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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Trigger

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

🛈

CAPÍTULO 02 • SHEDDING SKIN, THE MONSTER WITHIN

Tempo estimado de leitura: 48 minutos

TW: o capítulo a seguir terá descrições GRÁFICAS de ABUSO FÍSICO e PSICOLÓGICO, perpetrados por figuras de autoridades. Pule para a sessão “Latvéria • Agora” caso sinta-se desconfortável.

Berlim Oriental • 1989.

  — Vagão de Carga. — Foi como um clique. Reverberando por sua cabeça como pulsos elétricos, sentiu como se algo tivesse acabado de estalar atrás de sua nuca, obscurecendo sua visão por completo. Tudo pareceu desaparecer, havia, agora, apenas um instinto treinado. Piscou desorientado, tentando buscar por sua mente alguma informação, qualquer que fosse, mas tudo estava completamente em branco. Não sabia onde estava, não sabia quem eram aquelas pessoas, sequer sabia seu nome. A única coisa que ainda pulsava por sua mente era o instinto de continuar a se mover, o instinto de sobrevivência, rasgando por seus nervos, fincando-se como garras em seus músculos, envolvendo sua pele como correntes, pesadas e frias sob o toque, enroscando-se por seus pulsos, tornozelos, troncos, pescoço, prendendo-o no lugar, puxando-o para baixo. Puxando-o para um lugar desconhecido e aterrorizante.
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  Não sabia o que era, quem era, mas sabia que eles o iriam matar. Sabia que havia algo espiralando por baixo da superfície de sua psique que estava lutando, debatendo-se como uma criatura agonizante, gritando para que ele fugisse dali. Para que usasse tudo o que tinha que pudesse o ajudar a escapar daquele lugar; daquelas pessoas. Mesmo que, no fundo, ele não tivesse ideia do porquê o faria.
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  Correntes elétricas ainda percorriam por seu corpo quando finalmente o empurraram para fora da cadeira. O gosto metálico e salgado de seu próprio sangue se espalhou com violência por sua língua, o fluxo cálido do líquido encorpado escorreu por entre os dentes cerrados dele, fazendo-o afogar-se ao tentar expeli-lo. A tosse, brusca, reverberou por seu corpo, dolorosa, fazendo-o projetar-se para frente em um espasmo mal contido, o tremor aumentou enquanto a dor o cegava para tudo ao redor. O grito morreu em seus lábios com um engasgo. De repente havia apenas aquele ponto central: os choques haviam amortecido os tecidos musculares, mas ativaram as terminações nervosas de seu corpo, o peito ardia, como se coberto por brasas, lentamente esfregadas pela pele sensível, ao obrigar-se tentar inspirar com mais força, desesperado por quaisquer resquícios de oxigênio que pudesse absorver. Mas tudo o que podia sentir era o cheiro metálico de ferrugem, pungente, sufocante, e espalhado por todo o lugar. A dor em seus ouvidos tornou-se um zumbido alto, latejante. Seu pulso estava acelerado, irregular, mas a pior parte era seu próprio cérebro; como este reagiu.
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  Dividia-se em duas partes, uma frontal, e uma sombra que se projetava sobre si incapacitada de fazer alguma coisa que pudesse o libertar daquela sensação terrível. A frontal era composta pela praticidade do treinamento. Começou a rapidamente compreender a situação: instalação militar, seus prováveis colegas de trabalho o encarava com uma ponta de apreensão — não por ele, percebeu, mas por causa dele; o temiam, era uma máquina —, analisando seus movimentos como se estivessem de frente para um animal selvagem, mãos repousadas nas armas, e em bastões com pontas achatadas que estalavam pelo espaço com o choque potente. Uniformes militares e botas pesadas os envolviam, olhares impenetráveis. Sabia o que aquilo indicava: era um soldado, uma arma, nada mais. A compreensão rendeu uma sensação falsa e temporária de tranquilidade; não precisava saber de muito mais, apenas quais seriam suas próximas ordens. Percebeu de imediato que a complacência lhe ofereceria segurança, que a subserviência lhe renderia dores menores que resistir.
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  A frontal havia ganhado sem esforço. A dor que o cegara aos poucos começou a diminuir, seu corpo pareceu se adaptar à situação em mãos, e ele deixou o ar escapar por entre seus lábios, deixando-se sentar sobre seus calcanhares. Os olhos, ainda enevoados pelos choques e a máquina a qual estivera preso, tentaram afastar o acúmulo úmido que se formava, o piscar letárgico, espasmódico, enquanto inspirava fundo. Sentiu quando uma lágrima cálida escapou de seus olhos, sem ter ideia do porque poderia tê-las derramado, além da dor física que corroía seu corpo. Sua garganta ardia, mas tudo o que ele podia fazer era tencionar sua mandíbula, obrigando-se a colocar de pé. Alguém o empurrou para trás, sem paciência para sua instabilidade e então um sargento parou a sua frente.
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  Em mãos, havia uma lanterna, calculadamente voltada para seus olhos, analisando algo, parecendo buscar uma confirmação de efetividade que para ele permanecia desconhecida. Quase desconectada. Quando se deu por satisfeito, encarou-o em expectativa, e antes que ele pudesse pronunciar-se, antes que pudesse questioná-lo o que diabos estava acontecendo, as palavras que se derramaram por seus lábios, foram instintivas, gravadas em seu cerne tão profundamente que não tinha ideia de onde haviam surgido, mas estava presente como o reflexo muscular de respirar:
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  — Pronto para cumprir — sussurrou, sua voz soando áspera, rouca e irregular, desconhecida aos próprios ouvidos, uma sensação desconfortável que rastejava por entre sua pele, apoderou-se de seu peito quando percebeu que não a reconhecia. Escapava por seus lábios, estava ciente da forma que se projetava para fora com o esforço de sua garganta, como vibrava pela traqueia, falha por sua falta de uso, mas não a reconhecia como sua. Soava estrangeiro, distante de si mesmo, como se fosse nada mais do que componentes divergentes separados em pedaços e reconstruídos, de novo e de novo.
