5 • Chamas
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As estrelas que brilham mais forte,
são as que queimam mais rápido.
[ Gossip Girl ]
Enquanto há vida, há também esperança; e segundo alguns, a esperança é como uma chama acesa que ilumina uma noite chuvosa, afastando os pesadelos e atraindo bons sonhos. Entretanto, nem sempre uma vela acesa pode ser algo positivo, não quando o fogo é nosso inimigo.
Verão de 2014
As férias de verão sempre significaram o fechamento de um ciclo na vida de um estudante, seja no fundamental, ensino médio ou universitário. Não há nada melhor que o final de um ano letivo e o início de vários planos para três meses de sol e descanso. Porém, nem todos sentiam a mesma sensação de encerramento e novos começos, para %Jeremy% a conversa inesperada com %Amelia% pela madrugada o havia deixado ainda mais intrigado, pois a menina o havia respondido com uma pergunta, deixando-o sem reação.
O que você faria se pudesse ver a morte de uma pessoa, antes mesmo de acontecer? Sempre que ele pensava nessa pergunta, era como se a ouvisse com a voz da vizinha em sua mente. Deitado em sua cama, manteve o olhar para a janela, apenas esperando por um mínimo som vindo do outro lado da parede. Por ser dois anos mais velho, ambos os adolescentes não frequentavam a mesma escola, o que explicava seus encontros na escadaria lateral apenas no turno da noite. Um ponto negativo para a menina, que se sentia ainda mais curiosa sobre os moradores do apartamento ao lado, que lhe despertou o lado mais intenso e doloroso de seu dom.
— O que ela quis dizer com aquela pergunta? — sussurrou %Jeremy%, ao erguer seu corpo no impulso do seu questionamento. — Que garota estranha, por que está monopolizando meus pensamentos? Nem é tão atraente assim.
Ele bufou um pouco e se levantou da cama. Caminhando até o guarda-roupa, retirou uma blusa de moletom preta e vestiu, pegando as chaves e jogando no bolso, saiu pela janela, fechando-a por fora e trancando com cadeado. Nem havia terminado a primeira semana de férias, %Jeremy% já estava se sentindo entediado e por não ter dinheiro suficiente, resolveu aceitar o trabalho de meio período como serviços gerais no Batalhão de Corpo de Bombeiros. Uma oferta irrecusável do capitão, após um pedido silencioso do pai.
As coisas não haviam melhorado entre ele e o pai, pelo contrário, bastava uma palavra dita errada que as discussões se iniciavam, dificultando ainda mais o diálogo de ambos. A esperança depositada em um novo começo em Chicago, perdia forças dia após dia, alimentando ainda mais o desejo de %Jeremy% de voltar para a cidade na qual se sentia em casa.
— Olha só nosso aprendiz — brincou Muse, um dos bombeiros, ao vê-lo entrando no refeitório pela passagem dos funcionários da limpeza. — Chegou cedo hoje.
O rapaz permaneceu em silêncio, seguindo para a área da cozinha onde retirou o avental da primeira gaveta do armário da pia e vestiu rapidamente. Seu trabalho, apesar de bem remunerado, era simples, apenas garantir que o Batalhão tivesse sua geladeira abastecida, ou seja, cozinhar para eles.
— Será que está de mau humor? — indagou Barnet, num tom baixo, ao afagar o cachorro.
— Espero que não passe para a comida — reclamou Muse, cruzando os braços, enquanto se inclinava mais no sofá. — Soube que as pessoas conseguem passar o que sentem para a comida quando cozinham.
— Deixe-o em paz. — Hill, outra bombeira, o repreendeu rindo e se aproximou da bancada de refeições que separava a cozinha da área de descanso.
O jovem continuou com sua atenção voltada para os ingredientes que tinha na geladeira e nos armários, com os fones no ouvido não se importando com os comentários alheios. Minutos de concentração, até que notou-se incomodado pelo olhar fixo de Hill para ele.
— Deseja alguma coisa? — perguntou ao retirar os fones do ouvido, voltando a atenção para ela.
— Não, só estou te observando — disse ela, abertamente suas intenções. — Que seu pai não me ouça, mas eu acho sexy homens cozinhando, não consigo me controlar.
