The Weasley Twins


Escrita porNaya R.
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 41 minutos

  Ponto de vista: George

  Hospital St. Jeffrey – Condado de Cornwall – 01 de janeiro de 2001.

  Cheguei à recepção do local esbaforido, perdi muito tempo tentando encontrar o hospital e me perdi quatro vezes antes de me localizar nas ruas estreitas do pequeno povoado onde a avó de %Verônica% morava, eu só havia me aventurado pela avenida principal.
  – Boa tarde, qual o quarto de Lucille %Appleby%? – Era uma frase normal de se perguntar, certo?
  A recepcionista baixou os olhos pelo meu terno roxo escuro passeando pela minha gravata verde antes de voltar a me encarar com cara de poucos amigos.
  – Você é da família?
  Sra. %Appleby% era uma mulher de pele negra reluzente e um metro e cinquenta de altura.
  – Sim. – Fui firme na resposta.
  – Qual o grau de parentesco?
  – Sou neto dela.
  Ela mastigou o chiclete com pouquíssima confiança em minhas palavras.
  – Seu nome?
  – George %Appleby%.
  – Você é... irmão da %Verônica%?
  Merda. Ela conhecia a %Vee%? Ou apenas gravou o nome dela durante o momento em que ela estava aqui com a avó? De qualquer maneira ela não acreditaria naquilo de qualquer jeito.
  – Eu...
  – George!
  Virei meu pescoço para ver de quem era aquela voz masculina que me reconheceu naquele ambiente que eu nunca aparecia e me arrependi imediatamente.
  Pete vinha na minha direção com um sorriso desagradável no rosto, qual era a chance daquele ser desprezível aparecer ali? Eu tinha certeza absoluta de que ele sentia o cheiro de %Vee% há milhas, não tinha outra explicação.
  – Você conhece ele? – A recepcionista perguntou à ele.
  – É claro, ele é o namorado da %Vee%.
  Eu sorri amarelo para ela, que fez um movimento de negação com a cabeça.
  – Desculpe, eu preciso muito ir até lá e...
  – Está tudo bem, Amber, pode liberar ele. – Pete chegou até mim e deu duas batidas no meu ombro com uma intimidade que nunca dei a ele.
  Eu sei... eu sei que esse cara não é um completo inútil e babaca, mas não consigo gostar dele, mesmo quando passamos por uma catraca barulhenta e ficamos na frente de uma porta de metal que eu supus ser de um elevador, eu já tinha visitado o papai algumas vezes no ministério e não era algo tão incomum, eu simplesmente não conseguia aturar o cara.
  Chegamos na porta do quarto 282 em completo silêncio, o que foi uma grande vitória para ele que não sabia ficar com a boca fechada em nenhum segundo.
  Não sei o que ele estava realmente fazendo ali, mas quando bati na porta fechada com delicadeza e %Verônica% a abriu com o rosto inchado de tanto chorar e o encarou com as sobrancelhas confusas, percebi que talvez nem mesmo ela soubesse o que ele estava fazendo ali.
  – Oi, erm, vim só trazer os remédios da sua avó, fiquei sabendo que ela estava aqui e pensei que ela fosse precisar...
  – Obrigada, Pete. – %Vee% fungou, pegando a embalagem de papel que ele oferecia.
  – E... Como ela está?
  – Não muito bem, agora está descansando.
  – Tudo bem, se precisar de algo, me chame, tá bem?
  – Claro. Obrigada, Pete, de verdade.
  Pete nos olhou por um instante e tratei de passar meu braço pelo pescoço de %Vee% e lhe dar um beijo na têmpora.
  – Até mais, Pete. E obrigado por me ajudar a entrar.
  Ele se afastou e eu engatei meu outro braço nela, lhe abraçando de verdade dessa vez. Nos conectamos, sua cabeça encaixou na curva abaixo do meu queixo e seus braços contornaram meu tronco, nossas respirações se sincronizaram e ficamos assim durante alguns minutos.
  – Como ela está, %Vee%? É muito grave?
  – Ela teve um infarto... O que poderia ser simples de resolver, mas na idade dela é meio complicado, ela está muito fraca e este é o terceiro infarto dela no período de um ano, os médicos estão bem preocupados.
  – Me desculpe por não conseguir vir antes, vim assim que recebi a sua carta.
  – Está tudo bem, G.
  – Eu queria poder dizer algo que pudesse te confortar de algum jeito, de verdade.
  – Eu sei disso. – Seu sorriso saiu fraco e eu passei o dedão em suas bochechas para secar as lágrimas do seu rosto. Me destruía vê-la daquele jeito depois de tanto tempo vendo seu sorriso incrível, porém era algo que estava fora do meu alcance. Tinha certeza de que os médicos trouxas estavam fazendo todo o possível para mantê-la bem.
  – Entra, estou sozinha aqui com ela. Já avisei meus primos, mas não sei se algum deles vai vir.
  Entramos no quarto e ela encostou a porta, a avó de %Vee% dormia com tranquilidade em um leito grande e aparentemente confortável, havia alguns tubos conectados à ela, um potinho de gelatina amarela e um copo de água com canudo na cômoda ao lado da cama. %Vee% se sentou em um banquinho ao seu lado e segurou a sua mão, os olhos se enchendo de lágrimas novamente.
  – Ela é a minha única família, George. – Sua voz era um fio fino e inseguro. 
  Eu sabia que ela estava se referindo a família de sangue, também sabia que a vida delas era solitária já que os parentes moravam em outros países, mas não tinha muita informação além disso.
  – E a família da sua mãe?
  – Ela era filha única, meus avós paternos faleceram antes de eu nascer, eram da Noruega. Na verdade, minha mãe se mudou para cá quando eles faleceram, foi assim que ela conheceu meu pai.
  – Entendi. – Sentei-me no cantinho da cama ao lado dela. – Você sabe que já é parte da família Weasley, não sabe?
  Um arzinho saiu do seu nariz, como se aquilo fosse o máximo de graça que ela fosse achar hoje.
  – É claro que eu sei. – Roubou o lenço do bolso do meu paletó. – Mas eu nunca vou ser uma Weasley de verdade, entende?
  – Você já é uma Weasley de verdade. Todo mundo te considera uma Weasley, você é mais Weasley do que o Percy!
  – Você tem que parar com essa implicância com o Percy.
  – Não me faça pedidos impraticáveis, %Vee%.
  Conversamos durante algum tempo, eu sempre tentava tirar ela daquela bolha de tristeza de maneira leve, tentando lhe arrancar um sorriso mesmo que fosse leve e ainda assim, a ruguinha de preocupação entre as sobrancelhas não saía de modo algum. Eu não estava tentando soar insensível, só tentava fazer aquele momento não ser um martírio sem fim.
  – Você não quer aproveitar que eu estou aqui para ir em casa? Tomar um banho, comer algo decente? – perguntei quando ela sucumbiu aos encantos da gelatina de abacaxi abandonada.
  – Estou bem, essa gelatina está ótima.
  – Pelo amor de Merlim, %Appleby%. É abacaxi, é impossível que esteja ótima.
  %Vee% sorriu mostrando a língua e deu mais uma colherada na sobremesa.
  – Você é muito dramático.
  – Sou mesmo. – Me ajeitei na poltrona que tinha no canto do quarto. – %Vee%, vai lá. Toma um banho, pega algumas coisas que você precisa, depois volta. Eu fico aqui com ela.
  Ela pareceu pensar por um minuto.
  – Tudo bem, mas se alguma coisa acontecer você dá um jeito de me avisar.
  – Deixa comigo.
  Ela terminou sua gelatina e levantou-se indo em direção à porta.
  – Obrigada, G.
  – %Vee%, por favor, acho que já passamos dessa fase.

