The Weasley Twins


Escrita porNaya R.
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 27 minutos

  Ponto de vista: %Verônica%

  – Não adianta insistir, %Vee%. Não vou contar – George repetiu pela milésima vez e eu bufei dramática fechando o rosto e cruzando os braços sobre o peito.
  George veio da loja com uma notícia emocionante que não podia contar, na verdade ele podia, mas queria contar para todos ao mesmo tempo, já que estávamos na calçada do Três Vassouras esperando nossos amigos para comemorar o aniversário da sua irmã mais nova.  
  – Desde quando você é tão chato? – perguntei tentando ficar emburrada, porém um sorriso já começava a surgir no canto da minha boca.
  – Eu sempre fui chato, %Vee%. É uma característica básica de um Weasley.
  – Isso é mentira. Você é o único Weasley chato – rebati o comentário, fazendo-o abrir a boca indignado.
  – Qual é, você tem que concordar que Percy e Ron também estão nessa comigo.
  Soltei uma gargalhada.
  – Só Percy. – Apontei o dedo em sua direção. – E não muda de assunto, me conta qual é a notícia emocionante!
  – Não mesmo.
  – Por favorzinho, Georgie! Prometo que não vou contar para ninguém e que vou fingir surpresa quando você contar! – falei puxando a manga da sua camiseta.
  – Por Merlim, por que eu fui te falar isso?! Devia ter ficado calado.
  Dei meu melhor sorriso piscando meus olhinhos de uma maneira adorável que eu sabia que ele não resistia, era assim que eu convencia os piores alunos da escola a fazer o que eu queria, assim ou com alguns berros que os faziam lembrar da mãe, sempre funcionava. Nesse caso particular, dar berros não era a opção mais plausível, nem a mais socialmente aceitável, então os olhinhos encantadores faziam parte do pacote.
  Era nítido que George estava sendo convencido.
  Ele mordeu o lábio inferior quase se dando por vencido, eu precisava de mais uma cartada.
  – Eu achei que você contava tudo para a sua melhor amiga... – falei erguendo os ombros de maneira despretensiosa, usando uma chantagenzinha emocional pouco convincente.
  – Não sei, você é muito amiguinha da Angelina... Pode acabar contando a ela. – Agora ele estava se fazendo de difícil, eu já o tinha convencido de contar, só precisava manter a ilusão de que ele ainda estava comandando a situação.
  – Você sabe que não vou contar, ela está literalmente vindo para cá agora para ouvir essa notícia de você – falei fazendo uma careta enrugando o nariz. 
  – Tudo bem, tudo bem. – Ele suspirou fingindo derrota enquanto eu batia palmas animada. – Semana passada um americano foi até a loja, deu uma boa olhada em tudo. Fez algumas perguntas sobre alguns produtos, comprou algumas coisas e foi embora. Hoje ele foi lá de novo com mais um americano, e eles perguntaram se não queremos patentear alguns produtos, talvez até abrir uma filial na América. Não é legal?! – disse ele, seus olhos brilhando em expectativa. O seu orgulho, a sua empolgação, a sensação de dever cumprido que emanava dele me entorpeceu, me fazendo ficar boquiaberta por um segundo.
  Fazia tempo que eu não ficava tão genuinamente feliz!
  – Legal?? Caramba, G, isso é incrível! – Não consegui medir minha animação da maneira correta e acabei pulando em seus braços unindo nossas bocas em um selinho demorado. 
  O mundo em nossa volta desligou por um segundo, tudo o que eu senti foi a boca dele colada na minha e o som do meu coração pulsando alto em meus ouvidos.
  Empurrei seus ombros para trás, encerrando o selinho. O ato inteiro não durou dois segundos, porém minha boca secou no mesmo instante e meu coração batia tão forte que tonteei, dando um passo para trás meio cambaleante.
