5 • Little Flower
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Pierre House - Upper East Side
Manhattan - New York
1 ano antes...
%Valerie% não estava nem um pouco surpresa com o resultado dos candidatos, pois apenas dois haviam conseguido concluir o trajeto e chegar ao destino sem serem pegos pela polícia, porém, com atrasos. Certamente por mais que conseguissem, os pensamentos dela estavam direcionados a outra pessoa, o motorista que a impressionou sem o menor esforço. Algo que ela insistia em negar para si mesma, e se forçava a ignorar as persistentes cenas que invadiam sua mente.
— O que posso dar em troca de seus pensamentos? — A voz suave e aveludada de Pierre despertou a atenção de Castaño, que logo sentiu as mãos do homem pousar em sua cintura, virando-a para ficar de frente para ele. — Está mais silenciosa que o normal.
O olhar dele se manteve atento a ela, mesmo com traços de serenidade.
— Apenas estou me perdendo em minhas reflexões com mais facilidade — explicou ela, dando um sorriso disfarçado.
Logo ela sentiu a brisa fresca que entrava pelas portas e janela tocarem seu corpo. Passar as manhãs de domingo na mansão de Pierre era a tradição que ambos haviam construído ao longo dos anos. Um dos raros lugares em que %Valerie% se sentia em casa e protegida, principalmente pelo amigo ter lhe demonstrado, por várias vezes, sua lealdade e afeto, conquistando a confiança dela.
— E qual é a reflexão da vez? — indagou ele, curioso, pois a cada momento desejava conseguir decifrar o enigma que ela representava para ele.
Castaño sempre foi de poucas palavras e, as raras vezes que desabafou com o herdeiro Magnus, sempre o deixou preocupado por suas perturbações internas. O que Pierre mais desejava era ter o coração dela, porém, a única coisa que a mulher lhe permitia oferecer, era seu ombro amigo.
— Nada de interessante. — Ela sorriu de canto, de forma mais aberta, suavizando o olhar. — E o nosso café da manhã?
— Está pronto. — Ele piscou de leve e lhe roubou um selinho rápido, ao se afastar dela.
Pierre seguiu para o corredor de acesso à cozinha, em risos num tom baixo. %Valerie% soltou um suspiro bobo e o seguiu até o local, apenas observando o seu entusiasmo.
— Venha, me deixe te alimentar — disse o rapaz, ao se aproximar da mesa de refeições e arrastar a cadeira para que ela sentasse.
— O cheiro do café está bom — comentou a moça, ao sentir o aroma, se sentando na cadeira. — Isso aumenta meu apetite.
— Hum… Então hoje você não vai apenas fingir que está comendo como no domingo passado — comentou Pierre, olhando-a desconfiado.
— Digamos que domingo passado eu não estava em meu melhor humor — explicou %Valerie%, rindo baixo.
— E hoje você está? — Ele puxou a cadeira e se sentou de frente para a companheira.
— Talvez. — Ela respirou fundo ao bebericar o café posto em sua xícara.
— Conseguiu seu motorista? — indagou ele, ao levar um morango à boca.
— Ainda não… — Castaño manteve o olhar na xícara, pensativa sobre sua decisão final a respeito da corrida.
— Se quiser, posso disponibilizar um de meus funcionários — ofereceu o homem, ao olhá-la atento.
— Não precisa, já sei o que vou fazer. — Com firmeza quanto à sua decisão, ela manteve a confiança.
— Está preparada para ver meu pai na terça-feira? — indagou ele, voltando a atenção para a refeição.
— Sempre estou preparada para ver o Magnus. — Ela riu baixo. — Mas… Ainda não entendi o motivo dele querer me ver. Como soube?
— Por acaso ouvi a Kim confirmando o café no clube de golfe — respondeu Pierre. — Você pretende dizer a ele sobre a perseguição de quinta?
— Não. — Ela deu uma garfada na panqueca e levou a boca, saboreando o gosto do alimento. — Nós dois sabemos que seu pai não fará mais nada a meu favor, então… Não vale a pena.
— Queria poder fazer algo para parar isso. — O homem bufou um pouco, sentindo-se irritado por sua limitação.
Apesar de filho e único herdeiro legítimo da fortuna da família Magnus e da posição de líder do pai, Pierre não podia ir contra as ordens de Magnus enquanto o mesmo estivesse no poder, afinal, os bastardos, Paola e Pietro Morelis, esperavam o mínimo de distração do primogênito para derrubá-lo e tomar seu lugar.
— Não quero que se prejudique por minha causa — disse %Valerie%, ao finalizar o alimento em seu prato.