  O silêncio me arrebatou com força naquele quarto. Apenas as lufadas de ar do sono da Sra. %Appleby% eram audíveis. Pensei em tudo que havia acontecido nesse feriado e suspirei alto enquanto imaginava que nesse horário Ron, com certeza, já deveria ter fechado a loja e estava a caminho de casa.
  Escrevi uma carta para mamãe, explicando a situação, já que tenho certeza de que ela gostaria de ser avisada e enviei por uma coruja que conjurei na janela. A noite consumiu toda a luz do sol e eu liguei o aparelho de televisão no cantinho do quarto para me distrair, o volume zerado e torcendo para que a claridade do aparelho não acordasse o sono de Sra. %Appleby%.
  A TV ligou no noticiário e eu li a manchete que rolava na parte inferior da tela: assassino procurado ainda está foragido e pode ter sido visto por testemunhas locais.
  Na tela, um entrevistador de campo falava com uma pessoa na rua, a pessoa parecia apreensiva e assustada, mas eu não entendia o que estavam falando, depois de algum tempo uma imagem de um retrato falado apareceu na tela e eu não fazia ideia de quem era a pessoa, mas uma cicatriz cortava a sobrancelha direita e seguia para baixo do olho e o nome estava escrito em letras garrafais abaixo: Gilbert Cuthbert.
  Fui distraído por um barulho e notei que Sra. %Appleby% estava acordando, desliguei o aparelho e me levantei.
  – Sra. %Appleby%?
  Seus olhos amendoados piscaram algumas vezes em minha direção se acostumando com a meia-luz do quarto.
  – George?
  Não pude deixar de sorrir por saber que ela me reconheceu em uma situação daquelas.
  – Isso mesmo, como a senhora está se sentindo? – Me aproximei.
  – Estou confusa, o que você está fazendo aqui? Onde está a minha neta?
  – %Vee% foi tomar um banho para passar a noite aqui, já deve estar voltando.
  Ela assentiu. Continuei:
  – Está precisando de algo? Comida? Água?
  – Gostaria de um pouco de água sim.
  Peguei o copo que estava na cômoda e levei o canudo próximo da sua boca, ela sugou o líquido com calma e descansou a cabeça no travesseiro novamente.
  – Obrigada, querido.
  – Eu só vim fazer companhia, ver como a senhora estava... – Sorri e ela correspondeu, procurando minha mão para apertá-la.
  – Obrigada, querido, fico muito feliz em saber que a minha neta tem alguém como você para contar.
  – %Vee% tem muitos amigos leais, Sra. %Appleby%.
  – Mas nenhum deles é como você e o seu irmão, você é acolhedor, toda a sua família é.
  Aquilo aqueceu meu coração.
  – Obrigado, %Vee% é da família.
  Sra. %Appleby% sorriu de maneira doce, deu umas batidinhas na cama para que eu me sentasse na beirada.
  – Eu entendo que todos vocês considerem ela da família, e fico muito feliz com isso, mas... George, querido, quando é que você vai largar esse sentimento de lado e finalmente ficar com a minha neta?
  – O-o quê?
  Não acredito que a pessoa que deixaria George Weasley sem palavras seria uma senhora de noventa anos.
  – Desculpe estar sendo tão sincera, mas vi vocês crescerem, fiz parte dessa jornada assim como a sua família e eu vejo as coisas, meu bem.
  – A senhora ? – perguntei sentindo minha boca secar e ela balançou a cabeça. – Vê o quê?!
  – Eu vejo como você olha para ela, mesmo antes de ela namorar seu falecido irmão.
  Meu coração batia tão forte em meu peito que me deixava meio sem ar.
  – A senhora está se confundindo, eu nunca...
  – George, querido, está tudo bem, eu sou uma velha de noventa anos que só quer o bem da própria neta, e eu sei que você a trataria com todo o amor do mundo.
  – Eu já cuido dela com todo o amor do mundo, Sra. %Appleby%...
  – Lucille, por favor.
  Pigarreei.
  – Lucille, eu adoro a sua neta, do fundo do meu coração, mas você está enganada – tentei explicar para aquela senhora teimosa que ela estava tremendamente errada. Será que era certo fazer isso? Contrariar alguém que está no hospital depois de um infarto? De qualquer maneira, acho que eu não conseguiria concordar com aquela loucura que ela estava dizendo.
  Ela sorriu, parecia estar se divertindo com a situação.
  – Leve o tempo que precisar para aceitar, querido, só não demore muito, você está em primeiro lugar, mas não é o único que gosta dela...
  – Como assim? – Aquilo deixou um nó esquisito em minha garganta.
  – Ela vive mencionando um tal Neville em suas cartas para mim, e sempre que eu vou na farmácia, o querido Peter me pergunta dela.
  Aquelas informações fizeram meu semblante fechar, não consegui segurar a irritação da palavra “querido” na frente do nome do infame Pete e muito menos saber que Neville estava sendo tão relevante no dia-a-dia de %Verônica% a ponto de ela contar para sua avó.
  – Neville e Pete? – debochei, fazendo-a soltar uma risada alta.
  – Você é hilário, garoto. – Se ajeitou no leito. – Olha só, sei que você teve uma perda terrível, acredite, eu já perdi um filho e sei como essa dor nunca passa... Ter %Verônica% por perto foi a melhor solução que você teve e foi algo importante para vocês, um laço foi criado, uma conexão, algo mais do que fraternal, maior do que vocês mesmos podem entender.
  Suspirou com os olhos marejados em minha direção.
  – Você não sabe como a relação de vocês me deixa feliz e tranquila, meu coração se enche de alegria em saber que ela sempre vai te ter ao lado dela, mas George, e quando você se casar? Quando você tiver filhos? E se %Vee% nunca encontrar alguém como seu irmão? Ela vai continuar sendo parte da família?
  – É claro que vai!
  – Mas não vai ser a mesma coisa.
  – Sra... Lucille, se tem algo que não ronda em minha cabeça no momento, é casamento... Eu estou tão ocupado com...
  – Minha neta?
  – Com a loja. – Mirei seus olhos castanhos que se divertiam com minha cara e ela riu mais uma vez.
  – Eu sei que o que eu estou dizendo pode ser algo estranho aos seus ouvidos nesse momento... – suspirou ela, ainda com um sorrisinho no rosto. – Mas comece a pensar nisso, George. O amor de vocês é algo mais, não é só amizade.