  – Por Merlin, Georgie, me desculpa. – Minha voz saiu esganiçada, tapei a boca desesperada e preocupada.
  George estava paralisado, os olhos fechados e as mãos estagnadas na altura de onde estava minha cintura a meio segundo atrás. Lambeu os lábios devagar e abriu os olhos me encarando com aqueles olhos castanhos-quase-verdes que eu amava.
  – Nossa, eu... Foi sem querer... Eu... – Minhas mãos tremiam tanto quanto a minha voz. De onde veio isso? De onde veio esse impulso absurdo?
  %Verônica% Lucille %Appleby%, o que acabou de acontecer aqui?
  Meus lábios formigavam e eu ainda sentia o calor e a sensação dos nossos lábios pressionados um contra o outro. Merda. Merda. Merda.
  – %Vee%, está tudo bem. – George levantou as mãos em rendimento. Ele pareceu pensar por algum tempo enquanto meu cérebro fritava com a sensação de que eu tinha estragado algo com um impulso doido. O amargo gosto do arrependimento me consumiu, me deixando em um parafuso difícil de me desvencilhar. 
  – Georgie, me desculpa. Juro que não sei de onde isso veio – exclamei ao mesmo tempo em que passava as mãos pelo rosto, ainda desacreditada no que havia acontecido, ainda sentindo meu peito dar pulos.
  – Está tudo bem %Vee%, eu sei que sou irresistível, que vou ser um empreendedor de negócios internacionais, é meio difícil de se conter mesmo... – Ouvi a voz dele dizer, e demorei alguns segundos para assimilar a frase. Caí na gargalhada e George me acompanhou.
  Ficamos rindo por pelo menos um minuto a fio, até sermos interrompidos por alguém.
  – Qual é a graça? – perguntou Rony sorrindo, seu braço enganchado no de Hermione.
  – Piada interna – George respondeu enxugando as lágrimas nos cantinhos dos olhos e eu apenas concordei com a cabeça.
  Eu, com certeza, deveria estar com as bochechas vermelhas de vergonha pois sentia meu rosto quente, meu coração ainda palpitava de maneira estranha e sentia um calor em meu pescoço, que me fazia ficar esbaforida.
  Hermione me examinou por uns segundos antes de se aproximar para me abraçar. Ela tinha um cheiro quente de cereja, como se estivesse assando um bolo gostoso antes de sair de casa. 
  – Que saudades %Vee%! Como você está?
  Dei um abraço breve em Rony.
  – Estou bem, Mione e você? A mão está muito pesada? – brinquei, fazendo-a sorrir e ela passou a mão no cabelo, destacando a aliança como se dissesse “o que? Essa coisa velha?”.
  – Estou bem também, as coisas estão meio corridas lá no ministério mas já consigo ver uma luz no fim do túnel.
  – Fico feliz de saber que você está fazendo a diferença lá, Mione.
  – E eu fico feliz em saber que finalmente existe um professor de poções em Hogwarts que não tem como objetivo de vida retirar pontos da Grifinória.
  Eu adorava aquela Mione feliz que fazia algumas piadinhas referentes ao nosso tempo em Hogwarts, as coisas, definitivamente, eram mais tranquilas agora e ela se sentia confortável conosco a ponto de fazer aquele tipo de brincadeira. A Hermione séria demais do tempo de escola agora era uma mulher feliz, bem-sucedida e sem frustrações no amor, noiva de um engraçadinho Weasley que, agora, deixava as coisas leves.
  Vi Angelina e Lee se aproximando na esquina e acenei. Aquilo me fez voltar à realidade.
  Caramba, como vou contar isso para a Angelina? Eu devo contar isso para a Angelina? O que eu faço? Merlim, me ajuda.
  E como se fosse realmente uma ajuda cósmica, Harry e Gina aparataram do outro lado da rua, com Harry, Gina, Lee e Angelina sendo adicionados ao grupo, tenho certeza de que minha cabeça iria esquecer disso por enquanto.

