4 • Fast & Furious
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Constellation House - Central Park
Manhattan - New York
1 ano antes...
A primavera sempre foi a estação favorita de %Valerie%, porém, foi nesta mesma estação que o pior dia de sua vida aconteceu. Algo que a assombra quase todas as noites, em seus pesadelos constantes que a oprimiam e atormentavam. E naquela noite, parecia ainda mais sufocante reviver a terrível cena da garotinha escondida no alçapão, ouvindo os gritos de dor da sua mãe.
— AAAHHHHHHH! — gritou ela, ao despertar de mais um pesadelo, erguendo seu corpo no automático.
Sentada sobre sua cama, ela respirou fundo tentando se acalmar internamente. Seu olhar passou pelo quarto até chegar no celular em cima da mesa de cabeceira ao lado. Pegando o aparelho, ela ligou a tela e viu algumas ligações perdidas da secretária Kim, a fiel funcionária e amante às escondidas de Benedict Magnus, o chefe dos chefes da Titanium.
— São três da manhã… não acredito que dormi todo esse tempo — sussurrou ela, sentindo-se mais calma e ignorando totalmente a forma em que acordou.
Já estava acostumada com sua condição psicológica e não iria se deixar desgastar por pesadelos dos quais não tinha controle. Sua preocupação era uma específica: Ter a autorização de Magnus para destruir os Serpens, a gangue contratada para dizimar seus parentes e matar seus pais.
— Hora de trabalhar — disse se espreguiçando um pouco mais, então levantou-se da cama e seguiu em direção ao closet.
%Valerie% olhou para as roupas penduradas, pensando em qual seria seu look da vez, então pegou uma calça jeans pantalona preta e uma camisa social feminina branca, finalizando com um scarpin vermelho e um sobretudo preto. A bolsa da Chanel, recém comprada da última coleção, foi apenas um toque especial para a mulher de negócios que deveria se passar nas próximas horas.
Morar no mais luxuoso edifício residencial em frente ao majestoso Central Park, lhe proporcionava uma vista de causar inveja que de tempos em tempos, lhe prendia a atenção facilmente. Seu novo endereço havia sido um presente do último cliente,
Isaac Brown, um executivo importante de
Wall Street que se encantou pelas curvas de %Valie% e sua agilidade em resgatar pequenos objetos “perdidos”. Por isso, sua função na Titanium era específica e fundamental. Era ela quem conseguia para os clientes vip as mais desejadas pedras preciosas que o mundo possuía, além de outros artefatos ainda mais valiosos.
Ladra era um termo forte, pois seu trabalho era apenas recolher um artefato ansiado por seus clientes, negociando a um bom preço posteriormente. Naquela madrugada, ela tinha uma reunião com
Lionel Tenebrae, um importante político britânico que, anonimamente, havia solicitado os serviços da Titanium.
— Meredith?! — Sua voz soou firme pelo apartamento que se localizava na cobertura do prédio.
— Senhora, o táxi especial a aguarda na entrada — disse sua assistente, que a aguardava próximo à porta, com uma pequena maleta nas mãos.
— Kim me ligou, ela deixou algum recado? — indagou %Valie% ao pegar a maleta de sua mão, checando a trave dela.
— Sim, ela agendou uma reunião com o senhor Magnus para terça pela manhã no clube de golfe — respondeu a assistente, prontamente. — Já acrescentei em sua agenda digital.
— Muito bem. — Assentiu mantendo o olhar na maleta em sua mão, pensando nos próximos passos.
Dentro da maleta havia alguns documentos que foram preciso três meses de pesquisa ao passado e algumas buscas, desgastando um pouco a mente e o físico de %Valie% com as viagens necessárias. Se tratava de registros hospitalares que há muito o cliente achava estar perdido, mas que o ajudariam a desvendar alguns mistérios ligados à família Tenebrae. Para ela, havia sido um tanto curioso um político de família importante e fundador da
Continuum requerer seus serviços em anonimato e sigilo. Algo positivo para ela, que teria mais um argumento para elevar o valor de seus serviços, já que o preço inicial não a agradava mais, devido a seus esforços.