  – Claro que não é só amizade, Lucille, é cumplicidade, é conexão, é companheirismo, eu acho que nunca vou conseguir ter isso com mais alguém além do Fred.
  Aquele sentimento nostálgico me arrebatou com força... Tenho certeza de que nunca teria aquele tipo de conexão com mais alguém, eu não tinha nem com meus outros irmãos, quem dirá com outras pessoas estranhas além das que eu já conheço. Então era bem óbvio que o que eu tinha com %Verônica% era algo além da amizade, todavia não consigo ver isso como um sentimento romântico.
  A lembrança de %Vee% se pendurando em meu pescoço e unindo nossos lábios surgiu em minha mente com tanta naturalidade que eu quase podia sentir a pressão da sua boca na minha, o cheiro doce dos seus cabelos e a força que eu fiz pondo minhas mãos em sua cintura.
  Lucille apertou minha mão, me trazendo ao mundo real de volta.
  – Mais um motivo para você começar a ver essa amizade com outros olhos, meu bem.
  Apenas encarei seu sorriso sem saber o que dizer.
  – Mas não se sinta pressionado, só quero o que é melhor para minha neta e sei que você é essa pessoa. Deus sabe o quanto essa garota precisa rir, se divertir e aproveitar a vida. Ela já presenciou a morte vezes demais e temo que eu serei a próxima...
  Repassei a vida de %Vee% em minha cabeça rapidamente e percebi a verdade nas palavras de sua avó: sua mãe, seu pai, Cedric, Fred, e todos os colegas de classe que se foram na guerra de Hogwarts... E sua avó estava acamada com noventa anos. Era óbvio que Lucille estava preocupada com a neta que tinha mais contato.
  – Eu prometo que nunca vou abandonar ela, Sra. %Appleby%. – Segurei sua mão com as minhas. – %Verônica% é a pessoa mais importante da minha vida. Eu amo ela.
  Uma lágrima escorreu pelo seu rosto quando seu sorriso se alargou, soltei o ar que estava preso em meu peito que eu nem tinha percebido que estava trancado, um alívio surgiu em meus ombros por ter dito aquilo em voz alta.
  – Você não sabe como é bom ouvir isso, querido. Muito obrigada.
  A porta se abriu e %Verônica% sorriu para nós, meu corpo derreteu por um segundo, me recompus com dificuldade.
  – Vovó! – Seu sorriso tinha a força de um patrono corpóreo. Pôs as coisas sobre a poltrona e seguiu até nós, abraçando a avó emocionada demais para pensar que aquilo poderia machucá-la.
  – %Vee%, vai com calma – alertei e ela se ajeitou.
  – Desculpa, vó. Você precisa de algo? Está com fome? G, você pode apertar esse botão?
  Apertei o botão e me levantei sabendo que elas precisavam de um tempo sozinhas, não queria ser o chato intrometido, então pedi algum dinheiro trouxa para %Vee% e fui atrás daquelas máquinas que tem bebidas gaseificadas pelos corredores.
  Andei sem rumo por alguns minutos, a cabeça longe demais para assimilar o que eu estava procurando de fato... Meu cérebro ainda ecoava algumas das palavras de Sra. %Appleby% e um arrepio subia minha espinha cada vez que um flash dos lábios de %Verônica% grudando nos meus surgia.
  – Você está perdido?
  Finalmente acordei de meus devaneios. Uma jovem enfermeira com belos olhos azuis me abordou com um sorriso gentil no rosto.
  – Estou procurando a máquina de bebidas.
  – Tem uma no final do corredor, segue aqui e vira à esquerda.
  Assenti.
  – Vai conseguir voltar ao quarto?
  Olhei para trás e notei que não estava mais no corredor do quarto.
  – Acho que sim. – Minha voz não era a mais confiável.
  – Lembra do número que era?
  – Não. – À esta altura, eu já devia estar com cara de idiota.
  – Lembra pelo menos o nome do paciente que está visitando? – Sua risadinha me fez relaxar um pouco.
  – Lucille %Appleby%.
  – Ahhh, sim! Um amor de pessoa!
  Normalmente eu seria uma pessoa mais simpática e receptiva à uma conversa leve e cheia de flertes, mas eu estava tão atônito com a conversa com a avó de %Vee% que meu cérebro não estava funcionando nem com aquela garota bonita que estava me dando bola.
  – Você quer que eu te acompanhe?
  – Claro. – Começamos a andar na direção que ela tinha indicado. – Desculpe, eu geralmente sou mais divertido do que isso...
  – Está tudo bem, sei que o seu dia não deve ter sido fácil. – Ela foi simpática por nós dois.
  – É, recebi a notícia faz pouco tempo, ainda não consegui assimilar direito.
  – Lucille é durona, não tem com o que se preocupar.
  – Você acha?
  Ela balançou a cabeça.
  – E você é neto dela?
  – Sou amigo da neta dela.
  Ela me olhou de cima a baixo.
  – Amigo? Só amigo?
  – É, por quê?
  – Porque isso é bem adorável.
  – É, eu sou um cara bem adorável.
  Ela soltou uma risadinha e empurrou meu ombro.
  – O quê? É verdade – brinquei dando um sorrisinho.
  Chegamos na máquina de bebidas e de maneira intuitiva entendi que tinha que colocar o dinheiro e digitar um número. Eu só esperava que o dinheiro fosse suficiente. Digitei o número que fez uma lata vermelha com letras brancas descer por uma escotilha.
  Fizemos o caminho de volta trocando mais algumas palavras leves, eu respondia no automático sem levar muito a sério o que estava sendo dito ali, minha cabeça vagando por caminhos muito mais interessantes do que aquela conversa.
  Chegamos na porta do quarto enquanto ela falava animada sobre o seu turno no hospital.
  – Eu saio daqui às onze.
  – Legal... Como é o seu nome mesmo?
  – Mandy.
  – É um prazer, Mandy, eu me chamo George. Obrigado por me guiar por aqui, eu provavelmente não ia conseguir encontrar o caminho de volta.
  – Foi um prazer, Georgie.
  Aquilo não soava tão bem quando era outra pessoa falando. Mandy pegou um papel e uma caneta do seu bolso, escreveu alguns números e me entregou.
  – Caso você queira fazer algo depois das onze horas, me liga.
  Peguei o papel meio confuso.
  – Claro, hm, obrigado.
  – A gente se vê.

