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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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White Devil

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

CAPÍTULO 02 • CHESHIRE’S SMILE

Tempo estimado de leitura: 46 minutos

LONDRES • AGORA.

  Orquídea. 00:30.

   — Filho da puta pau no cu do caralho! — Ela rosnou entre dentes, arremessando o aparelho celular contra a parede do banheiro, e então curvando-se para frente. Fechou os olhos com força, tentando controlar seu próprio temperamento, mas bem, aquela era uma luta que ela nunca havia se importado em sequer começar. Estalou seu pescoço tenso, curvando-se sobre o porcelanato encardido e fedendo a água sanitária, derivados de limpeza e urina que as mulheres da delegacia costumavam usar. O banheiro feminino no segundo andar era uma maneira discreta de estabelecer dominância para um bando de pau no cu bunda mole querendo pagar de machão. Mas a pior parte? Era que funcionava; oferecia a ela, igualmente, tempo para pensar sem ter que usar a maldita máscara de autocontrole. Merda, merda!
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  Ela exalou outra vez, tentando descomprimir o aperto em seu peito, sem obter sucesso. Os arrepios que percorreram seu corpo e os espasmos que começavam a se apoderar de suas mãos e ombros evidenciaram que a falta da droga estava começando a ser notada. Merda, porra, caralho! Acertou com força outra vez o espelho a sua frente, antes de endireitar-se apoiando as duas mãos em seus quadris. Que porra de situação ela havia se enfiado, huh? Seus olhos repousaram no aparelho quebrado no canto da porta, praguejando baixo. Que escolha tinha? Miguel estava fazendo aquele jogo com ela, e ela precisava da porra da droga para manter a cabeça no lugar — para manter Beatriz longe —, não havia outra forma de lidar com aquela situação se não fosse passando por Miguel. Estava fodida, uma compreensão simplória e clínica de sua situação; fodida para um caralho!
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  Abriu novamente a torneira do banheiro, unindo suas mãos abaixo da torneira e então jogou a água gelada em seu rosto, a sensação gélida assemelhando-se com um soco potente em seus sentidos, livrando-a do torpor crescente causado pelos resquícios da ressaca e o começo de sua abstinência, ainda assim, não resolveu em nada o ar febril que sua pele começava a exibir. Apoiou as duas mãos contra as laterais da pia de porcelanato decrépita e suja, engolindo em seco, e então encarando seu reflexo. O gosto amargo percorreu sua garganta, a bile subiu, e ela conseguiu sentir o refluxo subindo por sua garganta. Se ela tivesse comido algo naquela manhã, certamente já teria esvaziado seu estômago por completo a essa altura, ao em vez disso, cuspia apenas aquela maldita bile que voltava de seu estômago.
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  Estava uma merda, olheiras abaixo dos olhos, a pele mais pálida que o normal, com um aspecto doentio e quase sujo, o acúmulo de suor em suas têmporas, brilhando discretamente era indicativo necessário para que evidenciasse seu estado febril. Ótimo, como se ela já não fosse ter perguntas direcionadas ao seu estado. Os lábios ressecados, exibiam agora pequenos cortes causados por ela mesma, ao arrancar a pele e fazê-los sangrar. Dois pequenos cortes latejavam, ardendo como fogo nos canto esquerdo de sua boca, o gosto de sangue que outrora havia invadido sua boca, agora já havia secado, começando a formar uma casca de proteção. %Agatha% soltou um chiado entre dentes, desviando os olhos quase segundos após encarar-se no espelho, como se sua imagem queimasse, afastando-se da pia do banheiro, esfregando suas luvas, agora, molhadas, em seu rosto, tentando clarear seus pensamentos.
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  Resolveu focar no prático: parecer estável e controlada.
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  Mas ela não conseguiria fazer isso sem a porra da droga! Merda!
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  Isso não poderia estar acontecendo, como se ela precisasse de mais um problema enfiado no meio da sua… %Agatha% congelou no lugar, unindo as sobrancelhas. Não, espera, o que ela estava fazendo? Ir atrás de Miguel? Quando ela trabalhava na porra da delegacia? Tinha pelo menos uns três ratos de laboratório que eles prendiam por dia, e ela estando localizada estrategicamente no centro? Qual é? Quando ela se permitiu ser tão burra assim e se desesperar? Era melhor que isso, porra! Ela havia sido treinada para ser melhor que isso. O que ela precisava já estava ali, ela só precisava dar um jeito de pegar — e se havia algo em que ela era boa, era encontrar o que precisava.
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  Ajustou suas roupas, puxando um pouco mais para cima a gola alta de sua blusa preta, tomando cuidado para mantê-la o mais alto possível, onde a base e o corretivo ocultavam suas tatuagens e cicatrizes, antes de voltar sua atenção para seus antebraços. As marcas estavam ali, é claro, as cicatrizes que ela não conseguiria escapar mesmo se tentasse, mas foi a tatuagem elaborada com a víbora preta enroscada em uma cruz quebrada, que tomou seus olhos, os dizeres: “Memento Mori” cravados em sua pele, uma lembrança distante, porém amarga que ela estava tentando esquecer. Tencionou a mandíbula. Ela havia tentado cortar a pele fora logo quando chegara a Londres, era por isso que o topo da tatuagem revelava uma cicatriz grotesca de raspagem, mas a dor havia sido o suficiente para desorientar, que %Agatha% havia acabado por desistir, agora, ao observá-la, se arrependia de não ter ido até o final. Puxou com mais força do que necessário as mangas para baixo, tomando cuidado para não deixar nenhuma parte de sua pele exposta.
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  Não era a ideia de seus colegas de trabalho descobrindo sobre suas tatuagens que a incomodava, embora fosse o suficiente para colocá-la em perigo se estivesse considerando as gangue que marcaram sua pele ao longo dos anos; era a ideia de que qualquer um, a qualquer momento, poderia tocá-la sem que ela sequer pudesse impedir, que a fazia querer vomitar. Era a possibilidade de sentir a textura desconfortável de uma mão desconhecida, o pânico aterrorizante e quase enlouquecedor de não ter controle sob aquele toque, de estar vulnerável a suas intenções que a fazia tremer e contorcer-se em espasmos irregulares. Era o suficiente para começar a despertar a parte de sua mente que não queria lidar naquele momento, a parte de sua mente que precisava das drogas para manter sob controle. O monstro que ela havia alimentado por tanto tempo que, agora, tornava-se difícil saber diferenciá-lo; onde ele terminava, e onde ela começava? Ainda restava algo ali que fosse ela?