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  Impulso, instinto e sua consciência se fragmentavam e embrenhavam-se em um caos doloroso que pulsar apor sua cabeça; sentia-se desnorteado, como se as pancadas invisíveis que pareciam atingir as paredes invisíveis de sua mente fossem, aos poucos, desfeitas, enviando-o para uma espiral vertiginosa e profunda, em queda livre, para um desconhecido repleto de lacunas. Algo se agitava em seu peito, algo acorrentado e que ele não sabia o que poderia ser; desconforto apegava-se a sua pele como uma segunda camada, escorria por entre músculos e tendões, viscoso, como se estivesse desesperado para consumi-lo por inteiro. Podia sentir a dor como pulsos elétricos percorrerem por seu cérebro, corroído e destruído tudo, tal como fogo, o que encontrava pelo caminho, choques que ainda lhe enviavam dor, ao mesmo tempo que amorteciam o músculo abusado. Não se lembrava nem mesmo de seu próprio nome, de onde viera, como havia parado ali. Não houve luta, portanto, quando ele foi chamado apenas por Soldado; compreendeu que esta era sua identidade. Uma arma, um objeto nas mãos daquelas pessoas desconhecidas, um instinto aprisionado em uma jaula escura, passivo.
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  Não ofereceu resistência alguma quando prenderam uma máscara em seu rosto, tão firme que os cantos de metal se fincaram em sua pele de forma dolorosa, lhe cortaram os cantos da mandíbula e maçãs do rosto, um pouco abaixo de seus olhos, sufocando-o com sua rigidez ao ponto de não conseguir sequer mover sua boca direito, não o suficiente para falar ao menos. Por mais que ajustasse a máscara em seu rosto, nunca parecia o suficiente para aliviar a pressão que se formava na parte inferior de seu rosto, ao ponto que manter-se em silêncio era melhor do que arriscar cortar mais os pontos que o metal já havia ficado profundamente em sua pele. Filetes de sangue, cálidos e pegajosos escorrem pela lateral de seu pescoço, deslizando lentamente pela pele exposta até que fossem absorvidas pelo colarinho de seu uniforme. E então, antes que possa perceber, os ferimentos recentemente abertos já estão curados, a pele refeita, adaptando-se a máscara presa em seu rosto.
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  Movia-se mecanicamente, pelo debriefing da missão, decorando detalhes, encontrando oportunidades que estavam invisíveis até então para os outros soldados, comandava em poucas palavras o esquadrão, apenas estabelecendo onde cada potencial soldado poderia estar para a contenção de prováveis erros, mas agia sozinho. Solitário; como se uma peça estivesse lhe faltando, como se algo estivesse tão errado dentro de si, que se criara um cabo de guerra. A sanidade e uma parte estranha, fragmentada e arrefecendo-se aos poucos, composta por mais lacunas do que certezas de algo que já havia sido, de sua mente lutavam entre si, debatiam-se e contorciam-se como vermes ao tragar a carne morta de um corpo abandonado em meio ao gelo. Algo estava quebrado dentro do peito do Soldado, algo que lhe era único e precioso; algo que sequer lembrava-se de ter um dia existido.
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  Mas ele sentia, sentia a tudo, e talvez, esse fosse o problema.
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  Quando finalmente colocou-se em posição, sobre o telhado do prédio contrário ao hotel que o alvo havia sido identificado, verificando duas vezes se a arma estava bem engatilhada e buscando-a com a mira da sniper apoiada em seu ombro biônico, o Soldado foi coberto por um silêncio atroz. Pulsou por seus ouvidos, acompanhado do zumbido dos ferimentos internos que os choques constantes tendiam a formar. O comunicador preso em sua orelha direita — a que ainda ouvia com mais clareza — acionava-se esporadicamente com breves comandos de seus superiores, palavras soltas, às vezes, apenas para confirmação, e então atualizações de movimentações. O Soldado pouco prestava atenção, não precisava, tudo aquilo lhe vinha com naturalidade. Era como se ele tivesse sido projetado para aquilo; para a guerra.
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  Mas o monstro acorrentado em seu peito, não se satisfazia.
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  Concentrou-se então, não na sensação de que algo estava lhe faltando, de que algo estava errado, mas na mira da arma. Fechou o olho direito para conseguir focar com o olho esquerdo, observando através da mira rostos desconhecidos e inocentes. Localizou os seguranças do hotel, e então alguns hospedados. Nomes não lhe vinham à mente, mas os rostos, ele reconhecia; havia repassado com o time antes de os enviar para dentro do espaço apenas por contenção de danos, não que ele precisasse. Tinha a estranha sensação de que era enviado sozinho para fazer o trabalho que se precisava. Tinha a vaga memória de missões bem-sucedidas com uma única certeza: ele não falhava.
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  Então uma mancha apressada de cores vermelhas escura e cabelos esvoaçantes, repicados atraiu sua atenção. O Soldado redirecionou sua mira para a pessoa que caminhava às pressas por entre os civis, coberta por um casaco de trincheira pesado, esvoaçante, o rosto dela não demorou a surgir na mira. Que era bonita, isso não havia dúvidas, mas foi o que fez com o peito do Soldado que o incomodou profundamente.
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  Seu corpo tivera uma reação física ao rosto dela. Seu estômago se contorceu, em um espasmo inesperado, o gosto pungente amargo em sua boca corroeu por sua garganta e estômago, transformando o sangue em suas veias em lascas de gelo, aumentando sua pulsação, e enviando um tremor involuntário para sua mão direita. As lacunas que se espalhavam por sua mente pareceram retorcer-se, incongruentes, agora iluminadas por imagens desconexas, espiralando e pulsando rápido demais para que ele pudesse entendê-las de fato; tudo o que conseguiu sentir, todavia, era aquela estranha familiaridade. A sensação projetava-se sobre si como uma sombra, enroscava-se pelos cantos dos olhos, manchando sua visão periférica, mas não estava ali de fato, a sensação de que já havia visto aquele rosto uma vez. Talvez em um sonho, talvez em uma vida do qual ele não sabia se sequer existira ou se fora meramente projeção de seu cérebro, mas ela era tão familiar quanto sua própria respiração.
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  Podia sentir que a conhecia de algum lugar; já havia visto aqueles olhos de %obsidianas% intensos, marcantes, já havia visto aqueles mesmos cabelos anteriormente, ainda que estivessem mais curtos e irregulares agora, presos em uma trança embutida, que deixava seu rosto livre e exposto, tudo nela era estranhamente familiar, ele só não conseguia saber dizer de onde aquele sentimento partia.
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  Por alguns segundos, quando seus superiores comandaram um retorno de sua parte, ele hesitou. Não soube dizer porque, mas o gesto pareceu quase instinto, gravado em alguma parte mais funda de sua mente que a razão pairava. O monstro acorrentado em seu peito, debateu-se contra a outra parte de sua mente, aquele que estava focada em concluir missão — aquela que lhe sussurrava ao ouvido que se fizesse como lhe era comandado, se ele agisse de acordo com o que era esperado, não haveria mais dor —, tentando soltar-se do que o prendia e vir à frente de sua mente. De tomar controle de si. Sentiu-se como se estivesse preso a dois polos opositores, e que estes, ao mesmo tempo, o puxavam, dilacerando-o deliberadamente até que não restasse nada se não músculos e tendões rompidos. Mas o comando venceu o instinto, e antes que pudesse se impedir, tocou o comunicador preso na orelha direita, informando-os de forma precisa e fria, seus status:
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  — Alvo na mira. — Esperou por alguns minutos pela retórica de seus superiores, e só se moveu outra vez quando ouviu “Verde”, liberando-o para prosseguir com a missão.
