The Tide is High

Escrita porRay Dias
Revisada por Lelen

Capítulo único

Tempo estimado de leitura: 26 minutos

  Se tem uma coisa que %Lara% %Pacheco% não era, era desistente. Teimosa? Talvez. Dramática? Às vezes. Competitiva? Com certeza! Mas desistente, jamais.
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  Ela percebeu isso oficialmente numa quinta-feira chuvosa, no exato momento em que viu %Rafael% %Medeiros% rindo, daquele jeito que fazia os olhos sumirem e os ombros balançarem, para outra garota.
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  Outra garota. A maré estava alta e %Lara% estava segurando firme, fincando os pés na terra.
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  %Rafael% era coordenador de projetos na pequena editora onde %Lara% trabalhava como designer. Alto, camisa sempre dobrada nos cotovelos, cheiro de café e bom humor crônico, ou seja: ninguém tirava %Rafael% do sério. Um combo perigoso. O que fazia disso também exatamente o problema. Ele era unanimidade.
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  — Você viu o %Rafa% ajudando a Carol com o relatório? — comentou Jéssica, do financeiro, com aquele tom venenoso de quem não quer nada, mas quer tudo.
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  %Lara% fingiu desinteresse.
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  — Ele ajuda todo mundo.
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  — Não daquele jeito.
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  Daquele jeito. Era exatamente isso. Não eram as coisas que ele fazia. Era o jeito que ele fazia. O jeito como inclinava o corpo quando alguém falava. O jeito como sorria com paciência. O jeito como chamava todo mundo de “gente” como se fosse íntimo. Aquilo machucava %Lara%, não porque ele estivesse fazendo algo errado, mas porque ele fazia com todas. E todas queriam ser a número um. Inclusive %Lara%.
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  %Lara% decidiu precisar de um plano, no instante em que Jessica soltou um sorrisinho provocador de quem havia conseguido alugar uma kitnet apertada demais para o barulho de uma cascavel soar assombroso na mente de %Lara%.
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  Plano A: ficar indiferente. Ela pensou, mas fracassaria em oito minutos. Assim que %Rafael% viesse lhe solicitar algum original para avaliação, %Lara% sabia que iria se empolgar e sair saltitante até a sala dele. Pensou mais um pouco… Plano B: parecer misteriosa. Não sabia se o resultado seria bom, ou se %Rafael% lhe perguntaria se ela estava com dor de estômago, já que “atuar” não era seu forte. Plano C: ser a melhor versão de si mesma.
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  — Ou seja, a sua melhor opção é continuar sendo você — disse %Bruno%, seu melhor amigo, enquanto tomavam caldo de cana na feira de domingo.
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  — Preciso ser inesquecível.
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  — Você já é. Só não é a única candidata, %Lara%.
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  Esse era o ponto. Toda garota queria %Rafael% como namorado. A estagiária, a revisora, a fornecedora da gráfica e, muito provavelmente, a mulher do carrinho de café da esquina. Mas %Lara% não era do tipo que desistia assim tão fácil. Ah, não.
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  — %Bruno%, você tem que me ajudar!
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  — Vai por mim, meu apoio moral é suficiente. No final dessa história, você vai perceber que nem precisava desse auê todo.
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  Os dois terminaram seu passeio na feira de domingo, ainda com %Lara% confabulando hipóteses para que %Rafael% %Medeiros% a notasse. E %Bruno%, apesar de trabalhar na mesma empresa e ser colega de sala/mesa de %Lara%, sabia de tudo o que havia provocado aquela catarse semanal: o maldito momento em que %Rafael% estava apenas sendo ele mesmo, o “boa praça” que auxiliava a estagiária novata com uma tarefa.
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•  T H E •  T I D E  •  I S  •  H I G H  •

  Se existe um prêmio nacional de “Mulher Que Se Complica Sozinha”, %Lara% %Pacheco% já tinha três troféus e uma menção honrosa. Ela só queria conquistar %Rafael% %Medeiros%, contudo, aparentemente o universo queria transformá-la num espetáculo circense.