  Dentro do Três Vassouras estava aconchegante e por mais que fosse verão, não estava abafado ou sufocante lá dentro, estava fresco como se estivéssemos na beira de um lago.
  Mesmo assim, não consegui me conectar à conversa, eu só via vultos e frases soltas, risadas abafadas e nada discretas, eu só conseguia pensar nos lábios de George encostados nos meus.
  Toquei minha boca olhando para algum ponto fixo na mesa, desconectando minha mente completamente de tudo que estava acontecendo ao meu redor, sentindo um formigar discreto em meus lábios. George estava a duas cabeças de distância.
  – %Vee%? Está tudo bem? – perguntou Angie em algum momento e eu apenas balancei a cabeça.
  – Só estou um pouco cansada, tive que treinar algumas poções que nunca tinha feito para o ano letivo que vem.
  Meu Deus, eu sou uma péssima amiga. Como eu pude fazer isso? Como, em nome de Merlim, eu pude ser tão egoísta? Tão mesquinha? Tão... impulsiva? Nunca fui assim, nunca dei um passo fora da linha, pelo menos tentava não dar. Como poderia conviver com a culpa de beijar meu melhor amigo, o irmão do meu ex-namorado e ex-namorado da minha melhor amiga?
  Minha cabeça dava voltas e juro que senti meu estômago reclamar, levantei-me trôpega murmurando um “com licença” descabido e voei para o banheiro.
  Molhei o rosto, uma, duas, três vezes.
  O reflexo no espelho era de uma pessoa patética a beira de um colapso nervoso, o calor em meu pescoço não passava e prendi meus cabelos em um coque embolado por causa dos meus cachos, meus olhos coçaram vermelhos e percebi que a presença de lágrimas idiotas e insistentes.
  Me peguei imaginando o que Fred acharia disso, a sua namorada, a pessoa que amou e confiou na vida fazendo algo como isso... Nunca me senti assim, já fiz muitas coisas erradas e inconsequentes acompanhada de pessoas com a índole questionável como Fred e George e nunca me senti como uma traidora, como uma pessoa suja.
  Respirei fundo sabendo que aquele não era o momento, era o dia da Ginny, uma das minhas melhores amigas, e eu não podia fazer aquilo virar algo sobre mim. Não naquele momento.
  Enxuguei as lágrimas teimosas que brotaram em meus olhos e me recompus.
  – Amiga?
  A voz de Angelina me paralisou.
  – O que houve?
  – Nada, só estou um pouco... Não sei. – Eu não tinha algo para falar que pudesse convence-la de que tudo estava bem. Meu cérebro estava funcionando em replay infinito.
  Falsa. Traidora. Falsa. Traidora. Falsa. Traidora.
  Como você foi fazer isso com a sua melhor amiga?
  – Dá para ver que não está tudo bem. Quer conversar?
  – Desculpa, Angie. Não estou conseguindo pensar direito agora.
  – É só falar, %Vee%. Talvez eu possa te ajudar. – Angelina era uma pessoa que me compreendia, mesmo sem a mesma conexão que eu tinha com os gêmeos, tínhamos uma amizade verdadeira.
  Esse fato só me machucava mais ainda.
  – Não, eu... Eu estou bem. – Respirei fundo mais uma vez. – Desculpa.
  – Para de se desculpar, garota, você não fez nada. Seja o que for que aconteceu... Calma, está bem? Respira, pensa, sei que você consegue resolver. Você é a pessoa mais sensata que eu conheço.
  Tentei sorrir e sei que o sorriso não saiu do jeito que deveria, mas Angie fingiu que não notou quando veio me abraçar.
  – Obrigada, Angie.
  – Você brigou com George, por acaso? Ele também está meio esquisito... avoado – comentou. – Quer ficar lá em casa? Sei que você está ficando com ele durante as férias – continuou ela, acariciando minhas costas durante o abraço.
  Eu sequer lembrava dessa parte... teria que voltar para o apartamento de George ao fim da noite. Como eu iria encará-lo mais tarde? Nenhuma das opções me parecia atrativa: Passar a noite com George ou passar a noite com Angelina, sabendo o que fiz com ela.
  Falsa. Traidora. Falsa. Traidora. Falsa. Traidora.
  – Está tudo bem, Angie. Tivemos um pequeno... incidente, mas não se preocupa, hoje mesmo eu já resolvo.
  – Tudo bem, mas qualquer coisa pode aparecer lá em casa, tá bem?
  Eu podia ir passar a noite com minha avó, porém eu tinha que encarar as consequências de meus atos: dei a porcaria de um selinho em George, um ato impulsivo e horrendo que não sei de onde surgiu.

