Capítulo 6
Tempo estimado de leitura: 35 minutos
Beco diagonal - 31 de março de 1999. – Gemialidades Weasley.
Judith, a coruja com o rosto em forma de coração, entrou na loja dando um rasante sobre todas as prateleiras e pousou graciosamente ao meu lado sobre o balcão. Peguei a carta que ela trazia, acariciei sua cabeça com o dedo dobrado e ela fechou os olhos agradecida.
- Tem água no seu bebedouro. – Informei-a, ela abriu as asas e seguiu voo loja adentro. Senti a necessidade de manter um espacinho confortável para Judith levando em consideração que ela vivia indo ali quase que diariamente levando cartas minhas para %Verônica% e vice-versa.
Abri a carta que ela trouxe, sabendo que era de minha melhor amiga.
“G,
Estou a pelo menos meia hora dando gargalhadas altas e soltando arrotos mais altos ainda! A calda de arroto é incrivelmente efetiva, por sorte já te conheço o suficiente para testar os produtos em meu quarto. Roubei um chocolate quente do banquete de jantar para beber no quarto e coloquei um pinguinho da calda antes. É sério, soltei um arroto tão alto que os quadros do corredor ficaram assustados achando que uma tempestade estava se aproximando.
Amanhã vou levar para Hagrid, acho que ele vai gostar de se distrair um pouco. Logo te digo como foi.
Sobre o kit festas, além da calda de arroto e da bala de risadas, eu adoraria que você adicionasse algo um pouco mais feminino, sabe? Um gloss para ajudar a dar o beijo dos sonhos, ou uma sombra que mude a cor dos olhos... Sei que parece uma ideia que saiu de uma matéria tosca da revista “Jovem Bruxa”, mas acho que seria ótimo você ter alguns produtos que ajudassem as meninas a serem um pouco mais confiantes.
Beijos,
%V%.”
Soltei o papel com um sorriso no rosto, imaginando a cena que ela descreveu.
- O que é que você está sorrindo feito um bobalhão? – Lee se aproximou, apoiando os cotovelos no balcão. Lee estava sendo imprescindível na loja, me ajudando com absolutamente tudo, desde o atendimento ao público, quanto a reposição de estoques ou ideias de novos produtos, estávamos nos dando muito bem. Não era atoa que ele era meu melhor amigo na época de escola, tínhamos o mesmo cérebro engenhoso na hora criar confusão, mas Lee era mais parecido com Fred, mais extrovertido, falador e cara de pau. Nesses momentos eu gostava de me comparar com %Verônica%, ela acabava sendo uma pessoa que pensa um pouco mais na hora de agir, não era tão inconsequente. E era por esse motivo que eu acabava me perdendo na sombra de Fred, nunca foi um problema, eu sempre gostei de um pouco mais de sossego e gostava do fato dele acabar se sobressaindo em alguns momentos.
Todo mundo em Hogwarts sabia quem eram os Gêmeos Weasley, mas havia um motivo para sermos Fred e George e não George e Fred. E eu acabava bem com isso, não era um problema, mas as vezes eu tinha a impressão de que as pessoas não me conheciam completamente, não sabiam quem era o verdadeiro George, agiam como se eu e Fred fôssemos a mesma pessoa.
A primeira pessoa que conheceu George Weasley foi %Verônica%, antes mesmo de Lee. Ela sabia quem éramos apenas pela voz já no final do primeiro ano. Ela sabia nos diferenciar apenas pelas atitudes, ela sabia que Fred era inconsequente e eu era racional, ela sabia que eu não gosto de nada com sabor de abacaxi e que meu número da sorte era vinte e dois, também sabia que eu já tinha quebrado o nariz e que eu sou... que eu era mais alto do que Fred.
Lee não sabia da maioria dessas coisas, mas não culpo o fato de não saber, ele não vai ser menos amigo meu por me oferecer uma Piña Colada em uma festa trouxa.
- %Vee% testou a calda de arroto, ela adorou. – Falei dobrando a sua carta e colocando na terceira gaveta do caixa, como eu fazia com todas as outras que já havia recebido ali.
- Eu sabia que ela ia adorar. – Ele disse sorrindo também.
Hoje era o aniversário de %Verônica%. Depois de fechar a loja, eu iria fazer uma surpresa à ela, indo até Hogwarts. Seu presente seria uma entrada ao cinema, eu sabia que ela adorava aquele lugar e ia com pouca frequência, tinha certeza absoluta de que ela não ia há pelo menos uns dois anos. Fui sozinho ao estabelecimento e comprei dois ingressos para um filme que a atendente disse que lançaria no dia do aniversário de %Vee%. Na verdade, haviam dois filmes que lançariam naquele dia, mas decidi escolher o que ela provavelmente iria gostar mais.