Não que os negócios da Titanium dependessem exclusivamente das aquisições de %Valerie%, entretanto, seus lucros proporcionavam a base de clientes em potencial e influentes que impulsionavam os inúmeros esquemas de lavagem de dinheiro. Benedict Magnus era um homem honrado e após a sua ascensão ao trono da máfia siciliana, serviços como transporte ilegal de pessoas, trabalhos sexuais forçados e vendas de drogas haviam sido desativados oficialmente por ele. Para acalmar os outros membros que não concordavam com seu posicionamento, a solução foi recrutar gangster de importantes cidades pelo mundo para estarem à frente dos negócios denominados por ele como
“não oficiais”.
— A entrevista com os candidatos à vaga de motorista está agendada? — perguntou ela ao pegar na maçaneta da porta para abri-la.
— Sim, senhora, local selecionado e horário confirmado, será neste sábado, como programado. — Assentiu a jovem, demonstrando sua eficiência. — Selecionei muito bem cada corredor, temos cinco candidatos em potencial.
— Não quero falhas desta vez, me entregue um dossiê completo de cada um deles até amanhã à noite — ordenou Valeria, lembrando-se da última motorista, uma russa da KGB infiltrada que quase lhe custou a vida.
— Tenho meu contato entre os militares — assegurou ela, sabendo que as informações eram necessárias para a escolha final. — Todas as informações já constam impressas em seu escritório, em dossiês completos e detalhados.
— Espero que seu contato seja confiável. — Ela respirou fundo, odiava quando seus planos saíam do planejado. — Confirme o almoço de terça com Magnus e separe o traje apropriado para o evento — disse finalizando suas ordens. — Nos vemos à noite, e não se esqueça de levar Zeus ao veterinário, percebi que ele tem estado estranho.
Disse se referindo ao seu cachorro da raça Dobermann.
— Sim senhora. — Assentiu Meredith, memorizando todas as suas tarefas para aquele dia.
%Valerie% seguiu para o elevador, após deixar seu apartamento e chegando no hall de entrada, foi barrada pelo funcionário da recepção tendo a informação de que seu táxi vip estaria no estacionamento à sua espera. Ao se deslocar para lá, encontrou uma Mercedes A200 preta com a porta do banco de trás do passageiro aberta e o motorista ao lado. O homem trajava um terno preto, que o deixava ainda mais charmoso e descontraído com a presença do All Star nos pés, com a expressão facial séria, mantinha o olhar profundo e observador que deixou a mulher intrigada a primeiro momento. De todos os motoristas que já havia solicitado daquela empresa, a postura daquele era bem diferente, sem traços de medo ou insegurança por estar diante dela, pelo contrário, seu olhar firme lhe transmitia profissionalismo que tanto desejava em alguém.
— Boa noite, senhorita Magnus — cumprimentou o homem com a voz rouca, num tom baixo e consistente.
— Boa noite — disse ela, ao se aproximar mais e entrar no carro.
O homem assentiu com a cabeça e fechou a porta, seguindo para o seu lado do carro. Ao engatar a primeira, o motorista olhou rapidamente no relógio, a fim de projetar o tempo gasto no percurso até o hotel já traçando todo o trajeto em sua mente. Uma eficiência que a deixou impressionada, comparando com os outros motoristas dos quais teve a infelicidade de contratar. Assim, às quatro da manhã em ponto, o táxi vip estacionou em frente ao restaurante italiano
Del Fiore, no qual seu cliente já a aguardava em uma mesa ao lado da vidraça do espaço premium do mezanino.
— Retorno em dez minutos — anunciou ela, tendo uma confirmação com o aceno de cabeça por parte dele.
