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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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White Devil

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

CAPÍTULO 01 • UNDER THE DEMON’S SIGHT

Tempo estimado de leitura: 48 minutos

LONDRES • AGORA.

  O carro havia sido deixado para trás às pressas. Mal estacionado, parcialmente sobre a guia, com o pisca alerta ligado e as portas destravadas. Miguel Cortez havia sido descuidado, e isso era tudo o que ele precisava; um deslize.
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  Os olhos %azuisescuros% dele percorreram o restante da rua residencial, agora deserta. A falta de movimentação era um convite para a conclusão errática de que não haveria perigo, exceto que não era esse o caso, certo? Sempre havia alguém nas sombras, se você tivesse paciência o suficiente. É claro que ele havia verificado aquela rua pelo menos duas vezes, suas ordens haviam sido precisas, econômicas, ele não gostava de trabalhar com muito; Jean-Luc estava na entrada do quarteirão, no início do Hyde Park a duas ruas de onde ele estava, enquanto René a dois prédios atrás, em um apartamento alugado por ele por fachada, permanecia posicionado entre a segunda janela, com uma visão clara da rua, mas especialmente do carro de Cortez, sniper na mão, aguardando qualquer ordem que %Darren% %Gauthier% pudesse lhe comandar. Ele era cuidadoso demais para deixar-se acreditar que somente aquilo funcionaria. 
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  %Darren% %Gauthier% sempre tinha um plano. 
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  Para cada potencial falha que poderia vir a ocorrer, o demônio tinha um plano de contingência e uma nova rota a ser percorrida. Se acaso o plano A falhasse, haveria o B e o C, e se estes também viessem a tornar-se um problema, então ele simplesmente iria seguir para o D, e então o E, posteriormente o F, o nomeado com a letra G, talvez até considerasse o H, e se acaso… bem, você já entendeu. Mas ele precisava admitir, mesmo para seus próprios métodos, aquele plano havia sido minuciosamente calculado; sua meticulosidade se dera por deliberação, talvez até mesmo um desejo de retribuição. Se ela queria brincar de morta, então %Darren% %Gauthier% lhe ofereceria o melhor enterro que poderia ter; faria questão de estar presente segurando a porra da pá. 
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  E ele começaria por Cortez.
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  Deixou-se recostar contra o estofado macio de seu Corvette Stingray C7, ouvindo o ruído suave de sua jaqueta de couro misturar-se com o couro do assento, repousou seu cotovelo esquerdo sobre o apoio da porta, seus olhos %azuisescuros% se estreitando brevemente, tocou com a ponta de seu polegar o material liso de ouro que envolvia seu dedo anelar, girando-a, por hábito, contra sua pele. A aliança de casamento, uma faixa de ouro puro, era simples, apenas uma faixa grossa sobre o dedo dele, uma parte de seu corpo, àquela altura — ou talvez estivesse sendo apenas dramático. Carregava agora alguns arranhões mais profundos onde seu descuido havia custado um pouco caro, mas permanecia ali, intacta. Assim como a memória dela
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  Vadia maldita… 
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  O sorriso amargo quase pintou seu rosto neutro, sua unha fincando no veio mais fundo que se formava no ouro da aliança, distraído, antes de afastar o pensamento de sua mente. Desviou seu olhar da aliança para a entrada do prédio residencial onde Cortez havia sumido há alguns minutos. Foi recompensado, no entanto, com uma visão interessante. Cortez, com todas suas tatuagens e marcas dos Gigantes, capuz sobre a cabeça e expressão ansiosa, discutindo com uma bela morena, de calça jeans justa e cabelos longos lisos presos em um rabo de cavalo. Ela gritava alguma coisa em espanhol que %Darren% não se deu ao trabalho de tentar entender. Um nome destacou-se todavia, Isabella. %Darren% estreitou os olhos, inclinando sua cabeça um pouco para trás deixando seu olhar vagar por um momento, buscando por qualquer coisa que pudesse encontrar que revelasse onde a mulher que discutia com Cortez provavelmente vivia, e algo que pudesse usar para sua vantagem.
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  Não precisou de muito, com o rostinho miúdo projetando-se precariamente por entre as persianas, olhinhos arregalados, tentando assistir a confusão que seus pais estavam fazendo na rua. %Darren% parou momentaneamente de girar sua aliança, observando o rosto da criança e considerando as informações que ele tinha em suas mãos: pelo tamanho, tinha no máximo 3 anos, pela janela que tentava assistir, o apartamento deveria ficar no térreo, e pelo tom da mulher, Cortez não era bem-vindo ali. Bom, muito bom. %Darren% alçou seus óculos escuros do porta luvas do carro de luxo, descendo com movimentos deliberados, calculadamente casuais, ao ajustar os óculos em seu rosto. 
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  O vento outonal atingiu seu rosto, afastando algumas mechas de seus cabelos lisos, alguns centímetros maiores do que de fato ele apreciava, o corte curtain a essa altura perdido ainda que a franja repartida no centro pendesse por seus olhos %azuisescuros%. Carregava consigo o aroma de Londres, aquela mistura única de gases tóxicos automotivos queimando a céu aberto, terra molhada, lixo a céu aberto e até mesmo notas do Tâmisa naquele emaranhado. O primeiro instinto que se tinha era de cuspir no chão, ou vomitar, dependendo da fragilidade de seu estômago, mas %Darren% conteve uma careta ao caminhar vagarosamente na direção do carro de Cortez. Franziu o cenho por um breve momento, fingindo ter um interesse maior do que de fato possuía para o céu, observando as nuvens nubladas que se formavam no horizonte, ainda aquela noite choveria, teria dito sua tia como se aquela porra de informação significasse algo importante. %Darren% afastou o pensamento com um quase sorriso irônico, ajeitando apenas por hábito sua jaqueta de couro, verificando o relógio caro no pulso direito antes de convenientemente atravessar a rua no momento em que Cortez marchou furioso em direção ao carro largado precariamente na rua.
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  %Darren% abriu a porta dos bancos traseiro sem a menor cerimônia, adentrando no lowrider importado de Cortez, o cheiro de maconha, desinfetante e algo que lembrava vagamente a jasmim. É claro, aromatizante para fingir que a porra do carro estava limpo, como se jogar uma série de perfumes caros sobre um corpo ocultaria o estado de putrefação avançado, genial. %Darren% ajustou-se no banco, sentindo-o ceder ao peso de seu corpo, abrindo as pernas propositalmente para ocupar o espaço do banco traseiro, apoiou o braço direito sobre o encosto do carro, com o olhar fixo em Cortez. 