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  %Lara% precisava causar uma primeira impressão “casualmente marcante”, segundo as fontes de sua própria cabeça. %Bruno%, porém, avisou:
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  — Toda vez que você planeja algo “natural”, alguém vai parar no hospital.
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  E ele foi ignorado. Logo pela manhã, %Lara% entrou na editora segurando dois cafés. Um era dela. O outro era “coincidentemente” o favorito de %Rafael%. Ela ensaiou mentalmente: “Ah, comprei a mais, quer?”. Simples. Elegante. Maduro.
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  Ela calculou o momento perfeito: %Rafael% saiu da sala de reuniões, distraído no celular, então ela avançou e, com sucesso, pisou no próprio cadarço. O café descreveu uma parábola dramática no ar. A tampa soltou, e o líquido pousou com precisão cirúrgica na camisa branca dele. Silêncio absoluto no escritório.
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  %Lara% congelou, ainda ajoelhada no chão.
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  — Eu… trouxe café.
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  %Rafael% olhou para a própria camisa encharcada e um pouco quente, depois para ela, e depois começou a rir. Rir de verdade.
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  — É cappuccino, pelo menos?
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  — Era.
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  Primeira tentativa: falha catastrófica, mas como vocês já sabem… %Lara% não era do tipo que desistia assim tão fácil.
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  — Desculpa, %Rafael%! — ela pedia enquanto se levantava e, óbvio, com a ajuda dele, que era um gentleman. — Você se queimou? Vamos até uma enfermaria? Peraí, eu acho que tenho pomada para assaduras na bolsa!
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  — Pomada para assaduras na bolsa? — ele perguntou, achando icônica a informação, e ainda risonho.
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  No entanto, %Lara% mordeu o lábio, constrangida. Como explicaria que a pomada era algo que ela sempre mantinha na bolsa, pois usava entre as coxas porque odiava usar meia-calça por baixo da saia midi — já que desfiar meias-calças era sua especialidade — quando ia para o escritório de um modo mais formal? Constrangimento por constrangimento, ela preferia que ele lembrasse apenas do mico de ter café derrubado como um bom dia caloroso em sua roupa, e respondeu:
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  — Sabe como é, bolsa de mulher tem de tudo.
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  — Sei… — Deu outro risinho. — E você, está bem? Não se machucou? Precisa de ajuda com o cadarço?
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  Ainda mais envergonhada, ela abaixou-se imediatamente e começou a amarrar o cadarço de seu tênis all star, desconversando:
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  — Vou te comprar uma camisa nova na loja da frente e… Tem certeza de que não está queimado?
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  — Relaxa, %Lara%, pode voltar para suas tarefas, eu estou bem. E tenho sempre uma camisa extra na minha sala, já que às vezes viro a noite trabalhando aqui.
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  O editor sorriu e piscou para ela, deixando-a totalmente abobalhada e envergonhada diante dos olhares engraçados e alguns, rivais, das outras colegas. Aliás, a faxineira estava ao seu lado já arrumando tudo e ela sequer notara, mas foi a única que lhe disse gentilmente:
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  — Essas coisas acontecem, não fique envergonhada, %Lara%.
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  — Cadê o %Bruno%? Preciso de um abraço — %Lara% sibilou baixinho, saindo de cabeça baixa.
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  No dia seguinte, o plano era ser enigmática, menos falação, mais olhar profundo. Ela passou o dia inteiro respondendo às coisas com:
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  — Talvez.
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  — Quem sabe.
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  — Depende.
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  %Rafael% ficou visivelmente confuso, aquele não era o jeito natural da mulher. Pensou se, talvez, ela ainda não estivesse em um clima envergonhado pelo café da manhã anterior. No entanto, precisava mostrar a ela que estava tudo bem.
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  — Você está escrevendo um livro existencialista? — ele perguntou quando ela lhe respondeu “Não sei…” de um jeito muito distante, sobre a obra de um escritor que ele estava interessado.
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  Ela sustentou o olhar. Cinco segundos. Seis. Sete. E então… espirrou. Não um espirro delicado, mas um espirro apocalíptico que derrubou uma pequena pilha de papéis soltos de originais da mesa ao lado, a mesa de %Bruno%.