Respirando fundo, reforçou sua postura empoderada e seguiu para dentro do lugar. Seu olhar discreto passou pelas pessoas presentes no andar de baixo, até chegar no mezanino e ser apresentada ao suposto cliente. Logo, o homem levantou-se com um sorriso de canto discreto no rosto, %Valerie% estranhou o fato de não reconhecer o rosto do homem, pois a informação que sua memória lhe fornecia era totalmente contrária. Para sua segurança, a mulher sempre decorava as mais detalhadas informações de seus clientes, até mesmo para a construção de seus argumentos de negociação.
— Prazer, senhorita Magnus. — O homem esticou a mão em cumprimento.
— Presumo que não seja o senhor Lionel Tenebrae. — Ela apenas olhou para a mão dele com desdém, sem retribuir o cumprimento.
— Está certa. — Ele deu uma risada baixa, sem graça pela reação dela, então encolheu a mão e colocou no bolso da calça. — Meu tio tem estado muito ocupado e não pôde vir, além do fato de ser uma pessoa influente que não pode ser vista com pessoas como a senhorita.
— Como eu? — Ela se mostrou levemente ofendida, arqueando a sobrancelha direita.
— Por favor, não julgue minhas palavras negativas — pediu ele, contornando a situação —, mas a senhorita sabe que a família Tenebrae precisa manter a discrição e muitos conhecidos nossos também possuem negócios com a Titanium.
— Não levarei para o pessoal desta vez — assegurou ela, mantendo a seriedade no olhar.
O homem assentiu com suavidade no olhar e gesticulou com a mão direita para que se sentassem. Após a aproximação do garçom para servi-los de vinho do porto, %Valerie% continuou a conversa.
— Devo saber o nome do sobrinho leal? — indagou ela, avaliando-o pelas suas sutis expressões.
— Claro. — Ele manteve o sorriso de canto. — Andrei Tenebrae.
— Andrei... Curioso, não reconheço seu nome — comentou ela, puxando as informações daquela família em sua memória.
— Digamos que não posso ser o popular da família — explicou ele, de forma enigmática.
— Imagino o motivo. — %Valerie% colocou a maleta em cima da mesa, mantendo o olhar nele. — Diante disso, como posso ter certeza de que seu tio o mandou?
—
Good Doctor — disse ele a palavra-chave.
O que %Valerie% tinha de detalhista, tinha também de perfeccionista. Para ela nenhum fio poderia estar solto diante de seus trabalhos, então para sempre ter a certeza do cliente certo com a entrega bem-sucedida, envios programados para os clientes com a palavra-chave, eram preparados a fim da informação chegar ao receptor em exatos dez minutos antes de cada reunião de fechamento, sendo sempre o nome de um seriado que se adequasse ao objeto solicitado.
— Interessante — sussurrou ela, em sua constatação de legitimidade. — Pelo contratempo entre o receptor e por não informarem, terão que pagar um acréscimo de 15% do valor total.
— Já estamos pagando uma taxa extra pela urgência — indagou ele, achando um tanto exagero de sua parte.
— Dou a vocês uma hora para fazerem a transferência. — Ela se levantou, pegando a maleta novamente.
Logo sentiu a movimentação de algumas pessoas em ambos os andares, o que a fez entender que certamente todos eram seguranças particulares da família, denominados por eles, sliters. %Valie% não se sentiu intimidade, mantendo seu olhar seguro e firme.
— Como eu disse, uma hora, ou farei uma oferta aos Dominos — continuou ela, mencionando a família rival dele.
— Vejo que fez seu dever de casa — comentou Andrei, controlando sua raiva pela situação.
— Sempre gostei das aulas de história — confessou ela. — O que me diz?
— Negócio fechado. — Assentiu ele, ao olhar para a mulher que estava no canto, fazendo um aceno com a cabeça.
— Transferência concluída — disse a funcionária.
— Viu, não foi tão difícil assim. — Ela soltou a maleta e deu um passo se afastando da mesa. — A Titanium agradece a preferência e confiança.