  No quarto, Lucille estava cochilando novamente e %Vee% estava sentada na poltrona observando o chão sem piscar, os olhos vidrados em qualquer ponto aleatório.
  – %Vee%? – sussurrei me aproximando. Agachei na sua frente e seus olhos ganharam vida.
  – Oi, G. Achou o que queria?
  Lhe entreguei a lata e ela sorriu. Me explicou que as enfermeiras vieram até o quarto, lhe trouxeram água e foram avisar a cozinha para preparar seu jantar e lembraram que o horário de visitas era até as nove da noite. Agora eram oito e meia.
  Ela abriu a lata e bebeu um gole da bebida, fechou os olhos aproveitando aquele pequeno momento de prazer, depois me ofereceu a lata.
  Imitei seu gesto, bebi um gole e aproveitei cada bolhinha que estourava pelo nariz, o líquido gelado refrescando minha garganta e o açúcar me dando a pitada certa de energia que eu deveria ter naquela noite.
  – Sua avó vai ficar bem, %Vee%. Eu sei disso, ela é muito forte.
  Apertei suas mãos sobre a lata que eu havia devolvido.
  – Ela é, não é?
  – É claro. É uma mulher genial, teria sido uma bruxa excepcional.
  – Ela seria no nível da McGonagall. – Bebeu mais um gole, os olhos brilhantes cravados nos meus.
  – Com certeza! Nossa, ela daria uma surra na McGonagall. Ia virar um animago e ia descer a porrada naquele gato pomposo.
  Ela segurou uma risada de modo cômico, a boca cheia de refrigerante, deu um tapa no meu ombro enquanto tentava engolir a bebida. Dei uma risada junto com ela, mas senti minha respiração travar quando ela lambeu os lábios tentando resgatar qualquer gota que pudesse ter escorrido. Um calor estranho subiu por meu pescoço e meus sentidos se perderam quando sua boca se moveu e eu não consegui acompanhar o que ela disse.
  – O quê?
  Ela percebeu que eu estava encarando? Se sim, estava disfarçando bem.
  – Acho que ela seria uma coruja. – Sorriu de maneira suave.
  – Coruja? Sua avó seria um touro. Certeza que o patrono dela seria um animal forte e meio incontrolável.
  – Você está certo.
  – Pelas barbas de Merlim, %Verônica%. Você está precisando descansar mesmo... Já está começando a alucinar. Eu estou certo?
  Ela balançou a cabeça de maneira suave com um sorriso contido no rosto, o termo usual para dizer “você é um idiota, George Weasley” sem realmente utilizar palavras.
  – É sério, você precisa descansar. – Aproveitei a deixa para me levantar. Ela pôs a latinha no chão e ergueu as mãos em minha direção para que eu a puxasse para cima.
  Nos abraçamos mais uma vez, uma sensação estranha de que eu não devia deixa-la tomou conta de mim, mas eu sabia que era apenas a ansiedade de não poder realmente ficar ali. Eu podia pedir a capa da invisibilidade emprestada para Harry ou até usar algum feitiço de memória em algumas enfermeiras, porém, a que custo? %Vee% podia não me querer ali, podia querer um momento a sós com sua avó e até outros parentes dela podiam vir até ali e eu estaria atrapalhando um momento íntimo como aquele sendo... Bem, sendo eu, uma pessoa que não era da família.
  Beijei o topo de sua cabeça, e segui até a porta sem dizer nada.
  – Obrigada pela visita, G. Minha avó gostou muito de te ver por aqui.
  – Ela disse isso?
  – Sim, disse que você a fez rir.
  – É, esse é o meu lance.
  – Seu lance?
  – Sabe, o lance que cada pessoa tem.
  – Como assim?
  – Luna é estranha, Hermione é inteligente, Rony é idiota, eu sou engraçado...
  Ela ponderou durante alguns segundos.
  – E eu?
  – Você está sempre certa.
  Ela provavelmente achou que me pegaria de surpresa, mas aquele era o seu lance desde que %Verônica% nos ajudou a desvendar os mistérios do Mapa do Maroto. Naquele dia eu decidi que haveria poucas coisas que ela me diria que eu não acreditaria, ou que eu não moveria montanhas para que se tornasse realidade.
  Seu sorriso iluminou meu fim de noite e eu a puxei para mais um abraço antes de ir na direção que eu achava ser a saída.
  – Boa noite, %Appleby%.
  – Boa noite, Weasley.

