2 • Beautiful Life
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"Quase sempre é preciso um gole de loucura
para se construir um destino."
- Oliveira, Pâmela.
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Toscana, inverno de 2015
Em um breve momento, %Beatrice% parou de dedilhar o violão e finalmente notou que em seu pulso faltava algo. Deixando o objeto ao lado, ela passou a mão esquerda no pulso e começou a se desesperar. Como poderia ter perdido algo tão importante e significativo para ela? Sua pulseira com valores afetivos havia sido o último presente de natal que o pai lhe dera em vida, tinha como seu amuleto da sorte. Mas o que seria a sorte na vida, se não houvesse a vontade de uma pessoa em mudar seu destino?
Ela se levantou da cama e começou a cogitar a ideia de voltar onde perdeu, até que pensou:
E se for um sinal? Para %Beatrice%, coincidências existiam na vida e perder algo valioso no mesmo dia em que recebeu uma proposta tão significativa certamente tinha uma relação.
— Ah, pare de pensar besteiras, %Bea%. — disse a si mesma.
Ela se espreguiçou um pouco e trocou de roupa. Saindo do quarto, observou seus irmãos na sala vendo filme, então seguiu para a cozinha. Como era o dia da mãe dormir em seu emprego, ela era a responsável pela casa, assim como pelo jantar. Foram alguns minutos de silêncio, quando bateram na porta e Flora abriu, era Lola e sua entrada afoita para conversar com a amiga. Assim que ambas ficaram sozinhas na cozinha, o assunto se iniciou:
— Ainda não acredito que você saiu daquela forma. — comentou Lola, sentando-se na banqueta observando-a cozinhar.
— Não quero falar sobre isso, amiga. — disse %Bea%, ignorando o olhar dela. — Já estou com uma batalha interna fulminante aqui.
— E por quê? Se a resposta é mais do que óbvia? — Lola colocou a mão direita na cintura — Deixe de besteiras, %Beatrice%, você é super talentosa, nasceu para ser uma estrela, tem brilho próprio.
— Você sabe como são as coisas para mim. — lembrou ela.
— Sei, e você pretende viver essa vida medíocre até a morte? — retrucou. — Essa é uma oportunidade única, falo isso como sua amiga.
— Eu sei, Lo. — ela suspirou fraco, ainda indecisa.
— Olha, eu vou ser sincera porque somos amigas — disse se ajeitando na cadeira, enquanto roubava uma batata que a amiga tinha acabado de retirar da gordura — O diretor me fez uma oferta.
— O diretor? — %Bea% voltou seu olhar para a amiga, surpresa.
— Sim, ele me ofereceu qualquer outro papel na peça, se eu te convencesse a ser a protagonista. — ela foi sincera quanto ao ocorrido. — Mas eu não estou aqui por isso, estou aqui porque não é justo que não realize seu sonho, nós planejamos ser atrizes juntas, lembra?
— Eu nem sei o que dizer. — ela se mostrou estática pela revelação.
— Mas é claro que eu também quero participar do The Beauty And The Beast. — brincou Lola, fazendo-a rir.
— Ei, pare de roubar minhas batatas. — reclamou %Beatrice% num tom de brincadeira, enquanto batia de leve na mão da amiga, que roubava mais uma vez.
— Acho que vou jantar aqui hoje. — comentou ela, sentindo o cheiro suave da comida. — Sua mãe está em casa?
— Não, hoje ela dormirá na casa do senhor Anderson. — respondeu, ao desligar a trempe do fogão.
— O que significa que você está livre hoje. — o olhar de Lola ficou um pouco malicioso.
— O que acha que está tramando? — perguntou %Beatrice% desconfiada. — Nem continue com seus pensamentos malucos, que eu tenho que ficar cuidando dos meus irmãos.
— Ah, para isso temos uma senhorinha maravilhosa que mora comigo. — sugeriu ela. — E que seus irmãos a amam.
