Capítulo 5
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25 de dezembro de 1998 – A Toca
Ponto de vista: %Verônica%
Estacionei o carro em frente à garagem de Sr. Weasley, e assim que tirei a chave da ignição pude ver Molly sair pela porta sorrindo de braços abertos. Minha avó, que estava no banco do carona, ainda estava de boca aberta olhando a altura da casa pelo para-brisa.
Lucille foi convidada para o jantar de Natal dos Weasley’s. Tudo começou quando em um determinado fim de semana pedi a ajuda de Sra. Weasley para contar a verdade à minha avó. Ela merecia saber da verdade, e eu tinha medo que se contasse sozinha, talvez ela não fosse realmente acreditar, ou talvez eu não fosse capaz de me fazer entender para ela. Então Molly fez a sugestão de que ela, Arthur e George fossemos juntos. Foi um momento extremamente delicado, um assunto difícil de tocar, a ferida aberta ainda era muito dolorida e fiquei muito agradecida por ter esse apoio. Acontece que minha avó também conhecia a morte de perto, ela também teve um filho assassinado por Comensais da Morte e soube lidar muito bem com a situação, de modo que ela não só aceitou o que aconteceu, mas também nos recebeu de braços abertos e ainda nos disse verdades duras de serem ouvidas que pareciam ter saído da boca do próprio Dumbledore, como: A morte, quando vinda sem espera, é o maior teste de força que uma pessoa pode receber.
E como era verdade! O elo que mantinha eu e George juntos nunca foi tão forte quanto agora, assim como o meu elo com a família Weasley inteira. Eu passava os dias pensando em como ele estava conseguindo lidar com tudo sozinho, ficava orgulhosa de cada passo que ele dava e me sentia cada vez mais confortável em sua presença.
- Ah, Sra. %Appleby%! – Molly exclamou sorridente.
Arthur saiu logo atrás, seguido de Bill, Fleur e George. Descemos do carro e enquanto cruzávamos o jardim, mais e mais cabeleiras ruivas apareciam à porta. Percy, Charlie, Ron, Ginny, depois Hermione e Harry, que segurava um bebê gorducho no colo.
Nos cumprimentamos todos, apresentei minha avó e os meninos ofereceram ajuda com tudo que estava no carro, minha avó trouxe tantos presentes que fiquei com medo que tivesse que usar um feitiço indetectável de extensão no porta-malas.
- Me chamem de Lucille, por favor. – Minha avó foi simpática, ainda meio duvidosa quanto à casa meio torta, ela se aproximou de todos dando um beijo no rosto de cada um.
- Venham, venham! Montamos uma mesa festiva lá atrás – Arthur disse e seguimos caminho.
Eu ainda estava cumprimentando todos quando seguimos viagem em torno da casa para chegarmos lá.
- Esse bebê lindinho é de vocês? – Minha avó puxou assunto indicando Harry e Gina, segurando a mãozinha do bebê.
- Ah, não – Harry disse ligeiramente nervoso. – É meu afilhado.
- É o filho da Tonks e do Lupin – Gina explicou para mim, já que minha avó não fazia ideia de quem eram.
Aquela informação gelou minha alma, fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem e meus olhos imediatamente marejaram, lembrando-me da alegria contagiante de Tonks e da calmaria sábia de Lupin.
- Posso pegá-lo um pouco? – perguntei com a voz embargada, tentando disfarçar um pouco dando um sorriso.
- É claro – Harry disse entregando-me o bebê que imediatamente agarrou meus cabelos com suas mãozinhas ligeiras. Segurei-o pelo tronco, de modo que pudesse ver bem o seu rostinho. Era um bebê lindo, com olhos castanhos muito claros, os cabelos eram cor de palha como os de Lupin, mas o rosto inteiro me lembrava Tonks.
- Hey, Theodore.
Assim que ouviu seu nome, ele abriu um sorriso que revelava alguns dentinhos, eu sorri de volta o movimento em meu rosto fez algumas lágrimas escaparem. O abracei e ele deitou a cabecinha em meu ombro.
- Ele é lindo – falei para Harry e Gina e eles concordaram com a cabeça.
- Sim, e ele é como Tonks. Às vezes muda a cor do cabelo sem querer, ainda não sabe fazer mais do que isso – Gina disse.
Minha avó conversava com Molly e Arthur. George voltava de dentro da casa com Bill e Charlie, eles haviam levado as coisas de minha avó para dentro. Hermione, Rony e Percy conversavam um pouco mais afastados.
