7 • Titanium
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Chinatown - Chicago
Atualmente...
Lá estava %Matthew% Collins, com o olhar fixo nas evidências que tinha colado em um quadro de cortiça na parede da sala, tentando entender o fio que havia deixado solto naquela história. Após perder seu apartamento com sua prisão repentina, graças ao apoio de Joshua, o amigo que fez em New York, seu novo abrigo temporário se localizava em uma rua pouco movimentada do bairro de Chinatown.
— O que eu deixei passar?! — sussurrou ele, voltando seu olhar para um recorte de jornal, com a matéria sobre a prisão de %Valerie%.
Quanto mais ele refletia as informações diante dele, mais seus pensamentos se voltavam para a mulher que trouxe o caos para sua vida. Justo a única vez que %Matthew% decidiu quebrar as regras, foi o momento que a lógica não lhe fez mais sentido na vida, o que resultou no seu coração apaixonado por uma criminosa.
Minutos em silêncio, sendo envolvido por suas lembranças das muitas noites de amor com a Castaño sedutora, logo sua atenção foi despertada com o toque do interfone. Mas quem seria? E como sabia que ele estava naquele lugar? Pegando uma manta que havia forrada no sofá, jogou sobre o quadro e seguiu até o aparelho para saber quem o procurava.
— A menos que seja o dono do apartamento para consertar o encanamento da cozinha, eu não estou em casa — disse, não se importando com a ironia em suas palavras.
— Tenho certeza que vai querer ter uma conversa com o filho de Benedict Magnus, afinal, temos um assunto em comum. — A voz de Pierre soou do outro lado da linha, com traços de amargura e aspereza. — Mas se preferir, posso comprar todo o prédio também.
%Matthew% engoliu seco assim que sua mente absorveu a informação e ligou o nome do chefão da Titanium a pessoa do qual falava. Em um movimento preciso, apertou o botão para abrir o portão de entrada, seguindo após para a porta a fim de aguardá-lo. Não era a primeira vez que ambos ficavam frente a frente, entretanto, a situação era completamente diferente. De um lado, estava o melhor amigo que faria qualquer coisa pela mulher que dizia abertamente amar, do outro, estava o agente que a seduziu para lhe jogar em uma cela fria, se apaixonando no processo.
— Pierre Magnus — disse Collins, tentando conter seu olhar surpreso.
— %Matthew% Collins. — Sua entonação foi de firmeza e autocontrole.
Internamente ele desejava matá-lo, principalmente por se lembrar da forma em que havia conseguido a confissão de Castaño.
— Entre — disse o agente abrindo um pouco mais a porta para que o herdeiro Magnus entrasse.
Pierre assentiu permanecendo inicialmente em silêncio, enquanto analisava cada detalhe do ambiente que adentrava. Desde as garrafas vazias de cerveja ao lado da lixeira próximo a bancada da pia, até a manta que escondia o quadro de evidências.
— Como me encontrou aqui? — indagou %Matthew%, após fechar a porta e se sentir incomodado pelo silêncio dele.
— Como acha que conseguiu sair tão rápido da cadeia? — Pierre voltou seu olhar para ele, de punhos fechados, ainda se controlando internamente. — Temos um informante em comum.
Era óbvio que sua referência era Joshua.
— E o que você quer? — insistiu o agente, em suas indagações.
— Primeiro… — Pierre soltou uma risada rápida ao se aproximar dele e, no impulso de liberar sua raiva, o socou tão forte, que o derrubou no chão. — Agora me sinto mais aliviado…
— Devo imaginar que mereci isso — comentou %Matthew%, ao se apoiar no chão para se levantar.
— Merecia algo bem pior. — Pierre cuspiu a realidade em sua cara. — Ela confiou em você, e você a expôs da forma mais cruel e nojenta que existe.
— Me mata então, ou faça algo pior comigo. — O agente limpou o vestígio de sangue que escorria no canto da boca. — Eu sei que cometi a pior burrada da minha vida quando…
— A entregou para os federais?! — Supôs Pierre o restante da frase.