— Sua avó não merece passar por isso. — brincou %Bea%, rindo baixo com a amiga. — É sério, se minha mãe sonhar que deixei eles com a dona Mercedes novamente…
— Ela não fará nada, você tem dezenove anos, é mais do que adulta para até morar sozinha. — retrucou a amiga com confiança. — Sua mãe precisa deixar você viver, amiga.
— Você falando parece tão fácil, mas...
— Mas nada, %Beatrice%! Trate de ir tomar um banho e escolha sua melhor roupa, nós vamos sair hoje em comemoração ao nosso futuro como atriz! — disse Lola dando um pulo da banqueta animada.
— Do que está falando, Lola? — ela a olhou assustada.
— Estou falando da peça que vamos estrelar juntas. — Lola abriu um largo sorriso. — Agora, trate de se arrumar logo, deixa que dos seus irmãos eu resolvo com a minha avó, tenho certeza que será um prazer para ela mimá-los.
%Beatrice% não teve forças para lutar contra a empolgação da amiga, apenas começou a rir de Lola, deixando-a resolver a tal solução. Assim, ela seguiu para o banheiro e tomou uma ducha rápida, no frio do inverno, um pouco de água quente no corpo era tudo o que precisava para dar uma relaxada no estresse da vida. Assim que selecionou uma roupa confortável e quente para vestir, ficou esperando por sua amiga. Às seis em ponto da noite, sua amiga retornou acompanhada da senhorinha dona Mercedes e suas inseparáveis linhas de tricô. Quando seus irmãos a viram, ficaram surpresos e felizes também, afinal, dona Mercedes sabia muito bem como conquistá-los com seus cookies caseiros e chocolates quentes.
— Você vai demorar desta vez? — perguntou Miguel, pouco antes de %Beatrice% deixá-los com a inusitada babá.
— Não, eu prometo voltar antes de vocês irem dormir. — respondeu ela.
— Se fosse eu, não contava com isso. — brincou Lola, já com intenções de chegar bem tarde em casa.
— Lola! — %Beatrice% tentou repreendê-la.
— Aposto que a mamãe não sabe disso. — Flora cruzou os braços, olhando de forma debochada para a irmã.
— E nem vai saber, projeto de naja. — Lola a ameaçou.
— Não fale assim com ela. — pediu %Beatrice% ao olhar para a irmã. — Não se preocupe, Flora, eu já mandei uma mensagem a nossa mãe, ela sabe que estarão com a dona Mercedes.
— Hum… — Flora deu de ombros como sempre fazia, algo que irritava sua irmã mais velha, então seguiu novamente para a sala.
— Não se preocupe, querida, eu vou cuidar muito bem dos seus irmãos. — assegurou dona Mercedes, já com planos em sua cabeça para a noite.
— Acredite, estou mais preocupada comigo. — brincou ela, se referindo a amiga ao lado.
— Deveria é me agradecer, sua ingrata. — Lola cruzou os braços, indignada.
— É brincadeira, sabe disso. — %Bea% riu dela.
— Vão e aproveitem a noite. — disse dona Mercedes.
— Até mais vovó. — Lola puxou a amiga pelo braço, antes que a mesma desistisse de aproveitar a tal noite de comemoração de ambas.
Entre brincadeiras e alguns assuntos aleatórios que Lola jogava durante a partida delas, não demorou muito para que o táxi que compartilharam chegasse ao destino final. %Beatrice% estranhou um pouco assim que desceu do carro, ela esperava que a amiga a levasse para um lugar de aspecto mais comercial. Entretanto, ao contrário ela, se deparou com a porta do que parecia uma casa, bem no canto escuro de uma rua sem saída e bem estreita.
— Lola, em que poço você está tentando me arrastar? — perguntou ela, insegura com a escolha dela.
— O quê? Está com medo? — Lola riu de leve.
— Não tem graça, olha pra esse lugar parece daqueles filmes de serial killer. — retrucou %Bea% se encolhendo um pouco, achando aquilo bem estranho.
— Fica tranquila amiga, não tem nada de mais, além do que não se deve julgar o livro pela capa. — rebateu ela, cruzando os braços e arqueando a sobrancelha. — Não é você mesma quem sempre menciona essa frase?
