Unaltro Te


Escrita porRuni
Revisada/Editada por Natashia Kitamura


Capítulo Um

  A ideia não era má. Na verdade, tirar seus irmãos do centro das atenções dos tablóides durante uma semana antes do início do ano letivo e da temporada de Cristian no Olbia parecia ser uma ideia genial. Apenas os irmãos Totti, passeando por uma cidade minúscula, aproveitando o raro momento de reencontro em meio às tensões mais recentes, sem o risco de receberem um microfone vindo do nada, questionando sobre o divórcio sobre o qual não têm qualquer controle.
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  Afinal, eles não escolheram nascer filhos de um casal famoso e, definitivamente, não cabe a eles o ofício de porta-voz de seus pais e sobre quem está certo ou não no divórcio escandaloso que mantém todos os canais de fofoca do país ocupados. Por isso, mesmo que em pé de guerra, nem Francesco nem Ilary puderam negar à %Laura% a chance de tirar os seus irmãos do meio do furacão.
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  Enquanto filha mais velha de Francesco Totti, o lendário capitão da Roma, %Laura% sempre teve a sua vida sob um microscópio. Deveras, esta não era a primeira vez que ela passava por uma separação de seu pai: sendo fruto de uma breve relação ainda nos primeiros anos de carreira de Francesco, ela cresceu com dois lares. Enquanto sua mãe rapidamente se estabeleceu num relacionamento duradouro, o seu pai lhe apresentou mais namoradas do que ela poderia se lembrar.
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  As coisas mudaram quando Francesco trouxe Ilary para o aniversário de 8 anos de %Laura%. Naquele mesmo dia, sua avó lhe apresentou o conceito de “madrasta.” E assim Ilary se tornou parte da família Totti e foi estabelecendo o seu lugar cada vez mais conforme trazia ao mundo mais mini Tottis: primeiro Cristian, rapidamente seguido por Chanel e, muitos anos depois, a caçula Isabel.
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  A diferença de idade nunca se mostrou um problema, mesmo quando %Laura% começou a se aventurar pelo mundo por conta de seus estudos. Por isso, quando o caótico divórcio, repleto de acusações de ambas as partes, tomou todas as mídias, ela sequer hesitou em propor uma viagem de irmãos com o intuito de dar aos pequenos um ambiente neutro, longe de acusações, tensões ou qualquer coisa que pudesse remeter ao divórcio de seus pais. Claro, tudo isso sob o pretexto de levar os pequenos para conhecer a sua nova casa, já que %Laura% havia se mudado recentemente para assumir o posto de arqueóloga do museu da cidade.
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  Deveras, a ideia fora tão boa que, até o presente momento, tudo corre perfeitamente bem. Prova disso é que já completam uma semana na cidade e Chanel e Cristian, seus irmãos adolescentes, ainda se encontram tão animados quanto sua irmã mais velha, se dispondo a criar boas memórias para a pequena Isabel em meio a toda a bagunça que os cerca.
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  No entanto, em algum momento entre a caminhada tranquila pela feira sabatina de Avellino em busca das frutas favoritas da caçula, a leve destemperança entre Cristian e Chanel efervesceu de tal forma que logo xingamentos foram trocados. Por conta disso, %Laura% agiu rápido e decidiu deixá-los incubidos de lanchar com Isabel enquanto ela finaliza as compras.
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  Não seria a primeira vez que a primogênita deixava os irmãos sozinhos para resolverem seus problemas enquanto encubídos de uma tarefa em comum ― sua querida avó Fiorella a ensinou esta tática. Por isso, não se preocupou tanto enquanto se dedicava à procura dos pêssegos perfeitos, dos limões mais cítricos e das uvas mais suculentas do mercado para os seus irmãos ― Chanel, Cristian e Isabel, respectivamente. Um sorriso se abre involuntariamente no mesmo instante em que, ao avistá-los ao longe, percebe que os dois já estão bicudos e vidrados nos respectivos celulares.
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  Mas o sorriso some no mesmo instante em que percebe que Isabel não está junto deles.
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  ― Isa? - o grito é involuntário ao chamar pela caçula e o ato parece estourar as bolhas dos seus irmãos. - Onde raios está Isa? - seu grito agora é direcionado à dupla que parece tão perdida quanto ela.
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  ― Ela tava aqui agora mesmo!
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  ― Eu juro!
