Capítulo único
Tempo estimado de leitura: 65 minutos
Existe uma cidade no interior da Inglaterra chamada Newbury, a uma hora de trem de Londres.
A distância real disso se media em zeros na conta bancária. Era o tipo de lugar que vendia silêncio e ar puro para quem podia pagar, com suas bibliotecas municipais de tijolo vermelho e escolas de gramado aparado. Mas se você seguisse o caminho dos postes de luz, notaria o momento exato em que a prefeitura parava de se importar.
O asfalto morria abruptamente, dando lugar a um cascalho solto que mastigava os pneus dos carros e os joelhos das crianças. Ali terminava a Inglaterra de cartão-postal e começava The Nightingales.
Era um amontoado de conjuntos habitacionais cercados por grades brancas que já não viam tinta há uma década. O cheiro era uma mistura constante de esgoto mal resolvido e desesperança. Margot olhava para aqueles prédios e não via um lar. Via um depósito temporário.
Juneau tinha ficado para trás, reduzida a uma transação malfeita. Não havia nostalgia pelo papel de parede amarelo ou pelas tardes no carpete gasto. O que Margot lembrava era da estupidez. Lembrava de como o fogo, aceso pela ganância bêbada e amadora do pai, consumiu a casa em minutos. Ele achou que estava sendo esperto, que sairia com algum lucro, mas a única coisa que conseguiu foi transformar a macieira do quintal em carvão e a vida delas em cinzas.
Na picape de fuga, olhando pelo retrovisor, Margot não chorou. Não havia lucro no choro. Ela entendeu ali, vendo a fumaça subir, que a incompetência do pai tinha lhe custado a infância.
Agora, a equação era simples: zero dinheiro, zero contatos e um apartamento de dois quartos alugado graças à penhora das últimas joias da avó. A mãe esfregava o chão de executivos em uma corporação no centro enquanto Margot se preparava para o último ano em uma escola onde seu uniforme de segunda mão seria um alvo nas costas.
Mas ela não estava ali para fazer amigos. Amigos eram distrações caras. O plano era sobreviver, acumular o suficiente para comer e garantir a vaga em Medicina. Não por vocação humanitária, mas porque médicos nunca ficavam desempregados e, mais importante, nunca moravam em lugares como Nightingales. O resto — bailes, garotos, despedidas — era lixo descartável.
Pelo menos, era o que ela dizia para si mesma. Margot achava que tinha o controle, que sua frieza era uma armadura impenetrável. Mal sabia ela que a vida tem um jeito sádico de rir de quem faz planos demais. E mesmo agora, dez anos depois, sentada em um consultório com ar-condicionado, ela ainda tentava calcular como foi que aqueles fantasmas de Newbury conseguiram atravessar a fronteira junto com ela.
NEWBURY
CONDADO DE BERKSHIRE
1985
O outono estava atrasado e o sol transformava o ônibus de uma linha só em uma estufa de metal e suor. Margot não se incomodava com o calor, incomodava-se com a falta de espaço. Estava prensada contra um operário que cheirava a óleo diesel e ouvia metal no volume máximo, os agudos vazando do fone barato. Atrás dela, uma senhora folheava uma revista de fofocas com a placidez bovina de quem já aceitou o próprio destino.
Margot observou a mulher. Sapatos gastos, revista cara. As prioridades daquela gente eram uma piada.
Quando o ônibus cuspiu os passageiros na frente da Newbury High School, Margot desceu analisando o terreno. O prédio de concreto cinza tinha a arquitetura brutalista de uma penitenciária, mas aquilo não a assustava. Prisões tinham hierarquias, e hierarquias podiam ser escaladas.
Ela alisou a saia. O tecido era uma porcaria e a costura amarela na lateral, feita por sua mãe, gritava improviso. Mas Margot não caminhou encolhida. Manteve a cabeça erguida, os olhos varrendo a entrada. O uniforme não era um atestado de pobreza; era o disfarce necessário para entrar no clube. Ninguém olhou duas vezes. Melhor assim. A invisibilidade era uma arma útil.
Foi o barulho que quebrou sua concentração.
Não de risadas, mas o som agressivo de borracha contra o asfalto. Um bando de garotos surgiu da Rua Essex, cortando o trânsito como se fossem donos da cidade. Na liderança estava ele: Gerry Lewis.
Ele não parecia estar se divertindo. Curvado sobre o guidão de uma Monark cara, ele pedalava com uma violência desnecessária, como se a bicicleta fosse um animal que ele precisasse domar ou matar. Atrás dele, o séquito de bajuladores tentava acompanhar o ritmo, gritando coisas que o vento levava.
Para a escola, aquilo era a tradição do "Garoto de Ouro". Para Gerry, era a única forma de silenciar o zumbido na cabeça. Ele via os alunos se afastando, abrindo caminho com aquela reverência patética que dedicavam ao sobrenome dele. Odiava cada um deles. Odiava a encenação. Queria atropelar a hipocrisia daquele lugar.
— Saiam da frente! — John gritou atrás dele, tentando uma ultrapassagem idiota pela direita.
Gerry viu o movimento pelo canto do olho. John queria um show. Gerry queria sangue. Ele não diminuiu a velocidade ao entrar no pátio. Pelo contrário, forçou as pernas, sentindo o músculo queimar, buscando aquele ponto de ruptura onde a dor física abafa a mental.
Mas John, desesperado por atenção, cortou a frente dele numa manobra suicida em direção às escadas.
Gerry não teve tempo para estratégia. Ele travou a roda traseira, a bicicleta chicoteou de lado e o mundo virou um borrão de cinza e azul. O impacto não foi cinematográfico. Foi seco. O som de metal batendo em osso.
Ele voou. O chão de pedra o recebeu sem misericórdia, o gosto de cobre encheu sua boca imediatamente. Ele ficou deitado por um segundo, olhando para o sol, a respiração presa, sentindo a pulsação raivosa na têmpora rasgada.
Levanta, a voz na cabeça dele ordenou.
Não dê a eles o prazer de te verem no chão. Ele se apoiou nos cotovelos, pronto para xingar John até a décima geração, mas seus olhos focaram em outra coisa.
Havia uma garota no chão.
Ela não estava chorando. Não estava gritando. Estava sentada no meio dos pedregulhos, tirando o cabelo do rosto com uma irritação contida. O joelho dela estava aberto, o sangue descendo pela canela, manchando a meia branca.
Gerry limpou o sangue do próprio supercílio e engatinhou até ela. A multidão começou a fechar o cerco, os abutres de sempre querendo ver o desastre.
— Ei. Quebrou alguma coisa? — ele perguntou. A voz saiu rouca, sem nenhuma gentileza.
A garota olhou para ele. O olhar dela não tinha medo. Tinha cálculo. Ela olhou para a bicicleta retorcida, depois para o rosto dele, depois para o próprio joelho.
— Você rasgou a minha meia. — ela disse. Não era uma acusação chorosa. Era a constatação de um prejuízo financeiro.
Gerry soltou uma risada curta, incrédula. Ele estava sangrando, ela estava sangrando, e a preocupação dela era o figurino.
