2 • Wolf
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Eu não sabia se tinha salvado o meu humano ou se mais uma vez ele que tinha me salvado, já que o outro homem tinha me machucado com algo que cortou meu ombro direito. Mais uma vez eu estava deitada na coisa macia, recebendo carícias e cuidado, eu me lembrava de suas mãos quentes e leves, mais uma vez estava me sentindo segura e confortável com aquele humano.
Ele me alimentou, me deixando comer ali mesmo onde estava deitada, não foi difícil para ele me reconhecer, não só porque o defendi como se fosse da minha alcateia, mas também pela cicatriz da minha pata. Ele ficou sentado ao meu lado acariciando meus pelos, me esperando terminar de comer, estava falando tanta coisa, mas não conseguia entender, até que…
— %Mia% — disse ele de forma carinhosa.
Ergui minha cabeça e o olhei assustada. O que teria sido aquilo? Ele ficou repetindo aquela palavra, o que me deixava ainda mais confusa por conseguir entender. Então ele se agachou na minha frente e sorrindo repetiu mais uma vez:
Tombei minha cabeça olhando em seus olhos, será que ele estava me chamando daquilo? O que significava
%Mia%? Me remexi um pouco e levantei, tinha me lembrado do meu irmão, eu tinha que sair dali, não podia desaparecer novamente. Pulei de onde estava e corri até uma abertura da grande árvore, por onde passava a brisa, mesmo com meu ombro latejando de dor, corri o mais rápido que pude subindo a colina até o beta.
Ele não estava mais lá deitado, dei um suspiro fraco, certamente tinha me delatado, olhei para trás uma última vez, o humano estava vindo atrás de mim, dei impulso em meu corpo e voltei a correr, de certo ele não me alcançaria com sua baixa velocidade para corridas. Assim que cheguei em casa, meu pai já estava em cima da rocha do alfa me esperando, eu tinha quebrado uma lei e estava ferida por causa disso.
—
Own — disse o beta assim que me aproximei mais: “
Me desculpe, fiquei preocupado, tive que contar.”
—
Owwwnnnnn. — O uivo do meu pai sempre me dava medo por sua intensidade: “
Pequena alfa, você desafiou as leis que nos protege e me desobedeceu.”
Mantive minha cabeça abaixada enquanto ele me repreendia ainda mais. Passei todo o final do outono presa na toca, sem poder sair, um castigo para minha rebeldia. Eles não entendiam que aquele humano era diferente, se me deixassem falar, mas o único que parcialmente me apoiava era o beta, que tinha visto a forma que eu defendi o humano.
As semanas foram se arrastando até que o
inverno chegou, com ele o fim do meu castigo, porém seria vigiada por minha mãe de perto. Felizmente eu podia ficar todas as noites sentada no pequeno relevo da pedra do alfa, meus olhos sempre permaneciam fixos na lua, talvez lá no fundo eu tivesse esperanças que o criador da natureza me transformasse em um humano, uma única vez.
Foi então que o dia mais doloroso e ao mesmo tempo libertador chegou em minha vida, eu estava perto da nascente do lago olhando para a lua, ela estava bonita e brilhava no céu quase com a mesma intensidade do sol do verão. Comecei a sentir umas breves pontadas na cabeça, passando para os músculos do meu corpo, até mesmo o impacto das minhas patas no chão me fazia sentir um leve dolorido.
Fui me arrastando para a direção da toca, quando cheguei perto do nosso território, soltei um uivo forte de dor, era como se tudo dentro de mim estivesse sendo arrancado da forma mais brutal possível. Há alguns passos da toca, meu corpo desabou no chão, minha mãe e meus irmãos ficaram em minha volta, se perguntando o que estava acontecendo comigo.
—
Ownnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn. Meus uivos de dor e agonia foram ficando ainda mais intensos e frequentes, meu corpo estava queimando por dentro, ainda mais que o sol do verão. Não conseguia ter nenhum controle de mim mesma, somente sentia meus ossos se quebrarem e unirem, me fazendo gemer de dor ainda mais. Senti algumas lágrimas saindo de meus olhos, com meu corpo se contorcendo involuntariamente.