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  Exalou devagar, assentindo para si mesma, alçando o celular do chão e então saindo do banheiro feminino. O barulho contínuo na delegacia era um eco familiar, um ruído branco que ela havia aprendido a ignorar, apesar da constante paranoia. Veja bem, a ideia de estar no centro do perigo, correndo o risco de ser descoberta e presa — ou pior, localizada — era o suficiente para deixá-la no limite da ansiedade, mas ainda assim, era melhor estar infiltrada dentro daquele lugar, tomando cuidado e ciência do que acontecia ali, do que estar fora. Era prático, um mal necessário; era o que ela foi treinada para fazer. Mas forçar uma personalidade e um sorriso que não sentia vontade de expressar, era irritante. E naquele dia, sua máscara estava caindo mais rápido do que ela conseguia impedir-se.
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  Os olhos dela percorreram os rostos, alguns familiares, outros recentemente adicionados, buscando aquele tipo de olhar, aquele cinismo ou precisão ao localizá-la, buscando um reconhecimento que diferia do “ah, é a %Agatha% de novo” que havia se tornado um padrão ali. Buscando uma falha no status quo, mesmo que, muito provavelmente, fosse uma batalha perdida. Talvez, estivesse realmente começando a perder sua mente, talvez a paranoia estivesse espiralando fora de controle e não fosse demorar muito para que ela tivesse algum tipo de ataque psicótico, mas não se importava. Sabia dos riscos, do que estava em jogo, e não se deixaria acreditar que estava a salvo — ela nunca estaria.
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  Virou para a esquerda no corredor largo e cuidadosamente limpo, pálido, os murais com eventos pela cidade e a programação dentro do quartel se expunha firmemente na parede, havia também uma nota de Zhao reclamando sobre materiais do laboratório que estavam desaparecendo com frequência. Ela quase teria sorrido, com desprezo, da ideia de Zhao estar desconfortável com furtos ali dentro, se um panfleto adicional não tivesse chamado sua atenção. Haveria um comício político, parlamentares de extrema direita tentando tirar mais algum tipo de direitos ou coisa do tipo — %Agatha% conhecia a linha de pensamento, e nunca era sobre retirar direitos deles, só de qualquer outra pessoa que não fosse eles; patético. Não foi o discurso ou as promessas que chamaram a atenção dela, foi a fotografia.
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  Em frente ao palanque, ela reconhecia facilmente o semblante de Ziyad Karam, se passando perfeitamente como um parlamentar britânico nacionalista, sendo um imigrante; os traços eram familiares, o rosto oval com contornos bem acentuados e maçãs do rosto altas. Os olhos intensos e marcantes levemente puxados para cima, castanhos escuros, semicerrados exibiam aquela expressão inteligente e, ao mesmo tempo, esnobe. Os cabelos grisalhos nas laterais, permaneciam impecáveis, destacando-se levemente na pele marrom que possuía, a barba bem aparada impecável, além das roupas pesadas de grife. Aos olhos de qualquer um, era um digno empresário, um perfeito político entrando em ação. Para ela, ficava mais e mais claro que sua presença ali, naquele lugar, era, na verdade, apenas um dos inúmeros jogos de sombras que se envolvia para conseguir um maior controle sobre a cidade em que se instalava — a porra de um parasita. Mas era a figura que se encontrava no canto inferior, parcialmente voltada para trás, como se tivesse percebido tardiamente a fotografia, e tivesse se voltado para trás a fim de ocultar sua presença da forma que conseguia, ocultado pelas sombras.
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  Um tremor percorreu pelo corpo de %Agatha%, as mãos, espasmódicas, pareceram ficar amortecidas de repente, dificultando o ato de alçar o panfleto do mural, dificultando até mesmo segurar a merda do pedaço de papel. As pontas dos dedos formigavam, pequenas agulhas afiadas e dolorosas sendo fincadas, por vezes, contra suas digitais, contorcendo-se por sua pele e espalhando-se mais e mais rápido, mesmo com a pressão do couro de suas luvas. Seu coração disparou, doloroso, contra sua caixa torácica, acelerado. O gelo pareceu percorrer por sua corrente sanguínea e a deixou ainda mais sensível a todos os estímulos ao seu redor.
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  Reconhecia os poucos traços que estavam expostos por entre as sombras e o movimento, lhe era familiar como sua própria respiração. Ela sabia a quem pertencia aquele maldito formato de rosto, bem pronunciado e marcado, retangular, a mandíbula forte e arga, acentuada, um orgulho de virilidade pessoal. Sabia a quem pertencia aquele maldito sorriso assimétrico, e os cabelos escuros como a noite, agora permeados por tons cinza-prateados, curtos, perfeitamente penteados, acompanhados pela barba espessa, bem cuidada. As roupas pesadas, escuras, discretas e projetadas para se misturar entre a multidão de pessoas. %Agatha% buscou, ansiosa, pela data da fotografia, mas não estava no panfleto. Sentiu o gosto da bile atingir sua língua outra vez, o tremor em suas mãos a fazendo soltar a porcaria do panfleto, enquanto piscava algumas vezes, tentando manter sua mente, ao menos, centrada na tarefa em mãos — porra ela realmente precisava achar logo aquela merda de droga! —, tentando não se permitir perder-se em seus pensamentos, outra vez.
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  Não se Edgar %Pedroso% estava em Londres.
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  Merda! Porra! Puta que pariu, se ela não estaria mais do que fodida agora. Voltando a caminhar, dessa vez com um andar mais rápido e agitado, ela repassou o incidente naquela manhã. Repassou a quase invasão, a sombra que havia visto em sua cozinha, a porcaria do cartão. Sem perceber, sua respiração passou a escapar em rápidos arfares, baixos ainda, até mesmo controlados, mas estavam começando a ficar mais intensos. Os olhos percorreram ansiosamente pelos corredores, repousando brevemente no laboratório de perícia, antes de virar para a esquerda, subindo quase correndo a escadaria de metal. O contato de suas botas pesadas, militares, soando um pouco mais alto do que ela gostava que ocorresse, evidenciando mais do que deveria sua presença naquele maldito espaço. Mal havia virado para a direita quando se deparou com Lorraine Ryder.