  A conversa de Lucille %Appleby% ecoou em minha cabeça feito uma ideia errada nos meus anos de adolescente inconsequente. Suas palavras soaram leves, mas criaram uma paranoia digna de um filme de suspense com final inesperado. Pensar em %Verônica% como um par romântico me soava completamente errado e um possível início de uma quarta guerra bruxa. Será que Lucille não pensou no fato de que ela namorou meu irmão? Que minha família a via como a eterna namorada de Fred? Que ela faz parte da família porque era interesse amoroso dele? Que eu nunca poderia sequer pensar em uma possibilidade dessas porque era... errado?
  Isso tudo sem mencionar o fato de que eu namorei Angelina, a melhor amiga de %Verônica%.
  Como, em nome de Merlim, eu poderia ser mais egoísta? Angel era uma amiga leal que merecia respeito e admiração e eu precisava, urgentemente, apagar essa conversa da minha mente.
  Fui até o meu quarto, me ajeitando para dormir depois de tomar um banho que colocou toda a sanidade de volta em minha cabeça.
  %Verônica% era a minha melhor amiga, e continuaria assim, não existia motivo algum para pensar qualquer outra coisa.
  Nada.
  Zero.
  Ouvi o estalo seco vindo do quarto de %Vee% e soube que alguém havia aparatado lá, empunhei minha varinha em estado de alerta.
  – Forge?
  – %Verônica%? O que houve?
  Seus olhos estavam inchados e eu já sabia a notícia que estaria por vir.
  – A vovó... Ela...
  Seu corpo desmoronou sobre o meu e meus olhos encheram-se de água, acariciei seus cabelos sem saber o que fazer.
  – Eles estão tentando reanima-la, eu fui para o banheiro.
  – Ah, %Vee%... eu sinto muito.
  Ela chorou, minha garganta embolou enquanto eu tentava engolir as lágrimas que brotavam em meus olhos. O silêncio reinava entre nós, apenas soluços e respirações entrecortadas quebrando os fragmentos de nossa bolha.
  – Ela descansou, eu sei disso... Mas... Era minha família, entende? Agora o que me resta são alguns primos distantes que fingiam se importar e provavelmente vão brigar pela herança, me chamar de usurpadora, de ladra e falar que manipulei ela.
  Suspirei ainda sentindo meu peito pesar, afaguei suas costas ainda apertando seu corpo contra o meu, querendo roubar todo e qualquer sentimento ruim que ela pudesse vir a ter, mas eu sabia que era impossível naquele momento. Há momentos em que não se pode fugir do luto, há momentos em que só temos que encará-lo de frente.
  – Esquece isso, %Vee%. Só você sabe da sua verdade e só você sabe o que vocês passaram juntas todos estes anos. Eu vou estar contigo em todo momento, vamos enfrentar isso juntos, tá bem?
  Ela retirou o rosto do meu peito e ergueu os olhos em minha direção. O tempo parou por um momento, não sei dizer exatamente quanto, mas seus olhos de chocolate encararam os meus com uma intensidade que me fez tremer, a pequena sombra de um sorriso surgiu no canto dos seus lábios.
  – Obrigada Georgie. – Era isso, ali estava o meu verdadeiro apelido, saindo das profundezas do seu peito e chegando aos meus ouvidos com todos os significados possíveis. Sua mão subiu do meu ombro para minha nuca me arrancando arrepios que ficaram escondidos pelo meu suéter surrado de usar em casa, seus dedos enlaçaram meus cabelos e ela puxou minha cabeça na direção da sua tocando testa com testa - porque meu coração estava tão acelerado? - e fechou os olhos suspirando. Umedeci os lábios, sentindo sua respiração batendo em minha boca e... Ela estava bem ali, não estava? Só alguns milímetros e minha boca encostaria na sua, seus lábios eram tão bonitos, eu podia só inclinar um pouco a cabeça e o mundo inteiro poderia explodir em uma bola de fogo porque %Vee% estaria ali comigo, sua respiração misturando-se com a minha, seu cheiro de baunilha me abraçando, seus dedos mergulhados em meu cabelo e, por Merlim, eu precisava me afastar, porém... Por que eu não queria me afastar?
  – Você fica lá comigo?
  Sua voz era um afago quentinho em meu peito e seu hálito me desestabilizou por um segundo.
  – É claro que sim.
  Ela voltou a me abraçar, de algum modo quase sobrenatural eu entendi que aquele abraço significava “eu não quero ir, queria poder ficar aqui com você até tudo isso acabar”, e eu ficaria... Faria qualquer coisa que ela me pedisse.