Olhei de relance para minha mãe, ela parecia ainda mais assustada, lancei meu olhar para a lua que me iluminava, me perguntando internamente o que estava acontecendo comigo. Dei um suspiro fraco fechando meus olhos, estava até mesmo cansada de sentir dor, o que me fez ficar inconsciente.
Quando abri meus olhos novamente, toda a alcateia estava na porta da toca me olhando, eu conseguia ver o medo em seus olhos. Minha vista doía um pouco, comecei a perceber que o cheiro das coisas tinha mudado, assim como minha visão também, tentei sentir minhas patas, mas descendo meu olhar tive uma grande surpresa.
— Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! — gritei tentando uivar, mas aquele som era estranho.
O que tinha acontecido comigo? Minhas patas viraram mãos, assim como daquele humano; meu corpo não era mais de um lobo, eu não tinha mais meu pêlos, tinha me transformado em uma criatura de duas patas. Apoiei minha mão na terra e levantando meu corpo, minhas pernas ainda estavam bambas e sem força, mesmo cambaleando tentei manter meu corpo erguido.
—
Own — uivou minha mãe dando alguns passos até mim: “
Pequena alfa.”
Mesmo não conseguindo uivar, eu conseguia entender ela. Olhei para os outros que ainda se mostravam com medo de mim, naquele momento eu percebi que não poderia ficar ali, e a única coisa que vinha em minha mente era o meu humano. Com muita dificuldade em manter meu corpo de pé, olhei para minha família pela última vez, me virei e segui em direção à colina.
Eu não sabia se estava indo na direção certa, não tinha meu focinho para farejar o cheiro dele, porém, mesmo com algumas quedas e tropeços, quando cheguei no topo da colina, avistei sua grande árvore. A flor quente ainda estava acesa, porém sua intensidade era fraca, eu escorei de leve em uma rocha que estava perto e fiquei, precisava retomar meu fôlego.
Correr nunca havia sido um problema para mim, mas sem minhas patas eu era bem mais lenta e descoordenada. Ainda zonza por tudo aquilo que estava acontecendo, desci a colina em direção a flor quente, assim que cheguei diante dele, senti o breve calor que passava. Meu corpo involuntariamente não resistiu, sentindo o vento frio tocar minha pele, desabei no chão novamente, perdendo meus sentidos.
— Hum. — Ouvi um breve som ao longe, era a voz dele.
Minha audição foi a primeira a voltar, o que me fez notar que conseguia entender o que o meu humano dizia, ele parecia estar falando com outro humano, porém eu só ouvia a voz dele. Abri meus olhos, minhas vistas estavam um pouco embaçadas, mas aos poucos foram ficando nítidas, ele estava parado perto da abertura pequena.
— Ela acabou de acordar, obrigado por me ajudar. — Ele mantinha seu olhar em mim.
Olhei novamente para o que deveria ser minha pata, mexendo o que deveria ser minha garras, era complicado acreditar que tinha mesmo acontecido, meu desejo de ser igual a ele por pelo menos uma vez estava se realizando.
— Você está bem? — perguntou ele.
— Eu? — sussurrei de leve. — Não sei.
Ele se aproximou da coisa macia, onde eu estava deitada e continuou me olhando de forma suave.
— Você se lembra de algo? — perguntou ele. — Qual o seu nome?
— Eu… A lua… Eu era um lobo e agora — não sabia como explicar a ele, nem sabia se acreditaria em mim.
— O quê?! — Ele me olhou de forma confusa. — Você era o quê?
Respirei fundo e comecei a explicar, contando sobre minha alcateia, meus irmãos e sobre minha transformação. Quando terminei, percebi que sua face estava estática, seu olhar ainda mais confuso, parecia não acreditar em mim.