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  O Soldado voltou a inclinar o rosto para frente, acompanhando externamente a movimentação que ela estava fazendo, os óculos de visão infravermelha não demorando muito a localizá-la através das paredes, cabos, metais e madeiras que sustentavam o hotel. Acompanhou-a com a mira até onde deveria ser seu quarto, e então, esperou. Ajustou a mira de novo, aguardando o momento em que ela entraria no local desejado e ele poderia ter um tiro limpo. Com um resmungo baixo, o Soldado comandou para que o time de contenção se movesse, os olhos azuis esverdeados, fixos nas costas de seu alvo, calculando e alinhando a ação. Observou-a caminhar em direção a um canto, do quarto, retirando algo detrás de um esconderijo, mas foi o movimento que ela fez, um tique nervoso, espasmódico, quase imperceptível que o pegou: ela levou a mão em direção ao pescoço, pressionando alguma coisa, o que parecia ser uma pequena medalha, um dog-tag.
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  — Apesar das condições, acho que elas tinham razão sobre você em seu uniforme. — A voz suave de %Priya% ecoou por seus ouvidos como uma carícia melodiosa, e Bucky sentiu o impulso de fechar os olhos e apenas pedir para que ela continuasse a falar. Ouviria de tudo, até mesmo se ela começasse a dissertar sobre o tempo, desde que não parasse. Ao em vez disso, ele bufou baixinho, sem conseguir conter um sorriso satisfeito. Terminou de amarrar os coturnos de combate, antes de levantar-se outra vez, encarando-a com um pequeno arfar. Estava ridícula vestida de enfermeira, como algum tipo de piada dolorosa religiosa onde ela havia escolhido o caminho da conversão e castidade, condenando-o a algum tipo de tortura dolorosa e lenta ao desejar algo que não poderia ter, mas o sorriso que exibia em seus lábios foi o suficiente para aquecer seu peito. Tanto que mesmo sob as baixas temperaturas do acampamento, ele sentiu-se em um dia de verão.
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  — Elas? — Bucky questionou, fingindo-se de confuso e inocente. Sabia exatamente de quem ela se referia, mas preferiu não entrar naquele assunto outra vez. Ele prendeu a respiração, enfiando suas mãos nos bolsos de suas calças, encarando-a com atenção, como um completo abestalhado admirando o pôr do sol, tentando não sorrir quando ela lhe lançou aquele olhar reprovador irritante que havia virado seu melhor vício.
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  — Que idiota — ela murmurou, mas riu, e desta vez, Bucky não conseguiu conter o sorriso. Ele amava aquele sorriso, mais do que deveria. %Priya% considerou com um movimento suave de sua cabeça, e então, revirou os olhos, estendendo-lhe um objeto terrivelmente familiar. Bucky levou sua mão em direção ao pescoço, imediatamente, tateando-o, e fechou os olhos, exasperado. Droga, ele havia esquecido de novo. — Phillips estava furioso mais cedo, para a sua sorte consegui encontrar isso antes que você se apresente, mas não vai ter uma próxima vez, então é melhor não perder de novo — %Priya% pontuou, entregando a identificação de Bucky de volta a ele. O toque de sua mão macia contra a calejada dele enviou uma onda inadvertida de adrenalina e arrepios por seu corpo, o suficiente para que seu corpo agisse antes mesmo que ele pudesse registrar o que estava fazendo, segurando o pulso dela, desesperado para não a deixar escapar de si. %Priya% piscou, parecendo surpresa com o gesto, mas não incomodada, ela uniu as sobrancelhas, sorrindo suavemente enquanto o encarava confusa, à espera de alguma justificativa para seu ato, mas Bucky apenas conseguiu encará-la.
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  Sua garganta pareceu ficar mais seca do que o normal, raspando, enquanto ele tentava desesperadamente encontrar alguma coisa para dizer; sua mente estava em branco e por um breve momento, tudo o que ele conseguiu fazer foi encará-la. Não tinha nada mais a acrescentar, não tinha sequer certeza se conseguiria lhe dizer alguma coisa que soasse mais preciso do que palavras balbuciadas, ele só sabia que não podia deixá-la ir, ainda não. Bucky piscou, praguejando mentalmente, tentando encontrar suas palavras, quando outra voz, esta britânica e mais pesada, projetou-se um pouco mais a frente em direção a área externa de treinamento.
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  Escorado contra o capô de um jipe, Dum Dum Dugan, com o charuto preso aos lábios, o bigode grande ridículo e o chapéu coco, encontrava-se com um sorriso divertido e desaforado, observando Bucky como quem assistia um idiota em completo desastre. Bucky apertou os lábios, exasperado, já imaginando as piadas que ouviria do resto do Esquadrão 107 o dia inteiro. Obrigou-se, com muito esforço a soltar o pulso de %Priya% quando Dum Dum Dugan gritou:
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  — Oi, lass, Fury está procurando por você, disse algo sobre gatilho ou coisa parecida, é melhor ir logo antes que você irrite o Comandante. — %Priya% apertou os lábios, praguejando por baixo de sua respiração, e sem olhar outra vez para Bucky, ele assistiu a jovem disparar o mais rápido que conseguia em direção a área administrativa do acampamento, parecendo exasperada e urgente. Uma parte dele se questionou o que diabos ela teria a tratar com alguém como Nick Fury, mas sua atenção foi roubada pela risada alta e entrecortada de Dum Dum Dugan: — Se era assim que você conquistava as moças em Nova York, filho, eu duvido que você sequer tenha falado com uma — Dum Dum Dugan brincou, e Bucky revirou os olhos seguindo-o em direção a área externa de treinamento, colocando o dog-tag de volta em seu pescoço, antes de empurrá-lo para baixo do colarinho de seu uniforme.
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  A dor que se espalhou por sua mente, fez o Soldado grunhir entre dentes e perder seu fôlego. Sentiu como se tivesse acabado de levar um soco doloroso em sua têmpora. A espiral de dor que o atingia como choques elétricos, triplicou, cegando-o de um olho, e quase o fazendo derrubar a sniper que o empunhava. Seu peito parecia estar sendo esmagado por um container, empurrando-o mais e mais para dentro daquela escuridão enlouquecedora, onde as lacunas se apresentavam com o eco de um nome. %Priya%. Mas quem diabos era %Priya%? E então, houve o estalo familiar em sua mente, como se um interruptor tivesse sido ligado, e o Soldado já estava em ação antes mesmo que pudesse ter certeza do que estava fazendo.