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  — Saúde…? — ele disse, segurando o riso.
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  — É a poeira da indiferença — ela respondeu, já arrependida da própria frase.
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  Ele riu de novo, e %Lara% se perdeu totalmente da personagem, mas ganhou mais dois minutos de conversa. Progresso técnico questionável.
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  — O %Bruno% vai me matar! Ele foi ao banheiro e está há uma hora lendo esse material entre pausas da cobra da Jessica que fica vindo aqui a cada cinco minutos para dar em cima dele!
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  — Hm… Eles têm um caso? — %Rafael% perguntou, genuinamente curioso, e abaixou, ajudando %Lara% a pegar os papéis no chão, enquanto ela tentava identificar a ordem das páginas que, sabe-se lá por quê, não estavam numeradas.
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  — Deus me livre! Eu mataria o %Bruno% se ele tivesse um caso logo com a Jessica! — %Lara% declarou brava e %Rafael% pontuou a reação dela em sua mente, com curiosidade.
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  — Vocês dois são… Muito próximos, não é?
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  — O %Bruno% é meu gêmeo contrário de outra mãe, não percebeu?
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  %Rafael% sorriu. O humor dela estava restaurado e, claro, a tranquilidade dele também.
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  — Não percebi não, vocês são totalmente diferentes um do outro.
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  — Por isso mesmo! — %Lara% riu e, antes que pudesse dizer qualquer coisa mais, estando de pé e com toda a atenção de %Rafael% para si, bem em sua frente, lhe entregando os papéis, a voz de %Bruno% soou, cortando a oportunidade:
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  — %Lara% %Pacheco%, a abominável! Me diz que não derrubou esse inferno de livro que tenho que ler!
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  %Rafael% olhou para o funcionário que arregalou os olhos tão surpreso de ter externalizado aqueles pensamentos sobre a obra, quanto o chefe de ter escutado.
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  — O livro é tão ruim assim? — %Rafael% perguntou, bem-humorado, curioso pela opinião de seu editor assistente.
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  — É que é autoajuda. Odeio autoajuda quase tanto quanto a %Lara% odeia a Jessica — revelou com um sorrisinho.
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  — Uou… — %Rafael% riu, olhando para a editora assistente que fazia caretas ao seu “gêmeo”: — Você tem mesmo uma rival aqui, não é? E quanto a você, %Bruno%, não vou mais te encaminhar o gênero, pode deixar.
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  — %Rafael%, eu não quis diz-
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  — Ei, tudo bem! — o chefe o interrompeu. — A opinião de vocês deve ser neutra, mas… Se a leitura não te agrada, já não deveria estar passando só pelo seu crivo. Vai que a gente perde uma obra-prima? Passe o original para a Stefany, ela geralmente curte esse tipo de leitura.
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  Educadamente, %Rafael% ordenou e, olhando para %Lara%, saiu após dizer-lhe:
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  — Estamos bem, não é? Sem poeira de indiferença, certo?
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  — Ah, foi mal, eu só estava concentrada… Vou pesquisar o autor que você falou, deixa comigo! — respondeu com um sorrisão amigo no rosto.
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  Satisfeito, %Rafael% saiu, e certeiro, %Bruno% apostou:
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  — Seu plano de ser a musa do mistério falhou.
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  — Cala a boca e enumera essas páginas, seu idiota!
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  — Estou enumerando à medida que leio. O autor não fez o trabalho básico antes de enviar para análise. — Revirou os olhos. — Mas que bom que o %Rafael% me deu um motivo para falar com a gatinha da Stefany!
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  — Me agradeça! Foi meu espirro que derrubou tudo.
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  — Coitada, acabaram suas chances então. — %Bruno% gargalhou.
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  %Lara% recalculava a rota de como se aproximar de %Rafael% sem se humilhar. Pensou em primeiro fazer uma pesquisa aprofundada sobre o autor, mediar o contato e então chegar com o cara debaixo do braço, tal qual a cereja do bolo da eficiência, na sala de %Rafael%. Ele com certeza notaria muito mais que a eficácia dela, como a determinação.