- E como vocês estão? – perguntei a eles, ainda segurando Ted no colo embalando-o de um lado para outro lentamente.
- Estamos bem, está tudo bem por aqui – Harry respondeu acariciando meu braço. – Fazia tempo que eu não te via, %Vee%.
- É verdade, como está o curso de Auror? - perguntei. Harry já era um Auror de qualquer maneira, mas para que tudo ficasse correto nos papéis, ele precisava fazer um curso e depois passar em uma prova, Rony estava fazendo o curso também.
- Está indo, é bem puxado, mas...
- Nada que o nosso Escolhido não consiga fazer – George brincou, bagunçando os cabelos de Harry e o abraçando pelo pescoço.
Conversamos um pouco, Bill, Fleur e Charlie nos acompanharam e durante todo este tempo o pequeno Ted ficou em meu colo.
- %Vee%, acho que ele dormiu – Gina disse em certo momento e eu realmente tinha percebido que as mãozinhas dele haviam parado de mexer em meu cabelo. Harry o tomou de meus braços e levou para dentro de casa, onde provavelmente o acomodou em alguma cama.
George aproveitou que eu estava “livre” e me puxou um pouco nos afastando de todos. O clima de festa era aconchegante, vozes diversas se sobressaíam sobre os mais diversos assuntos, e de longe observei minha avó muito bem acompanhada de Sr. e Sra. Weasley que lhe serviam uma taça de alguma bebida que eu não sabia dizer o que era.
- Como você está, baixinha? – Ele usava uma touca de lã na cabeça, um suéter Weasley com um G no peito e calça marrom, seus cabelos estavam crescendo um pouco e a pontinha deles parecia por baixo da touca.
- Estou bem, G. E você? – perguntei enlaçando meus braços em seu tronco, finalmente o abraçando de verdade desde que cheguei. O abraço era nosso cumprimento oficial agora, era algo que nos dava força para continuar, nosso calor se misturava emanando uma onda de calmaria em ambos.
- É, estou indo. – A gente não precisava mais conversar sobre Fred sempre que surgia uma oportunidade, nós dois sabíamos que era algo que pairava entre nós, mas que não precisava ser mencionado a todo instante. Aquele fantasma perambulava entre nós, entre nossas conversas e entre nossos momentos, sabíamos que estava ali presente e que nunca iria nos abandonar, tocar no assunto só faria nosso coração murchar de saudades e dor.
Soltamos do abraço e ele tocou meu nariz com o dedo, sorrindo.
- Que bom, eu... Eu queria te dar meu presente de Natal antes, se não se importar.
- Nossa, isso é uma ótima ideia – falei pensando no presente que havia trazido para ele que estava no bolso interno do meu sobretudo. Meu presente era simples, mas nunca se sabe.
Fui até minha avó informar que estava indo lá dentro e já estava voltando, ela concordou tranquilamente já que agora ouvia histórias divertidas dos anos em Hogwarts; conhecendo minha avó como eu conhecia, ela com certeza estava perguntando a todos os casais como eles se conheceram. Quem estava falando quando me aproximei era Rony, com Hermione argumentando a cada frase que ele dizia, fazendo todos rirem da dinâmica do casal.
Fomos até o quarto de George, o quarto agora tinha um ar vazio, já que não havia mais a presença dele ali com tanta frequência. Parecia mais um quarto de hóspedes do que um quarto de um dos gêmeos.
Em cima da cama havia um embrulho feito de papel com um cordão de algodão cruzado fechando o laço.
- Desculpa não te dar algo melhor, eu só quis... Ah, você sabe – ele disse, pegando o embrulho e me entregando. Peguei o pacote e puxei o cordão, retirando o papel e o que tinha dentro fez meu coração palpitar irregular, olhei do presente para George.
- Georgie, você não precisa... – Minha voz já estava falhada. Abri o suéter de lã igual ao que George vestia, só que com um F na frente e levei até o rosto, cheirando-o com vontade. O cheiro de Fred me inundou como um abraço quentinho, um cheiro amadeirado, levemente cítrico com aquele fundinho de fumaça que eu amava. Que saudade, meu Deus.
Senti lágrimas descerem por minhas bochechas sem ao menos perceber que meus olhos estavam marejados.
- Eu não posso aceitar – falei, a voz tão embargada que mal deu para entender.