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  O Soldado disparou, mirando a direita, o braço biônico ainda estável, imóvel, conseguindo mantê-la em sua mira. O projétil cortou o ar com violência, atingindo com precisão o ombro dela. Tomando a sniper com os dois braços agora, focando na tarefa em mãos, ele puxou o gatilho outra vez, mas desta, ele errou. Jogou a sniper de volta a suas costas, retirando o dispositivo compacto com um gancho — como um arpão enrolado em uma corda — e disparou com precisão um pouco mais acima de onde a janela encontrava-se. Enganchou a corda em seu próprio braço, saltando. O braço biônico não tardou em alcançar a pistola presa contra sua omoplata, disparando vezes o suficiente para conseguir diminuir a resistência do vidro, antes de soltar a corda e se lançar pela janela.
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  O impacto reverberou por seu corpo inteiro, os dentes trincados, pareceram chocar-se uns com os outros de forma dolorosa, e o braço biônico imediatamente curvou-se para proteger sua cabeça e auxiliar com a quebra do vidro; uma chuva de estilhaços perpetrou-se ao seu redor, como neve, alguns pequenos fragmentos, quase imperceptíveis cravaram-se em sua pele, em suas roupas, mas o Soldado sequer percebeu. Rolou por sobre seu ombro para amortecer a queda, e então, já estava de pé outra vez, com a arma empunhada, endireitando-se deliberadamente. Os olhos azuis esverdeados buscaram por ela, desligando a visão infravermelha, para enxergar o espaço como precisava através dos óculos presos a seu rosto. Não demorou muito para encontrá-la, parcialmente escondida atrás de uma das paredes que levavam em direção à porta do quarto. Ele não pensou muito, sequer calculou direito, apenas disparou na direção dela, tentando atingi-la. Os disparos atravessaram o quarto, alojando-se nas paredes do outro lado, enquanto o Soldado lançava-se para trás, tentando desviar da forma que conseguia dos tiros que ela havia lhe retribuído. Por impulso, o Soldado cobriu a cabeça com o braço biônico, ouvindo os disparos ricocheteando contra o metal. Por uma fração de segundos, o Soldado fez uma careta, tentando livrar-se do zumbido que se espalhou por seu ouvido esquerdo, pulsando em conjunto com seu coração, martelando contra seu peito, violentamente. Respirando pesado, o Soldado sentiu o impulso de arrancar a máscara em seu rosto, sentindo-se sufocado, mas o segundo passou e ele voltou-se na direção dela; os disparos foram imediatos.
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  Movendo-se como um espectro, o Soldado se lançou para a esquerda, tentando aproximar-se de onde ela estava, apenas para sentir o impacto de um dos disparos dela em seu ombro. A dor que deveria explodir por seu flanco direito onde a bala havia se alojado, continuou amortecida. Então ele não parou. Não hesitou ao disparar outra vez na direção dela, acertando com precisão sua coxa direita, quando ela se lançou para frente, em direção a ele. O Soldado soltou um grunhido abafado pela máscara, voltando a mirar nela, e apertando o gatilho da arma, mas o objeto emperrou. O Soldado acertou o cano da arma, tentando ajustá-lo quando ela o alcançou. Ouviu-a grunhir por entre dentes, acertando com força a parte de trás de seu joelho, fazendo-o projetar-se para frente, o reflexo do golpe fazendo seu joelho ceder ao peso de seu corpo. Antes que ele pudesse se recuperar, ele sentiu quando ela agarrou seu braço biônico, sentindo-a tentar empurrá-lo em direção a parede. Cometeu um erro terrível, porque aquele braço não possuía falhas.
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  Um estalido de seu braço biônico é tudo o que ela precisa ouvir para saber que falhou, o Soldado empurra o braço para longe, mas foi cegado pela dor pungente que o atingiu quando fincou os dedos no ferimento aberto em seu flanco. Sangue derramou-se como uma torrente para fora, o líquido encorpado, cálido e viscoso espalhando-se rapidamente pelo material de seu uniforme, enquanto um grito era abafado por sua máscara. A dor o deixa letárgico, ainda que por um breve momento. Ainda desnorteado pelo golpe, o Soldado sentiu quando ela usou a coronha de sua arma para empurrar a cabeça dele contra a parede. O impacto reverberou por seu crânio com violência, choques elétricos pareceram pulsar pelo cérebro fragmentado e machucado dele, os olhos se obscurecem por um breve momento, antes de voltarem a ter foco.
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  — Bucky, qual é, tem homens dando a vida lá. Eu não tenho o direito de fazer menos que eles — Steve retorquiu com um tom de voz determinado e impaciente, que sempre indicava que ele estava pronto para fazer alguma merda que colocaria Bucky e ele em problemas, mas era o mesmo tom que Bucky havia aprendido a admirar. Seu melhor amigo poderia ser um idiota por vezes, mas ainda era seu melhor amigo. Havia algo ali que nunca poderia ser perdido.
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  Bucky suspirou pesado, ciente de que não conseguiria o fazer mudar de ideia, e percebendo o quanto amava o melhor amigo por isso, mas sem conseguir conter a preocupação por ele. Afinal, Steve Rogers poderia ser um idealista heroico, mas ainda era só um magricela asmático que estava suscetível a qualquer desgraçado que encontrasse pelo caminho. Pior, talvez desta vez um dos soldados do exército percebessem que ele era, e ele fosse preso.
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   — Eu sei, eu sei — Bucky disse por fim com um suspiro pesado, apoiando sua mão direita sobre o ombro do melhor amigo, em uma demonstração silenciosa de suporte, mesmo que não fosse o suficiente para Steve. — Eu só… — Bucky pausou por um momento, e então encarou Steve Rogers, no fundo de seus olhos azuis claros, tentando conter um pequeno sorriso pesaroso. — Só não faça nada estúpido até eu voltar.
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  Steve bufou, empertigado, mas ainda assim abriu um sorriso torto, encarando Bucky com aquele olhar cúmplice que sempre havia sido algo deles e mais ninguém.
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  — Como eu posso? Você tá levando toda a estupidez com você! — Steve acusou, e Bucky soltou um riso baixo, nasalado.