Quando tranquei a porta de entrada da loja e me despedi de Lee, avistei a lojinha de sorvetes e lembrei que %Verônica% sempre pedia uma casquinha de limão quando íamos ao Beco Diagonal quando éramos estudantes e decidi comprar uma e manter inteira com um feitiço simples de congelamento.
Tomei banho, e escolhi uma roupa tentando entrar na mente de %Verônica% que sempre me pedia para trocar algo para me mover menos chamativo entre os trouxas. Escolhi uma calça jeans tradicional, uma camisa de botões esverdeada com mangas longas e um colete de lã por cima. Me olhei no espelho uma última vez, antes de ir para a lareira e viajar para Hogwarts.
Encontrei alguns conhecidos durante o percurso, Ginny veio me abraçar junto com Luna Lovegood, vi Neville com um vaso enorme de alguma planta com tentáculos nos braços, Hagrid me abraçou tão forte que me tirou do chão e até Pirraça veio me cumprimentar, voando tão rápido por mim que fez meus cabelos esvoaçarem.
Cheguei à sala de poções e vi %Verônica% concentrada na correção de alguns pergaminhos, sua mão estava suja de tinta e seus cabelos estavam presos em uma trança única que descia por seu ombro direito.
Chamei sua atenção pigarreando.
- É por aqui que temos uma aniversariante? – Fingi olhar para os lados, vendo ela abrir aquele sorriso, aquele que eu não conseguia não sorrir junto.
- Achei que ia te ver só no fim de semana! – Ela disse animada levantando-se e vindo na minha direção. Nos abraçamos, seus braços contornando minha cintura, beijei o topo da sua cabeça, sentindo o cheiro doce do seu cabelo e quando nos afastamos, lhe entreguei o sorvete que ainda estava intacto, dentro de uma embalagem plástica que coloquei antes de fazer a viagem com Flu, que iria sujar o sorvete inteiro.
Estava meio frio para sorvete, mas ela adorou mesmo assim. Retirou o sorvete da embalagem, retirou o feitiço de congelamento que o deixava com o aspecto muito duro e provou.
- Eu ia vir só no fim de semana, mas quis vir ver se você estava mesmo trabalhando ou se só está enrolando a Professora McGonagall.
- Não precisava G, sua vida já está corrida o suficiente. – Ela disse, mas seus olhos diziam outra coisa, ela estava feliz de eu estar ali.
- Corrida é o que nós vamos fazer agora, anda, temos um compromisso às oito e meia. – Falei, empurrando-a pelos ombros para fora da sala.
- Compromisso? Onde? – Perguntou ela, abanando sua varinha na direção da sua mesa antes de passarmos pela porta. Os pergaminhos se arrumaram sozinhos, o tinteiro fechou e a pena voou para o porta-penas.
Aparatamos em um beco úmido, longe de qualquer trouxa. %Vee% me acompanhou enquanto eu a guiava pela calçada da rua pouco movimentada do condado onde sua avó morava, era o lugar trouxa que eu mais conhecia, então era bem óbvio que seria lá que eu compraria os ingressos do cinema.
- Como está o trabalho? – Perguntou andando ao meu lado, dando passos rápidos para acompanhar minhas pernas compridas. %Vee% usava um vestido vermelho com pequenas flores, uma blusa branca de manga comprida por baixo, uma jaqueta jeans amarrada na cintura, meia calça e tênis brancos que combinavam com a blusa.
- Está indo muito bem, Lee tem me ajudado muito! Mas estou começando a desconfiar que seu pai está o pressionando para que ele vá para o ministério logo...
- Bom, ele realmente comentou que seria algo temporário, não é?
- Sim, sim, mas eu realmente preciso de ajuda, vou ter que contratar alguém logo para começar a ir treinando. – Respondi pondo as mãos no bolso. Não estava um tempo muito frio, estava agradável para andar na rua, mas frio o suficiente para usar roupas de manga comprida.
- Sabe quem eu acho que aceitaria um pedido seu de ajuda e largaria tudo para te ajudar aqui?
- Quem?
- Rony. Ele sempre te idolatrou, sempre quis ter a oportunidade de se sentir por dentro dos produtos, das novidades... Acho que ele, com certeza, deixaria de ser Auror para vir trabalhar com você.
Ela tinha um ponto, Ron sempre foi um grande fã das Gemialidades e vivia atrás de nós para saber o que estávamos inventando. Acho que posso deixar essa opção guardada na manga para amadurecer a ideia e conversar com ele caso seja realmente algo que eu vá fazer.
- Você está certa.
- Eu adoro ouvir essa frase. – Ela sorriu convencida e empurrei seu ombro fazendo-a desequilibrar e voltar batendo seu ombro no meu.
- Eu sei disso, como sei. – Falei virando os olhos para cima.