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  De primeira, o mexicano soltou um palavrão de alto e bom som, virando-se na direção do banco traseiro do carro, tentando entender o que estava acontecendo, mas então, seus olhos escuros pareceram registrar o semblante deliberado de %Gauthier%. Os ângulos elegantes e afiados do rosto de %Darren% acentuados pela penumbra projetada pelo carro, acentuando as maçãs do rosto altas e elegantes, além da curva perigosa de seus lábios, revelando o sorriso afiado, torto. Um sorriso despreocupado, enviesado, mas com algo perigoso, uma linha invisível. Um vago lembrete do porquê ele havia ganhado a alcunha que tinha.
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  Cortez alçou o revólver de 38mm com um movimento atrapalhado, a mão que empunhava a arma tremendo enquanto apontava na direção do peito de %Gauthier%. De onde estava, o tiro seria a queima roupa, uma morte instantânea e indubitável. Não tinha como sobreviver àquilo, e, no entanto, não havia nenhum pingo de medo no rosto de %Darren%, pelo contrário, o homem deixou-se relaxar um pouco mais no assento, escorando suas costas no encosto do carro, esperando, paciente, para a próxima ação de Miguel. Seu sorriso, todavia, se tornou mais afiado, perigoso, desprovido de quaisquer traços de humor. Era como observar o diabo à sua frente, observando-o entreter-se com a pequenez de seus pecadores implorando por misericórdia. 
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  Misturado com o perigo que emanava de %Gauthier%, havia igualmente aquela ponta sádica de prazer ao observar seu alvo exatamente no lugar que ele desejava. Um prazer um pouco mais profundo e pessoal de observar as peças se moverem de acordo com o que ele havia previsto. 
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  — Vá em frente — %Darren% pronunciou-se finalmente quebrando o silêncio tenso que havia se instalado dentro do lowrider, erguendo o queixo, desafiador, retirando os óculos escuros de seu rosto para que Miguel pudesse encará-lo nos olhos. %Darren% gostava de encarar as pessoas no fundo de seus olhos; os olhos nunca mentiam. %Darren% ergueu uma sobrancelha, seu sorriso aumentando um pouco mais. — Atira.
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  Era um jogo com sorte. Estúpido e inconsequente, até mesmo suicida de certa forma, mas ainda assim, calculado. Não passava de uma demonstração de poder, um flerte com a morte, evidente, mas ainda assim, um desafio silencioso para qualquer um que se atrevia a colocar-se em seu caminho, um jogo justo: Miguel poderia matá-lo ali mesmo, poderia atirar em seu peito e %Darren% morreria em menos de cinco minutos. Mas Cortez não faria isso, porque sabia o peso que tal ação carregaria. Se Miguel estivesse fora de si e apertasse o gatilho, o problema dele não acabaria com a morte de %Darren%, se iniciaria. Porque a morte de %Darren% não alterava as peças no tabuleiro, ele ainda seria o Demônio Branco na porra de um caixão, as ordens ainda valeriam, e Miguel perderia tudo o que possuía. Porque o truque não estava na força física que um demonstrava, ou na monstruosidade e atrocidades que se era capaz de fazer, céus, nem mesmo na frieza que alguns gostavam de mostrar como se isso significasse algo. O truque era encontrar o ponto fraco, a vulnerabilidade que se possuíam, a exceção que eles estariam dispostos a salvar custasse o que custasse, e usá-la como bem lhe servia. 
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  E a de Cortez encontrava-se no apartamento térreo, à esquerda, a alguns metros distantes de onde o carro dele estava estacionado. Miguel não arriscaria porque simplesmente não podia
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  Cortez xingou por baixo de sua respiração, mas as mãos dele tremeram. Os olhos %azuisescuros% de %Darren% brilharam, como os de um gato. Obscurecidos parcialmente pela penumbra do carro, as íris %azuisescuros% pareciam ficar ainda mais intensas, a cor mais vívida. %Darren% inclinou a cabeça um pouco para a direita, seu sorriso aumentando minimamente. 
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  — Quem é vivo sempre aparece, huh? Miguel Cortez, el Gigante, em carne e osso — %Darren% se pronunciou, deliberado e com um divertimento sombrio, seu sotaque cajun escapando por entre suas palavras, envolvendo-as quase como um ronronar felino, pelo tom de voz baixo e áspero. Os olhos %azuisescuros% permaneceram fixos, vidrados nos de Miguel, observando-o com intensidade. A arma apontada para seu peito ainda com a mira travada apesar da mão trêmula do outro homem. %Darren% estreitou os olhos, inclinando-se um pouco para frente, propositalmente colocando-se mais perto da arma apontada. — Sabe, eu ouvi muitas histórias sobre você. A fronteira? Oh, eu preciso admitir, eu gostava do seu estilo. Implacável, preciso, mandava o recado, huh? Mas então, de uma hora para outra a grande lenda das ruas de El Paso simplesmente entrega o cargo para Javier, e então desaparece. — %Darren% ajustou seus quadris no assento, deixando-se deslizar um pouco mais para frente, dando de ombros. Ergueu o queixo, mais de forma desafiadora do que qualquer outra coisa, usando a ponta de seu óculos escuros para coçar a lateral de sua mandíbula bem marcada e cortante como uma navalha. A barba por fazer roçando o material caro dos óculos. — Cria perguntas, non? 
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  O rosto de Miguel se crispou um pouco mais, o medo misturando-se com a raiva, enquanto a adrenalina da surpresa começava a diminuir e seu cérebro começava a registrar o que estava acontecendo. %Darren% permaneceu imperturbável.
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  — Você… como… quando… — Miguel gaguejou, as palavras em inglês misturando-se com o espanhol pesado, evidenciando seu nervosismo. %Darren% ergueu uma sobrancelha, indicando com a mão para que Miguel tomasse o tempo que precisava para formular uma frase coerente. O ato deliberado de desprezo pareceu apenas inflamar mais a raiva de Cortez. %Darren% segurou-se para não rir. — Ay que estás muy lejos de casa, pendejo de mierda— cuspiu Miguel. Os dedos do mexicano apertaram com mais força a coronha, o dedo se curvou um pouco mais no gatilho. — Cai fora do carro agora, cê não comanda nada aqui, caí fora antes que eu…
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  — E arriscar sua Isabella? — %Darren% pronunciou o nome com ênfase, desafiando Miguel a negar ou ignorar o aviso silencioso em suas palavras, a informação compartilhada e o conhecimento de %Gauthier% sobre a criança. O sorriso de %Darren% desapareceu de seu rosto. — Você não é assim tão ousado, é? — Inclinou-se mais para frente, sustentando o olhar do outro. Os olhos %azuisescuros%, vidrados nos de Miguel, pareceram adquirir uma sombra profunda. Não era o olhar de uma ameaça, %Darren% %Gauthier% não ameaçava ninguém. %Darren% %Gauthier% apenas avisava os outros do que iria fazer, cabia à pessoa acreditar no aviso ou não, mas ele sempre fazia. — Quantos anos ela tem agora, Cortez? 3 anos? 4 anos? Menores que ela já desapareceram por muito menos — %Darren% sugeriu com o fantasma de um sorriso pairando por seus lábios, mas era frio e desprovido de humor. Ele inclinou a cabeça para o lado novamente apontando na direção do prédio. — Quanto tempo até perceberem que ela se foi? Você sabe, querendo ou não, crianças são um bom commodity hoje em dia. É bem mais fácil de domesticar.