— Eu compro outra. — ele retrucou, estendendo a mão. — Levanta.
Margot avaliou a mão estendida. Mão de rico. Unhas limpas, relógio que valia mais que o aluguel dela. Ela aceitou, usando o impulso para ficar de pé sem fazer careta, ignorando a dor aguda na perna.
— Gerry! Meu Deus, cara! — John apareceu, pálido, a encenação de diversão substituída pelo pânico real.
— Cala a boca, Costner. — Gerry rosnou, sem olhar para o amigo. Ele não soltou o braço da garota, testando o equilíbrio dela. — Consegue andar?
— Consigo. Não sou de vidro.
Antes que pudessem sair dali, a figura napoleônica do senhor Reeves rompeu a multidão, berrando ordens e distribuindo culpas.
— Eu sabia! Delinquentes! Lewis, dessa vez você passou dos limites! — o inspetor olhou para Margot, depois para a bicicleta destruída. — E você, menina? Está esperando um convite? Para a enfermaria, agora!
Margot viu a oportunidade. Enfermaria significava perder a primeira aula, evitar as apresentações constrangedoras e sondar o terreno longe dos professores.
— Estou indo. — ela disse, soltando-se de Gerry.
Reeves agarrou o ombro de Gerry, empurrando-o na direção oposta, para a diretoria. Gerry não resistiu, mas manteve os olhos na garota. Ela não olhou para trás. Nem uma vez. Mancava em direção ao prédio com uma digna ferocidade, preocupada apenas em limpar a poeira da saia.
— Você tá fodido, Gerry. — alguém sussurrou.
Gerry ignorou. Ele olhou para o chão, onde a colisão tinha acontecido. No meio do cascalho, algo brilhou.
Ele se abaixou e pegou. Um chaveiro barato, enferrujado, com a imagem de uma catedral que parecia ter sobrevivido a uma guerra. Não era bonito, era só um pedaço de lixo que alguém se recusou a jogar fora.
Ele fechou o punho em torno do metal frio e áspero. Pela primeira vez no dia, a raiva diminuiu, substituída por uma curiosidade perigosa. Aquela garota não tinha chorado. Em Newbury, todo mundo chorava ou fingia que estava tudo bem. Ela apenas cobrou o prejuízo.
Ele guardou o chaveiro no bolso e caminhou para a diretoria, sentindo o sangue secar no rosto.
NEWBURY
CONDADO DE BERKSHIRE
1995
Gerry acordou antes de abrir os olhos. O cheiro de grama cortada e silêncio caro invadiu o quarto, confirmando que ele não estava em Londres. Estava na casa dos pais, o único lugar no mundo onde o ar parecia ter menos oxigênio.
Ao lado dele, Trinity se mexeu. Ele abriu os olhos e a observou por um momento, sem afeto, apenas com o reconhecimento clínico da presença dela. Ela era bonita, disponível e, o mais importante, não fazia perguntas sobre o passado. Tinha vindo de Londres atrás dele como um animal de estimação carente, escalando a janela na noite anterior.
Ela abriu os olhos, sorrindo aquele sorriso fácil de quem acha que sexo era a garantia de um anel de casamento.
— Bom dia. — ela sussurrou, a mão deslizando pelo peito dele. — Achei que você nunca fosse acordar.
Gerry segurou o pulso dela. Não com força, mas com firmeza suficiente para parar o movimento.
— O quê? Mas ainda é cedo, eu pensei que…
Duas batidas secas na porta cortaram a frase. Não eram batidas de pergunta; eram batidas de ordem.
— Gerry? — a voz de Mary Lewis atravessou a madeira maciça com a precisão de um bisturi. — O café está na mesa há quinze minutos.
Gerry sentiu o estômago contrair. O velho reflexo pavloviano de culpa e raiva. Ele se sentou na cama, passando a mão pelo rosto, tentando apagar a exaustão que parecia tatuada nos ossos.
— Estou descendo. — ele respondeu. A voz saiu rouca, arranhada pelos cigarros da noite anterior. Ele se virou para Trinity, apontando para a janela com a cabeça. — Agora.
— Você é inacreditável. — ela sibilou, puxando o vestido do chão. A mágoa na voz dela era palpável, mas Gerry não tinha espaço mental para lidar com sentimentos de terceiros.
Ele não esperou ela responder. Assim que Trinity desapareceu pelo beiral, ele vestiu a primeira camisa que encontrou, ignorando os botões errados, e abriu a porta.
Mary estava lá. Impecável. Nem um fio de cabelo grisalho fora do lugar, o rosto blindado por uma camada de maquiagem que escondia qualquer vestígio de humanidade. Ela olhou para as roupas amassadas do filho com o desgosto de quem encontra uma mancha no tapete persa.
— Você está cheirando a uísque barato. — ela disse, sem bom dia. — E a perfume de mulher.
— É a nova colônia da moda, mãe.
Decadência. Deveria experimentar.
Ele passou por ela, descendo as escadas sem esperar resposta. A casa era um mausoléu. Quadros de ancestrais que ele não conhecia, móveis que ninguém usava, tapetes onde era proibido pisar. Elliott Lewis estava na cabeceira da mesa, escondido atrás do
Financial Times, como fazia há trinta anos. Uma estátua de covardia polida.
Gerry se sentou, servindo-se de café preto. Mary ocupou seu lugar na outra ponta, a distância entre eles medida em metros e ressentimentos.
— Marquei um horário com o senhor Day para você hoje à tarde. — ela anunciou, cortando um pedaço minúsculo de melão.
Gerry parou a xícara no meio do caminho.
— O jantar do prefeito é hoje à noite. A filha deles, Ellen Pfeiffer, voltou da Nova Zelândia. Mestrado em Direito. Uma moça brilhante.
Gerry soltou uma risada seca, sem humor.
— Ah. Entendi. O leilão de gado continua.
— Não seja vulgar, Gerry. — ela disse, a voz gelada. — Estou apenas tentando garantir que você apareça apresentável, e não parecendo um mecânico de beira de estrada. Você tem vinte e oito anos. Já passou da hora de parar de brincar de rebelde e assumir seu lugar.
— Meu lugar é em Londres, gerindo as empresas que pagam por essa fruta fresca que você está comendo.
— Seu lugar é onde eu digo que é. — ela rebateu, pousando o garfo com um estalo. — Eu quero netos, Gerry. Quero um legado. Não quero meu filho único desperdiçando a vida com... mulheres descartáveis e motos barulhentas. Você precisa de uma esposa. Alguém da nossa classe. Alguém que entenda o que significa ser um Lewis.
Gerry sentiu a pressão subir. Aquele discurso. Sempre o mesmo discurso. A obsessão dela por controle, por manter as aparências, por apagar qualquer mancha na reputação imaculada da família.
— Eu não vou me casar, mãe. Já tivemos essa conversa.
— Você não vai se casar porque é teimoso. Porque insiste nessa fantasia adolescente de que pode viver sozinho. Ellen é perfeita para você. Vocês namoraram no colégio, não foi? Antes daquela... confusão.
O ar na sala mudou. Ficou denso, elétrico. Elliott baixou o jornal lentamente, os olhos arregalados, o sinal universal de
pare agora.