- Você adora.
- Há controvérsias.
- Weasley, você odeia que eu seja inteligente, uma mulher cheia de boas ideias, uma grandiosa bruxa criativa e atenciosa?
Soltei uma gargalhada e ela riu junto.
- Eu adoro, adoro principalmente seu ego infladíssimo cada vez que eu digo que você está certa.
- Não posso fazer nada se eu estou sempre coberta de razão.
- Ah, pelas barbas de Merlin! O que eu fiz para merecer isso? – Ergui minhas mãos para o céu dramático, ela ria abertamente.
- Você me deu uma jujuba que explodia! Desde aquele dia, você está pagando por seus pecados. - Não fui eu! – Me defendi.
- Não importa quem estava segurando o pacote de jujuba e sim a maldade por trás da coisa.
- Eu te dei um sorvete de limão! Isso anula a jujuba, com certeza.
Ela pareceu ponderar por um segundo.
- Talvez anule, ainda tenho que pensar... Os traumas da jujuba explosiva foram muito grandes. – Ela gesticulou fazendo um sinal de bomba com as mãos.
- Que traumas?! – Falei dando uma gargalhada alta, chamando a atenção de alguns trouxas que passavam por nós.
- O trauma de virar sua amiga, você não sabe como é difícil se manter alerta a todo momento, com medo de ter uma bomba de bosta debaixo do travesseiro ou comer um quitute batizado.
- Ah, %Vee%, corta essa! Aquilo era o auge do seu dia! Ou vai dizer que você se divertia daquele jeito com a Angelina e o Cedric certinho? Quem sabe remexendo titica de galinha com Neville?
- Eu me divertia sim! – Ela disse abrindo a boca, fingindo-se de ofendida.
- É sério?
- Olha só quem está com o ego inflado agora! – Ela disse sorrindo maliciosamente. – Eu tinha uma vida sem os gêmeos Weasley, tá bem? – Disse convencida, erguendo as sobrancelhas em desafio.
- Tenho certeza disso. – Concordei com ela. – Mas tenho mais certeza de que era muito mais divertida com a gente.
%Verônica% sorriu, deu alguns passos com as mãos atrás das costas e notei seu sorriso mudar. Em um segundo, percebi que sua felicidade havia se tornado lembrança.
- Era sim, era muito mais divertida. – Seu sorriso não sumiu, então me peguei pensando no que dizer. O que se dizia para uma pessoa naquelas condições? Uma pessoa que perdeu tudo e tinha que seguir em frente. Uma pessoa que tinha tudo e em um piscar de olhos ficou com nada.
- Lembra da vez em que quase fomos mortos pelos centauros?
Seus olhos brilhantes sorriram junto com seus lábios.
- Acho que nunca tinha visto Fred tão preocupado! – Ela disse rindo. – Ele disse que tinha ouro para dar em troca das nossas vidas.
Nós rimos, ainda andando pelas calçadas da rua principal.
- É, eu já tinha visto ele daquele jeito.
- Sério? Quando? – Perguntou ela me olhando curiosa.
- Quando você foi petrificada.
Ela engoliu seco por um instante.
- Eu não sabia disso.
- Ele pediu para não falar. – Baixei a cabeça, chutando uma pedrinha que estava em meu caminho. – Ele morria de ciúmes do Cedric, me admira Angelina nunca ter falado nada.
- Ela comentou algumas vezes, mas nunca dei muita bola, achava que era coisa da cabeça dela. Sei lá, a gente tinha quinze anos, né?
- É... Parece que faz tanto tempo.
- A gente passou por muita coisa. – Ela disse séria e eu concordei com a cabeça.
Continuamos andando em silêncio, até ele ser quebrado por ela.
- Lembra da vez em que ficamos presos no armário de vassouras por duas horas por causa da gata do Filtch?
Dei uma risada.
- Aquele dia eu achei que iria ter que lançar um feitiço para fechar a sua boca, a sua sorte foi que eu não sabia nenhum.
Ela gargalhou alto.
- Eu fiquei nervosa!
- Nervosa? %Vee% você estava suando tanto que queria tirar a roupa na nossa frente.
- Essa é a definição de nervosismo.
- Eu não quero ficar pelado quando estou nervoso. – Uni as sobrancelhas e ela deu mais uma risada gostosa.
- Estava calor! E eu não queria ficar pelada, eu só afrouxei a gravata e abri alguns botões da blusa, assim como vocês.
- Nem vem, mulher, você queria seduzir a gente. – Falei rindo e ela riu mais ainda.
- George! – Ela me empurrou meu ombro rindo. – Você é um babaca.
- Eu sou. Mas eu ainda sou o babaca que você mais gosta, não sou?
- É sim. Meu babaca favorito.