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  O tal Lucas Rubio fazia a linha “low profile” entre os escritores. Era isso! Decidiu que estaria linda no dia em que estivesse na reunião com o autor e seu chefe editor, e daria um jeito de Rubio demonstrar que só assinaria com eles porque foi ela quem o agenciou! Até lá, tentaria passar como uma “funcionária focada”, e não despercebida, mas manteria uma distância segura de %Rafael% e qualquer constrangimento novo.
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  Ela só não contava com a ação da editora em contratar uma aula experimental de ioga para a equipe, mobilizada pelo discurso de “saúde mental e ginástica laboral”.
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  — Ioga? Em pleno expediente? Preciso me debruçar sobre o tal Rubio para trazer esse cara! — %Lara% cochichou com %Bruno%.
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  — O %Rafael% vai estar. Ele tem que dar o exemplo — %Bruno% comentou como quem não quer nada, e entregou o uniforme de ginástica que a empresa proporcionou aos funcionários para ela: — Vá se trocar.
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  %Lara% viu ali uma oportunidade! Postura, equilíbrio, conexão… Seriam bons atributos para %Rafael% perceber diante dela. Ela posicionou o tapete estrategicamente ao lado do dele, ciente de que iria se sair como uma linda donzela dos anos 30 em plena aula de “ginástica para mulheres”: tal bela e graciosa.
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  A instrutora disse:
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  — Vamos para a postura da árvore.
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  Fácil!
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  %Lara% levantou a perna e, como %Bruno% bem sabia que ocorreria, perdeu o equilíbrio. E ela tentou recuperar o controle do corpo, agarrando-se ao braço de %Rafael%. Resultado: os dois caíram juntos. Em câmera lenta. Com direito a “ooooh” coletivo do escritório.
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  Ela ficou literalmente por cima dele, cabelo no rosto, respiração descompassada e rolou um contato visual intenso. Seguido de silêncio dramático.
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  — Acho que você fez a versão tempestade da árvore — ele murmurou.
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  %Lara% tentou levantar, sem graça, com um sorrisinho mínimo. Pisou no próprio tapete e caiu de novo.
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  — Bem, pessoal, vamos dar um intervalo de um minutinho? — A instrutora solicitou um intervalo e se aproximou dos dois para saber se eles estavam bem.
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  %Lara% queria pedir exílio, mas %Rafael% continuava rindo e não parecia incomodado.
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  Depois daquilo, o restante da aula de ioga foi um total constrangimento. Exatamente o que ela queria evitar, mas %Rafael% não parava de checar a cada pose se a funcionária estava indo bem ou cairia sobre ele de novo.
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  No fim daquela semana, %Lara%, porém, foi surpreendida com Antônio trazendo Lucas Rubio para a sala de %Rafael%. O filho da mãe do colega soubera do interesse da editora e passou na frente! Pronto, agora ela estava completamente desanimada.
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  — Quer saber, %Bruno%? — contou na hora do almoço de sexta-feira, após ver que Antônio executou a manobra que seria dela. — Vou desistir. Já estou nessa empresa há dois anos e ele não me nota como uma mulher… Então, talvez, aos olhos dele, eu seja só mais uma bobona que fica babando por ele.
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  — Não desista ainda — %Bruno% contou sem dar muita atenção ao drama dela, fofocando: — Espera a feira cultural das próximas semanas. Sabe que ninguém pode com a sua capacidade de agitar um evento.
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  — A feira? Será? — %Lara% ponderou, e uma nova chama de esperança acendeu em seu coração.
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•  T H E •  T I D E  •  I S  •  H I G H  •

  A editora organizou um evento literário num centro cultural em São Paulo. %Lara% ficou responsável pelo visual do estande e %Rafael% coordenava tudo.
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  O caos começou às sete da manhã: banner errado. Autor atrasado. Microfone chiando. E então veio a pior parte: Ana Clara. Influenciadora literária. Bonita. Carismática. Com 200 mil seguidores e uma risada cristalina.