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  A loira soltou uma exclamação baixa, erguendo a linha de seus olhos dos papeis espessos que carregava da nova perícia do caso que o departamento estava cobrindo aquela semana inteira, imediatamente colocando-se em movimento, tentando alcançar %Agatha%. Ela xingou em português, girando em seus calcanhares e refazendo seus passos, desceu em dois e dois degraus, ignorando os chamados de Lorraine, ou os olhares exasperados que recebia de alguns colegas de trabalho, marchando o mais rápido em direção de uma sala, qualquer sala que encontrasse pelo caminho, fechando a porta atrás de si com um clique alto antes de disparar em direção a janela.
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  A queda era uma possibilidade? Evidentemente, mas nem fodendo que %Agatha% iria lidar com Lorraine e as perguntas da loira sobre o porquê ela parecia estar tão fora de si aquele dia. %Agatha% puxou a janela antiquada vitoriana para cima, sentindo o vento suave outonal, carregado pelo cheiro de chuva característico naquele país depressivo e sem cor, inclinando-se para frente para investigar a estrutura das paredes externas e os parapeitos, antes de praguejar entre dentes. O espaço era pequeno, estreito e ela teria mais chance simplesmente enfrentando Lorraine e ignorando as perguntas sobre sua aparência e seus tremores, mas o instinto falava sempre mais alto. Sempre a comandavam a fugir. Ela engoliu em seco, chiando entre dentes, antes de esticar-se ao máximo que conseguia na direção da estrutura do exaustor externo, usando-o como recurso para alcançar o topo da janela que era a única coisa com mais de cinco centímetros que ela poderia usar para escorar seus pés. Grunhiu entre dentes, tentando sufocar um rosnado frustrado quando ouviu a porta da sala ser fechada e a voz de Lorraine envolver o local, escapando pela janela aberta.
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  %Agatha% trincou os dentes, fechando os olhos e se pressionando contra a parede externa do departamento de polícia, pendeu sua cabeça pendeu sua cabeça para trás, escorando entre os tijolos vermelhos característicos da Revolução Industrial renovadas para uso após anos servindo como localidades histórias que se espalhavam pelo centro de Londres. Seu coração estava batendo com tanta intensidade que ela tinha quase certeza que poderia ver o movimento contra o tecido de sua blusa, sua visivelmente perceptível em seu pescoço, mas ela não ousou fazer um som, muito menos olhar para baixo.
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  Puta que pariu quando não dava para piorar a situação
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  Exalou baixo, tentando focar em encontrar uma forma de escalar até a janela superior do terceiro e último andar do prédio, sem se atrever a olhar para baixo. A vertigem ainda assim a atingiu, e sua garganta havia ficado perigosamente seca, o suficiente para que até mesmo o ato de engolir se tornasse desconfortável. Se antes estava tremendo pelo princípio de abstinência, agora arfava pesado e rápido por entre os dentes. Os olhos, arregalados, estavam com as pupilas contraídas, movendo-se, rápido e ansioso, por entre as fissuras e lacunas que se formavam na parede. Obrigou-se a escalar, sem atrever-se a olhar para baixo, com a certeza de que, se o fizesse, ela iria cair. A sensação do vento a envolvendo seu corpo um manto não era reconfortante, mas apenas enfatizava que ela estava em um lugar alto; o medo não demorou a percorrer por suas veias, travando e tensionando seus músculos mais do que deveriam estar tensionados dificultando ainda mais sua escalada.
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  Quando finalmente alcançou a janela, percebeu com uma fúria contida, movida puramente pelo próprio desespero e medo, que a janela estava trancada. Considerou por um segundo quebrar com seu cotovelo o vidro, mas a última vez que ela havia quebrado um vidro, Zhao havia ficado muito satisfeito em delatar todo o ocorrido para o Delegado Rhodes o incidente. %Agatha% tivera um desconto considerável de seu salário e havia recebido uma advertência — porque Rhodes poderia ser um pau no cu, mas não era idiota de perder uma pessoa como %Agatha% em seu time; mesmo que ele não tivesse ideia da metade do que %Agatha% fazia de fato. Ofegou, irritada, buscando com um olhar pela próxima janela, calculando à distância, e empertigando-se.
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  Não estava assim tão longe, mas igualmente, não era perto o suficiente para que ela tivesse certeza de que conseguiria fazer o salto. Mas que outra escolha ela tinha? Se quebrasse a porra do vidro, chamaria atenção de qualquer forma, seria mais um dos motivos para Zhao a usar como alvo, e querer investigar, e céus sabiam o quanto ela estava muito, muito perto de matar seu colega de trabalho detetive para ter a certeza de que ninguém, ninguém teria acesso ao seu passado.
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  Afastou-se até a outra ponta do parapeito da janela, assentindo para si mesma, como se estivesse tentando se convencer de que aquilo era uma boa ideia — não era —, tentando conseguir o máximo de distância possível para ganhar impulso o suficiente para saltar. Oh, isso vai dar merda, vai dar tantamerdadisparou o mais rápido que conseguia, saltando e esticando-se ao máximo que conseguia na direção do parapeito da outra janela.
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  E não conseguiu chegar nem perto de alcançá-la.
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  O grito estrangulado escapou de sua garganta quando a queda começou. Movida pelo próprio desespero, os dedos curvados em garras, buscaram algum lugar, qualquer coisa em que pudessem se apoiar. Sua mão escapou por entre os tijolos vermelhos velhos, e ela teve certeza de que levaria dois segundos para atingir o chão. Talvez morresse, o que não seria algo ruim considerando sua situação, ou talvez quebrasse só uma perna, as possibilidades eram inúmeras, mas então ela conseguiu agarrar alguma coisa. O instinto gritante de sobrevivência, sequer registrando o corte que se abriu no interior de sua palma da mão esquerda, cortando o couro como papel, e fincando-se em sua pele, o sangue escorreu por seu pulso e antebraço, dificultando seu aperto. Pendurada, os olhos dela repousaram com horror na distância entre ela e o chão e na percepção de que: com os braços amortecidos, trêmulos e espasmódicos, estava agarrando aquela maldita lacuna puramente devido a adrenalina, mas não demoraria para que seu braço se cansasse de sustentar seu peso e ela caísse de vez.