Chegamos ao cinema e juro que nunca vi %Verônica% tão feliz desde o dia de natal. Seus olhos brilhavam em expectativa de saber qual seria o filme, ela batia palmas dando pulinhos enquanto comprávamos a pipoca e quando fomos nos sentar, ela beijou meu rosto três vezes antes de detonar o balde de pipoca antes do filme iniciar.
O filme escolhido foi “10 coisas que eu odeio em você” e foi muito divertido. Era engraçado e leve, exatamente o tipo de coisa que eu queria que ela assistisse para desligar um pouco da vida real.
- Uau! – Ela exclamou animada quando saímos da sala de cinema. – Que filme incrível! Você gostou?
Seu sorriso me fez sorrir também.
- Gostei sim, foi engraçado.
Ali fora estava um pouco mais frio, e ela começou a gesticular sobre suas partes favoritas enquanto vestia sua jaqueta. Ela checou o seu pequeno relógio de pulso e disse:
- Está afim de comer algo antes de irmos?
- Claro.
%Verônica% me guiou por uma quadra e atravessamos a rua indo na direção de uma cafeteria. Lá dentro era aconchegante e tinha o cheiro forte de café. As luzes eram amarelas, deixando o ambiente acolhedor, no canto superior atrás do balcão, reconheci uma televisão pequena que mostrava um apresentador com a foto de um homem ao fundo o letreiro embaixo dizia “procurado e perigoso”, sentamos em uma mesa para dois e um atendente veio até nós.
- Boa noite, o que vão querer?
- Um cappuccino e uma fatia de torta de limão. – %Vee% disse automaticamente, como se conhecesse bem o lugar.
- Vou querer o mesmo. – Falei automaticamente.
- Não, desculpe Georgie, para ele traz uma fatia de bolo de chocolate meio amargo e um café preto.
O garçom assentiu e saiu. Voltamos a conversar sobre o filme, %Verônica% afirmando que havia adorado a protagonista fodona e segura de si, e eu defendendo o garoto que só queria sair com a irmã dela que foi inteligente o suficiente para usar o vilão burro como bode expiatório. Rimos lembrando da cena em que o protagonista canta na arquibancada e da cena em que o amigo do mocinho cai de motocicleta saindo da escola.
- %Vee%?
Ouvimos uma voz atrás dela e ela virou-se lentamente enquanto eu pendia meu corpo para o lado para espiar quem era.
Era o Pete, aquele maldito cada da loja que compramos a tinta para tingir meus cabelos. Fechei o rosto no mesmo instante.
- Oi Pete. – A voz de %Vee% mudou drasticamente.
- Oi %Vee%, que coincidência. – Ele disse sorrindo, eu não tinha tanta certeza de que era coincidência mesmo, mas tudo bem. Ele se aproximou e me olhou de cima a baixo.
- Oi, Paul, certo? – Estendeu a mão até mim.
- George. – Corrigi apertando-a.
- Ah, sim, eu lembrava que era um dos Beatles... – Ele disse, mas não entendi a referência e também não fiz questão de perguntar.
- Então, o que vocês estão fazendo por aqui? Achei que você estava dando aulas... – Pete disse sorrindo para %Vee%.
O sorriso dele era estranho, ele não estava feliz, era um sorriso automático como o de um manequim.
- Eu estou, só tirei uma noite de folga para sair com meu amigo. – Ela respondeu mexendo nos pacotinhos que eu imaginava ser açúcar ou sal. Ergui minha postura quando ela falou de mim, por puro orgulho de não querer ser rebaixado por um cara como ele.
- Ah sim, seu amigo. – Seu tom não era por não acreditar que eu era só amigo dela, e sim por eu ser taxado de amigo como se aquilo fosse uma ofensa.
- Sim, amigo. Você tem algum problema com isso, Pete? – Perguntei impaciente fechando as mãos sobre a mesa.
- É claro que não. Por que eu teria um problema? – Ele deu um passo involuntário para traz.
- É que é a segunda vez que eu te vejo, e é a segunda vez em que você fica incomodado com a minha presença, por eu ser amigo dela.
- G, deixa pra lá. – %Vee% disse, levando uma mão até a minha, para chamar minha atenção.
- Não tenho problema nenhum com você, cara. Só acho estranho essa amizade entre vocês dois... – Sua voz foi morrendo quando seus olhos pousaram na mão de %Vee% sobre a minha.
- Nossa amizade não é estranha, estranho é você vir forçar um assunto com %Verônica% sempre que vê ela, sendo que fica bem claro o desconforto dela quando te vê. – Por Merlin, eu odiava esse cara.
- Meninos, por favor. – %Verônica% disse em um tom ligeiramente agressivo. – Pete, George está certo. Até hoje não entendi essa sua necessidade de vir falar comigo sempre que me vê, um breve aceno de cabeça para manter a educação é o suficiente.