  Gostaria de dizer com orgulho que consegui sair daquele banheiro com as energias renovadas pela conversa com minha amiga, porém a mentira deslavada estava estampada em meu rosto e Angelina enganchou o braço no meu tentando me manter minimamente estabilizada.
  George me olhou com os olhos brilhantes, desde o momento em que saí do banheiro notei seu pescoço espichado em uma preocupação perceptível a quilômetros de distância, ele se levantou e veio até mim agachando-se ao meu lado.
  – Quer ir embora? – Seu rosto estava tão próximo que me deixava tonta.
  – Não, G. Eu estou bem.
  – Não precisa mentir pra mim, %Vee%. Podemos conversar, se preferir.
  Suspirei, desviando meu olhar do dele. A mesa estava entretida com as palhaçadas de Lee, apenas Angelina parecia ainda estar de olho em nós. Senti meus olhos arderem novamente.
  Eu precisava ir embora. Além de desestabilizar George, trair Angelina, estragar o aniversário de Ginny, e arruinar a minha amizade com meu melhor amigo, eu ainda havia roubado a chance dele de dar uma notícia incrível que eu tinha certeza de que Rony também estava ansioso para compartilhar.
  – Eu vou, mas você fica, tá bem? Você tem uma notícia incrível para dar...
  – Vou com você.
  – Não, Georgie. Por favor... Você fica.
  Ele suspirou visivelmente irritado.
  – %Verônica%...
  – Eu preciso de um tempo sozinha, você consegue segurar as pontas por aqui?
  – Tudo bem.
  Me despedi de todos alegando uma enxaqueca inexplicável e aparatei no apartamento de George sobre a loja. Eu passava a maior parte das minhas férias com ele, minha avó gostava da minha visita, mas eu sabia que ela já estava acostumada com sua vida mais sossegada e sem ser incomodada, então eu me limitava a ficar uma semana com ela.

