danny% sejam felizes, estando juntos ou não.

  Vivian POV.
  Estacionei o carro na esquina onde havíamos combinado, encarei o vulto negro se desencostar do muro de um prédio desgastado como todos os outros daquele bairro nojento. Ele se aproximou do carro e eu abaixei o vidro da janela apenas alguns centímetros.
  - Trouxe o pacote? - Ele concordou com a cabeça, passando pela janela uma sacola de papel pequena. Peguei-a e abri, vendo que dentro havia o pequeno pote transparente com o pó de cor caramelo e marrom.
  Abri um pequeno sorriso enquanto guardava o pacote no porta-luvas do carro. De dentro, peguei um envelope de papel pardo e o passei pela janela do carro. O homem conferiu o conteúdo e sorriu, os dentes pretos e falhados em algumas áreas. Desviei o olhar para não vomitar.
  - Tudo certo! - Ele disse e eu já comecei a fechar a janelo do carro quando sua mão interrompeu. - Cuidado com essa coisa! Se você usar demais, pode matar uma pessoa. - Ele avisou, mas eu acho que já sabia qual era minha intenção com aquilo. Eu concordei com a cabeça e um olhar frio e o cara se afastou do carro.
  Subi o vidro e arranquei com o carro dando uma gargalhada de satisfação.
  Em poucas horas, a vadia estaria morta.
  End POV.

  Sábado, 1º de Dezembro de 2012.

  Caos.
  Eu estava olhando para uma versão bem maluca do fim do mundo, só pode!
  Haviam tantos alunos correndo e gritando, todos querendo falar mais alto que os outros. Muitos se vestindo pelos corredores, ensaiando de última hora, decorando falas.
  %AnaPaula% foi encontrar com o grupo de dança e organizar tudo, mas eu tinha que achar antes a equipe de teatro, já que a apresentação de piano seria primeiro que as de dança.
  - %Samara%! Aqui está você! - Bella apareceu do nada segurando nos braços o que pareciam fantasias do teatro. - Vamos! Eu estou com o seu vestido. - Ela sorriu e eu a acompanhei. - Eu ainda tenho que achar tantas outras pessoas! - Bella continuou tagarelando sem parar e eu apenas acenava quando ela me encarava, tentando não ficar maluca com toda aquela bagunça.
  Nunca pensei que uma apresentação pudesse causar todo aquele efeito nos alunos.   Bella me empurrou para uma sala onde haviam mais umas trinta meninas se vestindo e maquiando, o barulho da conversa delas era ainda mais ensurdecedor do que lá fora. Bella jogou um vestido em meus braços e saiu dizendo algo como ter que encontrar mais mil garotas naquela loucura.
  Eu neguei com a cabeça e sorri ao reconhecer meu vestido de época, parte do teatro de Romeu e Julieta.
  Fui para um canto e comecei a me vestir, olhando ao redor de vez em quando e reconhecendo algumas das pessoas com quem ensaiei minha cena. Praticamente todas faziam parte da orquestra que tocaria na cena do baile da família de Julieta e meu solo no piano seria no momento em que ela encontraria Romeu.
  Nada mais romântico.
  É claro que agora aquela cena me parecia totalmente inconveniente pra minha atual situação. Tudo o que eu queria era me livrar de tudo o que fosse romântico.
  Se eu tivesse aceitado o papel para tocar quando Julieta descobre que Romeu tomou o veneno e morreu, por imaginar que ela estava morta, seria praticamente justificado quando eu começasse a chorar porque a melodia seria bastante triste, mas eu teria que ser forte para não chorar ao ver os dois se encontrando, totalmente apaixonados, donos de um amor mais forte que tudo, mais forte do que todas as dificuldades que apareciam simplesmente por eles serem de famílias rivais, de mundos diferentes.
  Tive que pedir ajuda a uma das meninas para amarrar os laços do meu vestido, o que ela fez, apertando tanto o corpete que eu imaginei que poderia morrer sufocada.
  Ainda bem que depois de um tempo meu corpo acostumou com o aperto e voltou a respirar.
  Corri para me maquiar e escutei algumas meninas gritando e avisando que o festival seria anunciado naquele instante, e consequentemente, o teatro de Romeu e Julieta em seguida.

  %AnaPaula% POV.
  Olhei pela multidão procurando pelas cadeiras que eu havia reservado para os meninos e percebi que elas estavam ocupadas. Eles haviam chegado!
  Percebi que muitas pessoas encaravam eles, reconhecendo-os. Eles sorriam e pousavam para algumas fotos sem se levantar das cadeiras. Sorte que a maioria da plateia eram pais de alunos. Se fossem os alunos eu nem sei o que poderia acontecer com eles.
  %Dougie% me viu aproximar e sorriu pra mim. Eu acenei e logo vi o olhar dos outros em minha direção. Rafa, %Harry%, %Danny% e %Tom% acenaram também.
  - Hey gente! - Cumprimentei todos com um beijo no rosto. Dei um selinho em %Dougie% por último, bem ciente de que estávamos no meio de muita gente. - Gostaram do lugar?
  - É ótimo bêe! - Os outros também concordaram. - Cadê a %Saáh%?
  - Ela vai se apresentar agora com a equipe de teatro. Deve estar se arrumando!
  - E a sua apresentação? - Rafa perguntou com empolgação.
  - Vai ser uma das últimas apresentações.
  - Você vai assistir o teatro com a gente? - %Dougie% perguntou me abraçando pela cintura. Eu neguei com a cabeça.
  - Não dá bêe. Aqui nas cadeiras é só para convidados. Os alunos vão assistir sentados no chão ali na frente. - Apontei para o palco. - Ou dos bastidores. - Dei de ombros. - Eu só vim ver se vocês estavam confortáveis. Eu tenho que ir, porque eu sou a organizadora do show. - Dei uma piscadela dando uma volta e apontando para a minha blusa preta escrita “Organização” em cima e nas costas e “Grupo Street Dance” no meio e na frente da blusa.
  - Se você ver a %Saáh%, manda um boa sorte pra ela! - %Tom% gritou e eu concordei com a cabeça dando um selinho no %Dougie%.
  - Eu tenho que ir. - Ele me soltou e concordou com a cabeça.
  - Boa sorte! - Disse com um sorriso lindo que iluminou o meu dia. Agradeci e saí correndo bem na hora que as luzes do auditório se apagaram e o diretor apareceu no palco, apenas um holofote sobre sua cabeça. Ele ia anunciar o festival.
  End POV.