— Você precisa esquecer aquela fase, Gerry. Esquecer os erros.
Gerry largou a xícara no pires com força. A porcelana trincou. O som ecoou na sala de jantar como um tiro.
— Erros? — ele perguntou, a voz perigosamente baixa. — É assim que você chama?
— Gerry… — o pai tentou intervir, a voz fraca.
— Não. — Gerry se levantou, apoiando as mãos na mesa, inclinando-se na direção da mãe. Os olhos dele, geralmente cansados, agora queimavam com uma intensidade maníaca. — Vamos falar sobre erros, Mary. Vamos falar sobre como você limpou a minha vida dez anos atrás como se estivesse demitindo uma empregada. Vamos falar sobre o que você fez.
O rosto de Mary empalideceu, a máscara tremendo pela primeira vez.
— Eu fiz o que era necessário. — ela sussurrou, mas havia medo nos olhos dela. Medo dele. — Eu protegi você. Ela ia destruir o seu futuro. Uma garota daquele lugar... do lixo…
— Ela era a única coisa real nessa maldita cidade! — Gerry gritou. A garganta ardeu. — E você a queimou. Do mesmo jeito que o pai dela queimou a casa. Você só não usou fósforos.
Ele chutou a cadeira para trás. A madeira raspou no piso encerado, um grito agudo.
— Gerry, volte aqui!” — o pai gritou, tentando recuperar alguma autoridade.
Gerry nem olhou para trás. Ele marchou para fora da sala de jantar, sentindo o gosto de bile na boca. O fantasma não estava apenas na memória. Estava ali, sentado à mesa com eles, respirando o mesmo ar viciado.
Ele subiu as escadas correndo, precisando sair daquela casa, precisando de ar, precisando dirigir até que o motor da moto gritasse mais alto do que as vozes na cabeça dele. Dez anos. E ainda doía como se a pele estivesse em carne viva.
NEWBURY
CONDADO DE BERKSHIRE
1985
Gerry levou uma semana para encurralá-la.
Não por timidez. A timidez era um luxo para quem tinha tempo a perder. Ele apenas observava. Via como ela se movia pelos corredores como se estivesse atravessando um campo minado, os olhos fixos no chão, ignorando os sussurros sobre "a garota de Nightingales". Ele via como ela comia sozinha, mastigando rápido, não por fome, mas por eficiência de tempo.
Ela era um mecanismo de sobrevivência em funcionamento, e Gerry, obcecado por saber como as coisas funcionam, não conseguia desviar o olhar.
Para Margot, aquela semana foi apenas contabilidade. O acidente de bicicleta, o estigma de morar no bairro pobre, os olhares de nojo das garotas ricas... tudo entrava na coluna de "custos operacionais". O lucro viria depois.
Ela não perdeu tempo chorando pelo chaveiro perdido. Juneau e o pai bêbado eram passado, e o passado não pagava contas. O presente exigia dinheiro. Na quarta-feira, ela encontrou a solução no mural da escola: o Cinema Beirute precisava de ajuda. O dono, Hymie Fuchs, era um italiano sovina que cheirava a charuto barato. Margot não pediu o emprego; ela o convenceu. Viu que ele estava velho, cansado de lidar com a projeção e a bilheteria ao mesmo tempo. Negociou as horas extras e os finais de semana antes mesmo de assinar a ficha. O salário era uma miséria, mas o acesso livre e as gorjetas dos velhos nostálgicos das sextas-feiras compensavam. Era um começo.
Na sexta-feira, ao som do último sinal, Margot disparou. O Beirute ficava longe, e a caminhada queimava solas de sapato que ela não podia se dar ao luxo de substituir.
Ela cruzou o portão, a mente já calculando o trajeto mais rápido, quando ouviu.
Não foi uma pergunta. Foi uma intimação.
Margot parou, girando nos calcanhares. Gerry Lewis vinha atrás dela. Ele não corria afobado; ele avançava com passadas largas e decididas, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro, o rosto fechado em uma expressão ilegível.
Ele parou a um metro dela. Nada de sorrisos amarelos, nada de desculpas esfarrapadas sobre o calor ou o trânsito.
— Você anda rápido. — ele constatou. A voz dele era grave, desprovida daquele tom agudo que os garotos usavam para tentar agradar.
— Tempo é dinheiro, Lewis. — ela respondeu, cruzando os braços. — Veio terminar o serviço com a bicicleta?
Gerry ignorou a provocação. Ele tirou a mão do bolso e estendeu o punho fechado.
— Você deixou cair. Naquele dia.
Ele abriu a mão. O chaveiro estava lá. Mas não era o pedaço de metal enferrujado e triste que ela carregava desde o Alaska.
A catedral de St. Andrew brilhava. A ferrugem tinha sido removida quimicamente, o metal polido até refletir o sol da tarde. A argola torta tinha sido substituída por uma nova, de aço cirúrgico.
Margot olhou para o objeto, depois para os olhos de Gerry. Eram olhos escuros, profundos, com olheiras que sugeriam que ele dormia tão mal quanto ela.
— Você limpou. — ela disse, desconfiada. Ninguém fazia nada de graça. — Por quê?
— A ferrugem estava comendo o metal. — ele respondeu, dando de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Se você deixa a corrosão ficar, ela destrói a estrutura. Eu tirei.
Ele não disse "eu fiz isso porque gosto de você". Ele disse que consertou um erro estrutural.
Margot pegou o chaveiro. O metal estava quente da mão dele. Ela passou o polegar pelo relevo da catedral. Era um trabalho profissional. Ele devia ter gastado horas naquilo. Solventes, lixa, polimento.
— Obrigada. — ela disse, e a palavra saiu mais pesada do que pretendia. Ela guardou o chaveiro no bolso, sentindo o peso dele contra a coxa. — Você é bom com as mãos.
Gerry sustentou o olhar dela. Não corou. Apenas assentiu, absorvendo a informação.
— Tenho que ir. — Margot disse, quebrando a tensão estática que começava a se formar entre eles. — O velho Fuchs não tolera atrasos.
— É. Alguém tem que trabalhar nessa cidade.
Ela se virou para ir embora, mas parou. A curiosidade, aquele vício maldito, a fez olhar para trás. Gerry continuava parado no mesmo lugar, imóvel como uma estátua de vigilância, observando-a se afastar.
— Meu nome é Gerry. — ele disse. Não gritou, mas a voz chegou até ela clara como vidro.
— Eu sei. — ela respondeu, voltando a andar. — Um nome comum.
Gerry ficou ali até ela virar a esquina da rua Essex. Ele sentiu o fantasma do metal nos dedos, o cheiro de óleo e solvente que tinha ficado impregnado na pele depois de passar duas noites acordado esfregando aquele chaveiro barato. Ele não sorriu. Apenas sentiu um alívio momentâneo, como se tivesse colocado uma peça de volta no lugar certo de uma engrenagem quebrada.
LONDRES
1995
A sala era um desperdício de espaço nobre em Paddington, mas Margot não ia reclamar. As paredes de pedra do St. Mary isolavam o barulho da avenida e a temperatura lá fora. Era um bunker de privilégio, e ela tinha lutado com unhas e dentes para ocupá-lo.