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  Teria xingado, é claro, mas seu cérebro sequer estava registrando outra coisa que não fosse a potencial queda e sua morte iminente. Obrigou-se a escalar o restante de distância que havia entre ela e o parapeito, prendendo a respiração, tremendo, e ignorando a ardência irritante que começava a instalar-se no corte aberto de sua mão, até conseguir, finalmente, alcançar a janela. Para sua sorte, desta vez, esta estava aberta, tudo o que ela precisou fazer foi apenas se lançar para dentro do Arquivo, ofegante, soluçando em busca por ar e tremendo violentamente contra o chão. Seus ouvidos emudeceram outra vez, acompanhados apenas de um ruído contínuo e frustrante. Os olhos se fecharam com força, enquanto o cérebro registrava, com evidente alívio, a superfície plana, fedendo a produto de limpeza e cera do assoalho abaixo de si.
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  Puta merda, ela odiava altura
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  Não sabia quando o medo havia criado raízes tão profundas dentro de si, tendo em consideração quem ela era e como havia sido criada, mas havia certamente uma marca infectada em algum lugar de seu inconsciente. Algo crescente, que havia se alterado desde seu aniversário de 12 anos, e que agora, apenas retornava quando colocava de frente com a situação. Ela exalou algumas vezes, tentando normalizar sua própria respiração e então se sentou. Tivera a péssima ideia de afastar algumas mechas rebeldes de seus cabelos para longe de seu rosto, apenas para manchar sua testa e têmpora com a porra de seu próprio sangue, e grunhiu baixo, frustrada. Mas que caralho, hoje nada iria dar certo?! Pelo menos estava na porra da sala de arquivos.
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  Levantou-se com um grunhido, resmungando para si mesma como seria bom se aposentar, antes de caminhar por entre as estantes e provas cabais dos crimes, tanto arquivados quantos os em andamento. Ela buscou com o olhar a numeração familiar dos casos que eram relacionados a Cortez. Tivera um ano para memorizar o sistema de protocolamento daquela estação policial, e mais ainda para decorar a planta daquele lugar; havia conseguido em 6 meses, os outros 6 havia usado para explorar e criar estratégias de contenção, especialmente para manter sua própria história enterrada, então não foi difícil para que %Pedroso% encontrasse o frasco fechado com a droga que Cortez vendia na boate Orquídea — uma mistura química potente entre Xanax, LSD e muita, muita cafeína —, os comprimidos envoltos por cápsulas de gel transparentes não eram atrativos, mas eram suficientemente discretos. Lançou um olhar impaciente na direção da porta, erguendo o pescoço e inclinando-se na diagonal para conseguir enxergar a porta, no fundo da sala que agora encontrava-se, antes de concentrar-se em destruir a evidência.
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  O plano era simples e ela executou com praticidade: retirou o potinho de dentro do saco de plástico catalogado com o número do processo e identificação de quem havia catalogado a evidência, — ainda em espera de análise, aparentemente —, pausando apenas para retirar algumas cápsulas — três — de dentro do pote, e engolindo-as a seco, duas de uma vez, e então uma terceira apenas para não ter que lidar com o fantasma de Beatriz no momento. O exalo de alívio que se seguiu foi substituído por uma rápida frenesi, entre encontrar outro pote vazio, e preencher a etiqueta com produto corrompido, tentando emular o mais próximo que conseguia a caligrafia do responsável pela arquivação da prova.
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  Quando teve certeza de que a letra estava próxima o suficiente para não levantar suspeitas, %Agatha% colocou o saquinho de volta na gaveta a fechando, no segundo que a porta de entrada do arquivo foi aberta. Ela arregalou os olhos, contendo um praguejar, girando para a esquerda e então colocando-se de cócoras, tentando desaparecer por entre as caixas maiores que eram deixadas no chão. Duas voz se sobressaiam em uma discussão até mesmo acalorada, e ela as reconheceria facilmente, independentemente de onde estivessem.
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  A primeira, com o sotaque britânico pesado e o tom de voz grave, áspera, só poderia pertencer a Rhodes. Já a segunda, com um sotaque puxado, acentuando as letras Rs com mais enfatização, evidenciando alguma parcial origem eslávica, havia a voz irritante de Markus Zhao, seu colega de trabalho — e babá se fosse levar em consideração como o outro detetive parecia muito mais interessado em observar os passos delas do que fazer seu trabalho; não que %Agatha% fosse o exemplo de diligência ali. Estreitou os olhos, inclinando a cabeça para o lado, tentando ouvir o que estavam discutindo, enquanto guardava o potinho com a droga dentro de sua bota militar esquerda, calculando o que diabos teria que fazer agora.
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  — Só estou dizendo que não acha estranho, Jack? — Zhao parecia mais do que exasperado, parecia estar perdendo sua paciência, e %Agatha% quase sorriu com a ideia. Porra, ela odiava aquele pau no cu. Não era apenas pela propensão em intrometer-se em assuntos que não lhe diziam respeito; ele era ético, heroico, e %Agatha% detestava isso, porque significava que em algum momento, ou ela teria que matá-lo ou teria que desaparecer de novo. Era a porra de um problema, instigando a acontecer na vida de %Pedroso%. — Desculpe, Rhodes, não quis faltar com respeito — corrigiu-se no mesmo segundo que percebeu a intimidade que usara o primeiro nome de seu chefe. %Agatha% não o teria feito se estivesse no lugar dele. — Ouça, eu sei que posso estar soando fora da linha agora, que talvez esteja até mesmo comprometendo o trabalho em equipe do time, mas porra, Rhodes, veja as evidências! %Pedroso% tá escondendo alguma coisa, e algo muito sério!
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  Ah, filho da puta…
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  Rhodes não respondeu, então Markus pareceu tomar isso como incentivo para continuar com seu monólogo. Os pelos da nuca se eriçando com a ameaça em potencial que havia ali. Ela trincou os dentes com força, estreitando os olhos, tentando absorver as suspeitas de Markus e elaborar uma contingência — independente do que fosse preciso.