%Valie% sorriu de canto com ar de deboche e se retirou do restaurante, retornando ao carro. Antes de entrar, deu a ordem para que seguissem para o endereço de uma cafeteria apreciada por ela, em New Jersey, próximo a
Princeton University, onde tomava seu café da manhã todos os dias. A princípio, tudo seguia conforme o planejado para aquele dia, entretanto, nem sempre o controle de tudo está em nossas mãos e infortúnios acontecem a todos.
— Estamos sendo seguidos — informou o homem, ao olhar o retrovisor por um instante para ver a face dela. — Preciso conduzi-la a um local seguro.
— Prossiga. — Assentiu ela, olhando para o reflexo dos olhos dele no retrovisor.
Logo, o motorista fez uma manobra ao reduzir a marcha e jogar o carro para a pista direita, entrando em uma rua estreita. %Valerie% não sabia o caminho que ele seguiria para chegar ao local pré-determinado por ela, que fora especificado para a agência de táxi, portanto, ao não reconhecer as ruas das quais passavam, ela se colocou em estado de alerta, chegando a desconfiar do homem no banco da frente.
— Para onde está me levando? — indagou ela, ao voltar seu olhar para trás notando que ainda estavam sendo seguidos.
— Como eu disse, para um lugar seguro. — Continuou ele, mantendo o mistério.
— Exijo que me diga. — Ela elevou um pouco o tom de ordem. — Você possui uma rota pré-determinada.
— Sua rota está comprometida, havia dois carros com a mesma placa a esperando no ponto de troca — relatou ele, com seu tom firme e um tanto áspero, mantendo o olhar nos retrovisores. — Agora três carros estão nos seguindo.
Nem mesmo terminou a frase e novamente girou o carro ficando de frente para seus perseguidores, deixando %Valerie% em surtos internos por finalmente constatar que não estava mais no controle daquele dia. O motorista manteve o carro engatado na primeira, controlando a embreagem e em um piscar de olhos, acelerou deixando o carro andar até chegar à velocidade desejada. Em outra manobra arriscada, ele jogou o carro para a calçada, passando por seus perseguidores, ao olhar para o lado fez questão de encará-los a fim de gravar seus rostos. O homem do carro mais próximo jogou o seu veículo contra o dele, conseguindo passar de raspão. Com isso, o motorista do táxi vip acelerou mais um pouco mesmo com o impacto e virou a esquina.
— Me dê dez minutos e estará segura novamente — disse ele, confiante no caminho em que estava conduzindo o carro.
Como dito, exatamente o tempo que pediu foi o necessário para que chegasse ao local que ele queria. Um beco sem saída, que dava para os fundos de uma confeitaria razoavelmente requisitada no Brooklyn, chamada
Coffee Shop.
— Chegamos — disse ele, ao desligar o motor do carro.
— E que lugar é esse? — perguntou ela, ainda sem saber como reagir àquele contratempo.
O motorista se retirou do carro e foi até o lado dela, para lhe abrir a porta. Manteve o olhar sereno, o que inicialmente deixou-a irritada.
— Um lugar seguro — afirmou ele.
— Todo lugar tem um nome. — Insistiu ela, ao destravar seu cinto e descer do carro.
— Lugares com nome tendem a ser perigosos — argumentou ele, com o tom mais baixo. — Mas se insiste, esta é a entrada de funcionários da
Coffee Shop, a senhorita não queria tomar café da manhã? Ainda estamos dentro do cronograma, porém, devo pedir desculpas pelo desvio e pelo atraso de dez minutos.
Por alguns instantes, %Valie% se deixou surpreender com a informação e eficiência dele, não conseguindo formular uma resposta de imediato e por mais que não fosse a Bakery Home, o resultado não parecia tão ruim assim.
— Me acompanhe, por favor? — disse ele, indicando o caminho.
— Espero não me desapontar — retrucou ela, não deixando a última palavra ser dele.