Ela largou a caixa de papelão na mesa de vidro. O jaleco estava pendurado na cadeira, imaculado. No bolso, bordado em linha azul-marinho:
Dra. Margot Moss.
Ela passou o dedo pelo sobrenome. Moss. O nome do ex-marido que durou pouco, mas que serviu para enterrar o "McDonnell" e a garota de Nightingales num buraco fundo. Ela sorriu. Não era um sorriso feliz, era o sorriso de quem enganou o sistema.
Margot se virou. Uma mulher pequena de uniforme azul estava parada na porta. Dottie Bennett, a enfermeira-chefe. Margot já tinha lido a ficha dela: eficiente, leal, não tolerava incompetência. Ótimo.
— Desculpe a pressa, mas o St. Mary não dá trégua para novatos. — Dottie estendeu uma prancheta. — Ala 3. Joshua Moscow. Anemia falciforme, histórico de crises frequentes e um talento especial para expulsar médicos. O Dr. Belfort pediu demissão ontem à noite por causa dele.
Margot pegou a ficha, escaneando os dados vitais. Taquicardia, saturação baixa, histórico de opióides.
— Expulsou o médico? — Margot ergueu uma sobrancelha.
— Ele é... difícil. Recusa internação, quer se tratar sozinho. Acha que o hospital é um hotel ruim.
— Entendi. — Margot fechou a prancheta. — Vamos ver quem é mais teimoso.
O corredor até o quarto particular era um labirinto branco que cheirava a antisséptico e látex. Margot caminhava rápido, o som dos saltos ecoando com autoridade. Ela não era mais a menina que pedia desculpas por existir. Agora, ela dava as ordens.
No quarto 304, Joshua Moscow estava deitado, mas não parecia um paciente. Parecia um executivo entediado esperando um voo atrasado. Um acesso venoso no braço esquerdo, um laptop de última geração no colo, digitando furiosamente com a mão direita.
— Senhor Moscow? — Dottie anunciou.
Ele nem levantou a cabeça.
— Dottie, se for o capelão, diga que eu sou ateu. Se for o nutricionista, diga que eu quero um bife.
Joshua parou de digitar. Ele olhou para cima, e a irritação no rosto dele vacilou por um segundo ao ver Margot. Ele esperava um velho de monóculo, não uma mulher que olhava para ele como se ele fosse um problema de matemática mal resolvido.
Dottie sorriu, sentindo o cheiro de sangue.
— Dra. Moss, clínica geral. Boa sorte.
A enfermeira saiu, fechando a porta com um clique definitivo.
Joshua fechou o laptop devagar. Ele ajeitou a postura, ativando seu charme corporativo.
— Dra. Moss. Prazer. Olha, vamos pular a parte chata? Eu sei o que eu tenho, eu sei o que eu preciso. Me dá uma dose de morfina pra viagem, assina minha alta e eu prometo não morrer no seu turno. Tenho uma reunião em duas horas.
Margot não respondeu. Ela puxou a cadeira de visitante, sentou-se e cruzou as pernas. Abriu a ficha e sacou uma caneta.
— Sua escala de dor. Um a dez.
Joshua suspirou, revirando os olhos.
— Sério? Vamos brincar disso?
— Sete. — ele respondeu rápido demais.
Margot anotou algo na prancheta, sem olhar para ele.
Joshua piscou, pego de surpresa.
— Sete é dor de dente. Sete é pra quem bate o dedo na quina da mesa. Pela sua frequência cardíaca e pela palidez nas suas mucosas, você está operando num nove sólido. Talvez nove e meio. Só não está gritando porque tem o ego maior que a dor.
Joshua abriu a boca para rebater, mas fechou. Ele olhou para ela com um novo interesse. Ela não estava jogando o jogo da empatia. Ela estava jogando pôquer.
— Tudo bem. — ele admitiu, a voz perdendo o tom de vendedor. — Nove. Mas eu aguento. Eu preciso sair daqui.
— Você não vai a lugar nenhum. — Margot rabiscou uma prescrição. — Vou pedir um hemograma completo, radiografia de tórax e, se você continuar me irritando, uma biópsia de medula só pra garantir.
— Você não pode me prender aqui.
— Posso. E vou. Se você sair por aquela porta com essa saturação, vai desmaiar no saguão. E aí eu vou ter que entubar você na frente da recepção, o que vai ser péssimo para a sua imagem de executivo de sucesso. — ela o encarou, os olhos frios e desafiadores. — Quer pagar pra ver?
Joshua sustentou o olhar dela. Ele estava acostumado a intimidar pessoas, a comprar saídas, a negociar termos. Mas aquela mulher tinha uma barreira de concreto armado em volta dela. E, irritantemente, ele gostou disso.
— Você é sempre assim ou hoje é um dia especial? — ele perguntou, um sorriso de canto aparecendo.
— Sou pior às segundas. — ela se levantou, colocando a prancheta aos pés da cama. — Vou mudar seus analgésicos. Avise quem tiver que avisar. Você fica.
Joshua bufou, derrotado, mas sem perder a pose.
— Tenho um amigo vindo pra cá. Meu chefe. Ele vai ficar uma fera se eu não aparecer na reunião.
— O problema é dele. E seu. — Margot já estava na porta. — Ele precisa assinar os formulários de responsabilidade financeira quando chegar. Mande-o para a minha sala.
— Ele é meio… babaca. — Joshua avisou. — Gerry. O nome dele é Gerry.
Margot parou com a mão na maçaneta. O nome bateu nela como uma pedra.
Gerry. Um nome comum. Londres tinha milhares de Gerrys. Não havia motivo para o coração dela falhar uma batida daquele jeito ridículo.
— Mande o senhor Gerry assinar os papéis. — ela disse, sem se virar, forçando a voz a sair neutra. — E tente não morrer nas próximas duas horas, Joshua. Seria muita papelada para o meu primeiro dia.
Ela saiu antes que ele pudesse responder, o som do nome
Gerry ecoando no corredor vazio da mente dela, abrindo portas que ela tinha trancado a sete chaves dez anos atrás.
NEWBURY
CONDADO DE BERKSHIRE
1985
Os números na folha não eram apenas símbolos; eram arame farpado. Margot encarava a equação paramétrica como se ela fosse um inimigo pessoal, um obstáculo deliberado entre ela e a faculdade de Medicina. Ela sabia que precisava da nota, mas seu cérebro, geralmente afiado para sobreviver nas ruas, travava diante da abstração inútil daquele X e daquele Y.
Ela não chorou. Chorar era perda de tempo. Ela praguejou mentalmente contra Newton, Pitágoras e qualquer outro idiota que tivesse inventado formas de complicar a vida de quem já tinha problemas reais.
A três fileiras de distância, Gerry a observava.
Ele já tinha terminado a prova há vinte minutos. Para ele, números eram calmantes. Eram lógicos, previsíveis, não mentiam. Ver Margot lutar contra o papel o incomodava. Não por pena, mas porque ele via a inteligência nos olhos dela — a astúcia de quem negociava com donos de cinema e sobrevivia a Nightingales. Ver aquela inteligência desperdiçada em um erro de cálculo básico era ofensivo.