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  Miguel viu vermelho, por um segundo tentou avançar no pescoço de %Darren%, mordendo a isca que ele havia jogado. É claro que o faria, se a garotinha fosse seu ponto fraco, então Miguel estava disposto a fazer de tudo para mantê-la a salvo. E então, foi quando ele percebeu. A menina foi a motivação para sua saída de El Paso, mas a pergunta principal era como, ou melhor, quem o ajudou. Naquele mundo não havia saídas fáceis, ou aposentadorias, havia apenas uma forma de sair e era dentro da porra de um caixão. Miguel, evidentemente, não estava morto.
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  Se aquela não era a sorte de %Darren%, de repente, todos os mortos estavam voltando à vida.
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  Trincou a mandíbula com um estalo baixo, um músculo saltando por suas bochechas com a tensão e o movimento, acentuando mais ainda sua mandíbula cortante. Os olhos se estreitaram observando em silêncio Miguel. Era como encarar a porra de um cachorro, podia ver a saliva escorrendo entre os xingamentos que eram latidos, a violência desesperada escrita em seus olhos enquanto calculava se valia mesmo a pena condenar tudo o que mais queria proteger por mero orgulho e ego.
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  — Chega, Cortez — cortou %Darren%, sentindo uma ponta de impaciência começar a tingir seu tom de voz baixo. Ele ajeitou sua jaqueta, oferecendo seu sorriso afiado mais charmoso para o mexicano, dando de ombros. — Tsc, couillon, eu não tenho interesse algum em tornar você meu inimigo — %Darren% chiou com falsa serenidade. Ergueu então o indicador, silenciando Cortez antes que o outro pudesse dizer algo mais. Sustentando o olhar de Miguel, %Darren% enfiou sua mão esquerda dentro do bolso de sua jaqueta de couro, e então arremessou o saco de papel com o fundo molhado e obscurecido por sangue no assento do passageiro ao lado de Miguel. O rosto de %Darren% agora era pétreo, intenso. — Então não me torne o seu. Vá em frente, abra seu presente. — %Darren% indicou com seu queixo na direção do saco de papel, mas Miguel não fez menção alguma de alçá-lo.
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  %Darren% moveu sua mandíbula, suas mãos tremendo com um espasmo inconsciente. Fechou-as em punhos firmes, tensos, controlando seu próprio temperamento. 
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  Um longo silêncio recaiu sobre os dois homens que se encaravam como animais selvagens prontos para brigar. A diferença era nítida, todavia, a postura de Cortez evidenciava uma tensão gritante pronta para fuga, o desespero e o medo permeando seus olhos, mesmo que estivesse tentando ocultá-las pelo véu intenso da raiva, havia medo puro, o mesmo medo que animais selvagens sentiam quando se percebiam encurralados. E então, havia %Darren% %Gauthier%, encarando-o como se pudesse enxergar o mais profundo de sua alma, e exatamente onde fraturou-se, como se já soubesse a resposta que buscava, mas estivesse deliberadamente brincando com seu alvo como um gato preguiçoso. A presa já estava capturada, um ataque fatal seria misericórdia.
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  Mas %Darren% %Gauthier% não gostava de misericórdia. Nem o demônio.
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  — Há quanto tempo sabe? — %Darren% comandou, sua voz baixa, perigosa e contida, os olhos fixos no rosto de Miguel, cuidadosamente analisando cada uma das mínimas expressões que o mexicano poderia tentar conter, tentando identificar a verdade da mentira, não que fosse assim tão difícil. Miguel estava vulnerável, mesmo que estivesse com um revólver apontado para o peito de %Darren%, o jogo de poder ali era explícito e claro como o dia, não oferecia vazão e muito menos espaço para manipulação. 
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  Miguel engoliu em seco, apertando com mais força a arma que empunhava, os nós dos seus dedos ficando esbranquiçados pela intensidade que a segurava. 
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  — Tempo suficiente. 
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  As palavras foram mais amargas para engolir do que ele esperava, então %Darren% recusou-se. Os cantos de seus lábios tremeram, o sorriso afiado pareceu tornar-se quase uma careta, os olhos cintilando com uma intensidade penetrante. Uma raiva fria, perigosa, espalhou-se pela corrente sanguínea do demônio. Não era como fogo que o consumia e o cegava por vezes, que o alimentava com um propósito fixo e direto, que o satisfazia, não, esta era diferente, mais perigosa porque era controlada. Mais profunda do que ele esperava, autodestrutiva. E ele não tinha certeza se poderia controlá-la; ele não tinha certeza se queria. Havia uma sensação plácida de falsa calmaria, não consumia sua alma, mas envolvia seus músculos, tencionando-os como se estivesse esperando as palavras certas para serem detonadas. O gosto de seu próprio sangue invadiu sua língua, espalhando-se pungente e vagaroso por sua garganta, enquanto seus ombros se tencionaram para frente, em um gesto quase felino, como se a qualquer momento estivesse preparando-se para atacá-lo.
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  — Então, você quer dizer que minha esposa estava viva este tempo todo, e somente agora que eu descubro sobre? Ouch, Cortez, achei que éramos amigos. — O sarcasmo escorria por entre as palavras perigosamente aveludadas dele. Os olhos %azuisescuros% se estreitaram, as mãos fechadas em punhos firmes tiveram mais um espasmo, como se estivessem desesperadas para enterrar-se em alguma coisa. Sangue, pedia seu corpo inteiro. E porra se ele não queria ceder àquela merda de pedido. Miguel pareceu perceber alguma coisa no tom de %Gauthier%, porque pareceu desviar os olhos e pressionar o ombro direito contra o banco estofado de sua lowrider, as mãos trêmulas empunhando o revólver, vacilando momentaneamente, antes de voltar a mantê-la mirada no peito dele. 