— É sim uma filosofia de vida, mas olhe para isso, esse livro nem capa tem. — questionou.
— Pare de ser preconceituoso, eu ganhei dois convites vip de um amigo, lugares como esse são daqueles que temos a oportunidade de conhecer apenas uma vez na vida. — Lola descruzou os braços e se afastou dela, então deu dois toques na porta.
Logo a maçaneta girou e soou o ranger da porta abrindo.
— Convites? — perguntou uma voz abafada.
— Aqui. — Lola retirou dois papeis dourados da bolsa e os entregou.
Em instantes, a porta se abriu mais um pouco e ela entraram. Se o lado de fora era totalmente estranho, internamente a sensação que %Beatrice% tivera, é que estava entrando em um palacete. Carpete vermelho no chão, papeis de paredes de tons neutros e uma decoração digna da arquitetura Art Déco, linhas retas e muito dourado contrastando com o preto e o branco.
— O que me diz agora? — brincou Lola, segurando o riso.
— Que lugar é esse? — perguntou %Beatrice% desnorteada com tanta mudança de realidade.
— É casa que alugam para fazer festas. — explicou ela sem detalhes. — O amigo que me deu os ingressos me disse que teríamos um baile de máscaras hoje.
— Mas nós não temos máscaras. — %Bea% comentou o óbvio.
— Não se preocupe, é para isso que temos eles. — ela apontou para os seguranças na porta de entrada para o salão.
Dois passos à frente havia uma recepcionista com algumas máscaras em cima de uma mesa.
— As máscaras são padronizadas, amiga. — explicou Lola, se animando um pouco mais — Nós colocamos apenas antes de entrar.
— Para que tipo de festa está me levando, Lola?! — %Beatrice% se pegou receosa.
— Festa da elite de Toscana. — respondeu ela. — Precisamos nos enturmar.
Ela sabia que a amiga tinha uma pitada de deslumbre quando o assunto era festas. Por muitas vezes a deixara sozinha em suas festas malucas, principalmente as universitárias que entraram de penetra em sua época de ensino médio. Um respiro fundo, após ajustar a máscara em seu rosto, ambas entraram no salão. Do lado de dentro já continha um número considerável de pessoas, algumas com um pouco de esforço reconhecidas por %Beatrice% das festas universitárias que a amiga frequentava, ela tinha uma boa memória auditiva e conseguia se lembrar da voz de alguns.
— Ali. — Lola apontou para um menino que dançava com mais duas meninas na pista.
— Quem é? — perguntou %Beatrice%.
— Meu amigo dos convites. — respondeu ela. — Temos que agradecer pessoalmente.
— De onde conheceu ele? — %Beatrice% voltou a ficar desconfiada.
— Ah, ele é um turista que estava meio perdido no centro da cidade e eu o ajudei a encontrar o caminho certo. — explicou ela.
— Ah sim, e ele resolveu te dar dois pares de convite? — %Beatrice% cruzou os braços olhando-a séria.
— Claro que não, eu acabei descobrindo que ele é amigo de um amigo de uma conhecida. — continuou ela com tranquilidade. — Mas o que importa é que estamos aqui com o convite.
— Para você tudo é tão fácil, não sei como consegue. — comentou boquiaberta.
— Tenho contatos, amore. — Lola deu uma piscada.
— Olha só quem está aqui, Lola Bianch. — de repente o tal turista se aproximou delas, de forma simpática e espontânea. — Que bom que minha guia italiana veio.
— May. — Lola abriu um sorriso singelo, chamando-o pelo sobrenome.
— Quem é a sua amiga? — perguntou ele, curioso pela garota ao lado que se mantinha séria e silenciosa.
— Esta é minha amiga %Beatrice% Martini, ela também é atriz como eu. — contou Lola, de forma natural como se já fosse uma realidade na vida de ambas.
— Lola? — %Bea% sussurrou tentando repreendê-la.
— Relaxa, amiga. — e elevando um pouco mais a voz. — %Bea%, este é o Bailey.
