6 • Novo funcionário
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Constellation House - Central Park
Manhattan - New York
7 meses antes...
Mesmo com a missão de conseguir o Pink Panter para Gambino, %Valerie% tinha outros artefatos em sua lista que precisavam ser resgatados e entregues, o que lhe demandou um certo desgaste mental e físico. Foram os meses mais corridos e sufocantes para ela, que nem mesmo obteve minutos de paz para comparecer em suas aulas de jardinagem.
— Não acha que está se esforçando além do necessário? — A voz de Collins soou atrás dela, despertando-a de seus devaneios.
Já se passavam das duas da manhã e %Valerie% não havia parado nem um minuto para descansar, completando vinte e quatro horas acordada, concentrada em seus estudos e pesquisas para encontrar a localização do diamante rosa. Sua última entrega tinha sido um colar de rubis que, no passado distante e oculto, havia sido de uma rainha da França e leiloado no século XVIII pelo Museu de Paris, seu antigo dono, um sheik da Arábia Saudita, acabou tendo seu cofre profanado pelas mãos mais delicadas que existiam no ramo. Entrar em sua mansão mais protegida do oriente médio não foi um problema, porém, sair dela é que demandou algumas noites de planejamento.
— E você não acha que está muito intrometido para um mero motorista? — retrucou ela, o olhando atravessado assim que o homem abaixou a tela do notebook.
— Meredith está preocupada, então me ligou e pediu para que cuidasse da senhorita. — Alegou ele ao cruzar os braços e encostar na mesa, ficando de frente para ela.
— Abusado… — sussurrou ela, respirando fundo. — Meredith não deveria ter te ligado e você… Não está autorizado para entrar em meu quarto.
— Me desculpe se não sou um funcionário muito obediente. — O homem sorriu de canto com certo deboche, algo que a deixava em surto de raiva.
— O que você quer? — indagou %Valerie% ao se levantar, mantendo o olhar sério para ele.
— Quero que confie em mim — pediu Collins, mantendo o olhar profundo e sereno — e me deixe cuidar de você.
%Matthew% já havia ultrapassado os limites formais do cargo de motorista. A deixa para a aproximação foi em uma noite chuvosa em que %Valerie% teve uma repentina crise de ansiedade devido aos altos barulhos de trovões. De alguma forma, sua memória do passado se ativou, fazendo-a se mostrar indefesa, levando assim à reação de Collins de iniciar sua fase de aproximação.
Ao longo dos cinco meses que seguia trabalhando para Castaño, o agente infiltrado já passou a se considerar praticamente seu segurança pessoal, não a deixando sozinha nem por um minuto sequer, sendo seu objetivo principal estar o mais próximo dela, saber seus segredos e, finalmente, conseguir uma confissão, por menor que fosse.
— Você trabalha para mim, tem viajado ao meu lado há meses, deveria se considerar um homem de sorte — retrucou %Valerie%, tentando manter estabilidade diante dele.
— Tem tanto medo de se expor assim? — insistiu o homem, deixando-a desconfortável.
— Volte para seu posto e me deixe sozinha. — Castaño se afastou dele, então sentiu uma breve tontura que deixou seu corpo enfraquecido.
— Senhorita Magnus… — %Matthew% a amparou em seus braços. — Está tudo bem?
— Sim… — sussurrou ela, relutante em assentir que estava estranha.
— Não está. — O homem a pegou no colo no impulso da preocupação e a levou para o quarto.
Colocando o corpo da mulher sobre a cama, Collins mediu sua temperatura, constatando que ela estava meio febril. Ele já havia passado por algo assim com sua parceira, Foster, então já sabia brevemente como poderia cuidar dela. Em seus dois dias de recuperação, sempre que Valeria acordava, fazia questão de expulsá-lo de seu quarto do hotel, sendo ignorada na mesma proporção.
— O que ainda faz aqui? — sussurrou ela, ao despertar do pequeno cochilo e o ver próximo de sua cama.
— Por que ainda faz essa pergunta? — indagou %Matt%, dando um riso bobo. — A senhorita possui duas escolhas: ou me demite ou se acostuma com os meus cuidados… O fato é que não sairei do seu lado.
— Tem tanto medo da Meredith assim? — perguntou %Valie%, sem entender o motivo de tanto cuidado que ele estava tendo com ela, apenas por um pedido de sua funcionária.
— Não é pela Meredith — disse ele, ao olhá-la com carinho.
%Valerie% respirou fundo ao sentir a entonação em sua voz.
— Você é apenas o motorista — disse ela, tentando se autoconvencer disso.
— Diga mais uma vez… — %Matthew% se aproximou um pouco mais dela, com certa ousadia, fingindo medir sua temperatura.
— Por que está cuidando de mim? — indagou Castaño mudando o sentido da pergunta.