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  — Agente da SAS? Ela foi expulsa daquele lugar, Rhodes! Como uma criatura com 21 anos consegue subir assim tão rápido no pelotão? Ela era a porra da Segunda Tenente da divisão, não era? Tenho quase certeza de que foi por ter dormido com algum superior, não há outra explicação! E para ter sido desligada com desonra? Qual é, chefe! Leia as entrelinhas! Além disso, eu estive pesquisando mais a fundo, ninguém faz ideia de onde estão os outros colegas de time dela! — Markus começou a dizer impaciente, e ela tencionou sua mandíbula com força, prendendo a respiração e inclinando a cabeça para trás. Algo sombrio pareceu pairar pelos olhos da brasileira, um aviso silencioso do perigo que estava começando a aumentar com sua presença ali. Porra, se Zhao estava começando a vasculhar e encontrar a superfície do problema que ela era, se ele estava começando a ligar os pontos, quanto tempo até chegarem a conclusão de que ela era o rato de Doc ali? Quanto tempo até ligarem ela com Cortez e a gangue dele? Pior, quanto tempo até que %Darren% %Gauthier% aparecesse em seu caminho outra vez? Quanto tempo até que Edgar a encontrasse? Desta vez, sabia que não conseguiria fugir. Ela havia dado sorte uma vez, mas duas? Duas não aconteceriam. Merda. Porra! PORRA! — Não há registro de mais nada, nenhum contato com familiar, todos decidiram apenas virarem operadores solos e trabalhar com infiltração agora? A conta não fecha, Rhodes, estou falando!
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  Puta merda, %Gauthier%
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  — Detetive Zhao, já chega — cortou Rhodes, para o alívio e frustração de %Pedroso%. Uma parte dela estava grata pela interferência do delegado, isso significava que Markus Zhao ainda era descredibilizado em suas teorias. A outra parte dela estava frustrada, porque com Rhodes interrompendo Zhao, ela perdia o que o desgraçado poderia saber e ter além daquelas malditas suposições. Até onde ele havia conseguido cavar em sua investigação sobre o passado dela. Rhodes suspirou pesado, e ela teve quase certeza que Rhodes havia assumido aquela postura paternalista frustrante, compreensivo, porém firme. — Eu sei que você está preocupado com o time, mas você precisa parar com isso. Kieran saiu deste lugar, e não vai voltar, sei que gostava de trabalhar com ele, céus, até mesmo eu posso dizer que lidar com Russ era mais fácil do que ter que lidar com %Pedroso%, mas ela é o que temos, e embora não seja um fã dos métodos dela, é a melhor que temos aqui. — %Agatha% estreitou os olhos, sufocando um bufar descrente, trocando o peso de perna. — Vou te dizer uma coisa, encontre provas, filho, e então conversamos sobre isso novamente. Mas preciso que encontre provas, Mark, do contrário, estarei com as mãos atadas.
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  %Pedroso% sentiu a familiar fúria começar a se espalhar por seu peito, misturada com a frustração e até mesmo o medo, mas obrigou-se a ignorar o sentimento, focando-se no trabalho em mãos, em encontrar uma saída dali sem que Zhao e Rhodes ficassem desconfiados, e, ao mesmo tempo, acertar sua postura ali como uma mera investigadora descompromissada e com problemas com álcool. Ao fundo de sua mente, todavia, um plano começava a se formar, ela só precisava ser cautelosa o suficiente para arquitetá-lo da forma correta. O problema de tudo aquilo? A droga estava começando a fazer efeito agora, e ela não percebeu quando derrubou acidentalmente uma pilha com as provas de um caso já resolvido.
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  Os dois homens voltaram seus rostos na direção de %Agatha%, quase no mesmo segundo. Porra, mas que caralho, ela não tinha como se foder mais ainda teria?
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  — Capitão, Zhao, que prazer vê-los aqui — %Agatha% murmurou, abrindo um sorriso divertido, falso como a animação que ela fingiu sentir. Alçou do chão a caixa que havia derrubado, tentando ignorar o impulso de fazer uma careta, concentrando-se apenas em aproximar-se dos dois homens com calmaria e desinteresse absoluto.
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  Rhodes teve pelo menos a decência de parecer constrangido por ter sido pego infringindo a ética de trabalho ali, mas Zhao, estreitando os olhos escuros, não parecia nem um pouco convencido com o espetáculo de inocência dela. Rhodes era um homem musculoso, com um bigode grande e bem aparado, e o rosto que a lembrava de uma mistura entre um castor e um esquilo, não que suas bochechas fossem grandes, mas ele era definitivamente um britânico. Já Zhao… bem, era outra história. Era alto — mesmo para a estatura mediana de %Agatha% —, talvez apenas alguns centímetros mais alto que ela, cabelos escuros como a noite, lisos e desalinhados, perfeitamente aparados, os olhos puxados nos cantos e tão escuros como os cabelos e sobrancelhas grossas, era esguio, mas com alguns músculos, e o marrom claro de sua pele indicava uma ascendência romani. Era bonito, %Agatha% precisava admitir, e um charme quando queria — não à toa possuía um histórico de envolvimento entre algumas mulheres tanto da delegacia quanto conhecidas dos policiais dali —, mas o que mais a incomodava era sua inteligência. Markus Zhao era afiado, tivera uma infância pacata, uma família bem estruturada, e havia se formado como o primeiro de sua turma na academia, ainda assim conseguia enxergar por trás dos viés que lhe eram apresentados. A única vantagem de %Agatha% era usar a impulsividade dele contra ele mesmo.
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  — Está aqui há quanto tempo? — Os olhos de Zhao pareceram se fixar com ainda maior intensidade no rosto de %Pedroso%, que inclinou a cabeça para trás, com um sorriso afiado.
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  — Não muito — mentiu. Rhodes pareceu acreditar, ou apenas preferir a resposta para aliviar sua própria consciência pesada, mas Markus não. Os olhos do mais novo percorreram o semblante de %Agatha%, parecendo buscar alguma coisa, antes de repousar na mão esquerda dela, com o corte aberto.
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  — E cortou sua mão com o quê? — Ele pressionou. %Agatha% abriu um sorriso largo, sustentando o olhar dele, em um desafio silencioso.
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  — Às vezes tudo o que a gente precisa é só a dor para clarear os pensamentos, não é, detetive Zhao? — Ela lançou uma piscadela conspiratória para Markus que pareceu levemente surpreendido. Se havia acreditado ou não, não importava. Ela empurrou a caixa que segurava contra o peito dele, aproveitando o momento de choque para sair dali.
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  O truque tinha sido ensinado por %Darren%. O cajun era um bastardo filho da puta que não valia o oxigênio que desperdiçava, mas nisso ela precisava admitir que ele era bom. Vinha sempre a calhar, quando impedido de mentir, encurralado e sem outra alternativa, simplesmente dizer uma meia verdade, algo sombrio, e que possua peso, algo que irá deixar as pessoas ao seu redor em choque, se conseguir os fazer sentir-se culpado por sequer terem pensado em questionar algo, melhor ainda. Murmurando uma desculpa sobre encontrar com Lorraine, %Agatha% colocou-se, a passos rápidos, a se afastar de onde os outros dois oficiais encontravam-se.