%Valerie% como uma boa italiana orgulhosa, não gostava que as coisas fugissem do seu controle, e trabalhar com alguém com pensamentos e decisões próprias como aquele motorista, a assustava ao mesmo tempo que a intrigava, com um misto de pensamentos e sensações, deixando-a espantada e um pouco desnorteada.
Adentrando o lugar pela porta dos funcionários, foram recepcionados pela senhora Charlotte Ginger, a confeiteira chefe, que não poupou palavras para demonstrar o quanto conhecia o homem, bem como a simpatia em receber %Valerie%.
— O que me sugere? — perguntou %Valie% a ela, após encarar por alguns minutos o cardápio.
— Geralmente eu costumo conhecer meus clientes primeiro para depois sugerir um de meus confeitos, mas pelo seu olhar e seus traços sutis, imagino que um tradicional
Tiramisù, seja sua sobremesa favorita — respondeu a confeiteira, certa de sua avaliação final.
— Impressionante — comentou %Valerie% , suavizando seu olhar de surpresa. — Vou aceitar sua sugestão.
Aquela realmente era sua sobremesa favorita, que sempre ao degustar, boas recordações de sua mãe lhe vinham à mente, como se estivesse ao seu lado.
Após o café da manhã, %Valerie% foi conduzida pelo motorista ao edifício
Empire State, no qual todo o andar 67 fora alugado pela Titanium, destinado aos seus membros platinum. Castaño possuía duas salas com vista privilegiada, a qual lhe proporcionava alguns momentos de contemplação da paisagem e minutos de silêncio do barulho da cidade grande.
Com o motorista a sua disposição para todo o dia, ela o deixou de sobreaviso para alguma eventualidade de deslocamento e assim que chegou em seu escritório, fez algumas ligações para se certificar de suas teorias.
— Pierre, não é a primeira vez — disse ela, se referindo ao atentado pela manhã. — Eu estava saindo de uma negociação, o que significa que estou sendo vigiada ou que temos um traidor entre os nossos.
— E meu pai sabe disso? — indagou o rapaz, num tom preocupado.
— Magnus sempre sabe de tudo, mas não me permite fazer nada — reclamou a mulher, engolindo a realidade a seco, com o olhar de raiva direcionado para o horizonte.
— Serpens é a gangue mais antiga que trabalha para nós, daí vem a constante proteção do meu pai, você sabe disso. — Ele voltou a explicar racionalmente a situação.
— Eles mataram a minha família, quando vou poder revidar? — questionou ela, com um grito preso na garganta. — Você não estava lá, Pierre, não ouviu os gritos da minha mãe.
— O seu tio era o melhor amigo do meu pai — retrucou o rapaz, demonstrando empatia pela dor dela. — E eu o considerava meu segundo pai... Mas as coisas não acontecem como queremos e também me revolta por eles saírem impunes.
— E eu posso ser perseguida por eles? Não mais importante? — retrucou %Valie%, num tom de revolta, girando a cadeira para o lado. — Quanto eu valho para a Titanium?
— Para mim, você vale muito, por isso meu pai não te puniu quando abateu o líder deles — argumentou Pierre, lembrando-a da sua pequena vingança contra o homem que machucou sua mãe.
Não foi fácil para %Valerie% reviver aquela madrugada em sua mente, menos ainda focar nos detalhes sombrios que atormentavam suas noites de sono, mas bastou ouvir a voz de Aldred Sierra, para reconhecê-lo e escrever seu nome no topo da sua lista de Vendetta. Entretanto, tudo possui consequências, e após descobrirem que %Valerie% fora responsável pelas últimas horas de agonia e dor do seu inimigo, os subordinados de Sierra iniciaram seu contra-ataque.
— Estamos em uma guerra, Pierre, no final, só um lado sairá vivo — afirmou ela, convicta de seus planos futuros, levantando-se da cadeira e dando alguns passos até a vidraça. — Não vou esperar pela aprovação a minha vida toda.