O sinal tocou. O som da liberdade para a maioria, o som da derrota para Margot.
John e George, os parasitas habituais, já estavam de pé, falando alto sobre fitas cassete e planos medíocres para a tarde.
— Vamos pra garagem do Henry? — John perguntou, a voz cheia daquela empolgação vazia que Gerry detestava. — Led Zeppelin, pizza…
— Não. — Gerry cortou, seco. Ele nem olhou para eles. Continuou encarando as costas de Margot, que guardava o estojo com uma lentidão irritante.
— Qual é, Gerry? Você disse que ia…
A palavra pairou no ar, pesada. John e George trocaram olhares confusos. Eles estavam acostumados com o Gerry que ria, que pagava a conta, que liderava. Esse novo Gerry, tenso e cortante, os assustava.
— Tá bom, cara. Relaxa. A gente se vê amanhã?
Gerry apenas acenou com a cabeça, um gesto mínimo para despachá-los. Eles saíram, levando o barulho com eles.
A sala ficou silenciosa. Apenas o som do zíper da mochila de Margot sendo fechado.
Gerry se levantou. Ele pegou seu caderno de anotações — organizado, preciso, obsessivo — e caminhou até a mesa dela.
Margot sentiu a presença antes de vê-lo. O cheiro de sabonete caro e, curiosamente, de óleo de motor. Ela se virou, a guarda já levantada, pronta para rebater qualquer piadinha sobre sua performance medíocre na prova.
Mas Gerry não fez piada. Ele jogou o caderno em cima da mesa dela. O som do impacto foi alto no silêncio da sala.
— O que é isso? — ela perguntou, olhando para o objeto como se fosse uma bomba.
— O gabarito. E as minhas anotações. — Gerry encostou-se na mesa vizinha, cruzando os braços. — Você não é burra, McDonnell. Eu vejo você negociando lá fora. Vejo como você fica calculando suas moedinhas miseráveis pro sanduíche de atum. Então por que você age como uma idiota quando tem um número na frente?
Margot estreitou os olhos. A ofensa estava ali, mas embrulhada em um elogio estranho.
— Eu não preciso da sua caridade, Lewis.
— Não é caridade. É correção de erro. Me irrita ver potencial desperdiçado. Você está tentando decorar a fórmula. Matemática não é poesia, você não decora. Você desmonta, tipo um motor.
Margot olhou para o caderno, depois para ele.
— Qual é o preço? — ela perguntou, direta. — Ninguém dá o caderno de ouro de graça. Você quer que eu faça o seu dever de História? Quer entrada livre no cinema?
Gerry riu. Foi uma risada curta, seca, mas genuína.
— Eu quero que você pare de franzir a testa daquele jeito na aula. Faz barulho na minha cabeça.
Ele desencostou da mesa, pronto para sair.
— Eu vou estar na biblioteca municipal hoje, antes do seu turno no Beirute. Se quiser aprender a desmontar o problema, apareça. Se preferir continuar xingando o papel, o problema é seu.
Ele não esperou resposta. Virou as costas e saiu, deixando Margot sozinha com o caderno e com uma sensação incômoda de que, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha enxergado através da armadura dela. E, pior, aquele alguém parecia tão quebrado quanto ela.
Margot pegou o caderno. Abriu na primeira página. A letra dele era meticulosa, quase agressiva na sua perfeição.
— Arrogante filho da mãe. — ela sussurrou, mas guardou o caderno na mochila.
O negócio tinha sido proposto. E Margot nunca recusava um bom negócio.
𐚁
A biblioteca municipal cheirava a mofo e cera provinciana. Gerry escolheu a mesa mais afastada, longe dos olhares curiosos e perto o suficiente da seção de Engenharia, caso precisasse de uma desculpa.
Margot chegou dois minutos adiantada. Ela não corria, mas caminhava com urgência econômica, sabendo que cada minuto tem um preço. Jogou a mochila na cadeira e sentou-se, encarando Gerry do outro lado da mesa.
— Trouxe os problemas? — ele perguntou, sem preâmbulos.
— Trouxe a lista que o Mateen passou. — ela deslizou o papel pela mesa. — Se eu tirar menos que um B, meu plano de fuga vai pro ralo.
Gerry pegou a folha. Seus olhos varreram as equações, dissecando a lógica por trás dos números.
— Esqueça o B. Você vai tirar um A. Ou eu vou arrancar meu próprio cérebro de tédio.
As semanas seguintes não foram românticas. Foram uma operação tática.
Eles se encontravam três vezes por semana. Gerry não explicava a matéria; ele a traduzia. Ele mostrava que a geometria não era sobre formas abstratas, mas sobre estrutura.
Se a base é fraca, o prédio cai. Margot entendia isso. Ela tinha visto casas queimarem. Ela sabia o valor de uma estrutura sólida.
Não havia borboletas no estômago. O cara era bonito e tudo mais, mas o repositor da mercearia também era. A beleza não cativava Margot. Mas havia tensão.
A tensão de duas pessoas que reconhecem, no silêncio da biblioteca, que são os únicos acordados em uma cidade de sonâmbulos. Margot via Gerry rabiscar fórmulas com uma força que quase rasgava o papel, a mandíbula trincada, como se estivesse tentando resolver o caos da própria cabeça através da matemática. Gerry via Margot absorver o conhecimento com uma fome predatória, não por amor ao saber, mas porque aquilo era uma ferramenta.
Quando a nota da prova saiu, não houve comemoração efusiva no corredor.
Gerry estava encostado no armário, fingindo ler um livro, quando Margot passou. Ela parou, olhou para ele e ergueu o papel discretamente. A-.
Gerry assentiu, um movimento quase imperceptível. Um reconhecimento entre cúmplices.
Missão cumprida. Mas o contrato tinha acabado. A dívida estava paga. E Gerry percebeu, com um pânico frio que subiu pela espinha, que não tinha mais desculpas para estar perto dela.
Naquela tarde, ele esperou na frente do Cinema Beirute.
A CBX750 roncava baixo, uma besta de metal preto que parecia deslocada naquela rua de paralelepípedos. Gerry estava sentado nela, capacete no braço, fumando um cigarro com impaciência, disfarçando as sentenças que sua própria mente produzia.
O que estou fazendo? Que porra estou fazendo? Margot saiu pela porta lateral, limpando as mãos no jeans. Ela parou quando viu a moto. Seus olhos não brilharam de medo ou encanto romântico. Eles só avaliaram a máquina.
— Bonita. — ela disse, aproximando-se. — Deve custar mais que o prédio onde eu moro.
— Provavelmente. — Gerry admitiu, tragando o cigarro. — Mas é mais rápida.
— Veio cobrar juros pelas aulas?
Gerry jogou o cigarro no chão e pisou nele com a bota.
— Vim cobrar um jantar. Você passou na prova.
Margot cruzou os braços, um sorriso cínico aparecendo no canto da boca.
— O garoto rico quer me levar pra jantar. O que sua mãe diria sobre isso, Lewis?
