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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

V

Escrita porNyx
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Capítulo Único

Tempo estimado de leitura: 31 minutos

  A cidade nunca dormia quando a turnê passava por ela.
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  Havia luz demais, gente demais, vozes misturadas em línguas que %Mira% não tentava identificar. O hotel era bonito, impessoal, feito para chegadas e partidas rápidas. Ela estava ali há menos de doze horas e já sentia aquele peso conhecido no peito, a estranha intimidade de estar cercada por estranhos que sabiam exatamente quem ela era no palco, mas nada fora dele.
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  O camarim ainda cheirava a perfume caro e suor recente quando ela saiu, vestindo algo simples demais para quem tinha acabado de encerrar um show lotado. O cabelo solto, a maquiagem já levemente borrada nos olhos. Era sempre nesse momento que o corpo dela finalmente relaxava.
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  %Mira% não era apenas a voz que ecoava nos estádios ou o rosto ampliado nos telões. Fora do palco, vivia nesse intervalo estranho entre ser desejada e ser desconhecida. A turnê a ensinara a medir o tempo em fusos horários, a chamar qualquer quarto de hotel de casa e a guardar pedaços de si em malas pequenas demais. O palco a consumia inteira — corpo, respiração, presença — mas, quando as luzes se apagavam, sobrava uma mulher que ainda queria ser tocada sem aplausos, olhada sem expectativa, desejada sem rótulo. Viajar era liberdade. E também fuga.
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  Foi no corredor estreito, entre cases de equipamento e vozes apressadas da equipe, que ela o viu pela primeira vez.
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  %Joon% não parecia parte do caos. Alto, camiseta preta colada ao corpo, postura tranquila demais para alguém nos bastidores de uma turnê internacional. Ele conversava com alguém da produção, mas o olhar escapou — e pousou nela.
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  Sem pressa.
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  Sem surpresa exagerada.
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  Como se aquele instante fosse apenas um reconhecimento silencioso.
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  %Mira% sentiu primeiro no estômago. Depois na pele.
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  Ela diminuiu o passo sem perceber. Ele fez o mesmo. Por um segundo, dividiram o mesmo espaço estreito, o mesmo ar. Nada foi dito. Nada precisava ser. Segundos depois, a equipe a puxava de volta para o fluxo, e o momento se perdia no barulho.
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  Horas mais tarde, exausta e ainda com o corpo vibrando do show, %Mira% deixou o palco e seguiu para o camarim. O suor escorria pelas têmporas, a maquiagem já não era perfeita, o figurino parecia pesado demais agora que a adrenalina começava a ceder.
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  Foi quando o viu de novo.
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  No mesmo corredor.
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  Encostado na parede, como se estivesse esperando, ou fingindo que não.
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  Dessa vez, não desviaram o olhar.
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  — Bom show — ele disse, em inglês cuidadoso, com um sotaque que ela não conseguiu identificar de imediato.
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  Ela sorriu. Não o sorriso treinado para fãs. Um mais lento, mais cansado, mais real.
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  — Obrigada. Eu… preciso de cinco minutos e um copo d’água antes de existir de novo.
  Ele riu baixo.
  — Justo.
  Ela deu dois passos, depois parou e voltou o rosto para ele.
  — Qual é o seu nome?