  Fiz um chá de hortelã doce, fui até o quarto que agora era meu, abri o armário com as minhas coisas e encontrei o suéter Weasley de Fred, o seu cheiro ainda estava nele e nunca sairia, não depois de eu ter lançado um feitiço conservante.
  – O que eu faço, Gred? O que foi que eu fiz?
  Sentei na cama sentindo as linhas traçadas do tricô, os pequenos calombinhos de nós, as imperfeições, a cor surrada nas mangas, a cor creme do F, tudo ali se unia em um perfeito suéter que cansei de vê-lo usando.
  – O que você faria na minha situação?
  Levei o tecido até o meu rosto e inalei profundamente, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas. A sensação nostálgica me dando um soco na cara.
  – Me desculpa Gred, eu não sei o que me deu.
  Eu quase podia ouvir a sua risada.
  “Ah não, o gêmeo feio não!” provavelmente seria algo que ele diria, talvez um “Você poderia ter escolhido melhor, hein?”.
  Terminei meu chá ainda agarrada ao suéter e perdi a noção do tempo repassando tudo mil vezes em minha mente até o momento em que ouvi o estalo seco vindo do quarto de George.
  Apaguei as luzes com um movimento de varinha e me encolhi na cama fingindo estar dormindo.
  Ouvi minha porta abrir devagar, rangendo baixinho.
  – %Vee%? – Sua voz era incerta. Um tom de dúvida no ar. – Tá acordada?
  Eu não podia deixar meu melhor amigo desse jeito. Não quando fui eu que fiz aquela merda toda.
  – Estou – respondi sussurrando.
  George se aproximou da cama, abaixou-se até o meu campo de visão.
  – Como você está, baixinha?
  – Ah Georgie, eu... me desculpa?
  – É claro, idiota – disse ele, sentando-se na beirada da cama. – %Vee%, foi um acaso. Aconteceu. Nada vai mudar, tá bom?
  – Você acha? – perguntei sentando-me também, revelando o suéter de Fred que estava embolado junto comigo.
  – Por Merlin, é difícil ser seu amigo às vezes. – Suspirou. – Eu e você temos algo que não vai ser destruído com qualquer coisa, entendeu? É a merda de uma horcrux, %Verônica%.
  – Você está comparando a nossa amizade à uma horcrux?
  – Estou. Não é qualquer coisa que pode destruir o que a gente construiu desde aquele primeiro dia no Expresso de Hogwarts. Quando é que você vai entender isso?
  Ele mexia no tecido do suéter involuntariamente, mas seus olhos estavam em mim. Seu olhar era indignado e admirado ao mesmo tempo, como se estivesse bravo por eu achar que aquilo ia estragar algo entre nós, mas admirado pelo mesmo motivo.
  – É que eu... Eu fiquei preocupada.
  – Tudo bem. Mas não precisa ficar, não vai ser um selinho que vai destruir a gente assim, não somos tão voláteis. Bom, você é meio estouradinha...
  Suspirei audivelmente, seus olhos ainda estavam em mim.
  – Cala a boca. – Mal consegui segurar um sorrisinho.
  – O que eu quero dizer, %Vee%, é que somos melhores amigos. Já passamos por coisas o suficiente, e para falar a verdade, é até meio esquisito não termos passado por algo assim antes, você não acha?
  – O que você quer dizer?
  – A gente nunca se viu pelado, nunca nos beijamos... O máximo que já aconteceu foi eu ver você e o Fred transando aquela vez e...
  – George! A gente prometeu que nunca ia falar disso! E a gente não estava transando... – falei exasperada, querendo que ele parasse de falar sobre aquilo, minhas bochechas esquentaram de repente. Aquilo só o fez rir mais.
  – Ah, não estavam?
  – Não, estávamos quase transando.
  – Eu vi sua calcinha. – Sua risada tomou conta do ambiente e minhas bochechas queriam explodir.
  – E você prometeu que não ia falar disso nunca mais!
  – Por sorte não foi um voto perpétuo, ou eu estaria mortinho da Silva agora – disse ele sorrindo ladino, aquilo me fez dar uma risada genuína.
  – Você é um idiota.
  – Um idiota que é seu melhor amigo, qual é, %Vee%! Você tem que concordar comigo nessa.
  – Concordar com o que, Weasley?!
  – Bom, eu acho que devíamos nos beijar para quebrar esse tabu agora mesmo.
  – O QUÊ?!
  – É sério. Assim você não vai ficar pensando nisso como algo ruim, vai ser banal, entende?
  Pelo cabelo de Morgana, isso não pode ser sério. Ele não pode estar falando sério. É uma brincadeira de mal gosto dele, e se eu aceitar, ele vai rir de mim para sempre.
  “Lembra daquela vez que eu sugeri que nos beijássemos e você ficou doidinha para me beijar?”
  Não, eu não posso fazer isso.
  – Não George, isso não vai acontecer – respondi puxando o suéter de Fred para o meu outro lado na cama, como se aquela conversa fosse ofensiva e o suéter não merecesse estar ouvindo aquilo.
  – Tem certeza? Eu não vou oferecer para sempre...
  – Tenho certeza.
  – Quem vai sair perdendo é você, eu beijo muito bem, sabe?