  O funeral de Lucille Marie %Appleby% aconteceu em sua própria casa no Condado de Cornwall. Muita gente compareceu, vizinhos, colegas e pessoas que %Vee% nem conhecia, mas que conheciam ela de tanto que Sra. %Appleby% falava da neta preferida.
  Conheci alguns de seus tios e primos distantes, e ela me apresentou todos como seu namorado.
  Havíamos entrado naquele assunto alguns dias antes, quando %Verônica% me admitiu que já seria peso o suficiente aguentar aquilo tudo e não queria ter que ficar explicando para pessoas que ela nem conhecia a nossa relação íntima. Sem contar que Pete também estaria lá, então era um jeito de tudo fluir mais facilmente.
  Os Weasley compareceram, assim como alguns amigos mais próximos de %Vee%, como Angelina e Oliver (que estavam grudados desde o Casamento de Harry e eu não sabia dizer se era um relacionamento ou apenas velhos amigos se aproximando), Lee, Luna, Neville e alguns professores de Hogwarts.
  – Minha tia quer te conhecer.
  – Alguma informação que eu deva saber antes?
  – Se tiver, eu também não sei te adiantar, conheço ela tanto quanto seu pai conhece a utilidade dos artefatos dos trouxas.
  Soltei uma risadinha.
  A pior parte do luto de %Verônica% já havia passado, ela sabia que sua avó não queria passar os últimos dias de vida em uma cama de hospital, já que sempre foi uma defensora dos seus momentos de liberdade, havia vivido uma vida plena em nosso mundo e agora estava descansando em algum lugar com seu filho há muito perdido.
  Agora era a hora de lidar com as pessoas vivas e esta era uma das piores partes.
  – Essa gente estranha... Tenho certeza de que a mãe não estaria gostando disso... 
  – Pois é... Nunca vi tanta gente ruiva em um local só em toda a minha vida!   
  – Minha avó adorava todos que estão nesse local, tia, principalmente os ruivos! Muitos deles eram muito mais presentes do que os próprios filhos, acredita? – %Verônica% iniciou a conversa de maneira divertida e eu segurei o riso mordendo a boca pelo lado de dentro. Sua tia deu um sobressalto, pondo a mão sobre o peito, seu olhar me mediu de cima abaixo e ela sorriu amarelo para a sobrinha.
  – Ah, oi, %Verônica%. Este é o seu namorado?
  – Sim, este é o George. – %Vee% apertou meu braço. – George, essa é a minha tia Marlene.
  Eles não sabiam nada sobre o mundo bruxo, pelo menos era o que minha falsa namorada esperava... Então todos os membros da minha família deram o seu melhor para usar roupas pretas no funeral da Sra. %Appleby%. Mesmo assim, os cabelos flamejantes sempre chamavam a atenção.
  – É um prazer. – Apertei a sua mão, ela não era parecida com as %Appleby%s que eu conheci, era mais alta e esguia, tinha um rosto mais pontudo e menos redondo como o de %Vee% e Lucille.
  – Tia Marlene é casada com o irmão do meu pai – explicou %Vee% e ergui as sobrancelhas entendendo o motivo da pouca similaridade.
  – Prazer, George. A quanto tempo vocês se conhecem?
  – Há mais de dez anos.
  – Isso é bastante tempo. – A garota que estava com Marlene falando sobre a quantidade de ruivos no recinto respondeu.
  – Essa é Giselle, minha prima. – Giselle tinha traços ligeiramente mais próximos de %Verônica%, mas ainda era muito mais parecida com Marlene.
  – É bastante tempo mesmo, nos conhecemos ainda crianças. – respondi sem saber exatamente o que dizer naquela interação estranha, com pessoas estranhas e era perceptível que %Vee% estava tão desconfortável quanto eu. – Estas pessoas ruivas são...?
  – São a minha família – %Vee% interrompeu a sua pergunta nada discreta. – São as pessoas que chamavam minha avó para passar o Natal com elas, que a trataram como família quando nenhum membro da família dela o fez, mesmo quando ela perdeu o filho mais velho.
  Merda, aquelas pessoas não tinham o direito de vir até aqui e desestabilizar minha falsa namorada desse jeito. O que eu faria para apaziguar essa situação?
  – %Vee%... Está tudo bem. – Abracei-a pelos ombros, tentando, delicadamente, manter aquele serzinho briguento dentro dos níveis aceitáveis de um funeral.
  – Não está tudo bem, George! Eles estão o dia inteiro murmurando coisas preconceituosas pelas nossas costas, insinuando coisas que fariam minha avó se levantar daquele caixão agora mesmo e mandar todo mundo para a puta que o pariu por estarem sujando o tapete dela e por terem trocado as petúnias de cima do piano de lugar. 
  Marlene e Giselle arregalaram os olhos visivelmente desconfortáveis, dei um sorriso amarelo e guiei minha falsa namorada pela casa até sairmos para o jardim dois fundos.
  Charlie estava lá conversando de maneira leve com um cara que eu não fazia ideia de quem era, quando nos viu, veio até nosso encontro.
  – Está tudo bem?
  – Não – %Vee% respondeu de maneira grosseira. Respirou fundo. – Desculpa, sim, está tudo bem. Só minha família que é uma... coisa estranha.
  – %Verônica%? – O cara que estava conversando com Charlie se aproximou também.
  – Ah, oi, Markus.
  – O que aconteceu? Foi a mamãe, não foi? Ela não cala a boca desde que chegamos, papai não aguenta mais – Markus disse irritado. Será que ele era filho de Marlene? Era muita coincidência, certo? %Vee% soltou uma risadinha, como se estivesse tentando relaxar a qualquer custo.
  – Sim, George, ele é filho da tia Marlene. – Ela provavelmente viu que eu estava tentando de todo jeito entender aquela árvore genealógica.
  Nos cumprimentamos.
  – Markus é o primo legal.
  – Talvez não tão legal assim, mas meus pais e minha irmã fazem a média ser bem baixa.
  Eu e Charlie sorrimos.  
  – Entendo perfeitamente, cara. Tenho seis irmãos e mesmo assim o destaque em mim é algo bem evidente – Charlie brincou e todos rimos.
  – Você bem que queria. – Empurrei seu ombro.
  – %Vee%, fala a verdade. Olha no fundo dos meus olhos e me diz se eu não sou o irmão mais legal.
  %Verônica% gargalhou e Charlie deu uma piscadinha para mim, Markus percebeu o que ele estava fazendo para distraí-la daquilo e sorriu de maneira gentil para Charlie.
  – Desculpe, Charlie. Não posso fazer isso. – Ela escondeu o rosto nas mãos, sorrindo.
  Continuamos ali com eles até a hora do sepultamento.