O garçom interrompeu a conversa, trazendo nossos pedidos. Ele pôs tudo sobre a mesa enquanto o silêncio reinou entre nós três e quando ele saiu, %Vee% continuou:
- Eu e George somos amigos e isso não lhe convém. – Ela respirou fundo. – Hoje é meu aniversário e eu só quero curtir esse momento com a pessoa que eu vim curtir. Então se você puder parar de tentar puxar um assunto que não existe, eu ficaria incrivelmente grata.
Pete suspirou e eu quase fiquei com pena dele.
- Me desculpa, não sabia que era seu aniversário. É só que... Eu te vi aqui, e lembrei de como a gente se divertiu naquela noite, sempre penso nisso e adoraria saber se você não estaria afim de repetir a dose, sabe? Sair comigo de novo, quem sabe?
Olhei para %Vee% e ela olhou para mim, num pedido claro de socorro, ergui minhas sobrancelhas querendo dizer “Vai que essa é sua, já me meti demais” e ela assentiu.
- Pete, desculpa, a verdade é que eu e George realmente estamos namorando.
Olhei para ela arregalado, sua mão apertou a minha como se dissesse “agora aguenta essa comigo”.
- Estamos mantendo em segredo por enquanto, porque trabalhamos juntos e... Na verdade, a gente não pode namorar lá na escola.
Pete olhou para ela e depois para mim, que acenei com a cabeça em concordância.
- Me desculpe, não vou mais incomodar vocês. – Pete deu uma última olhada para nossas mãos juntas e ainda teve a audácia de adicionar: - Sabe, %Vee%, acho que você merecia coisa melhor.
- Sabe, Pete, acho melhor você ir embora antes que eu tatue as minhas digitais no seu rosto. – Falei de modo impassível, sério e com as sobrancelhas unidas. Ele se assustou e deu as costas para nós, saindo pela entrada sem nem fazer o pedido.
Eu e ela nos entreolhamos e caímos na risada. Rimos tão alto que as poucas pessoas que estavam ao redor olhavam para nós de maneira estranha.
- Caramba, George! Você foi incrível, eu até fiquei um pouco com medo!
- Ah, cara, eu já estava de saco cheio desse idiota. Agora a gente só tem que fingir que estamos namorando cada vez que viermos para cá, já que ele sente tua presença num raio de cem milhas. – Falei e ela caiu na risada de novo. – Me diz, %Vee%, por favor, como você teve coragem de ficar com um babaca desses?
- Foi no verão que Cedric e eu terminamos, depois dos acontecimentos da Copa Mundial de Quadribol, eu voltei para a casa de minha avó na última semana antes das aulas e acabei indo em uma festinha com a vizinha que tem a minha idade. Eu estava sensível e triste pelo término.
- Ok, está perdoada só por causa disso.
Tomamos nossos cafés, provei um gole do seu cappuccino e uma garfada da sua torta e ela estava certa, era doce demais para o meu paladar. Às vezes, o fato de ela me conhecer tão bem me assustava um pouco.
Chegamos em Hogwarts em silêncio, o castelo estava escuro e apenas os professores que vigiavam os corredores estavam de pé. Encontramos Neville pelo caminho até o dormitório de %Vee% e ele a abraçou sorrindo.
- Como foi a noite? – Perguntou ele sussurrando. Neville era um bom amigo para %Vee%, na época de escola, ela havia adotado ele como seu pupilo o defendia com unhas e dentes, eles viviam nas estufas desde que o nome de Cedric foi tirado do cálice de fogo e a Sra. Sprout teve que encontrar alguém para substituí-lo. Lembro que %Vee% ficou extremamente aliviada por não ter mais que dividir o tempo extra com o ex-namorado, e o seu vínculo com Longbottom só se fortaleceu.
- Foi incrível! – %Vee% disse animada. – Amanhã te conto tudo.
- Tá bem, vai lá descansar. Deixei uma lembrancinha para você na sua cama.
- Não precisava, Nev! E obrigada por cobrir meu turno.
Seguimos para seu quarto, onde %Vee% queria pegar algo antes de eu ir embora.
O quarto era pequeno, mas %Vee% tinha se esforçado para deixar com a sua cara. O pato de pelúcia estava sobre a cama, na pequena escrivaninha havia algumas fotos penduradas por cordõezinhos mágicos brilhantes que não se fixavam em nada, apenas ficavam ali se movendo como se uma brisa leve batesse sobre eles. Nas fotos, reconheci seus pais, sua avó, o time de quadribol do nosso quinto ano, Angelina, Lee, Fred e eu. Ao lado da escrivaninha uma estante mostrava seus livros de poções, de Herbologia e alguns sobre quadribol. Na parte de cima da estante haviam algumas plantinhas e em cima da sua cama, assim como Neville havia mencionado, havia um presente que na verdade era outra plantinha com um lacinho enrolado no vaso. %Vee% sorriu ao ver a planta e acariciou as folhas gorduchas e delicadas antes de coloca-la sobre a estante junto com as outras.