- É claro que pode, %Vee%. É seu, sempre foi – ele disse se mantendo firme, seus olhos apenas brilhavam sem lágrimas. George havia se preparado para aquele momento, enquanto eu parecia uma criança chorona.
Olhei o suéter, sentindo a textura dos fios em meus dedos e fui automaticamente transportada para o pátio em frente ao lago em Hogwarts, a neve de janeiro ainda não havia caído e Fred estava sentado ao meu lado, com a manga do suéter levantada até os cotovelos, rindo de qualquer besteira que conversávamos enquanto jogávamos grama no cabelo de George que estava deitado à nossa frente com as pernas cruzadas e os braços dobrados atrás da cabeça. Os gêmeos estavam com o cabelo comprido, então presumo que fosse uma lembrança do nosso quinto ano.
- Você tem certeza? – Finalmente cedi, lembrando também das vezes em que eles trocavam de suéter para confundir as pessoas.
- Sim.
- Puxa, obrigada, George. Isso é incrível, eu amei! – falei, sentindo uma ou duas lágrimas escorrerem por minha bochecha. Ele sorriu, um sorriso genuíno de felicidade, daqueles que era realmente difícil ver ele dar nos dias atuais. – Eu prometo que vou guardar com todo o meu coração para quando você tiver um filho.
Ele soltou uma risada afetada que se transformou lentamente em um rosto triste, percebi que toquei em um ponto sensível e me arrependi imediatamente. Ele puxou meu sobretudo me abraçando com urgência, fui pega de surpresa quando ouvi ele chorando. Os soluços esganiçados vieram logo depois, junto de um farfalhar angustiante de quem havia segurado a respiração por muito tempo.
Contornei meus braços em seu pescoço, ficando na ponta dos pés para este feito, eu ainda segurava o suéter em uma das mãos e a outra mantive em sua nuca. George chorou descontrolado por alguns segundos e depois respirou fundo, tentando voltar ao normal.
- Merda, %Vee%. O que vai ser de mim? – perguntou ele quando conseguiu manter a voz firme.
Era a minha vez de segurar as pontas, a nossa gangorra de emoções sempre tinha que estar estável, quando um quebrava o outro segurava, e assim a gente ia se balançando sem deixar o outro cair.
- Você vai ser o cara incrível que eu conheço. Vai ter uma vida maravilhosa, porque é isso que ele iria querer. Vai ter um casamento lindo, com uma mulher perfeita e vai ter um filho que vai se chamar de Fred Weasley e vai me chamar para ser a madrinha dele. E eu vou dar esse suéter para ele quando ele tiver idade para saber quem foi o verdadeiro Fred Weasley.
Soltei nosso abraço e segurei seu queixo, fazendo-o olhar para mim.
- George, você é o cara mais incrível que eu conheço, você é a merda do meu porto seguro, e você está indo bem. Nós dois estamos, está bem?
Ele concordou com a cabeça, fungando e limpando as lágrimas com as costas da mão. Soltei seu rosto.
- Eu tentei me preparar para esse momento. – Ele se referiu à entrega do presente.
- Eu percebi, fiquei muito orgulhosa.
- Mas aí você vem mencionar a porcaria de um filho, %Verônica%? – Ele soltou uma risada ainda meio chorosa.
- Não fiz por mal, achei que seria um momento bonitinho entre nós – falei acompanhando sua risada.
- Foi bonitinho. – Ele fez uma careta, me fazendo rir novamente. – Nessa sua previsão, como você fica?
Seu sorriso denunciou que ele havia gostado do que eu disse sobre sua vida.
- Ah, eu vou estar muito bem casada também! Talvez um primo francês da Fleur? – perguntei rindo. – Vou ter uma filha, Roxanne, e ela será o porto seguro de Fred Weasley assim como o pai dele foi para mim – falei espiando seu rosto e vi suas bochechas corarem por um instante.
- Roxanne, huh? – perguntou ele pigarreando. – Roxanne Delacour – pronunciou com um sotaque carregado francês me fazendo cair na risada.
- Bem charmoso, não acha? – brinquei e ele sorriu.
- Charmoso demais, não vou deixar ninguém chegar perto dessa pirralha, como padrinho, vou tomar as devidas providências.
- Combinado então.
Soltamos uma risada sincronizada e lembrei-me do meu presente.
- Ah, quase me esqueci – falei retirando um saquinho de veludo do bolso. – Feliz Natal, Forge.
Ele abriu o pacotinho incerto e puxou o fio dourado.