— Prazer, eu sou o
Bailey Thomas Cabello May. — ele esticou a mão em cumprimento mantendo o sorriso discreto no rosto.
— Prazer. — %Beatrice% retribuiu o cumprimento apertando a mão dele — Você é de onde? Consigo perceber seu sotaque.
— Filipinas. — respondeu prontamente.
— Uau, e o que faz tão longe de casa? — perguntou %Beatrice% curiosa.
— Intercâmbio. — respondeu ele, novamente, mantendo sua atenção total na garota. — Vim estudar música por alguns meses.
— Sério? — Martini ficou ainda mais impressionada.
— May, você ficaria impressionado de ver a %Bea% cantando, ela é maravilhosa. — comentou Lola.
— Eu adoraria vê-la cantar. — comentou ele, se empolgando. — Temos um karaokê na outra sala, podemos improvisar um dueto juntos.
— Ah não, eu não conseguiria. — recusou ela, se mostrando mais tímida que o normal. — Pare de dizer essas coisas, Lola.
— Tenho certeza que sua voz deve ser bonita. — Bailey esticou a mão para ela e insistiu. — Só se vive uma vez.
Se está na chuva, é para se molhar! Pensou %Beatrice% consigo.
Às vezes um pouco de loucura não faz mal a ninguém, afinal, o que teria demais em cantar com um intercambista desconhecido em uma festa? Ela pegou na mão dele com um sorriso singelo de canto e seguiu para o espaço do karaokê. Bailey foi o primeiro a pegar no microfone, escolhendo o clássico Cry Me a River do cantor Justin Timberlake. Em provocação %Beatrice% escolheu Royals da cantora Lorde, um dos sucessos musicais do ano anterior. Quando a garota iniciou as primeiras notas, logo a atenção de todos que estavam próximos se voltaram para ela. Uma sutil admiração e fascinação foram despertadas dentro de Bailey, sentindo-se como se estivesse ouvindo um lindo anjo cantando, trazendo suavidade e ao mesmo tempo força para a canção.
—
And we’ll never be royals (royals)... It don’t run in our blood… That kind of lux just ain’t for us… We crave a different kind of buzz… — sua voz soava pelo lugar com tanta naturalidade, como se a música tivesse sido composta para a mesma —
Let me be your ruler (ruler)... You can call me Queen Bee… And, baby, I’ll rule (I’ll rule, I’ll rule)... Let me live that fantasy… Para %Beatrice% aquilo era mais do que apenas diversão, a música fazia parte dela.
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Os dias foram passando...
Com custo e muita luta, %Beatrice% havia convencido sua mãe a aceitar o fato de que ela faria o papel da principal na peça de teatro. A grande oportunidade de sua vida não seria mesmo jogada fora, e ela se dedicaria ao máximo para fazer tudo com perfeição. Após o término das audições para os outros personagens da peça, o elenco se reuniu para conhecer o ator celebridade que havia sido convidado para fazer o papel do Sebastian Winchester, o protagonista da peça. Kim Rossi Stuart, o grande ator conhecido pelo filme
Le Chiavi Di Casa, estava diante de todos os selecionados do elenco para se apresentar.
— Stuart, esta é nossa Nalla. — disse o diretor Mondrian, ao apresentá-la ao ator.
— É um prazer conhecê-lo. — disse ela, esticando a mão em cumprimento.
— O prazer é meu, eu vi seu vídeo e achei impressionante, nunca havia visto alguém tão talentosa como você. — elogiou ele, com um olhar visivelmente impressionado. — Tenho certeza que vamos fazer um bom trabalho.
— Agradeço pela confiança. — disse %Bea% se encolhendo um pouco com sua timidez em receber um elogio.
— Mas é claro que o sucesso já está garantido! E que Dio nos ajude para que ninguém nos boicote. — brincou o diretor — A inveja alheia é um perigo, ainda mais que eu encontrei o diamante raro de Toscana.
Seu último comentário era obviamente se referindo a %Beatrice%.
I look at you and I see million stars
I am so glad you came and stole my heart.
- Beautiful Life / Now United