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  Estaria fora do radar deles por ora, mas isso não significava que ela estava a salvo. Precisava dar um jeito de escapar dali, o quanto antes, e o plano formando-se por sua mente não era brilhante, mas era uma solução. E começaria por Zhao.
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•••

  Ao fim do dia, %Agatha% havia levado mais uma advertência de Rhodes por ter perdido seu temperamento com uma testemunha de um dos casos de venda de drogas que estavam sendo investigados — não ajudou muito que fosse Esteban, o braço direito de Miguel ali, ameaçando expor tudo o que ele sabia sobre ela. Devido a isso, todavia, ela havia ficado de fora do restante da investigação, incluindo a adição de um novo suicídio que havia ocorrido durante aquela manhã. Tentou especular com Lorraine o que poderia ter acontecido, mas tudo o que a loira havia lhe dito se resumia bem a apenas: homem, 35 anos, imigrante, o que se fosse levar em consideração poderia ser qualquer filho da puta que estivesse caminhando de volta para casa e tivesse dado a má sorte de perceber a realidade que encontrava-se.
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  Seja lá como fosse, ela havia usado essa desculpa para sair mais cedo. Quase quebrou o nariz de Zhao pelo caminho, mas controlou-se, ao em vez disso conseguiu roubar o celular do investigador, substituindo-o pelo, agora, completamente limpo e reconfigurado dela. Não era o mesmo modelo que o dele, mas era o suficiente para que ele não percebesse até que estivesse de fato usando-o. Até que ele conseguisse perceber que aquele aparelho não era o dele, ou que não era apenas uma pegadinha do departamento ao fingir que haviam apagado todos os arquivos que ele tinha, %Agatha% já estaria longe o suficiente para não ser pega.
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  Foi direto para seu apartamento de merda, com a única intenção de limpá-lo o suficiente para que não deixasse nenhum rastro solto seu para trás e desaparecesse novamente. Mas é claro que não seria assim tão fácil, porque Summer a estava esperando com uma expressão de poucos amigos, e braços cruzados sobre os seios cobertos pela blusa de crochê leve. %Agatha% abriu seu melhor sorriso falso passando pela mulher, tentando entrar em seu apartamento, mas a filha da puta tinha que a empurrar para trás, querendo tirar satisfação. O toque da maldita, mesmo que tivesse sido por sobre o tecido espaço de sua jaqueta foi o suficiente para colocar %Pedroso% em alerta, puxou seu ombro bruscamente para trás, o punho direito conectando-se contra o nariz arrebitado da patricinha, ouvindo o som satisfatório da cartilagem quebrando-se, seguido pelo grito estrangulado dela. %Agatha% estreitou os olhos, observando a mulher e considerando se deveria entretê-la um pouco mais, é claro que aquilo ainda iria voltar para morder sua bunda — tudo sempre voltava —, mas ela lidaria com aquilo mais tarde.
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  Aproveitou a distração de sua vizinha desprezível, e adentrou em seu apartamento, fechando a porta com um clique. Buscou com o olhar os espaços que se lembrava de ter escondido as armas e especialmente seus documentos. Revirou tudo pelo espaço, empurrou garrafas para o chão, quebrando-as abruptamente, até conseguir encontrar o fundo falso de uma de suas gavetas retirando-o com um grunhido, finalmente deparando-se com as quantias de dinheiro consideráveis que ainda tinha de seus antigos trabalhos para Doc, e os passaportes. Tensionou sua mandíbula com força, considerando as possibilidades, ela não teria outra escolha senão levar apenas um — o que era uma merda porque ela não teria como encontrar outra pessoa que fosse boa o suficiente para fazer um passaporte falso como %Gauthier% fazia —, analisando qual seria o lugar mais afastado e reservado que ela poderia escolher. Tóquio era uma boa, mas sabia pouco japonês ou tinha paciência para aprender. Ela poderia voltar para Salvador, mas as chances de ela encontrar com alguém de Cortez, ou pior, esbarrar com o monstro que a perseguia eram piores do que recomeçar em um lugar sem ter ideia da linguagem. Então ela pegou o passaporte canadense.
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  Girou em suas mãos por um momento, abrindo o pedaço de papel para verificar o nome que teria que usar no lugar, Beatriz Monteiro. %Agatha% trincou os dentes, sentindo um riso desprovido de humor, e carregado de frustração escapar por sua garganta ao observar o nome. É claro que o desgraçado pau no cu colocaria uma pegadinha, huh? Era bom o suficiente. O Canadá era muito provavelmente o único lugar que %Gauthier% não ousaria colocar seus pés, e que Karam não teria acesso de imediato. Teria que servir. Alçou a mochila de dentro da gaveta, desdobrando-a e então enfiando tudo o que precisava, variadas notas de dinheiro, cartões, e identificações. Alçou do chão uma das garrafas de vodca, espalhando-a sobre o conteúdo do fundo falso antes de arremessá-la de qualquer forma pelo chão, preparando-se para retirar as três armas que tinha escondido pelo apartamento quando Summer, ainda segurando seu nariz entre as mãos, sangrando, projetou-se para dentro de seu apartamento.
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  %Agatha% arregalou os olhos, congelando no lugar, encarando a mulher maluca com genuína surpresa. Quer dizer, Summer não era assim tão pequena, só alguns centímetros menor que %Agatha%, mas era definitivamente mais magra e delicada do que %Pedroso% jamais seria; era surpreendente que ela tivesse conseguido chutar a porta de seu apartamento e invadi-lo apenas para tirar satisfação pelo nariz quebrado. Mas então %Agatha% se inclinou para a esquerda, a fim de verificar a porta e percebeu, com exasperação que não, na verdade Summer não era forte, nem mesmo genial, %Agatha% havia sido apenas muito burra para variar. Havia esquecido a porra da chave na tranca — genial.
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  — Olha, cupcake, se eu fosse você, fingia que não vi nada e voltava para o conforto do seu apartamento antes que algo ruim… — %Agatha% começou a dizer, jogando a mochila por seus ombros, e erguendo as mãos para o alto em uma postura defensiva, antes de se silenciar. Seus olhos %verdeschartreuses% repousaram no rosto agora tenso e levemente confuso, apesar da clara raiva evidente no semblante de Summer, para então na porta, antes de repousar novamente em Summer. Tivera uma epifania; era um risco demasiado, um desvio de seu plano original, mas bem, se havia funcionado uma vez antes, talvez funcionasse também agora. Ela só precisava encontrar uma maneira de livrar-se das digitais, do cabelo e evitar que Summer derramasse seu sangue ali. Mas ela havia acabado de encontrar seu ticket para desaparecer outra vez. %Agatha% abriu um sorriso preguiçoso, pendendo sua cabeça para trás, estendendo os braços, em um convite silencioso.