  Ele piscou, como se não esperasse a pergunta tão direta.
  — %Joon%.
  — Eu sou %Mira%. Mas você provavelmente já sabe. — Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
  — Sim, eu sei quem você é — ele respondeu. — Mas não sabia como você se chamava fora do palco.
  Aquilo a pegou de surpresa. E, por algum motivo, fez o peito dela apertar de leve.
  — Então agora você sabe — disse, antes de seguir para o camarim, sentindo o olhar dele ainda preso em suas costas.
  E, pela primeira vez naquela noite, a turnê pareceu menos automática.
  Não houve convite formal. Nenhum vamos beber algo. Apenas a decisão silenciosa de caminhar lado a lado quando o corredor terminou e a noite começou de verdade.
  Foram a um bar discreto, indicado por alguém que “conhecia a galera da turnê”. Música baixa demais para dançar, alta demais para conversas longas. Perfeito.
  Tentaram falar. Tentaram mesmo.
  Ele perguntava algo, ela respondia metade. Ela começava uma história, ele entendia o final errado. Riam. Pediam desculpa. Tentavam de novo. Em algum momento, %Mira% percebeu que ele começou a economizar palavras.
  Falava menos. Olhava mais.
  — De onde você é? — ele perguntou, depois de um tempo.
  Ela levou o copo aos lábios antes de responder.
  — Essa é uma pergunta longa.
  — Então… — ele inclinou o corpo para frente, apoiando o braço na mesa. — Qual a cor do seu passaporte?
  Ela riu. Uma risada aberta, sincera.
  — Essa é melhor.
  Em algum momento, alguém passou perto demais, esbarrou de leve na mesa, e %Mira% levantou os olhos instintivamente. Quando percebeu, fez o gesto automático, dois dedos erguidos, formando um V ao lado do rosto, quase como reflexo.
  %Joon% notou.
  — Você sempre faz isso — ele comentou.
  — Isso o quê?
  Ele imitou o gesto, meio torto, arrancando outra risada dela.
  — Nunca reparei — ela disse. — Acho que meu corpo faz sozinho.
  — Ele parece saber exatamente o que quer — respondeu, antes de pensar demais.
  O ar mudou. Sutil. Denso.
  Quando saíram do bar, a noite estava quente demais para jaquetas. Caminharam sem rumo, passos próximos, braços se tocando de vez em quando. Não se afastavam. Não pediam desculpa. Apenas deixavam acontecer.
  À beira do rio, %Joon% parou. Tirou a camisa com um movimento simples, como se não houvesse plateia. %Mira% observou. Sem pressa. Sem pudor. Como quem aprecia uma cena bem construída.
  — Está quente — ele disse, quase se justificando.
  — Está — ela respondeu, os olhos ainda nele.
  Ficaram ali por alguns segundos, próximos demais para ser casual, distantes demais para ser promessa. A cidade parecia existir em outro plano, como se tivesse decidido respeitar aquele intervalo.
  Continuaram andando. Falaram de cidades que ele conhecia. De países que ela amava. De lugares onde nenhum dos dois tinha estado. Ele contou sobre a turnê, aeroportos, hotéis iguais, noites que se misturavam. Ela falou do palco como se fosse outro corpo, um que vestia e despia a cada show.
  — Deve ser solitário — ele comentou.
  Ela pensou antes de responder.
  — Às vezes. Mas hoje… — olhou para ele, deixando a frase em aberto.
  Ele entendeu.
  Pararam diante da entrada do hotel sem muita pressa. O ar estava diferente ali, mais quieto, como se a noite tivesse diminuído o passo para observar.
  — Eu… — %Mira% começou, depois riu de si mesma. Pegou o celular da bolsa e desbloqueou a tela. — Isso funciona em qualquer idioma.
  Estendeu o aparelho para ele.
  %Joon% hesitou por um segundo, depois aceitou. Digitou o número com cuidado, como se aquele gesto carregasse mais peso do que parecia. Quando devolveu o celular, ela conferiu a tela e guardou o aparelho de volta na bolsa.
  Ficaram ali por mais um instante, próximos demais para se despedirem rápido demais.
  Quando finalmente se afastaram, não houve beijo. Não ainda. Apenas aquele espaço carregado de possibilidade.
  Antes de entrar, %Mira% virou-se.
  Sorriu.
  Fez o V com os dedos.
  %Joon% ficou ali, observando, com a estranha certeza de que aquela turnê acabava de começar de verdade.