  A cortina se fechou e eu senti minhas mãos tremerem quando Jared se aproximou de mim com seu sorriso encantador. Eu sabia que estava na hora.
  Ele me guiou até meu lugar ao piano e eu me sentei. Olhei ao redor e vi a orquestra sendo formada com os outros alunos de música, a orquestra que me acompanharia.
  Acho que comecei a entrar em pânico porque Jared pegou minhas mãos e apertou.
  - Você está bem? - Eu tentei concordar, mas não consegui. - Não se preocupe %Saáh%, imagine que você está tocando pra alguém que goste, apenas você e a pessoa. Se concentre nas teclas e sinta a música. - Eu comecei a relaxar pensando em %AnaPaula%, em %Dougie%, %Harry% e %Tom% na plateia. Em Kalissa e %AnaLuisa% que adorariam estar aqui e ver isso. Sorri para Jared que retribuiu se afastando.
  Tentei não pensar na outra pessoa que estava na plateia enquanto a cena se desenrolava em frente à cortina.
  Depois de poucos minutos, eu escutei a minha deixa, o sinal de Jared que era hora de eu começar a tocar. Movi meus dedos lentamente pelas teclas, começando a Fantasy Overture. Os alunos de teatro começaram se mover, dançando em pares, representando a festa da casa dos Capulettos. Alguns fingiam uma conversa e eu continuei tocando, tentando esquecer que a cortina estava indo subir naquele instante.
  Fechei meus olhos e me concentrei na melodia. Depositei nela todo o amor que eu pude encontrar, deixei que ele me guiasse e me esqueci completamente onde estava.
  Só existíamos eu e o piano. E talvez alguém mais que só existiria agora na minha mente e no meu coração.
  A orquestra me acompanhou no que seria a ponte da música e a combinação me fez sorrir. O som parecia mágico e eu podia apostar que estava enchendo de emoções as pessoas da plateia. Fiquei muito mais calma porque agora eu sabia que não estava sozinha ali, não era apenas eu tocando.
  Meus dedos deslizaram pelas teclas finalizando a música e fechando a cena da dança entre Romeu e Julieta. Virei meu rosto para a plateia e meus olhos encontraram diretamente com um par de olhos azuis. Meu coração acelerou ao vê-lo ali. No fundo eu tinha esperanças que ele não aparecesse, mas lá estava ele, olhando pra mim.
  A cortina se fechou em nossa frente assim que Romeu e Julieta se separaram, finalizando aquele ato. Eu pisquei algumas vezes ao escutar as palmas. Vi que os alunos já saíam rapidamente do palco enquanto outros ajeitavam os objetos da próxima cena. Eu balancei minha cabeça, espantando %Daniel% de minha mente, e me levantei.
  A minha parte no piano tinha acabado, agora é a dança.

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  Os duetos musicais haviam acabado, e o coral tinha sido apresentado pelo diretor naquele instante, o que significava que era hora do nosso grupo parar de ver as apresentações e ir nos arrumar.
  %AnaPaula% e Loise nos levaram para uma sala onde nossas coisas estavam guardadas. As duas tinham arranjado uma bem grande, com espaço suficiente pra gente poder ensaiar uma última vez.
  Os meninos trocaram de roupa primeiro e depois saíram pra gente poder trocar de roupa também. Eu tive que ter ajuda das meninas já que eu teria que usar uma roupa por cima da outra. Lá estava eu com aquele vestido indecente pelo tamanho, mas apertado até minha cintura e formava uma saia rodada e por baixo, um short colado e um top. As outras meninas também estavam com o mesmo short por baixo de suas saias rodadas, mas as blusas delas eram diferentes e coloridas. Eu era a única de vestido porque era a Party Girl.
  Assim que acabamos, %Paulinha% os fez voltar pra sala. Resolvemos ensaiar utilizando o meu celular tocando Party Girl para que pudéssemos acompanhar. Não erramos nem um passo sequer. A gente tinha ensaiado muito no último mês e eu tinha certeza que nossa apresentação seria perfeita.
  As meninas foram retocar a maquiagem e ajeitar os cabelos enquanto os meninos iam ver se a apresentação de dança já estava indo começar. O nosso grupo seria o penúltimo a se apresentar então daria pra gente ver a apresentação dos outros pela lateral do palco.
  Em alguns minutos Carlos retornou dizendo que a apresentação iria começar. Alice e Jessika, continuaram na sala, pois ainda precisavam terminar de se arrumar, mas encontrariam com a gente em alguns minutos.
  Corremos pra conseguir algum espaço na lateral direita do palco e escutei a melodia que me lembrava tanto de casa, Samba! O primeiro grupo já estava se apresentado.