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  Dor explodiu pelo rosto do Soldado quando ela o atingiu com a coronha de sua arma em seu nariz. Os óculos que se prendiam a seu rosto se partiu, estilhaçando-se no chão, livrando-o de sua compressão, mas a máscara permaneceu intacta, presa firmemente na parte inferior de seu rosto, absorvendo o impacto. O Soldado lançou o rosto mais para a esquerda, seu braço biônico acionando-se com um ruído metálico e agarrando imediatamente o pulso dela. Os dedos fincaram-se com brutalidade na carne dela, esmagando tudo o que encontrava pelo caminho, o crack sonoro dos ossos ecoando por seus ouvidos, pressionando-o até que ela tivesse soltado sua arma. Ela soltou um grito entredentes, acertando um soco com violência no olho esquerdo dele, seguido de um preciso na altura de seu estômago, roubando seu fôlego, então um na altura de suas costelas, obrigando-o a dobrar-se para frente.
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  O grunhido de dor foi completamente silenciado pela máscara que agora, cravava-se mais fundo em seu rosto. Com a arma dela em sua mão direita, o Soldado tentou apoiar o cano abaixo do rosto dela, mas ela se moveu rápido demais, quando ele apertou o gatilho, tudo o que conseguiu foi disparar ao lado do ouvido esquerdo dela. Ela agarrou o pulso dele com as duas mãos, os ossos esmagados projetando-se para fora da pele, metálicos como vibranium, e o Soldado distraiu-se com isso. Os olhos se arregalaram por um momento, encarando-os com uma ponta de assombro, antes de encará-la outra vez, em choque.
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  O que diabos ela era?
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  Ela o empurrou para longe, girando naquele abraço violento e ficando parcialmente de costas para o Soldado. Agiu mais por impulso do que qualquer outra coisa, ainda em choque pelo detalhe que havia acabado de descobrir sobre ela, tentando envolver o pescoço dela com seu braço biônico, os estalidos agora ecoando mais alto conforme a intensidade da luta aumentava. Fechou-se ali de forma impetuosa, os dedos atravessando a pele do pescoço dela, observando-a sufocar com seu próprio sangue.
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  — O Esquadrão será enviado amanhã de manhã, até a noite, é provável que tenhamos atravessado a fronteira com a Áustria — Bucky resmungou como se o assunto não fosse assim tão importante, como se ele não estivesse com aquela sensação insuportável de que algo ruim iria acontecer, como se seu peito não estivesse apertado com a ideia de ir para o front e o que lhe aguardava ali. Tentou forçar um sorriso ao terminar de descascar a maçã, usando a faca de assalto para cortar uma fatia e lançar em direção a própria boca, antes de cortar outra e oferecer a ela. %Priya% uniu as sobrancelhas, parecendo não precisar de muito para compreender as palavras não ditas dele.
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  — Então essa será a última vez que nos vermos, não é? — ela sussurrou, suavemente, e algo no peito de Bucky se contorceu dolorosamente. Ele sentiu o impulso de dizer a ela que não, não seria a última vez que o veria, que ele voltaria, talvez até mesmo como uma condecoração, mas Bucky Barnes não fazia promessas, especialmente se não podia cumpri-las. Então, ele apenas ficou em silêncio, observando-a com pesar.
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  — Queria ter te conhecido antes, talvez alguns anos, que fosse, teria a levado para dançar, sabe? Ou para Coney Island, sou muito bom de mira, se quer saber, teria ganhado um urso de pelúcia para você, um bem grande, difícil de guardar em casa — Bucky resmungou com pesar, observando-a parar a sua frente com aqueles olhos %obsidianas% marcantes de tirar o fôlego que pareciam ler sua alma como um livro para criança. Deixar sua casa havia sido doloroso, dizer adeus a sua mãe e a sua irmã, com a vã promessa de que lhe escreveria todos os dias, que tomaria cuidado e voltaria para casa, céus, havia estilhaçado seu coração, mas Bucky nunca havia pensado que seria diante daquela jovem mulher que seu maior dilema se apresentaria.
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  Porque uma parte de si, estava revoltada. Não tomaria escolha diferente, não mudaria seu caminho por nada, quando pessoas não podiam se defender, o correto a se fazer, o que deveria ser feito era colocar-se entre elas e os monstros que os caçavam, e manter-se firme, lutar por eles até seu último respiro ou último inimigo, rendição jamais lhe seria uma opção. Mas era por causa daqueles malditos monstros que perseguiram inocentes em troca de uma falácia para afagar os próprios egos imundos que Bucky perdia sua vida. Que perdia a chance de viver algo que sempre havia desejado para si, e talvez, futuramente, até mesmo considerar algo mais sério. Sabia que seu pai não ficaria lá muito feliz com sua escolha, a ideia de uma noiva desi poderia ser demais para o pai dele, mas pouco importava-se, sabia que sua mãe iria adorar conhecê-la, e Rebecca a acharia a melhor pessoa do mundo com todas as respostas sarcásticas que lhe oferecia. Se o mundo fosse justo, Bucky poderia tê-la cortejado da maneira correta, levando-a para dançar, para tomar sorvete e caminhar no parque, teria lhe comprado presentes e até mesmo se apresentado oficialmente ao pai dela, não simplesmente roubado momentos esporádicos durante o treino para dividir uma maçã e jogar conversa fora. Disso ele sempre iria se ressentir.
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  — Teria adorado, Sargento Barnes. — Ela sorriu, e Bucky suspirou, sem conseguir conter o fantasma de um sorriso saudoso por algo que não teria. Ele tocou a lateral da bochecha dela, gentilmente, traçando a curvatura de sua maçã do rosto com o polegar, sentindo a pele macia contra seus dedos calejados e ásperos. Algo queimou dentro de si, e, desta vez, ele não se importou em ocultar, não dela.
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  — Bucky — ele corrigiu suavemente, vendo-a engolir em seco.
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  — Bucky — ela repetiu suavemente e os olhos dele se escureceram. Talvez tivesse sido a forma com que ela havia dito seu nome, talvez fosse a estranha crescente certeza de que muito provavelmente não voltaria daquela vez, seja lá o que tenha sido, Bucky, desta vez, não se afastou dela, pelo contrário, inclinou-se em sua direção. Sua mão deslizou, gentilmente, para a lateral do pescoço dela, envolvendo a pele macia, o polegar traçou com cuidado seu ponto de pulsação, sentindo-o aumentar por baixo do dígito áspero e calejado pelo treinamento. Sabia que não era medo que ela sentia, embora talvez um pouco de nervosismo pela forma com que ela havia hesitado. Bucky é deliberado, dando tempo para ela decidir se queria acertá-lo na virilha e correr para longe, se diria não e afastá-lo ou se não faria nada. Quando, por alguns minutos, ela não o impede, o jovem sargento tomou coragem e venceu os poucos centímetros que ainda o mantinha afastado dela, beijando-a; primeiro, devagar, gentilmente, como se estivesse testando para saber se ela estava certa daquilo, mas então, movido por um anseio, um desejo causticante que parecia lhe corroer tudo, alma e corpo, percebeu-se aprofundando o beijo com uma fome desvairada, desesperado por aquilo; por ela.