“Quando não segui as regras e as quebrei ao me apaixonar por ela.” Pensou o agente, o ponto central da verdade.
— O que você quer vindo aqui? — %Matthew% voltou a atenção para Magnus. — Apenas socar minha cara?
— Não. — Pierre manteve sua postura de cavalheiro superior. — Estou aqui para fazer um acordo com você, por isso não deixei que ficasse preso, pois não me ajudaria em nada.
— E o que me propõe? — O agente se mostrou atento e curioso à proposta.
— Eu te darei todas as provas que precisa para destruir meu pai e todos ligados à Titanium, associados e clientes, sem exceção… Principalmente os responsáveis pela morte do Gambino — anunciou Pierre, demonstrando seriedade em sua oferta.
— E em troca? — indagou o outro.
— Vai me ajudar a tirá-la daquele presídio. — Finalizou Magnus, o motivo de estar ali. — E vai limpar a ficha dela.
— Não há como fazer isso, ela mesmo confessou. — %Matthew% tentou argumentar, não conseguia imaginar uma forma de fazer o que ele pedia.
— Eu não me importo em como vai conseguir isso, mas se quiser limpar seu nome, terá que limpar o dela antes. — O tom de ordem de Pierre soou pelo lugar, causando inquietação no agente.
— E quando começamos? — Relutou em assentir, pois ainda lutava consigo mesmo e com o sentimento que fazia seu coração bater mais forte pela ladra do caos.
Pierre deu alguns passos até o quadro de evidência, em um movimento preciso, o descobriu jogando a manta no chão.
— Agora. — Afirmou, voltando o olhar para seu inimigo, momentaneamente aliado.
— Detenta vinte e sete!? Detenta vinte e sete?! — Ao longe a voz das carcereiras gritava a mulher que, sem preocupações, estava a socar o rosto de outra detenta.
Aos risos, a mulher que vestia o macacão com o número zero, dois, sete, parou por um momento para retomar o fôlego, então olhou para o rosto que se mantinha ao chão, bem abaixo dela.
— Quero que se lembre de nunca mais mexer com alguém que está quieto. — A voz de Castaño soou com firmeza e raiva, enquanto voltava a socar o rosto da outra detenta.
Ela estava com raiva… Raiva por ter descoberto que sua família havia sido morta pela ganância dos homens que compunham o conselho da Titanium... Raiva pelo responsável de mandar os Serpens atrás dos seus pais, ser Benedict Magnus… Raiva por ter se apaixonado por um agente disfarçado enviado para a prender, mesmo sabendo quem era ele… Raiva de si mesma por ter magoado seu melhor amigo… E raiva por estar presa naquele lugar.
Enfim… Ela apenas estava descontando todas as suas frustrações acumuladas em uma infeliz detenta que se achou no direito de tentar domá-la e lhe fazer sua escrava. Logo que as guardas chegaram no local da briga, separaram ambas as mulheres, levando a detenta cinquenta e dois, desacordada, para a enfermaria, enquanto arrastava Castaño para a solitária, a fim de refletir um pouco por seus atos.
— Guarda Bellou — disse ela, num tom de deboche, após a porta da cela se abrir e um pouco de luz entrar naquele espaço pequeno.
Se contava três dias no espaço do castigo.
— Você tem visitas — disse a mulher carrancuda e mal-humorada, mostrando o cacetete pendurado na cintura. — E espero que se comporte desta vez.
— Eu sempre me comporto. — %Valerie% soltou uma gargalhada boba, se levantando do chão. — Então, quem veio me visitar?
— Melhor ver por si mesma — disse a outra guarda que estava mais atrás.
Castaño respirou fundo e saiu da cela isolada, seguindo pelo corredor em direção à sala de visitas. Ao entrar, seus olhos foram de encontro a Pierre que estava de pé, bem ao centro à sua espera. Um sorriso espontâneo apareceu em seu rosto e sem se importar com os guardas atrás dela, e menos ainda no ambiente em que se encontrava, ela correu até ele e o abraçou apertado.