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  N.A. (Coloque pra tocar Party Girl – McFLY)

  Minhas mãos tremeram um pouco. Olhei para o outro lado do palco onde os meninos estavam e meu olhar encontrou com o de Carlos. Ele parecia tão nervoso como eu, mas seu sorriso me tranquilizou como sempre. Eu sorri de volta e respirei fundo depois que o diretor saiu do palco após ter nos apresentado. As luzes do palco se apagaram e eu fechei meus olhos.
  Now let's party!
  A música iniciou e os meninos entraram no palco junto com as meninas, ficaram apenas eu e Carlos ainda no lugar. Vi ele começarem com os passos e comecei a me mover, acompanhando a música e me preparando para a minha parte. Carlos entrou quando a primeira estrofe começou a ser cantada. Ele andou bem confiante, como tínhamos ensaiado e os casais começaram a se juntar, dançando como se estivessem em uma festa, com passos ensaiados.
  Chegou a minha vez.
  Eu respirei fundo e comecei a andar confiante também, com um sorriso que eu imaginava ser sensual. Tentei ignorar a multidão logo a minha frente e me concentrei em Carlos. Ele sorriu ao me ver, como se estivesse impressionado. Eu me desviei dele como se estivesse o esnobando e comecei a dançar sozinha.
  As meninas repararam nisso e vieram para o meu lado, abandonando seus pares, mostrando que eram tão independentes quanto eu. Os meninos se juntaram ao nosso redor, parecendo indignados e nos começamos nossos passos ensaiados e ordenados. Nós meninas, sensualmente, como se estivéssemos provocando os rapazes.
  Na segunda parte da música, os rapazes foram tentar recapturar seus pares, voltando a fazer seus passos ordenados. Na frente, ficaram eu e Carlos. Eu resistindo a todas as suas investidas de dançar comigo, transformando tudo em uma coreografia de vai e volta cheio de pernas e cabelos jogados para o lado. Quando o refrão voltou eu dei um “chega pra lá” em Carlos e corri para a lateral esquerda do palco comandando as meninas para o meu lado que também deram um “chega pra lá” em seus pares.
  Carlos também juntou seus companheiros do lado oposto ao nosso. Ficamos cada um na frente de seu respectivo par, e lá estava eu encarando Carlos. Eu e as meninas começamos com nossos passos ordenados, provocando os meninos.
  Eles responderam com mais passos ordenados, dando continuação à disputa de sexos.
  Quando o refrão finalizou, veio a parte que me deixava mais nervosa. Meu pequeno solo.
  Nós todos corremos para o final do palco e a cortina branca e fina caiu, tampando a gente e a luz de todo o palco se apagou. Os meninos correram para o lado direito do palco e começaram a trocar suas roupas. As meninas correram para o lado esquerdo e fizeram o mesmo. Avistei %Paulinha% com minha jaqueta nas mãos, e ela jogou a mesma, que caiu aos meus pés. Fiquei de costas para o palco no mesmo segundo que a luz começou a piscar na minha frente, e eu sabia que o efeito estava sendo a sombra do meu corpo na cortina branca.
  Esquecendo a vergonha, comecei a rebolar e retirar meu vestido que abria com apenas um puxão por causa dele ser preso de cima a baixo por “carrapichos”. Escutei gritos e palmas da plateia e me animei.
  Ainda rebolando eu joguei o vestido para o lado, deixando-o cair perto de %AnaPaula%, que o pegou imediatamente. Joguei meus cabelos para o lado e me abaixei sensualmente pra pegar a jaqueta. Subi com meu bumbum empinado e coloquei a jaqueta no momento certo que o toque acabou e a cortina caiu no chão rapidamente e a luz se acendeu totalmente dessa vez.
  Permaneci de costas por mais um segundo até o refrão voltar a ser cantado e eu me virar, jogando meu braço direito ao ar e minha cabeça olhar para o teto. No outro segundo eu voltei e comecei a fazer meus passos ordenados.
  Depois de alguns, as meninas se juntaram a mim, aparecendo do meu lado esquerdo. Eu permaneci mais a frente, mas sabia que elas dançavam atrás de mim quando eu dei uma olhada por sobre o meu ombro.
  Mais alguns passos depois e os meninos apareceram, acompanhando nossos passos igualmente. Carlos foi para o meu lado na frente e eu sorri pra ele.
  Quando o refrão repetiu nós começamos a dançar em pares. Já nos finalzinho da música teve o grande final, Eric e Nicky começaram a fazer suas acrobacias. Leques rondados precedidos de mortais de costas que arrancaram muitos gritos da plateia. Nós continuamos com nossos passos enquanto eles faziam isso na frente do palco.
  Depois que acabaram eles voltaram para seus lugares ao lados das meninas e fizemos mais alguns passos antes de Carlos me pegar no colo e inclinar minha cabeça para o chão, seu rosto centímetros do meus, minha perna direita bem esticada para o alto e minha mão agarrando seu cabelo, formando a nossa pose final.
  A música acabou e o auditório explodiu em palmas.
  Nós permanecemos naquela posição por mais uns segundos antes de ficarmos de pé. Unimos nossas mãos com o resto do grupo formando uma corrente e abaixamos a cabeça e o tronco em sincronia, como sinal de agradecimento.
  As luzes do palco se apagaram e nós corremos para fora dele pelas laterais. O diretor voltou para o palco para apresentar o último número de dança, mas eu não estava prestando atenção. Eu e o pessoal estávamos mais preocupados em gritar e nos abraçar.
  Graças a Deus, tudo foi perfeito!