- Uau, é bonito! O que é?
- É um relógio de bolso. Você precisa ter um agora que é um homem de negócios.
Fui ao seu lado para ensiná-lo a manusear, era um relógio com desenhos ornamentais de proteção, feito à mão, com o seu nome gravado na parte de trás. Abri-o, na parte de dentro tinha um relógio trouxa comum e mais um botão extra que fazia o objeto se transformar em um relógio bruxo como o que havia na cozinha. Na parte interna da tampa, eu havia colocado uma pequena foto dos dois juntos, onde eles faziam pose na frente da loja, primeiro ficavam de costas um para o outro de braços cruzados e depois viravam de frente e caíam na risada. A foto só aparecia quando ele clicava no botão que transformava em um relógio mágico. Quando ele estava no método tradicional, não havia foto.
- Nessa parte interna da frente, é bem comum colocar uma foto de algum ente querido. Pensei em colocar algo, mas achei melhor você mesmo decidir a foto que quer colocar, ou deixar o espaço reservado para algo futuro – expliquei e ele concordou com a cabeça.
Mesmo explicando o espaço vazio na tampa, George ficou encarando a versão mágica, onde a pequena foto dos dois ficava se repetindo pela eternidade. Ele não chorava, apenas olhava com certo saudosismo.
- Obrigado, %Vee%, é perfeito! Com certeza vai ser bem útil – disse, passando o braço pelo meu pescoço e beijando o topo de minha cabeça, não perdi tempo em enlaçar sua cintura novamente.
Nesse momento, ouvimos a porta abrir e Charlie pôs a cabeça para dentro.
- Mamãe pediu para chamar vocês, vamos abrir os presentes.
- Estamos indo – George disse prendendo o fio do relógio no cós da calça colocando-o no bolso como eu havia lhe explicado.
Estavam todos reunidos na sala que parecia estranhamente maior do que de costume, tenho certeza de que algum feitiço foi lançado ali, havia uma árvore enorme ao lado da lareira e no canto oposto havia um chiqueirinho onde Ted dormia tranquilo.
A família estava espalhada pelo ambiente, alguns sentados, outros em pé, vovó estava sentada na poltrona ao lado da árvore. Fui até ela e perguntei se estava tudo bem, ela apenas concordou com a cabeça sorrindo.
Alguns já trocavam presentes, vi Gina entregando um presente a Harry e Bill passando uma correte dourada pelo pescoço de Fleur; Rony abria uma caixa, entusiasmado enquanto Mione o observava com um sorriso no rosto; a Sra. Weasley vinha na minha direção, me entregando um pacote de papel pardo como o presente que George me deu. Era um par de meias grossas feitas por ela mesma, ela sabia que eu adorava suas meias quentinhas para dormir.
Iniciei minha distribuição de lembrancinhas, tudo ali era muito simples e de coração, dei jujubas azedinhas para Rony e Hermione (Ron ia abrir na hora para comer e Molly brigou com ele para comer apenas depois do jantar), dei snap’s explosivos para Gina e Harry, penas novas para Percy, e assim por diante. Depois que todos estavam devidamente presenteados, minha avó se levantou:
- Bom, eu nunca havia participado de um Natal bruxo antes, então vim meio despreparada... – Ela tentou fingir que ninguém havia visto a sua pilha de presentes que eu insisti que não precisava comprar.
- Vovó, a senhora literalmente trouxe presentes para todo mundo – falei baixinho, fazendo todos soltarem risadas.
- Eu sei, mas não são presentes bruxos, são presentes trouxas! – ela respondeu argumentando com as mãos.
- Está tudo bem, tenho certeza que todos vão adorar – respondi fazendo carinho em seu ombro. Ela fez sinal para que eu pegasse o primeiro presente.
Todas as suas caixas estavam embaladas com um papel de presente bonito com desenhos de flores e varinhas de alcaçuz, todos eles tinham etiquetas com a sua letra cursiva elegante identificando de quem era o presente.
- Sr. Weasley. – Ela recitou quando leu o primeiro presente que eu lhe entreguei. Arthur se levantou comovido, um sorriso enorme no rosto, pegou a caixa, abraçou minha avó e abriu o presente empolgado.
- Sra. %Appleby%, realmente não precisava... – Era nítido que ele estava empolgado para saber o que era, principalmente sabendo que era algum item trouxa. Eram canetas esferográficas e post-it’s coloridos. Hermione explicou o que era quando ele voltou ao seu lugar. Ele adorou.