Ela soltou uma gargalhada maliciosa, ao se lembrar de algumas de suas aventuras em dias de folga.
— Pare de dizer essas coisas — Louise, a paramédica, a repreendeu segurando o riso — ou os dois ali vão te denunciar para o conselho tutelar.
— Credo… Não fale como se eu fosse uma papa anjo. — Hill se fez de ofendida, e riu mais um pouco. — Apenas disse que admiro homens de cozinham.
— Então é por isso que você não quer sair comigo? — indagou Muse, ao espichar o pescoço para ouvir a conversa delas.
— Eu não saio com você porque é um babaca, o fato de não cozinhar é um mero detalhe — confessou Hill, sem se importar com os sentimentos dele.
Algumas risadas soaram pelo ambiente com uma careta que surgiu no rosto de Muse, até que perceberam a presença do chefe Brown, do capitão Watts e do tenente responsável pela equipe do caminhão 51, Jorge Mills. Logo todos ajustaram suas posturas, deixando expressões mais sérias no rosto, enquanto %Jeremy% colocou seus fones no ouvido novamente, demonstrando não se importar com a presença do pai. Ele sabia que trabalhar mesmo que meio período no Batalhão, era uma forma de seu pai o controlar e vigiar. Algo que o deixava ainda mais irritado internamente.
— Bem, como eu dizia… — disse Hill, ao se virar novamente para o jovem para observá-lo.
Atenção, caminhão 51, esquadrão de resgate 3, ambulância 61
chamada de incêndio na região do Bright Park,
uma loja de penhores…
Assim que ouviram o chamado, todos os bombeiros correram para os carros seguindo em direção à localização especificada pelo rádio. %Jeremy%, aproveitando o momento de silêncio, continuou sua tarefa sendo o mais rápido e caprichoso possível para terminar antes da volta das equipes. Por algum tempo, esteve apenas na companhia do cão apelidado Mascote, até que notou a presença de alguém se aproximando.
— %Amelia%?! — disse ao se virar, deparando-se com ela.
— Oi… — Ela se encolheu um pouco, também surpresa por vê-lo ali.
— O que faz aqui? — indagou ele, movendo o olhar para a travessa de vidro em sua mão.
Visivelmente o conteúdo dentro era uma sobremesa, preparada pela menina.
— Bem… Prometi ao chefe Brown que faria essa sobremesa para o pessoal — explicou ela, meio sem graça pelo encontro.
Após a conversa da madrugada, %Amelia% somente havia visto o rapaz de longe e pelos corredores do prédio onde moravam. Talvez por evitá-lo, pois quanto mais perto ela chegava, mais ela pensava em sua primeira visão e de como se sentia envergonhada pelas madrugadas que acordava aos gritos, com a certeza que ele ouvia do outro lado da parede. Afinal, seus sonhos eram ainda mais intensos e cruéis.
— Está tudo bem? — indagou %Jeremy%, se afastando da bancada e se aproximando mais dela, seu olhar ficou inexpressivo. — Há dias não a vejo, mas consigo ouvi-la do meu quarto de madrugada.
— Me desculpe — disse ela, quase sussurrando ao desviar seu olhar para o chão.
— Preferia que dissesse ao invés de se desculpar — retrucou o rapaz, com frustração pela forma enigmática que a garota agia.
— Eu preciso ir. — Ela colocou a travessa em cima da mesa de centro em frente aos sofás. — Vou deixar isso aqui, pode colocar na geladeira se quiser.
— Espere. — Ele tomou impulso e a segurou pela mão, fazendo-a se voltar para ele. — Você não está bem, é visível.
%Amelia% respirou fundo tentando se conter internamente, porém, assim que seu olhar encontrou o dele, instantaneamente a garota ficou estática, sendo transportada para mais uma visão.