***

  %Mira% acordou com a sensação de que ainda estava em movimento.
  O quarto do hotel estava silencioso demais, cortinas grossas bloqueando a cidade que, poucas horas antes, pulsava sob seus pés. Por um segundo, não soube dizer em que país estava. Depois lembrou do show, do corredor estreito, do bar escondido…
  E dele.
  O telefone vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem curta, enviada cedo demais para alguém que não dormira direito.
  %Joon%: Bom dia.
  Ela sorriu antes mesmo de responder.
  %Mira%: Ainda é?
  Ele respondeu rápido demais.
  %Joon%: Para quem vive em turnê, acho que o dia começa quando o corpo decide.
  Ela ficou alguns segundos encarando a frase. Depois digitou:
  %Mira%: Então o meu começou agora.
  Encontraram-se no café do hotel. Nada de produção, nada de plateia. %Joon% vestia algo simples, %Mira% usava óculos escuros grandes demais para um espaço fechado. Quando se viram, houve um microsegundo de hesitação, aquele instante em que se confirma que a noite anterior não foi invenção.
  Não foi.
  Sentaram-se frente a frente. Tentaram conversar. De novo.
  Ela contou, aos pedaços, como odiava entrevistas matinais. Ele falou, em frases curtas, sobre aeroportos e planilhas. Às vezes, uma palavra escapava.
  Em algum momento, %Joon% parou de insistir nas frases completas e passou a observar o jeito que %Mira% segurava a xícara, os dedos longos desenhando círculos invisíveis na porcelana. O jeito que ela inclinava o corpo para frente quando queria ser entendida. Como tocava o braço dele sem perceber, sempre que ria.
  — Você fala muito com o corpo — ele comentou.
  — É um vício — ela respondeu. — No palco, se eu não fizer isso, ninguém entende nada.
  — E fora dele? — Ela pensou.
  — Fora dele… — deu de ombros. — Acho que continuo fazendo. Só que com menos luz.
  Depois do café, %Mira% tinha passagem de som. %Joon% a acompanhou até a arena, caminhando por corredores que ele conhecia bem demais — rotas que fazia todos os dias, entre equipamentos, planilhas e ordens de última hora. Para ele, aquele labirinto fazia parte da rotina; para ela, era apenas mais uma extensão do palco que ainda não tinha sido ligado.
  Alguns membros da equipe lançaram olhares rápidos na direção deles, curiosos pela proximidade incomum. Ninguém perguntou nada. Em turnês, quase tudo era passageiro demais para virar assunto.
  No palco vazio, %Mira% se transformou.
  A postura mudou. O olhar ganhou firmeza. A voz, mesmo sem microfone, ocupou o espaço. %Joon% observava da lateral, sentindo algo apertar devagar no peito. Não era apenas desejo, era admiração crua, quase desconfortável.
  Quando ela desceu, suada, respirando fundo, ele ofereceu a garrafa d’água sem dizer nada. Os dedos se tocaram. Ficaram ali por meio segundo a mais do que o necessário.
  — Você sempre fica assim depois? — ele perguntou.
  — Assim como?
  — Presente. — Ela sorriu.
  — É quando eu mais desapareço.
  Saíram mais tarde. Andaram pela cidade como se fossem anônimos, e eram, juntos. Tentaram usar um aplicativo para planejar o jantar. Falharam miseravelmente.
  — Esquece — ela disse, desligando o celular. — Vamos escolher andando.
  Comeram algo simples, sentados próximos demais. O joelho dela encostava no dele sob a mesa. Nenhum dos dois se afastou.
  — %Joon%… — ela começou, parou, suspirou. — Eu não sou boa com palavras fora do palco. — Ele inclinou a cabeça, atento.
  — Eu percebi — disse, com um meio sorriso. — Eu também não.
  Ela olhou para ele por alguns segundos. Depois falou, devagar, como se cada sílaba fosse escolhida com cuidado.
  — Então vamos combinar uma coisa.
  — O quê?
  — A gente economiza palavras. — Aproximou-se um pouco mais. — E fala do outro jeito. — Ele entendeu antes mesmo de responder.
  — Com o corpo? — Ela assentiu.
  O silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio de expectativa, de proximidade, de tudo o que ainda não tinha acontecido.
  Quando se despediram naquela noite, à porta do hotel de novo, o espaço entre eles parecia menor. Mais íntimo. Carregado.
  Não se beijaram, e %Mira%, antes de entrar, fez o gesto outra vez, o V, lento, consciente agora. %Joon% sorriu.