  %Danny% POV.
  - Olha elas ali! - Segui com o olhar a direção que %Tom% apontava. %Samara% e %AnaPaula% saiam de uma porta juntas das outras pessoas do grupo. Desviei meu olhar rapidamente quando percebi que ela vinha andando abraçada com o cara que dançou com ela.
  Meu sangue ferveu de ódio e minhas mãos se fecharam em punhos. %Dougie% me viu e veio para o meu lado, recebi um pequeno soco no braço e bufei em resposta.
  - Ciúmes? - Eu revirei meus olhos, mas fiquei ainda mais irado. – Por que você não acaba com isso? Fala com ela %Danny%. - Ele sorriu pra mim e se afastou, quando %Paulinha% e %Samara% se afastaram do grupo e vieram pra perto da gente.
  Recebi um beijo no rosto de %AnaPaula% e acabei esquecendo parte do meu ódio, afinal aquele momento era delas, não vou ser eu que estragarei isso.
  - Você deveria ter dançado também! - Comentei com ela que sorriu, negando com a cabeça.
  - Eu sou mais útil na organização. Do jeito que eu sou desastrada teria ferrado com toda a apresentação! - Eu gargalhei. Ela se virou para dar atenção ao namorado e eu dei de cara com %Samara%.
  Ela não estava sorrindo. Quando ela viu que eu estava a encarando, desviou o olhar, mas eu continuei a vê-la. Mesmo tentando me ignorar, ela não conseguia. Seu olhar sempre se levantava para ver se eu ainda estava a encarando e se desviava imediatamente.
  - %Paulinha%, a gente tem que ir! - Ela disse sem olhar em minha direção. - O pessoal tá esperando! - Ela apontou para a saída do auditório onde o grupo delas estava parado na frente da porta. As pessoas do auditório já tinham praticamente acabado e eu nem havia percebido.
  - Ir onde? - %Dougie% perguntou.
  - A gente vai comemorar. Comer alguma coisa, ou ir na Starbucks. - Ela explicou dando de ombros.
  - Nós ainda não resolvemos pra onde ir, mas se vocês quiserem ir... - %Samara% deixou vago, olhando diretamente para %Harry% e Rafa.
  - Não! Tudo bem! - %Harry% comentou olhando pra gente. - Nós podemos comemorar mais tarde, que tal? - %Samara% pareceu aliviada e chegou a sorrir quando concordou com a cabeça.
  - Pizza e sorvete? - %Tom% concordou com a cabeça ao pedido dela. – Promete, Pooh? - Ele a abraçou gargalhando.
  - Claro que sim Leitão! - Ele beijou sua testa e se afastou.
  - Então vamos %Saáh%! - %Paulinha% despediu de %Dougie% e puxou a amiga pelo braço.
  Vi as duas se afastarem a passos largos. %Samara% virou seu rosto e eu peguei seu olhar. Ela logo voltou a olhar pra frente. Comecei a andar rápido, quase correndo e só percebi isso quando já estava na frente delas novamente.
  - %Samara%! - Chamei. Ela deu meia-volta e me encarou surpresa. %AnaPaula% deu um sorriso e se afastou indo até seus amigos. Eu me aproximei mais de %Samara%. Ela não disse nada e eu sabia que não diria mesmo, não depois de tudo o que aconteceu. - Você estava incrível.
  - Obrigada. - Ela agradeceu e eu percebi um pequeno sorriso surgindo na lateral de seus lábios.
  - Eu acho que nós precisamos conversar. - Ela franziu a testa.
  - Sobre o quê? - Eu respirei fundo, mas fui interrompido quando o Carlos apareceu. E eu quase avancei nele quando o vi abraçar %Samara% por trás e ela virou assustada, mas sorriu abertamente quando viu que era ele.
  - Vamos %Saáh%? - Minha mão coçava pra acabar com a raça daquele sujeito folgado. %Samara% deu uma olhada em mim. O desgraçado pareceu perceber minha presença só naquele instante. - Ah! Eu atrapalhei alguma coisa? - Ele fez questão de depositar seu queixo no ombro da %Samara%. Eu tive ainda mais vontade de quebrar em milhões de pedaços aquele rosto.
  - Não Carlos. Eu já vou! - Ela disse e ele concordou. Deu uma última olhada em mim e eu encarei com fúria, saindo de perto da gente depois. - O que você estava dizendo? - Ela mexeu no cabelo, demonstrando seu súbito nervosismo. Provavelmente está com medo de o namoradinho brigar com ela.
  - Nada. Pode ir atrás do seu namoradinho! - Quase gritei. Dei meia-volta e me afastei, sem nem ao menos olhar pra trás. Só mesmo se eu fosse burro pra pensar em resolver tudo, em voltar com uma garota como essa!
  Ela nunca me amou de verdade! O que ela disse antes não foi nada pra ela, já que ela está se agarrando com o cara que causou nossa separação.
  Eu sou mesmo um grande idiota por ter me apaixonado por ela.
  End POV.

  Vivian POV.
  Consertei-me no banco do carro quando consegui avistar as duas putas brasileiras saindo do auditório. Arregalei meus olhos quando vi %Danny% indo atrás delas. Mordi meu lábio com força até sentir gosto de sangue quando vi os dois conversando, mas consegui me controlar ao lembrar que em poucas horas aquela vadia não existiria mais.
  %Danny% seria meu de novo.
  Um rapaz apareceu e abraçou a vadia por trás. Encarei %Danny% rapidamente pra conseguir pegar sua reação e eu percebi que ele havia ficando muito irado. Suas mãos fechadas em punho e seu rosto fechado indicavam bem isso. Ele sempre tinha aquela expressão quando ficava com ciúmes de mim e eu rugi com ódio.
  O rapaz se afastou e eles voltaram a conversar, mas por pouco tempo. %Danny% disse algo com raiva e saiu de perto dela. A puta ficou parada vendo ele se afastar por alguns segundos, para depois dar meia volta e ir pra perto de um grupo de pessoas.
  Segui cada passo dela, aguardando o que ela faria a seguir.
  Ela entrou em um carro com a outra puta brasileira e mais alguns amigos e eu liguei o meu carro me preparando pra segui-los. Depois de andar alguns minutos o carro parou no restaurante The Curtains Up. Eu sorri ao vê-los descendo e indo pra dentro do local.
  Ali seria muito fácil eu conseguir colocar o veneno na comida dela, eu só tenho que prestar bastante atenção pra saber o que ela vai pedir.
  End POV.