  – Acho que posso conviver com isso – falei, vendo-o sorrir convencido.
  George estava fazendo um ótimo trabalho em me fazer ver aquela situação de modo cômico, eu sabia que aquilo era só uma estratégia para fazer minha mente desligar um pouco. Era o nosso jeito de lidar um com o outro, um sempre tentando ajudar do modo que fosse.
  – Não acho que você vai conseguir conviver com isso, mas infelizmente não posso te forçar a tomar a melhor decisão da sua vida. – Ergueu os ombros de modo descontraído, mordendo o lábio inferior segurando uma risada.
  Soltei uma risada, cutucando suas costelas com o pé, fazendo-o rir comigo.
  – O que você tem?
  – Eu estou feliz! Recebi uma notícia ótima, bebi cerveja amanteigada, ganhei um selinho de uma gatinha aí...
  Dei um chutinho em seu ombro.
  – Você está impossível!
  Ver George daquele jeito era como se nada de ruim jamais tivesse acontecido... há algumas horas eu realmente achava que podia ter arruinado nossa amizade por conta de um impulso idiota que não sei de onde veio, agora estamos dando risada disso de maneira tão descontraída que o alívio me abraça docemente.
  – Agora é sério, %Vee%. Você está bem? – Sua mão pousou sobre meu pé e ele o apertou com ternura.
  – Eu acho que sim.
  – Não foi nada, tá bem? Não fica pirando com isso. – Ele apertava meus dedinhos sobre a meia branca, distraído. – Até porque eu entendo como é difícil se segurar perto de mim.
  Seu olhar subiu lentamente até mim e um sorriso ladino surgiu em seus lábios. Ele se encolheu quando viu minha mão se erguendo para lhe distribuir tapas em sua cabeça e ombros.
  – Pelo amor de Merlim! – exclamei.
  – Eu nunca vou te deixar esquecer isso. Você sabe, não é?
  – Sei, e como sei. – Bufei fingindo estar irritada, mas era impossível ficar irritada com aquele ruivo insuportável.
  – O dia de hoje vai ficar marcado na história. – Pigarreou estufando o peito. – O dia em que %Verônica% %Appleby% sucumbiu aos encantos do Weasley mais bonito.
  Soltei uma gargalhada alta que estava presa em minha garganta.
  – Georgie, é sério – falei entre as risadas frouxas que fugiam de mim. – Esquece isso, finge que não aconteceu!
  – Fingir que não aconteceu? Você perdeu a cabeça? Tomou chá com Luna Lovegood?!
  Soltei mais uma risada alta.
  – Não existe a mínima possibilidade de eu esquecer que isto aconteceu, %Vee%. – Seu sorriso iluminava o ambiente. – Apenas aceite as consequências de não controlar seus impulsos beijoqueiros sobre mim.
  Eu ria tanto que minha barriga doía, George me acompanhava e aquela conversa era tão boba e leve que eu podia passar a noite rindo de cada piada que ele faria sobre aquele momento constrangedor entre nós. Ele sabia que aquilo tinha que virar piada, seria o nosso jeito de relevar o constrangimento.
  – Mais um item para a lista de coisas cabulosas que George Weasley presenciou.
  – Ah, eu amo essa lista. Sou muito bom com momentos constrangedores, um talento nato dentro de mim, eu diria.
  – Tanto talento dentro de uma cabecinha tão pequena, fico me perguntando de onde surge tanta besteira... – brinquei bagunçando seus cabelos, vendo-o rir.
  – Tá com inveja do meu talento, %Verônica%? – perguntou ele, segurando meus pulsos.
  – Estou com inveja da capacidade que você tem de criar tanta bobagem – respondi mostrando a língua.
  – Você sempre adorou as minhas bobagens, o que mudou, hein? Meus lábios macios te deixaram confusa? – Seu rosto estava perto o suficiente para eu ver as ramificações esverdeadas em seus olhos castanhos. Ele tinha um hálito doce e ligeiramente alcoólico, provavelmente proveniente da cerveja amanteigada, que me deixou levemente tonta por um segundo.
  – Weasley, cala a boca.
  Ele sorriu vitorioso, sabendo que eu não tinha mais palavras para me defender no “caso do selinho”.
  – Eu amo te deixar sem graça. – Soltou minhas mãos bagunçando meus cabelos em seguida, me imitando, e levantou-se.
  – E eu não sei?
  – Sabe. Você sabe de tudo, %Vee% – disse dando um sorriso doce. Abaixou-se, deu um beijinho na minha testa e se afastou, indo até a porta.
  – Forge – o chamei.
  – Sim?
  – Obrigada.
  – Pelo beijo na testa? Tem certeza de que não quer na boca? A oferta ainda está de pé.
  Peguei o travesseiro que eu usava para dormir abraçada e joguei em sua direção. Ele fechou a porta rapidamente, e o travesseiro acertou-a dando um baque surdo e indo ao chão. Através da porta eu podia ouvir a sua risada, me acomodei na cama rindo sozinha sabendo que aquela noite de sono seria leve e divertida assim como a amizade que construímos durante todos esses anos.