— Você deve ter batido sua cabeça e teve alucinações — explicou ele. — Mas não se preocupe, tenho um amigo que é policial, ele está tentando investigar sobre você.
— Eu não bati a cabeça — retruquei ele, ainda era estranho conseguir entender o que dizia, mais ainda, estava fascinada por sua voz. — Sou um lobo, minha alcateia me chama de
Pequena Alfa.
— Pequena Alfa? — Ele desviou seu olhar para o lado, suspirando fraco. — O que eu vou fazer?!
— Sou eu — disse esticando minha perna, mostrando a cicatriz. — Você se lembra disso?
Ele olhou a cicatriz e sentando ao meu lado, tocou de leve.
— Graças a você, ainda posso correr — continuei, era a única forma de convencer ele que era eu, que eu realmente era um lobo. — Eu estava presa e você me pegou no colo, me trouxe para sua árvore, cuidou de mim e me deu comida.
— Não. — Ele se afastou de mim balançando a cabeça de forma negativa. — Não é possível.
— Corríamos todas as manhãs, até que voltei para casa, então no outono você me salvou novamente — eu toquei meu ombro do lado direito, estava com uma coisa em meu corpo, iguais às que estavam no corpo dele. — Aquele humano me feriu, porque eu defendi você.
— Não pode ser — sussurrou ele.
Ele ficou parado me olhando por um longo tempo, se era difícil para mim entender o que tinha acontecido comigo, imagino para ele entender que um lobo tinha se transformado em humano. Ele pediu para que eu contasse minha história para ele em detalhes, desde o dia em que me salvou, até o momento em que caí transformada em frente a flor quente, que acabei descobrindo que se chamava fogo.
A cada detalhe que eu dava, ele parecia ainda mais sem reação, porém, aos poucos foi aparentemente aceitando o que contava. Na medida em que conversávamos, fui perguntando algumas coisas sobre seu mundo, por que não tinham pelos, o que era aquilo em meu corpo, como tinha conseguido uma árvore tão grande para morar. Foi uma descoberta que parecia infinita, a cada resposta sua eu encontrava motivos para fazer mais três perguntas.
— Você me chamou de %Mia%… — disse me levantando da cama. — Você tem um nome também?
— %Taehyung% — respondeu ele.
— Por que me deu esse nome? — perguntei a ele.
— É o nome de uma personagem minha — respondeu ele —, sou um escritor.
— É uma pessoa que conta histórias, porém, na forma escrita — respondeu ele.
— Escrita? — Eu o olhei meio confusa.
— Depois eu te mostro o que é — disse desviando o olhar para a janela.
Logo um barulho surgiu, era contínuo e alto. %Taehyung% pegou um objeto e, apertando, colocou na orelha; achei estranho, porém, assim como na hora em que eu acordei, ele começou a falar sozinho. Me sentei novamente na cama e fiquei esperando, ele caminhou até a porta e continuou falando com aquele objeto no ouvido.
— Não encontraram nada sobre você, nenhuma pessoa com suas características desapareceu na reserva — disse num tom de decepção, talvez ainda estivesse desejando que minha história fosse invenção da minha mente.
— Bem, após o lago e atrás da colina, até a montanha Hallasan, tudo é uma reserva natural, apenas este espaço onde moro é particular — explicou ele. — Significa que os humanos, como eu, não podem entrar ou invadir.
— Mas eu vi alguns, no dia que prendi minha pata — retruquei.
— Certamente sim, existem alguns caçadores que praticam a caça ilegal — afirmou ele. — O homem que você atacou era um caçador.
— Por que fazem isso? — perguntei.
— Alguns dizem que é por esporte ou diversão, para mim é por crueldade.
Eu sorri de leve, estava feliz por ele pensar assim, queria que meus pais o conhecessem, assim teriam outra opinião sobre os humanos.
— Posso te fazer uma pergunta? — Desviei meu olhar para a janela.
— Por que aquele homem que eu ataquei, estava te machucando?
— Bem — ele respirou fundo —, digamos que eu tenho me empenhado a atrapalhar suas caçadas ilegais.