  - O suco de laranja é de quem? - O garçom perguntou erguendo o copo. Melissa acenou indicando que era o pedido dela. - Certo! Aqui tem um de maracujá! - Ele pegou outro copo e dessa vez eu acenei com a mão.
  Peguei o copo do garçom e percebi que ele era muito grande. Depois da cena de ciúmes de %Danny%, não havia mais nada na minha cabeça, nem mesmo lugar pra pensar em comida. Se eu estou achando ruim de um copo de suco, não quero nem ver o pedido quando chegar!
  Dei um gole no suco enquanto o garçom servia o refrigerante para o restante do pessoal. Dei uma olhada em Mel e Carlos que estavam lado a lado em minha frente na mesa. Carlos pegou meu olhar e eu fiz sinal com as sobrancelhas para que ele conversasse com a Mel. Ele arregalou os olhos como se dissesse “Conversar o quê?”, mas acabou cedendo quando viu minha carranca.
  Dei uma olhada no ambiente e vi o garçom retornar, agora com a nossa comida. Meu estômago revirou com a ideia de ter que comer e eu sabia que seria obrigada a isso por %AnaPaula%.
  O garçom começou a servir os pratos, um a um, e eu comecei a rezar mentalmente pra que ele se esquece de servir o meu, mas era óbvio que isso não iria acontecer!
  Fiz uma careta para a comida, por mais que eu estivesse louca pra experimentar os pratos daquele lugar. Recebi um empurrão de ombros e encarei a %Paulinha%. Ela já estava mastigando e eu tentei disfarçar tomando mais um pouco do suco de maracujá, que por sinal estava muito bom e tinha um sabor diferente. Eu teria que perguntar o garçom depois se eles colocavam mais alguma coisa com o maracujá.
  - Não vai comer? - Ela me perguntou assim que engoliu sua comida. Eu continuei bebendo o suco pra evitar responder. %Paulinha% pareceu notar. - Você vai comer nem que seja um pouco %Saáh%! - Me repreendeu. Eu soltei um suspiro depois de engolir mais um gole do suco.
  - Perdi a fome.
  - Isso não teria nada a ver com a breve conversa de você e o %Danny%, teria? - Eu não a encarei quando tentei negar. Era impressionante como a %AnaPaula% me conhecia. Eu fico imaginando que eu talvez fosse um livro aberto, mas escrito em uma língua que apenas a %Paulinha% e o %Tom% conseguiam decifrar. Ou então, eu devo ter um código que só os meus melhores amigos de verdade conseguem acessar pra poder me conhecer tão bem.
  - Eu to tentando seguir em frente como ele disse que era pra eu fazer, e o que ele faz? Chega até mim dizendo que a gente precisa conversar e depois dá um pequeno ataque de ciúmes! - Desabafei em voz baixa. - Eu realmente não entendo aquele homem! - %AnaPaula% soltou uma risada.
  - Imagino que ele também não entenda nada quando o assunto é vocês dois. - Ela comentou também em voz baixa e eu concordei com a cabeça, bebendo mais um pouco do meu suco. - Ele está confuso %Saáh% e você também. Vocês parecem sempre tentar resolver tudo com uma briga! E nós bem sabemos que as brigas de vocês sempre acabam em merda! - Nós gargalhamos baixo. - Eu acho que vocês precisam conversar sim, mas de maneira civilizada. É a única forma de resolverem isso de verdade. - Eu concordei com a cabeça. - Agora come, nem que seja um pouco! - Ela apontou em minha direção e eu fiz uma careta pra ela.
  Olhei para o meu prato e respirei fundo. Se eu ignorar a ordem de %Paulinha% posso acabar causando um grande escândalo no restaurante. Nem quero pensar nessa possibilidade!
  %Paulinha% muitas vezes age como se fosse minha mãe, é impressionante!
  Consegui colocar algumas garfadas pra dentro, mas nada mais. Meu estômago deu voltas e eu me senti enjoada, e minha cabeça começou a doer. Merda de %Jones%, culpado pela minha onda de mal estar.
  Tomei mais uns goles do suco, mas isso só piorou a situação. Larguei o copo na metade e a comida quase intacta. %Paulinha% fez cara feia pra mim, mas eu nem me importei. Minha cabeça estava explodindo.
  - Que foi? - Ela perguntou depois de um tempo. Eu levei minha mão direita até minha testa e massageei o local, um bom remédio pra aliviar a dor.
  Não melhorou.
  - Dor de cabeça. - Eu respondi baixo e senti uma pontada na lateral de minha cabeça.
  - De que tipo de dor de cabeça? - Ela perguntou com a mão no meu ombro.
  - Do tipo insuportável. - Ela soltou um assovio e eu só me encolhi com o barulho. - Acho que eu vou pra casa. - %Paulinha% concordou quando eu a encarei. Ela sabia que quando o grau de dor de cabeça era o “insuportável” não havia nada que eu quisesse fazer ao invés de dormir por algumas horas.
  - Eu vou com você! - Eu neguei com a cabeça.
  - Nós estamos perto de casa, eu posso ir sozinha! - Ela já estava pronta pra protestar quando foi interrompida.
  - Que foi meninas? - Tiffany perguntou do meu outro lado chamando a atenção de todos na mesa que ainda comiam.
  - A %Saáh% não tá se sentindo bem e quer ir embora sozinha, não quer que eu vá com ela! - Respirei fundo sentindo mais uma pontada explodir meu crânio.
  - Eu posso ir andando. - Falei bem devagar. Me mexer um milímetro estava acabando com minha cabeça, mas eu não podia deixar a %Paulinha% perceber se não ela jamais vai me deixar sair dali sozinha e eu vou acabar ferrando com o jantar de todo mundo.
  - Eu te levo lá. - Carlos falou já se levantando. - Vamos! - Ele nem ao menos me deu uma escolha. Também não tinha mais vontade de reclamar. Eu só precisava muito da minha cama.