Novamente no prédio comercial em chamas, %Amelia% estava no mesmo escritório que da primeira vez, entretanto, havia algo de diferente naquele lugar, ou consigo mesma, ela conseguia sentir o calor do fogo, que refletia em seu corpo elevando sua temperatura, porém, a mão que %Jeremy% havia segurado, permanecera fria. Erguendo a mão, colocou-a na altura do coração o sentindo acelerado, respirando fundo, deu o primeiro passo para se retirar daquele cômodo. Ao sair pela porta, %Amelia% não caminhou para a mesma direção de antes, ela sabia muito bem o que possivelmente poderia ver naquela parte do prédio pelos sonhos que teve ao longo dos dias, então, se desviando para as escadas, desceu até o andar térreo onde era a livraria.
— Força, %Amelia%, você precisa entender esta visão — sussurrou para si mesma, ao fechar os olhos por uns instantes e reunir forças.
Ao abri-los novamente, ela notou que entre as chamas começaram a flutuar ciscos de cinzas, misturados a pequenos pedaços de papéis dos livros com as bordas queimadas. Esticando as mãos para pegar um, deixou que o minúsculo pedaço pousasse em sua mão, e então olhou o que tinha escrito.
— Um, zero, dois, zero, um, quatro… — sussurrou ela, lendo os números descritos em forma de data — Dez, outubro… Este ano…
De repente, %Amelia% começou a sentir falta de ar, talvez por seu coração começar a se angustiar com a nova informação, combinada com a cena dos demais sonhos que a deixou desesperada.
— %Amelia%! — A voz de %Jeremy% despertou-a do transe.
Recobrando a consciência, a garota logo percebeu estar sendo amparada pelo rapaz, que novamente demonstrou preocupação no olhar. A guiando até o sofá, a ajudou a se sentar e correu até a cozinha para pegar um copo com água.
— Aqui, beba — disse ele, lhe dando o copo.
— Obrigada. — Num tom baixo, ela forçou um sorriso e deu o primeiro gole.
— Você está quente — disse %Jeremy%, assim que colocou a mão direita na sua testa.
— Não estou. — %Mia% o tocou com sua mão direita para argumentar, a mesma que ele havia segurado. — Está tudo bem.
— Não é o que o restante do seu corpo diz — retrucou o garoto, encostando de leve com as costas de sua mão no pescoço dela.
— Mas estou. — Ela terminou de beber a água e se levantou no rompante, sentindo uma leve tontura em seguida.
— Viu. — Ele a amparou, de imediato. — Eu disse que não está bem.
%Amelia% respirou fundo, contra fatos não havia argumentos, mas como já estava acostumada com sua condição, não queria preocupá-lo.
— Poderia, por favor, fingir que estou? — pediu ela, com o olhar quase marejado.
— Se me der a sua palavra que vai me contar o porquê.
— O porquê? — indagou ela, confusa.
— Por que me fez aquela pergunta? — explicou ele.
Ela assentiu com a cabeça, então se afastou um pouco.
— Eu tenho que ir — anunciou, ajeitando a bolsa no ombro.
— Vou com você. — %Jeremy% se ofereceu de imediato, não queria deixá-la sozinha pelas ruas.
— Não estou indo para casa — explicou %Mia% , em tom de recusa.
— E vai para onde? — perguntou o rapaz, curioso. — Para a DP do seu pai?
— Não, estou indo para meu curso — explicou, rindo baixo. — Confeiteiros não tiram férias.
%Amelia% sabia que fisicamente não estava mesmo bem, porém, ela precisava de algo para extravasar sua mente e não ficar remoendo sua visão o restante do dia. E somente a cozinha a ajudaria com isso. Com as férias, seu tempo livre da escola havia sido preenchido por aulas extras do curso de confeitaria, um curso de desenho intensivo de verão e as constantes visitas à Dra. Gilmour, gastos a mais no orçamento familiar, que a deixava ainda mais preocupada com o pai.
— Hum… — Ele se viu um pouco mais confuso, porém manteve sua decisão. — Vou com você.
— Você quer ir comigo? — %Amelia% não entendia o motivo do rapaz querer se aproximar a cada momento que ela tentava se afastar.
— Por que está surpresa? — indagou, suavizando mais o olhar.
— É que… Eu sou tão estranha às vezes, não se importa com isso? — questionou %Mia%, impressionada.
— Ninguém é perfeito. — Ele sorriu de canto, discretamente. — Vamos? Estou de carro.
Ela assentiu com a cabeça e o seguiu.