***

  O dia passou rápido demais.
  Para %Mira%, sempre passava. Ensaios, entrevistas curtas, passagem de som, maquiagem refeita, figurino ajustado às pressas. O corpo dela funcionava no automático, treinado para responder à música antes mesmo de pensar. Mas havia algo diferente naquela noite. Uma expectativa silenciosa, escondida entre batidas e luzes.
  Ela pensava nele entre uma música e outra.
  No jeito como %Joon% ficava parado, observando, como se estivesse sempre um passo atrás do caos. Como se enxergasse coisas que ninguém mais via. Pensava nele quando a multidão gritava seu nome e, ainda assim, sentia falta de ser chamada apenas de %Mira%.
  Quando o show terminou, o corpo de %Mira% ainda vibrava, o ouvido zumbindo, a adrenalina se recusando a baixar. Já no corredor que levava aos camarins, o celular vibrou na mão dela.
  %Joon%: Já terminou aí?
  Ela sorriu ao ler.
  %Mira%: Agora mesmo.
  %Joon%: Te espero na saída lateral, então.
  Não combinaram mais nada. Não precisaram.
  Quando saiu, minutos depois, o barulho já tinha diminuído e as luzes eram mais gentis. %Mira% usava um casaco largo, o capuz meio puxado, como se quisesse desaparecer no meio da própria equipe. %Joon% a reconheceu de longe mesmo assim.
  — Você foi incrível — ele disse.
  Ela sorriu, cansada. Aproximou-se mais do que o necessário.
  — Hoje foi intenso.
  — Deu pra ver — respondeu, os olhos percorrendo o rosto dela com calma demais para ser casual.
  Andaram sem rumo. De novo. Como se a cidade existisse apenas para servir de fundo. %Mira% falava pouco naquela noite. O corpo ainda estava quente do show, os movimentos mais lentos, mais conscientes. %Joon% acompanhava o ritmo dela, respeitando os silêncios, os intervalos.
  Pararam em frente a um espelho improvisado numa vitrine escura. Reflexos sobrepostos. Dois corpos que não combinavam e, ainda assim, encaixavam.
  — Selfie? — ela sugeriu, quase distraída.
  Ele pegou o celular. Aproximou-se. %Mira% entrou no quadro naturalmente, a mão apoiada no peito dele, como se aquilo fosse óbvio. O clique aconteceu rápido. Mas o depois ficou suspenso.
  Ela fez o V com os dedos, automática. Ele baixou o celular devagar.
  — Não posta — pediu, baixo. Não como ordem. Como cuidado.
  Ela encontrou o olhar dele no reflexo.
  — Eu sei.
  Houve algo ali. Um acordo silencioso. A consciência de que, se aquela imagem escapasse para o mundo, perderia parte do que era. Não era segredo por vergonha. Era por proteção.
  Guardaram o telefone. Continuaram andando.
  Sentaram-se num lugar afastado, à beira do rio, onde a cidade parecia menos curiosa. %Mira% tirou os sapatos, apoiou os pés no banco, o corpo finalmente permitindo-se parar. %Joon% sentou ao lado, próximo o suficiente para dividir o calor.
  — Você se sente exposta o tempo todo? — ele perguntou. Ela demorou a responder.
  — No palco, sim. — Respirou fundo. — Fora dele… eu escolho.
  Ele assentiu. Entendia mais do que dizia.
  O braço dele encostou no dela. Não se afastaram. O toque permaneceu, cresceu, tornou-se consciente. O silêncio agora era carregado de intenção.
  — %Mira%… — ele começou, parou. — Se isso ficar complicado—
  Ela virou o rosto para ele, interrompendo.
  — Não vai ficar complicado — disse, firme. — Só não vamos transformar em espetáculo. — Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos. Depois assentiu.
  — Tá certo, prometo.
  A proximidade era perigosa agora. O corpo dela se inclinou de leve, como se fosse cair, ou como se estivesse testando a gravidade. %Joon% não a tocou. Ainda. Mas estava pronto.
  — A gente está falando demais — ela murmurou. Ele sorriu, baixo.
  — Concordo.
  Quando se despediram, o clima era outro. Mais denso. Mais próximo do limite. As mãos se encontraram por um segundo a mais. Houve respirações desalinhadas. Houve vontade.
  Antes de entrar no hotel, %Mira% se virou mais uma vez.
  Fez o V.
  Mas agora não era distração. Era escolha.
  %Joon% ficou ali, com a certeza incômoda e deliciosa de que o próximo passo não seria tão fácil de evitar.