Para Sra. Weasley, minha avó deu sabonetes glicerinados caseiros que ela mesma havia feito; para Harry um isqueiro, pois podia ser útil como auror; para Gina um cronômetro, para ela treinar seus ataques e tempos nas partidas de quadribol; para Bill e Fleur uma calculadora para cada, já que eles trabalhavam no banco; para Charlie uma bússola, caso ele se perdesse em alguma expedição cuidando de dragões; para Percy um grampeador, para usar com as papeladas no ministério; para Ron um cantil, pois poderia ser útil como auror também; para Hermione, um livro de receitas caseiras, que ensinavam a fazer pomadas, remédios, produtos de limpeza e etc.; e para George ela deu sua máquina Polaroid antiga, para ele registrar todos os seus momentos felizes.
Absolutamente todos ficaram contentes com seus presentes, pude notar em cada um que minha avó havia tocado alguma parte dentro deles e fiquei secretamente feliz por ela ter ouvido todas as minhas dicas e explicações sobre cada membro da família.
Cada um olhava seu presente com orgulho quando Bill se pronunciou:
- Muito obrigado, Sra. Aplebby, acho que digo por todos que foi muito atencioso da sua parte.
- Sim, ficamos realmente encantados com tanta delicadeza em escolher um por um – Molly disse, encantada com os sabonetes, cheirando um deles.
- Já dá para saber de onde a %Vee% herdou tanto carisma – Charlie brincou e minha avó sorriu contente.
- Eu adoraria ter dado algo melhor, mas era muita gente para lembrar! Já estou feliz de não ter esquecido de ninguém. – Ela sorriu olhando para todos e por fim olhou para mim: - E não, eu não esqueci de você, patinha.
Minha avó retirou um embrulho da bolsa que ela sempre carregava e me entregou, era uma caixinha de joias de veludo, abri com entusiasmo e dentro havia um colar bonito que combinava com o anel que eu entreguei a Fred no dia da batalha. O pingente de ouro tinha o desenho de uma lua e um sol.
- É lindo, vovó, muito obrigada!
- Era da sua mãe.
Aquilo me tocou, acariciei o pingente sorrindo e o retirei da caixinha. George prontamente estendeu a mão, oferecendo-se para colocá-lo em mim. Ergui meus cabelos e ele se pôs atrás de mim para engatar a corrente. Todos nos olhavam com sorrisos nos olhos.
- Ficou lindo, querida – minha avó disse quando ele terminou, e eu sorri agradecida a abraçando.
- %Vee%. – Ouvi a voz de George e o olhei, senti o flash da câmera em meu rosto e dei um tapinha em seu ombro por ter me pegado desprevenida. A câmera soou alta e cuspiu a foto logo depois.
- Não mexe? – Ouvi Ron sussurrar para Mione e ela negou segurando um sorrisinho.
Depois da troca de presentes, fomos para a mesa jantar. A mesa estava farta, Fleur havia trazido cassoulet, um prato francês, Sra. Weasley havia feito lombo de cordeiro com molho de figos, e minha avó tinha levado torta de frango com amendoins e um salmão assado, havia também farofa, molhos e saladas. Tudo estava perfeito, o pequeno Ted nos acompanhou, comemos com calma, conversando e rindo, nos divertindo na medida certa. Vovó estava muito confortável com todos, Charlie estava sentado ao lado dela e vivia fazendo piadas e brincadeira fazendo-a dar boas gargalhadas.
De noite, depois da sobremesa e de Molly e Arthur mostrarem toda a casa por dentro e mostrarem os pomares, a horta e conversarem bastante com minha avó enquanto eu curtia um tempo com os membros Weasley que eu não tinha tanto contato, chamei minha avó para irmos embora.
- Gente... obrigada pela... noite, foi... tudo incrível – falei, enquanto me despedia de cada um.
Eu e minha avó estávamos com os braços cheios de presentes e lembrancinhas.