— Minha mãe diria para eu escolher um restaurante francês e usar talheres de prata. — ele estendeu o segundo capacete para ela. — Por isso vamos ao Poison. Hambúrguer gorduroso e milk shake. Vamos?
Margot olhou para o capacete. Era preto, fosco, pesado. Ela sabia o que aquilo significava. Subir naquela moto era uma declaração de guerra contra a hierarquia de Newbury. Era dizer:
Eu não tenho medo. — Se você me matar nessa coisa, eu volto pra te assombrar.
A viagem até o Poison foi um borrão de vento gelado e adrenalina. Margot não abraçou a cintura dele com timidez. Ela segurou-se firme, sentindo a vibração do motor nas pernas, o corpo colado nas costas largas de Gerry. Ela gostou da velocidade. Gostou de ver a cidade virar um vulto irrelevante.
No Poison, sob as luzes neon baratas, eles pediram comida como se estivessem famintos há dias.
Gerry observou as mãos de Margot enquanto ela pegava o hambúrguer. Havia manchas escuras sob as unhas, resquícios da graxa do projetor antigo do Beirute. Mãos de quem trabalha. Mãos reais.
Ele estendeu a mão e segurou o pulso dela. O movimento foi súbito, parando o hambúrguer no meio do caminho.
— O que foi? — ela perguntou com a boca cheia.
— Suas mãos. — ele disse, passando o polegar sobre a mancha de graxa na pele dela. — Você não limpou direito.
— O velho Hymie não me dá tempo pra manicure. Tenho que correr pra pegar o último ônibus.
Gerry não soltou o pulso dela. O toque dele era quente, firme, possessivo.
— Eu te levo. A partir de hoje. Eu tenho uma moto, você tem pressa. É lógico.
Margot parou de mastigar. Ela olhou para ele, procurando a piada, a pegadinha, a caridade disfarçada. Mas os olhos de Gerry estavam sérios, intensos, focados nela como se ela fosse a única coisa consistente num mundo que estava desmoronando.
— Você vai me levar até Nightingales? — ela desafiou. — Sabe onde eu moro, Lewis. Não é lugar pra sua moto de luxo.
— A moto aguenta. — ele respondeu, soltando o pulso dela devagar. — A questão é se você aguenta a carona.
Margot sorriu. Não o sorriso educado que ela usava para os clientes do cinema. Era o sorriso de quem acabou de fechar o melhor negócio da vida.
— Termina logo esse hambúrguer, Lewis. Quero chegar em casa antes da meia-noite.
𐚁
A moto roncou alto quando eles entraram em Nightingales, um som estranho para um bairro acostumado com silêncio ou gritos. O sol já tinha morrido, deixando o céu com aquela cor de hematoma roxo que precede a escuridão total.
Margot desceu da moto antes mesmo que ela parasse completamente.
— Você não devia estar aqui. — ela disse, olhando para as janelas onde cortinas encardidas se mexiam. — Vão roubar os pneus dessa coisa antes de você conseguir tirar o capacete.
Gerry desligou o motor. O silêncio caiu pesado. Ele ignorou o aviso sobre os pneus e apontou para a cerca no final da rua morta.
Margot seguiu o dedo dele.
— O esgoto. O canal antigo. Lixo, ratos e água congelada. Agora vai embora.
Gerry não esperou. Saltou da moto e pulou a cerca com uma facilidade atlética irritante. Margot bufou, chutando uma pedrinha.
— Você tem um desejo de morte, Lewis?
Ela olhou para o prédio onde morava. Sua mãe só chegaria em uma hora. Ela podia entrar, trancar a porta e fingir que Gerry Lewis e sua moto de rico não existiam. Mas a curiosidade — e aquela atração magnética e estúpida — a puxou para a cerca.
Ela escalou o metal enferrujado e desceu o barranco atrás dele, escorregando na terra solta.
Lá embaixo, o cheiro não era tão ruim quanto ela lembrava. Era frio. Cheiro de água parada e pedra molhada. O riacho corria estreito entre o lixo acumulado nas margens.
Gerry estava parado na beira da água, olhando para o fluxo escuro como se estivesse lendo o futuro.
— Eles dizem que esse lugar é um inferno. — ele murmurou. — Parece tranquilo pra mim.
— É porque você não mora aqui.
De repente, ele começou a tirar a jaqueta. Depois, as botas pesadas de couro.
— O que você está fazendo?” — Margot perguntou, a voz subindo uma oitava.
Ele tirou a camisa. A pele dele era pálida sob o luar fraco, os músculos tensos pelo frio. Sem aviso, ele entrou na água.
Margot engasgou. Aquele córrego devia estar a dois graus. Era hipotermia garantida.
Gerry mergulhou a cabeça e emergiu, sacudindo o cabelo molhado como um cão selvagem. Ele não gritou de frio. Ele parecia... aliviado. Ele olhou para ela, a água escorrendo pelo peito nu.
Foi um desafio.
Você diz que é durona? Prove. Margot olhou para seus sapatos gastos. Olhou para a água preta. Ela pensou em Juneau, no fogo, na mãe esfregando chão, na humilhação diária de ser a "garota pobre". Ela sentiu uma raiva quente subir pelo peito. Queria limpar aquilo tudo também.
Começou tirando os sapatos. Depois o relógio barato.
— Se eu pegar pneumonia, você paga meu tratamento. — ela avisou.
O choque térmico foi como um soco. O ar saiu dos pulmões dela num grito mudo. A água era gelo líquido, agulhas perfurando a pele. Mas, segundos depois, o corpo reagiu. O sangue bombeou furioso para as extremidades, aquecendo-a de dentro para fora.
Gerry estava na frente dela. Ele não jogou água nela brincando. Ele segurou os braços dela, mantendo-a firme contra a correnteza.
Eles ficaram ali, tremendo, dois idiotas congelando num esgoto em Nightingales. E Margot começou a rir. Uma risada histérica, incontrolável, a risada de quem sobreviveu a um naufrágio.
Gerry não riu. Ele a olhou com uma intensidade que fez o frio desaparecer.
Ele tocou o rosto dela com a mão molhada e gelada. O polegar traçou a linha do maxilar, subiu até a bochecha corada pelo frio.
— Você é real. — ele sussurrou, como se estivesse confirmando uma teoria científica. — Todo mundo lá em cima é feito de plástico. Mas você... você sangra. Você sente frio.
Margot parou de rir. O coração batia tão forte que doía as costelas.
— Não fala nada. Só... fica aqui.
Ele se inclinou. O beijo não foi doce. Teve gosto de água de rio e desespero. Foi urgente, desajeitado, faminto. Os dentes bateram. As mãos dela agarraram os ombros nus dele, cravando as unhas na pele fria, puxando-o para mais perto, querendo fundir o calor dos dois para sobreviver àquele inverno.
Naquele momento, dentro da água suja, Margot esqueceu o plano. Esqueceu a faculdade de Medicina, o dinheiro, a sobrevivência. Ela só queria aquilo. Aquele caos. Aquele garoto quebrado que a via como uma igual.