— Apenas te peço um pouco mais de paciência, meu pai não vai reinar para sempre — informou o rapaz, também com seus planos para o futuro. — E quando eu assumir, eles serão os primeiros a serem dizimados.
— Espero que me dê as honras — disse, com um sorriso de canto.
— Sabe que, em tudo, a preferência é sua. — Sua afirmação soou como uma indireta para ela, principalmente no quesito sentimental.
Após ser resgatada por Magnus, %Valerie% teve o prazer de passar sua adolescência convivendo com Pierre, o que gerou uma cumplicidade incomum e inesperada, sendo desenvolvida pela amizade de ambos. Contudo, o olhar e admiração de irmã que ela lhe demonstrava não foi o suficiente para afastar os sentimentos mais profundos do rapaz que, sem receios, confessou seu amor declarando esperá-la o tempo que for preciso.
Com o passar dos dias, finalmente chegara o sábado da corrida. Ainda na madrugada daquele dia, %Valerie% permaneceu na sala de seu apartamento lendo o dossiê de cada corredor selecionado, observando seus pontos positivos e negativos, assim como seus antecedentes criminais. Quanto mais olhava as fichas, mais seus pensamentos evidenciavam o rosto do taxista que a surpreendeu, forçando-a a retornar a concentração de tempos em tempos. Assim, às dez da noite em ponto, Castaño se dirigiu para o Porto de New York, em sua moto, onde sua secretária Meredith já a aguardava com os candidatos.
— Senhorita Magnus, estes são os candidatos que mencionei — disse a secretária, apontando da direita para esquerda. — Kimbely Brown, Gustav Flint, Daniel Malore, Kaila Columbus e Juan Gonzales.
— Espero que todos tenham decorado o trajeto traçado — iniciou %Valerie%, ainda surpresa pela sua decisão inesperada de mudar as regras do jogo, ao longo dos dois dias de reflexão que teve antes da corrida. — A tarefa de vocês é se deslocar do ponto A ao ponto B, e efetuar a entrega do objeto que consta em seu porta-malas, a única regra é que nenhum carro pode passar pela rota que decoraram. Se isso acontecer, estarão desclassificados, por isso, o carro de cada um contém um rastreador que nos dará a localização de todos durante a corrida.
— Senhora?! — Meredith olhou para ela, confusa da mudança no planejamento.
Logo os cochichos de indignação por parte dos corredores soaram discretamente, fazendo-a perceber.
— Imprevistos acontecem, principalmente para alguém como eu, se conseguirem completar a tarefa, estarão aptos a trabalhar para mim. — Reforçou ela, dando mais entonação a sua voz. — Dou a vocês trinta minutos para completarem.
Todos assentiram, ainda contrariados e, sob o olhar de consentimento para a secretária, Meredith ordenou para que entrassem em seus carros e dessem a partida. O cronômetro foi ligado e um funcionário já estava a postos no ponto de entrega, aguardando os corredores e demarcando o tempo de cada um.
— Não entendo o motivo de mudar o planejado — comentou Meredith, ao desviar seu olhar do tablet para %Valerie%. — Se deve ao ocorrido de quarta-feira? Com o taxista misterioso?
— Como eu disse — ela pegou o tablet da mão de sua funcionária e se atentou ao mapa mostrado na tela, com a localização dos corredores —, imprevistos sempre acontecem.
— Como desejar, senhora, mais alguma mudança projetada? — indagou a secretária, curiosa.
— Teremos uma pequena contribuição do policial Jones e seus amigos de trabalho. — Assim que terminou a frase, um sorriso satisfatório surgiu no canto de seus lábios, sendo contemplada pelo som de viaturas da polícia ao longe.
3 dias antes da corrida...