  No cemitério, ficamos todos em volta do caixão que repousava fechado acima da cova que já estava feita no solo tapada por uma toalha bonita, petúnias roxas e brancas (as favoritas dela, segundo %Vee%) decoravam ao redor do ambiente, tenho certeza de que Sra. %Appleby% adoraria aquele local.
  Um padre fez algumas orações cristãs muito respeitosas e por fim perguntou se alguém queria dizer algo. Seus filhos ficaram em silêncio e %Vee% deu um passo à frente.
  – Vovó deixou uma carta e pediu para que eu lesse aqui.
  Retirou a carta do bolso do sobretudo preto e baixou a cabeça para ler.

  “Muita coisa aconteceu em minha vida. Muita coisa que sou grata e muitas coisas das quais me arrependo.
  É difícil finalizar a sua vida lembrando de tudo que poderia ter dito ou feito, as pessoas que eu deveria ter visitado, as pessoas que eu deveria ter pedido perdão ou as pessoas que eu deveria ter dado mais atenção.
  Por esse motivo, vou encerrar minha vida sendo a pessoa que fui, uma velha pacata e sem graça, porque o amor transcende qualquer barreira, qualquer distância e qualquer desentendimento.
  Aos meus amigos, espero por vocês para jogar uma partida de bingo no céu.
  Aos meus filhos, espero que um dia nos encontremos para que tudo isso não deixe de ser apenas uma besteira passageira que não irá nos acompanhar nos reinos dos céus.
  Aos meus netos, espero que vocês não cometam os mesmos erros que eu, e que seus filhos e netos tenham uma família perfeita e unida.
  À minha neta, %Verônica%, que você seja mágica até o fim dos seus dias, e ilumine todos ao seu redor com esse brilho que sempre traz consigo.
  À Molly e Arthur Weasley, estarei cuidando de Fred do mesmo jeito que vocês cuidaram da minha neta durante todos estes anos

  Faltavam mais algumas linhas escritas na carta, porém %Vee% não foi capaz de reproduzir pois sua voz travou na garganta e embolou por conta das lágrimas. Dei um passo em sua direção e peguei a carta da sua mão com delicadeza, enquanto ela abraçava meu pescoço chorando silenciosamente. Pigarreei, contornando seu corpo com um braço e segurando a carta com a mão livre.

  “Por fim, agradeço a todos que se fizeram presentes neste funeral chato e, provavelmente, entediante. E quero que saibam que a vida é apenas uma passagem neste plano e que Deus nos reserva infinitas oportunidades de redenção em sua casa. Que o luto inunde seus corações de sabedoria e boas intenções.

  Com carinho,
  Lucille Marie %Appleby%

  Flashback

  Hogwarts – Banheiro feminino do segundo andar – 09 de janeiro de 1996.