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  Errático, confuso, atordoado, o Soldado arremessou seu alvo na direção contrária. Um grito escapou da garganta dela que transformou seu sangue em lascas de gelo, mas foi rapidamente sufocado pelo barulho do choque de suas costas contra a parede, seguido do baque molhado de seu corpo contra o chão, abrupto, nauseante. O Soldado cambaleou para trás, ofegante, deixando a arma escapar de suas mãos, de repente amortecidas demais para que o permitisse segurar a pistola corretamente, espasmódicas demais para que sentisse que eram suas. Fincou os dedos contra a máscara que se prendia em seu rosto como uma segunda pele. Estava deixando-o nauseado, tudo estava começando a girar ao seu redor, mas era mais do que apenas isso. Seu cérebro parecia estar em choque, sobrepondo situações e espaços, fazendo-o perder a consciência de onde estava e o que estava fazendo. Por uma fração de segundo, ele ficou completamente desnorteado.
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  A sensação que tivera era de que havia acabado de acordar de um pesadelo. Sentiu a letargia enroscar-se por seus músculos como espinhos, fincando-se sobre a pele e arrastando-se de forma insuportável, deixando-o mais lento, cambaleante e ofegante. Misturava-se com a dor aguda que lhe cegava os olhos, zuniam os ouvidos e o fazia tremer como se estivesse tendo algum tipo de reação adversa. Cambaleou para frente, chocando-se cegamente contra os móveis espalhados pelo quarto, contra a parede enquanto arrastava-se em direção à onde seu alvo havia caído. Um grito, que se iniciou baixo, mas tornou-se mais e mais alto, externando o desespero que o sufocava, lhe rasgou a garganta, ao puxar, de novo e de novo a máscara de seu rosto. Arremessou-a cegamente, tossindo e engasgando-se. O cheiro do ar era sufocante, e estava permeado com aquele aroma ferroso que acompanhava sangue. Os olhos azuis esverdeados se arregalaram por uma fração de segundos, encontrando com a mancha grotesca de sangue que começava a aumentar um pouco mais a frente, vindo da lateral esquerda da cama. Seu coração disparou, havia algo de errado ali.
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  Porque o sangue, vermelho pungente, estava acompanhado de algo a mais.
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  Um líquido viscoso e tão pungente quanto aquele que se misturava, mas preto, como óleo. O Soldado exalou entre dentes, unindo as sobrancelhas, caminhando com passos cautelosos em direção de onde a mancha formava uma pequena poça crescente, onde o corpo de seu alvo parecia estar se contorcendo. Vinha dela. Seu coração disparou, irregular, e doloroso contra sua caixa torácica, como se de repente o órgão estivesse prestes a implodir. Um tremor percorreu por seu corpo, parecendo aumentar gradativamente, enquanto batalhava contra a consciência dividida.
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  Quem era ela? De onde ele a conhecia? Quem era %Priya%?
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  E ele tinha que matá-la. Algo ruim iria acontecer se ele não cumprisse aquela missão, algo que envolvia muita dor e violência, algo que lhe roubaria não apenas o desejo de manter-se vivo, mas seu propósito. Algo que quebraria além do reparo; e ele estava com medo. As solas de suas botas de contato soltaram pequenos guinchos baixos quando o material pareceu absorver o sangue e óleo que se acumulava pelo assoalho do quarto, um barulho baixo, imperceptível e irritante, mas que não havia escapado de seus ouvidos. Seu braço biônico estalou mecanicamente outra vez, girando com uma mistura de vibração e reiniciação, os dedos se fecharam e abriram, instintivamente, e então ele estava sobre ela. Seus dedos metálicos enroscaram-se nos cabelos desalinhados e agora, parcialmente soltos, deslizando pelas mechas sedosas em um aperto violento. Puxou a cabeça dela com força para trás, ouvindo um grito meio gorgolejo repleto de dor escapar da garganta dela.
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  Sangue manchava seu rosto bonito, esvaia-se do buraco aberto em sua traqueia, cabos se projetavam para fora, de onde o líquido preto vazava mais vagarosamente, o corte profundo que seus dedos haviam feito, revelavam também parte da traqueia e cartilagem de seu pescoço. Estava agonizando, morrendo devagar, a tinha onde precisava, tudo o que deveria fazer era finalizá-la e a missão estaria cumprida. Os dedos biônicos apertaram-se mais contra as mechas de seus cabelos, firmes, impossíveis de escapar. Com sua mão livre, ele alçou a faca presa na lateral de sua cintura, girando-a habilidosamente por entre os dedos, e preparando-se para cravá-la naquela parte frágil que havia do crânio humano, entre a têmpora e a orelha, onde o osso era insignificantemente frágil. Quebrar-se-ia mais rápido, permitiria que a faca afundasse precisamente no cérebro, fundo o suficiente para que ela não tivesse mais do que alguns segundos até a morte.
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  Mas então ela prendeu algo em seu braço biônico. O dispositivo que mais parecia-se com uma pequena aranha elétrica, agarrando-se ao metal e prendendo-se entre as pequenas falanges do material que permitiam seu movimento. O Soldado uniu as sobrancelhas, inicialmente confuso, mas percebendo apenas tardiamente o que aconteceria. Ela atingiu o objeto com um botão, e um click alto ecoou por seus ouvidos.
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  A corrente elétrica lancinante percorreu pelo o braço biônico do Soldado, fritando os mecanismos e fios, sobrecarregando-o, e obrigando-o a soltar os cabelos dela. O braço biônico tivera um espasmo violento, empurrando seu ombro esquerdo para trás, e pendendo, inerte ao lado de si. Mas não foi apenas isso, a corrente elétrica, potente, percorreu por seu corpo inteiro. Um grito agonizante quase escapou de sua garganta, mas o Soldado acabou cravando os dentes em sua própria língua, cortando-a com violência, sangue escorrendo pelos cantos dos lábios, enquanto seus olhos reviraram-se em suas órbitas. A dor lancinante que se apoderou de sua mente a deixou, mais uma vez, completamente amortecida, enevoada com uma sensação sufocante de perda de controle. O cheiro, pungente de fios, plástico e carne queimada se espalhou pelo quarto, uma pequena fumaça começou a escapar entre os mecanismos de seu braço biônico, sobreaquecendo-o, e seus joelhos cederam ao seu peso.