- Tenho algo para você. – Ela disse mordendo o lábio inferior sorrindo.
- Para mim? – Perguntei enquanto ela abria uma gaveta em sua escrivaninha e pegava um pacote prateado grande, parecia um livro enorme. Por Merlin, que não seja um livro.
- Feliz aniversário, Georgie. – Ela disse sorridente, me entregando o embrulho pesado, eu não havia olhado o relógio mas imagino que %Vee% havia esperado dar meia noite para me dar o presente, já que ela pensava em todos os detalhes.
- Puxa, obrigado! – Eu disse surpreso, pegando o presente de suas mãos e retirando o embrulho prateado. Era um livro artesanal e o título era “As aventuras dos Gêmeos Weasley”, a capa era marrom e tinha alguns detalhes que lembravam faíscas e bombinhas. Me acomodei em sua cama para conseguir analisar melhor o resultado. %Vee% me olhava ansiosa, os olhos brilhando em expectativa. Virei a capa e não pude deixar de sorrir. Era um álbum de fotos, cada página havia uma foto minha e de Fred, desde pequenos. Ao lado de cada foto havia uma anotação feita à mão, na primeira foto éramos bebês e estávamos deitados na cama pelados com as bundinhas para cima, Fred enviava o dedo em meu nariz e eu chorava. Ao lado desta foto havia uma anotação escrito “Fred e George em seu primeiro Halloween em 1978, já dava para ver quem ia mandar a relação”. Algumas páginas havia colagens, uma mechinha de nossos cabelos, em outra um par de meias furadas, alguns dentinhos de leite... Tudo aquilo fazia o livro ser grosso e com as páginas irregulares, mas era exatamente o que o deixava especial. A última foto era de nós dois em frente à loja, no dia da inauguração, não havia comentários extra mas havia uma matéria d’O Pasquim sobre a loja e os artigos que eram vendidos lá. Quando terminei de folear, me surpreendi ao ver que eu não estava chorando. Eu estava feliz de ter todas aquelas informações reunidas, eu nem sabia que minha mãe havia guardado tanta coisa!
Voltei algumas páginas, vendo uma foto em que eu e Fred voávamos sobre o campo de quadribol, cada um com seu bastão em mãos, jogando o bastão para o outro em uma sincronia digna dos gêmeos Weasley.
- %Verônica%, isso é incrível, realmente brilhante, não sei nem como agradecer. – Falei olhando em seus olhos castanhos. Ela os desviou por um segundo e eu sabia que quando eles voltassem a me encarar, estariam marejados.
- Tive bastante ajuda. – Ela disse sorrindo, e assim como previ, seus olhos cintilavam com lágrimas que não chegaram a escorrer.
- Eu amei, de verdade.
- Que bom, pois deu bastante trabalho. – Ela disse divertida, esbarrando seu ombro no meu e eu aproveitei a proximidade para passar meu braço por seu ombro e beijar sua têmpora.
- Você é incrível, %Vee%. Obrigado por tudo.
E naquele momento eu percebi que nunca encontraria alguém tão incrível quanto ela, alguém que conhecesse a minha alma, o meu ser e quem eu realmente era.
Fim do Ponto de Vista.
Flashback – 15 de novembro de 1993 – Partida de Quadribol, Grifinória vs. Lufa-lufa.
Ponto de vista da %Verônica%.
Não era nossa melhor partida, admito.
Angelina havia feito dois gols com minha assistência, Oliver berrava a todos pulmões instruções que não conseguíamos ouvir por conta da chuva e dos trovões. Meus cabelos, meu uniforme e minha Cleansweep Seven pingavam água. Vez ou outra eu ouvia o zumbido de um balaço voando próximo de meus ouvidos, mesmo eu sabendo que os batedores da Lufa-lufa haviam feito um acordo para não me acertar, com medo que Cedric se distraísse do seu dever com o pomo de ouro. Angelina, Alicia e eu fazíamos a nossa trinca combinada, alternando a goles entre nós três, fazendo os artilheiros do time adversário ficarem perdidos ziguezagueando entre nós. Era divertido fazer esse movimento, mas não conseguiríamos fazê-lo mais uma vez, então tínhamos que aproveitar. Quando nos aproximamos o suficiente do gol, fiquei com a goles em mãos para enganar o goleiro e no último segundo, joguei-a para Alicia que marcou nosso terceiro gol.