***

  A noite estava quieta demais para uma cidade acostumada ao excesso.
  %Mira% sentiu isso antes mesmo de sair do hotel. Um silêncio estranho, quase respeitoso, como se o mundo tivesse decidido não atrapalhar. Ela desceu sem maquiagem, sem figurino, sem o peso do palco nos ombros. Apenas ela, e a expectativa que fazia o peito apertar de leve.
  %Joon% a esperava do lado de fora, encostado na mureta, as mãos nos bolsos, o olhar atento como sempre. Quando a viu, endireitou o corpo sem perceber. %Mira% notou. Gostou.
  — Você parece diferente hoje — ele comentou.
  — Hoje eu não subi no palco — respondeu. — Ainda.
  Caminharam até a praia quase vazia. A areia estava fria sob os pés dela, o vento brincava com o tecido fino da camisa que usava. %Mira% respirou fundo, deixando o cheiro do mar invadir tudo.
  — Aqui — ela disse, parando. — É bom aqui.
  Sentaram-se próximos, mais próximos do que antes. O joelho dela tocava o dele agora sem disfarce. O braço dele descansava atrás, criando um limite invisível, ou talvez uma promessa.
  — Você vai embora depois do último show — ele disse, não como pergunta. Ela assentiu.
  — Vou sim.
  O silêncio que se seguiu não era confortável. Era necessário.
  — %Joon%… — %Mira% começou, os olhos fixos no horizonte escuro. — Eu não sei fazer isso devagar quando sei que vai acabar. — Ele virou o rosto para ela.
  — E você quer acabar antes de começar? — Ela hesitou. Só um segundo.
  — Não.
  Ele se aproximou um pouco mais. %Mira% sentiu o calor do corpo dele, o cuidado no gesto, como se estivesse pedindo permissão sem palavras.
  — Se eu afundar — ela disse, a voz baixa, quase engolida pelo som do mar.
  — Eu te salvo — ele respondeu, imediato. Ela virou o rosto para ele agora, os olhos brilhando de algo que não era medo.
  — E se eu quiser me afundar?
  %Joon% não respondeu. Apenas levou a mão até o rosto dela, com uma lentidão calculada, como se desse tempo dizendo pare se ela quisesse. %Mira% não recuou. Inclinou-se, encontrando o toque, a respiração já desalinhada.
  O beijo aconteceu assim.
  Sem urgência. Sem espetáculo.
  Foi um encontro cuidadoso de bocas que já se reconheciam antes mesmo de se tocar. %Mira% suspirou contra os lábios dele, a mão subindo automaticamente para a nuca, como fazia no palco quando queria conduzir o ritmo.
  %Joon% aprofundou o beijo devagar, como quem aprendia um idioma novo com respeito. Havia fome ali, mas também contenção. Desejo e medo dividindo o mesmo espaço.
  Quando se afastaram, a testa dela ainda encostada na dele, o mundo parecia menor.
  — Isso muda as coisas — ele murmurou.
  — Eu sei — ela respondeu. — Mas fingir que não aconteceu seria pior. — Ele sorriu, um sorriso torto, honesto.
  — Então a gente muda junto.
  Ficaram ali mais um tempo, trocando alguns beijos, sentindo. A mão dele descansava na cintura dela agora, firme, presente. %Mira% apoiou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos como se aquele instante pudesse ser guardado no corpo.
  Quando se levantaram para ir embora, o céu já começava a clarear.
  Antes de se afastar, %Mira% fez o gesto outra vez.
  O V.
  Mas agora não era marca de presença.
  Era promessa.
  %Joon% observou enquanto ela se afastava, com a certeza de que, dali em diante, não haveria mais como fingir que aquilo era só passagem.

***

  O último dia de turnê sempre tinha um gosto estranho.
  %Mira% acordou antes do despertador, o quarto ainda mergulhado naquela luz pálida de hotel que nunca parecia pertencer a lugar nenhum. A mala estava aberta no chão, metade organizada, metade abandonada, como se refletisse exatamente o que ela sentia.
  Gostava de partidas limpas. Chegar, cumprir, ir embora, era assim que sobrevivia. Mas daquela vez, o corpo não colaborava.
  Tomou banho devagar, deixou a água quente correr mais do que o necessário. Vestiu-se sem figurino, sem maquiagem, como se precisasse lembrar quem era fora do palco antes de encarar o dia. O celular vibrou quando ela estava calçando os sapatos.
  %Joon%: Bom dia.
  Ela demorou alguns segundos antes de responder.
  %Mira%: Bom… talvez.
  Encontraram-se onde tudo começara a ficar sério demais: longe das luzes, perto demais da água. O céu estava limpo, claro, como se o mundo insistisse em seguir normal apesar do que se acumulava entre eles.
  %Joon% a observou se aproximar. Havia algo diferente nela, não mais expectativa, mas consciência. Ela vinha inteira.
  — Hoje é o último — ele disse, quebrando o silêncio.
  — Eu sei.
  Caminharam lado a lado, passos sincronizados, mas sem o cuidado exagerado dos dias anteriores. O toque agora existia sem desculpa: mãos que se encontravam, dedos que se entrelaçavam por breves instantes.
  — Eu não sou boa com despedidas — ela comentou, olhando para frente.
  — Eu também não — ele respondeu. — Normalmente evito. — Ela sorriu de canto.
  — Mas você não evitou isso.
  Ele parou de andar. Puxou-a com suavidade, obrigando-a a encará-lo.
  — Não quis.
  O beijo veio fácil dessa vez. Familiar. Mais profundo. Não havia a urgência da primeira vez, mas havia algo mais perigoso: apego. %Mira% sentiu isso quando a mão dele segurou sua cintura com firmeza, como se dissesse fica, mesmo sem dizer nada.
  Quando se afastaram, ela apoiou a testa no peito dele.
  — Isso é o tipo de coisa que eu costumo ir embora antes de sentir — confessou, a voz baixa.
  — E agora? — ele perguntou. Ela respirou fundo.
  — Agora eu sinto. E vou embora mesmo assim.
  Não houve drama. Não houve pedido. Apenas a verdade nua, dita com respeito.
  — Eu não vou te prometer nada impossível — ela continuou. — Mas também não vou fingir que isso foi só mais uma cidade.
  %Joon% assentiu devagar.
  — Nem eu.
  Ficaram ali, em silêncio, guardando o peso exato do que tinham vivido. Não era pouco. Não era leve. Mas era honesto.
  Mais tarde, no aeroporto, %Mira% ajustou a alça da bolsa no ombro e puxou a mala. O alto-falante anunciou o embarque. Ela deu alguns passos antes de se virar.
  %Joon% ainda estava ali. Ela sorriu. Fez o V com os dedos, mas agora não era gesto automático, nem pose para foto. Era despedida consciente. Um símbolo pequeno para algo que não precisava ser explicado.
  %Joon% ergueu a mão em resposta, imitando o gesto, ainda meio torto.
  Ela partiu.
  E enquanto o avião cortava o céu, %Mira% fechou os olhos por um instante, sentindo no corpo a memória daquele encontro — não como perda, mas como marca, porque algumas histórias não foram feitas para durar no tempo. Foram feitas para durar em quem passa por elas.
  E aquela… aquela ficaria.

