The Tale Of The Narcissus, The Beast And The Two Faces

Escrita porLiv
Revisada por Natashia Kitamura

CAPÍTULO 2 • O narciso, a fera e a duas caras

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

  Pisquei os olhos várias vezes, pensando se eu estava alucinando por conta do cansaço. Para chegar na janela do meu quarto, é necessário subir pelas escadas, mas, aparentemente, essa pessoa escalou dois andares pelo lado de fora; a analisei ainda sem acreditar em tamanha loucura, me esquecendo da rápida irritação por ter sido incomodado. Suspirei pesadamente, andando em sua direção e oferecendo a mão para ajudá-la a descer – não que ela precisasse, sinceramente –, e a garota aceitou, agradecendo após pousar no chão em segurança.
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  – Vamos lá: quem é você e por qual razão invadiu a minha propriedade? – questionei sem delongas, a oferecendo um copo de água.
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  – Pelos deuses, você não me reconheceu? – a encarei em dúvida – Moonchild, você é mais desligado do que eu imaginava. Meu nome é %Leona% %Starfall%, sua colega de trabalho – escutei um risinho abafado vindo dela – E eu não invadi, apenas aguardei ser convidada enquanto uma certa pessoa ficava chorando pelos cantos.
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  – Ha! – joguei meu corpo na cadeira – Não tenho direito de lamentar na minha própria casa?
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  – Oh, é claro que tem! – %Leona% bateu as mãos na mesa – No entanto, por conta desse fator, o chefe não para de me encher para dar um jeito de te fazer voltar ao trabalho, e estou começando a ter pesadelos por conta de todos os pedidos dele! – a garota massageou as têmporas, visivelmente cansada.
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  – Eu o avisei previamente que não voltaria para o bar, não sei o motivo dessa insistência, e ainda incomodar outro empregado...
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  Levei meu dedo a boca, mordendo toda a pele ao redor da unha, exausto só de ter uma simples conversa. Me afastei do trabalho por não conseguir ter ânimo ou vontade de ter contato com indivíduos, além de que eu sei os efeitos que o vazio podia causar em público, então optei por não me arriscar e nem levar problemas para terceiros – afinal, a fama da família já é grande.
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  – Ei – %Leona% se abaixou para ficar na minha altura e puxou a minha mão gentilmente, a segurando firmemente –, você tem que assumir a responsabilidade, sabia?
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  – Qual?
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  – A de, mesmo que indiretamente, ser a razão dos meus pesadelos.
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  – E você vai assumir a de invadir uma propriedade privada? – perguntei com a sobrancelha arqueada, achando engraçada a sua feição.
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  – Temos um acordo, moonchild – ela sorriu contente. – O que me diz de fecharmos essa noite com um brinde, e amanhã tentarmos te tirar dessa casa?
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  – Você pode tentar, %Starfall% – virei o rosto, tentando esconder a minha fraca risada.
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  – Desafio aceito, %Pran%.
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  Sua silhueta estava iluminada pelo luar, e pela primeira vez em meses, estar na companhia de alguém não parecia ser um fardo, tampouco, um incômodo.
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  – Levante-se e brilhe, %Pran% %Kyle%!
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  Cobri os olhos com o braço e bufei, sem raciocinar completamente bem; as imagens de ontem passavam pela minha mente como um filme, e eu estava a um passo de me arrepender de ter iniciado um tipo de "amizade" com %Leona% %Starfall%. Quando ela saiu pela janela, disse que voltaria cedo para que pudéssemos aproveitar o dia, contudo, não esperava que a garota escalaria a janela às seis e meia da manhã e abrira todas as cortinas, me obrigando a sair da minha tão confortável cama. Senti suas mãos empurrarem o meu corpo para o banheiro, e a última coisa que vi foi a %Leona% pegando a coberta para arejar. Depois de quinze minutos, desci para o térreo, já que ela não se encontrava mais no meu quarto. O meu olfato captou um cheiro delicioso, o que me fez automaticamente caminhar até a cozinha, dando de cara com uma pequena %Leona% de avental tentando alcançar um dos potes na prateleira.
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  – Bom dia – a entreguei o pote e encostei a cintura na pia, cruzando os braços na altura do peito.
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  – Ah, bom dia, %Pran%! E obrigada – suas bochechas coraram um pouco, provavelmente por causa do calor. – Deve ser ótimo ser alto; eu adoro a minha altura, porém, há vantagens em não precisar subir nas cadeiras para pegar um tempero.
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  - Acredito que sim – bocejei –, entretanto, eu gosto dessa nossa diferença de altura. Parece que você vai se encaixar perfeitamente nos meus braç...
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  Eu tampei a minha boca no momento que percebi o que ia falar, voltando a mim na mesma hora em que a %Leona% deixou um talher cair. Por céus, %Pran%, o que você ia falar para sua colega de trabalho e recém-amiga?
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  – %Pran% %Kyle%, se for brincar com os meus sentimentos desse jeito, terá que assumir mais uma responsabilidade – %Starfall% não me olhou e continuou a mexer os ovos na frigideira –, mas, se quiser, podemos averiguar a veracidade do seu comentário…
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  Quase engasguei com a água ao ouvir suas palavras, sentindo o meu rosto arder um tanto. A acompanhei e distribui os pratos e talheres, não deixando de sorrir de lado com a sua reação ao nossos olhares se cruzarem.
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  – Não vá se acostumando, e pode se sentir privilegiado por ser o único garoto para quem eu já cozinhei! – empinou o nariz, se mostrando convencida.
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  – Um pouco contraditória, não acha? – impliquei – Me sinto honrado em desfrutar desse maravilhoso café da manhã, senhorita. É sério, está muito bom, %Leona% – a assegurei que eu estava sendo verdadeiro, pois recebi o seu olhar suspeito. – Se estiver tudo bem por você, farei o nosso almoço na última sexta-feira do mês.
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  – O que tem de especial na sexta?
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  – É o dia que folgamos, não?
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  – Vai voltar ao trabalho? – ela indagou desacreditada.
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  – Tenho uma responsabilidade a ser assumida, e sou uma pessoa de palavra – saboreei o mexido, bebericando o café quente. – Não quero que você tenha pesadelos comigo, ou com o chefe.
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  Meu desejo foi sincero; se fosse para %Leona% me encontrar em seus sonhos, que pelo menos eles sejam bons e sem reclamações do nosso chefe.
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*

