Capítulo 5
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Dividindo seu tempo entre treinos esportivos, seminários da Fada Madrinha sobre o programa de mentoria e se reunir com os poucos colegas que permaneceram na escola, Lonnie tinha uma rotina quase tão cheia quanto no período letivo.
Num sábado, ela decidiu se dar o presente de dormir até mais tarde, para descansar depois de uma semana atribulada. Mas alguém não estava de acordo com ela.
Uma melodia afinada apareceu na mente de Lonnie, e de início ela pensou ser apenas parte dos seus sonhos, mas o som continuou insistente. Ela abriu os olhos relutante e olhou à sua volta, notando que o som não vinha do seu quarto. Irritada e amaldiçoando até a décima geração de quem a acordou, Lonnie foi até a janela e abriu a cortina, tomando um susto.
Ela abriu a janela e coçou os olhos, achando que era apenas uma miragem. Sorriu ao perceber que era real.
- Bom dia, princesinha.
Por algum motivo estranho, Jay decidiu acordar num sábado de manhã e ir tocar flauta debaixo da janela de Lonnie. E tocar muito bem, diga-se de passagem.
- Você está tentando encantar alguma cobra com essa flautinha?
- Encantar não, mas acordar. E parece que eu consegui! - ele gargalhou e Lonnie bufou
- Jay, o que você está fazendo aqui? - ela ajeitou os cabelos bagunçados num coque e sentou na janela
- Sei lá, hoje acordei com vontade de te perturbar. E quis mostrar mais um pouco do que eu sei - ele balançou a flauta na mão
Lonnie deu um sorrisinho e apenas aceitou que não iria mais voltar a dormir.
- Vou me trocar e já desço para falar com você. Espere aí! - ela virou as costas mas deu meia volta antes de fechar as cortinas - Ah, e obrigada pela serenata.
O comentário deixou Jay sem graça.
Lonnie se arrumou rapidamente e logo voltou à janela. Com um pé apoiado no parapeito, ela acenou para que Jay se afastasse.
- O que você vai f…
Antes que o rapaz concluísse sua pergunta, Lonnie havia pulado da janela de seu quarto no segundo andar diretamente para o jardim. Levantou e em seu rosto havia uma expressão de satisfação.
- Eu tenho treinado um pouco de parkour desde o último dia que nos vimos.
- Muito bom!
- Eu nunca imaginei que você fosse ligado em artes. Mesmo tendo me irritado pois me acordou, tenho que admitir que você toca bem.
- Não sou ligado em artes, mas a flauta é uma parte importante da música no Oriente Médio. Pode não parecer, mas eu tive contato com a nossa cultura desde criança, bnt jamila!
Lonnie o olhou sem entender.
- O que?
- É ‘garota bonita’ em árabe.
Ela sentiu suas bochechas corarem.
- Xièxiè nǐ, péngyǒu. Obrigada, amigo - ela sorriu para ele e fez um gesto de agradecimento típico do Kung Fu. Encostou na palma de sua mão esquerda aberta, a sua mão direita fechada, como se socasse sua mão esquerda.
- Talvez um dia você possa me levar para um de seus roubos na Ilha. Mas só se roubarmos comida e darmos aos pobres! - Lonnie disse de repente
Jay a olhou com uma cara de desdém.
- Eu sou filho do Jafar, não do Aladdin - e revirou os olhos - E além disso, eu nunca levaria você para aquele lugar asqueroso.
- Você poderia aprender algumas coisas com o Aladdin.
- Tipo o quê???
- Tipo ser charmoso e elegante como ele - os olhos de Lonnie brilharam - Fala sério, ele é o príncipe mais bonito do reino! E a deixar as garotas viverem suas aventuras.
Jay fez cara de nojo.
- Lonnie, nós somos amigos mas não sou uma princesinha, ok? Não fale sobre homens comigo - e cruzou os braços fingindo irritação enquanto Lonnie ria
- Bom, falando em aprender, eu estive pensando em te ensinar algo que eu sei. Você já atirou com um arco?
- Tipo o Robin Hood? Não.
- Então essa é a sua chance. Vamos!
A garota puxou Jay pela mão e juntos foram até o ginásio do Preparatório Auradon. Fizeram todo o caminho de mãos dadas, um gesto carinhoso que Lonnie fez espontaneamente. Jay se sentia tão confortável ao lado dela que nem percebeu, apenas segurou a mão dela de volta.
- Você sente saudade da Ilha dos Perdidos?
- Claro, é o lugar onde nasci e cresci. Mas atualmente, tudo e todos que eu preciso na minha vida estão aqui em Auradon.
- E o seu pai? Não precisa dele por perto também?
- Jafar e saudade são duas coisas que não combinam. Eu gosto dele, é claro, mas é bom estar longe. Aqui eu posso ser eu mesmo, e não o substituto do papagaio Iago que meu pai quer que eu seja.
- Mas ele deve sentir sua falta, tenho certeza. Jafar pode ser um vilão mas ainda é seu pai.
- Ele com certeza sente falta das coisas que eu roubava para ele vender no mercado negro; da comida que eu levava para casa; da proteção que eu proporcionava à ele. Desde que nasci ele tenta me fazer ser um vilão tão grandioso quanto ele, mas quando cheguei em Auradon eu percebi que talvez, só talvez, eu tenha a chance de ser algo diferente.
Lonnie diminuiu o passo e olhou fundo nos olhos de Jay.