— Faria qualquer coisa por você... — Ele se levantou da mesa e se aproximou dela, pegando em sua mão e a levantando-a junto. — Sabe disso.
— Agradeço, Pierre, por tudo que fez por mim, por todos esses anos. — A mulher sorriu de leve para ele. — Sempre será uma das partes mais importantes em minha vida.
Pierre sorriu de canto, a puxando para mais perto, mantendo seus corpos e rostos mais próximos, sentindo sua respiração. Por mais que %Valerie% sentisse um carinho profundo por ele, e talvez até mesmo atração, ela não queria misturar as coisas, menos ainda perder a amizade que construíram com o tempo. Entretanto, as esperanças no coração do homem a seu respeito permaneciam acesas mesmo contra sua vontade.
Os dias passaram e logo na terça %Valerie% pontualmente se encontrou com Magnus no clube de golfe. Ela observou discretamente as pessoas que estavam frequentando o lugar naquele dia, identificando alguns rostos conhecidos. Logo, a secretária Kim a parou no caminho, conduzindo-a para o espaço vip do campo, onde Magnus aguardava.
— Bom dia, senhor — disse %Valerie%, assim que desceu do carrinho que as levou ao local.
— %Valerie% — o homem sorriu com satisfação por sua pontualidade —, quero lhe apresentar Alfred Gambino, nosso novo associado.
— É um prazer conhecê-la, senhorita Magnus. — O homem manteve o olhar interessado ao cumprimentá-la de forma despojada.
— Igualmente, senhor Gambino. — %Valerie% voltou seu olhar para Magnus, como se pedisse uma explicação mais detalhada pelo fato de estar ali.
— Gambino tem se mostrado um associado muito valioso para a Titanium, por isso, queremos lhe dar um presente muito estimado por alguns de nossos clientes — anunciou Benedict, de forma que ela pudesse entender as entrelinhas.
— O Pink Panther — disse a mulher, em alto e bom tom, movendo o olhar para o gângster. — Você deseja o diamante mais bem escondido do mundo?
— O senhor Magnus me garantiu que você conseguiria encontrá-lo para mim. — Gambino sorriu de canto, de forma debochada.
Mas lá no fundo, Valeria conseguia ver nos olhos do homem que o mesmo não acreditava em sua capacidade de resgatar a pedra para ele.
— Bem, se o senhor Magnus lhe garantiu, apenas aproveite sua estadia nas instalações do clube e aguarde meu retorno. — %Valerie% deu o primeiro passo para se afastar e direcionou seu corpo para a saída.
No impulso do seu corpo, Magnus pegou em seu braço, parando-a no caminho.
— Deseja mais alguma coisa, senhor? — Ela voltou seu olhar para o homem.
Internamente, %Valerie% estava transbordando ódio e frustração por ter que engolir a existência dos seus inimigos em silêncio e apenas manter sua cabeça abaixada para os mandos de Benedict.
— Ainda és a minha niña? — indagou ele, fazendo-se o pai preocupado.
— Sim, senhor. — Castaño suavizou sua voz, deixando seu olhar mais doce. — Sempre serei.
— Deixa-me orgulhoso — disse ele, na sutileza de um tom de ordem.
A mulher assentiu com a cabeça e se afastou de Magnus, seguindo seu caminho. Castaño dirigiu em seu carro até o Empire States, tinha alguns assuntos para finalizar antes de se concentrar em sua nova missão.
— Senhorita — Meredith adentrou no escritório dela, com algumas pastas na mão, entregando-lhe —, aqui estão os documentos que pediu a respeito do Gambino.
— Agradeço, Meredith. — %Valerie% pegou a pasta e abriu, olhando superficialmente as informações. — Vamos ver o que você tem escondido.
— Se o senhor Magnus souber que está investigando sobre o Gambino... — A funcionária a alertou. — A senhora não tem medo?
— Medo do Magnus? — %Valerie% a olhou com seriedade e firmeza.
— Senhora, eu tenho medo até mesmo da senhorita Kim — confessou a secretária.
Castaño riu baixo, sensibilizada por seus temores.
— Já vivi coisas muito piores que me fazem não sentir nenhum medo relacionado a Magnus — admitiu ela, refletindo seu passado. — E Kim, apenas continua se mostrando a primeira dama, porque tem espaço nos lençóis do poderoso chefão.
Ambas deram algumas risadas pela referência. Então Meredith voltou seu olhar preocupado para ela.
— O que fará agora? Sobre o cargo de motorista? Afinal, dispensou os dois candidatos que passaram no teste. — Curiosa, ela se sentia intrigada pela chefe não ter dito mais nada após o teste de sábado.