As poucas horas de voo foram proveitosas para Collins, que utilizou deste tempo para estudar mais sobre seu alvo de investigação. A vida de %Valerie% obviamente não era um livro aberto e demandou muito tempo para a equipe de inteligência reunir tais informações sobre seu passado, atividades para Titanium e rotina diária, a fim de ajudá-lo da melhor forma possível. Com isso, o detetive pode traçar seu próprio planejamento estratégico, que pudesse ser ainda mais eficaz que o roteiro inicial proposto pelo capitão Phill. Chegando no aeroporto, foi recepcionado por Joshua, o contato de Manhattan que o auxiliaria em todo o trabalho que faria na cidade, a começar por seu disfarce e o acesso a joia mais rara da Titanium.
— Chegamos — disse Joshua, ao adentrarem o loft onde morava. — O espaço é pequeno, mas pode se acomodar no sofá, minha cama fica no mezanino.
O rapaz continuou seguindo até o sofá, onde deixou a mala do detetive. Seu loft ficava na cobertura, o que lhe dava acesso ao terraço que tinha feito de jardim recentemente, algo do qual se orgulhava, pois, sua paixão por plantas o fizera frequentar um curso técnico de paisagismo, levando assim à abertura de sua floricultura, como um disfarce de sua condição de agente especial.
— Não ficarei por muito tempo, se tudo der certo, em um ano consigo a confissão que necessito — disse Collins, o objetivo de sua missão.
— Bem, então acho que precisa se preparar. — Joshua se afastou e caminhou até seu espaço de trabalho. — Vou enviar agora mesmo suas informações para a secretária da Castaño.
— A mulher realmente confia em você? — indagou o detetive, incrédulo do sucesso.
— Claro, já dei inúmeras provas — explicou o rapaz, ao sentar na cadeira e ligar o notebook.
— E como consegue trabalhar para ambos os lados? — Isso era o que deixava %Matthew% mais perplexo ainda.
— Bem, com o melhor argumento de todos. — Ele o olhou confiante. — Para se ter uma coisa, é preciso dar outra em troca. Tanto o governo quanto os criminosos sabem disso, e eu sou apenas o intermediário.
— E tem feito um bom trabalho, segundo o capitão Phill — confessou Collins, ao se aproximar com a atenção na tela. — Mas não irá precisar enviar minhas informações a ela, em troca, preciso que coloque outra pessoa em meu lugar.
— E quem seria? — indagou Joshua.
— Esse nome. — Collins retirou um papel do bolso e colocou em cima da mesa, o móvel era madeira com estrutura de metalon, soava um design industrial moderno assim como o restante do loft.
— Por que a mudança de planos? — Ele olhou o nome, logo tentando projetar uma forma de inserir os dados no sistema, aparentando realismo. — Como pretende se aproximar?
— Só precisa saber que eu gosto de trabalhar ao meu modo — respondeu %Matthew% retirando o celular do bolso para fazer uma ligação. — Apenas insira este nome no sistema e elabore uma ficha convincente, depois ligue para o número atrás e passe as coordenadas para a pessoa que vai atender, dizendo o local e hora da corrida.
— Estou impressionado, não foi fácil conseguir essa vaga e você não a quer? — Joshua tentou não se mostrar ofendido, mas a chateação era visível.
— Tenho os meus métodos e não será em uma corrida que vou atrair a atenção dela. — O detetive se afastou dele, seguindo em direção à porta.
— E aonde vai? — perguntou o rapaz, já não entendendo mais nada.
— Iniciar a minha missão — respondeu o outro, já saindo pela porta.
Sim, Collins já tinha todo o roteiro decorado em sua cabeça, do início ao fim. As poucas horas que teve no trajeto foi o necessário para construir sua estratégia e escolher os contatos necessários para a execução, tendo como base a rotina diária de Castaño. Sendo este seu ponto de partida, o detetive apenas precisou encontrar o carro ideal para a missão e seguir em frente sua rota.
Collins se colocou ao lado de sua Mercedes preta, parada no estacionamento do subsolo, no prédio onde ela morava. Segundo sua estratégia, ele teria apenas uma chance para impressionar a mulher que, futuramente, seria a faísca que incendiaria sua vida.
Someone call the doctor.
- Overdose / EXO