- Eu nem sei por onde começar, obrigada a todos pela hospitalidade, mas acho que tenho muito mais a agradecer... – Minha avó iniciou. – Quando %Verônica% entrou em Hogwarts, eu tive muito medo de que ela pudesse não se encaixar, por ser... vocês sabem, nascida trouxa. Eu não sabia como era nada disso, a escola, o mundo bruxo, e até receber a primeira coruja com uma carta de quase dois metros explicando tudo, fiquei muito preocupada. E nunca, em toda a minha vida, eu achei que ela fosse encontrar uma família naquele lugar! %Verônica% tem a sua família de sangue, tem primos, tios e tias, mas nada, absolutamente nada, se compara ao amor que eu sinto que vocês têm por ela aqui nesse lugar e eu sei que ela também sente. Muito obrigada, pessoal, por tratarem e cuidarem tão bem da minha neta, ela é tudo para mim e significa muito saber que ela é tão amada. É reconfortante saber que ela terá um lar quando eu me for...
Senti minhas bochechas queimarem, mas de modo algum tentei vetar minha avó, ela estava falando com o coração e eu tinha orgulho de quando ela fazia isso.
O falatório começou todo junto, George veio até minha avó de braços abertos e a abraçou com força, enquanto Charlie vinha até mim e me dava um cascudo, arranhando os nós dos dedos em minha cabeça. Gina agarrou meu pescoço e beijou meu rosto. E tudo que eu ouvia era “nós amamos essa pentelha”, “%Vee% é da família”, “só ela para aturar Fred e George”, “a garota é uma Weasley”, “ela salvou nossa vida”.
E, depois de mais uma onda de abraços e risadas, fomos embora. Minha avó estava muito feliz e satisfeita de finalmente ter conhecido minha segunda família, minha família de verdade e nos afastamos de carro pela trilha recém feita para que eu conseguisse chegar ao local de maneira segura com uma idosa de 80 anos. Fomos o caminho inteiro conversando sobre como foi a nossa noite e o caminho nem pareceu tão longo.
Fim do ponto de vista.
Flashback – 7 de novembro de 1992 – Cozinha de Hogwarts.
Ponto de Vista: Fred.
Estávamos na cozinha roubando comida após passarmos boa parte da noite analisando algumas saídas que ainda não havíamos usado no Mapa do Maroto. %Verônica% enchia a boca com tortinhas de limão e George escolhia os muffins mais bonitos para enfiar nos bolsos das vestes, eu quebrava cookies pela metade para comer.
- Muito obrigada, Mitsy! - %Verônica% quebrou nosso silêncio agradecendo a elfa doméstica que lhe entregou um cálice grande de ouro extremamente polido e reluzente. - Quer um pouco?
- Não, minha senhora. Srta. %Appleby% tem coração bom - Mitsy respondeu baixando a cabeça em uma pequena reverência e %Vee% sorriu para ela, fez um carinho em sua cabeça agradecendo novamente e se virou para nós:
- Já vou indo, tenho que inventar algumas predições de morte para a aula de adivinhação de segunda-feira. Vocês já fizeram?
- Já - eu e George respondemos juntos.
- Quando? – Uniu as sobrancelhas, provavelmente se perguntando se era verdade.
- Você subestima a nossa inteligência, %Appleby% - respondi dando uma piscadela a ela.
- Quantas vezes vamos ter que te dizer que temos nosso método? É impossível nos acompanhar - George disse sorrindo com um falso desdém.
A garota virou os olhos para cima dramaticamente me fazendo sorrir.
- Por que você não faz amanhã? Vai ter o dia inteiro – perguntou George de boca cheia, ele estava se referindo ao fato de amanhã ser domingo.
- Não, amanhã Angie e eu vamos a Hogmeade – explicou ela bebendo o suco da taça que voltou a se encher sozinha.
- Aproveita e traz umas bombas de bosta para nós – falei, colocando a outra metade do cookie na boca.
- E por que você mesmo não vai lá comprar? – perguntou ela me desafiando, ela sabia o porquê. Filch sempre revistava George e eu. Sempre.
- Aproveite a presença de Angelina, Filch nunca desconfia dela – apenas falei dando de ombros.
Ela pareceu ponderar o assunto.
- Deixa eu ver o mapa para ver se a barra está limpa. - Estendeu a mão para mim, colocando o cálice de suco sobre o balcão.
Entreguei o mapa fingindo-me de contrariado e ela arrancou da minha mão, impaciente.
- Harry precisa parar de ficar perambulando pelos corredores essa hora da noite, o Filch vai acabar pegando ele logo, logo - resmungou ela dando de ombros e me devolvendo o mapa. - Até mais, otários.
Ela pegou seu suco e saiu, abanando a mão livre aos elfos que se despediram dela felizes.