#

  - Valeu Carlos, não precisava se incomodar. - Ele sorriu e deu de ombros.
  - Você tá bem? - Perguntou preocupado.
  - Eu só preciso da minha cama. - Tentei sorrir, mas tudo doeu. - Diz pra %Paulinha% pra ela me acordar quando chegar. - Ele concordou com a cabeça e eu abri a porta de casa.
  - %Saáh%? - Escutei atrás de mim e voltei a olhá-lo. - Eu sei o que você tá fazendo. - Eu aguardei por não ter entendido. - Com a Melissa. - Eu fiz um 'Ah', em resposta e sorri. - Eu to ficando sem graça de ficar sendo deixado do lado dela toda hora, sabia? - Se minha cabeça não estivesse doendo tanto eu poderia até gargalhar.
  - Vocês deviam conversar mais. - Eu disse pra esclarecer. - Porque você não leva ela pra o cinema Carlos? Sabe, vocês só se encontram quando estão cercados do pessoal, nunca ficaram realmente sozinhos pra se conhecerem melhor. - Dei de ombros. - Segue o meu conselho e leva ela para o cinema, você não vai se arrepender.
  - Como você sabe? - Ele parecia brincalhão, cruzando os braços perto do peito.
  - Dons naturais da cupida aqui! - Ele gargalhou e eu sorri. - Volta pra ela, vai! - Ele negou com a cabeça e se aproximou, depositando um beijo em meu rosto. - Tchau! - Ele se afastou e acenou com a mão, indo embora.
  Entrei em casa ás pressas, louca pra capotar na cama.

  %Paulinha% POV.
  A casa estava silenciosa, sinal de que a %Saáh% ainda dormia. Fui até seu quarto para acordá-la como ela me pediu, afinal os meninos chegariam em uma hora pra poder comemorar com a gente.
  Vi ela enrolada na cama por seu edredom. Cheguei perto de seu corpo e a balancei pelos ombros. %Samara% nem ao menos se mexeu. Balancei mais um vez, mas não houve qualquer sinal dela acordar.
  - %Saáh%? – Perguntei alto, tocando em seu rosto. Minha mão se afastou automaticamente ao sentir a temperatura da pele dela. Franzi minha testa pensando ser apenas impressão minha. Ela não pode estar tão quente assim.
  Toquei sua testa com cuidado e me assustei com a temperatura elevada que senti. Ela deveria estar com pelo menos uns 38 graus de febre.
  - %Samara%, acorda! – Balancei seu corpo com mais desespero e fiquei ainda pior ao ver que não ocorreu qualquer reação nela.
  Saí correndo do quarto indo até o banheiro pegar a maleta de primeiros socorros. Procurei o termômetro e o peguei, correndo de volta para o quarto de %Saáh%, rezando pra que ela tivesse acordado.
  Quase gritei de agonia ao vê-la ainda imóvel na cama. Puxei seu edredom até seus pés, deixando-a toda descoberta. Coloquei o termômetro em baixo do seu braço direito e aguardei. Depois de alguns minutos, escutei o apito indicando que a medição havia acabado. Peguei o termômetro e deixei ele cair no chão imediatamente, minha reação ao número que eu vi.
  Comecei a chorar em desespero e corri para o telefone, discando o número do %Dougie%.

  %Dougie% POV.
  Escutei meu celular tocar em cima do sofá. Sorri ao ver que era meu bêe me ligando.
  - Oi bêe! – Escutei voz de choro do outro lado da linha e franzi a testa. – %AnaPaula%?
  - %Dougie%, é a %Samara%! – Ela respondeu quase gritando. – Ela não acorda!
  - Bêe, fica mais calma! – Tentei fazer ela parar de chorar pra eu conseguir entender o que ela estava dizendo. – Você disse que era alguma coisa com a %Saáh%? Como assim? – Escutei ela respirando fundo.
  - A %Samara% começou a não se sentir bem no restaurante e veio embora com o Carlos, isso já faz uma hora. Ai eu cheguei em casa agora e fui acordar ela e ela não acordava mesmo eu sacudindo ela e tudo o mais. E eu toquei no rosto dela e senti que elaes tava muito quente, ai eu peguei o termômetro e medi a temperatura dela e deu que ela está com 40 graus e meio %Dougie%! – Ela disse tudo tão rápido que eu quase não consegui acompanhar.
  - Me escuta bêe! Se ela não está acordando e está com uma febre dessas a gente tem que levar ela para o hospital! Eu vou pegar o carro e chego aí em alguns minutos, ok? – Ela concordou com um barulho de sua boca. – Eu vou ligar e avisar o resto dos dudes e você continua tentando fazê-la acordar!
  - Tá bom! Não demora, por favor! – Ela choramingou.
  - Vou chegar rápido. Eu te amo! – Escutei um suspiro e sabia que ela tinha um pequeno sorriso naquele instante.
  - Eu também amo você %Poynter%. Agora vai! – E com isso ela desligou.
  Desliguei a ligação e comecei a discar o número do %Danny%. Ele e a %Samara% podem estar na merda que for naquele relacionamento, mas a última coisa que ele quer é ver ela doente. Eu bem me lembro como ele reagiu quando ela desmaiou!
  Ele tem que ser a primeira pessoa dos guys a saber. Tenho certeza que ele vai querer ir junto dela para o hospital.
  Escutei o toque da ligação chamando. Depois de três toques ele atendeu.
  - Fala %Poynter%! – Eu respirei fundo e fechei meus olhos.
  - %Danny%, é a %Saáh%.
  End POV.

