Tudo Bem ser Quebrado


Escrita porMatthew Williams
Editada por Lelen


Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

  O sinal tocou e, como sempre, comecei a caminhar para fora do campus. Foi quando a vi: %Anna%, sozinha no canto de uma sala vazia, encolhida contra a parede. Meu estômago deu aquele giro traiçoeiro de sempre. %Anna%, a garota que eu admirava em silêncio desde o primeiro dia do ano, a que fazia meu peito apertar só de cruzar com ela no corredor, a paixão que eu nunca tive coragem de confessar nem para mim mesmo em voz alta. Ela tremia, o rosto molhado de algo que podia ser lágrima ou só cansaço. Quando percebeu que eu estava ali parado, seus olhos encontraram os meus. Uma mistura de surpresa, medo e algo que parecia quase… esperança? Antes que eu respondesse qualquer coisa, ela murmurou, voz fraca:
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  — E-ei… você está aqui para me intimidar também…? Eu já tive o suficiente por hoje…
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  — Ela diz enquanto treme um pouco de antecipação e medo.
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  — Não. — Balanço a cabeça devagar. — Não vim pra te intimidar. Nem pra te encher o saco. — Apoio a mochila no ombro e fico parado na porta. — Só vi você aqui tremendo e… sei lá, não consegui simplesmente passar direto. Mas se eu estiver atrapalhando, me avisa que eu sigo meu caminho.
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  A expressão de %Anna% suaviza quase imperceptivelmente, a cautela inicial em seus olhos dando lugar a algo mais próximo da curiosidade. Um pequeno sorriso hesitante toca seus lábios. O primeiro genuíno que ela mostra o dia todo.
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  — Você não está atrapalhando. — diz ela, a voz ganhando um pouco mais de força. A maioria das pessoas teria simplesmente continuado andando. — Obrigada por parar. Ela se mexe um pouco no chão frio, tentando ficar mais confortável contra a parede. Seus pés descalços pressionam o azulejo, os dedos se mexendo reflexivamente.
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  — Meu nome é %Anna% aliás. Já que estamos conversando. — Ela faz uma pausa depois acrescenta com um tom irônico. — Embora eu ache que todos aqui já me conheçam de qualquer jeito. É difícil ser anônimo quando você está sempre no centro das atenções pelos motivos errados. Seu olhar se desvia para a janela que da para os terrenos escuros do campus. Os últimos raios de sol estão desaparecendo rapidamente.
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  Seu olhar se desvia para a janela que dá para os terrenos escuros do campus. Os últimos raios de sol estão desaparecendo rapidamente, deixando a sala numa penumbra alaranjada que parece engolir tudo.
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  Eu engulo em seco. O silêncio se estica, mas não é daqueles que sufocam — é daqueles que esperam. Não quero encher ela de perguntas idiotas tipo “o que aconteceu hoje?”, porque claramente ela já ouviu isso mil vezes. Em vez disso, falo baixo, quase como se estivesse pensando alto:
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  — Sabe… eu também odeio ser o centro das atenções. — Dou um passo pequeno pra dentro da sala, mas ainda fico perto da porta, mochila pendurada no ombro. — Não pelos mesmos motivos que você, óbvio. Mas tipo… nas apresentações orais, quando o professor chama meu nome e a turma inteira olha. Meu coração dispara igual agora. Parece que todo mundo tá esperando eu tropeçar na própria língua.
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  %Anna% vira o rosto devagar de volta pra mim. O sorriso irônico some um pouco, dando lugar a uma curiosidade mais quieta. Os dedos dos pés param de se mexer no azulejo frio.
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  — E você tropeça? — pergunta ela, a voz ainda baixa, mas sem aquela camada grossa de defesa de antes.
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  — Sempre. — Solto uma risadinha curta, nervosa, coçando a nuca. — No último bimestre eu confundi o nome do autor de um livro na frente de todo mundo. Foi horrível. Passei o resto da aula querendo cavar um buraco e sumir.
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  Ela solta um suspiro que parece quase uma risada contida. Puxa os joelhos um pouco mais pra perto do peito, como se estivesse se protegendo menos agora.
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  — Pelo menos quando você tropeça, no dia seguinte ninguém lembra. — murmura ela, olhando pro chão. — Aqui… as pessoas guardam. E jogam na sua cara de novo e de novo.
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  Faço uma pausa. O sol já sumiu de vez. A luz artificial do corredor começa a invadir a sala em listras amarelas fracas, iluminando metade do rosto dela.
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  — Eu lembro de você no recreio do primeiro mês. — digo, quase sem pensar, sentindo o rosto esquentar. — Você ficava lendo sozinha perto da árvore grande do pátio. Sempre com um livro diferente. Eu pensava: “essa garota deve ter um mundo inteiro na cabeça que ninguém vê”. — Paro, envergonhado. — Desculpa se isso soou estranho. Eu só… observava de longe. Nunca soube como chegar perto sem parecer idiota.
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  Ela ergue os olhos de novo. Dessa vez não tem medo, só uma surpresa quieta que faz meu estômago dar outro giro.
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  — Você observava? — A voz dela sai mais suave, quase curiosa.
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  Dou de ombros, tentando não parecer desesperado.
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  — Porque você parecia… real. Diferente do resto. Não fingindo ser outra pessoa o tempo todo. — Paro de novo, sentindo que falei demais. — Mas eu não queria te incomodar. Ainda não quero.
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  %Anna% fica em silêncio por uns segundos longos. Depois, como se tivesse decidido testar alguma coisa, ela fala:
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  — Então por que parou hoje?
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  Olho direto pra ela, sem desviar dessa vez.
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  — Porque hoje você parecia precisar que alguém parasse. E eu… não consegui fingir que não vi.
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  Ela morde o lábio de leve, como se estivesse decidindo se acredita ou não. Depois, quase sussurrando:
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  — Ninguém nunca parou antes. Nem pra perguntar. Só pra julgar.
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  O silêncio volta, mas dessa vez não pesa. É daqueles silêncios que parecem respirar juntos.
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  — Posso sentar aqui um pouco? — pergunto, apontando pro chão perto dela, mas ainda a uma distância segura. — Sem falar nada, se você quiser. Só… pra não te deixar sozinha com isso tudo.
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  Ela hesita. Os olhos vão da minha mochila pro meu rosto, depois pro chão. Depois, faz um gesto pequeno com a cabeça, quase imperceptível.
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  — Pode.
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  Eu me sento devagar, encostando as costas na parede oposta, mochila no colo como escudo. Não encosto nela, não olho fixo. Só fico ali.
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  Os minutos passam. O campus lá fora fica completamente escuro. De vez em quando, ouço ela respirar fundo, como se estivesse soltando um peso que carregava o dia inteiro.
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  E então, baixinho, quase como se falasse pro vazio:
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  — Meu nome é %Anna% mesmo. Mas acho que você já sabia.
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  Eu sorrio de lado, sem olhar diretamente pra ela.
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  — Eu sou %Matthew%. Prazer em te conhecer… de verdade.
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  Ela não responde com palavras. Mas vejo, pelo canto do olho, que o canto da boca dela sobe um pouquinho. O primeiro sorriso sem ironia da noite.
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Capítulo 1
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