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  Quando voltou a si, o Soldado estava desorientado, chacoalhando sua cabeça, respirando pesado, tentando afastar a nuvem sufocante de memórias que espiralava, fora de controle por sua cabeça. Os olhos azuis esverdeados moveram-se de um lado para o outro, enquanto a voz de Steve Rogers pulsava por seus ouvidos, enquanto seu próprio grito escapou por de sua garganta até que doesse, o desespero palpável, seus dedos tentando agarrar-se ao que quer que houvesse pelo caminho, tentando agarrar o ar que se esvaía por entre as junturas de sua mão. Então houve o choque que obscureceu tudo. Ouviu a voz suave dela, suspirando seu nome de uma forma que havia feito seu sangue tornar-se lava pura, queimando e seu peito aquecer-se com uma estranha mistura de emoções que até o momento ele não sabia que era capaz de sentir. Os olhos se arregalaram, uma mistura de choque e surpresa começando a dissipar-se quando percebeu onde estava.
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  Um quarto de hotel, mas… como… como ele havia ido parar ali?
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  Então seus olhos encontraram com ela, agonizando a poucos centímetros de distância. Algo se partiu no peito dele, algo que já estava fragmentado e obliterado a tal ponto que sentia como se fosse apenas um amontoado de areia e não mais fragmentos em seu peito, mas foram os gorgolejos que escapavam dos lábios dela que o assombrou. Foi a mancha de sangue que enxergavam suas mãos. Tudo pareceu desaparecer diante de si, resumindo-se apenas aquele único ponto focal doloroso de ver. %Priya%, sua %Priya% estava ali, mãos agarrando o próprio pescoço, enquanto os olhos, vidrados, focalizavam nada. O peito movia-se de maneira irregular, mais rápido, evidenciando o desespero pela busca de mais ar, enquanto ela contorcia-se no chão. Seus movimentos tornando-se mais e mais lentos. Ele ofegou, desesperado, avançando em direção a ela.
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  — %Priya%?! — Pânico tomou conta de Bucky Barnes.
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•••

Latvéria • Agora.

  Um grunhido de dor abafado escapou por entre os dentes cerrados de Barnes quando ele arrancou a faca da lateral de sua cintura. A dor o cegou por um momento, e tudo o que ele pôde fazer foi escorar-se contra a balaustrada de pedra que envolvia a sacada, fechando os olhos com força. Era difícil saber o que poderia doer mais naquele momento, se era o ferimento aberto na lateral de seu corpo, a dor aguda assemelhando-se com um metal superaquecido atravessando e rompendo o tecido e músculo que encontrava pelo caminho, dilacerando e cauterizando o próprio ferimento. O sangue cálido e encorpado escorria por sua pele, umedecendo não apenas o tecido de seu terno, como igualmente tornando a fibra do material mais pesada, fazendo-o grudar contra sua pele; ou se era a percepção do que havia acabado de acontecer. %Priya% havia recusado sua oferta, outra vez. A dor de ter acreditado que poderia salvá-la apenas para perceber, agora, que se enganara deliberadamente mais uma vez era sufocante. Torturante e pesava em seus ombros. A certeza de que havia se permitido iludir-se com uma efêmera possibilidade apenas para deparar-se com a dolorosa realidade que, mais uma vez, havia se enganado sobre ela, era pior do que a faca que havia sido alojada na lateral de sua cintura.
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  Porque da faca ele conseguiria se recuperar.
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  Seu peito pareceu arder com a mistura de emoções que percorreu seu corpo inteiro. Havia ainda aquele desespero para alcançá-la, céus ele jamais conseguiria se livrar daquilo; era seu refém, seu condenado e tinha certeza de que aquela história não acabaria bem. Mas também havia a dor, a raiva e a desilusão de alguém que muito provavelmente havia acabado de arriscar tudo naquela missão para alcançar uma parede que recusava-se a mover. Havia o peso da responsabilidade de liderar uma equipe e de vidas que estavam contando com o sucesso daquela missão. Vidas de seus colegas, amigos que estavam na linha porque Bucky deixou-se acreditar, ainda que por um segundo, que sua %Priya% ainda estava ali. Era uma história doentia, que se repetia mais do que ele jamais admitiria para si mesmo: eles sempre pareciam estar fadados a se encontrarem, e, todavia, a piada cruel que lhe era feita, provinha de estarem em linhas paralelas, sempre próximos um do outro o suficiente para estar a seu alcance, mas sem jamais conseguir tocá-la.
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  E isso doía, lhe consumia com uma mistura de frustração, dor e raiva. Porque, em algum momento durante as décadas, ele havia a perdido. Em algumas das décadas que vivera, o Soldado Invernal havia ido longe demais e ela escapara por entre seus dedos como areia. E Bucky jamais poderia desculpar-se por isso; jamais poderia acertar as contas com o que ele havia perdido, porque ela havia se perdido também. O que restava, agora, era aquela %Priya%, a agente, a femme fatale sem escrúpulos e sem limites, que fazia o que desejava, como desejava, e servia a ninguém se não a si mesma. Que partia seu coração deliberadamente a cada recusa, por motivos que ele não compreendia, mas desconfiava que era apenas divertido vê-lo quebrar-se de novo e de novo. Que se aproximava o suficiente dele para que o lembrasse do quão boa era, apenas para recordar-lhe de que ele jamais a teria.
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  Grunhiu entre dentes, piscando algumas vezes, tomando sua decisão. Precisava pará-la.
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  O que quer que Victor Von Doom estivesse planejando, %Priya% havia participado como alguma chave central; ela sabia o que Victor Von Doom estava planejando. Era evidência. Se queriam impedir Doom, e acima de tudo, compreender que tipo de jogo o ditador estava fazendo, então eles precisavam capturar %Priya%. Precisavam prendê-la, e então ela seria o problema de Valentina Fontaine De Allegra resolver, não mais dele. Tentou convencer-se de que não importava com o que acontecesse com ela, se fosse enviada para a Balsa ou para a Zona Negativa, iria conviver com isso como havia aprendido o fazer com todos os demônios que o assombravam. Todos os demônios que ele não poderia redimir-se.
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  Percebeu que, além de idiota, havia se tornado um péssimo mentiroso para si mesmo.
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  Tocou no comunicador preso a sua orelha, voltando a caminhar para dentro do salão, os olhos azuis esverdeados movendo-se por entre os rostos desconhecidos dos convidados de Doom com impaciência.
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  — Finalmente! — A voz carregada com o sotaque russo entrecortado de Yelena pulsou pelo ouvido direito de Bucky, como um lembrete irritante de sua existência. — Que merda Bucky!