— Hum, seu amigo policial não pode fazer nada a respeito? — retruquei. — Ele não pode te proteger?
— Existem certas exceções na vida — ele bufou um pouco. — Aquele homem tem algumas influências que o beneficiam aqui, é a parte ruim de ser um humano, existem pessoas corruptas em nosso meio.
— E é ruim?! — Eu não entendia nada do que ele falava, mas parecia sério.
— É muito ruim. — Assentiu ele. — Mas não se preocupe, enquanto você estiver aqui, estará segura.
— Mas… — Eu não era a única que poderia se machucar por causa desse homem malvado. — E minha família?!
Era um fato que eu não poderia voltar para casa naquele momento, primeiro porque minha família ainda teria medo de mim nesta forma humana, segundo porque eu ainda queria descobrir mais sobre o mundo dos humanos. Eu estava me sentindo feliz estando na companhia de %Taehyung%, por mais que eu não entendesse metade das coisas em minha volta.
As semanas foram passando, e com isso o final do
inverno foi chegando, o frio diminuiu e a neve, já derretendo, dava lugar às primeiras manifestações da primavera. Naquele pequeno tempo de convivência, estava me divertindo o máximo que conseguia com minhas novas descobertas, pois não sabia quando iria voltar a ser um lobo.
Ele me contou que o lugar onde morávamos, pertencia a uma pequena ilha chamada Jeju, o que me deixou fascinada em ver que o mundo, era imensamente maior do que imaginava.
— O que está fazendo? — perguntei ao me aproximar dele que estava parado na bancada da pia.
— Panquecas — respondeu mexendo os ovos na vasilha. — Percebi que você gostou muito disso.
— Hum. — Sorri de leve mantendo meu olhar em seus movimentos. — Tem um gosto diferente do que como, mas é gostoso.
— Fico feliz que esteja se adaptando à comida dos humanos — ele riu um pouco despejando os outros ingredientes. — Estava ficando preocupado se teria que manter sua alimentação original de uma carnívora.
— Bem, quando eu era filhote me alimentava do leite de minha mãe — retruquei desviando meu olhar para a frigideira que estava no fogão. — Era gostoso, mas nada melhor que um belo pedaço de carne fresca.
Comecei a pensar nos meus dias de iniciante nas caçadas, senti de leve o gosto da carne macia das presas, era legal comer junto da minha família, o que me fez ficar curiosa sobre uma coisa. Me voltei novamente para ele.
— Por que você vive aqui? Longe de outros humanos?
— Hum — ele despejou um pouco do líquido na frigideira, mantendo sua atenção ao que fazia. — Como sabe, sou um escritor, esta cabana é um ambiente calmo e tranquilo para se ficar, precisava de um outro tipo de inspiração para escrever.
— Hum, há alguns anos eu me decepcionei um pouco, então entrei em bloqueio criativo, não conseguia escrever uma única palavra, foi o que resultou minha vinda para este lugar de forma definitiva. — Sua voz transparecia um pouco de tristeza.
— Ah. — Consegui entender um pouco sua explicação. — Mas você conseguiu escrever algo depois que veio para cá?
— Ironicamente não, mas continuei aqui, porque estar em contato com a natureza, me fez bem. — Ele riu novamente. — E no dia em que decidi desistir de tudo, encontrei um pequeno filhote de lobo preso em uma armadilha.
Eu sorri novamente me encolhendo um pouco, o filhote em questão era eu.
— Me lembro daquele dia como se fosse hoje — comentei dando alguns passos até a porta.
— Eu também — concordou ele.
— Beta?! — sussurrei ao ver meu irmão parado em frente à casa.
“Esta lua-amarelada está zombando de mim,
Por não viver feliz como uma fera,
Estou perseguindo esse ridículo amor.
Desesperadamente tentando mudar,
Mas nesta noite estou me tornando um louco,
Eu não consigo parar de amá-la.”
- Wolf / EXO