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  %Rafael% parecia confortável demais ao lado dela, e %Lara% sentiu a água subir pelo pescoço. “Maré alta de novo. Respira!” pensou.
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  Ela podia ir embora mais cedo. Podia deixar que outra pessoa resolvesse o problema da iluminação. Podia aceitar que talvez não fosse sua vez, mas não era ela que se dizia “o tipo que não desiste assim tão fácil”? %Bruno% tinha razão! Aquele tipo de situação e local era o forte de destaque dela! Então, %Lara% fez o que sabia fazer melhor: resolveu tudo.
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  Subiu em escada, reorganizou layout, improvisou luminária com fita isolante e charme. Quando o evento finalmente começou, o estande estava impecável. %Rafael% a puxou pelo braço, de um jeito educado, no meio da correria.
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  — Você salvou o dia.
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  Bingo! Ele estava sorrindo só para ela. Só para ela e por causa dela. E tinha muito mais do que só o sorriso que ele dava para todas.
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  — Eu sempre salvo — %Lara% respondeu, tentando parecer casual, mas com o coração fazendo escola de samba.
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  O evento durou três dias, e em todos eles, cada probleminha que surgia, lá estava a editora assistente %Lara% %Pacheco%, coordenando com liderança e resolução absoluta ao lado de %Rafael% %Medeiros%. No dia da mesa de entrevistas em que %Rafael% participaria como representante da empresa, foi para ela que ele deixou a responsabilidade de coordenar no lugar dele. E %Bruno% a animava, dizendo: “Boa garota, está dando certo!”.
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  Ao fim da mesa, %Bruno% e %Lara% viram %Rafael% se aproximar do estande novamente, arrastando uma legião de outros autores e autoras e leitoras e leitores, interessados na “Carpe Diem Editorações”. Os dois trocaram olhares, sorrindo orgulhosos de seu editor-chefe, que, em contrapartida, era gentil com todos, mas não deixou de sorrir daquele jeito de novo, para %Lara%. Embora dessa vez, ela disse que ele também sorriu diferente para %Bruno%.
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  Quando Ana Clara, a influenciadora literária, apareceu novamente no estande da editora, já ao final do evento, %Lara% sentiu a maré subir até o teto. Ana Clara encostou no balcão e disse:
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  — %Rafa%, você precisa me indicar aquele café que você ama! — puxou assunto.
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  Café. Gatilho emocional.
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  %Lara% entrou na conversa sem ser chamada:
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  — Ele gosta do que fica na esquina da Augusta.
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  %Rafael% piscou.
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  — Eu nunca falei isso para você.
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  Ela sorriu, orgulhosa demais.
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  — Eu observei.
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  Silêncio.
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  Ana Clara arqueou a sobrancelha. %Lara% decidiu intensificar.
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  — Inclusive, ele pede sem açúcar, mexe três vezes no sentido horário e assopra antes de beber.
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  %Rafael% estava dividido entre assustado e impressionado.
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  — Eu faço isso?
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  — Faz.
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  — Eu não sabia que fazia.
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  Ela cruzou os braços, vitoriosa e convencida, encarando %Rafael%.
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  Ana Clara olhou para os dois, analisou a situação e soltou:
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  — Ah. Entendi… Bem, parabéns pelo evento, pessoal. Nos vemos nos próximos, %Rafa%!
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  E saiu. %Lara% virou para %Rafael%.
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  — Desculpa, isso foi estranho?
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  %Lara% disse, analisando a postura de Ana Clara e com medo de que %Rafael% tenha achado ruim o modo como ela “espantou” a concorrente. Sabe-se lá qual era a dele com a tal Ana?
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  — Um pouco.
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  — Muito?
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  — Um pouco muito.
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  Mas, ao contrário de alguém que estaria incomodado, ele estava sorrindo. O evento terminou com chuva. Daquelas chuvas grossas de verão que transformavam a cidade em cenário de filme, e a equipe se adiantou em ir embora, carregando as coisas gradualmente, mas %Lara% ficou presa na marquise do prédio de saída do centro cultural. E %Rafael% ficou também.