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  Bucky fez uma careta, tentando ignorar o tom acusatório e irritado da mais nova, unindo as sobrancelhas enquanto disparava por entre as pessoas, passos apertados e rápidos determinados.
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  — Encontrei uma brecha — Bucky cortou a reclamação de Yelena. Seu tom de voz controlado e comedido, soava, agora, tenso e estranhamente irregular, ofegante, evidenciava mesmo que a contragosto, que havia algo errado ali. Algo que provavelmente não havia escapado da atenção de Yelena e que seria averiguado mais tarde, certamente, mas Barnes, preso na tempestade que o consumia, não se preocupou em explicar, tampouco em pensar sobre o assunto no momento. — O nome dela é %Priya% %Mallah%. Se queremos descobrir o que Doom está planejando, precisamos levá-la sob custódia! Ela sabe de algo — cuspiu Barnes, disparado pelos corredores, buscando com o olhar pela mulher deslumbrante em um vestido vermelho escuro. Virou a esquerda e então desceu uma escadaria em espiral seguindo o perfume dela e os vestígios de tecido vermelho escuro que desapareceram ao final da escadaria para a direita.
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  — %Mallah%? %Priya% %Mallah%? A Espectro de Fury? Ela não morreu durante a Guerra Fria? — Yelena ecoou, mas foi abruptamente cortada quando Bucky se chocou contra alguém. O corpo era sólido, e a cabeça acertou seu queixo com uma explosão inesperada e descoordenada. Bucky grunhiu entre dentes, lançando-se para a direita, preparando-se para acertar um soco preciso no rosto de quem quer que havia acertado por acidente, apenas para se deparar com uma Yelena de olhos arregalados, dentes trincados, e pronta para lançar uma corrente elétrica em seu peito. Os dois se encararam por uma fração de segundos, a irritação gritante no semblante de ambos, antes de Yelena abaixar o braço, revirando os olhos. Estava prestes a dizer algo quando a voz de Bob se projetou pelo comunicador dos dois.
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  — Gente? — Bob chamou, a voz outrora incerta, agora um pouco mais ansiosa. Bucky parou de correr, unindo as sobrancelhas ao deparar-se com uma Yelena ofegante e com um corte na lateral de sua maçã do rosto. Bucky estreitou os olhos, analisando o ferimento, tentando ter certeza de que ela não estava ferida, fingindo que não estava. — Perdi o sinal do Aleksei! — Bucky e Yelena arregalaram os olhos, o rosto da mais nova pareceu empalidecer-se
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  — Bob, respira — comandou Yelena, mas ainda gentil. Bucky já estava movendo-se em direção a alguns guardas à paisana. Concentrou-se na tarefa em mãos, movendo-se com as sombras que o corredor projetava por entre os candelabros altos elegantes. Os dois seguranças à paisana não viram o que lhes atingiu até que Barnes já os tivesse onde queria. Movimentos rápidos e precisos, um soco bem dado no centro do rosto, seguido de um chute na canela, e então uma chave de braço com seu braço biônico, e os dois estavam no chão, e o Soldado Invernal já estava com duas armas em suas mãos. Prendeu uma atrás de suas costas, no cinto, e a outra manteve em mãos. Destravou o cartucho com as balas, verificando quantas haviam ali, antes de voltar o cartucho no lugar, engatilhando com um clic clac rápido. Trincou os dentes encarando Yelena com intensidade, calculando uma maneira de conter o desastre que aquela missão havia se tornado. — Bob! Com quem ele estava antes?
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  — A ruiva, ou de cabelo verde? — Bob atrapalhou-se na descrição, parecendo estar espiralando em uma crise de ansiedade imediata. Merda, isso não era bom. — Sasscathin… Sascat…
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  — Sarkissian! — Barnes cuspiu o nome como se fosse uma maldição, e os olhos de Yelena se fixaram em seu rosto com uma clara interrogação. Yelena piscou, confusa, parecendo prestes a questionar-lhe quem diabos era Ophelia Sarkissian, mas Bucky não teve tempo de dizer-lhe como e quem era a maldita mulher, porque mal o sobrenome havia esvaído-se de seus lábios, e tudo ficou vermelho. Bucky arregalou os olhos, praguejando, com raiva, observando o sistema de segurança de Von Doom ser acionado. As janelas de vidros foram imediatamente cobertas por uma camada indestrutível de adamantium, enquanto uma por uma das portas do salão se fechavam bruscamente.
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  Yelena e Bucky se encararam, compreendendo no mesmo segundo o que havia acabado de acontecer: foram expostos. Doom sabia que estavam ali. Não precisaram dizer nada um para o outro, apenas colocaram-se a correr o mais rápido que conseguiam, desesperados para alcançar Aleksei antes que fosse tarde demais. O ruído alto de botas em sincronia e gritos na língua latveriana foi o suficiente para que Barnes soltasse um grunhido baixo, impaciente. Os guardas de Doom, estavam se espalhando, buscando por eles, isso apenas piorava tudo. Virou à esquerda, segundo Yelena, e as informações entrecortadas que Bob lhe passava do caminho que o Guardião Vermelho havia feito acompanhado de Víbora, quando um manto de cabelos longos e lisos capturou sua visão periférica. Por instinto, Bucky voltou seu olhar a tempo de deparar-se com %Priya%, escorando-se contra o que parecia ser um elevador antigo. Ela cruzou as pernas longas e torneadas a frente de si, apoiando as duas mãos atrás de si, e inclinando-se para trás, o queixo erguido, em um sorriso traiçoeiro, enquanto os olhos cintilavam com os de um gato, sustentando o olhar de Bucky com uma ponta afiada de desafio.
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  %Priya% ergueu uma sobrancelha, e então, ainda com aquele sorriso enfurecedor, piscou.
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  A porta se fechou com Barnes congelando no lugar, os lábios se entreabrindo, as mãos envolvendo com mais força a arma que empunhava enquanto a realização o atingia como uma parede de tijolos dolorosos e abruptos. “Ela está interessada, é por isso que está tentando encontrar uma forma de se aproximar”, %Priya% havia dito para Doom, “Não irá descansar até descobrir o que você está planejando”. Os olhos azuis esverdeados de Barnes se moveram de um lado para o outro enquanto ele finalmente compreendeu a quem %Priya% %Mallah% se referia. Ela não estava trabalhando para Doutor Destino naquela noite; era para Sarkissian.
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  E ela havia sido a isca perfeita.
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  Nota da Autora: sei que não teve nenhum hot, até porque essa é uma fic Slow Burn, mas espero que tenha valido a pena a leitura ♥️a gente se vê daqui a pouco, prometo!

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