— Eles não passaram, Meredith, chegaram atrasados, sabe disso — explicou num tom sereno ao se levantar de sua cadeira e deixar a pasta em cima da mesa. — Não cumpriram o objetivo.
— E agora? — insistiu a funcionária.
Castaño respirou fundo, dando alguns passos até a varanda privilegiada de seu escritório, refletindo sobre sua prévia decisão. Ela nunca havia se deixado impressionar por alguma situação, menos ainda se interessar por alguém aparentemente insignificante, mas ali estava ela, sem conseguir controlar seus pensamentos continuamente direcionados ao taxista misterioso. Em uma ação previamente por impulso, ela se afastou do beiral e voltou à sua mesa, pegando sua bolsa e as chaves de seu carro.
— A senhora vai a algum lugar? — indagou Meredith, se assustando com o movimento da chefe. — Não me lembro de ter algum compromisso em sua agenda para esta tarde.
— Tenho um assunto em particular para resolver, tire o restante do dia de folga, sei que precisa dar atenção ao seu noivo e os preparativos do casamento. — %Valerie% sorriu discretamente. — Antes que ele a peça para escolher entre nós dois.
— A senhora sabe muito bem qual seria minha escolha — respondeu a assistente, prontamente.
— Por isso mesmo, não quero arruinar mais um relacionamento seu. — %Valerie% argumentou com mais seriedade.
— Devo minha vida à senhora — alegou a outra, lembrando-se do dia em que conheceu Castaño e recebeu sua ajuda.
— Vá descansar e aproveite sua folga — insistiu %Valerie%, seguindo em direção à porta —, somente volte ao trabalho amanhã após o almoço.
— Sim, senhora. — Meredith assentiu.
%Valerie% desceu pelo elevador vip até o estacionamento e entrou em seu carro, dando partida no motor, seguiu pelas ruas inicialmente tentando se lembrar do trajeto que havia feito na quinta. Após algum tempo dirigindo, misturando a sensação de estar perdida com a ideia de ter perdido sua razão, finalmente ela havia encontrado a escondida cafeteria
Coffee Shop. Estacionando do outro lado da rua, %Valerie% permaneceu minutos dentro do carro, tentando entender o que estava acontecendo com sua sanidade mental e se exatamente ela deveria estar ali.
— Hum?! — De repente, %Valerie% despertou de seus devaneios, ao ouvir alguns toques no vidro da janela do banco do passageiro.
Abaixando o vidro, notou uma silhueta masculina parada em frente.
— Se veio pelo café da manhã, deveria ter chegado mais cedo. — O tom firme do homem a deixou estremecida enquanto acompanhava o movimento de seu corpo, revelando seu rosto.
— Acho que já sabe pelo que eu vim — retrucou a mulher, destravando o cinto de segurança e saindo do carro.
Encará-lo era a parte fácil, entretanto, a intensidade de seu olhar é que a deixava em pequenos surtos internos.
— Prefiro ouvir de seus lábios — insistiu ele, mantendo as mãos nos bolsos da calça e o olhar nela.
— Tenho uma proposta de trabalho para você. — Com segurança e firmeza, %Valerie% deu alguns passos até o homem, parando a sua frente.
— E por que acha que quero trabalhar para você? — indagou ele, com serenidade.
— E por que você não iria querer? — retrucou ela, com confiança. — Podemos fazer um teste.
— Você vem me oferecer um emprego e quer fazer um teste? — O homem riu baixo, Collins realmente estava admirado com a ousadia da ladra. — Nem mesmo sabe meu nome.
— %Matthew% Collins — respondeu ela, prontamente. — Motorista há três meses na
Taxi Motors.
— Estou impressionado. — O agente não imaginava que ela também havia feito seu trabalho de caso, no entanto, seguia aliviado por não ter deixado nenhuma ponta solta sobre sua verdadeira identidade. Apesar de, nesta missão, utilizar seu nome verdadeiro.
— Preciso saber se consegue se adaptar a minha rotina — argumentou Castaño, arqueando a sobrancelha direita. — O que me diz? Aceita o desafio?
— De quanto estamos falando, sobre o salário? — indagou %Matthew%, deixando se mostrar interessado.
— O suficiente para te deixar interessado em minha proposta — respondeu a mulher, o deixando curioso.
— Quando começamos? — perguntou o homem.
— Agora — respondeu %Valerie%, ao jogar as chaves em sua mão para ele. — Preciso ir a um lugar.
Ele pegou as chaves no ar e assentiu ao abrir a porta do banco de trás do carro para ela entrar. %Matthew% entrou logo depois, ajustando o banco do motorista e ligando o motor.
— Para onde vamos? — indagou.
— Vamos para o Bronx — anunciou ela.