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  Havia um silêncio constrangedor, potencializado pelas gotas pesadas batendo no asfalto.
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  — Você ficou estranha esses dias — ele disse, direto demais.
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  — Eu? Claro que não.
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  — Ficou competitiva.
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  Ela congelou.
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  — Competitiva como?
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  Ele deu um passo mais perto.
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  — Como se estivesse disputando alguma coisa.
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  A maré estava no auge. Ela podia mentir, no entanto, não era do tipo que desistia, já sabem, e tampouco, nem do tipo que fugia.
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  — Talvez eu estivesse.
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  Ele não sorriu curioso.
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  — Disputando o quê?
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  Ela respirou fundo. Era a hora! “Vai, garota!”, se encorajou mentalmente.
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  — Você.
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  Silêncio. Um segundo. Dois. E então ele começou a rir, mas não daquele jeito que machuca. Daquele jeito que ilumina.
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  — %Lara%… você nunca esteve competindo!
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  — Não?
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  — Eu só estava esperando você perceber que não precisava.
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  O mundo fez um pequeno “clique” interno.
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  — Esperando?
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  — Você sempre age como se estivesse tentando provar alguma coisa. Mas eu já escolhi faz tempo.
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  Ela piscou.
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  — Escolheu?
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  — Você.
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  A chuva diminuiu. Dramático demais? Talvez. Mas a vida às vezes colaborava.
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  — Então por que você dava aquele sorriso para todas? — ela perguntou, acusadora.
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  — Porque sou simpático. Mas o sorriso diferente sempre foi o seu.
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  A maré começou a baixar, ela sentiu o mundo desacelerar. %Rafael% se aproximou e %Lara% fechou os olhos. Era o momento! E então:
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  — ENTREGA DA PIZZA DE CALABRESA!
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  Um motoboy surgiu buzinando e gritando em frente à marquise. Os dois se afastaram no susto.
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  — Não pedimos pizza — %Rafael% disse.
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  O motoboy conferiu o celular.
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  — Ah, é! Prédio errado. Obrigado!
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  O cara acelerou a moto buzinando cordialmente, e os dois mantiveram o silêncio incrédulo. A magia evaporou. %Lara% começou a rir e %Rafael% também.
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  — A gente pode tentar de novo? — ele perguntou.
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  — Pode. Mas talvez o universo peça refrigerante agora.
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  Finalmente, ele segurou o rosto dela e, dessa vez, ninguém interrompeu. Eles correram na chuva até a estação de metrô. Rindo. Escorregando. Desajeitados. Na catraca, ele segurou o rosto dela com as mãos frias, de um jeito mais íntimo.
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  — Você não precisava passar por todo aquele perrengue durante as semanas, sabia?
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  — Eu sei. — Ela sorriu. — É que eu não sabia que você já estava interessado, e tinha muita concorrência, mas eu não desisto fácil.
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  — Ainda bem.
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  Ele a beijou ali mesmo, sob o olhar julgador de um senhor com guarda-chuva azul.
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  Na segunda-feira, porém, a equipe inteira do escritório já sabia, porque %Rafael% fez questão de postar a foto do domingo à noite, em que eles haviam saído juntos.
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  %Bruno% cruzou os braços ao ver a amiga chegando na sala.
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  — Então foi preciso um acidente com café, uma queda coletiva e comportamento levemente assustador para ele cair nas suas graças?
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  — Estratégia complexa — %Lara% respondeu.
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  %Rafael% apareceu atrás dela e beijou sua bochecha, surpreendendo não só %Lara%, como %Bruno%.
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  — Eu já tinha escolhido antes do café.
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  Ela virou.
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  — Antes da queda?
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  — Antes da árvore-tempestade.
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  — Antes do monitoramento de hábitos?
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  — Principalmente antes disso.
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  Ela sorriu.
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  A maré podia subir, podia derrubar. Podia fazer você cair em cima do cara na frente do RH inteiro, mas se você segura firme e tropeça com dignidade, às vezes descobre que nunca esteve competindo. Porque já era a número um.
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Fim.

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