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  As justificativas são curtas, já que o trio se separa quase imediatamente em busca da pequena. A enxurrada de xingamentos na mente de %Laura% não passa por seus lábios, que estão ocupados demais chamando pela irmã. Mas a garantia de que o mesmo pensamento passa pela mente dos três Tottis sequer precisa ser mencionada: eles sabem que, se algo acontecer entre o momento em que perderam Isabel de vista e o momento em que a encontrarem, as “três bestas feras” ― como Chanel chama seus pais e sua irmã mais velha em seus momentos mais raivosos ― virão com tudo para cima dos adolescentes.
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  Mas antes que %Laura% possa se imaginar torcendo a orelha de Cristian pela enésima vez no mesmo minuto, a voz risonha chega aos seus ouvidos:
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  ― %Lau%! Olha o que eu achei!
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  A mulher se vira com tudo, encontrando a pequena criança loira e sorridente que vem em sua direção com um pequeno buquê de flores recém arrancadas de algum canteiro em suas mãos. O suspiro de alívio de %Laura% provavelmente foi ouvido lá em Roma, mas ela se esforça ao máximo para não transparecer seu desespero para a irmã.
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  — São lindas, Isa! - diz, se agachando para ficar na altura da caçula.
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  — São as favoritas da Cha. Assim ela vai parar de brigar com o Cri, não vai? - o coração de %Laura% se aperta dez mil vezes em um milésimo ao se dar conta do que aconteceu. Isabel só estava fazendo o mesmo que ela: tentando amansar uma briga.
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  A reação imediata de %Laura% é abraçar a irmã caçula, rendendo graças mentalmente a qualquer que tenha sido o santo que a atendeu desta vez. Ela suspeita que tenha sido o seu avô, Enzo, que sempre resmungou que ela tinha problemas demais e diversão de menos.
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  — Que tal a gente levar essas flores pra ela, então? - sugere quando solta do abraço e Isabel assente com animação, logo usando a mão livre para pegar a de sua irmã, como fora ensinada.
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  O caminho de volta para o ponto de encontro com os irmãos Totti não é longo, já que o desespero causa reações semelhantes em Cristian e Chanel: a vontade paralisante de chorar. Os dois continuavam a procurar perto da mesa onde lanchavam originalmente. O reencontro seria completamente emocionante se a pequena Isabel não tivesse ficado confusa com o motivo das lágrimas e dos mil pedidos de perdões. Com a caçula nos braços, Chanel cola as suas bochechas em busca de perdão enquanto Cristian, a poucos passos de distância, apenas solta um suspiro aliviado, dizendo que escapou da morte por muito pouco.
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  — Dessa vez. - %Laura% brinca, empurrando o irmão com o cotovelo e o mais novo faz careta, questionando em voz alta se ela realmente continuará lembrando deste episódio no futuro.
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  Chanel se une ao debate, intercalando o mesmo com sugestões sobre o que a caçula gostaria de fazer quando chegasse na casa de %Laura%, enquanto o grupo torna a caminhar em direção ao dito lugar. Mas a mais velha não dá mais que três passos junto aos irmãos, já que seus olhos encontram um par de olhos tão profundos e inconfundíveis que ela se vê obrigada a parar.
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  E ela realmente para, mesmo que apenas por alguns segundos.
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  Porque reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar do mundo, mas jamais esperaria encontrá-los aqui, em uma cidadezinha do interior da Itália, em meio às montanhas. É assombroso como as marcas do tempo são evidentes, porém nada muda em relação à maneira como ele a faz sentir. É como se ela estivesse vendo %Gabriele% pela primeira vez em sua vida, mas também possui o mesmo gosto amargo da despedida nada amistosa que tiveram.
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  E %Laura% sabe, tem certeza absoluta, do que significa o espanto no semblante dele quando a vê: que ele continua nutrindo por ela todo tipo de sentimento odioso.
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  — %Lau%, o que houve? - a voz de Cristian é uma mistura de murmúrio e cautela, fazendo a mais velha pestanejar para sair de seu devaneio. Mas não rápido o suficiente para impedi-lo de seguir seu olhar e encontrar a pessoa que a fez interromper seus passos. O garoto semicerra os olhos, tentando entender de onde aquele rosto lhe é tão familiar, porém sua irmã o puxa pela mão antes que ele possa chegar à uma conclusão.
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  — Vamos, as meninas vão se perder. - diz a primeira coisa que vem à mente, puxando Cristian na direção para onde as mais novas seguiram.
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  É então que a falta de disfarce em sua voz faz com que as peças terminem de se encaixar na cabeça de Cristian. Apenas uma pessoa seria capaz de causar esse nervosismo palpável na voz de %Laura%. A primeira lembrança que Cristian tem de ver sua irmã mais velha chorando por um motivo que não fosse de alegria são graças a um nome que ele se recusa a esquecer, mesmo depois de dez anos.