  %Danny% POV.
  - A %Paulinha% acabou de me ligar e disse que ela está desacordada com febre de 40 graus. – Eu desabei na cama sentindo meu peito apertar em desespero. Não podia ser verdade. – Eu to indo até lá, levar ela para o hospital com a %Paulinha%. Só liguei pra avisar. – Eu fiquei sem fala por alguns minutos, minha cabeça apenas raciocinava a informação que havia acabado de receber. – %Danny%? – %Dougie% perguntou me tirando de meus pensamentos.
  - Eu vou com vocês. – Consegui dizer com a voz rouca.
  - Eu imaginei isso. – Ele respondeu. – Eu estou saindo de casa agora. Vou esperar você lá.
  - Certo. Chego em alguns minutos. – Deliguei o telefone e desci correndo as escadas. Peguei minha carteira e as chaves do carro e fechei o apartamento.
  Dirigi com um louco pelas ruas de Londres, quase perdendo a cabeça quando eu tive que parar nos sinais vermelhos. Eu olhava para o meu celular em cima do banco do passageiro a cada segundo, esperando uma notícia, qualquer que fosse.
  Quando finalmente estacionei na frente do prédio delas eu vi que o carro do %Dougie% ainda não estava lá. Sai do carro ás pressas e entrei no elevador tentando controlar meu desespero enquanto ele subia os andares, em menos de um minuto a porta de metal abriu.
  Andei rápido até a porta do apartamento delas e toquei a campainha. %AnaPaula% apareceu com os olhos vermelhos, segurando um pano em sua mão esquerda.
  - %Danny%! – Ela disse surpresa e eu me assustei quando ela se jogou em cima de mim e me abraçou. – Ainda bem que você tá aqui! – Ela choramingou em meu peito e eu a apertei no meu abraço.
  - Onde ela está? – Perguntei baixo, ainda esperando no meu interior que tudo aquilo não passava de uma brincadeira.
  %Paulinha% se afastou de mim e apontou para dentro da casa. Eu entrei e ela fechou a porta atrás de mim. Começou a andar em seguida e eu já sabia para onde. Segui ela até o quarto de %Samara% e entrei logo atrás no local. Ela estava deitada na cama vestida com um moletom do Ursinho Pooh laranja.
  %AnaPaula% foi até o banheiro do quarto dela e eu me aproximei da cama. Toquei sua bochecha vermelha e senti a alta temperatura. Mordi meu lábio inferior pra controlar a vontade de chorar por eu não poder fazer nada pra melhorar aquela febre.
  %Paulinha% apareceu em seguida com o pano molhado, dobrou o mesmo algumas vezes e depositou ele na testa dela.
  - Você sabe se o %Dougie% vai demorar? – Ela perguntou baixo, sentada ao lado de %Saáh%, passando o pano molhado por seu rosto e pescoço.
  - Ele disse que já estava saindo de casa antes de eu vir pra cá. Já deve estar chegando. – Ela concordou com a cabeça. E no mesmo momento a campainha tocou novamente. – Deve ser ele. – Eu disse.
  Ela se levantou e saiu pela porta. Eu voltei meu olhar pra %Samara% e me sentei ao lado dela. Peguei o pano que %Paulinha% deixou em sua testa e comecei a passar por seu rosto, imitando os movimentos de %AnaPaula%.
  - Amor? – Perguntei me aproximando de seu ouvido. – Acorda. – Observei seu rosto e fiquei frustrado por não ter nenhuma reação. – Por favor, não faz isso comigo. – Eu encostei meu rosto na curva de seu pescoço quente, se me importar com o calor queimando minha pele. – Eu sei que a gente brigou e eu sei que você disse que eu não precisava mais me preocupar com você, mas é impossível não fazer isso com você nesse estado! – Senti meus olhos queimarem com as lágrimas. – Briga comigo! Faz qualquer coisa, mas acorda! – Implorei novamente. Beijei seu pescoço, sua mandíbula, sua bochecha, sua testa. – Por favor. – Encarei aquelas pálpebras fechadas e fechei meus olhos com força.
  - %Danny%. – Virei meu rosto e encontrei %Paulinha% e %Dougie% na porta do quarto. – Vamos. Temos que leva-la para o hospital. – Eu concordei com a cabeça. – Eu vou descer e abrir o carro. Você a trás. – Eu concordei novamente e me levantei, para pegar %Samara% no colo. Depositei ela com cuidado em meus braços sentindo todo aquele calor emanando do corpo dela para o meu. Parecia o inferno em pessoa.
  Beijei a testa dela e apoiei seu rosto em meu peito.
  - Tudo bem amor, você vai ficar bem. – Repeti isso incansavelmente tentando convencer a mim mesmo.