Dei uma olhadinha no mapa aberto em minha mão e vi o pontinho escrito “%Verônica% %Appleby%” avançar pelo corredor vazio, ela tinha razão: Harry estava no corredor um pouco mais a frente e eles iriam cruzar caminho em algum ponto perto do banheiro da Murta se continuassem na mesma velocidade.
- Você não fez o dever de adivinhação, não é? - George me perguntou rindo.
- Não - eu respondi cúmplice e desatamos a rir terminando de comer e encher os bolsos de besteiras. Quando nos demos por satisfeitos, agradecemos os elfos e saímos sorrateiros enquanto eu espiava o mapa para ver se nosso caminho estava livre.
Harry estava junto de %Verônica%, mas estavam parados no lugar.
- Aconteceu alguma coisa. - Segurei o braço de George e ele parou, levando os olhos ao mapa imediatamente. Iniciamos uma corrida silenciosa, eu olhava o mapa a todo instante, o pontinho de Harry ia de um lado para o outro, mas ele não saía do corredor.
Chegamos neles em menos de cinco minutos.
- Potter, o que houve? – perguntou George baixinho.
Meus olhos foram até %Vee% e pararam. Meus pés travaram no chão quando entendi o que havia acontecido.
- Eu encontrei ela assim! Não sei o que faço – Harry disse, a voz estava trêmula de nervosismo.
%Verônica% estava petrificada, uma mão estava travada na altura do seu peito com o cálice reluzente, a outra mão estava a caminho do seu bolso direito, lugar onde ela guardava sua varinha. Seu rosto estava com os olhos fortemente fechados. Sua pele parecia ser feita de cerâmica, fria e opaca. Com o coração saindo pela boca, e um pouco de suor surgindo em minha testa, levei minha mão até seu cabelo que sempre cheirava a algo doce e engoli seco quando percebi que estava tão duro quanto o resto do seu corpo. Merda. Merda. Merda.
- Fred? – George veio até mim. – O que faremos?
Olhei meu irmão e notei que seus olhos estavam molhados. Eu tinha que tomar as rédeas da situação. Respirei fundo.
- Harry, vá chamar Dumbledore ou a McGonagall. Ficaremos aqui. – Harry assentiu e começou a correr na direção da sala de Dumbledore. – Na verdade qualquer professor serve, menos o Snape ou aquele paspalho do Lockhart – falei mais alto para que ele ouvisse.
Menos de dois minutos depois McGonagall chegava a nosso encontro, os cabelos soltos, enrolada em um roupão.
Ela avaliou a situação lentamente. Depois seus olhos correram até George e eu.
- O que vocês faziam fora da cama nesse horário?! Quanta irresponsabilidade!
Não dava para mentir sobre a cozinha. %Vee% estava segurando o cálice de suco, e se fossem nos revistar achariam cookies e muffins em nossos bolsos que não tive a ideia de me livrar enquanto estávamos sozinhos. Estava embasbacado demais vendo %Verônica% daquele jeito e George pirando não me ajudou em nada.
- Estávamos fazendo um lanche, Sra. McGonagall, ficamos até tarde fazendo os deveres de adivinhação porque %Appleby% queria ir a Hogsmeade amanhã.
- E vocês simplesmente acharam que seria seguro perambular tarde da noite pelos corredores apenas para comer um lanchinho?
- Não pensamos que fosse trazer tantos problemas... – George disse com a voz falha. Ele realmente estava abatido, e acho que foi isso que fez McGonagall amolecer um pouco.
- Menos dez pontos cada pela tamanha falta de senso, vão para os seus dormitórios, sem paradas extra desta vez!
- Ela vai ficar bem? – perguntei dando uma última olhada em %Vee%, ainda descrente de que em menos de 20 minutos ela estava conosco na cozinha, gargalhando sobre qualquer besteira que eu ou George tivéssemos dito.
- Sim, só precisamos que as mandrágoras estejam maduras para que Sra. Sprout providencie o tônico – ela disse, e virou-se para Harry. – Potter, vou ter que chamar o diretor, não é a primeira vez que o vejo nesta situação.
No dia seguinte, eu, George, Lee e Angelina fomos para a enfermaria logo depois de tomar café da manhã. Na ala dos petrificados havia três pacientes: Colin Creevey, Justin Fletchley e %Vee%. Quando chegamos lá, notei que já havia alguém ao lado dela, era o engomadinho Diggory.
Bufei irritado quando nos aproximamos, Angelina começou a chorar quando viu a amiga naquele estado e Lee cumprimentou Diggory.