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  — O que você quer, %Gauthier%? — A voz baixa, os olhos queimando com frustração, mas igualmente a percepção resignada que não havia como lutar, não contra %Gauthier%. Era em vão e estúpido resistir. A revelação já o havia condenado, e %Darren% percebeu com uma ponta de satisfação sombria que Cortez estava lentamente percebendo isso, percebendo que ele estava condenado, agora era questão apenas de entender o que ele queria fazer: se iria condenar a filha e sua ex a morte também, ou se dar-se-ia, diante da morte, este momento nobre com a esperança de ganhar alguma redenção antes de morrer. 
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  Os olhos de %Darren% desviaram-se momentaneamente do rosto do mexicano, e então repousaram no pescoço dele, observando a característica corrente de ouro com um pingente de crucifixo ao centro. Se a fé não criava os mais tolos naquele mundo, huh? Ou talvez ele apenas soubesse e gostasse da ideia de que ele iria para o inferno. Se era real ou não, não importava para %Gauthier% quando ele poderia usar o moralismo, a sensação de direito de fariseus e especialmente o “altruísmo” que a religião oferecia. Eram como pequenas cordas esperando ansiosamente para envolverem-se em seus dedos; e você poderia apostar que ele não hesitaria em tomá-las para si.
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  Ele recostou-se novamente no banco da lowrider de Cortez, estalando com o polegar seus dedos por puro hábito, antes de sua expressão cair novamente. O olhar afiado, estreitado, analisando cuidadosamente sua presa, o queixo erguido em um desafio silencioso, a respiração controlada e superficial.
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  — Muitas coisas… você vê, o pagamento dos débitos dos filhos da puta que me devem, dinheiro, fama, sucesso, talvez expandir meu território para a Europa, matar a porra da minha esposa morta — %Darren% listou com um tom deliberado e preguiçoso. Abriu um sorriso torto, inclinando a cabeça para a esquerda, fingindo uma falsa cumplicidade com Cortez que o assegurava de que estava seguro com %Gauthier%. As sombras criadas pela penumbra no carro repousaram novamente sobre o rosto dele, acentuando os ângulos elegantes e bem marcados de seu rosto rudemente bonito. — Mas você pode começar me dando algumas respostas. Vamos lá, tome o seu tempo, eu espero.
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  Ele não estava mentindo, estava determinado a esperar o dia inteiro se fosse preciso para ter as respostas que desejava. Cortez poderia tentar resistir por alguma falsa necessidade de afirmação de ego ou até mesmo por medo, mas %Darren% não iria sair dali até que tivesse as respostas que precisava e o quadro geral de suas ações clarificado. E se Cortez possuía as respostas, então que se foda, ele as entregaria. Por bem ou por mal, o faria. As mãos de %Darren% nunca haviam sido limpas, era suficientemente divertido observar como algumas pessoas o menosprezavam com algum senso de humanidade que poderia restar ali; não havia nada, ele havia feito questão de exterminá-la há muito, muito tempo. Ele era o que haviam criado para ser, mas era irônico como se surpreendiam com isso.
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  Se fossem inteligentes, iriam entender exatamente por que o chamavam de Demônio.
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  Por um longo momento, o lowrider foi tomado por um silêncio gritante. Espalhava-se pela pele de ambos os homens como eletricidade, a antecipação pela violência, uma promessa não dita, mas aguardada, pulsando a cada respiração exalada, a cada mínimo movimento. Cortez era como a porra de uma presa, encurralada, buscando, desesperada, por uma maneira de escapar dali, de fugir e conseguir sobreviver; %Gauthier% era a porra de um predador que gostava de brincar com sua comida. 
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  — Alguém financiou sua escapada. Quero saber quem foi. — %Darren% desviou por uma fração de segundos seu olhar para a rua, observando-a com cuidado, verificando os rostos e as pessoas que transitavam, buscando algum padrão familiar antes de voltar a encarar o outro homem. Tencionou a mandíbula com um estalo, esperando pela resposta.
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  — Karam — Miguel respondeu por fim. O peso de suas palavras reverberou por alguns minutos em meio ao silêncio crescente e tenso na lowrider. %Darren% bufou, sarcástico para si. Ele deveria ter esperado por isso, é claro que o lobo velho não teria deixado seus meios e maneiras no segundo que %Gauthier% havia conseguido o que queria. %Darren% havia considerado oferecer ao velho a dádiva da dúvida, mas bem, não dava para dizer que o merecia, certo? Uma vez um filho da puta, sempre um filho da puta. Era o que eles eram, era o que eles faziam. Ato e consequência. 
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  %Darren% moveu sua mandíbula, impaciente, estalando o pescoço tenso.
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  — E quanto a minha esposa? 
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  Miguel lançou um olhar surpreso na direção de %Darren%, como se ele tivesse acabado de dizer alguma coisa inesperada, ou que o pegou desprevenido. %Darren% permaneceu com uma expressão neutra, impossível de ler, observando o mexicano aos poucos descender para a completa histeria. Miguel soltou um riso alto, rico, mas não havia humor algum ali. Era o tipo de riso que %Darren% estava familiarizado a ouvir, quando homens começavam a ceder à histeria, a evidenciar pequenos indícios de seu desespero, quando a emoção se tornava tão sobrecarregada que os empurrava, mais e mais, para o precipício da loucura. Tornavam-se voláteis, perigosos, e exatamente o que %Darren% gostava de ver.
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  — No mames! No mames guero! — Riu alto. %Darren% permaneceu encarando-o em um silêncio sufocante, inexpressivo. O olhar, todavia, tinham as sobrancelhas grossas unidas. — ¿Qué te pasó, guero? Se apaixonou mesmo, foi? — Miguel negou com a cabeça, em uma crise de riso. — Esa perra de merda é só a porra de uma viciada, a porra de um peso morto, e se quer saber, bem fácil de agradar… — A voz de Cortez metamorfoseou-se para uma mais segura, confiante, o sarcasmo e o duplo sentido escapando por sua entonação histérica. 
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  Por um segundo, o rosto de %Darren% alterou-se, os olhos cintilando como os de um gato, pareceram se arregalar um pouco, e ele se permitiu rir com Miguel, como se estivesse achado o comentário a coisa mais engraçada que já havia ouvido. Então foi como se algo tivesse estalado. Um clic fora do lugar, e antes que Miguel pudesse fazer alguma coisa, pudesse sequer considerar disparar a porra do revolver no peito de %Gauthier%, %Gauthier% já estava em cima de Cortez. Um golpe preciso nas juntas de seu cotovelo projetou o antebraço do mexicano para cima, dando espaço o suficiente para que %Darren% agarrasse o pulso do homem, e então enterrasse o revolver que Miguel ainda segurava, abaixo da mandíbula do mexicano. O aperto das mãos de %Darren% no braço do mexicano era como aço, as luvas gélidas contra a pele do outro estalando pela maneira com que %Gauthier% havia flexionado seus dedos em garras. 