— Mas… O que estava fazendo na cozinha? — perguntou ela, no caminho.
— O jantar do Batalhão — respondeu o garoto. — Eu cozinho e o chefe Brown me paga.
%Jeremy% também não entendia o motivo de ter se aproximado tão rapidamente de %Amelia%, afinal, ela era o contrário de tudo que o atraía em uma garota. Sua ousadia estava apenas nas palavras e argumentos, e talvez fosse isso que chamava a sua atenção. Fazendo um comparativo com sua namorada, Clair era popular, tinha um lado rebelde que o atraía, além das belas curvas que faziam a adolescente se mostrar ainda mais sensual para ele.
Contudo, naquela tarde, o jovem, sem perceber, se viu inteiramente encantado por %Mia%, ao observá-la concentrada em sua aula de confeitaria brasileira. O brilho nos olhos dela o fazia lembrar sua mãe e dos raros momentos divertidos que tinham em família; dos biscoitos com chocolate quente no inverno e do sorvete caseiro no verão. Sentimentos bons, gerados por um simples sorriso de uma garota que ele nem conhecia direito, mas que lhe transmitia paz e
esperança.
— Estou impressionado — comentou ele, atento aos movimentos da garota na bancada de trabalho, enquanto a mesma enrolava o brigadeiro em suas mãos, transformando a massa em uma bolinha.
— Com o fato de terem te deixado entrar na cozinha? — indagou %Amelia%, concentrada no que fazia.
— Com o seu amor pelo que aprende aqui — explicou o rapaz.
— Experimenta — disse ao aproximar a bolinha perto da boca dele.
No susto, %Jeremy% apenas abriu a boca e a deixou colocar dentro. A sensação de déjà-vu o preencheu, lembrando de uma cena parecida com sua mãe.
— Tudo bem? — perguntou %Mia%, percebendo a mudança em seu olhar.
— Sim. — %Jeremy% olhou para ela e forçou um sorriso. — Estou bem, e essa coisa de chocolate, como chama mesmo?
— Brigadeiro — respondeu a garota, fingindo acreditar nele. — É uma sobremesa do Brasil.
— É boa, você gosta de chocolate?
— Sim, e você? — respondeu ela.
— Também. — Ele riu baixo e brincou com uma frase de efeito de sua mãe. — Nunca confie em alguém que não gosta de chocolate.
Mesmo preocupada com suas visões, %Amelia% se deixou aproveitar aquela tarde na companhia mais inesperada que poderia ter. Um sutil momento de descontração e diversão, que os fez perder a noção de tempo e espaço, fazendo %Jeremy% desejar que aquele dia não terminasse.
— Você quer tentar?! — perguntou %Mia%, ao separar os ingredientes da terceira receita que testaria.
— Você não deveria ter algum professor te orientando? — indagou %Jeremy%, mais uma vez achando estranho estarem sozinhos naquela enorme cozinha.
— Confeiteiros não tiram férias, mas meus professores ganharam duas semanas de folga, nós alunos podemos utilizar a cozinha no recesso para treinar as receitas que aprendemos — explicou a garota, ao passar o olho em seu caderno de anotações, conferindo se pegou os ingredientes corretos. — E sempre tem os monitores por perto, em caso de emergências.
— Emergência, tipo, você colocar fogo na cozinha? — brincou ele, rindo baixo.
— Não diga isso. — Ela o repreendeu de imediato, num tom temeroso e sério, seu olhar demonstrou medo.
— Me desculpe… — disse %Jeremy%, mantendo seu olhar na garota, vendo a preocupação em seu rosto. — Eu não deveria brincar com algo sério. — Confessou.
— É que… — %Mia% respirou fundo.
Aquela era sua zona de conforto, o lugar seguro para onde fugia quando não queria enfrentar seus sonhos reais e os medos causados por seu dom. %Amelia% não queria imaginar que seu universo da cozinha poderia ser um lugar de risco que a faria associar a visão que tanto queria esquecer.
— Que?! — insistiu %Jeremy%, atento.
— Nada. — Ela desconversou e logo mudou de assunto. — Você quer ou não tentar?
— Não sei se levo jeito com doces — confessou o rapaz, meio tímido.