— Por que eu não cuidaria? — retrucou ele. — Por que sou o motorista?
— Collins… — sussurrou a mulher, quase prendendo a respiração pela aproximação dele.
Mais do que com Pierre, que era um amigo, %Valerie% não conseguia entender a grande atração que sentia pelo motorista misterioso, que se intensificava ainda mais com seu jeito dedicado e gentil de cuidar dela. A última coisa que poderia acontecer é Castaño abrir seu coração para um desconhecido e se permitir apaixonar por ele, entretanto, sua sanidade mental não estava preparada para lidar com os conflitos internos relacionados a %Matthew%.
— Preciso voltar ao trabalho. — Ela ergueu um pouco mais o corpo, o observando aferir sua temperatura, agora com o auxílio do termômetro.
— Não vou permitir que se esforce além do necessário — anunciou ele, fazendo a postura de enfermeiro particular.
— Tenho você para cuidar de mim. — Brincou ela, arrancando um sorriso discreto dele.
— Está com fome? — perguntou Collins, voltando o olhar para ela.
— Vai pedir serviço de quarto a essa hora? — retrucou %Valerie%, voltando o olhar para o relógio de pulso na mesa de lateral da cama.
— O que eu pretendia era cozinhar para você. — Esclareceu o homem.
— O motorista sabe cozinhar? — O olhar de %Valie% demonstrou que ela estava impressionada. — Gostaria de poder acompanhar esta façanha.
— Está bem o suficiente para se levantar? — questionou o rapaz ao cruzar os braços, pensando em como poderia tirar proveito da situação para quebrar o restante das barreiras criadas pela mulher.
— Estou sentindo minhas pernas, então... — Ela soltou uma risada ao tomar impulso para se levantar. — Acho que posso fazer uma visita à cozinha do hotel.
— Como a senhorita quiser. — Assentiu ele, se afastando um pouco e gesticulando com a mão, a direção do caminho para a porta.
Ver um plano seguir com seu curso conforme o calculado era o que Collins mais gostava em seu trabalho como agente secreto, entretanto, naquela madrugada, enquanto cozinhava para %Valerie%, o homem nunca imaginou que as coisas pudessem dar tão certo e a seu favor, acontecendo de forma natural e totalmente improvisada. As conversas aleatórias de variados assuntos; as risadas espontâneas dela, que o admirava ainda mais; os olhares intensos que fazia os corações acelerarem sem pedir licença.
— O que achou? — perguntou ele, curioso para saber sua opinião.
— Por acaso você é filho da dona do café? — retrucou a moça, também curiosa pela história dos dotes culinários de seu motorista.
— Achou isso por eu saber cozinhar? — O homem riu de forma mais aberta e a olhou. — Então você gostou?
— Eu não disse que gostei. — A mulher sorriu de volta, sentindo seu olhar se focar nos lábios de %Matthew%.
Logo %Valerie% respirou fundo, tentando manter seu equilíbrio interno, porém, sentindo o seu coração acelerar pela intensidade que emanava dele.
— Seus olhos já me responderam. — Collins sorriu de canto e se aproximou mais dela, então pegou o garfo em sua mão, enrolou um pouco do macarrão e levou à boca.
Com um sorriso escondido, continuou castigando o alimento, enquanto a encarava.
— Motorista abusado — reclamou ela, num tom baixo. — Eu deveria te demitir.
— Deveria? — %Matthew% a tocou de leve na cintura de %Valie%, fazendo-a se levantar da banqueta e se afastar da bancada em que fazia a refeição, Collins, se inclinando um pouco mais para cima dela, deixou seu rosto mais próximo, e sussurrou: — Me demita…
%Valerie% respirou fundo, sentindo levemente o aroma do perfume do homem. Não que ela estivesse em uma posição indefesa, porém, com sua mente cansada pelo desgaste dos roubos e o rastreamento do Pink Panther, não iria lutar contra a ocasião, menos ainda as investidas do agente. A oportunidade estava diante dele, e %Matthew%, sendo um bom jogador, apenas se deixou levar pelo momento e iniciou o primeiro beijo do inusitado casal.
— Bom dia — sussurrou Collins, assim que percebeu que ela havia acordado.
— Eu deveria perguntar o que faz aqui… Afinal, te expulsei do hotel após finalizar o jantar — comentou ela, ao se espreguiçar na cama e perceber a presença do homem —, mas sei que não teria a resposta adequada.
— Já disse que não vou sair do seu lado. — Ele manteve a seriedade e firmeza no olhar.
— O que você quer? — indagou %Valerie%, sabendo que aquele relacionamento de funcionário e chefe não era tão simples assim. — O que você realmente quer de mim?
— O que eu poderia querer de você? — retrucou %Matthew%, mantendo-se encostado no beiral da janela, olhando-a. — A não ser a sua confiança.