  O restante do mês correu sem mais problemas, e a sexta-feira havia chegado sem delongas. Eu estava organizando os ingredientes para o almoço, e %Starfall% arrumava a mesa, alegando que me ajudaria assim que terminasse. Desde que Cassandra foi embora, os meus dias eram extremamente monótonos e repetitivos, basicamente monocromáticos. %Leo% – como comecei a chamá-la –, pouco a pouco, ia colorindo o vazio, me fazendo esquecer de sua existência mesmo que fosse por um tempo curto. Poder distrair a mente e ter a companhia de alguém que é realista o suficiente para vocês dois são coisas que eu não sabia que precisava até começar a andar com a garota, que nas vezes que eu me perdia em memórias dolorosas, me trazia para a vida real com um sorriso. Em uma semana descobri o quão sincera e desajeitada %Leona% era, mas ela dava o seu melhor no trabalho, sendo a funcionária mais elogiada pelo chefe – e por ter feito com que eu voltasse a ir para o local. Caleb ficou extremamente contente quando me viu, logo me enchendo de afazeres com a desculpa de que deixei o trabalho acumular. Apenas o ignorei e retomei as funções designadas, e para a minha surpresa, não caí como par de %Starfall%; a minha dupla, por outro lado, era um rapaz que suspirava quando %Leona% vinha falar comigo, e me pergunto se a garota tinha ciência desse amor platônico do nosso colega.
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  – Oh, o cheiro está tão bom quanto a cara desse ensopado! Acho que não como um desses há anos…
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  – Seus pais não fizeram para você?
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  – Não sei quem eles são – deu de ombros –, e nunca tive alguém que ficasse por muito tempo pra me cozinhar algo desse tipo, de qualquer maneira.
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  – Sinto muito, %Leo%.
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  – Não precisa, %Pran%. – ela sorriu fraco, ponderando o que falar – Eu cresci em um orfanato, e a única moça que cuidava com carinho das crianças faleceu devido a uma doença. Era ela quem fazia os ensopados no final do mês, sendo o dia que todos mais ansiavam. Eu devia ter onze anos quando fui amaldiçoada.
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  Observei a garota em silêncio, esperando que continuasse caso sentisse vontade de compartilhar a sua condição. A vi respirar fundo, batendo os dedos levemente no braço, demonstrando com sua feição uma indiferença.
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  – A vida no orfanato depois que a senhora Leslie faleceu não foi fácil, mas era suportável ao ter o apoio das outras crianças que adoravam o fato de eu ler histórias para elas. Ler e escrever não foi um problema para mim; eu sempre aprendi muito rápido, então, sem o conhecimento dos outros responsáveis pelo lugar, Leslie me ensinava. Não demorou para eu me tornar uma pessoa com certa relevância no lugar, sabe? – pausou – Por mais que não fosse fácil, os responsáveis não nos agrediam, porém, também não nos tratavam com carinho ou afeto. Era uma relação mecânica, no entanto, não reclamávamos pelo fato das crianças terem umas as outras. Em uma das visitações, uma família se mostrou interessada em mim, e antes que pudessem assinar a papelada, uma das funcionárias do orfanato começou a inventar várias mentiras sobre mim. "Ela já dormiu com homens mais velhos", "essa menina sempre responde os empregados, abusa das crianças", e coisas assim. As crianças, por outro lado, se juntaram para me defender, contudo, já era tarde: a família desistiu de me adotar. Mais tarde, na hora de deitarmos, a mulher voltou e gritou conosco, e eu entrei na sua frente, defendendo as crianças que ela queria agredir. Foi nesse momento que a mulher me amaldiçoou, queimando a metade do meu rosto e bradando que ninguém me amaria por conta disso. Descobri mais tarde que ela sentia um ciúmes doentio de quem ganhava destaque lá dentro, e eu não fui a sua primeira vítima. – %Starfall% virou o rosto na minha direção – O nome da maldição é "Duas caras", e para quebrá-la, é preciso que a pessoa que eu ame verdadeiramente corresponda na mesma intensidade, o que, obviamente, não aconteceu.