— Ouvi do seu pai que sua comida é muito boa e você está cozinhando para o chefe Brown, tenho certeza que vai se sair bem com as sobremesas também — disse a garota com o olhar animado.
%Jeremy% assentiu e se mostrou atento às explicações da moça, principalmente da forma em que contava a história do doce.
— Tem certeza que pelo nome, é mesmo brasileira? — indagou ele, fazendo uma careta engraçada.
— Sim. — Ela riu. — Palha Italiana é mesmo curiosa pelo nome, mas é uma sobremesa cem por cento brasileira.
— Italiana — disse num tom baixo. — Só por isso já nos deixa achar que é da Itália.
— Dizem que brasileiros adoram pregar peças — contou ela, rindo também. — Eu comecei a me interessar pelas sobremesas brasileiras quando comi uma na casa da minha…
Ela se limitou a dizer sobre a doutora Gilmour.
— Bem, eu comi uma sobremesa chamada Petit Gateau — continuou %Amelia%, voltando a se empolgar — e acredite, mesmo tendo o nome francês, é uma sobremesa brasileira.
— Isso me choca — comentou o rapaz.
Eles riram juntos. Então começaram o preparo da receita. Em um dado momento, %Jeremy% notou a seriedade e concentração de %Amelia%, o deixando impressionado novamente. Em uma ação espontânea, ele pegou um punhado de cacau em pó e jogou na garota, fazendo-a desconcentrar.
— Ahh… — Ela ficou alguns segundos sem reação, até que pegou um punhado também e jogou nele, descontando.
Assim iniciou a pequena guerra de cacau em pó na cozinha, fazendo um correr atrás do outro, em risos e gargalhadas com olhares vingativos. Em um dado momento, %Amelia% esbarrou na caixa de leite que havia esquecido de guardar, a derrubando no chão. A garota, ao tentar limpar, se desequilibrou quase caindo ao chão, por sorte, %Jeremy%, que estava próximo, a amparou ao sustentar seu corpo segurando-a com a mão direita ao tocar em suas costas.
Mais uma vez %Mia% se viu em extrema proximidade do rapaz, causando o acelerar de seu coração, sendo acompanhado por suas pernas trêmulas. Os olhares encontrados, como uma cena de dorama, em que até mesmo a respiração do casal segue sincronizada. Para a garota, em sua condição mental e psicológica, ela jamais poderia pensar ou desejar viver um romance juvenil.
Mas então, o que estava acontecendo com ela naquele momento? %Jeremy% era seu vizinho, o gatilho que afetava seu dom, fazendo-a ter visões acordada. Teoricamente, um perigo para sua saúde mental, não somente por este motivo, como também por ser bonito, charmoso, misterioso e ter uma namorada. Mas um sentimento novo estava surgindo, talvez de ambos os lados, algo que poderia fornecer o refrigério que tanto precisavam ou machucá-los ainda mais.
— Obrigada — sussurrou ela, tentando controlar os batimentos, percebendo a sutil aproximação dele a ponto de sentir sua respiração.
Era sua segunda vez tão próxima de um garoto e, curiosamente, com o mesmo garoto. Não sabia se estava preparada para vivenciar esta parte de uma vida normal.
— Me permite testar uma coisa? — %Jeremy% pediu em sussurro, deixando seu rosto ainda mais próximo do dela a ponto de seus lábios estarem a centímetros de distância.
— O que seria? — indagou ela, num misto de medo e curiosidade que deixava seu coração desnorteado, sem saber se acelerava mais ou parava de vez.
Ele iniciou o beijo de forma suave e doce, percebendo de imediato que aquele era o primeiro na vida de %Amelia%. De maneira respeitosa, %Jeremy% manteve sua mão nas costas dela, trazendo seu corpo para mais perto, enquanto sua outra mão se ergueu para acariciar a face da garota. Internamente, %Mia% se encontrava em um misto de emoções e pensamentos, não a deixando raciocinar direito, porém, fazendo-a sentir cada pequeno detalhe do momento que vivia.
— Eu… — sussurrou ela ao respirar fundo, após ele se afastar.