Passei a noite inteira em claro, pensando em como deixamos ela sair sozinha sendo que já haviam tido dois ataques. George contrapôs dizendo que não havia nada no mapa que pudesse nos dar alguma dica de que ela corria perigo, mesmo assim não consegui descansar sabendo que podia ter sido evitado. Aquilo estava me corroendo por dentro.
Outra coisa que me corroía por dentro era a presença de Cedric ali. Eu sabia que ele e %Vee% eram amigos, por causa daquela baboseira de Cheiradores de Estrume da Sra. Sprout (como eu e George costumávamos chamar), mas não sabia que eram tão íntimos a ponto de ele vir visita-la antes de qualquer um em um domingo. O cara nem tomou café da manhã?!
- Oi, Ced – Angelina disse, dando nele um abraço forte. Ced? Que intimidade era essa? Olhei para George franzindo as sobrancelhas e ele ergueu os ombros querendo dizer “estou entendendo tanto quanto você”. George não ficou tão incomodado com Diggory, apertou sua mão rapidamente e sentou-se ao lado de %Vee%, analisando suas feições com tristeza.
Apertei a mão que o bonitinho Diggory esticou para mim com certo desdém. Não me orgulho disso.
- Desculpe soar tão rude, mas... Por que você está aqui, Diggory? – perguntei sem delongas, Lee arqueou as sobrancelhas e segurou uma risada, Angelina abriu a boca, horrorizada.
- Por Merlin, Fred! – ela disse, se colocando ao lado do garoto cabisbaixo.
- Ué! Eu só estou perguntando.
- Eu só vim visitar minha amiga. Passamos bastante tempo juntos, sei que não sou tão amigo quanto vocês, mas ainda assim, %Verônica% é importante para mim – Cedric respondeu ligeiramente impaciente, dava para ver em seus olhos que ele havia chorado.
Angelina revirou os olhos, irritada com minha inconveniência.
- Entendi... Tudo bem, só quis saber – falei erguendo as mãos em sinal de paz.
- Vocês estavam com ela quando aconteceu? – ele perguntou, e eu respirei fundo para não falar alguma merda. Antes que eu abrisse a boca, George respondeu:
- Sim... Na verdade não, ela saiu antes.
- E vocês deixaram ela sair sozinha no meio da noite pelos corredores? Mesmo sabendo que os ataques estão acontecendo aos nascidos trouxa? – Ele cutucou novamente.
- Está querendo dizer alguma coisa, Diggory? – Arrumei a postura, ficando claramente mais alto do que ele. – Porque se estiver, acho bom falar logo.
- Fred... – Angelina tentou apaziguar.
- Estou querendo dizer que vocês se dizem tão amigos dela, mas não estavam lá quando ela precisou.
- E onde é que você estava, Príncipe Encantado? Quem você pensa que é para estar com o peito tão estufado assim? – Minha língua sempre foi maior do que a boca, era o que minha mãe dizia.
- Fred! – Angelina mudou o tom, me chamando. Desviei o olhar de Cedric e olhei para ela. – Cedric é o namorado de %Verônica%. Ele tem todo o direito de saber o que aconteceu.
Namorado? Como assim namorado? Desde quando %Verônica% namorava? Não podíamos estar falando da mesma pessoa, %Verônica% vivia conosco!
E então lembrei de todos os momentos em que ela fugia dizendo que tinha alguma tarefa para fazer, buscar livros na biblioteca ou ir à estufa checar as plantas. Ela era inteligente o suficiente para sempre usar desculpas envolvendo estudos, assim eu e George nunca queríamos acompanha-la.
Respirei fundo engolindo tudo que eu queria falar ou jogar na cara daquela engomadinho idiota, e apenas respondi indo na direção da saída:
- Ele pode saber tudo o que aconteceu, só não precisa ficar insinuando coisas, principalmente quando ele sabia muito bem que %Vee% estava indo ao encontro dele.
Dei uma última olhada para trás, só para ver seu sorrisinho idiota se desmanchando e saí.
Fim do flashback.
Nota da Autora: Esse capítulo me deu um quentinho gostoso dentro do coração, o Natal dos Weasley, o pequeno Ted, o presente de George, o discurso da avó, é tudo muito fofo!
Espero que tenham gostado do capítulo, e, principalmente do Flashback que foi finalmente narrado pelo gêmeo preferido das fanfiqueiras.
Deixem aquele comentário maravilhoso <3