- Engraçado, não apenas nossos mundos são opostos, mas NÓS somos opostos. Enquanto você quer ser diferente de seu pai, eu luto todos os dias para ser igual à minha mãe. Será que um dia o mundo vai nos olhar apenas como Lonnie e Jay?
- Eu espero que sim. Mas enquanto esse dia não chega, saiba que eu já vejo apenas a Lonnie quando olho para você. Óbvio que é muito legal o fato de você ser filha da mulher que chutou várias bundas do exército inimigo, mas ela não define quem você é.
A essa altura eles já haviam deixado de andar e estavam parados no jardim, olhando ternamente um para o outro. Jay levantou suavemente o queixo de Lonnie, que desviou o olhar. O momento durou alguns segundos, mas para ambos pareceu uma eternidade.
- Acho que deveríamos ir, estou ansiosa para te ver errando todos os alvos - Lonnie sussurrou e mudou de assunto
Jay suspirou e a acompanhou.
E Lonnie estava certa, pois Jay errou todos os alvos iniciais. Ela fez algumas rodadas de teste com ele, pois acreditou que seu jeito atlético o faria ter certa facilidade com a modalidade de arco e flecha, mas não foi o que aconteceu. Na verdade, a maioria das flechas nem chegavam a voar; apenas caíam diretamente no chão.
- Eu te acordei com uma bela serenata e você agradece me trazendo aqui apenas para me humilhar. Inacreditável, Lonnie! - Jay protestou
- Você logo pega o jeito! Você está segurando o arco de maneira tensa, parece que tem medo dele. Deixe eu mostrar como se faz.
A menina pegou o arco e uma flecha, se posicionou e sem pensar duas vezes acertou o centro do alvo mais distante.
- Uau, é muito simples. Simplesmente atire e acerte o centro do alvo! - ele debochou
- Venha aqui, vou te ajudar.
Ele andou até ela a contragosto. Ficou de frente para o alvo redondo e segurou o arco e a flecha.
- Não fique de frente, mas um pouco de lado. Um pé na frente e outro levemente atrás - Jay corrigiu sua posição - Agora imagine uma linha que vai daqui, onde você está, até o alvo. Esse caminho já existe, você só precisa vê-lo em sua mente.
Jay colocou a flecha na corda do arco e se posicionou como Lonnie instruiu, segurando a flecha com três dedos.
- Agora, respire fundo antes de atirar, sem pressa. Lembre que uma flecha só pode ser lançada se for puxada para trás.
Jay atirou e logo em seguida ouviu gritos animados de Lonnie.
- Eu falei que eu ia te ensinar! Não foi tão difícil agora, não é?!
Ele observou a flecha cravada no pequeno círculo vermelho do alvo.
- Na verdade eu sou profissional no arco, apenas quis te surpreender - Jay se gabou
- Garoto, até dois minutos atrás você era um perigo pra você e para mim com esse arco na mão! Mas não precisa me agradecer, estou disponível para mais aulas sempre que quiser
Lonnie pegou o arco da mão de Jay e pediu para que ele se afastasse. Ela foi até sua mochila, pegou uma maçã e posicionou no topo da cabeça dele, que estava parado a alguns metros de distância.
- Lonnie… não me diga que você vai realmente fazer isso? - ele tinha uma expressão de puro nervosismo - Eu não aceitei participar disso!
- Shhh, não se mexa! Me deixe mostrar meu talento.
Jay se virou para os lados nervosamente.
- Eu disse para não se mexer! O que está fazendo?
- Só estou tentando descobrir para qual direção fica Meca. Preciso orar um pouco antes da minha morte.
Lonnie suspirou impaciente o vendo colocar a maçã em cima da cabeça novamente e cerrar os olhos.
Jay apenas ouviu o som da flecha cortando o ar e a maçã caindo a seus pés. Lonnie foi até a fruta saltitando de felicidade e a pegou, pegando a flecha de volta. Ela deu uma mordida na fruta e ofereceu um pedaço para Jay, que suava frio. Ele ficou nervoso, mas não podia negar para si mesmo que nunca se sentiu tão atraído por uma menina antes.
Com apenas um abajur iluminando o quarto, Lonnie encerrou seu dia escrevendo uma carta para a mãe, de quem sempre fora muito próxima. Ambas se falavam pelo telefone com frequência, mas trocar cartas era uma tradição entre elas.
Ela fazia cada ideograma tradicional chinês de maneira cuidadosa, sem deixar o pincel pingar tinta nanquim no papel.
Mamãe,
sei que demorei para escrever novamente, mas as últimas semanas tem sido tomadas por seminários e treinos, me desculpe. Porém, entre uma tarefa e outra, pude me aproximar de uma pessoa que você iria adorar conhecer.
O nome dele é Jay e fazemos parte da equipe de esgrima do colégio. Ele tem feito meus dias aqui mais divertidos, mesmo entre tantas obrigações.
Eu tenho aprendido tanto sobre a vida dele, suas tradições e sua família. E você não pode imaginar a alegria que sinto em poder compartilhar com ele um pouco de mim.
Sempre tive tanto medo em não ser boa o suficiente para que as pessoas se admirassem de mim, que estava distraída demais para perceber que já faço várias coisas que me deixam orgulhosa de mim mesma, e Jay me fez perceber isso. Ele parece gostar de mim por quem EU sou.
Espero que você e papai possam conhecê-lo na sua visita semana que vem.
Com amor e saudades,
Lonnie