  Ponto de vista: George

  – Aqui. – Depositei os ingredientes que faltavam na pia vazia enquanto %Vee% mexia a poção concentrada na cor da mesma. Ela usava uma faixa na cabeça para que nenhum fio de cabelo caísse no líquido fumegante.
  – Por que está azul? – perguntei cruzando os braços, apoiando o quadril na pia despretensiosamente.
  – Só fica rosa depois que adiciona as pétalas de flor de sabugueiro.
  Ouvimos passos urgentes e fiquei alerta, por mais que soubesse que quase todos ignoravam aquele banheiro por conta da Murta.
  Fred chegou esbaforido.
  – A patrulha dos babacões está vindo.
  Já tínhamos ensaiado aquilo: levei a mesa com o caldeirão para um dos boxes, %Verônica% sentou na pia, retirou a gravata pela cabeça e soltou os cabelos, bagunçando-os de propósito, Fred me ajudou a levar o restante dos ingredientes para o box e saiu de lá afrouxando a gravata e abrindo alguns botões da camisa. Ele se posicionou entre as pernas dela como se estivessem na maior pegação do século.
  – Mexe devagar e no sentido horário, George – %Verônica% me avisou antes de ouvirmos alguém abrir a porta.
  – George? – A voz esganiçada daquela garota irritante da Sonserina ecoou pelo banheiro vazio. – Mas você não está namorando o outro?!
  Por Merlin, aquela idiota achava que Fred era eu. Segurei o riso e comecei a mexer a poção como %Vee% havia dito.
  – Eu só troquei o nome, esse é o Fred – %Vee% tentou se explicar, fingindo estar nervosa.
  – Cala a boca, %Appleby%. Você acha que eu tenho cara de idiota? – A garota respondeu irritada. Sim, nós três te achamos uma idiota por completo, não só a cara.
  – Acho que isso não é da sua conta, sonserina. – A voz de Fred soou ligeiramente na defensiva.
  – Com certeza não é, mas acho que deve ser do seu irmão. – Ouvi a porta sendo aberta. – Vamos, Goyle, temos uma notícia muito mais interessante para dar.
  – Pansy, espera... – %Vee% fingiu estar preocupada, mas foi interrompida pelo barulho da porta batendo.
  Três segundos depois soltei uma risada alta que fez os dois desmontarem em gargalhadas também. Abri a porta do box, pondo a cabeça para fora:
  – Parabéns pela interpretação, agora a fama de pegadora dos gêmeos vai subir um degrau.
  %Verônica% limpava as lágrimas de risada do rosto.
  – Eu nunca mais vou me envolver com vocês dois, é sério.
  – É nosso último ano, %Vee%. Aproveita! – exclamou Fred a ajudando a descer da pia enquanto ela já prendia os cabelos na faixa de cabelo de novo.
  – Ah sim, vocês dois vão virar lendas, eu vou virar a garota que namorou os gêmeos ao mesmo tempo – reclamou.
  Puxei a mesinha para fora do box usando magia e levei até onde estava, %Vee% pôs uma pitada de algo e um vapor branco subiu da poção.
  – Deixa de ser besta, você é a maior artilheira que a Grifinória já viu. – Fred tentou amenizar a situação e me olhou de maneira significativa.
  – E a melhor aluna de poções que o Snape já viu, mas aquele babaca nunca vai admitir – falei apoiando meu ombro no box mais próximo deles. Fred abotoou os botões da camisa.
  – E você ajudou o grandioso Harry Potter na segunda tarefa do torneio tribruxo, isso conta como algo, huh?
  %Verônica% bufou dando um sorrisinho meio convencido.
  – Os gêmeos Weasley não seriam ninguém sem %Verônica% %Appleby%. – Pus a cereja no bolo e seu sorriso escapou de vez, fazendo eu e Fred sorrirmos.
  – É, %Vee%, e daí que você vai ficar conhecida como a garota que pegou os dois gêmeos? Eu meio que saio perdendo nessa. Eu sou o corno!
  Soltei uma gargalhada.
  – E eu sou o doente que pegou a namorada do irmão!
  %Vee% riu.
  – Vocês não entendem como é ser menina, mas tudo bem. A intenção foi boa – disse ela, pegando mais um ingrediente, checando o livro e jogando-os na poção. Uma fumaça avermelhada subiu. 
  – Nos desculpe por te meter nisso, mas o que importa é essa poção dar certo... Você acha que vai dar certo? – perguntou Fred dando um passo para perto do caldeirão.
  – Ok, isso me ofendeu um pouco – resmungou ela. – É óbvio que vai dar certo.
  Soltei uma risada me aproximando também, a tempo de vê-la pondo uma pena de pavão holandês dentro do caldeirão.
  – Não dê ouvidos ao Fred, acho que você já devia ter aprendido isso à essa altura.
  Ela me olhou cúmplice e deu uma piscadinha.
  – Está pronta.
  Mexeu a concha, levantando o líquido de cor rosa perolado e devolveu ao caldeirão para mostrar a viscosidade da poção. Levou a cabeça para perto e inalou.
  – Cookies da minha avó, caldeirão novo e... – Suas bochechas ganharam um tom avermelhado. – Pólvora.
  Eu sabia que aquele momento era algo íntimo que não devia ser dito em voz alta, mas suas preferências saíram com tanta naturalidade que ela nem deve ter percebido até que o cheiro de pólvora chegou ao seu nariz. Eu não sentia o cheiro de pólvora, mas confesso que era um aroma que devia estar impregnado nas nossas roupas, inclusive nas roupas dela mesma.  
  Ela não precisava ficar encabulada por gostar do cheiro do próprio namorado, Fred deve ter pensado o mesmo, já que quase mergulhou o nariz enorme no caldeirão.
  – Novelo de lã novo, café recém passado e jujubas azedinhas de morango.
  %Vee% costumava comer muitas jujubas, era um cheiro que realmente rondava ela quando íamos até Hogsmeade. Aquilo fez ela sorrir de maneira doce.
  Os dois me olharam esperando uma reação de compaixão. Fiz o mesmo movimento que Fred e inspirei o aroma da poção.
  – Biscoito de gengibre, tinta de pergaminho e... – Baunilha? Um cheiro doce e surpreendentemente conhecido, que me deixava meio tonto. Percebi a dona do cheiro me olhando com expectativa, os olhos brilhando animados. – Chocolate quente – menti.
  – Uau! É isso. A primeira leva de Amortencia está oficialmente feita. – %Vee% sorriu batendo palmas sozinha. – Precisamos engarrafar isso logo e darmos o pé daqui, antes que alguém venha ver se eu estou transando com vocês ao mesmo tempo.

  Fim do flashback.


  Nota da autora: Por sorte a PP é muito mais forte do que eu, porque se George Weasley segura a minha cintura daquele jeito, eu não responderia por mim KKKKKKKKKKKKK Mas a bichinha ficou descompassada, será que os sentimentos estão começando a aparecer? Muito obrigada para quem está acompanhando essa fic, e se chegou até aqui, deixe um comentário! <3

Capítulo 11
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