%Valerie% se sentia aliviada por Pierre estar ali e, aparentemente, não a odiar.
— Não acredito que veio — disse ela, num tom baixo mantendo o brilho no olhar. — Fique com medo que me odiasse para sempre.
— Eu nunca te odiaria, ao contrário do que sinto diante desta situação. — Pierre desviou seu olhar dela para alguém atrás, fazendo-a entender que não estava ali sozinho.
Logo %Valerie% deu meia volta e se deparou com %Matthew% parado ao lado da porta. Em segundos, ela sentiu uma explosão de raiva tomar conta de seu corpo, tomando um impulso inesperado para socá-lo, e foi o que fez. As guardas se moveram para lhe impedir, porém, Pierre, com o olhar, as fez ficar afastadas.
— EU TE ODEIO!!! — gritou Castaño, enquanto distribuía alguns socos que eram defendidos no susto pelo agente.
— %Valerie%… — %Matthew% tentou segurá-la para que se acalmasse. — %Valerie%, por favor, me escute.
— Te escutar?! — Ela finalmente parou e tentou se acalmar, sentindo-o segurar seu pulso com força. — Foi por te escutar que terminei aqui.
— Me perdoe. — Ele abaixou um pouco mais seu tom, puxando-a para mais perto e aproximando seus rostos. — Confesso que o plano era prender você e desfazer a Titanium… O motorista se apaixonar não estava nos meus cálculos.
— Me solta… — pediu ela, em sussurro, se segurando para não se render ao seu charme. — Por favor.
— Ainda quero que seja minha princesa — retrucou ele, soltando seu pulso e deslizando as mãos pelos braços da mulher.
— Não existe espaço para princesas no meu mundo. — Ela elevou um pouco mais seu tom de voz, com segurança no olhar e se afastou do homem.
— Já acabaram a DR? — disse Pierre ao voltar seu olhar para as guardas e fazer um sinal para que saíssem do lugar. — Temos algo mais importante para nos preocupar.
— O que ele faz aqui com você? — perguntou %Valerie%, tentando entender como os dois homens de sua vida estavam aparentemente trabalhando juntos.
— Agora vai falar comigo em terceira pessoa?! — %Matthew% soltou um comentário sarcástico, rindo baixo.
Castaño lançou um olhar atravessado para o agente, e depois voltou sua atenção para o amigo.
— Nada mais justo que o causador de tudo isso seja quem vai nos ajudar a resolver o problema. — Pierre deu alguns passos e puxou uma cadeira para se sentar. — Meredith me mostrou os documentos que conseguiu comprovando a traição do meu pai, e tem meu apoio para fazê-lo pagar.
— Como está Meredith? — indagou ela, preocupada com sua funcionária.
— Fique tranquila, ela está muito bem amparada e adiou o casamento — anunciou ele, num tom brincalhão —, afinal, sua madrinha de casamento estava na solitária.
%Valerie% riu de leve, se esforçando ao máximo para manter a descontração no ambiente, e seu olhar bem longe do agente perigo.
— Como os dois pretendem me tirar daqui? — Ela olhou para %Matthew%, depois voltou o olhar para Pierre. — Porque vocês vão me tirar daqui, não é?!
— Mas é claro que vamos — confirmou Collins, o objetivo da visita.
— Esta é a fase um, de nosso plano — completou Pierre.
— Antes de prosseguirmos, preciso passar em um lugar após me tirarem daqui — pediu Castaño ao sentir a necessidade de fazer uma visita à doutora Alberg, para uma xícara de chá.
Ambos assentiram com o olhar. Estavam aliviados por ela estar bem e ansiosos para devolver a liberdade da mulher que fazia seus corações acelerarem.
Mas, mamãe, eu estou apaixonada por um criminoso
E esse tipo de amor não é racional, é físico.
- Criminal / Britney Spears
“Vida: Não é o que temos que nos define, e sim como nos levantamos após uma queda.” - Pâms
Fim