EPÍLOGO

  Meses depois, %Mira% estava em outra cidade.
  Outro hotel. Outro palco. Outra língua misturada no ar. O ritual era o mesmo — maquiagem, figurino, luzes, aplausos — e ainda assim, algo tinha mudado.
  Ela não fazia mais o gesto em V sem pensar.
  Agora, vinha com consciência.
  Depois do show, sentou sozinha na beira da cama, os pés ainda descalços, o corpo quente do palco. O celular vibrava com mensagens da equipe, da família e de compromissos futuros. Ela ignorou quase todas.
  Abriu a galeria por acaso.
  A foto estava lá.
  Não postada.
  Não explicada.
  A selfie torta, a luz imperfeita, o ombro dele encostado no dela, o V discreto ao lado do rosto. Um instante que não pertencia a ninguém além dos dois.
  Sorriu.
  Não com saudade dolorida, mas com reconhecimento.
  Em outra parte do mundo, %Joon% atravessava um aeroporto que já conhecia de cor. Mala pequena, fones de ouvido, passos calculados. A vida seguia no ritmo previsível que ele sempre escolhera.
  Até o telefone vibrar. Uma notificação simples.
  %Mira%: Passei por um lugar hoje. Pensei em você.
  Ele parou no meio do saguão, o fluxo de gente seguindo sem ele por um segundo inteiro. Digitou de volta:
  %Joon%: Eu nunca deixei de pensar em você.
  A resposta veio rápido.
  %Mira%: Eu sei.
  Na próxima foto que tirou naquela noite, sozinha, diante do espelho do camarim, %Mira% ergueu os dedos.
  O V.
  Não como promessa ou como despedida. Mas como memória viva, porque algumas histórias não pedem continuação. Elas apenas ecoam.

FIM


  Nota da autora: Oi, meus amores.
  Essa história nasceu de uma música que fala de encontros que não precisam de legenda, só de presença. Quis escrever sobre duas pessoas que se encontram no meio do caos, da turnê, das partidas constantes… e escolhem sentir, mesmo sabendo que talvez não fique.
  Nem toda história de amor precisa de promessas pra ser real. Algumas só precisam de um gesto, um beijo na hora certa e uma memória que acompanha a gente por onde for. 🤍
  Com carinho,
  Nyx 🖤✨
Capítulo Único
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Liv

Eu adorei a fic 🥹
Mesmo sendo fã de finais em que eles fiquem 100% juntos, adorei a dinâmica da Mira e do Joon, e não fiquei triste por eles não terem engatado em algo a mais. Como você disse, tem histórias que não precisam de promessas, às vezes viver o momento e se entregar já basta (o famoso “que seja eterno enquanto dure” hahahaha)

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