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  — Era o %Gori%, não era? - o sussurro vem estrategicamente no minuto em que pisa no imóvel, sendo o último a passar por sua irmã mais velha que não reage com nada além de um pestanejar. - Pro seu bem, eu espero que isso seja só uma triste coincidência.
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  %Laura% ri fraco, deixando um tapa na nuca do irmão logo em seguida.
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  — Tá certo, grandão. Vai banhar, vai. - faz piada, dando o seu melhor para que o assunto seja esquecido enquanto, bem no fundo de sua alma, ela concorda com o mais novo.
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☁️ ☁️ ☁️

  — Mas ela não teria coragem… Teria? - o questionamento de Martin faz com que seus companheiros de time se entreolhem, debatendo silenciosamente quem deveria respondê-lo.
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  Afinal, não lembram de quantas vezes já mencionaram que sua mania de pedir suas namoradas em casamento antes do terceiro mês de namoro não era lá o melhor dos métodos para finalmente se casar. A troca de olhares acaba demorando um pouco mais em Luigi, lembrando-o que já faz algum tempo desde a última vez em que foi o conselheiro da vez. Ele protesta, ainda silenciosamente, mas o acordo é selado pela maioria com uma bebericada simultânea em suas respectivas bebidas.
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  — Martin, cara… - Luigi finalmente aceita a sua derrota, inclinando-se para apoiar os cotovelos em seus joelhos enquanto encara o amigo.
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  Ao que Luigi continua sua sessão de conselhos, %Gabriele% aproveita para observar o movimento na praça da cidade. Apesar do fluxo maior de pessoas por conta da feira dos agricultores que acontece todos os sábados, os cidadãos de Avellino ainda parecem ser as pessoas mais tranquilas do mundo aos olhos do jogador. Ele se lembra da primeira vez em que chegou à cidade, que em nada o lembra de Florença. Estranhou a calmaria, a tranquilidade e o ambiente pitoresco de Avellino. As únicas festas que pareciam ter na cidade eram os jantares familiares ou profissionais, isso sem mencionar as festas de colheitas sazonais. Ele jurou que jamais iria se acostumar, afinal sua rotina era outra e ele estava ali apenas para um empréstimo curto.
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  Com o passar do tempo, %Gabriele% viu-se acostumado não apenas com a rotina da cidade, como também com a ideia de ficar ali por mais tempo. Algo sobre toda aquela serenidade o fazia bem. Mais que isso, ele se sentia cada vez mais confortável com a ideia de poder ouvir os pássaros ao invés de roncos de motores. A ideia de não precisar passar horas dentro de um carro ou de um avião para encontrar um lugar onde possa estar sozinho com os seus pensamentos, sem ser incomodado por ninguém, começou a parecer cada vez mais atrativa. Não apenas isso: ser reconhecido pelos tios, donos de bares e tavernas, que sempre lhe ofereciam uma bebida de graça quando ele marcava um gol começou a se tornar um ritual sem o qual ele não seria mais capaz de viver.
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  %Gabriele% não tinha ideia de que precisava de um refúgio em meio à turbulência constante que sua vida havia se tornado, mas não perdeu a oportunidade de reconhecer um quando o encontrou. Claro, parte de si ainda acha que ele estaria muito mais feliz se estivesse jogando em algum grande clube italiano, ou até mesmo um clube mediano europeu que o permitisse voltar para casa quando disputasse torneios continentais. Porém, a maior parte de si já está em paz com a ideia de que este é o melhor percurso que ele poderia ter seguido para a sua carreira e seu estado mental: o jogador de um time da terceira divisão de uma cidade pequena.
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  Claro, como Giorgio faz questão de lembrá-lo vez ou outra, ele é o jogador mais bem pago do dito time da terceira divisão, o que não lhe dá uma perspectiva muito realista da situação. Mas, ainda assim, ele finalmente admite que não há problema em não ser o primeiro, muito menos o último jogador a ver todas as promessas feitas a si desmoronarem.
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  Seus pensamentos são interrompidos não apenas por uma voz no fundo de sua mente dizendo que ele não pode ser tão ingênuo assim, como também pelo reconhecimento quase imediato de um rosto que passa pela massa, uma dezena de metros à sua frente.
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  Aquela é %Laura%.
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  Que, assim como os seus maiores sonhos, um dia foi sua e já não é mais há muito tempo.
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Capítulo Um
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