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  Tentei digerir todas as informações, sentindo como se o meu corpo estivesse queimando de raiva; puxei %Leo% para os meus braços, a abraçando sem pensar em mais nada. A garota retribuiu, apertando o meu tronco e eu afaguei os seus cabelos, em forma de conforto.
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  – Eu sinto muito, %Leo%.
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  – Não precisa, %Kyle%. Eu me acostumei com isso durante esses sete anos, e não é como se eu não tivesse aceitado a realidade. Uma hora ou outra a maldição terminará. – a sua fala causou uma sensação estranha em mim, entretanto, optei ignorar por agora.
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  – A sua condição se parece com a minha. Na verdade, é a mesma – ri sem humor. – Você já deve ter escutado sobre os narcisos ou feras – ela assentiu –, e para quebrarmos a maldição, precisamos estar em um relacionamento 100% recíproco. E, como pode adivinhar, em todas as gerações da minha família, não teve um sequer que conseguiu se livrar dela. Eu achei que comigo seria diferente, até descobrir que a minha ex não me amava de verdade. Patético, não é? Achar que alguém vai me amar independente da minha aparência.
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  - Não vejo nada de errado em querer amar e ser amado, é algo que muitos sonham. Eu meio que sigo a maré: se um dia acontecer, ótimo. Se não, não tem muito o que eu possa fazer. Eu não sinto o vazio que vocês sentem, talvez seja por isso que sou tão realista… E acabei ficando ansiosa em te ver mal. Não foi somente por conta do chefe que eu vim te ver, mas também pelo meu egoísmo e achismo de que pessoas amaldiçoadas precisam seguir suas vidas, mesmo que tudo esteja uma grande merda.
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  A sua sinceridade não me pegou desprevenido, e eu achei uma graça a forma como ela pôs tudo para fora.
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  – Por que não ajudamos um ao outro?
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  – Hum?
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  – Vamos tentar encontrar alguém e chutar essas maldições de nossas vidas, moonchild!
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  – Tem certeza disso?
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  – É uma das coisas realistas que podemos fazer. E não é como se nós dois nunca tivéssemos namorado antes – %Starfall% pontuou.
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  – Muitas pessoas não querem continuar saindo comigo ao descobrirem que sou homem – suspirei, nem um pouco incomodado com isso.
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  – Eu gosto de você de qualquer forma – %Leona% deu de ombros mais uma vez –, e aposto que teremos mais sorte com outros amaldiçoados, já que as maldições não afetam a eles.
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  – E eu gosto da sua máscara – a respondi, reparando na máscara que cobria a metade do seu rosto. – Faça como quiser.
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  – Combinado, então! – ela estendeu a mão, animada.
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   – Ah, e %Leo%? – a chamei – Você se encaixa perfeitamente nos meus braços.
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  A garota jogou um pano em mim, gargalhando com a situação. Almoçamos com calma, conversando sobre vários assuntos e quando anoiteceu, decidimos dar início a sua ideia.
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CAPÍTULO 2
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