Eles saíram da água tropeçando, caindo nas pedras da margem, ofegantes. Gerry a envolveu na jaqueta de couro dele, o forro ainda quente. Eles ficaram sentados no escuro, ombro a ombro, ouvindo a respiração um do outro se acalmar.
Margot olhou para ele. O cabelo escuro do filho único dos Lewis pingava, os lábios roxos, os olhos fechados.
— A gente vai morrer. — ela disse, tremendo.
— Provavelmente. — ele respondeu, abrindo um olho para encará-la. — Mas pelo menos a gente acordou.
DEZEMBRO
1985
Não foi uma briga. Brigas exigem duas pessoas gritando, e Mary Lewis não gritava. Ela apenas manobrava a realidade até que você não tivesse mais ar para respirar.
O carro dela, um Jaguar preto encerado como um caixão de luxo, estava parado na esquina do Cinema Beirute. Margot o viu assim que saiu do turno, limpando a gordura da pipoca das mãos. O vidro desceu eletricamente, revelando o rosto de Mary protegido por óculos escuros, embora o sol já tivesse desistido de Newbury há horas.
— Entre, senhorita McDonnell.
Margot hesitou, mas entrou. O interior cheirava a couro novo e a um perfume floral enjoativo que tentava disfarçar o cheiro de algo apodrecendo.
— Você é uma garota inteligente. — Mary começou, sem olhar para ela. As mãos enluvadas descansavam no volante. — Inteligente o suficiente para saber que o que você tem com meu filho é uma infecção. E infecções precisam ser tratadas antes que matem o hospedeiro.
— Eu não sou uma doença. — Margot respondeu, a voz firme, canalizando toda a sua frieza de sobrevivente. — Gerry gosta de mim. Talvez isso seja o que incomoda a senhora. Ele gosta de mim porque eu não minto para ele.
Mary riu. Um som seco, como vidro estalando.
— Você acha que isso é sobre amor adolescente? Gerry é doente, Margot. Ele sempre foi. Há uma escuridão dentro dele que você acha que é charme ou rebeldia, mas é instabilidade química. Ele é uma bomba-relógio. E você… — ela finalmente virou o rosto, e Margot viu o reflexo distorcido de si mesma nas lentes escuras. — Você é o fósforo.
— Você sabe lidar com a pobreza. Sabe lidar com a falta de opções. Mas você não sabe lidar com o poder.
Mary abriu a bolsa e tirou um envelope. Não havia dinheiro ali. Havia papéis.
— Eu sei que você quer ser médica. Sei que suas notas são impecáveis, graças, ironicamente, ao meu filho. Mas medicina custa caro. E as melhores universidades... elas pedem referências.
Margot sentiu o estômago gelar. Era isso. O golpe não era no coração, era no futuro.
— Se você ficar — Mary continuou, a voz suave —, eu garanto que nenhuma faculdade de medicina na Inglaterra aceitará sua matrícula. Eu vou usar cada conexão, cada favor, cada centavo da família Lewis para garantir que você termine sua vida limpando chão em Nightingales, exatamente como sua mãe.
Margot olhou para o envelope. Depois olhou para a rua suja lá fora. No fundo, estava respeitando a jogada da bruxa. Era brutal, mas também pacífica.
— Mas se você for embora… — Mary fez uma pausa. — Se você sumir hoje, sem dramas, sem cartas de despedida chorosas, e partir o coração dele de uma vez por todas para que ele pare de procurar... então, talvez, uma bolsa integral apareça para você em Dublin. Ou em Manchester. Longe daqui.
Margot calculou. Não foi uma escolha emocional. Foi matemática. Ficar significava destruir o próprio futuro e, eventualmente, ver Gerry ser destruído pela guerra com a mãe. Ir significava sobreviver.
— O que eu tenho que fazer? — Margot perguntou.
— Faça ele te odiar. O ódio cura mais rápido que a saudade.
𐚁
O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz azulada da lua que entrava pela janela aberta — a mesma janela que ele deixava destrancada para ela.
Eles tinham acabado de fazer amor. Ou algo próximo disso. Havia uma urgência desesperada no toque de Gerry naquela noite, como se ele pudesse sentir o cheiro da despedida na pele dela. Ele estava deitado de costas, o peito subindo e descendo, o braço jogado sobre os olhos. Margot estava sentada na beira da cama, vestindo a blusa do uniforme pelo avesso, as mãos tremendo.
Ele tirou o braço do rosto e a olhou. Aqueles olhos. Aqueles malditos olhos analíticos que sempre viam tudo.
— Você gostou? — ele perguntou. A voz era baixa, vulnerável, despida de toda a armadura paranoica que carregava na cabeça.
Margot parou de abotoar a camisa.
A resposta correta era sim. Ele sabia disso.
Mas a resposta real era que ele queria saber se tinha algo podre dentro dele que ela podia sentir. Ou se ela só estava fazendo aquilo por ele ter sido o primeiro a lhe oferecer um lugar no mundo onde ela não precisava pedir desculpas. Ou se tinha outro impedimento, um abismo invisível entre a classe dele e a dela, que ele não estava considerando.
Ele queria saber se era suficiente. Se a escuridão dele não tinha contaminado o momento. Se ele não era veneno.
Margot olhou para ele, e a mentira se formou na garganta dela como bile. Ela precisava ser o bisturi. Precisava cortar fundo para não ter que cortar duas vezes.
— Gerry… — ela começou, e o tom da voz dela fez ele se sentar na cama imediatamente. A vulnerabilidade sumiu, substituída pela tensão muscular de quem espera um golpe.
— Eu não posso mais fazer isso.
— Isso o quê? Nós? — ele tentou rir, mas saiu nervoso. — Margot, se é pela minha mãe, eu já disse que não me importo. A gente sai daqui. Eu pego a moto, a gente vai pra Londres agora.
— Não é sua mãe. — ela se levantou, calçando os sapatos. — Sou eu.
— Eu cansei, Gerry. — ela forçou a voz a soar entediada, pragmática, a voz de alguém que fez um cálculo e não gostou do resultado. — Isso aqui... brincar de Bonnie e Clyde em Nightingales... foi divertido por um tempo. Mas eu preciso de mais.
Gerry levantou-se. Ele estava nu, mas não parecia se importar. A vergonha não existia quando o pânico tomava conta.
— Do que você está falando? Eu te dou mais. Eu te dou tudo.
— Você não tem nada, Gerry. É tudo dos seus pais. A moto, a casa, o dinheiro. Você é só um garoto rico brincando de ser problemático. E eu tenho planos reais.
As palavras atingiram ele fisicamente. Ele recuou um passo, como se tivesse levado um tapa.
— Vou tomar uma ducha. — ele disse.
Foi uma frase desconexa. Uma tentativa estúpida do cérebro dele de pausar a conversa, de rebobinar a fita para cinco minutos atrás, quando eles eram apenas dois corpos quentes no escuro.
— Não. — Margot disse. Ela caminhou até a janela. — Eu estou indo embora. De Newbury.
Gerry ficou parado no meio do quarto. A silhueta dele contra a luz da lua parecia quebrada. A mágoa vazava dele, misturada com uma incredulidade violenta.