No momento em que fiquei com as mãos livres e curvei o corpo para a esquerda para iniciar uma nova rodada após o gol, senti o baque de um balaço em meu rosto. Ouvi o craque em meu nariz e imediatamente senti o calor do sague escorrer, o gosto metálico invadindo minha boca e minha cabeça rodopiando por um momento, me agarrei com força na vassoura para não ser derrubada.
Xinguei alto, berrando em plenos pulmões. O zumbido em meu ouvido me deixou surda e atordoada por alguns segundos, mas juro que ouvi algo sobre Potter e Diggory irem atrás do pomo, e até ouvi meu próprio acidente ser narrado, com a voz de Lee subitamente preocupada e alterada por conta do zumbido que ainda era forte.
- %Vee%?! – Ouvi a voz de um dos gêmeos, mas não consegui distinguir porque minha cabeça ainda estava em câmera lenta. – Mas que merda! – Só percebi que era Fred quando ele estava perto o suficiente.
- Está muito ruim? – Perguntei sentindo meus sentidos voltarem ao jogo, a partida estava rolando e eu ainda estava parada próxima ao gol da Lufa-lufa. George vinha na minha direção também.
- Está péssimo, você tem que sair. – Fred disse com o semblante realmente preocupado.
- Eu não vou sair! – Os respingos de chuva batiam no nosso rosto. Eu ainda sentia o sangue morno escorrendo por meu queixo.
- Você vai sim! Tem que ir para a enfermaria. – Fred insistiu, segurando meu braço.
- Eu não vou sair. Harry já deve estar pegando o pomo de ouro nesse momento, ele é muito mais rápido do que Cedric.
- Por Merlin, você só deve estar com alguma concussão, você nunca admitiria isso em voz alta. – George disse parando a vassoura do meu outro lado.
- Vamos, %Vee%. – Fred disse, indicando com a cabeça para fora do campo. – Vamos fazer uma substituição.
- Não-vou-sair. – Falei pausadamente. – George me dá esse taco.
George olhou para Fred arregalado e ele fez que não com a cabeça. A partida ainda rolava, mas Alicia e Angelina não conseguiram fazer mais gols sem a minha ajuda e sem as defesas de Fred e George.
- APPLEBY, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – Ouvi Oliver gritar desesperado do outro lado do campo. Ele devia estar puto, já que ouvimos a sua voz mesmo com toda aquela chuva. Percebi um balaço vindo na nossa direção, os batedores do time adversário estavam aproveitando nossa pausa momentânea.
- George, o taco. – Ordenei com a voz brava e ele me entregou sem pestanejar. Fred soltou meu braço e, estando livre, com a fúria de um nariz quebrado rebati o balaço com toda a força que eu tinha, gritando com todo o ódio acumulado da dor que eu ainda sentia. O balaço bateu tão forte no ombro de Gustav O’Malley, batedor da Lufa-lufa, que ele caiu da vassoura.
Devolvi o taco para George que estava boquiaberto. Voei para perto das minhas companheiras de artilharia e Angelina prontamente retirou a varinha das vestes e com um aceno de pulso murmurou “Episkey”, meu nariz esquentou e logo esfriou estalando de volta no lugar. Senti meus olhos marejarem, respirei fundo e voltei a me concentrar no jogo.
Fizemos mais uma jogada incrível, revezando os lados, distraindo o goleiro, desviando de balaços e Alicia jogou a goles para mim que dei uma volta pelos aros do goleiro retirando ele do local de guarda e acertei o aro do meio. Ouvindo um rugir alto da plateia.
- Nossa artilheira acidentada mostrou que um nariz quebrado não impede a qualidade de jogo! – Lee narrou, me arrancando uma risada. Notei que Fred e George estavam atrás de mim feito dois guarda costas.
- Pelo amor de Deus, saiam de trás de mim! Vocês estão me distraindo. – Falei quando eles se aproximaram. – Eu estou bem!
- %Vee%, a sua roupa está coberta de sangue. – George disse, o tom de voz extremamente preocupado.
- Harry vai pegar o pomo a qualquer momento! – Fui fiel ao meu apanhador, não podia deixar que meu namoro com Cedric me impedisse de ganhar a taça do campeonato. – Só façam o dever de vocês e nos protejam dos balaços.
Fred não disse nada, mas eu podia notar em seu olhar pelas minhas vestes que ele não estava feliz com aquela situação. Aumentei minha velocidade indicando que queria distância e eles me deixaram em paz.
Meio minuto depois, quando Alicia estava prestes a marcar mais um gol, notamos que alguém caía em queda livre, sem vassoura, no centro do campo, meu coração gelou preocupado quando percebi que eram Harry pelas vestes vermelhas, e enquanto as vozes iniciavam gritos apavorados, Dumbledore interviu e segurou o corpo antes que ele virasse geleia de tomate.