%Jeremy% manteve seu rosto colado ao dela por alguns segundos. O jovem estava tentando absorver o impacto de sua ação involuntária, pois não conseguia entender o motivo que o levou a tomar tal atitude. Beijar %Amelia% não estava em seus planos, e o que mais o assustava, era seu desejo de fazê-lo novamente, mesmo sabendo que havia agido de forma errada e provavelmente leviana.
— Me desculpe — disse o rapaz, ao finalmente voltar a si e se afastar dela.
— Precisamos limpar essa bagunça… — A garota respirou fundo novamente, tentando normalizar a situação e suavizar o clima de constrangimento formado entre eles.
— Sim… — Assentiu ele, se afastando um pouco mais.
Após limparem tudo, %Amelia% decidiu que era hora de voltarem para casa. A palha italiana teria que esperar por uma próxima oportunidade para ser testada pela jovem. Assim que chegaram, a garota seguiu pela entrada principal, enquanto %Jeremy% se direcionou para as escadas na lateral do prédio. John disfarçou seu olhar para o relógio no pulso com o abrir da porta e não querendo sufocar a filha de perguntas, apenas a convidou para prepararem o jantar juntos.
As semanas se passaram…
Mesmo com momentos de silêncio de %Amelia% ocultando o que estava de errado com suas visões e sonhos reais, pai e filha nunca foram tão unidos e cúmplices como agora, algo que não acontecia no apartamento ao lado, em que as cobranças de Gregori sobre o filho ter mais responsabilidade com seu emprego arranjado no Batalhão, e exigências de explicações sobre suas escapadas à tarde, os faziam discutir com frequência.
De um lado, o capitão Watts tinha medo do filho fazer amizades ruins na nova cidade e sabendo que as gangues de Chicago eram ainda mais perigosas, o preocupava ainda mais. Do outro lado, %Jeremy% já se sentia cheio das ordens e questionamentos do pai e de sua falta de confiança. O jovem não queria contar sobre sua proximidade com %Mia%, pois tinha medo do pai estragar tudo, contando para o pai da garota. Seus antecedentes não eram bons e infelizmente não tinha o troféu de filho do ano para apresentar.
— Abaixa o tom para falar comigo, rapaz. — Gregori elevou mais sua voz, com o tom de repreensão. — Você me deve respeito enquanto morar debaixo do meu teto.
— Não seja por isso. — %Jeremy% saiu no rompante da sala e se trancou no quarto.
— %Jeremy%, aonde pensa que está indo, eu ainda não terminei! — gritou Gregori, seguindo atrás do filho e batendo na porta bruscamente. — %Jeremy%! %Jeremy%, abra essa porta! %Jeremy%.
Do lado de dentro, o filho, revoltado com a situação, apenas pegou sua mochila e jogou algumas roupas dentro. Sua determinação em sair de casa não o deixou lembrar da promessa para mãe e, ao checar no aplicativo do banco o valor que tinha na conta, guardou o celular no bolso, pegou a carteira e saiu pela janela. Nas escadas, deu de cara com %Amelia%, que disfarçou seu olhar de preocupação.
Ambos, ainda constrangidos, evitavam mencionar sobre o beijo sempre que se viam. E agora, para ela, havia uma sensação ruim em seu coração, trazendo a certeza da partida do rapaz antes mesmo das palavras confirmarem.
— Não deveria ir assim — disse ela, no impulso da coragem. — O seu pai só está preocupado com você…
— Falou a garota esquisita. — O garoto bufou, seu lado racional não pensando direto, nem mesmo notou a forma como a tratou. — Você não entende sobre isso.
Antes que ela pudesse argumentar, %Jeremy% desceu as escadas correndo e seguiu pela rua em direção à estação. Era oficial, o jovem estava mesmo deixando o que restou de sua família para trás a fim de retornar para o lugar que achava lhe fazer bem. Para %Amelia%, de alguma forma, sua partida poderia ser o gatilho para a consumação de sua visão.
Motivo esse que fez as lágrimas escorrerem por seu rosto.
Eu quero respirar, eu odeio essa noite
Eu quero acordar, eu odeio esse sonho
Eu estou preso dentro de mim e estou morto
Não quero ficar só.
- Save Me / BTS