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  “Quer saber? Você tá certa, sobre tudo, sobre minhas intenções, sempre achei você patética, e acredite, não sou a única, uma garotinha insegura, desesperada pela validação alheia para se sentir bem, que gosta de fingir que não suporta vitimismo sendo sempre a maior vítima em todas as situações? — provocou, seu sorriso se alargando conforme a raiva de Summer foi aumentando. Bom, mas não o suficiente, ela precisava de mais. — Qual é? É claro que eu conseguiria facilmente substituir você. Eu poderia divertir bem mais aquele seu namoradinho patético, eu sei que ele já considerou a ideia. Qualquer um consegue, sabe por quê? Você é patética, uma desculpa miserável que finge ser amável só para conseguir o que quer, e fica surpresa quando as pessoas desprezam você, não é? Quer saber por que todo mundo vai embora da sua vida? Porque você não é o suficiente, nunca foi, e nunca vai ser. — Dor apareceu nos olhos de sua vizinha. Bom, só mais um pouco… — Porque o seu carinho não vale um centavo, exatamente como você, Summer. Você não é inesquecível, céus, se você for algo, é somente uma casca, facilmente descartável. Não é uma surpresa que você sempre esteja desesperada para se jogar na primeira cama que aparência, sabe que teria um futuro brilhante em um bor… — O choque do soco que atingiu seu rosto vindo de Summer, atrapalhado e fácil de redirecionar, mas %Agatha% o recebeu como uma campeã.
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  Cambaleou para trás, um pouco desorientada com a dor que se espalhou por seu nariz. Seus olhos lacrimejaram, algumas gotas escorrendo por suas bochechas, sua respiração se perdendo por entre sua garganta, a dor aguda fez tudo girar ao seu redor, a desequilibrando por um momento, mas não o suficiente para que ela não visse o outro tapa chegando. O estalo ecoou pelo apartamento, alto, doloroso, o zunindo formou-se em seu ouvido esquerdo. Summer jogou-se contra ela, agarrando a lateral de seus cabelos e empurrando para trás. O estômago de %Agatha% se contraiu, e por um segundo as mãos dela voaram em direção ao pescoço de Summer, o desespero aumentou, e ela sentiu a bile atingir sua língua outra vez. O gosto amargo aumentou a saliva que se acumulava em sua boca, seu estômago se contraiu, e ela sentiu o espasmo quando o vômito atingiu sua garganta. Ainda assim, obrigou-se a aguentar, precisava o fazer.
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  Unhas ficaram em seu rosto, joelhos conectaram-se em seu abdômen e peito, tapas e socos dolorosos acertaram a lateral esquerda de seu rosto. %Agatha% permitiu-se desabar para trás, sua cabeça acertando com violência o canto do balcão da cozinha, abrindo um corte largo, enquanto seu sangue escorria, não só pela lateral de seu rosto, como criando uma poça no assoalho de madeira. Mais um soco que reverberou por seu crânio, sua têmpora latejou perigosamente, a dor a despertando para o peso da outra sobre seu tronco, as unhas grandes cortando a lateral de sua bochecha direita. %Agatha% usou sua mão cortada para a impedir de atingir-lhe mais um sangue, um grunhido escapando por entre seus dentes quando as unhas grandes de Summer abriram o ferimento, espalhando-se não somente pelas roupas de %Agatha% e pulso outra vez, como igualmente por entre os dedos e unhas da mesma. Era o suficiente.
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  Summer estava pronta para atingir o rosto de %Agatha% outra vez, mas desta, a brasileira foi mais rápida. Segurou o pulso de Summer no ato, e com os olhos cintilando em uma fúria pouco contida, o torceu, ouvindo o satisfatório crack do osso quebrado seguido do grito angustiado de Summer. %Agatha% usou parte de sua força para arrancar a criatura molenga que se empoleirou sobre si, engasgando com o próprio vômito, obrigando-se a cuspir no chão, sufocando o impulso de permitir que o vômito escapasse e escorresse por seu queixo, antes de voltar-se na direção Summer.
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  Algo deveria ter surgido no rosto de %Agatha%, algo perigoso, sombrio até mesmo, que fez Summer empalidecer, e tentar escapar, mas não vai muito longe. Porque a brasileira se lançou contra Summer com um movimento rápido e econômico. Os braços envolveram o pescoço dela, e com um puxão brusco, %Agatha% quebrou o pescoço dela. O corpo caiu inerte abaixo de si, e %Agatha% não conseguiu conter-se dessa vez, o vômito, um mero aglomerado de bile apenas escapou por entre sua boca, desabando no chão ao lado do corpo de sua vizinha, o tremor aumentando por seu corpo enquanto ela tentava manter sua mente focada no problema em mãos. Mas era impossível esquecer-se da sensação da mão de Summer em seus cabelos. Era impossível conter a aversão que percorria seu corpo agora, o tremor que arrepiava sua pele e o zumbido crescente em seus ouvidos. Teve vontade de arranhar sua pele até que estivesse em carne viva, porém limpo do toque da outra. Teve vontade de cortar o local tocado, mas não o fez. Ao contrário, agarrou o corpo inerte de Summer, empurrando-o na direção de onde a poça de seu sangue havia se formado.
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  O trabalho era porco, desleixado e de última hora, mas que investigador britânico iria ter interesse em resolver um crime relacionado a uma imigrante? Por favor, %Agatha% nunca havia sido idealista. Esfregou o rosto de Summer em seu sangue, sem conseguir conter um sorrisinho de satisfação — não porque havia gostado, mas porque era ridícula a situação; faria tudo novo se fosse preciso —, antes de abrir o forno acoplado ao balcão, e jogá-la ali dentro. %Agatha% apalpou os bolsos de Summer, em busca de seu aparelho celular, usando a digital de sua vizinha para destravá-lo e então mandar uma mensagem simples para os quatro namorados dela, rindo baixo, cínica ao enviar para os nomes errados que ela estava fugindo com o amor da vida dela, antes de usar o aparelho de Summer para ligar para o de Zhao. %Agatha% salvou o número como “%Agatha%” no aparelho de Zhao antes de jogar o aparelho de Summer dentro do forno. Cuspiu mais uma vez antes de colocar-se de pé.