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  Miguel se debateu, percebendo tardiamente, com horror, as luvas. 
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  Os olhos se tornaram aterrorizados, mas, ao deparar-se com o semblante frio e inexpressivo de %Gauthier%, tudo o que encontrou foi aquela familiar raiva visceral controlada, fria como gelo, precisa como uma serpente, sustentando seu olhar silenciosamente, desafiando-o a dizer alguma coisa, a fazer alguma coisa que testasse o limite de sua paciência esgotada. Os olhos %azuisescuros% do Demônio Branco estavam vidrados nos de Miguel. 
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  — O quê? Sem mais piadas, chico? — %Darren% provocou, sua voz baixa reverberando pela pele do outro como uma onda de arrepios aterrorizantes. Tão perto como estava, %Darren% podia ver tudo. O pavor estampado nos olhos de Cortez, a realização de que havia subestimado sua importância para %Darren%, ou quaisquer que fossem as intenções do demônio ali. %Darren% sorriu novamente, mas não havia humor algum em seu sorriso, apenas uma satisfação sombria que se espalhava pelas veias de %Gauthier%, pulsante como eletricidade. — Vá em frente, me conta como a minha esposa é uma vadia. 
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  Miguel, o cholo coberto em tatuagens e marcas das gangues de rua que havia comandado. Miguel, el Gigante, que sempre havia bragado sua invencibilidade, fedia a porra de urina deparando-se com a morte
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  — Quem está fornecendo o dinheiro para Karam? — %Gauthier% questionou entre dentes, um tom de voz perigoso, calculado e baixo. Miguel tentou se soltar do aperto das mãos de %Darren%, mas %Gauthier% apenas projetou-se um pouco mais para frente, forçando o pulso de Cortez para trás até a mandíbula do mexicano. Era um beco sem saída, %Darren% não poderia quebrar o pulso de Cortez se queria o resultado planejado, mas igualmente era tentador apenas quebrar a porra do pulso do filho da puta, ao menos pelo desencargo de seu próprio orgulho. Miguel tremeu, mas não respondeu. 
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  %Darren% tencionou a mandíbula com mais força, erguendo o queixo, os olhos %azuisescuros% fixos, profundos, nos de Miguel, como se quisesse convir silenciosamente que Cortez havia trazido aquilo para si mesmo. Não era que %Darren% tivesse algum conceito deturpado de justiça, ele deixava bem claro a todos que entravam em seu caminho que ele não tinha um código de honra, apenas o que ele queria, e o resultado final. Mas %Darren% também não era a porra de um sociopata, ele gostava de deixar bem claro que cada ato havia uma reação. Miguel havia escolhido fugir, se esconder como a porra de um rato e reconstruir seu império na porra de outro continente? Não. Não quando se possuía a porra de um débito com %Darren% %Gauthier%, não quando havia escondido a porra da verdade. 
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  Ele desviou o olhar do rosto de Cortez, buscando pela jaqueta e bolsos das calças do outro por algo que o pudesse auxiliar mais tarde. Encontrou, por fim, após alguns minutos, o aparelho celular do idiota no bolso interno de sua jaqueta. Não se deixou acreditar, ele conhecia muito bem qual era a estratégia, e qualquer idiota com um número aceitável de neurônios sabia que era melhor apenas separar os negócios de sua vida pessoal, especialmente se você não queria criar provas contra si mesmo. Permitiu que sua mão direita, firmemente fechada ao redor do pulso de Cortez, deslizasse um pouco mais para cima, o indicador repousando sobre o indicador de Cortez que se mantinha sobre o gatilho do revólver. A presença fantasmagórica do indicador dele sobre o do mexicano, uma promessa silenciosa.
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  Os olhos dele demoraram um pouco mais no espaço frontal da lowrider, seu olhar finalmente encontrando o tapa sol. Com um movimento rápido, %Darren% puxou o compartimento para baixo com sua mão esquerda, observando o segundo aparelho celular desabar nas pernas de Cortez. Alçou o aparelho em sua mão, girando-o brevemente ao analisar que tipo e marca eram, antes de voltar o aparelho na direção do rosto do outro. Usou o reconhecimento facial para desbloquear o aparelho.
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  Então %Darren% forçou seu indicador sobre o de Cortez, disparando. 
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  Um flash iluminou brevemente o banco do passageiro. O empuxo da arma reverberou pelo braço direito de %Darren%, obrigando-o a tencionar os músculos de seu braço não dominante, tencionando a mandíbula ao contê-lo. A cabeça de Cortez explodiu à sua esquerda, o sangue explodiu, quente contra a lateral de seu rosto, pedaços de carne e cérebro se chocaram, manchando de vermelho profundo a janela da lowrider. Mas a atenção de %Darren% não estava na maneira com que o corpo de Cortez amoleceu, projetando-se para o lado, sua atenção estava fixa no aparelho celular. 
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  Soltando o pulso de Cortez, %Darren% arrastou-se para o banco ao lado, abrindo a porta e saindo pela porta contrária à que havia entrado. Seus olhos %azuisescuros% buscando pelas câmeras de rua, para ter certeza de que estaria no ponto cego das mesmas, antes de colocar os óculos escuros de volta em seu rosto. Levou o indicador de sua mão direita em direção aos lábios, os dentes fincando-se no couro, ao puxá-la, liberando sua mão direita, e então passou o celular da esquerda para a direita, scrolling e abrindo todos os aplicativos de comunicação, banco de Cortez. 
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  Usando a luva, ele limpou os pedaços de cérebro e sangue de Cortez que escorria por sua bochecha e mandíbula, acumulando-se na gola de sua jaqueta, ignorando completamente o ruído alto que o disparo próximo a sua cabeça havia deixado em seu ouvido esquerdo. Era comum, a essa altura, apenas um dos danos calculados colaterais que acabava lhe causando. %Darren% abriu a porta de seu Corvette Stingray C7, adentrando com um movimento econômico. Transferiu parte do dinheiro de Cortez para a mulher que ele assumiu ser a mãe da pequena Isabelle. 500 mil libras deveria ser o suficiente para dar a ela uma chance de desaparecer dali, e se ela fosse esperta, o faria assim que descobrisse sobre o “suicídio” do ex, mas, então, de novo, aquele não era mais o problema dele. O restante do dinheiro de Cortez, %Darren% enviou para Ziyad Karam, Doc, com o fantasma de um sorriso preso em seus lábios. 