Collins assentiu seguindo com o carro para o endereço especificado por ela. A mulher, por sua vez, não se impressionou ao notar que a rota por onde ele seguia era totalmente desconhecida por ela, ruas que nunca imaginou que existissem na cidade em que vivia há anos. Ao chegarem em frente a uma floricultura, %Valerie% desceu do carro e pediu para que o homem esperasse do lado de fora, então adentrou o estabelecimento.
— Pequeno Lírio! — O som surpreso da senhora Alberg foi abafado por seu olhar gentil e o sorriso cativante. — Não esperava sua visita.
— Eu também não esperava vir aqui hoje… Mas… — Ela não conseguiu terminar sua frase.
Ingrid Alberg conhecia muito bem a jovem adulta para saber que sua presença ali era mais do que necessária.
— Vejo que precisa de uma boa conversa e uma xícara de chá. — Completou Ingrid, mantendo o sorriso acolhedor. — Não se preocupe querida, chegou em um bom momento.
Na teoria, Ingrid era uma subestimada psicóloga que após algumas desilusões com o trabalho, acabou fechando seu consultório e abrindo uma floricultura, sua segunda paixão na vida, entretanto, quando alguém recebe o dom de ouvir e cuidar de pessoas, não se pode apenas virar as costas para isso. E foi o que aconteceu. Por fim, na prática, após seu caminho cruzar com de outras mulheres que visivelmente precisavam de ajuda, a doutora Alberg resolveu montar, através de sua floricultura, um seleto grupo de apoio denominado
Little Flowers no qual cada uma de suas pacientes receberia o nome de uma flor e seriam tratadas assim, permitindo que a médica pudesse ajudar as mulheres a encontrar suas respostas da melhor forma possível, enquanto lhes ensinava a arte da jardinagem.
— Obrigada — disse %Valerie%, ao receber a xícara de chá das mãos da outra mulher.
— É notório que está preocupada com algo. — Ingrid se afastou um pouco, seguindo até a bancada de trabalho. — Não quer me dizer o que a atormenta?
— Preciso realizar outro serviço para Magnus e sinto que este será ainda mais difícil e… — Ela bebericou um pouco o líquido, observando a doutora mexendo no vaso em cima da bancada.
— Algo me diz que tem algo errado — confessou Castaño, suas inquietações. — Nunca falamos sobre a morte dos meus pais, nem do tio Castelano… Ele sempre me reprime por querer vingança e não me deixa fazer justiça.
— Você acha que Magnus está envolvido com o que fizeram com sua família? — perguntou a médica, instigando a reflexão sobre a possibilidade.
— Eu não sei… Se fosse, qual o propósito em me deixar viva? — contra-argumentou %Valerie%, pensando mais a respeito. — Ele poderia ter me matado quando descobriu que sobrevivi.
— Você não está sendo útil para ele, agora? — A mulher manteve sua atenção na planta que manuseava de um vaso pequeno para outro maior. — Sabe qual o segredo para se ter um lírio bonito e florido?
— Não — respondeu %Valerie%, prontamente.
— As raízes… O lírio precisa de um recipiente espaçoso para que suas raízes se desenvolvam com perfeição — respondeu ela, finalmente voltando seu olhar para a jovem. — Se há uma coisa que Magnus lhe deu foi espaço para se desenvolver… Agora está na hora de você florescer a seu modo, e não aos mandos dele.
— Acha mesmo que estou pronta para minha independência? — %Valerie% tentou não se mostrar insegura.
— Há quanto tempo você tem vindo em minhas aulas de jardinagem? — indagou Ingrid, fazendo-a refletir mais uma vez.
— Sete anos. — A jovem respirou fundo. — Graças a você, meus pesadelos não me afetam mais.
— Isso é graças a você mesma, ao seu esforço. — Revelou a mulher. — Sei que ainda tem alguns temores e traumas que precisam ser trabalhados, mas… Tenho certeza que está pronta para o próximo nível da sua vida.
%Valerie% assentiu e tomou mais um gole do seu chá, mantendo sua atenção na médica que continuava a realizar o replantio do lírio no vaso maior. Foram mais algumas horas de conversas aleatórias sobre plantas, o novo motorista e os planos que ela tinha para o futuro, além de sua amizade com Pierre que a deixava apreensiva.
Se realmente Magnus tivesse ligação com a morte de seus pais, ela não deixaria passar, nem mesmo pelo amigo.
— Para onde iremos agora? — perguntou Collins, assim que ela retornou ao carro.
— Para casa — respondeu ela ao respirar fundo, já sentindo sua mente mais clara e preparada para o que viria a seguir.
O DNA no meu sangue me diz
Que é você quem eu venho procurando.
- DNA / BTS