— Você está mentindo. — ele sussurrou. — Você está mentindo porque ela falou com você. O que ela disse?
— Ela não disse nada que eu já não soubesse. — Margot colocou uma perna para fora da janela. Ela precisava ir agora. Se olhasse para ele por mais um segundo, o plano desmoronaria. Ela pularia de volta para aquela cama e deixaria Mary Lewis queimar o mundo.
— Você vai estar aqui quando eu voltar? — ele perguntou, a voz embargada, ignorando que ela já estava saindo, ignorando a lógica, agarrando-se a qualquer coisa.
— A que horas começa o seu turno?” — ele insistiu, delirante. — Amanhã. No cinema.
A frase pairou no ar frio da noite. Uma promessa e uma maldição.
Uma lágrima solitária, traidora, escorreu pelo rosto dela. Ela a limpou com raiva antes que ele pudesse ver.
— Não espere. — ela disse, e a voz dela foi o som de uma porta de cofre se fechando. — Eu nunca amei você, Gerry. Eu só queria ver como era o outro lado da cidade.
Os pés dela atingiram a grama fofa do jardim dos Lewis. Ela não olhou para trás. Não olhou para a janela onde sabia que ele estava parado, observando-a correr para a escuridão, com o coração dele nas mãos dela, esmagado e sangrando, exatamente como Mary Lewis havia encomendado.
LONDRES
1995
Gerry passou pela porta giratória do St. Mary como se fosse dono do prédio e estivesse ali para demoli-lo. As enfermeiras da recepção trocaram olhares nervosos. Ele não parecia um visitante; parecia um acidente prestes a acontecer. Botas pesadas, jaqueta de couro surrada e aquela aura de eletricidade estática que faz os pelos do braço arrepiarem.
Ele parou no balcão central.
A recepcionista, uma mulher que já tinha visto de tudo, hesitou.
Ela digitou o nome, os olhos indo da tela para ele.
— Quarto 304. E senhor Lewis? Tente não acordar o andar inteiro.
Gerry não respondeu. Ele já estava marchando pelo corredor.
Quando abriu a porta do 304, a visão de Joshua — pálido, cheio de tubos, mas sorrindo para a tela do laptop — fez o estômago de Gerry dar um nó. Não era raiva. Era medo. Medo puro e destilado, disfarçado de fúria.
— Você é um idiota suicida. — Gerry disse, fechando a porta. O som foi abafado, mas definitivo.
Joshua levantou os olhos, o sorriso vacilando.
— Oi pra você também, chefe.
— Não me venha com
oi. — Gerry caminhou até a cama, apoiando as mãos na barra de metal. Os nós dos dedos estavam brancos. — Você me liga dizendo que é uma "crise leve"? Você está parecendo um cadáver, Joshua. Se eu não tivesse vindo…
— Você não está bem! — Gerry baixou a voz, mas a intensidade aumentou. — Você está morrendo aos poucos porque é teimoso demais para admitir que precisa de ajuda. Eu devia te demitir. Devia te mandar de volta pra América numa caixa.
Joshua suspirou, fechando o laptop. Ele conhecia aquele tom. Era o tom de quando Gerry entrava naquela espiral de culpa e proteção obsessiva.
— Eu já tenho uma médica nova. Ela me convenceu a ficar. Satisfeito?
Gerry parou. A informação demorou a processar.
— Convenceu? Você? O homem que fugiu da UTI em Paris?
— Ela é... competente. — Joshua escolheu a palavra com cuidado. — E assustadora. Acho que você vai gostar dela. O nome é Moss. Dra. Moss.
— Moss. — Gerry repetiu o nome. Não significava nada. — Ótimo. Se ela conseguiu te prender nessa cama, eu pago o dobro do salário dela. Onde eu assino?
— Ela deixou a papelada na sala dela. Disse que o "benfeitor" precisava ir lá pessoalmente.
Gerry bufou, pegando o cartão de visitas que Joshua estendia.
— Benfeitor. Eu sou sua babá, isso sim.
— Vai logo. Antes que ela mude de ideia e me dê alta por mau comportamento.
Gerry saiu do quarto, sentindo a exaustão bater. Ele precisava de um uísque. Precisava dormir. Mas, antes, precisava garantir que Joshua não morresse.
Ele encontrou a sala da Dra. Moss no final do corredor. A porta estava entreaberta.
A sala cheirava a poeira e mudança. Caixas de papelão empilhadas, uma mesa de vidro limpa às pressas. Ninguém à vista.
— Dra. Moss? — chamou. Não teve nada além de silêncio.
Gerry entrou. Ele não tinha paciência para esperar. Queria assinar o maldito papel, garantir o tratamento de Joshua e ir para um bar. Ele viu o formulário na mesa e sacou a caneta.
Assinou rápido.
Gerry Lewis. Havia uma caixa aberta ao lado do computador. Dentro, porta-retratos ainda não organizados. Um deles estava virado para cima.
A foto era de uma formatura. Uma beca preta, um diploma. Mas não foi o rosto que parou o coração dele. Foi o brilho metálico no pescoço da formanda.
Um colar improvisado. Uma corrente fina segurando um chaveiro. Uma catedral antiga de Juneau, no Alaska.
O mundo parou. O som do hospital, o trânsito lá fora, o zumbido da lâmpada fluorescente... tudo sumiu. Só existia aquele pedaço de metal barato que ele tinha polido obsessivamente em uma garagem em 1985.
Ele pegou a foto. A mão tremia. Tremia de verdade, um tremor incontrolável que subia pelo braço.
Ele olhou para o rosto. Ela estava mais velha. O cabelo estava diferente. O sorriso era profissional, contido. Mas os olhos...
Eram os olhos de quem tinha pulado num rio gelado com ele. Eram os olhos de quem tinha sobrevivido.
Gerry não se virou imediatamente. Ele não conseguia. O ar tinha se transformado em concreto. Ele sentiu uma vertigem violenta, a sensação de que o chão estava se abrindo.
Ele respirou fundo. Uma, duas vezes. Forçando o ar a entrar nos pulmões paralisados. Ele precisava encarar isso. Ele tinha passado dez anos fugindo daquele fantasma, e agora o fantasma o tinha encurralado numa sala em Paddington.
Margot estava parada na porta, segurando uma pasta. O jaleco branco caía nela como um uniforme de balé. Ela parecia sólida, real, intocável.
Ela olhou para ele. Primeiro com confusão profissional. Depois, com reconhecimento.
Ele viu o momento exato em que a máscara dela caiu. Os olhos arregalaram minimamente. A pasta escorregou um centímetro nos dedos dela.
Eles ficaram parados, separados por três metros de carpete barato e uma década de silêncio.
Gerry sentiu a garganta fechar. Ele queria gritar. Queria perguntar por que ela tinha ido embora. Queria perguntar quem era
Moss. Mas tudo o que saiu foi um sussurro rouco, a única verdade que restava:
Margot olhou para ele. Para as botas sujas, para o rosto cansado, para os olhos que ainda a olhavam com aquela intensidade devastadora.
— Eu sei. — ela respondeu, a voz falhando pela primeira vez em anos. — É um nome comum.