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  Retirou rapidamente debaixo da mesa a Glock 19mm, antes de marchar em direção ao seu quarto, retirando a beretta storm de baixo de sua cama, assim como a faca de assalto que deixava a baixo de seu travesseiro, prendeu a beretta em seu cinto, atrás de suas costas, e a glock em um coldre axilar na altura de suas costelas, ajustando sua jaqueta, antes de marchar de volta para a cozinha. Pegou o restante das garrafas de bebida, despejando o conteúdo sobre o corpo de Summer, e espalhando pelo espaço, antes de apagar todas as luzes. Com a faca de assalto ainda em mãos, %Agatha% então cortou os tubos de gás que aqueciam a água da pia e o gás usado para cozinhar no forno, finalmente encontrando uma utilidade para o forno em questão. Marchou em direção às janelas, tomando cuidado para ter certeza que todas estavam fechadas antes de trancar a porta de seu apartamento.
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  Usou a janela da varanda para escapar, fechando-a o mais rápido que conseguia, antes de saltar na escada de incêndio, grunhindo baixo quando seu pé esquerdo escorregou no metal umedecido, e ela acabou desabando alguns degraus até conseguir se jogar sobre uma lata de lixo abaixo do final da escadaria de emergência. %Agatha% grunhiu, a dor reverberando por seu corpo com o choque e o desconforto. Alguma coisa afiada quase rasgou sua jaqueta, e ela tinha quase certeza que o cheiro de alguma coisa podre se infestou em sua manga direita. Lançou-se para fora da lixeira, cuspindo e grunhindo, ajeitando suas roupas antes de puxar o gorro de sua jaqueta, e alçar o celular de Zhao de seu bolso interno. Apoiou a mão esquerda na alça de sua mochila, marchando tranquilamente por entre as pessoas na calçada, até conseguir uma distância o suficiente para discar para o número de Summer. As letras de seu próprio nome reluzindo contra seu rosto com um brilho suave azulado, seguidos pelo buzinar contínuo do outro lado da linha. %Agatha% virou-se por um momento em direção de onde seu apartamento ficava, estreitando os olhos e esperando pelo resultado de sua criação.
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  Mas nada aconteceu. Merda!
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  %Agatha% ligou outra vez e esperou, mas nada ocorreu. Ligou uma terceira, e então uma quarta. É somente na quinta vez que o apartamento explodiu. O acúmulo do gás com a tela ligada do aparelho de Summer finalmente dando o resultado que ela precisava. Gritos desesperados ecoaram pela rua, destroços dos tijolos, vidro e madeira atingiram carros e desabaram pelo buraco aberto onde a explosão havia acontecido. E então, o fogo envolveu o apartamento. %Agatha% sentiu a adrenalina percorrer por sua corrente sanguínea, ajustando a alça de sua mochila antes de voltar a caminhar, em direção ao Orquídea.
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  Guardou o celular em seu bolso outra vez, catalogando seu próximo passo para resolver aquela merda: lidar com Miguel. Mas antes disso, ela precisava encontrar Madoc, precisava de um estoque, e um novo fornecedor, e se havia alguém que poderia lhe entregar isso, era o desgraçado. Ela só precisava ser um pouco mais criativa para conseguir o que desejava. Trincou os dentes, mantendo sua cabeça baixa, e desviando das pessoas, usando as sombras delas e a movimentação deliberada para manter-se em incógnito quando os carros policiais viraram pelas ruas, direcionando-se para o antigo prédio que vivia. O tempo estava correndo e ela estava perdendo mais rápido do que poderia calcular com certeza, mas correr não era uma opção. Ela chiou entre dentes, virando para a direita e então passando a usar os cortes e vielas que ela se lembrava de formar atalhos em direção ao Orquídea.
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  Por uma fração de segundos, muito rápido para que ela se preocupasse em memorizar algo, tivera a sensação que alguém a observava. Dentro de um Corvette Stingray preto, um olhar se prendeu ao seu rosto. Em qualquer outra situação, %Agatha% teria se voltado na direção de onde o olhar se mantinha, teria até mesmo se permitido a investigar, mas naquele dia, ela tinha pouco tempo, e problemas maiores para lidar. Este foi seu grande erro.
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  Quando finalmente alcançou o restaurante de fachada nomeado como Orquídea um pouco mais além do centro de Londres, %Agatha% virou bruscamente para a esquerda, adentrando em um prédio residencial capenga que as prostitutas de Cortez usavam como motel para trazer seus clientes da boate que existia abaixo do restaurante. %Agatha% subiu rapidamente as escadarias até o sétimo e último andar, tentando lembrar-se de como poderia abrir uma porta, quando se deparou com a mesma aberta. Ela estreitou os olhos, exasperada, percebendo a armadilha evidente ali. Sim, sim, porque a porra de um traficante iria deixar sua porta aberta para qualquer um entrar e sair dali, claro que sim, fazia muito sentido. %Pedroso% trincou os dentes, revirando os olhos, e empurrando a porta.
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  Click clack. O metal gélido e liso da arma tocou a lateral direita de seu pescoço, e %Agatha% parou no lugar, erguendo deliberadamente suas mãos para cima, quando a voz ecoou pelo espaço, baixa e perigosa, uma promessa de violência pulsando:
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  — Um movimento, e eu atiro.
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  Nota da Autora: 🫂tamo junto.

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Lelen

AI MEU DEUS, VOLTOU O BONITO? E JESUS AMADO, QUE FOI ESSA CENA WANNABE HOMEM ARANHA DA AGATHA??? E Zhao, aprenda: às vezes é melhor deixar o passado enterrado. Deixa ele lá. Pra que remexer em túmulo? Se tá escondido tem um motivo. Se você NÃO TEM NADA A VER com esse motivo, FICA QUIETO NA SUA E FINGE DEMÊNCIA. Vai se meter PRA QUÊ??? Não assiste filme de terror/suspense/mistério/policial não, homem? Se você era, de alguma forma, inocente, tu vai se ferrar de alegre, só te digo isso.
E além do Darren estar ressurgindo dos fantasmas do passado, ainda tem o “pai” da Agatha? Eu tinha esperança de ele já estar morto agora HAHAHAHAH
Vamos ver o que acontece agora, SEN-OOOOR!

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