  Flashback

  Hogwarts –  Partida de Quadribol, Grifinória vs. Sonserina.

  Ponto de vista: %Verônica%

  – Salvou o pescoço do Weasley, não foi? Nunca vi um goleiro pior... mas também, nasceu no lixo... gostou da minha letra, Potter? – Ouvi Malfoy dizer enquanto aterrissava minha vassoura junto com o resto do time. Aquela musiquinha ridícula que os sonserinos estavam cantando para desestabilizar Rony ainda ecoava em meus ouvidos. O sangue já estava fervilhando em minhas veias mais quente do que o normal.
  Fui até Harry abraça-lo pelo belo fim de partida, ainda de ouvidos atentos no que o idiota do Malfoy dizia.
  – Queríamos acrescentar mais uns versos! – gritou Malfoy encorajado a continuar. – Mas não encontramos rimas para gorda e feia, queríamos cantar alguma coisa sobre a mãe dele, sabe...
  Sobre... a mãe dele?
  – Inveja mata – Angelina disse se afastando, sabendo que aquilo era apenas inveja por terem perdido a partida. Mas eu não conseguia ser um ser superior como ela, aquela ofensa sobre a mãe dos Weasley’s foi uma ofensa para a minha mãe também.
  – ... também não conseguimos encaixar “fracassado inútil”... para o pai dele, sabe...
  Fred e George finalmente compreenderam o que Malfoy estava dizendo, Angelina foi imediatamente segurar George enquanto eu segurei o braço de Fred, mesmo estando tão enfurecida quanto eles.
  – Não vale a pena – sussurrei para Fred, porém era uma mentira tão deslavada que nem eu mesma acredite.
  – Deixa para lá! – disse Angelina na mesma hora que eu. – Deixa para lá, George, deixa ele gritar, ele só está frustrado porque perdeu, o metido...
  – ... mas você gosta dos Weasley, não é Potter? – continuou Malfoy, caçoando. – Passa as férias lá e tudo, não é? Não sei como você aguenta o fedor, mas suponho que para alguém criado por trouxas, até o pardieiro dos Weasley cheira bem...
  Toda a equipe estava segurando os gêmeos naquele momento, Alice e Harry se uniram a mim e Angelina.
  – Você bem que gosta do cheiro dos trouxas, não é Malfoy? Vi você indo atrás da Savannah Yellowstone como uma cadelinha no cio do dia do baile de inverno, o que mudou desde aquela vez? – respondi rápida, deixando o garoto mais pálido do que o normal.
  – Do que é que você está falando, sangue-ruim? Acha que tem algum moral para dirigir a palavra a mim?
  – Não precisa esconder, Malfoy, todo mundo sabe que essa sua aversão aos nascidos trouxas é porque você está apaixonado por uma lufana tão sangue-ruim quanto eu. – A raiva era tanta dentro de mim que eu nem conseguia pensar em Savannah, ou em quem estava ouvindo aquilo. Eu só queria que Malfoy parasse de falar dos pais de Fred e George. Ele se abalou por um segundo, piscando algumas vezes como se estivesse reiniciando o cérebro.
  – Era de se esperar que a namoradinha dos gêmeos fosse defender aquela família de porcos, aquele chiqueiro sempre tem lugar para mais um, não é mesmo Potter?
  Mal percebi que tinha soltado Fred, ou qualquer outra coisa ao meu redor, foi como se tudo estivesse em câmera lenta... Quando dei por mim, Malfoy estava no chão choramingando como sempre fazia, jurando aos céus que seu pai iria saber daquilo e eu estava com o nariz sangrando.
  Mais tarde, depois da expulsão do time, do sermão da McGonnagall, do surto de Angelina quando soube que nós quatro tínhamos sido expulsos, e da gritaria dentro da sala comunal quando chegamos, Angelina me contou que eu ataquei Malfoy primeiro com um tapa (extremamente forte, segundo ela) no rosto, enquanto Harry veio logo depois e deu um soco no seu estômago, o alvoroço foi geral e eu saí de lá com o nariz sangrando mesmo sem ter certeza de que foi alguém da Sonserina ou se foi meu próprio time que me puxou para fora enquanto eu avançava em qualquer um feito uma doida.
  Depois daquele dia, alguns alunos da sonserina tentaram fazer o apelido %Vee% - doida pegar, mas não deu muito certo, não depois que eu encurralei alguns garotos do quinto ano e perguntei se eles queriam descobrir pessoalmente o motivo daquele apelido, com Fred e George ao meu encalço me puxando para longe como se eu fosse uma fugitiva do hospício. 
  Malfoy ficou com a marca dos meus dedos estampados no rosto durante uma semana.
  Savannah não ficou magoada com todo o ocorrido.
  Rony ficou triste por ter pedido o espetáculo.
  Hermione não corroborou com nenhuma das situações.
  Angelina ficou de mal comigo durante três dias.
  George me chamou de “assassina de babacas” por um bom tempo.
  Fred me chamou de “mulher da minha vida” pela primeira vez.