#

  %Dougie% estava fazendo o cadastro da %Saáh% na recepção. %Paulinha% conversava com a enfermeira, explicando tudo o que aconteceu até a descoberta da febre da %Samara%. Outro enfermeiro trouxe uma maca e me pediu pra depositar a %Saáh% ali.
  Hesitei um momento, sem querer me desgrudar dela, mas não tive outra escolha se não fazê-lo. Ele começou a leva-la para a ala de exames e internação e eu acompanhei. A enfermeira que estava com a %Paulinha% apareceu ali, ajudando o outro rapaz a colocar os equipamentos nela.
  - Você precisa sair daqui. – A enfermeira me disse depois de perceber minha presença no local.
  - Não vou sair de perto dela. – Respondi cruzando meus braços e mostrando minha melhor cara de “não discuta comigo”. Ela deu de ombros e voltou pra perto da %Saáh%.
  O outro enfermeiro pegou uma prancheta e anotou as informações que apareceram no leitor que tinha sido conectado a ela. O mesmo que soltava os bips do batimento cardíaco da %Saáh%.   Eles cochichavam entre si algumas coisas médicas que eu não tinha conhecimento, coisas como sinais vitais e saturação.
  %Tom% e %Harry% apareceram, os rostos cheios de preocupação. A enfermeira os impediu de se aproximarem da maca e eu tive que ir até eles, meio a contra gosto, por não querer ficar longe de %Saáh%.
  - Como ela está? – %Tom% perguntou olhando para o local onde estava a maca dela.
  - Eu não sei, eles não me disseram nada ainda. – Falei com um tom de frustração em minha voz. %Paulinha% e %Dougie% apareceram acompanhados de um homem de cabelos grisalhos e jaleco branco, que acenou para eles e saiu, indo até onde %Samara% estava.
  - Quem é esse? – %Harry% apontou o homem.
  - É o Dr. Albert. Ele está indo dar uma olhada na %Saáh%. – Observei o local e vi o homem conversando com os enfermeiros.
  - Ele te disse alguma coisa? – Ela negou com a cabeça á minha pergunta.
  - Apenas disse que não pode confirmar muito sem os exames, mas falou que o caso dela é de risco por causa da febre alta. – Nós nos olhamos, assustados com o pensamento de que a situação da %Saáh% fosse tão grave.
  - Ela vai ficar bem. – %Dougie% disse tentando nos dar esperanças. – Não deve ser nada muito grave e...
  - Precisamos do desfibrilador aqui, agora! – Virei minha cabeça rapidamente e vi a enfermeira gritar para outros enfermeiros. Demorei apenas alguns segundos para perceber o que estava acontecendo quando vi o médico debruçado sobre a %Saáh%, fazendo o que parecia uma massagem cardíaca.
  Corri para a ala sem pensar duas vezes, o desespero tomando conta de todo o meu ser.
  Escutei o barulho da máquina ligada a %Saáh% e percebi que não era mais aquele bip e sim, um som contínuo. O mesmo som que eu havia escutado em várias ocasiões na televisão que indicavam parada cardíaca.
  Dois enfermeiros me empurraram para o lado e entraram com uma máquina empurrada por eles. Pararam perto da maca de %Saáh% e ligaram a mesma. O médico e o enfermeiro prepararam o mesmo e se aproximaram de %Saáh%, o doutor segurando o que pareciam dois ferros de passar na mão.
  Eu sabia o que era aquilo. Eles dariam choque na %Saáh%.
  - Afasta! – O médico gritou e o corpo de %Saáh% se elevou para o alto com o choque. Ele olhou para o leitor e viu que a linha contínua que marcava os batimentos do coração dela, continuava lá. O enfermeiro fez massagem cardíaca nela algumas vezes e o médico continuou olhando o leitor. Nada mudou. – Mais uma vez. – Ele disse para a enfermeira que controlava a máquina de choque. – Afasta! – Outra vez a linha contínua ainda estava lá. O enfermeiro fez massagem de novo, mas %Samara% não reagiu. – Aumente a carga! – o médico gritou e a enfermeira o obedeceu.
  Fechei meus olhos e rezei quando escutei o médico gritando “Afasta” pela terceira vez. Escutei o barulho da máquina não mudar e abri meus olhos vendo a expressão do médico desolar quando a massagem continuou sem fazer efeito.
  - O coração dela parou. – Ele disse largando as duas coisas da máquina de choque na mesma, se afastando da %Saáh%. Eu não aguentei escutar aquilo.
  Não.
  Ela não podia estar morta.
  - Não! – Corri até o médico e o segurei pelo jaleco, ele me olhou assustado e eu senti os enfermeiros me segurarem por trás. – Tente de novo! AGORA! – Gritei. Ele respirou fundo e concordou com a cabeça.
  Eu o soltei e me afastei apenas o suficiente pra que ele preparasse o desfibrilador novamente.
  - Aumente a carga mais uma vez. – Ele disse para a enfermeira que concordou. Me deu uma olhada antes de voltar a posicionar a máquina no corpo da %Samara%. Lágrimas escorriam pelo meu rosto sem controle.
  Eu sabia que aquela era a última chance.
  - Afasta! – Meus olhos estavam colados no monitor e eu solucei alto quando uma pequena elevação cortou aquela linha contínua e o bip voltou a aparecer. Depois disso uma grande movimentação aconteceu dos enfermeiros e do médico, mas a única coisa que eu conseguia observar era aquele monitor que mostrava que ela tinha voltado.
  Ela estava viva.
  Lágrimas de alívio se misturavam ás lágrimas de medo. E dentro de mim, eu sabia que a tempestade estava apenas começando.

Capítulo. 20
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