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  Ziyad Karam era um velho old school. Sabia que o montante em breve tornar-se-ia não rastreável e era disso que %Darren% precisava. Buscou então pelos aplicativos de mensagem de Cortez, observando algumas conversas ridículas e embaraçosas com algumas putas, ordens recentes com o endereço em específico e familiar para alguns homens, quase quinhentas mensagens de um tal Madoc em completo desespero, e então um contato. Não possuía foto, mas ele conhecia aquele nome como uma parte de sua própria alma. Sentiu novamente aquela descarga cálida de fúria que se infiltrou por sua corrente sanguínea sempre que seus pensamentos se desviavam para ela.
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  Butcher. Açougueira.
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  Era assim que eles a chamavam. Era assim que onde quer que ela fosse, seria chamada. A açougueira. Ele tencionou a mandíbula, sentindo os músculos de seus ombros e braços se tencionarem, a necessidade de explodir, de avançar em direção de alguém e deixar toda aquela raiva esvair-se de si gritante, mas %Darren% não era do tipo que se permitia perder o controle se não tivesse uma boa motivação por trás. Ele tinha problemas com raiva, é claro, isso qualquer um poderia perceber, mas sua raiva não era sua inimiga, era sua arma pessoal. Transformá-la em apenas um impulso era apenas ridículo. Então, ao invés de quebrar o aparelho, ele tocou na conversa, abrindo-a com uma ponta de curiosidade.
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  Não se surpreendeu ao ver as tentativas falhas e ridículas de Cortez de levá-la para cama. %Darren% conhecia bem o suficiente sua esposa para saber que ela não deixava ninguém a tocar, mas ainda assim sentiu aquela familiar sensação de posse incomodá-lo. Como a porra de uma coceira, espalhando-se por sua mente devagar e corrosiva. Encontrou algo interessante, no entanto, uma localização. %Darren% estreitou os olhos. Orquídea. Huh, você poderia mudar de lugar, mas não de essência. É claro que Doc teria a porra de um prostíbulo por ali. 
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  Orquídea. 00:30. 
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  Ele apertou o botão de envio, sem esperar por uma resposta. Ele sabia que ela viria. 
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  %Agatha% sempre aparecia quando havia vantagem para si. Mesmo que fosse a porra de uma armadilha. 
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•••

NOVA ORLEANS • 15 ANOS ANTES.

  Uma parte de si queria explodir, xingá-la até que sua voz estivesse rouca e falha, até que a pressão de sua raiva fosse aliviada de seu peito, já a outra parte, a que a conhecia como a porra da palma de sua mão, sabia que era simplesmente inútil. Marcelle não fazia nada que não quisesse, e não tinha nada que %Darren% pudesse fazer sobre, por mais que seu instinto fosse protegê-la. Sua irmã gêmea sempre havia sido a mais impulsiva entre eles; às vezes o fazia querer esganar ela por isso. Todavia, ele fez a única coisa que poderia fazer em uma situação como aquela, ficou sentado ao seu lado, com a porra do pano ensanguentado em mãos, concentrado na tarefa em mãos.
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  Pressionou com um pouco mais de força do que deveria o pano molhado com álcool isopropílico contra o ferimento dela. Trincou os dentes, segurando-a por instinto, as unhas fincando-se na pele dela quando ela tentou se debater contra ele e livrar-se de seu toque. Os olhos de Marcelle cintilaram com um aviso silencioso, os lábios retorcidos para cima de seus dentes, como se ela estivesse prestes a grunhir como a porra de um gato, enquanto %Darren% unia as sobrancelhas, fuzilando-a com o olhar. Um comentário silencioso pairando pela expressão irritada dele: “Era o que você queria, não era? Então aguenta”. Mas de todos que ele conhecia, Marcelle era a última pessoa que aceitava de bom grado o que quer que %Darren% comandasse.
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  Não, sua irmã gêmea era volátil, impulsiva e teimosa como a porra de uma porta. Às vezes o fazia se questionar por que diabos ainda tentava protegê-la quando ela parecia estar em uma missão pessoal para se machucar. Mas então ele rapidamente se culpava e censurava, se ele fazia o que fazia era para ter certeza que ela tivesse a porra de um futuro. Algo melhor do que aquilo. Só porque ele estava condenado, não significava que ela também precisava estar. 
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  — Para, porra! Se vai continuar fazendo isso, então não precisa continuar tentando me ajudar com meus ferimentos, %Darren%! — rosnou Marcelle, sua voz rouca evidenciando o desgaste da luta perdida naquela noite, estava com raiva, estava querendo discutir, e como %Darren% era o que estava mais perto, ele sabia que ela explodiria com ele. Não se importava, mas igualmente não era exatamente do tipo que perdoava fácil. %Darren% não se moveu, apenas empurrou o braço de Marcelle. — Me solta, %Darren%. Agora!
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  %Darren% a soltou, mas inclinou-se para frente, invadindo o espaço pessoal dela e trincando os dentes, sustentando o olhar dela com uma fúria gélida crescente. 
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  — O quê? Eu achei que você gostasse de sentir dor, tá reclamando por que agora? — cuspiu ele, entredentes. Marcelle fuzilou-o com o olhar, parecendo estar considerando acertá-lo. — Vai em frente, me acerta, porra. Quebra a minha cara, é o que você quer fazer agora? Depois de apanhar como a porra de uma cadela de rua? Vai em frente então, porra, tô esperando. Banca a durona comigo.
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  — Você quer falar alguma coisa sobre apanhar como a porra de um cachorro, %Darren%? Logo você?— Marcelle soltou uma risada afiada, e %Darren% ignorou a maneira com que seu próprio temperamento estava começando a ceder. Marcelle costumava ser uma parte de si, uma parte de sua alma, e sempre seria. %Darren% não tinha dúvidas disso, eles eram gêmeos, não havia um mundo que ele conhecia em que ela não estivesse, e ele sabia que não haveria um mundo para ele se ela não estivesse mais ali. Mas igualmente, Marcelle era um constante teste para sua própria paciência: porque ele sabia que ela merecia melhor do que aquela vida, porque ele sabia que ela conseguiria ter uma vida melhor que aquela, e todavia, por algum motivo que ele não conseguia compreender, a desgraçada parecia desesperada para parecer durona e no controle. 