- Gente, ela acordou. – Ouvi a voz de Cedric quando abri os olhos. Ele estava ao meu lado, com o sorriso encantador, segurando minha mão.
- Como você está, batedora? – Perguntou ele divertido.
- Eu desmaiei? – Me ajeitei no leito da enfermaria sentindo uma atadura em meu nariz.
- Quando o jogo terminou e a adrenalina baixou, sim. – Ele explicou enquanto Fred, George, Neville, Angelina, Hermione, Rony e Gina se aproximaram.
- %Vee%, aquilo foi brilhante! – Rony exclamou animado.
- Nunca vi um artilheiro bater daquele jeito! – Nev adicionou animado.
- E eu nunca tinha visto tanto sangue jorrar de um nariz. – Fred adicionou divertido.
- Parecia uma cachoeira. – George finalizou.
- Você está bem, amiga? – Angelina perguntou e eu concordei com a cabeça.
- Como está o Harry? – Perguntei lembrando da sua queda livre.
- Ele está bem, está descansando, ainda não acordou. – Ced me respondeu virando o rosto para o leito ao lado, onde Harry descansava desacordado.
- Oliver está muito bravo? – Perguntei lembrando do seu rosto raivoso quando desci da vassoura.
- Está possesso. Está lá com Lee e McGonagall para tentar anular o jogo. Não era para os dementadores estarem lá. – Hermione respondeu essa.
- Os dementadores fizeram ele cair?!
- Sim, estavam sobrevoando a partida. – Ced respondeu unindo as sobrancelhas. – Na verdade, acho que vou lá me unir ao Oliver, não me sinto confortável ganhando uma partida desse jeito. Você vai ficar bem? – Perguntou ele, levantando-se, mas ainda segurando minha mão. Senti minhas bochechas esquentarem e sorri concordando com a cabeça. Ele selou nossos lábios rapidamente e saiu, vi Hermione e Gina virando o rosto para olhá-lo sair, ambas olharam para mim depois e suspiraram apaixonadas, não consegui conter um sorriso.
- Isso é muito legal da parte dele. – Neville fez questão de notar.
- É, Ced é legal. – Angelina completou e eu concordei com a cabeça.
Vi Fred virando os olhos disfarçadamente.
- Algum problema, Weasley? – Perguntei e todos os Weasley’s presentes viraram o rosto para ele, sabendo exatamente de quem eu me referia.
- É claro que não, Ced, o perfeitinho, vai salvar o dia. – Respondeu ele ácido. – Aposto que falou isso só para pagar de bom moço e está indo para o jantar.
- Fred... – George o chamou baixinho e balançou a cabeça, repreendendo o irmão.
- Eu vou fingir que não ouvi isso, Fred. Sua amiga está aqui na ala hospitalar por um erro seu, Cedric fez a parte dele no jogo. – Angelina disse brava. Os mais novos apenas olhavam de um lado para o outro, sem falar nada.
- Erro meu?!
- Até onde eu sei, é dever os batedores proteger os artilheiros dos balaços.
- É, e também é dever deles jogar os balaços nos artilheiros do time adversário. – Ele disse indignado. – E foi o que os batedores da Lufa-lufa fizeram.
- Ei, ei, ei, eu estou bem, ok? – Falei erguendo as mãos em sinal de paz. – Será que dá para todo mundo ficar tranquilo? Quero curtir o momento com meus amigos.
- Me desculpa %Vee%, sabemos que foi erro nosso. – Fred disse baixando os ombros em derrota.
- Não vai se repetir. – George prometeu, sentando-se ao pé da cama colocando a mão sobre meu pé que estava coberto por um lençol branco.
- Está tudo bem, meninos. Acho que foi válido para saber que se algum dia um de vocês se machucar, eu consigo cobrir. – Brinquei e todos riram.
- Acho que a %Vee% daria uma surra em vocês, se fosse batedora! – Rony disse empolgado.
E uma conversa tranquila surgiu, Angelina baixou a guarda e Fred também. Os mais novos comentaram sobre a partida, já que eles assistiram o que deu por conta da chuva e nos contavam os momentos mais emocionantes. O resto de nós ríamos e comentavam como era o momento estando dentro do campo.
Mesmo com a derrota no jogo de estreia, naquele ano, fomos campeões da Taça de Quadribol, e eu nunca vou me esquecer da sensação de erguer a taça sendo ovacionada por meus colegas de casa.
Fim do Flashback.
Nota da autora: Mais um capítulo para deixar o coração quentinho. Essa história me deixa muito bobinha com um sorrisinho no rosto sempre que eu termino um capítulo novo. Eu AMO a interação a PP e do George, fico igual uma criancinha vendo essa amizade tão verdadeira e simples, no auge do companheirismo.
Deixem aquele comentário gostoso para eu saber o que vocês estão achando desses dois. <3