  Nota da autora:
  Esse capítulo praticamente se escreveu sozinho, as interações foram surgindo tão naturalmente que parecia que eu estava apenas colocando em palavras uma conversa que realmente aconteceu na minha frente. É tão gostoso escrever sobre os sentimentos deles que eu termino todo capítulo com um sorrisinho gostoso no rosto.
  Eu espero do fundo do meu coração que vocês estejam gostando, que esse capítulo tenha feito jus ao que realmente é essa amizade em grupo e algumas amizades sozinhas também (quem diria que foi a Angelina que deu o primeiro passo, hein?).
  Deixem aquele comentário gostoso! <3

Capítulo 10
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Ray Dias

Pelo amor de Deus, essa fic não pode ficar muito tempo sem atualização. Eu amei tanto esse capítulo 🤩 o quase beijo veio e já estou ansiosa para o próximo! Queria que ela tivesse aceitado a proposta dele de acabar com o tabu 💗 Naya, por favor, não me deixa sem essa fic. Eu amo demais, me faz sentir felicidade e nostalgia afetiva 😍

Naya R.

Hahahahahaha jamais abandonarei os meus bebês, pode ficar tranquila! O planejamento já está todo feitinho, eu só sou rata pra atualizar mesmo KKKKKKKK mas fico sempre muito feliz em saber que vc gosta tanto dessa fic, me faz querer escrever tudo de uma vez só! Esse selinho foi tudo nao foi? Adoro o jeitinho engraçado que o George levou toda a situação hahahahah obrigada pelo comentário Ray, é muito importante pra mim ❤️❤️❤️

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