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  As palavras dela doeram. Mais do que ele iria querer admitir. O gosto amargo em sua boca era pungente, e por uma fração de segundos ele a encarou com ressentimento. Mas %Darren%, como sempre, não respondeu. Deixou que as palavras dela afundassem no silêncio que agora se estendia entre os dois. Por uma fração de segundos, ele viu a incerteza brilhar pelos olhos dela, a dúvida carregada pela certeza de que ela havia ultrapassado uma linha com ele, mas então havia desaparecido. %Darren% não se deu ao trabalho de respondê-la, voltando a linha de seu olhar para o corte na nuca dela. 
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  Sentiu a familiar emoção, espiralando por entre sua própria raiva, perdida como um navio à deriva, estava a culpa. A culpa por vê-la se tornar uma extensão de uma parte de si que %Darren% odiava. A culpa por não ser capaz de oferecer uma vida tranquila e segura para ela. A culpa de vê-la tentar se autodestruir como se essa fosse a saída. Era estranho, e até mesmo hipócrita de sua parte tentar censurá-la por suas escolhas, quando %Darren% era o filho da puta que tomava as piores decisões
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  — Se quer morrer, me poupe o trabalho de ter que assistir, Marcelle — foi tudo o que %Darren% disse, jogando o pano ensanguentado sobre a perna da irmã e levantando-se da cadeira. Ele estalou o pescoço, caminhando descalço em direção ao banheiro único do pardieiro que Doc havia permitido que eles vivessem. Não era muito, sequer parecia limpo na maioria das vezes, e somente nas últimas semanas, %Darren% havia gastado uma nota consertando o vazamento de gás e se livrando de um rato, ainda assim, era o único lugar que eles tinham. 
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  Marcelle e %Darren% eram ambos orgulhosos. O traço compartilhado talvez fosse a única memória de sua mãe, embora fosse Marcelle a ter os olhos dela. Não que fosse uma boa memória para se guardar, ou que %Darren% gostasse de pensar sobre.
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  Não haveria desculpas ali; Marcelle não se desculpava, tinha aquela necessidade estúpida de sentir-se certa sobre tudo, de achar que suas justificativas eram apenas as que importava, apesar dos ferimentos que causava, não reconhecia seus defeitos, e se o fazia, justificava-os com os dos outros. E %Darren% era rancoroso o suficiente para não querer perdoar, implacável demais para possuir o sentimento de esperança por qualquer coisa, para ser algo além da figura estoica que havia se tornado. Ele não queria ser. Funcionava de forma simplória, até mesmo prática: ato e reação, nada mais. 
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  Abriu a torneira, deixando a água escorrer por entre seus dedos, esfregando-os com as unhas, com irritação e prática ensaiada. Era normal %Darren% tentar esfregar sangue de suas mãos para ser sincero, tirando as tatuagens que as cobriam ocultando cicatrizes e expondo suas ligações com determinadas gangues ao redor de Nova Orleans, sangue era o que mais cobria e impregnava suas mãos. Manteve seus olhos fixos em suas mãos, sem arriscar erguer o olhar e encarar seu próprio reflexo. Da última vez que o fizera havia quebrado com socos até que suas mãos estivessem em carne viva, tivera que conseguir um melhor e mais caro para Marcelle, e prometer que não o faria mais. A ideia, todavia, de erguer seu olhar e deparar-se com o que voltaria a encará-lo era o suficiente para o colocar no limite de seu controle. Não era nada relacionado a sua aparência, na verdade ele sabia que era a porra de um gostoso, os olhares que recebia, os flertes que se permitia entreter-se deixava bem claro que era atraente e bonito, o problema era o formato de seu rosto, os cabelos, a cor de sua pele, mesmo os olhos. 
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  %Darren% nunca enxergava a si mesmo no reflexo de espelhos. 
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  Mal havia conseguido limpar todo o sangue de Marcelle de suas mãos quando desligou a torneira, alçando uma toalha de rosto qualquer que estava na bacia de roupas sujas e então voltou para o único outro cômodo que ele dividia com a irmã. A cama havia ficado para Marcelle, é claro, %Darren% quase nunca estava em casa, e quando estava, preferia dormir no chão, perto da janela, sobre o velho tapete. Às vezes Marcelle tentava o arrastar para a cama, mas ele sempre acordava antes que ela sequer pudesse tocá-lo. 
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  — Russo ou Irlandês? — foi tudo o que %Darren% questionou, seu tom baixo e terrivelmente calmo.
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  Marcelle tencionou-se no ato de pegar o band-aid para colocar sobre sua sobrancelha, as mãos ainda envoltas nas faixas de luta que ela usava para as lutas clandestinas que Doc incentivava em um dos subsolos da Boca do Inferno. %Darren% não ergueu seu olhar, permaneceu concentrado no trabalho de enxugar suas mãos, esfregando os calos que as revestiam, as palavras em latim “Averno Mori” estavam tatuadas, cada letra em um dedo respectivo, com uma tipografia gótica e grossa. Eram um bom lembrete para ele; um lembrete de qual era sua meta pessoal. %Darren% esperou pacientemente pela resposta de Marcelle, tencionando sua mandíbula com força. Ele não sairia dali sem uma resposta, e Marcelle sabia.
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  — Javier, na verdade — Marcelle sussurrou, hesitante, parecendo tentar ler a expressão de %Darren%, e teria conseguido, se ele não tivesse escolhido empurrá-la para longe. As palavras dela ainda estavam frescas e pairando pelo espaço do apartamento pequeno, martelando ao fundo da mente dele, %Darren% não iria mais trazer aquele tópico para Marcelle. Talvez estivesse sendo duro demais com sua irmã gêmea, talvez estivesse sendo até mesmo cruel, mas se ela queria bancar a durona, a impenetrável, então ele a trataria como desejava. — %Darren%… %Darren%, o que você vai fazer?
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  %Darren% abriu um sorriso sarcástico, encarando Marcelle. Não disse nada, não precisou dizer, ele sabia que ela tinha consciência do peso de seu silêncio, sabia que ela podia identificar nas entrelinhas o que diabos estava passando pela mente de %Darren% e exatamente o que ele iria fazer agora. 