— E por que deseja tanto a minha confiança? — insistiu a mulher ao se levantar e se aproximar do agente, parando à sua frente.
%Valerie% manteve o olhar mais sério ainda. Desejava internamente entender as reais intenções do motorista e desvendar todos os mistérios que o rodeavam.
— Porque ainda desconfia de mim — respondeu ele, simples e objetivo. — Meredith não é a única que se preocupa com você.
— Vai me dizer que está preocupado com seu salário no final do mês? — brincou Castaño, tentando descontrair o ambiente. — Não se preocupe, no contrato de trabalho dos meus funcionários tem uma cláusula te assegurando financeiramente, caso aconteça algo comigo.
— Não é por isso — o homem se afastou da parede e se aproximou mais dela —, não me importo com o dinheiro, me importo com você.
— O motorista não pode se apaixonar — comentou ela, erguendo um pouco mais seu corpo, para deixar seus lábios mais próximos dos dele. — A vida real, não é como nos contos de princesa.
— Então… Terei que torná-la a minha princesa. — Collins deu o primeiro movimento e a beijou novamente.
Naquela altura do jogo, %Matthew% não estava mais pensando racionalmente e havia mudado todo o seu planejamento sobre como conquistar a confiança da mulher. Assim como Valeria se sentia atraída por ele, na mesma proporção acontecia com o agente, relacionado a ladra que deveria investigar. Das muitas noites ao longo dos cinco meses convivendo com ela, as raras vezes em que a viu atordoada por seus pesadelos mais dolorosos, o fez sensibilizar, principalmente quando descobriu a realidade por detrás de sua afiliação à família Magnus.
Os escassos relatórios sobre Castaño não tinham nenhum registro sobre a morte de sua família e as circunstâncias pelas quais ocorreu, menos ainda os traumas causados à pequena criança, que agora, sendo mulher, ainda precisava lutar contra seus medos e tormentos. Saber sobre a vida dela, convivendo com ela, algo que ele nunca imaginou viver.
— Está arrependida? — perguntou ele, ao acariciar seus cabelos.
— De me tornar uma princesa? — Ela riu com graça. — O que aconteceu aqui…
— Não diga que não deve se repetir — pediu ele, quase em tom de ordem. — Não vou me desculpar, menos ainda me afastar de você.
— Não está facilitando. — A mulher girou seu corpo na cama e o olhou com seriedade. — Ainda é o motorista.
— Não me importo. — A confiança em seu olhar a intimidava de forma sutil.
— Preciso voltar ao trabalho. — %Valerie% ergueu o corpo e voltou sua atenção para o notebook em cima da escrivaninha aos pés da cama.
— Precisa que eu faça algo para você? — indagou Collins, tentando entender o que tanto ela procurava. — Ou ainda não tenho sua confiança?
%Matthew% tocou de leve as costas de Castaño, deslizando seus dedos com suavidade por seu corpo, sentindo a mesma se arrepiando gradativamente.
— Você realmente quer me ajudar nisso? — Mais uma vez a mulher estava admirada com a ousadia dele. — Eu sempre trabalhei sozinha.
— Duas cabeças pensam melhor que uma — reforçou ele, sua teoria.
A mulher arqueou sua sobrancelha direita, pensativa na proposta. Num respiro fundo, %Valerie% se afastou do homem e engatinhou sobre a cama até chegar na escrivaninha, então, pegando o tablet, retornou para perto dele e se concentrou em encontrar a informação que precisava.
— Já que está tão disposto assim… — %Valie% virou o tablet para seu motorista, mostrando a foto de um homem — preciso que me ajude a encontrar esta pessoa.
— Por qual motivo quer encontrá-lo? — indagou ele, curioso.
— Não convém saber. — Ela manteve a confidencialidade do propósito, observando a reação do rapaz.
— Se este é o primeiro passo para confiar em mim… — Ele sorriu de canto e retirou o objeto da mão da mulher, o colocando na mesa lateral, então voltou sua atenção para ela novamente, a puxando para mais perto. — Por que não me conta mais sobre você?
— O que você quer saber? — indagou ela, se deixando ser seduzida pelo homem.
— O que você quer me contar? — retrucou ele, iniciando o beijo, malicioso e envolvente.
Mesmo sabendo da possibilidade de se arrepender depois, tanto %Valerie% quanto %Matthew% continuaram se entregando um ao outro, afastando as preocupações com o futuro. E a cada momento íntimo juntos, de forma espontânea e fluida, o agente conseguia descobrir mais sobre a vida e rotina da ladra assim como seus trabalhos e obrigações para com a Titanium.
Eu perdi minha cabeça
Desde o momento em que te vi
Só de estar ao seu lado
Meu mundo fica em câmera lenta
Por favor, diga se isso é amor?
- What is love / EXO