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  — René chegará em 15. Você vai ficar aqui até eu voltar. — %Darren% retirou dois cartões de sua carteira jogando na direção das mãos de Marcelle, dando de ombros, com indiferença. — Compra o que quiser
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  — Ficou maluco? Eu não vou ficar…
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  — Eu não estou pedindo, Marcelle! — %Darren% a cortou, sentindo sua voz se elevar alguns tons acima, e uma parte de si teria se sentindo culpado por fazê-lo, especialmente pela maneira que ela havia se encolhido. Ele poderia querer esganar ela muitas vezes, ele podia não colaborar ou aceitar suas palavras, mas eles vinham do mesmo lugar, havia crescido e escapado do mesmo inferno, ela era, de certa forma, a outra parte de sua alma, ele a conhecia bem o suficiente para ter cuidado com seu tom de voz, para medir suas palavras e tentar ser mais pacífico do que de fato ele era, mas as palavras dela ainda estavam pulsando por seus ouvidos, ainda estavam frescas demais. Então ele não se importou. Resolveria isso mais tarde, eventualmente ele sempre pedia desculpas mesmo que fosse apenas para manter uma falsa sensação de paz: nunca Marcelle. — Você fica, entendeu?! Quando eu voltar, quero encontrar você aqui, com René. Se pensar em fazer alguma coisa, se pensar em fugir, seja para o que for, você não vai ligar para mim, entendeu, Marcelle? Vai resolver sua merda sozinha, de acordo?
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  %Darren% a conhecia bem o suficiente para saber que Marcelle %Gauthier% nunca resolvia nada sozinha; %Darren% existia para isso, certo? Consertar e mediar as merdas que ela fazia. 
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  Sem mais nenhuma palavra, marchou para fora do apartamento, parando apenas para pegar sua jaqueta e jogá-la por seus ombros, cobrindo seu rosto com o boné escuro e o gorro da jaqueta. Não o fazia por paranoia, na verdade, boa parte do submundo criminoso de Nova Orleans sabia onde ele vivia, %Darren% não era o tipo de pessoa que se escondia, muito menos fugia, mas com Marcelle no apartamento, ele não arriscaria. Não com ela ferida
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  Não demorou muito para chegar a Boca do Inferno. Os letreiros vermelhos da boate piscavam, chamando a atenção de qualquer desesperado ou idiota o suficiente que desejasse ter uma noite regada a prazeres carnais, drogas e a completa obliteração de suas morais e consciência. %Darren% não podia culpar ninguém que estava na fila de querer entrar no lugar, todo mundo possuía seus próprios demônios para lutar, se pudesse os fazer amortecido, que mal teria? %Darren% havia tido o cuidado de não trazer uma arma ali, então, quando o segurança, Jack — ou era Jerry? —, o revistou, tudo o que %Darren% fez foi abrir um sorriso sarcástico e lançar uma piscadela, flertando com o segurança. 
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  Jack — ou Jerry — não havia ficado feliz. 
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  %Darren% caminhou por entre os corpos movendo-se em sincronia ao ritmo de alguma música trance eletrônica que parecia vibrar por seus ossos. As luzes estroboscópicas giravam ao redor criando padrões aleatórios e abstratos pelos corpos e superfícies impecáveis de mogno que cobriam o espaço. O assoalho de madeira escura abafaram as solas de suas botas de combate, esforçadas e sujas permanentemente de sangue seco. %Darren% alçou de uma mesa qualquer um copo pela metade com whisky, girando para a esquerda ao desviar de alguns bêbados rindo e apostando sobre quem iria comprar o que aquela noite, passando por Ivy e Beatriz disfarçadas, com a mercadoria em suas bolsas a tiracolo para espalhar e vender para o máximo de compradores que conseguissem. Os pequenos pacotes com pó ou balas coloridas, uma indicação da verdadeira motivação de estar-se ali. 
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  %Darren% marchou na direção de Chase, um dos seguranças internos de Doc, fazendo questão de esbarrar no peito dele, derramando o copo pela metade de whisky em suas roupas e fazendo uma cena de arrependido, mantendo o olhar de Chase no copo e na mão dele, tentando ajudá-lo a enxugar o estrago, ocultando sua mão dominante, esquerda, que disparou para a arma no coldre do homem. Regra número um do furto: sempre que for roubar a carteira, aponte para o relógio. %Darren% piscou para Chase, tentando provocá-lo antes de voltar a caminhar. 
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  Com um gesto rápido retirou o tambor daGlock 12mm, contando-a mentalmente. 9 balas. %Darren% voltou a colocar o tambor no lugar, e então destravou a arma, engatilhando-a com um movimento rápido. Serviria. Mirou no teto e disparou: uma, duas, três vezes, propositalmente para criar um pandemônio no lugar. %Darren% caminhou até o bar, escorando-se em um dos bancos, apoiando seus cotovelos sobre o mogno frio, enquanto assistia, desinteressado, as pessoas se empurrarem e gritarem umas com as outras, tentando escapar dali. %Darren% não precisou virar seu rosto para a esquerda para saber que Chase estava correndo em sua direção. Então %Darren%, igualmente, não hesitou. Estendeu o braço esquerdo na direção de Chase e disparou.
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  O corpo desabou com um baque audível e molhado, acompanhado de gritos em pânico dos bêbados tentando escapar dali. Mas a confusão toda havia tido o efeito que ele queria. De algum lugar do primeiro andar, Ziyad Karam, ou simplesmente Doc, estava descendo a passos vagarosos. Estava com seu terno impecável, de corte italiano e visivelmente caro, de um azul profundo quase preto. O rosto simétrico e equilibrado revelava uma cicatriz sobre o olho direito, mas sua visão permanecia impecável, sombras se projetavam em sua face pelas, agora, luzes acesas do espaço, acentuando as maçãs do rosto altas e elegantes, o nariz reto e proporcional, os cabelos cortados bem curtos eram crespos, levemente grisalhos nas laterais, mas ainda escuros como a noite no topo. Carregava enrolado no pulso direito um rosário de contas de olhos de tigre, a cruz, de metal, era elaborada e possuía um belo rubi ao centro. Atrás dele, mais dois seguranças caminhavam, prontos para atirarem em %Darren%, se Ziyad não tivesse estendido a mão para impedi-los. 
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  A expressão de %Darren% permaneceu vazia. Terrivelmente calma
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  — Que bom que agora tenho sua atenção, Doc — %Darren% murmurou calmamente, sua voz escorrendo, aveludada, com falsa simpatia. Ele inclinou sua cabeça para o lado, sustentando o olhar de Doc, seus olhos, insondáveis, cintilando como os de um gato. — Vamos conversar. — Ele não estava fazendo um pedido. 
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  Nota da Autora: não era para ter ficado assim tão grande, eu juro!

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Lelen

Eu amo o POV do Darren UAHDOUAIHDASOIDBAOSID
Quero ver esse embate do Darren com o Doc nesse passado aí. E quero ver quando o bonito se reencontrar com a “esposa”. E curiosa pra saber como esse tal casamento foi acontecer HAHAAHAH
E MARCELLA AINDA EXISTE NO PRESENTE? O Darren se importando com alguém, meu corazaum <3

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